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sexta-feira, 30 ago 2013
87º Podcast Mises Brasil - Ricardo da Costa

logo_baixa.jpgENTREVISTA 87 – RICARDO DA COSTA

Historiador, mestre e doutor com dois pós-doutorados em História Medieval e Filosofia, professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e um dos principais medievalistas do país, Ricardo da Costa foge ao padrão caricato do docente de esquerda, marxista ou não, que atua em sala de aula como o intelectual orgânico para formar militância - e não ensina a disciplina. Pelo contrário, ao não seguir a cartilha esquerdista e exigir que os alunos leiam e estudem, conquistou antipatias. “Você é mal visto, os professores detratam às escondidas, os alunos passam a te olhar de modo desconfiado e hostil a qualquer interpretação não materialista da história. E os alunos, com as raríssimas e honrosas exceções, não leem nada. Muitos se formam sem ter lido um único livro sequer. E não recebem bem quando um professor cobra leitura. Não há um amor pela leitura”.

Embora tenha relatado sua experiência como professor, o ponto central desta entrevista ao Podcast do IMB foi a Idade Média, sua especialidade e, mais especificamente, a concepção de liberdade individual e comercial nesse período tão importante e vilipendiado da História. Acerca da questão econômica e social nos séculos XI e XII, Ricardo proferiu em março deste ano uma ótima palestra disponível aqui e aqui.

Ricardo também explicou qual a forma e dimensão da intervenção do poder político medieval na Economia, a concepção da Igreja, o papel do empreendedor e o que o conhecimento desse período pode nos ensinar sobre as liberdades individuais e econômicas para não incorrermos nos mesmos erros do passado.





  • Sérgio  30/08/2013 20:18
    É uma boa fonte alternativa à História Politicamente Correta.
  • Renato Minc  30/08/2013 21:58
    Desta vez o áudio atrapalhou (e muito!).
  • Guilherme   30/08/2013 22:41
    Estranho, Renato. Pra mim ficou normal.
  • anônimo  31/08/2013 02:30
    Pergunta ao professor Ricardo:

    Havia intervenção estatal nas instituições financeiras medievais?
  • Guilherme  31/08/2013 04:25
    Sim, mas era uma intervenção a favor das instituições: o estado protegia a prática de reservas fracionárias dos bancos.

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=907
  • Sérgio  31/08/2013 20:57
    Huerta de Soto explica sobre isso em seu livro Moeda, Crédito Bancário e Ciclos Econômicos:

    "A queda do Império Romano provocou o desaparecimento da maior parte dos fluxos comerciais e contribuiu para a feudalização das relações econômicas e sociais. A tremenda contração do comércio e da divisão do trabalho deu golpe definitivo nas atividades financeiras em geral e no sistema bancário em particular durante vários séculos. Só os mosteiros, como centros de florescimento econômico e cultural dotados de uma maior segurança, serviram como meios de custódia e de guarda de recursos econômicos, com destaque para a atividade desenvolvida neste campo pelos templários, cuja ordem foi criada em Jerusalém em 1119 para proteger os peregrinos. Os templários chegaram a dispor de recursos financeiros significativos obtidos a saque nas campanhas militares ou como legado de príncipes e senhores feudais. A natureza internacional (dispunham de mais de nove mil centros de atuação com duas sedes principais), em conjunto com o seu aspecto de ordem militar e religiosa, conferia-lhes uma grande segurança na custódia dos depósitos, bem como uma grande autoridade moral, fato que lhes permitia gozar de confiança generalizada. Isto explica que tenham começado a receber depósitos de particulares, tanto regulares como irregulares, mediante cobrança de direitos de custódia, e a se ocuparem também da transferência de fundos, atividade pela qual cobravam uma determinada quota de transporte e proteção. Além disso, fizeram empréstimos com os próprios recursos, ou seja, sem violar o princípio de custódia sobre o que lhes tinha sido depositado à vista. Desta forma, a ordem foi adquirindo uma prosperidade cada vez maior, que suscitou o temor e a inveja de muitos, até que o rei de França, Filipe, o Belo, decidiu dissolvê-la, condenando à fogueira os principais responsáveis (incluindo o Grande Mestre Jacques de Molay) com o objetivo primordial de apropriar-se de todas as riquezas da ordem.

    No final do século XI e começo do século XII começou a se notar um certo ressurgimento comercial e mercantil, sobretudo à volta de Veneza e das cidades italianas do Adriático, Pisa e, mais tarde, Florença, que se especializaram no comércio com Constantinopla e o Oriente. A prosperidade destas cidades levou-as a alcançar um importante desenvolvimento financeiro que motivou um ressurgimento dos bancos, reproduzindo assim o esquema que já estudamos para o mundo clássico. De fato, no princípio os banqueiros respeitavam os princípios jurídicos herdados de Roma, e que estudamos no capítulo I, desenvolvendo a atividade corretamente do ponto de vista jurídico e não fazendo uso indevido do dinheiro que lhes era depositado à vista para guarda e custódia (ou seja, sob a forma de contratos de depósito irregular). Só o dinheiro que lhes era entregue sob a forma de empréstimo ou mútuo (ou seja, como "depósitos" a prazo) era objeto de uso ou empréstimo por parte dos banqueiros enquanto não acabava o prazo acordado.4° Mais tarde, e de forma gradual, os banqueiros voltaram a ser tentados a usar em benefício próprio o dinheiro depositado à vista nos bancos, o que levou ao ressurgimento da atividade bancária com reserva fracionária e constituiu fraude. As autoridades, em geral, não se mostraram capazes de controlar e de fazer cumprir os princípios do Direito e, em muitas circunstâncias, chegaram a conceder privilégios e licenças para que os banqueiros atuassem dessa forma irregular, tirando proveito da atividade fraudulenta dos bancos para obter empréstimos e receitas fiscais e chegando, até, a criar bancos públicos (como a Taula de Canvi ou Banco de Depósito de Barcelona e outros que estudaremos mais adiante)."


    4° "Pelo menos teoricamente, (na Idade Média) os primeiros bancos de depósito não eram bancos de desconto nem de empréstimo. Não criavam dinheiro; antes usavam um sistema de reservas de 100 %, tal como o que alguns monetaristas da atualidade queriam ver ser estabelecido. Os créditos a descoberto (saldos devedores) eram proibidos. Na prática, as normas mostraram ser difíceis de manter, especialmente em casos de emergência pública. A Taula de Valência esteve quase a ponto de utilizar o tesouro nela depositado para comprar trigo para a cidade em 1567. Foram feitos adiantamentos ilegais aos funcionários da cidade em 1590 e, em várias ocasiões, à própria cidade." Charles P Kindleberger, A Financial History of Western Europe, 2nd ed., Oxford University Press, Oxford 1993, p. 49


    "Abbott Payson Usher, na sua monumental obra The Early History of Deposit Banking in Mediterranean Europe, estuda o surgimento gradual dos negócios bancários com reserva fracionária durante a Baixa Idade Média, um processo que se baseia na violação do princípio geral do Direito segundo o qual deve ser mantida a completa disponibilidade do tantundem a favor do depositante. De acordo com Usher, é só a partir do século XIII que alguns bancos privados começam a utilizar em benefício próprio o dinheiro dos depositantes, dando origem à movimentação financeira da reserva fracionária e à capacidade expansiva de geração de créditos daí advinda. Usher considera ainda que este é o fenômeno mais importante e significativo na história do sistema bancário, e não o surgimento dos bancos de emissão, que só aconteceu muito tempo depois, no final do século XVII. Apesar de, como veremos no capítulo IV, os efeitos econômicos advindos da emissão de notas bancárias sem reserva, ou da concessão de empréstimos com fundos dos depósitos à vista, serem exatamente os mesmos, a história dos negócios bancários se caracteriza por ter surgido basicamente em torno desta segunda atividade, e não da primeira."
  • anônimo  02/09/2013 09:49
    Além da questão mercantilista protecionista e dos altos impostos, em que âmbito e como funcionava a intervenção estatal na economia no período entre a idade média e antes da idade contemporânea? Tem algum artigo ou livro sobre isso?
  • anônimo  04/09/2013 04:43
    As corporações de ofício - que deram origem aos modernos sindicatos - eram organizações espontâneas ou tinha a chancela estatal?
  • Guilherme  04/09/2013 04:53
    Não, muito pelo contrário. Eram protegidas pelo governo -- como, aliás, sempre ocorre nestes casos.

    The guilds were identified with organizations enjoying certain privileges (letters patent), usually issued by the king or state and overseen by local town business authorities (some kind of chamber of commerce). These were the predecessors of the modern patent and trademark system.

    […]

    Because of industrialization and modernization of the trade and industry, and the rise of powerful nation-states that could directly issue patent and copyright protections — often revealing the trade secrets — the guilds' power faded. After the French Revolution they fell in most European nations through the 19th century, as the guild system was disbanded and replaced by free trade laws.

    By that time, many former handicraft workers had been forced to seek employment in the emerging manufacturing industries, using not closely guarded techniques but standardized methods controlled by corporations.

    en.wikipedia.org/wiki/Guild


    Desnecessário dizer que a ascensão das guildas se deu por causa das restrições ao livre comércio, e foi isso que levou Adam Smith a se tornar um ferrenho defensor do livre comércio.
  • anônimo  04/09/2013 10:49
    E seria possivel que tais organizações surgissem em um ambiente de livre mercado?


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