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Três erros libertários muito comuns

Ao defenderem os princípios de uma sociedade livre, os libertários frequentemente esbarram em obstáculos de todos os tipos.  Tal empreitada pode ser encarada como uma batalha ou — melhor ainda — como um comercial de vendas.  Mas o fato é que nossos métodos de persuasão e de debate são uma parte muito importante da nossa mensagem.  É deles que depende o sucesso da empreitada.  Portanto, algumas vezes, nossos erros se transformam no maior obstáculo para o nosso sucesso.  Vejamos agora três erros muito comuns.

1. Pensar que o libertarianismo é "intuitivo" ou "óbvio"

É verdade que certas posições morais (como, por exemplo, contra o roubo ou o assassinato) são universais e suficientemente intuitivas.  Porém, todo o edifício teórico não é óbvio e tampouco fácil de ser compreendido.  O problema é que a maioria dos libertários se esquece de como eles aprenderam e, principalmente, se esquecem de como eram ignorantes antes de adquirirem o conhecimento.  Assim, eles projetam uma luz de conhecimento sobre todo o seu passado, comportando-se como se já possuíssem aquele conhecimento desde sempre.

Isso é fácil de ser observado naqueles que já leram gigantes como Mises e Rothbard.  Tão logo absorvemos algumas de suas perspicazes observações, inevitavelmente as internalizamos e passamos a pensar e agir como se tais constatações fossem absolutamente "óbvias" para todos os outros.  Mas o problema é que elas não são.  Nós adquirimos o conhecimento ao longo de anos de estudo, lendo dezenas de livros.  Todo libertário que conheço continua a ler e a debater os fundamentos do libertarianismo — e não apenas sua aplicação aos eventos atuais ou à história.  Isso, para mim, mostra que o libertarianismo é um edifício com muitas partes ainda em construção.  Mesmo que alguns possam resumi-lo de várias formas, elas jamais poderão substituir a totalidade da doutrina.

2. Pressupor um ponto em comum com todo o resto

Aquele conflito essencial que perpassa toda a história da humanidade — Liberdade versus Poder — pode ser compreendido apenas quando os fundamentos básicos são adequadamente identificados.  Comecemos pela liberdade.  Em tempos antigos, a liberdade era definida como a capacidade de poder participar em tomadas de decisão coletivas e de ter independência em relação a outras nações.  Portanto, a liberdade era uma questão de participação política e de soberania nacional.  O indivíduo não era uma unidade política relevante.  E assim permaneceu até o advento do Humanismo, quando o indivíduo foi colocado no centro da análise política e econômica.  Foi a partir daí que a Liberdade começou a ter o significado que nós libertários precisamos que ela tenha a fim de possibilitar que nossas constatações sejam populares em qualquer época e lugar.

Poder, por outro lado, para nós significa poder político.  Ele surge do uso da força ou da ameaça do uso da força.  A educação, a mídia e os valores tradicionais sem dúvida influenciam o comportamento humano, mas todos eles podem ser escolhidos ou rejeitados se preciso for.  É por isso que toda aquela conversa de comerciais ou conteúdos televisivos exercerem poder sobre a sociedade não se sustenta.  Porém, da mesma forma, ideias como "patrões opressivos" ou "tirania masculina" são enganosas.  Patrões não têm o poder de privar nenhum indivíduo de seus direitos, pois ter um patrão (em contraste com um senhor de escravos, um ditador socialista, um soberano ou um rei) significa que o indivíduo entrou voluntária e livremente em um contrato.  Por conseguinte, patrões implicam direitos, e onde há direitos há liberdade, e o poder opressivo inexiste.  Um patrão pode ser exigente, reclamão e rude, mas enquanto o indivíduo tiver a liberdade de "sair", não está havendo opressão.

Tirania masculina significa estritamente que são negados às mulheres seus direitos políticos (individuais) à integridade pessoal e à propriedade.  Porém, se ocorre uma discriminação de gênero quando tais direitos estão totalmente presentes — como ocorre na maioria dos países ocidentais —, então tal discriminação nada mais é que um direito (de liberdade) de terceiros.  Quando se prefere homens a mulheres para um determinado tipo de trabalho que pode ser perfeitamente executado por mulheres, quem está perdendo com isso é a empresa, que está se privando de talentos femininos.  Porém, em muitas profissões que lidam com questões de segurança física e força bruta, tal discriminação não é apenas necessária; é sábia e compreensiva.  Achar que está havendo ausência de direitos femininos quando, na verdade, está havendo apenas uma discriminação pró-homens (como no caso da escolha de homens para um trabalho que pode ser perfeitamente executado por mulheres) é algo perigoso, pois irá dar espaço para intervenções estatais, as quais tentarão "corrigir" um problema inexistente — ou, na melhor das hipóteses, um problema que deve ser resolvido (caso seja necessário) por meios civis e pacíficos.

Portanto, o "poder" deve ser entendido como uma manifestação de poder político.  Seus vínculos com quaisquer formas culturais são apenas isso: vínculos.

Se liberdade e poder devem ser assentidos para que o discurso libertário faça todo o sentido, o mesmo é válido para os conceitos de propriedade, contrato, mercado, estado, leis e vários outros.  Não podemos pressupor um ponto em comum com todo o resto — especialmente nesses tempos pós-modernos, em que cada conceito ocidental está sendo matizado e redefinido pelos tiranos locais.

3. Ironicamente, esquecer-se da importância das ideias e da persuasão

Estreitamente relacionado aos pontos 1 e 2, os libertários algumas vezes pensam que, a partir de certo momento, as ideias deixam de ter importância.  Tão logo o indivíduo adotou uma visão de mundo libertária, há uma forte tentação de se esquecer da difusão das ideias e passar a considerar todas aquelas pessoas que acham que o estado ainda deve exercer algumas funções como um bando de preguiçosos, de idiotas ou de corruptos.  Sendo um ex-social democrata, bem sei que não é assim: vários pensadores e ativistas políticos são bem intencionados; eles apenas não tiveram a sorte de compreender aquelas noções pelas quais temos tanto apreço.

Pode estar certo de que a maioria possui uma boa noção das nossas posições; porém, como qualquer bom professor pode atestar, isso não é o suficiente.  Incorporar uma ideia por completo exige não apenas uma boa exposição aos conceitos desta, mas também um estado de espírito adequado, que propicie a disposição ao aprendizado.  Muitos libertários manejam seus insights como se fossem espadas, adotando uma atitude de superioridade moral, procurando sempre punir o não-convertido.  Como qualquer fanático por músicas pode atestar, se você quer que um amigo seu passe a gostar do álbum de uma banda que você idolatra, uma proposição frontal quase nunca vai funcionar.  Com o ego humano sendo como é, esse objetivo certamente será consumado por meios mais sutis, como quando você faz parecer como se fosse ele próprio quem tivesse descoberto a banda.

Entenda: é a nossa atitude que afasta as pessoas das ideias.  Se elas, as ideias, fossem intuitivas, a persuasão não seria necessária.  Mas elas não são.  Porém, se elas fossem, então seríamos duplamente culpados: isso significaria que as ideias socialistas, por sua vez, seriam contra-intuitivas; e, ainda assim, a persistência e a habilidade persuasiva dos socialistas foram capazes de levá-las a um êxito mundial.  O que houve?

Concluindo, o libertarianismo se beneficiaria enormemente caso reconhecêssemos que a batalha das ideias políticas é apenas um caso especial dentro da batalha filosófica global sobre conceitos e significados.  Da mesma forma, não seria nada doloroso lembrarmos a nós mesmos de que uma visão de mundo como o libertarianismo deve estar sujeita aos mesmos princípios a que estão submetidos quaisquer outros bens no mercado, ainda que o mercado de ideias seja severamente obstruído e voltado contra a liberdade humana.

Se quisermos ter êxito nesse mercado, se quisermos ganhar os corações e mentes de nossos contemporâneos, precisamos nos lembrar de como esse bem foi vendido para nós em primeiro lugar.  Adotarmos uma postura diretamente antagônica, criando hostilidade e inimizade, pressupondo como óbvias ideias que hoje são difíceis de se compreender de primeira — graças a 150 anos de controle socialista da educação —, é uma receita certa para o fracasso.



autor

Juan Fernando Carpio
mora em Quito, Equador, possui mestrado em Economia Empreendedorial pela Universidad Francisco Marroquin, da Guatemala e é o presidente do Instituto para la Libertad, um think tank libertário equatoriano.

  • Cristiano  23/04/2010 16:44
    Excelente artigo, tenho me policiado cada vez mais para nào entrar em bate boca e apenas fazer comentários pontuais sobre algum fundamento da liberdade sem entrar em muitos detalhes.
  • anônimo  23/04/2010 18:10
    O mestre libertário que me veio à mente imediatamente ao ler este artigo foi o fantástico Robert LeFevre (mises.org/media.aspx?action=showname&ID=529).
  • Felipe Insunza  24/04/2010 08:48
    Não poderia concordar mais com um artigo.
    Falta-nos (aos liberais, libertários ou seja lá como nos enquadramos) sem dúvida um pouco de "pragmatismo político", por mais estranha que essas duas palavras sejam aos nossos ouvidos.
    Outro ponto que me incomoda nas discussões liberais, e que pude comprovar no Seminário de Economia Austríaca, é que o fato de sermos poucos e muitas vezes dispersos faz com que evitemos divergências (confrontações mesmo) em favor da coesão, por mais que haja algumas muito nítidas na escola austríaca (papel do governo, free banking, etc.).
    Quem sabe, num futuro próximo, quando a união em torno de um partido ou de um think tank (como o Mises Brasil) se consolidar, não poderemos avançar num real debate que fortaleça nossas convicções e que seja mais cara aos ouvidos dos nossos "opositores".
  • Arkad  25/04/2010 10:12
    Esse artigo vem de certa forma ao encontro da opinião que publiquei no artigo sobre o Seminário: não podemos abandonar a bandeira dos debates e respeito pelas opiniões divergentes. Uma ideia só se desenvolve e se fortalece quando avaliamos com critério e inteligência os nossos antagonistas, quando podemos mostrar que temos respostas a todas as indagações dos mesmos. E se não tivermos, humildemente avaliar a possibilidade de mudar em determinados casos, de posição.

    Nenhuma escola é perfeita. O rumo à perfeição é longo e sempre passará por pequenos desvios no trajeto. Perspicazes seremos se pudermos absorver todos os pontos positivos desses conflitos de pensamentos.

    Ótimo artigo!

    Abraço a todos!
  • Joao  09/06/2012 08:08
    Perfeito artigo!
    Vou treinar minha paciencia na argumentacao..

    Descobri o movimento libertario por acaso, Lendo muito e para isso a a Internet, em si uma vitoria da liberdade, foi fundamental

    Entender que a "luta errada" esta em procurar o regulamento correto e que devemos sim lutar pela extincao do regulamento para mim foi como o aprendizado da algebra no entao ginasio...com aquelas magicas equacoes o problema das torneiras ficou bem mais facil

    Ai percebi que sempre fui libertario mas nao sabia..lembro me de dizer a meus funcionarios, pessoal da area de TI de bom nivel, que o salario deles era meu problema e nao deles..se eles nao estivessem motivados inclusive quanto a dinheiro meus resultados seriam afetados..mas tambem dizia, brincando, que a lei aurea esta em pleno vigor..ou seja. ..todos eram livres para procurar seus destinos em outro lugar

    Reconheco que pregar esse "evangelho" esta muito dificil.... Alguns amigos ja me acham um "chato" e eu aos poucos paro de expor as teses libertarias..Percebi tambem que como sempre gostei de "discutir politica" fico inflamado e impaciente quando algo que me parece obvio nao e percebido dessa formapelo meu interlocutor
    Infelizmente muito tempo se passara ate que esses valores sejam percebidos

    E como a escravidao..esse conceito horroroso foi considerado "natural" durente milenios..somente nos ultimos 200 anos e que ele foi extinto e nunca mais voltara
  • Gilvan  27/07/2013 15:54
    Excelente reflexão.
    Nós liberais devemos nos comunicar melhor e esses são alguns aspectos que não podem ser esquecidos. A questão do "óbvio" é muito importante. No campo das ideias temos que começar do básico.
  • Tory  27/07/2013 16:37
    Sou inteiramente culpado dos três erros. Bem oportuno, esse artigo.
  • Goldstein  27/07/2013 16:41
    Também é preciso desmascarar e atacar os atos e iniciativas que atentam contra os princípios de uma sociedade livre. Nossos 'amiguinhos' estatólatras estão promovendo centenas de brutalidades diante dos nossos olhos.
  • Priscila   27/07/2013 16:52
    Muito, mas muito bom este artigo.

    Sou 'iniciante', 'aprendiz' ou qualquer coisa que o valha em estudos libertários, depois de passar um longo período transitando entre diferentes ideais políticos.

    E realmente, isso de achar que somos 'donos do saber' ou quem não teve acesso ao que sabemos é ignorante acontece com qualquer pessoa que quer defender um ideal. Como dito no texto, é/está intrínseco ao ser humano...

    Vou carregar estes conselhos pra toda vida e agradeço a oportunidade de entrar em contato com materiais tão relevantes como os aqui divulgados.
  • Leonardo Couto  28/07/2013 00:32

    Excelente artigo.

    Não devemos nos esquecer dos princípios, nunca. A logicidade de nossas bases deve nos manter confiantes contra qualquer esboço de opressão. Devemos sempre nos lembrar que a coerção é, a priori, deletéria.

    Não devemos nos desvirtuar.
  • Rafael  28/07/2013 01:57
    Péssimo artigo, péssimo!

    O libertarismo é óbvio desde que seja bem explicado. Qualquer pessoa almeja ele, mas existe o receio em respeito a maior liberdade de escolha, porque acreditam que regras rígidas são necessárias para assegurem a liberdade mútua. A solução disso é simples: explique a essa pessoa de modo minucioso como a liberdade mútua se edifica sem a necessidade de rigidez ou forças impositivas, porque que o poder de escolha e as suas consequência implicam em responsabilidade e a liberdade é responsabilidade. Explique a qualquer pai ou mãe que a responsabilidade emerge da família, o respeito e outras dignas qualidades que concordaram contigo sem dúvida alguma. Utilize da noção popular
    para pensarem no liberalismo: ideias repetitivas como "o mundo ensina" são úteis.

    A explicação não precisa ser muito diferente da liberdade no plano econômico. São dos simples exemplos que é possível convencer as pessoas pela intuição, aliás, as pessoas com pouco poder aquisitivo naturalmente assimilam melhor como a regulamentação não têm melhorado a qualidade de vida deles e têm servido somente a quem já é beneficiado pelo Estado.

    No segundo ponto você diz que a "liberdade está ai", mas ela não está na verdade. Não está porque inexiste atualmente essa liberdade que você diz. Simplesmente uma pessoa não sai do seu emprego, porque a oferta de emprego é baixa, porque não é favorecido pelas indicações ou vem de família tradicional. Também é fato que existe uma coerção de como uma mulher deveria ser e isso não significa que sejam unicamente culpados os homens. Digo isso porque não somos uma sociedade livre no plano econômico e político.

    O ápice do que pode ser considerado ruim no seu texto é o terceiro argumento que fala sobre a persuasão. Como você pretender ser melhor ou eticamente mais evoluído que os intervencionista se parte dos mesmos métodos? Não é possível conscientizar as pessoas com persuasão, mas é possível as conscientizar desde que as emancipe como seres com capacidade para decidirem sobre si politica e economicamente.

    É a partir do diálogo continuado que elas passaram a se verem mais senhoras de si. É a partir do diálogo horizontal no lugar do vertical que as pessoas tomam consciência da sua liberdade individual definitivamente e jamais regridem a consciência de serem dependentes. Se você pretende as convencer verticalmente com subliminaridades e com uma lenta persuasão, você está concebendo um libertarismo fracassado, porque ele não se sustenta e regride violentamente, pois as pessoas nunca se viram verdadeiramente livres nem libertárias. Me desculpe, mas este pensamento não faz de você melhor que um intervencionista qualquer.
  • Carlos Marcelo  28/07/2013 06:45
    Identifiquei bastante com alguns trechos. Mas gostaria de entender melhor o segundo tópico. O que seria pressupor um ponto em comum com todo o resto?
  • Eduardo  28/07/2013 14:57
    A História de qualquer país ou do mundo nos mostra claramente como a tirania e a idolatria sempre fracassam com o tempo. O estatismo nasce da ignorância humana; já o libertarianismo nasce do esclarecimento humano. A melhor forma de atingir esse nível de esclarecimento é, simplesmente, o estudo completo da História da Humanidade. Além do estudo da Bíblia, é claro. Um verdadeiro cristão é, acima de tudo, um libertário. O Estado não passa de uma seita perversa que só serve para poluir o juízo humano.
  • gabriel  28/07/2013 16:33
    Pra ver como não é tão obvio assim, frequento o site a pouco mais de um ano, e me considerava depois de tanta leitura libertário. Mas lendo tantos comentários, fico imaginando se o sou mesmo, ou se minha ideia é ainda outra além da que é exposta aqui.

    Me envolvi já em algumas discussões a favor da liberdade, com defensores do estado, pessoas que não se imaginam vivendo sem ele, e até pessoas que defendem o estado e atacam religião tratando esta como 'imposição' e estranhamente o estado não vêem como imposição...

    Ai que vêm minha confusão. Não considero que influencias voluntárias, como criação e cultura dos povos seja algo coercitivo (por exemplo vivemos num país de maioria católica, é natural que pela cultura e ambiente que temos, os novos nascentes sejam influenciados e se tornem católicos - esta influencia que alguns acham 'imposisão' a mim parece apenas um processo natural já que tudo é influencia, impedir de se influenciar seria mais do que utópico, simplesmente impossível)

    Até aí sempre imaginei a ética libertaria bem intuitiva, mas numa destas discussões recebi um argumento que me deixou em dúvida quanto ao principio de não agressão. Estava eu comentando sobre estas idéias, e uma pessoa que me escutava, defendia que o assassinato não deveria ser condenado. Obviamente tentei ligar ao fato de que agredia totalmente a liberdade de outra pessoa, e esta pessoa defendia que não deveria ser julgado o outro por matar (acreditem, não era por exemplo um argumento pra me desconstruir era uma verdadeira crença pessoal).

    Aí que fico a dúvida se minha defesa deste argumento seria contra o PNA, já que propus simplesmente que fosse livre a associação a determinada cultura e regras, ou seja eu iria me reunir com pessoas que não acreditam em assassinato, e punir as pessoas com esta regra, tudo com livre associação com quem acredita nisto (estaria aceitando que se fizesse o ato seria punido) e que ele pudesse viver junto com os assassinos que acham que isto não deve ser punido.

    Fiquei então pensando se isto iria contra a não-agressão, já que seria aceitável pessoas agredirem a liberdade de outras (com assassinato neste caso) mas com prévia aceitação ao fazer parte desta sociedade que aceita isto.

    Neste caso seria livre a associação a uma determinada 'comunidade' com regras próprias, alguém mais estudioso na teoria libertaria poderia me esclarecer possíveis falhas neste raciocínio, ou se ele não atenta deliberadamente contra o PNA?
  • Cedric  29/07/2013 16:49
    Assassinato é um termo que IMPLICA uma relação de agressão. Se não seria eutanásia, ou suicídio assistido. Assim como o estupro significa relação sexual não consensual, não tem como uma mulher "querer" ser estuprada, se ela quer, seria sexo violento, masoquismo, por aí vai...
    Quando se assassina alguém, está abrindo mão do direito de viver. Agora, o contrato e os direitos não criam uma realidade alternativa, a exequibilidade da pena vai depender dos indivíduos nessa sociedade.
  • gabriel  29/07/2013 18:22
    entao mesmo nesta situacao extrema nao seria aceitavel mesmo para pessoas como este que debati que acham que assassinato nao deve ser punido? Levando em conta apenas a etica libertaria, a nao agressao nunca pode ser quebrada, deve-se obrigar que a pessoa condene assassinos mesmo que a mesma nao condene?

    ( Nao sei ate q ponto era verdade esta defesa do meu debatedor, mas deu a entender q mesmo q fosse ele ou alguem da familia dele assassinado ele nao condenaria o assassino. )
  • Fellipe  30/07/2013 13:59
    Gabriel,

    Vou tentar colocar meu ponto de vista nesta discussão. Pelo que entendi de seu colega, ele quer dizer que ele pode ou quer PERDOAR um assassino (mesmo que de um membro da própria família), e isso de forma alguma vai contra o arranjo do PNA, onde ele teria o direito moral de reparação se assim desejasse. Hoje é exatamente o contrário, mesmo que você não queira o estado vai perseguir o assassino e com o seu dinheiro, é claro, mesmo que você não queira.

    De outro lado, alguma sociedade livre pode decidir não seguir o PNA e ser pacifista (no sentido de dar a outra face), desde que seja voluntário não é errado segundo a filosofia libertária a meu ver.

    Deixo claro que minha posição pessoal é pelo PNA, ou seja, não tenho direito de agredir ninguém, mas se alguém agredir ou ameaçar agredir a mim ou à minha família vai sofrer...

    Abs.
  • Roger  01/08/2013 04:59
    Gabriel, está havendo graves enganos em seu raciocínio.
    Em um mundo libertário não significa que todos sigam necessariamente às mesmas leis. O que importa é que todos sigam a leis por livre e espontânea vontade. Suponhamos que todo o mundo seja libertário, e que neste mundo libertário há pessoas que acreditam que assassinos devem ser punidos e os que acreditam que não devem. Hora, nada impede que neste mundo todas estas pessoas que acreditam na não punição dos assassinos criem sua própria micro-sociedade, com suas próprias condutas. Acho que tal sociedade não teria muitos adeptos, mas uma coisa eu lhe garanto, tal disposição social não perdurará por muito tempo, pois quem matar mais em mais tempo sem se deixar matar será dono de tudo, e pode ter certeza que há pessoas dispostas a tanto para alcançar a riqueza. No entanto, neste mesmo mundo, haveria sociedades regidas pelas doutrinas libertárias, onde o assassinato possui uma pena tal. Um membro desta sociedade "sem lei" não pode invadir outra sociedade, onde o assassinato possui outra pena e impor a lei de sua sociedade, onde o assassino não é punido, isso sim é anti-libertário.

    Portanto, nada impede que estas pessoas criem sua micro-sociedade com suas próprias leis, mas não é possível, baseado em argumentos libertários, que estas leis sejam impostas às outras sociedades, assim como não lhes serão impostas as leis destas outras sociedades nos atos praticados fora delas. Não é um pensamento libertário, portanto, imaginar que estas pessoas possam assassinar qualquer pessoa no mundo e serem julgados de acordo com as leis de sua micro-sociedade.

    Hoje em dia já é possível ver a aplicação deste raciocínio: quando visitamos outro país, estamos sujeitos às leis deste, ou seja, se matarmos alguém em um estado dos EUA onde há pena de morte, é possível que sejamos condenados à morte, obedecendo às leis americanas, e não a cumprir 5 anos de prisão com direito a visitar a família no Natal, como é de costume na jurisdição tupiniquim.

    Outro aspecto falacioso deste argumento é que usando esta linha de raciocínio podemos refutar qualquer coisa. Veja só. Vamos supor que comecemos a falar de liberdade para este cidadão. Usando estes mesmos argumentos ele pode falar: "Opa, mas perae. E se eu não quiser que você seja livre. Você vai me impor a sua liberdade. Aí você vai estar invadindo a minha liberdade de achar que você não deve ter liberdade".
    Viu só como não faz sentido. Este tipo de argumentação é apenas para gerar conflito. Ele não acredita genuinamente que assassinos não devam ser punidos, ele apenas que semear a discórdia. Sob o ponto de vista deste cidadão a liberdade dele vale mais do que a de qualquer outro. Aqui vale aquela máxima: "Sua liberdade termina quando começa a do próximo". E vale ressaltar, que a do próximo termina quando começa a sua.

    Liberdade não é poder fazer tudo o que você quiser!
  • Eliel  28/07/2013 18:41
    Um pouquinho de luz a cada dia. Muita luz de um só vez pode cegar.
    Na questão da persuasão das ideias há um segmento religioso do cristianismo que cerca de 150 anos propagas seus conceitos de forma discreta e persistente com desdobramentos na ciência, filosofia e religião.
    É toda uma experiência de vida, um "now how" surgido da ordem espontânea hayekiana, se me permitem o devaneio poético.
    Não é meu objetivo discutir religião, mas apenas comparar experiências de vida.
    Esse artigo é mais um dedinho de luz que veio para ficar e somar, meditar e compartilhar.
    Felicidades ao Instituto Mises e toda sua equipe.
  • Jeferson  28/07/2013 20:29
    Os comentaristas freqüentes deste site precisavam mesmo deste artigo. Excelente!
  • Fernando Schoulten  29/07/2013 00:58
    Esses 3 pontos são bons guias nas minhas diacuções, debates, etc que terei daqui para frente sobre libertarianismo. Confesso que vinha falhando em todos os 3 pontos quando eu tinha oportunidade de me manifestar sobre o tema, agora posso me atentar mais.

    Um coisa que esse artigo me fez pensar é o quão restrito é o debate da liberdade hoje em dia. Eu praticamente só consumo esse conteúdo na internet, no meu convívio social diário as pessoas não chegam sequer perto de falar sobre liberdade. Talvez eu deva mudar de relações sociais diárias, ou talvez, o que acho mais certo, os libertários devam divulgar mais o libertarianismo para quem ainda não conhece.

    Temos um longo trabalho pela frente e esses 3 pontos destacados podem ser guias para a empreitada.
  • Bruno Soares  29/07/2013 02:33
    Favor ler esse artigo com atenção, Fernando Chiocca.
  • Samir Jorge  29/07/2013 18:11
    Devemos ter uma atitude de estudante em nossa jornada existencial, para que a porta da abertura não seja fechada.
  • Marconi  29/07/2013 18:39
    Quarto maior erro => Esquecer a lei da natureza, a lei do mais forte (ou do mais adaptado, como queiram) e acreditar em Pacto de Não Agressão, justiça privada e outras bobagens desse tipo.
  • Rodrigo Viana  30/07/2013 13:39
    Embora há coisas interessantes no texto, não pude deixar de comentar algo muito fraco que o próprio leitor Rafael comentou. A questão 2.

    Rafael diz:

    "No segundo ponto você diz que a "liberdade está ai", mas ela não está na verdade. Não está porque inexiste atualmente essa liberdade que você diz. Simplesmente uma pessoa não sai do seu emprego, porque a oferta de emprego é baixa, porque não é favorecido pelas indicações ou vem de família tradicional. Também é fato que existe uma coerção de como uma mulher deveria ser e isso não significa que sejam unicamente culpados os homens. Digo isso porque não somos uma sociedade livre no plano econômico e político."

    Ele está absolutamente certo! Nesse ponto tenho que concordar com os comentários do Rafael e também entrar no coro pra dizer que esta parte do texto, especificamente, não é apenas ruim mas péssimo.

    Embora o autor tenta, inutilmente, explicar um modelo social, a verdade é que estamos muito longe disso. A explicação de que "não existe patrão opressivo" é ridículo. Tal explicação parte da falsa premissa de que já estamos vivendo em uma sociedade livre.
    Todo o arcabouço de onde parte a ideia do autor, embora esteja correta, não condiz em nada com a realidade. Essa visão pueril é uma das coisas que me faz distanciar cada vez mais do pensamento libertário mainstream e me juntar a "ala esquerdista" do libertarianismo.

    Essa interpretação errônea, insustentável e até ingênua, da sociedade feita por libertários mainstream é o que Kevin Carson chama de "vulgar libertarianism". Ou "right-conflationism" quando dito por Roderick Long.
    Parece-me que os libertários mainstream, no geral, possuem uma base forte ao analisar áreas como economia e política mas pecam consideravelmente quando envolve ciências como história e/ ou sociologia. O que se vê é uma casca fortemente embasada mas quase que completamente oca.

    Se levarmos em conta que existe um conflito por privilégios através do poder, fica nítido que há uma luta de classes. Mas não aquela elaborada por Marx, mas por liberais franceses radicais do qual influenciou libertários como Rothbard e Konkin, uma luta de classes sobe o poder.
    Como posso levar a sério a afirmação de que "não existe patrão explorador" se o capitalismo existente é totalmente intervencionista, estatista e, por consequência, explorador? Criador de privilégios não apenas aos burocratas mas a uma classe de empresários corporativistas? Seria esse autor um pró-mercado ou pró-empresa?

    E como renegar um passado baseado na exploração, discriminação gratuita e no roubo? Ora, os indivíduos vem sendo pilhados de seus frutos desde sempre por duas classes bem organizadas: os burocratas e o empresariado corporativista. Então a explicação disso tudo é "você é livre, peça demissão"?
    Quer dizer que toda uma parcela da sociedade que foi historicamente desfavorecida (às custas de certos privilegiados), de uma hora pra outra, já pode competir de igual pra igual no mercado com outros trabalhadores e empregadores? Isso é alguma piada?
    Nessas horas vale lembrar da lição de Rothbard ao denunciar o roubo que os senhores de escravos fizeram com os frutos dos trabalhos dessa gente nos EUA. Onde Rothbard defendia não apenas a liberdade destas pessoas mas a posse da terra em que trabalharam. Isso sim seria algo justo que o autor parece esquecer no ambiente atual.

    Na questão sobre as mulheres o autor faz um esforço danado pra tentar explicar algo que, na realidade atual, não confere muito. Não há muitas décadas atrás as mulheres eram vistas com desconfiança em setores diversos. De motorista de ônibus até juíza de futebol, passando por gerente, arquiteta e engenheira em épocas ainda mais distantes.

    Esses "vínculos" que o autor parece desdenhar são premissas que fortaleceram e fortalecem o status quo atual. Acreditar que basta acabar com o poder pra haver uma sociedade mais justa, renegando esse fator cultural, soa demasiadamente artificial. Como disse, falta um embasamento sociológico pra esse tipo de análise.

    Resumindo, mais um exemplo típico do que é o libertarianismo vulgar.
  • Leonardo Couto  30/07/2013 15:15

    A genuína defesa da liberdade tem princípios muito fortes contra qualquer um que tente usurpá-la.

    As bases do pensamento que preza pela liberdade são extremamente racionais para que qualquer forma de engenharia social tente se infiltrar em seu meio.

    Rodrigo Viana, o libertarianismo é mais do que qualquer julgamento coletivista possa definir. E sua lógica é distinta da que qualquer coletivista possa traçar, pois procede.

    A esquerda pode ter chegado muito longe na perversão de outros pensamentos, mas o pensamento pela liberdade, sua maior antítese, não será desvirtuado.

    Sua análise apenas utilizasse de repúdio ao estado sob uma visão coletivista. Não existe conhecimento sobre o individualismo metodológico. É uma faceta do nocivo coletivismo tentando corromper o seu maior combatente: A liberdade.

    Esse "libertarianismo de esquerda" só veio para causar infundadas dissensões e para trazer injustificada discórdia sobre o oásis de sensatez que nós estamos. Esse espectro é realmente maldito.

    Tenho certeza que esse ecumenismo corruptor não vai ter sucesso e que meus colegas não vão se deixar levar pelo sincretismo diabólico das nuvens coletivistas que querem pairar sobre nós.

    Eles não são um de nós. Já temos um compromisso, e escolhemos defender a razão sobre a séssil opinião. Nós já decidimos acertar.

    Acredito que concordam, amigos; não?

    Nunca nos esqueçamos de nossos princípios.
  • Fellipe  30/07/2013 15:41
    Leonardo,

    Totalmente de acordo.

    Tentar corrigir coerção com coerção não é libertarianismo.

    Abvs,
  • Rodrigo Viana  30/07/2013 19:35
    Leonardo Couto

    De fato, você não conhece o libertarianismo por completo, pois se conhecesse não utilizaria de espantalhos pra descrever sua resposta. Além do que, você parte de um pré-conceito típico de pessoas que vem da direita, a julgar que todo pensamento "de esquerda" esteja baseado no coletivismo e na coerção, como dito logo abaixo pelo Fellipe. O que na verdade trata-se de um engano total pois até mesmo na tradição política socialista existe uma ala individualista tão anti-estatista/ anti-coletivista quanto qualquer outro do meio libertário. Uma tradição "socialista" que faria os conservadores mais livre-mercadistas serem vistos como socialistas estatista, até.

    A ala "esquerdista" do libertarianismo é tão libertária quanto a ala mainstream, apenas parte de perspectivas diferentes para a análise sócio-político-econômico.
    Bom, acho que não preciso explicar muita coisa já que as referências de teóricos comentados por mim fala o quão "coletivista" e "coerciva" foi minha resposta.
  • Fellipe  30/07/2013 20:59
    Rodrigo,

    Fico feliz que alguém da corrente left libertarian se manifeste, confesso que esta corrente do pensamento libertário sempre foi uma incógnita pra mim.

    Pelo pouco que me aprofundei nesta questão, entendo o ponto de vista dos left, porém qualquer abordagem com viés "social" já me deixa com o pé atrás. Nada contra que os menos favorecidos tenham oportunidades iguais na prática, inclusive concordo com o conceito de igualdade de autoridade de Roderick Long, o que entendo queira dizer que indivíduos e o estado têm a mesma autoridade.

    Porém quando entramos na seara de distribuição de propriedades, a coisa é muito nebulosa. Quem define o que é justo? Mesmo Rothbard nesta questão, ao meu ver, não tem uma resposta definitiva (exsceto para os bens do estado). Quando ele define alguns critérios para a distribuição da propriedade "pública" no caso do colapso estatal essa é a parte que me soa coerente.

    E o tamanho dos bens públicos já é grando o bastante para ser o foco. Não sei quem postou acima, mas concordo que quanto aos bens privados adquiridos "ilegitimamente" ou em conluio com o estado, em uma sociedade libertária essa riqueza não poderia se perpetuar pel queda do principal pilar de sustentação, o estado.

    Concluindo, para mim a única atuação visando o bem "social" justificada é a caridade, e não existe caridade obrigatória.

    Abs,
  • Leonardo Couto  31/07/2013 00:02

    Uma análise da visão esquerdista "libertária" pode evidenciar o quanto de fato se defende a liberdade não obstante o auto-denominado rótulo libertário.

    A ideia que ela tem de resgate histórico e opressão patronal e masculina em contextos pacíficos, junto com suas respectivas "soluções", seriam inócuas em um contexto não-coercitivo. Não há sentido em se falar em "justiça histórica" sem meios de se implantar essa "justiça".

    Vamos à uma coisa que deveria ter perguntado inicialmente: Que solução você exatamente sugere quando fala em parcelas historicamente desfavorecidas? Qual sua solução para a "opressão masculina"? E para opressão patronal?

    Responda o que seria, concretamente, a redução das desigualdades históricas?

    Cometi o erro de não perguntar tais coisas antes, porque já presumia que um discurso assim não conceberia soluções acráticas. É nesse ponto que quero chegar.

    Obs: O caso que você citou de rothbard, onde escravos deveriam tomar propriedades de seus senhores não pertence à "esquerda libertária". Tal caso nítido de compensação é justo. No momento da libertação, a conjuntura do caso estava intacta.

    O erro, e particularidade, da "esquerda libertária" é propor tal compensação nos dias de hoje em favor dos "historicamente desfavorecidos", algo impossível. Sem contar a assunção da existência de um coletivo historicamente desfavorecido.
  • Renato Borges  30/07/2013 18:48
    agora é colocar em prática!!


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