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Quem já viu uma bolha de ativos está com sensação de déjà-vu
por Helio Beltrão, quarta-feira, 3 de março de 2021

Um modelo mental importante para o bom investidor é a familiaridade com a história financeira e o reconhecimento de seus padrões no contexto contemporâneo. 

Quem já viu uma bolha talvez ande com sensação de déjà-vu.

O mercado financeiro é povoado por especialistas comumente desprovidos de sabedoria multidisciplinar, que muitas vezes nem vivenciaram um ciclo econômico completo.

O caso do investidor novato é ainda mais frágil. A história não se repete, mas rima.

A trágica mistura de inflação e recessão no mundo ao longo dos anos 1970, denominada "estagflação", foi considerada por muitos a ruína da política inflacionária keynesiana em voga. Estava ancorada na curva de Phillips, que indicava estatisticamente uma relação inversa entre desemprego e inflação.

Os keynesianos passaram a considerá-la uma lei da economia: "O governo sempre pode diminuir o desemprego gerando mais inflação". 

É o clássico engano de extrapolar uma observação estatística para uma política pública por meio de generalização excessiva.

Deu tudo errado: a estagflação empobrecedora perdurou até o pragmático Paul Volcker assumir o Fed, em 1979, e controlar a inflação jogando os juros nas alturas e interrompendo a impressão de dinheiro.

Esse keynesianismo raso já havia morrido e ressuscitado anteriormente. Sua origem é o mercantilismo dos séculos 17 e 18, mais tarde destronado por Adam Smith e demais liberais clássicos. Keynes ressuscitou o vampiro nos anos 1930. 

Parafraseando a canção atribuída erroneamente a Raul, "se emprego fosse álcool, eu morria de cirrose; se inflação fosse droga, eu morria de overdose". Por sinal, poucos notaram que a lei da autonomia do BC a ser sancionada em breve pelo presidente ressuscitou o emprego como meta secundária de política monetária.

Poderíamos todos gritar: "Toca rima grave, Raul!"

Muitos acharam que F. A. Hayek e Milton Friedman haviam fincado estacas de madeira letais no vampiro, munidos por boa teoria e dados empíricos. Venceram, mas não levaram. Apenas afastaram temporariamente a ameaça com "livros sagrados". Ocorre que políticos adoram gastar e inflacionar. Emprestam prestígio e espaço a teorias que justifiquem o que desejam. O vampiro quer sangue.

Nesta década, a teoria-mascote dos políticos é a Teoria Monetária Moderna (Modern Monetary Theory, ou MMT), o novo codinome para o inflacionismo. É uma conveniente racionalização para o que os governos já vêm fazendo desde o ano passado: abrir todas as torneiras do gasto público e da impressão de dinheiro, simultaneamente, como nunca na história.

Essa é a receita para uma bolha de ativos de risco e, presumidamente, para a ressurreição da inflação. Nesta terça (2 de março de 2020), os mercados sofreram com a declaração do regulador bancário chinês de que "o problema da bolha nos mercados financeiros americanos e europeus, resultado de política monetária ultra-agressiva, pode estourar".

De fato, várias classes de ativos estão com preços que parecem insustentáveis. 

As empresas de tecnologia cotadas na Nasdaq estão com P/L de cerca de 60, similar ao ano de 1999, seis meses antes do estouro da bolha de tecnologia, em março de 2000. Rima emparelhada.

As taxas dos títulos de empresas de alto risco estão historicamente em seu nível mais baixo, próximas a 4% ao ano, taxa equivalente à que as empresas de menor risco do mundo, classificadas como AAA, pagavam cinco anos atrás. Rima imperfeita.

Hoje, todos fogem de renda fixa para ações. Remete à famosa história apócrifa de Joe Kennedy (pai do então futuro presidente americano), que, ao receber dicas de ações de seu engraxate, concluiu que era hora de vender as suas. Engraxate rima com disparate.