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"Já que você é tão esperto, por que não está rico?"
por William L. Anderson, segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Após escrever um artigo sobre a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos (TACE), recebi o seguinte e-mail:

Se você conhece a teoria dos ciclos econômicos de Von Mises, então é capaz de prever as expansões e as recessões econômicas.  Assim, é só ficar comprado durante as expansões e vendido durante as recessões que você fará uma fortuna.

Todos vocês devem ser ricos.

Se não são, por quê?

Se todos vocês não são ricos, como explicar isso?

Essa parece ser uma ótima pergunta.

O remetente deste e-mail não estava tentando me oferecer dicas de investimento ou elogiando meu artigo.  O tom era obviamente sarcástico, e o missivista parece acreditar estar apresentando um ótimo argumento contra a TACE.  De fato, ele quer saber se, já que os economistas austríacos são tão versados sobre as origens e o funcionamento dos ciclos econômicos -- e o fazem criticando a abordagem convencional keynesiana --, então seria lógico que os austríacos pudessem ser capazes de transformar toda essa informação em investimentos sólidos que lhes garantissem enormes fortunas pessoais.

Por outro lado, o autor indiretamente sugere que, se os austríacos que alegam concordar com a TACE não estão ricos, então talvez a TACE em si esteja errada.  Afinal, os austríacos têm de estar seguindo os conselhos de investimento de alguém; e se o padrão de investimento de uma pessoa não segue aquilo que ela acredita ser verdade, então tal comportamento seria absurdo.  Ademais, se os austríacos não seguem as teorias que creem ser verdadeiras, então eles estariam praticando um supremo ato de hipocrisia e desonestidade.

Primeiramente, e apenas para fazer uma revelação completa, eu não sou uma pessoa rica.  Tal estado não se deve ao fato de eu ter seguido teorias econômicas erradas; ele é simplesmente o resultado de algumas decisões imediatistas que tomei por conta própria.  Mais ainda: não tenho a intenção de saber o status financeiro pessoal de meus colegas austríacos, e tampouco já os perguntei sobre suas decisões de investimento.  Portanto, não estou em posição de saber se meus colegas são ricos.[1] 

(Pelo contrário, se os austríacos devem ser submetidos ao teste do "por que você não está rico se sua teoria está certa?", então seria justo perguntar a mesma coisa aos keynesianos.  Se a "demanda agregada" gerada pelo governo é a chave para a criação de riqueza, e sabendo-se que o governo está constantemente "estimulando a demanda", então, se todos os keynesianos não estão ricos, faria sentido dizer que tal situação é uma maneira inquestionável de se desacreditar a teoria keynesiana, certo?  Se a intenção é ser consistente -- que é o que o remetente do e-mail está exigindo --, então os keynesianos devem ser julgados pelo mesmo teste.  Entretanto, há uma explicação alternativa; as teorias econômicas que uma determinada pessoa segue não automaticamente se traduzem em riqueza pessoal para essa pessoa.  Colocando de outra maneira, uma pessoa pode estar certa, mas não estar rica.  Da mesma forma, é possível ser rico e não estar certo.  Muitas pessoas ricas defendem teorias malucas e impraticáveis sobre redistribuição de riqueza e coisas afins.)

A TACE já foi explicada inúmeras vezes aqui, mas há algumas coisas que valem a pena ser repetidas.  Para aqueles que ainda não estão familiarizados com a teoria, eu dificilmente conseguirei explicá-la completamente nesses poucos parágrafos (para isso, o melhor e mais conciso texto é este).  Entretanto, pelo bem da simplicidade, vou fazer um esboço de como a TACE funciona.

O primeiro passo envolve as autoridades governamentais -- geralmente por meio dos bancos centrais -- forçando as taxas de juros para níveis artificialmente baixos no intuito de dar um "estímulo" à economia (normalmente o banco central incorre em um agressivo programa de expansão das reservas bancárias, sendo que esse crescimento inicial das reservas ajuda a desencadear um aumento dos empréstimos. Veja esse processo detalhadamente aqui).

Esse incremento dos empréstimos afeta os mercados de capital, sendo que o acréscimo de capital novo ajuda a criar o boom econômico.  Entretanto, como as políticas de empréstimos foram criadas por meio de taxas de juros artificialmente baixas, mais cedo ou mais tarde tornar-se-á aparente que os novos gastos de capital não refletem os hábitos de compra dos consumidores.  Em outras palavras, o boom não é sustentável, e todo o capital que foi mal investido terá de ser ou liquidado ou aplicado em outras atividades.  Durante a recessão, os investimentos errôneos são expurgados da economia, deixando o cenário preparado para a recuperação econômica. 

Bom, deixei de fora grandes porções da teoria, especialmente a explicação sobre como a variável tempo se encaixa em todo o esquema.  Repito, estou fazendo isso de propósito apenas por causa de uma questão de espaço.  Se você quiser aprender sobre a TACE em profundidade, a primeira porção do livro America's Great Depression, de Murray Rothbard, fornece uma explicação clara e detalhada.  Veja aqui.

Uma das coisas que separa a economia austríaca das correntes acadêmicas predominantes (mainstream) é a abordagem do fator tempo.  Os austríacos insistem que o tempo é um fator de produção.  (A teoria mainstream opera sob a irrealista suposição de que os bens de consumo são produzidos e vendidos instantaneamente.  O tempo não tem influência nas abordagens tradicionais.)  A acumulação de capital ocorre ao longo do tempo; os investimentos errôneos ocorrem ao longo do tempo; os ciclos econômicos ocorrem ao longo do tempo.

Além do mais, a TACE é uma teoria qualitativa, e não quantitativa, e baseia-se em uma análise apriorística.  A teoria diz que, sempre que os bancos centrais ativam um processo econômico por meio de uma redução artificial das taxas de juros durante um período de tempo, certos eventos irão ocorrer.  Em uma economia industrializada -- isto é, que possui grandes quantidades de capital -- as relações econômicas fundamentais entre capital e juros serão afetadas de uma maneira previsível.

(Os austríacos, que enfatizam uma análise apriorística da ciência econômica, diferem do mainstream, que se apegam a uma visão a posteriori, também chamada de "positivismo lógico".  Ambos os lados dizem que a teoria econômica deve ser capaz de prever eventos qualitativamente -- por exemplo, controle de preços gerará escassez --, porém os austríacos afirmam que, se as conjeturas são verdadeiras e a teoria é construída logicamente, então a teoria também é verdadeira -- e terá o poder de predizer.  Os positivistas lógicos, por outro lado, dizem que as conjeturas não importam, e que só é possível saber o poder de uma teoria após um evento ter ocorrido.  Logo, a "lei" da demanda, sob esse ponto de vista, não é realmente uma lei, mas sim uma hipótese que deve ser constantemente "testada" para ver se ele se "mantém verdadeira" até as últimas condições.)

Tendo estabelecido essas coisas, já estou apto a explicar por que a TACE é uma teoria qualitativa sobre os ciclos econômicos, e não uma teoria sobre estratégias de investimentos diários.  Sempre que o banco central ajuda a criar um boom insustentável, os austríacos sabem que esse boom irá terminar em colapso.  O que os austríacos não sabem é quanto tempo durará o boom e quando virá o colapso.  Uma coisa é ter uma ideia geral de quando essas coisas irão ocorrer; outra coisa, bem diferente, é ter o conhecimento específico necessário para se aventurar no tipo de especulação financeira na qual os aplicadores ficam comprados e vendidos.

Por exemplo, em agosto de 2000 eu escrevi que a "Nova Economia" preconizada pelo mainstream estava prestes a entrar em colapso, e quatro meses depois expliquei por que as empresas pontocom, que haviam se tornado as queridinhas da mídia no início daquele ano, estavam a pique.  Dois meses depois, anunciei uma recessão que oficialmente ainda não havia sido declarada, mas que já se avolumava logo à frente.

Que fique claro: não fiz essas previsões porque era um operador que trabalhava sob o efeito de entorpecentes, mas sim porque conhecia e acreditava na TACE.  Não, eu não fiquei comprado durante a bolha da NASDAQ; tampouco fiquei vendido quando o índice começou sua queda livre.  (Sim, eu gostaria de ter feito essas coisas, mas a minha desculpa é que eu estava fazendo pós-graduação à época, e alunos da pós são pobretões demais para se aventurarem em especulação de ações, principalmente quando não se tem os meios com os quais especular.)

Em artigo recente no The Independent Review, Mark Thornton mostrou que os economistas que mais acuradamente previram a bolha do mercado de ações, o colapso e a subseqüente recessão foram os austríacos.  Será que todos eles estavam comprados e subsequentemente tornaram-se vendidos?  Isso importa, tendo em vista que eles acertaram suas previsões?[2]

Em última instância, o poder da TACE não está no fato de se alguns economistas da Escola Austríaca jogaram os dados em um determinado dia e ganharam dinheiro no mercado financeiro.  O poder da TACE está baseado em sua capacidade de explicar as causas fundamentais dos ciclos de expansão (boom) e recessão.  Enquanto políticos e economistas americanos, que deveriam ter melhor ciência da teoria, estavam ocupados aclamando a "Nova Economia" -- tornada possível, acreditavam eles, pelas maiores alíquotas do imposto de renda e pela política monetária frouxa do Fed -- os austríacos seguiam uma partitura muito diferente.

No final, descobriu-se que não havia essa tal "Nova Economia", e que o que quer que fosse o sustentáculo dos agitados anos 1990 não poderia ser algo duradouro, pois estava todo construído sobre uma base de inflação monetária.  Os austríacos -- e somente os austríacos -- perceberam essa verdade durante todo o tempo.  Que seus conhecimentos não os tenham tornados todos milionários é algo que não desabona o fato supremo de que eles sabiam o que se passava, por que aquilo estava ocorrendo e como aquilo iria acabar.

Obs: esse artigo foi escrito em janeiro de 2005.

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[1] N. do T.: Não podemos deixar de mencionar que Peter Schiff e Jim Rogers, ambos misesianos, não estão nada mal financeiramente.  Schiff foi o economista que previu com mais acurácia a atual crise financeira, e Rogers tornou-se uma lenda quando, na década de 1980, criou um fundo de investimento cujo portfólio ganhou 4.200% ao mesmo tempo em que a S&P 500 ganhou apenas 47%.

[2] A história se repetiu agora com a crise imobiliária americana e a consequente recessão mundial.  Os austríacos foram os únicos que previram e explicaram o que estava acontecendo, como pode ser comprovado por essa coletânea de artigos.  Alguns deles estão traduzidos aqui.