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Exatamente como previsto, a guerra comercial fracassou em recriar empregos na indústria
por Brad Polumbo, quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Donald Trump foi eleito em 2016 com uma agenda contrária ao livre comércio com determinados países (principalmente China e México), prometendo que tarifas de importação e demais medidas protecionistas iriam restaurar o emprego no setor manufatureiro dos EUA.

Após ser eleito, o presidente americano efetivamente impôs tarifas sobre a importação de produtos chineses equivalentes a centenas de bilhões de dólares, com o objetivo de desestimular as importações e substituí-las pela produção nacional. Ele próprio se auto-descreveu como "o homem das tarifas" e disse que "guerras comerciais são boas e fáceis de ganhar".

Qual foi o resultado prático de toda essa retórica?

Um análise dos dados feita pelo The Wall Street Journal, um jornal abertamente pró-Trump, faz uma grande revelação sobre os resultados da guerra comercial até o momento. E estes não são nada bonitos — embora totalmente previsíveis.

Eis a conclusão:

A guerra comercial do presidente Trump contra a China não alcançou o objetivo central de reverter o declínio do setor industrial americano, mostram os dados econômicos. […]

Um outro objetivo — trazer indústrias de volta aos EUA — também não ocorreu. O crescimento do emprego na indústria começou a desacelerar em julho de 2018, e a produção industrial chegou ao pico em dezembro de 2018, quando começou a cair.

Este gráfico mostra de maneira cristalina que as tarifas de Trump não tiveram êxito em promover o emprego no setor industrial. Imediatamente antes do início da pandemia de Covid-19, todo o aumento do emprego no setor industrial já havia sido totalmente revertido. 

Mais ainda: praticamente todos os ganhos de emprego no setor industrial ocorreram antes das tarifas sequer entrarem em prática.

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Gráfico 1: alteração anual do número de empregos industriais nos EUA, de janeiro de 2017 até o presente. A linha vertical pontilhada mostra o momento em que as tarifas de importação entraram em prática. Crédito da imagem: The Wall Street Journal

Esta notícia é desalentadora, claro, mas nada surpreendente.

A esmagadora maioria dos economistas (os sérios) concordam que tarifas de importação não têm como funcionar e alcançar seu objetivo (reindustrialização e aumento do emprego neste setor) simplesmente porque tarifas de importação são um imposto sobre os consumidores.

Tarifas de importação nada mais são do que impostos sobre a compra de bens importados. A mercadoria importada chega ao porto, desce do navio e um burocrata da alfândega impõe uma taxa ao valor total que o importador pagou, taxa essa que é repassada ao consumidor final.

Impostos mais altos sobre a compra de bens importados representam um subsídio às empresas nacionais, pois eles impedem que os estrangeiros possam utilizar preços baixos para concorrer com a indústria nacional.

Ao reduzir a variedade de opções disponíveis para os consumidores nacionais, as tarifas permitem que a indústria nacional cobre preços mais altos do que aqueles praticados por produtores estrangeiros.

Portanto, quem afirma que tarifa de importação gera industrialização e emprego está afirmando que aumento de impostos sobre o consumo, e um consequente aumento de preços para os consumidores, geram industrialização e emprego.

Com efeito, em uma pesquisa de 2016 realizada entre economistas, absolutamente nenhum concordou com a afirmação de que aumentar tarifas sobre determinados bens iria estimular a produção doméstica. Nada menos que 93% discordaram ou discordaram fortemente, ao passo que 7% não responderam.

A explicação lógica 

"Tarifas de importação que protegem empregos na siderurgia significam preços mais altos para o aço, o que, por sua vez, significa menos vendas de produtos nacionais à base de aço (tanto dentro do país quanto para o resto do mundo). Isso leva a perdas de empregos nestes outros setores em um número maior do que o número de empregos protegidos", explicou o economista Thomas Sowell.

"Os benefícios de uma tarifa de importação são visíveis", disse Milton Friedman. "Os sindicatos podem ver que estão sendo "protegidos". Já o estrago que a tarifa faz é invisível. Ele é amplamente difuso. Há várias pessoas que perdem seus empregos por causa das tarifas, mas não sabem".

O problema com tarifas é que, de modo geral, elas destroem mais empregos do que protegem. Para cada emprego "protegido" por uma tarifa, vários outros são extintos em indústrias que utilizam o bem tarifado (e agora mais caro) como insumo em sua produção. Seus custos de produção sobem, e a solução passa a ser cortar mão-de-obra e automatizar.

Dois exemplos práticos famosos

Em março de 2002, o então presidente George W. Bush impôs uma tarifa de 30% sobre o aço chinês. O objetivo, obviamente, era proteger empregos no setor siderúrgico.

Só que havia um problema: o número de trabalhadores que utilizam aço como matéria-prima é muito maior do que aqueles que produzem aço.

Há aproximadamente 200.000 de trabalhadores nas indústrias de aço, alumínio e ferro, e há nada menos que 6,5 milhões de trabalhadores empregados em indústrias que utilizam aço e alumínio como matéria-prima para seus produtos — empresas que fabricam de tudo, desde caminhões, automóveis e maquinários pesados até latas de cerveja e aramados para galinheiro.

Consequentemente, os resultados dessa tarifa foram caóticos, embora totalmente previsíveis pela teoria econômica.

Segundo uma extensa pesquisa realizada por um conglomerado de indústrias de bens de consumo, as tarifas contra a China aumentaram os preços do aço (óbvio) e, como consequência, eliminaram 200.000 empregos naqueles setores que compram aço para usar em seus processos de produção.

À época, esses 200.000 empregos eliminados da economia eram mais do que o número total de pessoas que trabalhavam nas siderúrgicas, e representaram US$ 4 bilhões em salários perdidos.

Eis as conclusões do estudo:

  • 200.000 americanos perderam seus empregos em decorrência do aumento dos preços do aço em 2002. Esses empregos perdidos representaram aproximadamente US$ 4 bilhões (US$ 5,5 bilhões em valores atualizados) em salários perdidos de fevereiro a novembro de 2002.
  • Um em cada quatro (50.000) destes empregos perdidos foi nos setores de produção de metais, de maquinários, de equipamentos e de transportes, bem como no de peças de reposição.
  • O número de empregos eliminados cresceu continuamente ao longo de 2002, chegando a um pico de 202.000 empregos em novembro.
  • O número de americanos que perderam seus empregos em 2002 em decorrência do encarecimento do aço foi maior que o número total de empregos nas próprias siderúrgicas (187.500 americanos estavam empregados nas siderurgias americanas em dezembro de 2002).
  • Clientes que consumiam produtos fabricados com aço americano trocaram de produtos e passaram a consumir mais estrangeiros, uma vez que o aço americano, protegido da concorrência, tornou esses produtos menos confiáveis e mais caros. Algumas empresas, incapazes de aumentar seus preços em decorrência do maior custo do aço, tiveram elas próprias de absorver todo o aumento de custos de produção, o que as deixou em situação financeira precária.

Em dezembro de 2003, Bush teve um lampejo de bom senso e aboliu essa tarifa, a qual só causou estragos à economia. Não coincidentemente, a recuperação econômica veio em 2004.

Entra em cena Obama, que aparentemente não havia aprendido nada com seu antecessor.

Em 2009, ele impôs uma tarifa de 35% sobre pneus chineses. O motivo foi o mesmo de sempre: as fabricantes americanas estavam reclamando de "concorrência desleal" dos chineses.

Em janeiro de 2012, o próprio Obama se gabou dizendo que "mais de 1.000 americanos têm um emprego hoje porque interrompemos esse surto de pneus chineses". Estima-se que 1.200 empregos na indústria americana de pneus foram protegidos por essa tarifa.

Mas, como sempre na economia, há o que se vê e o que não se vê.

De acordo com este completo e aprofundado estudo do Peterson Institute for International Economics (reconhecido até mesmo por fontes de esquerda), essas tarifas obrigaram os americanos a pagar US$ 1,1 bilhão a mais por pneus americanos.

Ou seja: embora 1.200 empregos tenham sido protegidos na indústria americana de pneus, o custo por emprego mantido foi de impressionantes US$ 900.000 naquele ano.

Mais ainda: segundo o Bureau of Labor Statistics [o IBGE americano], o salário médio anual de pessoas que trabalhavam na indústria de pneus era de US$ 40.070. 

E piora: como os consumidores americanos tiveram de pagar US$ 1,1 bilhão a mais em pneus, eles não puderam usar esse dinheiro para comprar bens e serviços de outros setores. Consequência? Aproximadamente 4.000 americanos (3.731, para ser mais exato) perderam seus empregos nestes setores.

Ou seja: 1.200 empregos salvos a um astronômico custo de US$ 900.000 por emprego versus 3.731 empregos destruídos pela tarifa.

E um adendo: a maior parte do US$ 1,1 bilhão a mais que os americanos pagaram em decorrência dos pneus mais caros não se traduziu em aumentos salariais para os trabalhadores da indústria de pneus. Segundo o estudo do Peterson Institute, apenas 5% deste valor foi para o bolso dos empregados. Os 95% restantes viraram bônus corporativos.

Tarifas servem para isso mesmo.

Assim com Bush, Obama também acabou tendo um lampejo de bom senso, e seu governo aboliu a tarifa em 2012.

Para concluir

No caso das tarifas de Trump, não apenas várias indústrias sofrerem em troca da proteção de algumas poucas, como também as tarifas geraram, como era de se prever, uma ação retaliatória da China, a qual piorou ainda mais a situação.

Segundo o The Wall Street Journal:

Uma análise detalhada, indústria por indústria, feita pelo Federal Reserve mostrou que as tarifas estimularam o emprego em 0,3% naquelas indústrias expostas à concorrência com a China. Porém, este ganho foi mais do que contrabalançado pelos agora maiores custos de se importar produtos e equipamentos chineses, o que reduziu o emprego industrial geral em 1,1%. […]

Tarifas retaliatórias impostas pela China contra produtos americanos reduziram empregos industriais nos EUA em 0,7%. 

Sem nenhuma surpresa, temos mais uma comprovação empírica da velha teoria: tarifas matam mais empregos do que criam. Para cada emprego "protegido" por uma tarifa, vários outros são extintos.

Nenhum economista tem o direito de se surpreender com isto.