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Se a economia mista é tão ruim, por que este arranjo é o preferido?
por Diversos Autores, terça-feira, 10 de abril de 2018

N. do E.: o artigo a seguir foi adaptado à realidade brasileira

A ideia de que a economia deve ser planejada chegou ao ápice ainda no longínquo ano de 1937, quando a editora Prentice-Hall publicou um tomo de 1.000 páginas intitulado The Planned Society: Yesterday, Today, Tomorrow: A Symposium by Thirty-Five Economists, Sociologists, and Statesmen. (A Sociedade Planejada: Ontem, Hoje, Amanhã: Um Simpósio com 35 Economistas, Sociólogos e Estadistas).

No prefácio, o famoso historiador e sociólogo americano Lewis Mumford escreveu que "a questão que nos aflige hoje não é se devemos planejar ou não a economia, mas sim como devemos planejá-la".

Todos os colaboradores do livro -- keynesianos, socialistas, comunistas e fascistas -- concordavam neste ponto, incluindo notáveis como Benito Mussolini, Joseph Stalin e Sidney Hook.

Mas ao menos o livro era honesto e sincero. Ele colocava no mesmo balaio Stalin e Keynes, o fascismo e o New Deal, mostrando que todos tinham as mesmas idéias econômicas. Os planos de cada um não eram idênticos, obviamente, mas todos eles concordavam que o governo era "racional" e que o livre mercado era "caótico", sendo, portanto, preferível ter "racionalidade" do governo ao "caos" do livre mercado.

A maioria dos autores defendia a "economia mista", um arranjo econômico que mistura capitalismo e socialismo. Ludwig von Mises, ainda em 1921, já havia acabado com essa noção de que você pode combinar o "melhor" do socialismo e do capitalismo. Não existe isso de "o melhor" do socialismo, escreveu ele, pois mesmo uma pequena quantidade de socialismo distorce o funcionamento de uma sociedade livre. Qualquer tentativa de mistura é necessariamente instável, e inevitavelmente levará a economia na direção do estatismo.

Esta previsão de Mises não apenas se concretizou, como, pior ainda, estamos hoje vivenciando e sentindo suas consequências.

Nossa realidade

Apenas veja a economia na qual você vive: não há uma única área dela que não seja afetada pelos gastos do governo, que passe incólume pelas consequências dos déficits orçamentários, que não seja sufocada pela burocracia e por impostos, e que não seja estritamente controlada e protegida por agências reguladoras.

Defendido por quase todos os economistas, o estado regulatório hoje domina e arruína a economia. O comunismo perdeu, mas a social-democracia triunfou e reina soberana.

Na economia mista na qual vivemos, é função do estado planejador:

  • garantir o "pleno emprego" (dado que as próprias políticas do governo federal geram desemprego);
  • estimular a "inovação tecnológica" (não por meio do mercado, mas por meio de subsídios);

Para o estado planejador, tudo o que há de bom é decorrência de suas ações; e tudo o que há de ruim é culpa de interferências de externas.

Mais ultrajantes ainda são as mentiras patológicas. Os políticos, burocratas e todos os seus defensores insistem em querer nos fazer acreditar que:

  • o governo pode criar um pleno emprego -- sendo que suas políticas econômicas não apenas destroem empregos como ainda impedem a criação de novos empregos ao artificialmente encarecer a mão-de-obra, ao criar burocracias que atazanam os pequenos empreendedores e ao criar um terrorismo tributário que coloca qualquer empreendedor na condição de criminoso;
  • é o governo quem melhora nosso padrão de vida -- sendo que, sempre que o governo decide criar políticas para melhorar nosso padrão de vida, este desaba;
  • o governo protege o consumidor e estimula a concorrência -- sendo que, principalmente nos grandes setores, a concorrência foi abolida pelo governo, em prol das grandes empresas já estabelecidas e contra os interesses dos consumidores. Setores bancárioaéreotelefônicointernetelétricopostos de gasolina etc. -- em todos eles a concorrência foi abolida pelas agências reguladoras para proteger as empresas já estabelecidas e prejudicar a liberdade de escolha dos consumidores;
  • o governo combate a pobreza -- sendo que suas políticas fiscal, monetária, tributária, trabalhista, social, imobiliária e comercial apenas mantêm os pobres na pobreza.

Em última instância, um único raciocínio dá sustento a todas essas políticas: a ideia de que políticos, burocratas e reguladores são mais espertos e oniscientes do que todos os indivíduos da sociedade praticando trocas livres e voluntárias, poupando, investindo, produzindo, vendendo e comprando voluntariamente no livre mercado.

Não tem como dar certo.

Os custos e por que o arranjo perdura

Quanto essa economia mista nos custa? Impossível saber. 

Impossível calcular os efeitos das tecnologias que deixaram de ser criadas, das empresas que deixaram de ser abertas, dos empregos que deixaram de ser gerados, das recessões geradas pelas políticas do governo, da destruição da moeda efetuada pelo governo, e dos preços artificialmente mais altos por causa de impostos, burocracia, regulamentações e gastos do governo.

Sabemos apenas que o efeito é gigantesco e destruidor. E está só aumentando.

Mas se a economia mista é todo esse desastre, por que ainda insistimos nela?  

Simples: porque ela permite que aqueles bem-conectados politicamente espoliem a todos nós em um arranjo social-democrata disfarçado de "capitalismo democrático".

Porque ela permite que grandes empresas não concorram abertamente no livre mercado -- no qual teriam de encarar desafios e sofrer prejuízos --, em vez disso sendo protegidas e socorridas pelo governo.

Porque ela permite que milhões de indivíduos ganhem a vida trabalhando para o governo, onde os salários são gordos, há estabilidade e as cobranças são quase inexistentes, e não na iniciativa privada, onde há cobranças, exigência de resultados e nada é garantido.

Porque ela permite que várias pessoas alcancem seus objetivos mesmo sendo improdutivos e sem ter de satisfazer os desejos dos consumidores, mas sim por meio do parasitismo e da espoliação dos produtivos.

Porque ela permite que grandes empresários ganhem dinheiro por meio de privilégios especiais concedidos pelo governo em vez de por meio da produção de bens e serviços de qualidade, e da satisfação dos consumidores.

Porque os grandes empresários sempre preferem receber subsídios, privilégios, e ser protegidos por tarifas de importação e agências reguladoras.

Porque a classe política prefere viver parasiticamente à custa do trabalho dos outros e adora exercer seu vasto poder sobre toda a população.

Porque lobistas e grupos de interesse sempre conseguem (tanto de forma legal quanto ilegal, mas sempre imoral) ganhar benefícios especiais quando recorrem ao estado.

Porque outros milhões preferem viver de assistencialismo.

O único antídoto contra a economia mista é a adoção de um mercado livre e irrestrito, sem protecionismos, privilégios e barreiras à entrada em qualquer mercado. Mas isso inevitavelmente passa pela redução brutal do tamanho do governo e pela consequente assunção de responsabilidade própria por cada indivíduo -- do pobre ao megaempresário protegido --, que não mais poderá contar com o dinheiro alheio para viver.

Mas tamanho nível de responsabilidade própria ninguém quer.

O livro A Sociedade Planejada, citado lá no início, não mencionou tudo isso, mas é fato que vivenciamos hoje o inevitável resultado de tudo aquilo que ali foi recomendado.