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A triste situação dos trabalhadores do setor privado
por Leandro Roque, sexta-feira, 26 de março de 2010

O relatório publicado ontem pelo IBGE sobre a taxa de desemprego de fevereiro confirma o que já vínhamos apontando aqui há muito.  Eis o gráfico das taxas de desemprego:


E eis o trecho esclarecedor, com grifos meus, destacando-se a variação anual (em relação a fevereiro de 2009):

A taxa de desocupação [...] recuou 1,1 ponto percentual em relação a fevereiro de 2009 (8,5%).  A população desocupada [...] recuou (-11,3%) em relação a fevereiro de 2009 (menos 220 mil pessoas).  A população ocupada [...] cresceu 3,5% (mais 725 mil postos de trabalho) em relação a fevereiro de 2009.  

O número de trabalhadores com carteira assinada ... [subiu] em relação a fevereiro de 2009, alta de 6,4% (mais 598 mil empregos com carteira assinada).

O rendimento médio real habitual dos trabalhadores (R$ 1.398,90) subiu 0,9% frente a fevereiro de 2009. A massa de rendimento real efetivo dos ocupados (R$ 30,4 bilhões) caiu 5,2% na análise anual.

Ou seja: o emprego cresce, mas os salários ficam estagnados ou até mesmo caem.  Ou, colocando de outra forma, o emprego cresce justamente porque os salários estão estagnados.

Compare a evolução do rendimento médio real da população ocupada:

rendimento médio real.jpg

De fevereiro de 2003 até fevereiro de 2010, houve um aumento real de 12%.  Em oito anos.  Uma média de 1,4% ao ano.  Vale lembrar que os últimos oito anos foram considerados os de crescimento econômico mais espetacular desde a primeira metade da década de 1970.  Por isso mesmo, o crescimento real da renda pode ser considerado pífio.

Porém, agora vem o pior: os empregados do setor privado com carteira de trabalho assinada foram os que perderam no último ano.  Para estes, o salário real caiu.  Por isso a subida do emprego.  Salários mais baixos aumentam a demanda por mão de obra.

real habitualmente recebido.jpg

Mas a coisa fica ainda pior:

Essa tabela de Excel mostra que o rendimento médio real dos trabalhadores do setor privado com carteira assinada está atualmente no mesmo nível de junho de 2002! 

Você realmente deve clicar na tabela e ver (na coluna da esquerda, desde lá de cima da planilha) que o rendimento real dos trabalhadores do setor privado com carteira assinada caiu continuamente de 2002 até 2010, e só agora voltou àquele nível de 2002.

Isso explica o aumento do número de postos de trabalho com carteira assinada.  Os salários estão estagnados há oito anos, o que de fato estimula a demanda por mão de obra e, consequentemente, o emprego.

Quando se ouve falar que o salário real subiu, está-se levando em conta os salários de toda a população, inclusive funcionários públicos.  Porém, se olharmos exclusivamente os assalariados do setor privado com carteira assinada, a situação fica desesperadora: existe emprego (e é disso que o governo se gaba), mas não existe remuneração.

Esse fenômeno de oferta de emprego relativamente alta e salários constantemente baixos foi explicado aqui, e mais do que nunca permanece válido.  Tristemente válido, aliás, pois é contornável, como explica o artigo.