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"A prosperidade por meio da competição" – vale para a Alemanha, vale para o Brasil
Esta única política resolve os principais problemas econômicos

Nota do Editor

O Ministro da Economia Paulo Guedes, em um evento recente, disse, corretamente, que:

Nós somos 200 milhões de trouxas explorados por duas empreiteiras, quatro bancos, uma produtora de petróleo, e seis distribuidoras de gás. Não há surpresa em por que o povo brasileiro segue empobrecido. São poucos produtores, mercados cartelizados, preços caros, e, ainda por cima, uma chuva de impostos. Sobra o quê? Sobra pouco. Então, despertar as forças competitivas é o que nós estamos fazendo desde o início.

E prosseguiu:

Nós não despertamos, ainda, as forças de mercado. Jamais despertamos as forças de mercado. O Brasil é um gigante acorrentado. O Brasil é um país amarrado por todos os lados.

E então ele citou seus dois livros favoritos sobre o assunto: O caminho da servidão e Prosperidade por meio da competição.

Em "O Caminho da Servidão", Friedrich Hayek explica em detalhes como a expansão de políticas estatizantes destrói a capacidade produtiva e a capacidade de iniciativa de um povo. Trata-se de uma explicação simples, porém detalhada, de como o estatismo degenera os regimes políticos, cria corrupção e destrói os sistemas econômicos.

Tal fenômeno, lamentavelmente, já ocorreu diversas vezes na história. O mais recente exemplo prático é o da Venezuela, cujos cidadãos estão sofrendo exatamente esta degeneração completa do regime político e econômico, com hiperinflação, destruição de riqueza e milhões de pessoas fugindo do próprio país.

Já "Prosperidade por meio da Competição", de Ludwig Wilhelm Erhard, o homem responsável pela reconstrução da Alemanha após a Segunda Guerra Mundial, é um livro que pode ser visto como um complemento ao de Hayek.

Neste livro, Erhard — que foi discípulo de Wilhelm Roepke, que, por sua vez, havia sido discípulo de Ludwig von Mises — narra o que efetivamente foi feito para reconstruir a economia alemã do pós-guerra. Trata-se, portanto, de um livro que explica e ilustra na prática o que efetivamente deve ser feito para se reconstruir um país devastado por políticas estatizantes.

Ao passo que Hayek explica como os povos degeneram seus sistemas políticos e econômicos por meio do estatismo, Erhard mostra como, por meio do desenvolvimento dos mercados e do estímulo à competição, os povos conseguem produtividade e enriquecimento.

Paulo Guedes, ao citar o livro de Erhard, demonstra estar muito bem instrumentado. Resta saber se o deixarão colocar as medidas em prática.

A seguir, um artigo sobre este essencial livro de Erhard.

___________________________________________________

A Alemanha, imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, era um desastre econômico. Além de um abrangente programa de controle de preços imposto pelos Aliados, o principal problema vivenciado pelo país era a cartelização das empresas (veja todos os detalhes aqui).

Antes da guerra, o governo nazista havia monopolizado a economia doméstica, incentivando a criação de mega-cartéis e oligopólios protegidos pelo estado, e blindando os produtores nacionais contra a concorrência estrangeira. Os nazistas eram partidários confessos do planejamento econômico centralizado.

Durante a guerra, a este arranjo foram acrescidos controles de preços, o que simplesmente piorou a situação, ampliando as já enormes ineficiências econômicas.

Terminada a guerra, com a economia totalmente inoperante, a Alemanha ficou sob o controle militar dos Aliados, que mantiveram os controles de preços ao passo que os cartéis e oligopólios seguiam intactos.

Este arranjo jamais permitiria uma recuperação econômica. Logo, a prioridade número um era restaurar a concorrência na economia.

E esta tarefa recaiu sobre o novo ministro das finanças Ludwig Erhard. Coube a ele liderar o caminho. E como ele deixou claro em sem livro de 1958, Prosperity Through Competition (A prosperidade por meio da competição), os principais inimigos do livre mercado era as próprias indústrias cartelizadas e protegidas pelo governo.

Em 1945, como escreveu Erhard em seu livro, a capacidade produtiva alemã era de apenas 60% da de 1936, e a produção vigente era de apenas 39% da de 1936. E a economia continuou definhando ao longo de 1946 e 1947, incapaz de começar a apresentar qualquer sinal de recuperação. E nem tinha como ser diferente: os Aliados haviam mantido praticamente todo o sistema de controle econômico dos nazistas.  

Logo, eram necessárias medidas radicais e urgentes.

Erhard atacou em dois flancos. De um lado, aboliu os controles de preços e trocou a moeda, que estava hiperinflacionada (veja os detalhes aqui); de outro, introduziu a concorrência entre as empresas alemãs.

A substituição de uma moeda desvalorizada e que ninguém queria portar por uma moeda forte e conversível fez com que, literalmente da noite para o dia, o racionamento e os desabastecimentos fossem abolidos, e as pessoas abandonassem o mercado negro e voltassem a produzir normalmente.

Esta foi a parte mais fácil. Abolir as demais regulamentações estatais sobre a economia seria mais trabalhoso. Como bem escreveu Erhard em seu livro:

O estado não deve decidir quem deve ser o vitorioso no mercado. Tampouco um cartel industrial deveria ter este poder. Apenas o consumidor pode ter este poder.

A qualidade e o preço determinam a forma e a direção da produção, e é apenas com base nestes critérios que a escolha dos vencedores tem de ser feita.

Neste sentido, a liberdade é o direito de cada cidadão, e ela jamais pode ser abolida por ninguém.

E prosseguiu:

Meus esforços, portanto, estão direcionados a estabelecer firmemente a competição como a força-motriz da economia, e os preços livres como os reguladores. Aquele que quiser ir contra estes princípios estará solapando a economia de mercado e destruindo os pilares que sustentam nossa ordem econômica e social.

O livro de Erhard é uma defesa passional da competição, da primeira à última página. Sua audiência não eram os políticos. Não eram os consumidores. Não eram os burocratas do estado. A audiência era a própria comunidade empresarial, que era o setor que necessitava de ser convencido. Os empresários alemães teriam de enfrentar as águas frias da concorrência global caso a Alemanha quisesse novamente ter prosperidade.

O que é a competição?

Abordemos agora um pouco desta idéia de concorrência econômica, pois o termo pode ser enganoso. Quando se fala em competição, costumamos pensar em esportes coletivos (envolvendo times) ou mesmo individuais (tipo atletismo). Mas essa não é toda a ideia de competição. A competição não é um jogo para ser gerenciado; é um processo espontâneo de inovação empreendedorial.

É verdade que os produtores são jogados uns contra os outros na atividade de ofertar bens e serviços para os consumidores. Mas o que eles estão buscando? Pelo que estão competindo? Seu objetivo é um só: atender as demandas dos consumidores.

E eles fazem isso não por benevolência e caridade, mas simplesmente porque os consumidores possuem aquilo que todos os produtores querem: dinheiro.

O dinheiro é a mercadoria de mais fácil comercialização em uma economia. Por isso, todos estão atrás do dinheiro. Quem tem dinheiro consegue trocá-lo pelos bens e serviços que quiser. Quem tem dinheiro sempre será servido. Quem tem dinheiro está no assento do motorista em uma economia capitalista. E quem tem o grosso do dinheiro em uma economia de mercado? A massa dos consumidores.

Produtores, portanto, estão em busca do dinheiro dos consumidores. Consequentemente, eles têm de tentar vender seus bens e serviços aos consumidores para conseguir dinheiro. Os produtores não podem simplesmente ir ao mercado e tentar trocar, como num escambo, seus bens e serviços por outros bens e serviços. Para conseguir o que querem, eles têm de ter dinheiro. E, para conseguir dinheiro, eles têm de vender para muitos consumidores.

E como conseguem isso? Com melhores produtos, melhores preços, e melhor satisfação dos desejos das pessoas.

Em busca do dinheiro, cada produtor é incentivado a se tornar cada vez mais excelente em seu atendimento a terceiros. O sistema de lucros e prejuízos está lá para servir como um sinal e um comprovante de um trabalho bem feito.

Quando um único produtor se torna dominante em uma indústria, e como consequência se torna desleixado em sua principal função, que é servir aos consumidores, o arcabouço legal tem de permitir a livre entrada neste setor de outros produtores munidos de outras idéias para alcançar o objetivo.

Se houver barreiras legais à entrada de concorrentes, então há um grave problema. Um produtor está auferindo um privilégio, e esse privilégio será explorado à custa do público consumidor.

Por outro lado, se houver livre entrada, então várias instituições irão surgir para servir como sistemas sinalizadores. A principal é o sistema de preços. Os preços irão refletir os lances (como em um leilão) feitos pelos consumidores de acordo com sua demanda e com seus recursos disponíveis. Os sinais de preços emitidos pelo mercado comandam as decisões. Esses preços serão então colocados em planilhas e balancetes para calcular a viabilidade do empreendimento, bem como se há lucros ou prejuízos. O sistema de lucros e prejuízos mostra como os recursos escassos estão sendo empregados. Se corretamente, os consumidores recompensam as empresas propiciando-lhes grandes lucros; se erroneamente, os consumidores punem as empresas impondo-lhes prejuízos. 

Não interessa se a empresa é grande ou micro: ela estará sempre em busca da lucratividade (pois quer dinheiro). E, em um ambiente de competição entre os produtores, a lucratividade de uma empresa sempre será, em última instância, determinada pela decisão voluntária dos consumidores.

Esta idéia de genuína competição de mercado — sem privilégios, sem protecionismos, sem imposições, sem limitações — consumiu toda uma geração de economistas do pós-guerra por um motivo. A guerra havia cartelizado não apenas a Alemanha, mas também as economias dos Estados Unidos e do Reino Unido. A Rússia já havia se tornado totalmente socialista há muito tempo, mas um novo modelo de arranjos corporativistas (fascistas) não-competitivos havia se tornado dominante no mundo não-socialista. A prioridade mais urgente era restaurar a competição.

Como disse Erhard, se você não tem competição, não há qualquer esperança de prosperidade.

O livre comércio também é competição

Outro enorme problema que Erhard herdou da economia nazista era o próprio protecionismo. O governo havia instituído uma política nacionalista de auto-suficiência.

A propaganda política nazista da década de 1930 rotulava as nações estrangeiras como inimigas e afirmava que os bancos estrangeiros eram tidos como "controlados por judeus". Os estrangeiros eram retratados como espoliadores e o livre comércio era tido como contrário aos "interesses nacionais". A ambição de Hitler era criar uma economia autárquica que permitisse que seus planos superiores suplantassem a competição internacional.

É por isso que Erhard fez da restauração do livre comércio sua máxima prioridade. Acima de tudo, isso significava derrubar as muralhas erguidas pelas tarifas de importação. Não havia sentido em elaborar "acordos comerciais", ou buscar negociações para conseguir "arranjos vantajosos para o país" ou exigir que outros países atendessem aos desejos da Alemanha de também reduzirem suas tarifas sobre produtos alemães. O objetivo era apenas se certificar de que o setor empresarial da Alemanha era competitivo no front global.

A necessidade de remover todos os obstáculos ao comércio deve naturalmente ser expressa por meio de uma política tarifária. Sobre este quesito, eu sempre defendi o princípio — como nas discussões sobre liberalização — de que aquilo que é certo não tem de esperar por uma equivalente contribuição de um parceiro comercial para ser implantado.

Sendo assim, desde 1955, quando a posição doméstica da República Federal mostrou ser sensato reforçar a competição, busquei trazer a concorrência externa para dentro das fronteiras da Alemanha reduzindo as tarifas de importação. Uma redução unilateral e autônoma de tarifas foi implantada em várias etapas, embora, em minha opinião, poderia e deveria ter sido feito muito mais do que o que foi permitido pelo governo e pelo parlamento.

O ponto principal é que as tarifas são um imposto sobre os consumidores domésticos. Mas eis o crucial: se a tarifa recai sobre matérias-primas ou bens de capital comprados por empresas nacionais, então ela também é um imposto sobre os produtores. Uma tarifa funciona como uma transferência coerciva de riqueza: dos agentes privados para os burocratas do governo. Trata-se de uma forma de assistencialismo que distorce dramaticamente os mecanismos sinalizadores emitidos pelo livre mercado.

Não há absolutamente nada que os cidadãos de um país possam ganhar com o protecionismo. Se tarifa incide sobre bens de consumo estrangeiros, uma determinada indústria doméstica pode temporariamente ser protegida da concorrência estrangeira, mas a que custo? Trata-se de um subsídio à ineficiência e às más práticas empresariais. Funciona por um tempo, mas não é sustentável. Em um algum momento, o longo prazo chegará e, a menos que você esteja disposto a retroagir a economia para um maior empobrecimento, as empresas terão de se adaptar ao livre comércio, queiram elas ou não.

Por isso, foi presciente a decisão de Erhard de desconsiderar as contas nacionais envolvendo o comércio entre duas nações, isto é, a noção de superávit ou déficit comercial. Ele não negava que os dados sobre déficits comerciais eram interessantes. Mas, segundo ele próprio, tais dados "muito facilmente se tornavam não somente uma peça de informação, mas a própria base de cálculo para novos tipos de planejamento econômico".

Conclusão

Erhard conclui seu livro com uma firme condenação do dirigismo, que significa uma economia dirigida pelo estado, mas que permite que a maior parte do capital fique em mãos privadas. Políticos decidem quem ganha e quem perde, o que é produzido, onde e em que quantidade. Isso não tem como ser o caminho para a prosperidade. O estado não pode controlar a produção, muito menos gerenciar diretamente o setor empresarial.

A completa desnazificação da economia, argumentou ele, exigia um novo e fiel compromisso: o fim da proteção dada pelo governo aos cartéis e monopólios, a permissão da competição real em todos os setores da economia, e o fim das barreiras comerciais.

Isto, de fato, foi o que produziu o milagre econômico alemão.

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Leia também:

Como se deu o milagre econômico alemão do pós-guerra



autor

Jeffrey Tucker
é Diretor-Editorial do American Institute for Economic Research. Ele também gerencia a Vellum Capital, é Pesquisador Sênior do Austrian Economic Center in Viena, Áustria.  Associado benemérito do Instituto Mises Brasil, fundador e Diretor de Liberdade do Liberty.me, consultor de companhias blockchain, ex-editor editorial da Foundation for Economic Education e Laissez Faire books, fundador do CryptoCurrency Conference e autor de diversos artigos e oito livros, publicados em 5 idiomas. Palestrante renomado sobre economia, tecnologia, filosofia social e cultura.  

  • Juliano  30/07/2019 18:28
    Concordo que a "permissão da concorrência" é crucial para o progresso. E até acho que em termos de Brasil a MP da liberdade econômica fará muito neste sentido, assim como a quebra do monopólio do mercado de gás (que permitirá energia menos cara). Ainda falta abolir as agências reguladoras e as tarifas de importação, mas pelo menos o caminho já começou a ser trilhado.

    Dito isso, vale tambem ressaltar a importancia de uma política monetária que leve a uma moeda forte. Sem moeda forte nada mais se sustenta.
  • Pobre Paulista  30/07/2019 18:50
    Concordo. Eu me preocupo levemente com a ordem dos fatores, pelo seguinte:

    Se vc simplesmente abrir o mercado, mas mantém uma moeda fraca, insegurança jurídica e agências reguladoras atrapalhando tudo, não veremos os efeitos práticos da abertura de mercado... E aí vem uns Ciros Gomes da vida pra dizer que o livre mercado não funciona e precisa de estatal pra isso e pra aquilo.

    Pelo menos ainda temos 3,5 anos pela frente, alguma coisa vai melhorar.
  • Leandro  30/07/2019 18:51
    Correto. Mas vale lembrar que uma economia em que há alta competição e liberdade econômica gera, inevitavelmente, uma moeda forte.

    Quanto mais empresas estiverem sendo criadas, quanto mais investimentos estiverem sendo feitos, quanto mais pessoas estiverem sendo contratadas, maior será a demanda pela moeda. Afinal, é necessário dinheiro para fazer tudo isso.

    Quanto mais empreendedorismo, investimento, expansão dos negócios e produção, mais gente demandando moeda.


    O simples ato de um empreendedor ir ao banco ou ao mercado de capitais tentar empréstimo para abrir uma empresa, para comprar maquinário ou para expandir suas instalações já representa um aumento na demanda pela moeda. Antes, a moeda iria apenas para aplicações financeiras e títulos públicos; agora, ela poderá também ser direcionada para financiar a produção deste empreendedor. Ou seja, aumentou a concorrência para obter esta moeda. Aumentou a demanda pela moeda.

    E, quanto maior for a demanda pelo real, mais forte ele ficará perante as outras moedas.

    E, para que tudo isso acima aconteça, é necessário consolidar a MP da liberdade econômica, fazer a reforma tributária (estou aqui dando de barato que a reforma previdenciária já passou) e acelerar as privatizações (preferencialmente com investimento estrangeiro).

    Essas três medidas permitirão o crescimento econômico, e o crescimento econômico consolidará o fortalecimento do real (pelo menos por alguns anos, o que já está de ótimo tamanho).

    Logo, de certa maneira, e sempre levando em conta que não haverá loucuras da parte do Banco Central, a própria liberdade econômica se encarrega da manter a moeda forte. Vide a Suíça e a própria Alemanha durante o marco alemão.
  • Tulio  30/07/2019 19:01
    Intrometendo, mas realmente é difícil encontrar uma economia que tenha grande liberdade econômica e que ao mesmo tempo tenha uma moeda fraca. Eu por exemplo não consigo lembrar de nenhuma.
  • Daniel  30/07/2019 19:10
    As moedas de Chile, Japão e até dos países nórdicos valem menos que o real...
  • Leandro  30/07/2019 19:31
    Opa, alto lá! Não confunda alto valor nominal das cédulas de uma moeda (como as dessas que você citou) com moeda fraca. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Aliás, essa é uma confusão bastante comum: o alto valor nominal das cédulas de uma moeda diz muito sobre o seu passado, mas não sobre seu presente.

    O alto valor nominal das cédulas do iene, por exemplo, se deve a uma forte inflação ocorrida na Segunda Guerra Mundial. A moeda do Chile apresenta a mesma característica, pois vivenciou uma hiperinflação na década de 1970. Ambas não foram trocadas desde então, ao contrário da moeda brasileira.

    Vale lembrar que, ao passo que o real é de 1994, o iene é de 1871. A coroa sueca é de 1873. A coroa dinamarquesa é de 1875. Já o peso chileno é de 1975, mas passou por uma severa hiperinflação durante toda a década de 1970.

    (No caso do Japão, em 1972, imediatamente após a dissolução de Bretton Woods e a adoção dos câmbios flutuantes, um dólar comprava 305 ienes. Então o iene começou a se valorizar continuamente. Hoje, um dólar comprava apenas 108 ienes. Isso dá uma apreciação total de 182%.)

    Uma das definições de moeda forte é que sua unidade monetária valha cada vez mais em termos das principais moedas do mundo (a outra definição é que, obviamente, seu poder de compra em território nacional seja relativamente constante).

    É isso o que você tem de olhar, e não simplesmente o valor nominal das cédulas. Nesse aspecto (alto valor nominal das cédulas), dificilmente alguém bate o Japão. E, no entanto, o país tem uma moeda forte e inflação de preços zero.
  • Alaor  30/07/2019 18:56
    O que vocês estavam fazendo em termos profissionais antes da grande recessão brasileira, 2014 e o que estão fazendo agora?
  • Dutra  30/07/2019 19:03
    Eu estava na Samarco. Agora estou na Raízen.
  • Vinicius  30/07/2019 19:08
    Era engenheiro mecânico líder de projetos navais, agora sou orçamentista numa metalúrgica, nenhuma perspectiva de crescimento.
  • Humberto  30/07/2019 19:29
    Se você estava na indústria naval, então você foi vítima disso aqui:

    mises.org.br/Article.aspx?id=2755
  • Vinicius  30/07/2019 19:34
    Única coisa que fui vitimado foi nascer no Brasil e não ser avisado de como as coisas aqui são difíceis.
  • Andre  30/07/2019 19:06
    Comparação assimétrica Brasil x Alemanha.

    Na Alemanha tem alemães disciplinados, cultos, respeitadores, na maior parte do tempo é um povo pacato e muito poupador enquanto no Brasil tem brasileiros baderneiros, ignorantes, de moral questionável, violentos e perdulários.

    spotniks.com/ha-realmente-motivos-para-ter-orgulho-de-ser-brasileiro/

    O Brasil é um imenso fracasso, nunca atingiu sequer o IDH e PIB per capita da Argentina, um país que faz absolutamente tudo errado há 90 anos.
  • Kaio  30/07/2019 19:19
    Todos os alemães e todos os brasileiros são assim, exceto você. Né?

    E como está esse ossinho aí na sua boca? Virou quantas latas até encontrá-lo?
  • Mais Mises...  30/07/2019 19:38
    Sua última frase deixou-me depressivo para o resto do dia!!!
  • Vinicius  30/07/2019 19:41
    Vejo os maravilhosos artigos deste instituto mostrando vários exemplos de como países saíram de uma imensa dificuldade econômica, vencendo abusos estatais internos ou externos para se tornarem nações desenvolvidas ou mesmo terem um nível de vida decente para oferecer ao menos para a parcela da população mais qualificada, com mais alto padrão de vida, mais segurança e melhores perspectivas para cuidar da família e penso:

    Eles são melhores do que nós.
  • Jairdeladomelhorqptras  31/07/2019 14:12
    Caro Vinicius,

    Creio, firmemente, que alguns povos tem qualidades inerentes. Mas quanto a "disciplina" dos alemães, não invejo.
    A "disciplina" deles, ao menos até a década de quarenta do século XX, era obedecer ordens vindas do alto.
    Atuavam como o famoso personagem bíblico disposto a sacrificar o filhe desde que a ordem viesse do altíssimo.
    Muitos alemães confessaram durante os julgamentos pós-guerra que jamais imaginaram estar cometendo atrocidades pois recebiam ordens superiores.
    Els herdaram e emularam a disciplina militar prussiana.
    Não creio que devemos admirá-los por isto.
    Abraços
  • Vinicius  31/07/2019 16:08
    Jairdeladomelhorqptras e qual é a qualidade admirável do povo brasileiro?
  • Andre  31/07/2019 16:27
    O brasileiro é bom em jogar futebol, tomar banho todos os dias, depilação, faxina e em fazer festas animadas.
  • Dissidente Brasileiro  02/08/2019 00:15
    E também em falcatruas, malandragens, vitimismo, homicídios, roubo e todo e qualquer tipo de artimanhas, crimes e trapaças que possam ser usados para se livrar das responsabilidades e tirar vantagens, sempre com o objetivo de "se dar bem".
  • Tarantino  02/08/2019 01:41
    O livre mercado e a concorrência são ótimos. Porém, para funcionarem a contento, é preciso que haja honestidade e integridade, características que não são exatamente populares entre a maioria do povo.
    A tendência que há entre a maioria em formar "panelinhas" (cartéis) é o principal obstáculo a um livre mercado próspero.
  • Andre  02/08/2019 14:10
    Tarantino seu comentário é irretocável, posso adicioná-lo ao meu repertório de argumentos e replicá-lo nas discussões públicas?
  • Estado o Defensor do Povo  01/08/2019 20:34
    Creio que a receptividade que temos em relação aos estrangeiros é muito boa, quando os turistas vêm pra cá geralmente eles são bem-vindos, e pra morar também CREIO que não haja tanto preconceito comparado a outros países (mas na hora de abrir o país pras importações e capital estrangeiro é osso), e se você tiver falando de cultura eu gosto muito da diversidade no nosso país, tem tradição pra todos os tipos, africano, lusitano, indígena, japonês, alemão, ...., e a culinária acho bacana também.
  • Demolidor  02/08/2019 00:55
    Qualidade inerente alemã que gerou o Aeroporto de Berlim-Brandenburgo? Ou referente ao dieselgate.

    Claro que não quero dizer que o povo alemão não presta. Muito pelo contrário e mesmo porque também tenho sangue alemão. Mas não sei se você se deu conta, coisa muito errada aconteceu e ainda acontece na Alemanha.

    Por outro lado, Nassau, capital das Bahamas, um país de alta renda com 85% da população negra, estabeleceu um código de construção para resistir a furacões que foi adotado por Miami-Dade.

    Uma dica antes de afirmar qualquer besteira. Falseie sua teoria. Procure exemplos contrários.
  • Estado o Defensor do Povo  31/07/2019 22:21
    É tanta lambida de bolas que desse jeito os alemães não vão mais conseguir nem sentar direito com essa tua língua pregada no saco deles, é incrível de como tem uma galera aqui no Brasil que acha que os brasileiros são o povo vergonha do mundo, aparentemente é só atravessar a fronteira do Brasil que o cara automaticamente perde todo senso de moral e decência, deve ser alguma coisa na água.
  • Andre  01/08/2019 10:51
    O baixíssimo nível de vida até mesmo da população com melhores empregos, a completa ausência de serviços para os pobres, a burocracia soviética, os altíssimos impostos, os índices de violência pelas nuvens e os índices econômicos todos péssimos por décadas a fio dão uma boa dica do que o brasileiro é capaz de construir.
  • Estado o Defensor do Povo  01/08/2019 16:50
    Não foi isso que você falou antes, você disse que de que os alemães são melhores e mais sábios enquanto os brasileiros são um bando de animal selvagem, típico de quem despreza o povo brasileiro, mas agora nesse novo comentário sim, você pôs na mesa problemas reais do nosso país, portanto discutamos para ver como iremos resolver, convençamos as pessoas, pode até ser difícil, mas não impossível, se os alemães conseguem, por que nós não conseguiríamos? Não somos todos homo sapiens? Portanto temos todos a "mesma" capacidade, ou pelo menos nada muito discrepante.

    E aliás tem político na Europa que faz a Dilma parecer o maior gênio da humanidade, veja como se desenrolou tudo acerca do artigo 13 sobre PI na Europa, na hora do votar a sua aprovação os políticos não sabiam nem em quê estavam votando, tinham uns que queriam revisar o voto seilá, bando de incompetente, parece até Brasil :D
  • Andre  01/08/2019 17:37
    Os europeus podem errar a vontade, são ricos, aqui o próximo erro jogará este país nos padrões venezuelanos de vida. Não há mais salvação para o Brasil, em um par de décadas a demografia daqui estará como na Europa, melhor é aproveitar praia, cervejinha e as bonitas mulheres. Leve um poodle ou maltês pra caçar javalis no interior de SP e conte-nos aqui como foi.
  • Felipe Lange  30/07/2019 19:35
    O que me surpreende até hoje foi o Bolsonaro ter chegado ao Paulo Guedes, visto que o Jair sempre foi um positivista coletivista.
  • Paulo  30/07/2019 22:01
    Fruto do trabalho liberal e conservador bem feito no Brasil..
    Mas ainda acho que a realidade se dividiu em duas, em uma, estamos fazendo parceria com a Venezuela, na Outra, tem um ministro citando Hayek
  • Tulio  30/07/2019 21:47
    O artigo é excelente, mas gostaria só de acrescentar que a concorrência real não é estritamente necessária para um livre mercado funcionar. Basta que a concorrência potencial seja possível. Mesmo se houver apenas uma empresa em um determinado setor, a simples possibilidade de que um concorrente possa surgir e oferecer produtos melhores e mais baratos já basta para manter essa empresa ocupada tentando inovar e descobrir novas maneiras de satisfazer os clientes.

    Obviamente, a única entidade que pode bloquear o surgimento de um eventual concorrente e garantir uma reserva de mercado é o estado.
  • Régis  30/07/2019 23:27
    Isso que você falou foi aprofundado neste artigo, que é antigo mas excelente. Um dos melhores do site:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1057
  • Livre competição resulta no despotismo ecnômico de uma pequena minoria  30/07/2019 22:32
    Prosperidade nada. Competição é querer sobrepujar o concorrente a qualquer custo, não importa que meios empregar. E disso resulta no que o Papa Pio XI chamou de "despotismo econômico" de uma minoria de banqueiros e mega-empresários. Trecho da Encíclica Quadragesimo Anno :

    "É coisa manifesta, como nos nossos tempos não só se amontoam riquezas, mas acumula-se um poder imenso e um verdadeiro despotismo económico nas mãos de poucos, que as mais das vezes não são senhores, mas simples depositários e administradores de capitais alheios, com que negoceiam a seu talante. Este despotismo torna-se intolerável naqueles que, tendo nas suas mãos o dinheiro, são também senhores absolutos do crédito e por isso dispõem do sangue de que vive toda a economia, e manipulam de tal maneira a alma da mesma, que não pode respirar sem sua licença. Este acumular de poderio e recursos, nota característica da economia actual, é consequência lógica da concorrência desenfreada, à qual só podem sobreviver os mais fortes, isto é, ordinariamente os mais violentos competidores e que menos sofrem de escrúpulos de consciência."
  • George  30/07/2019 23:26
    Pelo visto Sua Santidade é ignorante em economia. Novidade nenhuma. Com a exceção de João Paulo II (calejado pelo nazismo e pelo socialismo), nenhum outro papa demonstrou saber o mais básico sobre economia.

    Ao contrário da competição biológica em que animais brigam entre si para possuir uma fatia de quantidades limitadas de recursos naturais, com os fortes triunfando e os fracos perecendo, a competição econômica sob o capitalismo é uma disputa para ver quem mais consegue aumentar a quantidade de bens existentes. E o resultado prático é fazer com que todos vivam melhor e mais longevamente.

    Diferente dos animais, os produtores no capitalismo competem por uma quantidade limitada de dinheiro que está nas mãos dos consumidores, pelo qual competem oferecendo os melhores e mais econômicos produtos que suas mentes são capazes de conceber.

    Dado que tal competição é do tipo que visa à criação positiva de riqueza nova e adicional, não há perdedores reais no longo prazo. Há apenas ganhadores.

    A competição entre os agricultores e entre os fabricantes de equipamentos agrícolas permite que os famintos e os fracos possam se alimentar e crescer saudáveis; a competição entre os fabricantes de produtos farmacêuticos permite que os doentes possam recuperar sua saúde; a competição entre os fabricantes de óculos, lentes de contato e aparelhos auditivos permite que muitas pessoas que de outra forma não poderiam ver ou ouvir agora o possam.

    Longe de ser uma competição cujo resultado é "a sobrevivência do mais forte", a competição no capitalismo é mais acuradamente descrita como uma competição cujo resultado é a sobrevivência de todos — ou pelo menos de um número cada vez maior de pessoas, proporcionando maior longevidade e melhores condições de vida.

    O único sentido no qual é correto dizer que no capitalismo somente o mais "forte" ou mais "apto" sobrevive é quando se pensa nos produtos criados: apenas os produtos mais aptos e os mais sólidos métodos de produção sobrevivem, até que sejam substituídos por produtos e métodos de produção ainda mais aptos, gerando os efeitos sobre a sobrevivência humana acima descritos.

    A competição em uma economia de mercado — naquela em que há liberdade de empreendimento e ausência de privilégios e protecionismos estatais — significa simplesmente que você tem de se esforçar para bem servir a seus clientes, e você agirá assim pensando em seu beneficio próprio. Em outras palavras, os vendedores cooperam com os consumidores, atendendo às suas necessidades e preferências.

    mises.org.br/Article.aspx?id=2966


    Se um papa não sabe nem esse básico, então ele não sabe b... nenhuma sobre nada.
  • Sérgio  31/07/2019 00:46
    Na mesma Encíclica, o mesmo Pio XI disse, um pouco antes de falar isso:

    "Sabeis, veneráveis Irmãos e amados Filhos, que o Nosso Predecessor de feliz memória na sua encíclica se referia principalmente àquele sistema, em que ordinariamente uns contribuem com o capital, os outros com o trabalho para o comum exercício da economia, qual ele próprio a definiu na frase lapidar : « Nada vale o capital sem o trabalho, nem o trabalho sem o capital ».

    Foi esta espécie de economia, que Leão XIII procurou com todas as veras regular segundo as normas da justiça; donde se segue que de per si não é condenável. E realmente de sua natureza não é viciosa"


    Ou seja, ele está dizendo que o economia baseada no capital e no trabalho — ou seja, a economia capitalista — não é de sua natureza, viciosa.

    Perto do final da Encíclica, ele diz:

    "Chamamos perfeita aquela ordem apregoada pela Igreja com grande força e tenacidade, pedida mesmo pela razão humana, isto é : que tudo se encaminhe para Deus fim primário e supremo de toda a actividade criada, e que todos os bens criados por Deus se considerem como instrumentos dos quais o homem deve usar tanto, quanto lhe sirvam a conseguir o último fim. Nem deve julgar-se que esta filosofia rebaixa as artes lucrativas ou as considera menos conformes à dignidade humana; pelo contrário ensina a reconhecer e venerar nelas a vontade manifesta do divino Criador, que colocou o homem sobre a terra para a cultivar e usar dela segundo as suas múltiplas precisões. Nem é vedado aos que se empregam na produção, aumentar justa e devidamente a sua fortuna; antes a Igreja ensina ser justo que quem serve a sociedade e lhe aumenta os bens, se enriqueça também desses mesmos bens conforme a sua condição, contanto que isto se faça com o respeito devido à lei de Deus e salvos os direitos do próximo, e os bens se empreguem segundo os princípios da fé e da recta razão."

    Ou seja, Pio XI não era anticapitalista, tampouco via a busca pelo lucro como um pecado.

    Pode-se dizer que ele defendia um "capitalismo regulado".
  • 4lex5andro  31/07/2019 14:02
    Não surpreende, pois historicamente a Igreja Católica, que criou a figura do pecado de usura, é muito resistente ao liberalismo econômico.
  • Sérgio  31/07/2019 22:42
    Mas a Igreja está certa em condenar a usura e a agiotagem. A usura é um pecado grave. É querer viver às custas do suor alheio. Ainda mais quando cobra juros excessivos sobre os mais humildes.
  • Paulo  31/07/2019 23:44
    Se você condena os juros, então deve condenar a preferencia temporal, e consequentemente, toda a economia;
    Dizer que ''vive as custas do suor alheio'' é um desconhecimento do que é preferência temporal; Também, a ideia de juros excessivo é um desconhecimento dos riscos, dessa preferencia, e outros fatores que determinam a taxa. Outro fator é que no mundo atual, onde a poupança é desestimulada em detrimento do consumo, onde os juros são manipulados, é realmente difícil você culpar um fantasma chamado mercado , nele, com poupança, concorrência bancária e baixa inflação, (ou deflação), é difícil você reclamar de ''juros elevados'';
  • Sérgio  01/08/2019 18:58
    O dinheiro em si é improdutivo: o que ele produz é o facto do trabalho de quem beneficiou com o empréstimo. Aristóteles tinha-o constatado e filosoficamente estabelecido, mas no mundo antigo essa constatação mantinha-se no plano do pensamento, sem conseqüência prática sobre a vida humana – um pouco como as aquisições científicas se tomavam em ciência pura e não se realizavam ao nível da técnica. Todavia, a sua influência será profunda no momento em que, a meio do século XIII se vai operar a síntese entre pensamento aristoteliano e pensamento cristão. Mas, muito tempo antes, a usura, livre no mundo antigo, encontrava-se condenada no mundo cristão. Não somente, como já se disse e repetiu, devido ao famoso versículo do Evangelho: "Empresta sem nada esperar em troca", mas porque o empréstimo com lucro é, nessa qualidade, uma hipoteca sobre o trabalho do próximo, logo, uma forma de exploração contrária à caridade. Todo o objecto mobiliário ou imobiliário, logo que é emprestado, presta um serviço efectivo e sofre uma certa degradação, o que justifica o pagamento de um aluguer: quer se trate de um campo, de uma casa, etc. Sempre que se trata de um empréstimo de dinheiro, pelo contrário, num tempo em que as moedas consistem num metal precioso que não se altera, a soma emprestada deve ser devolvida sem lucro, uma vez que o serviço que prestou só será válido quando um trabalho o faça frutificar, e o dinheiro devolvido conserva o valor que tinha no momento do empréstimo, sem degradação. Os Padres da Igreja teceram condenações extremamente violentas no que respeita à usura. Para São Basílio, aquele que empresta com usura comete um crime, porque aquele a quem empresta torna-se seu escravo. O concílio de Elvira (cerca do ano 300) ordenava excomungar o clérigo que tivesse recebido usuras, quer dizer, lucros com dinheiro (cânone 20, aplicável em toda a Espanha).

    O Concilio de Nicéia de 325, através do seu cânone 17, alargava esta interdição à Igreja universal. No tocante aos laicos, as interdições seriam mais tardias; elas só terão um alcance prático com a legislação de Carlos Magno (Admonitio generalis de Aix-la-Chapelle, 789). O Decreto de Graciano (cerca de 1140) exprime bem os pontos essenciais dessa mentalidade: primeiramente no que diz respeito ao comércio: ."É difícil, senão impossível, ao negociante agradar a Deus" , especificando bem: "Aquele que compra uma coisa, não para a vender integralmente e sem lucro, mas a fim de se servir dela para fabricar qualquer outra coisa, não é um negociante. Mas o homem que compra uma coisa para obter um lucro, vendendo-a tal qual a comprou, este homem é um dos compradores e desses negociantes que foram expulsos do Templo de Deus" . Ora, retoma ele, "de todos os negociantes, o mais maldito é o usurário, porque vende uma coisa dada por Deus, mas adquirida pelos homens (ao contrário do negociante) e depois da usura ele retoma a coisa com o bem de outrem, aquilo que o negociante, não faz".

    Objectar-se-á:

    "Aquele que aluga um campo para receber uma renda ou uma casa para obter um aluguer, não será semelhante a quem empresta o seu dinheiro a juros?"

    Certamente que não. Primeiro, porque a única função do dinheiro é o pagamento de um preço de compra; depois, o rendeiro faz frutificar a terra; o locatário frui da casa: nestes dois casos, o proprietário parece dar uso do seu bem para receber dinheiro e, de um certo modo, trocar o ganho por ganho, enquanto que com o dinheiro avançado ele não pode fazer qualquer uso; finalmente, o uso esgota a pouco e a pouco o campo, degrada a casa, enquanto que o dinheiro emprestado não sofre nem diminuição, nem envelhecimento.

    Mas, concorrentemente a esta mentalidade geral, o gosto do lucro cresce na época e encontra-se estimulado pelo intenso desenvolvimento do tráfico internacional, principalmente do tráfico Oriente-Ocidente. Notemos que o lucro do comerciante que transporta do Oriente especiarias é então considerado como legítimo, porque ele compensa as despesas e as fadigas nos preços de quem as procura e de quem as leva até às grandes feiras da Champagne, da Île-de-France ou qualquer outro sítio. O comércio, assim compreendido, é uma verdadeira função indispensável à vida da cidade. A distinção será fortemente estabelecida a partir do século XIII; apenas o lucro puro é considerado como condenável, e um tal Jean Gerson, no século XV, formulará em termos perfeitamente claros esta condenação: "Vender uma coisa mais cara do que o preço de compra, se o ganho em excesso é assinalável, tendo em consideração todas as dificuldades, os perigos, os melhoramentos, de que deve ser indenizado, deve ser considerado como uma falta, e uma falta mais grave se, sendo feita, se aproveitar da necessidade do próximo". Por outras palavras, a "lei" da oferta e da procura é condenada; o comércio, ele próprio, é coisa, não somente lícita, mas útil: aquilo que se condena é o lucro puro, obtido a expensas do próximo. Um São Tomás encarava, aliás, de bom grado a organização do comércio, indispensável à vida dos homens, num plano colectivo: os bens necessários à vida, ao conforto, ao prazer de todos os cidadãos, podem do mesmo modo ser transportados por iniciativa da própria cidade. Não podemos deixar de chamar a atenção para o facto de, na época, não ser considerado ação colectiva tudo o que diz respeito à produção, a qual necessita de uma iniciativa individual e pede para ser estimulada pelo ganho individual, mas que, em compensação, tudo o que diz respeito ao transporte e distribuição, aquilo a que chamaríamos o colectivismo é considerado e parece perfeitamente defensável.

    No que diz respeito à usura, longe de se contentar com interdições lançadas de uma vez por todas, a procura está então muito activa. Sem pretendermos tornar-nos pesados com os pormenores, indiquemos que, a partir do século XIII, foram formulados os célebres "casos" que os teólogos da Sorbonne só definirão expressamente no século XVII.

    Esses "títulos extrínsecos" que autorizam, aos olhos dos teólogos, a percepção de uma certa soma pelo mutuante, logo que entra na posse do seu capital, são bem conhecidos; todos os canonistas enumeraram assim, Damnum emergens, sempre que o mutuante sofre um prejuízo; Lucrum cessans, na ausência de lucro; Periculum sortis, em compensação do risco de perda do seu capital; foram admitidos a partir do século XIII.

    Tendo-se verificado no século XV uma nova expansão da actividade econômica, especialmente na Itália e nos países da Europa Central, uma nova procura se impunha e é então que teólogos canonistas como Santo Antonino de Florença ou São Bernardino de Sena, debruçando-se sobre o estudo dos problemas econômicos, criam a noção de capital produtivo: o dinheiro emprestado, não apenas para solucionar uma necessidade momentânea, mas para iniciar uma actividade produtora de bens. Neste caso, é legítimo que o mutuante receba uma parte dos bens produzidos, na condição, todavia, que o seu dinheiro tenha corrido os riscos do empreendimento; por outras palavras, cria-se então a noção de investimento e condena-se, em nome do Evangelho, a do capital garantido. Ainda uma outra excepção vai ser considerada: stipendium laboris, a retribuição dos serviços daquele que emprestou, como seria, nos nossos dias, o salário dos seus empregados.

    Por outras palavras, ao longo dos séculos, a disciplina eclesiástica não deixou de evoluir, considerando todas as condições novas que poderiam surgir.


    confrariadesaojoaobatista.blogspot.com/2014/06/o-dinheiro-e-usura.html
  • Sr. Perguntas   31/07/2019 01:09
    Olá, pessoal.

    Alguém poderia me explicar melhor como funcionava o rentenmark, por gentileza?

    A moeda era mesmo lastreada em hipotecas?

    Os alemães poderiam converter seus rentenmarks nesses financiamentos imobiliários a qualquer momento?

    O Rentenbank obrigou os agricultores e industriais alemães a participarem disso?

    Para expandir e contrair a base monetária bastava que o Rentenbank comprasse e vendesse essas hipotecas (como se fossem títulos públicos)?

    Porque tem gente que diz que o RM era lastreado em ouro? O que terrenos hipotecados têm a ver com ouro?

    Ahhhhh eu tô muito confuso!! Como é que alguém pode lastrear dinheiro em terra meu Deus??!!! Que estranho!

    Desde já, agradeço a paciência.
  • Auxiliar  31/07/2019 02:01
    O preço da moeda alemã, o rentenmark, passou a ser mantido constante em termos de ouro. Mas não havia ouro. Criou-se um padrão-ouro sem ouro.

    O livro When Money Dies (Quando o Dinheiro Morre), do jornalista britânico Adam Ferguson, narra em detalhes todo esse processo.

    A população alemã vinha definhando e literalmente morrendo de fome, pois nenhum agricultor queria abrir mão de seus produtos em troca de uma moeda que não valia nada. Toda a colheita de 1923 ficou estocada nos silos dos agricultores; enquanto isso, as prateleiras dos supermercados estavam vazias. Inanição e baderna — inclusive uma tentativa de um cavalheiro chamado Adolf Hitler de tomar o poder em Munique em 9 de novembro de 1923 — eram rotina.

    E então, no dia 16 de novembro de 1923, o governo parou de imprimir marcos e os substituiu pelo rentenmark, que surgia com um valor definido em termos de ouro. No dia 20 de novembro, os marcos existentes foram convertidos em rentenmark ao preço de um trilhão de marcos por um rentenmark. A hiperinflação imediatamente acabou e a Alemanha estava no padrão-ouro. Mas sem ouro.

    Não havia ouro nos cofres do Rentenbank (o então Banco Central alemão). Nenhuma cédula de rentenmark era conversível em ouro. Simplesmente o valor do rentenmark era mantido constante em termos de ouro. Como isso era feito? O Rentenbank simplesmente expandia e contraía a base monetária (vendendo e comprando ativos) de modo a manter o valor do rentenmark o mais estável possível em termos de ouro. O mecanismo era um simples ajuste da oferta de moeda.

    Apenas duas pessoas trabalhavam no Rentenbank: o diretor (Hjalmar Schacht) e sua secretária. O que ele fazia? De acordo com o livro (página 123), ele fazia apenas três coisas durante o dia: fumava charutos, ficava ao telefone o dia inteiro se informando da cotação do ouro, e fazia as políticas monetárias correspondentes (vendia e comprava ativos, contraindo e expandindo a base monetária) para manter o valor do rentenmark estável em termos do ouro. À noite, após o expediente, ele pegava o último trem suburbano e ia para casa. Na classe econômica. Fora isso, não fazia nada.

    Os agricultores aceitaram o rentenmark, desovaram seus estoques, e a população alemã repentinamente se viu repleta de opções alimentícia à sua volta. Bastou apenas devolver estabilidade à moeda e toda a crise acabou e a economia voltou a crescer.
  • Sr. Perguntas  31/07/2019 15:05
    Muitíssimo obrigado por tirar minhas dúvidas, Auxiliar.
  • Pobre Paulista  31/07/2019 16:09
    Não sabia disso, que aula.

    Mas isso também não deixa a moeda extremamente vulnerável à ataques especulativos? A grosso modo, o real, quando surgiu, não era mais ou menos pareado ao dólar nesse mesmo esquema?
  • Ninguém Apenas  01/08/2019 02:47
    Acredito que o grande problema do Brasil foi querer ao mesmo tempo realizar política cambial usando as reservas internacionais e ao mesmo tempo realizar política monetária imprimindo dinheiro e esterelizando. Como essa política contraditória diminui as reservas internacionais ao mesmo tempo que aumenta a base monetária, foram necessários juros reais altíssimos para garantir a entrada de dólares. No final, o governo cedeu e a moeda desvalorizou.

    As diferenças entre o real e o rentenmark foram várias, primeiro o banco alemão realizava apenas política cambial usando os títulos (a maioria hipotecários), não fazia política monetária até onde tenho conhecimento. Além disso, não havia ouro na Alemanha de 1923, no Brasil de 1994 havia 4 vezes mais dólares que reais. O rentenmark foi colocado em circulação junto com o papiermark (o que acelerou sua hiperinflação), já no Brasil, foi criado uma moeda virtual e aboliram a moeda antiga implementado a moeda nova em sequência.
  • ALECSANDRO STOPA  31/07/2019 01:15
    Sabe o que a China do século XX, Correia do Sul da década de 80, EUA depois do anos 30 e Japão depois do pós-guerra tem comum? Sonho de grandeza. O brasileiro não tem isso . Muitas gente só pensa em ganhar o dinheiro para poder comprar o bife pro fim de semana e tomar uma cerveja. Não sei se isso é algo cultural ou consequência de nossa politica. Precisamos mudar, precisamos ser mais ambicioso. Devemos buscar nos espelhar em pessoas que realmente fazem a diferença na sociedade e no mundo.
  • 4lex5andro  31/07/2019 14:06
    São países pouco diversos. Mesmo os EUA no período citado, no início do séc. XX, tinha pouca diversidade, e nem é questão (necessariamente) de origem/fenótipo, mas de costumes mesmo.

    O Brasil não foi feito pra ser um país decente, muito menos uma nação, mas um arranjo unionista mantido sob armas (parabéns Uruguai, saiu a tempo) pra servir ao governo central (Estado monárquico e depois, republicano), desde sempre.
  • Jairdeladomelhorqptras  31/07/2019 16:10
    Caro Alecsandro Stopa,
    Não é cultural. É consequência das políticas econômicas.
    Eu sou teu exemplo. Trabalho pouco. Se trabalhar muito, muito vou pagar p/ o governo. Não poupo. Se poupar roubam meu dinheiro pela inflação, ou por um outro Collor. Não tenho vocação para me precaver das artimanhas econômicas destes governos de esquerda.
    Em país que não se vê o futuro, para que pensar nele?
    O melhor é um papo com os amigos e uma cervejinha. Desfruto o prsente. Entrego o futuro a Deus.
    Abraços
  • Leandro C  31/07/2019 19:46
    "Jairdeladomelhorqptras 31/07/2019 16:10
    Caro Alecsandro Stopa,
    Não é cultural. É consequência das políticas econômicas.
    Eu sou teu exemplo. Trabalho pouco. Se trabalhar muito, muito vou pagar p/ o governo. Não poupo. Se poupar roubam meu dinheiro pela inflação, ou por um outro Collor. Não tenho vocação para me precaver das artimanhas econômicas destes governos de esquerda.
    Em país que não se vê o futuro, para que pensar nele?
    O melhor é um papo com os amigos e uma cervejinha. Desfruto o prsente. Entrego o futuro a Deus.
    Abraços"

    Eu discordo radicalmente de seu posicionamento, o qual considero abominável e profundamente lamentável, ainda que, em minha vida pessoal, tenha feito exatamente o mesmo desde sempre! grande abraço!
  • anônimo  31/07/2019 03:16
    ótimo artigo
  • Régis  31/07/2019 16:20
    Já viram este vídeo? Vale muito a pena.

  • Raquel  02/08/2019 15:06
    A esquerda vai voltar ao poder,e tudo que o Guedes fez,será revogado.É a nossa realidade.Não sei como alguém acredita que esse país ainda tem jeito.
  • Jorge de Melo  02/08/2019 18:13
    2022 nos dirá.
  • Gustavo A.  02/08/2019 19:36
    Calma, amigo. Se os burocratas conseguirem tocar uma reforma tributária, é possível que a situação do empreendedor fique bastante facilitada em relação ao (ex) manicômio tributário. Isso após reforma da previdência e MP da Liberdade Econômica terem passado. Daqui 3 anos e meio, o Brasil pode estar em um bom momento.

    O brasileiro médio não vai se importar se Bolsonaro falou mal do gordinho da OAB ou se enfiou o filho em uma embaixada qualquer; vai estar contente por ter emprego e dinheiro na mão. Além disso e da certa popularidade que Bolsonaro já tem, o presidente terá a máquina pública a seu favor e utilizará, sem dúvida, como fizeram Lula e Dilma (e provavelmente todos os outros membros do executivo).

    Assim, a esquerda seguirá afastada ao menos do principal cargo da democracia. Se Bolsonaro manter a equipe econômica, nomear bons Ministros ao STF (se ficar 08 anos irá colocar 03 pelo menos) e o legislativo não der uma guinada à esquerda (o que acho improvável), podemos ter algum resquício de prosperidade em pindorama.
  • Andre  03/08/2019 03:54
    Qual reforma tributária? A do maior imposto do mundo?

    www.infomoney.com.br/mercados/politica/noticia/8537927/reforma-tributaria-da-camara-pode-criar-o-maior-imposto-do-mundo-avalia-governo

  • Gustavo A.  05/08/2019 17:12
    É, mas veja, todos estes impostos já são cobrados, ou seja, o "maior imposto do mundo" está dividido em vários. O problema disso é que esses vários tem cada um legislação diferente (o ICMS é um caos), uma burocracia enorme, que talvez seja um obstáculo maior ao empreendedorismo do que a própria alíquota.

    Juntando todos estes impostos em um só, haverá uma facilitação enorme para o empreendedor, ainda que o valor cobrado seja o mesmo.



  • Andre  05/08/2019 17:36
    Qual facilitação? A que vai cobrar o mesmo IVA da Ambev e do botequim que serve marmitas?

    www.infomoney.com.br/minhas-financas/impostos/noticia/8562750/o-iva-vai-fazer-crescer-a-informalidade

  • Andre  02/08/2019 17:45
    Eis o roteiro detalhado:

    dez 2019 - Na última sessão legislativa para votar o orçamento é revelada a incômoda realidade de que o o governo precisará ampliar o déficit primário;

    fev 2020 - Com o imenso aperto nos gastos públicos federais, os estados fora da reforma da previdência começam a falhar de vez seus serviços e a população não engajada começa a tirar apoio do atual governo;

    abr 2020 - Pensando na campanha eleitoral nos municípios e com a economia sem engrenar os deputados começam a retirar apoio político do ministro Guedes;

    jul 2020 - Com geração de empregos pífia, PIB rodando a 1,5% e a boca grande de Bolsonaro melindrando o ministro Guedes, a imprensa começa a especular sua saída.

    set 2020 - A economia americana entra oficialmente em terreno recessivo e arrasta o mundo com ela;

    nov 2020 - Brasil de volta a recessão, o ministro Guedes sofrendo pressão absurda se demite do cargo e o Bolsonaro chama o Meirelles;

    2021 - Nebuloso demais para prever, provavelmente um ano muito difícil graças a depressão econômica mundial;

    abr 2022 - Com a economia em pandarecos e desemprego de 16% o Brasil começa a discutir a campanha eleitoral com a esquerda liderando em todos os cenários;

    out 2022- Esquerda eleita no Brasil, investidores fogem em massa;

    jan 2023 - Com desemprego de 19%, inflação de 25%, PIB nos níveis de 2004, dólar a R$5,75 e intensos conflitos nas ruas o novo governo de esquerda inicia seu mandato.

  • Ninguém Apenas  03/08/2019 11:45
    Eu vou ser sincero que meu maior medo é as coisas terminarem desta forma. Mas não imagino que piorará tão rápido, mas uma eventual vitória de Ciro poderá trazer o inferno soviético para o Brasil no longo prazo. Obviamente que para isso precisaria do apoio do exército, o que não acho tão difícil.

    Mas ao menos por ora, estou mais otimista.
  • Entreguista  03/08/2019 13:04
    Nossa Andre,quanto pessimismo. Tudo bem que nao devemos acreditar em tudo,mais colocar o Brasil como o lixo do mundo tambem ja é demais. Vamos tentar manter o otimismo. No mundo inteiro tem pessoas pro esquerda e o liberalismo avancou muito no Brasil. O nosso pais tem problemas sim,mais o povao ama liberdade e indiretamente odeia o estado,por isso tem o negocio de essa lei pegou essa nao pegou. O Brasileiro esta muito mais avancado que muito gringo por ai em eleicoes pois ja apanhou muito. A tendencia do Brasil é so para cima,vai a passos de tartaruga mais sempre para cima. O Brasil,apesar do pt cresceu bastante,APESAR DO PT,imagine agora sem o PT.
  • Andre  03/08/2019 21:04
    Entreguista, liberalismo e livre mercado são muito bons mas para funcionarem a contento, é preciso que haja honestidade e integridade, características que não são exatamente populares entre a maioria do povo brasileiro.
    A tendência que há entre a maioria é formar "panelinhas" (cartéis) é o principal obstáculo a um livre mercado próspero.

    O atual governo tem de fato demonstrado bastante esforço para salvar a economia, mas faltou combinar com o congresso fisiológico que é muito bem pago para manter privilégios, com a constituição 1988 cópia da URSS, com o judiciário militante louco no discurso distributivista, com o empresariado acostumado com a reserva de mercado e o povão brasileiro que quer liberdade para os outros e vagas de concurso, bolsas e crédito subsidiado pra si.
  • Extraído de uma resposta de Orlando Fedeli  05/08/2019 20:51
    Do mesmo modo que o sistema liberal separou a Igreja do Estado, pela Liberdade de Religião, assim também se separou a Economia da Moral: desde que se obtivesse lucro, pouco importava, para o Capitalismo, triunfante com a Revolução Francesa, que meios eram usados. Dai, nasceu a tendência a reduzir, o quanto possível, o salário dos que trabalhavam, e a fazer produção de objetos em série, pouco importando a decadência de sua qualidade. Importava só o lucro, e o quanto antes. Dai a velocidade das coisas modernas: velocidade de produção (Taylorismo), velocidade de consumo, velocidade de uso. Disto resultando a velocidade da vida atual, e a idéia dela decorrente de que tudo tem que mudar sempre. Assim nasceu a Moda.

    Um segundo ponto negativo do Capitalismo -- que a Igreja sempre condenou também -- foi a Livre Concorrência Absoluta na Economia. Assim como na Democracia Liberal, nascida da Revolução Francesa, se deu a liberdade religiosa completa, acabando-se com a distinção entre verdade e mentira, assim como se deu livre concorrência ao erro e à verdade, assim também, na Economia, se dava a livre concorrência absoluta, com o falso raciocínio de que sempre venceria o melhor produto.

    Ora, a livre concorrência entre a verdade e a mentira só pode favorecer a mentira, porque a mentira não traz obrigações, enquanto a verdade traz duros deveres.

    Assim também, a livre concorrência absoluta vai favorecer o produto que dá mais lucro ao fabricante, isto é, o de pior qualidade. Prova é a difusão de bebidas de certo refrigerante americano, e de alimentos fast food, bebida e comidas tipicamente capitalistas, de produção em massa, e de baixo valor. Até na Itália, hoje, desgraçadamente, há quem misture refrigerantes ao vinho, e soja com azeite...

    A livre concorrência absoluta vai fazer triunfar não o melhor produtor, mas sim aquele que tem mais dinheiro, aquele que tiver supremacia no número, na propaganda, na quantidade. A livre concorrência absoluta, junto com o amoralismo do Capitalismo, vão fazer triunfar o grande produtor, o grande comerciante, que vai eliminando todos os concorrentes menores. O Super Mercado devora o empório do seu Manoel da esquina. A livre concorrência absoluta, separada da Moral, a longo prazo, extingue toda a concorrência e cria os grandes trusts e os grandes monopólios. A Livre Concorrência Absoluta concentra todo o poder econômico nas mãos de alguns apenas, e assim prepara o socialismo, que concentra tudo nas mãos do Estado.

    O Papa Pio XI estava certo ao dizer que o despotismo econômico de banqueiros e grandes empresários foi consequencia da livre concorrência.
  • Emerson Luis  30/08/2019 18:32

    E a maioria de nós aprendeu que a Alemanha se recuperou graças ao Plano Marshall...

    Pergunta: No livro Seis Lições, Mises disse (se entendi direito) que intervencionismo NÃO é uma forma de socialismo. É isso mesmo? Por que?

    * * *
  • Claudia Soares  12/11/2019 14:50
    E o papel da "Instituição de Poupança Pública", livro do Luís Fernando Azevedo Lopes, para a prosperidade? ampliar a distribuição dos ganhos de capital com a sociedade parece fundamental.
  • Humberto  12/11/2019 16:18
    Ampliar a distribuição dos ganhos de capital? Fácil. Basta as pessoas comprarem ações e se tornarem acionista de empresas.

    Atualmente, isso nunca foi tão fácil. Você abre conta em corretora, gratuitamente, por meio de celular, sem sair de casa, em menos de 5 minutos.

    E pronto. Você está livre para comprar ações e auferir ganhos de capital.

    Ah, sim, só que desse jeito ninguém quer, pois há o risco de sofrer também perdas de capital, né?

    O que todo mundo quer é a moleza e a delícia: querem apenas auferir ganhos sem jamais terem perdas. Ou seja, querem viver do suor alheio sem correrem risco nenhum. Querem lucros garantidos com risco zero de prejuízos.

    E o pior é que ainda tem idiota que jura que tal modelo (risco para poucos e benesses para todos) é condizente com o crescimento econômico...

    A inteligência, realmente, está se tornando uma commodity extremamente escassa.


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