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Como mostra este fenômeno, a solução para a mobilidade urbana está na descentralização
por Jeffrey Tucker, domingo, 2 de junho de 2019

Nota do editor

O artigo abaixo foi originalmente publicado em maio de 2018. À época, o fenômeno das patinetes ainda não havia chegado ao Brasil. Hoje, já é um grande sucesso em São Paulo. Porém, como tudo o que funciona bem e agrada aos consumidores, a inovação está sob ataque dos burocratas da prefeitura. 

Após confiscar 557 patinetes, o próprio prefeito, Bruno Covas (PSDB), veio a público e inacreditavelmente disse que "Governar é como cuidar do filho adolescente. Temos que fazer o que é bom para ele, não o que ele pede. Ele vai reclamar, mas um dia vai entender e reconhecer".

Por uma questão de decência, vamos nos eximir de comentar.

Confira no artigo abaixo como as previsões feitas à época se concretizaram.

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Diga-me se isso já aconteceu com você. Você está em seu carro em uma grande cidade, locomovendo-se a uma velocidade de cágado devido ao congestionamento. E então você vê um pedestre passando por você. O trânsito flui um pouco e você ultrapassa esse pedestre. Logo em seguida, o trânsito volta a parar e esse mesmo pedestre ultrapassa você. E assim vai. Passados uns 15 minutos, esse pedestre já está uma quadra à sua frente.

E aí você pensa: creio que estaria em melhor situação se estivesse a pé. Além de mais rápido e de não ter chateação para estacionar, não estaria gastando combustível.

Mas tem de haver uma alternativa melhor.

Os aplicativos de transporte -- como Uber, Cabify, Lyft etc. -- têm se mostrado uma sólida alternativa a dirigir o próprio carro. Eles acabaram com o monopólio dos táxis (protegido e impingido pelo estado) e isso foi maravilhoso. Eles se transformaram em uma indispensável fonte de renda para pessoas que até então estavam desempregadas ou que necessitavam de uma segunda renda, além de terem sido a salvação para várias pessoas que descobriram que ganhar dinheiro utilizando o próprio carro para rodar pela cidade é melhor do que ficar preso a uma mesa em um escritório.

No entanto, as grandes metrópoles estão agora lidando com a realidade de que esta solução ainda é imperfeita. Os aplicativos de transporte ainda utilizam carros. Ainda necessitam de ruas. No que tange à mobilidade urbana, há quem alegue que os aplicativos de carona podem piorar tudo.

Patinetes elétricos

Eis algo realmente incrível. Neste exato momento, nas ruas do centro de Atlanta, há várias patinetes elétricas estacionadas (ver foto acima), à espera do próximo cliente. Eu tenho um aplicativo em meu smartphone que me mostra exatamente onde elas estão. Posso sair do meu escritório e ir direto a uma delas. Ato contínuo, escaneio o QR code da patinete com meu smartphone. Ela destrava. Subo nela, pressiono a alavanca e vou-me embora, a 25 km/h.

Locomovo-me rapidamente pelas ruas (e calçadas), deixando todo tráfego para trás. Chego a um restaurante (ou a qualquer outro estabelecimento) e estaciono a patinete elétrica onde quiser, e a deixo ali. O próximo cliente vem, monta nela e faz o mesmo. E assim vai, durante todo o dia, e até mesmo toda a noite, ao redor de toda a cidade.

Essas maravilhosas patinetes elétricas custam US$ 1 por viagem, mais US$ 0,15 por milha (o equivalente a US$ 0,09 ou R$ 0,33 por quilômetro). Você também pode se inscrever para se tornar um carregador (fornecer energia elétrica para recarregar a bateria) e ganhar entre US$ 5 e US$ 20 por hora apenas para ligar a patinete a uma tomada.

E como elas não são roubadas? Simples. Se você montar em uma patinete e tentar se locomover sem ter sido autorizado pelo aplicativo, ela se trava automaticamente. Elas não vão para lugar nenhum sem que a empresa proprietária dela possa acompanhar.

Pessoalmente, considero todo esse arranjo sensacional. A empresa criadora da ideia, a Bird, já tomou várias cidades de surpresa, despejando centenas de patinetes elétricas ao redor delas. E já há outras duas empresas concorrentes (Spin e Lime) fazendo o mesmo. Elas operam em San Francisco, Nashville, Austin, Atlanta, Santa Monica, Silver Spring, Washington, D.C., St. Louis, Charlotte e outras. Essas três empresas estão concorrendo entre si para auferir aquilo que a literatura chama de "vantagem do pioneiro" (o primeiro a entrar em um mercado aufere as maiores taxas de lucro). Faz todo o sentido para elas simplesmente saírem espalhando suas patinetes pela cidade antes de implorarem a permissão das autoridades municipais.

E, é claro, assim como ocorreu com a Uber, já está havendo oposição. Pessoas estão reclamando que as patinetes estão andando rapidamente pelas calçadas, sendo que elas deveriam usas as ciclovias (quando estas existem). A própria novidade da coisa, bem como a emoção de se locomover em uma patinete elétrica, está fazendo com que alguns usuários sejam ostentadores em suas exibições de técnicas de condução, o que está irritando algumas pessoas. Mas, acima de tudo, os burocratas das administrações municipais estão muito zangados porque nenhum empreendedor veio rastejando até eles implorar por permissão para operar.

E, dado que nada afeta mais um burocrata do que ser ignorado (eles exigem ser vistos como soberanos que a tudo controlam), o contra-ataque já começou. A câmara municipal de Nashville, por exemplo, já emitiu uma ordem de cessação e desistência para a empresa Bird. "Nossos funcionários do Governo Metropolitano já observaram que as patinetes elétricas da Bird estão obstruindo as calçadas públicas", escreveu a procuradora da prefeitura em uma carta para o diretor de relações da Bird. Mas que terrível! Patinetes estacionadas nas calçadas!

Neste vídeo, um veículo de esquerda (que supostamente deveria ser a favor do empreendimento, pois é "ambientalmente correto") ataca as empresas que fornecem as patinetes, pois elas "operam sem pedir permissão para o governo".

Assim como os aplicativos de transporte em geral, é de se admirar a maneira como essas empresas estão agindo: elas estão perfeitamente cientes de que têm muito mais a perder ao não agirem (ou seja, ao não empreenderem) do que ao lidarem com vereadores vingativos e suas coortes burocráticas.

A Uber foi a pioneira em incomodar prefeituras com a tática de "fazer agora e lidar com a burocracia e com as permissões depois". O então CEO da Uber Travis Kalanick não apenas corajosamente forçou a entrada da empresa em vários mercados fechados e protegidos pelo estado -- ao simplesmente sair operando sem pedir permissão para burocratas --, como também teve a coragem (e o sangue-frio) de gastar milhões de dólares com os trâmites judiciais necessários para legalizar a Uber em vários outros países. Várias outras empresas perceberam essa estratégia e fizeram o mesmo (muitas simplesmente pegando carona no sucesso da Uber, que foi quem desbravou tudo).

Apesar de todos os ataques coordenados e de todo o frenesi da mídia, a tática funcionou. Governos e seus burocratas sempre são muito mais lentos que empreendedores agindo no livre mercado. Se você quer ser um empreendedor de sucesso, você tem de agir com coragem e inovar a uma grande velocidade. Em alguns casos, isso significa abalar cartéis e oligopólios já entrincheirados e protegidos pelo estado.

Tudo isso é apenas parte da solução

É claro que patinetes elétricas, por si sós, não resolverão a complicada questão da mobilidade urbana. No entanto, tão logo você vivencia esse arranjo, torna-se incrivelmente óbvio que ele pode ser uma empolgante parte da solução para esse problema, o qual, há décadas, atormenta quem vive nas cidades grandes.

Permitir que pessoas se locomovam a distâncias relativamente grandes de forma barata e eficiente, e sem causar congestionamentos, sempre foi o objetivo de toda e qualquer política de mobilidade urbana. Uma solução já começa a surgir. Se os mais jovens se apegarem a ele (não imagino ver idosos utilizado o aparelho), uma parte substantiva da demanda pelo transporte público poderá ser reduzida.

Assim, o que é realmente fascinante é o método pelo qual a solução está sendo encontrada. Inúmeras tentativas já foram feitas em todas as cidades para tentar planejar a mobilidade urbana, sempre se utilizando uma abordagem "de cima para baixo": faixas exclusivas para ônibus e táxi, rodízio, pedágios, expansão do metrô, quantidade mínima de pessoas por carro, obrigatoriedade de se compartilhar o mesmo carro entre colegas de trabalho, mais ônibus etc. E o problema sempre persistiu.

E então veio a internet. E depois vieram os aplicativos. E então veio a possibilidade de utilizá-los para conseguir transporte por meio de novas empresas que ofereciam novas soluções. Depois vieram os próprios aplicativos de carona. E depois vieram os aplicativos de aluguel temporário de imóveis (como o AirBnB). E, agora, essas incríveis patinetes elétricas estão surgindo por todos os cantos das grandes cidades (graças ao comércio internacional; a empresa chinesa Ninebot é uma grande fornecedora do aparelho). E, como é típico do setor privado, as soluções são economicamente eficientes, pró-consumidor, eficazes e também divertidas.

Com efeito, mais uma vez estamos vivenciando aquela dicotomia semântica: ao passo que o setor privado oferece mais uma genuína solução pública, a típica solução do "setor público" sempre se resume apenas a alimentar os interesses eleitorais de indivíduos privados. Enquanto o mercado e a livre concorrência beneficiam o público, as soluções de governo beneficiam apenas os entes privados nelas envolvidos (políticos, burocratas e empresas licitadas).

Como Mises sempre explicou, as raízes das soluções de mercado estão na propriedade privada, e essa propriedade, em última instância, beneficia o público.

Conclusão

A ascensão das patinetes elétricas urbanas -- permitida pelos aplicativos -- é um fantástico exemplo de como o mercado gera soluções para problemas sempre tidos como incuráveis. Quanto mais as pessoas se adaptarem a essas fantásticas máquinas, mais leve será o tráfego, mais limpa será a cidade, e mais felizes (e mais saudáveis) serão as pessoas.

Observe que nenhum planejador central jamais teve essa ideia. Ela surgiu de empreendedores atuando no livre mercado em busca do lucro. Mais especificamente, essa ideia surgiu através de discretas formas de inovação (patinetes elétricas) que utilizam o melhor da tecnologia moderna (os aplicativos) e que foram combinadas para solucionar uma demanda específica (locomoção rápida e barata) para um problema específico (dificuldade de locomoção).

Agora, em minha patinete elétrica, deixo para trás não só o cara que está caminhando apressado, como também, e incrivelmente, até mesmo os motoristas que se rastejam em nossas congestionadas ruas.

Seja paciente. O mercado irá encontrar uma solução para os nossos problemas.