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O livre comércio, mesmo quando adotado unilateralmente, só traz ganhos
por Alexandre Garcia de Carvalho , segunda-feira, 5 de março de 2018

"Livre comércio só é bom quando é para ambos [os países envolvidos numa relação bilateral de comércio]".

Esta afirmação, que tem repercutido nas mídias sociais e sido objeto de fervorosas polêmicas, seria verdadeira?

Frequentemente, as pessoas no Brasil optam por comprar componentes eletrônicos, automóveis, eletrodomésticos, telefones e outras mercadorias de pessoas que produziram essas coisas na Coreia do Sul. Em 2016, o valor das vendas dos coreanos para os brasileiros superou os US$ 5 bilhões.

É tão forte a preferência nacional por esses produtos sul-coreanos, seja pela sua qualidade, preço, ou uma combinação de ambos, que, para comprá-los, os brasileiros concordam em submeter-se a tarifas, cotas, barreiras e exigências kafkianas impostas por políticos e burocratas brazucas.

E fazem isso repetidamente, de livre e espontânea vontade, ano após ano, mesmo havendo uma infinidade de alternativas de mercadorias similares, produzidas no Brasil mesmo e também ao redor do mundo. Só pode ser porque muitos brasileiros têm confirmado, por experiência própria, repetidas vezes, que saem ganhando quando escolhem comprar dos coreanos.

Não fosse essa preferência claramente demonstrada pelos brasileiros, não haveria tantos produtos sul-coreanos em nosso mercado. Questão de lógica.

As pessoas na Coreia do Sul, da mesma forma, ao continuarem se dando ao trabalho, por anos a fio, de fabricar, vender, transportar para o outro lado do mundo e aturar as idiossincrasias tupiniquins também demonstram que vender para os brasileiros lhes é vantajoso.

Os indivíduos envolvidos, tanto os que vivem no hemisfério oriental quanto os que habitam o hemisfério ocidental, demonstram reiteradamente sua satisfação com esse arranjo.

E se fosse unilateral?

Imagine agora um mundo hipotético, no qual o comércio exterior fosse totalmente aberto no Brasil, mas fechado na Coreia do Sul para os produtos brasileiros. Suponha que políticos e burocratas brasileiros, iluminados pelas ideias liberais (sonho...), tenham suspendido unilateralmente todas as tarifas e barreiras à importação de produtos.

No entanto, nesse mundo imaginário, os coreanos não compram nenhum produto feito em território brasileiro. Nada. Zero. Os políticos e burocratas da Coreia do Sul, por qualquer razão que seja, resolveram privar totalmente os cidadãos sob seu jugo do acesso às nossas commodities.

Esqueça os quase 3 bilhões de dólares em minério de ferro, farelo de soja, milho, etanol e outras mercadorias que os empreendedores e trabalhadores brasileiros vendem para o mercado coreano. Faça de conta que esses 51 milhões de sul-coreanos não compram por aqui 80% do frango que importam.

Sendo assim, as pessoas no Brasil, para conseguir os dólares com os quais comprar os cobiçados produtos de marcas como Samsung, Kia, LG e Hyundai, terão de se contentar em vender os frutos de seu trabalho somente para o restinho da população mundial, aquelas cerca de 7,5 bilhões de pessoas que vivem fora da península coreana.

Será que, nesse mundo de faz de conta, em que o mercado é totalmente aberto aqui e totalmente fechado na Coreia do Sul para nós, seria menor a satisfação dos consumidores brasileiros ao abrir a embalagem de um reluzente smartphone Galaxy S8, ao sentir o cheirinho de novo do seu SUV Sportage, ao ver a Copa do Mundo na LG Smart TV 4K? Óbvio que não.

Será que, por sua vez, os coreanos que produziram e venderam seus produtos aos brasileiros considerarão essa venda mais vantajosa só porque estão privados pelos seus governantes de comprar a nossa soja e minério? É óbvio que também não.

Note: mesmo nesse mundo hipotético de livre comércio perneta, de um só e não de "para ambos", muita gente sai ganhando. Lá e aqui. Livre comércio só é bom quando é para ambos? Não.

"Ah, mas nesse mundo hipotético a Coreia faria com que mais empregos fossem gerados em seu território, pois estaria se aproveitando do mercado brasileiro sem perder seu próprio mercado para a concorrência brasileira", alguns argumentam.

Em primeiro lugar, é necessário dar nome aos bois: a "Coreia" não "faria" nada. Quem "faria" alguma coisa seriam seus políticos e burocratas: restringir pela força o acesso dos cidadãos sob seu domínio às commodities que estes desejam comprar dos brasileiros.

Mas isso ainda é o de menos.

Digamos que a restrição em questão seja sobre a carne bovina. Se os brasileiros são mais produtivos na pecuária, ao restringir o acesso da população sul-coreana à carne produzida no Brasil, os políticos e burocratas orientais de fato criarão empregos adicionais entre os pecuaristas sob a sua proteção. Isso será relativamente fácil de ver, de mensurar. Será possível mostrar na TV os sorridentes rostos dos trabalhadores rurais orientais, protegidos pelos governantes da concorrência brasileira, com seus novos empregos nos abatedouros.

Frédéric Bastiat, no entanto, nos ensinou que é preciso ater-se também ao que não se vê: a carne bovina ficará mais cara nos mercados sul-coreanos. As pessoas por lá, ao gastarem mais com carne, terão menos renda disponível para consumir outras mercadorias e serviços. Consequentemente, a demanda por outros bens e serviços será fatalmente reduzida, causando diminuição de investimentos e empregos em todos estes outros setores.

E no Brasil? Qual a consequência da restrição coreana à carne brasileira? Provavelmente, redução de empregos na pecuária local, rostos chorosos de desempregados na TV, vítimas da discricionariedade violenta dos políticos e burocratas coreanos.

E o que não se veria? Os brasileiros, ao agora poderem comprar telefones, TVs e carros mais baratos (pois as tarifas de importação foram zeradas), teriam mais dinheiro sobrando para consumir mais de outros tipos de mercadorias e serviços. Com maior poder de compra há mais demanda, o que exige investimentos para saciar esta demanda. Investimentos geram mais empregos e produção em vários outros setores da economia.

Ou seja: mesmo nesse livre comércio perneta, os brasileiros teriam acesso a produtos mais baratos, o que aumentaria a renda disponível e, consequentemente, a demanda. Haveria mais investimentos e também mais empregos. A oferta de bens em nosso mercado seria maior. Nosso padrão de vida seria maior. Por outro lado, os sul-coreanos teriam carne mais cara e menos empregos.

E isso não é apenas uma questão de teoria, não. A própria empiria confirma isso. O quadro abaixo, elaborado pelo economista argentino Iván Carrino, mostra os países que têm a maior abertura comercial de acordo com a pontuação (de 0 a 100) -- estabelecida pelo Índice de Liberdade Econômica da Heritage Foundation -- e a taxa de desemprego de cada um deles para o ano de 2015.

tabela.png

À exceção da Bulgária -- que nunca foi um exemplo de país historicamente estável ou de economia livre --, a conclusão a partir dos dados é clara: o desemprego nada tem a ver com a abertura econômica. Como mostram os quatro primeiros países, quanto mais aberto ao comércio, menor a taxa de desemprego.

Conclusão

Há duas pessoas em uma canoa, uma de cada lado. Uma delas comete o insano ato de dar um tiro na sua própria extremidade da canoa, abrindo um buraco no chão da embarcação, a qual começa a afundar. Quão inteligente seria se a outra pessoa retaliasse dando um tiro na sua própria extremidade da canoa?

É exatamente isso o que defendem os proponentes da retaliação comercial.

Qual seria então a reação apropriada à injustiça cometida com aqueles que perderam seus empregos na pecuária brasileira em razão da intervenção violenta dos políticos e burocratas coreanos? Se você disser "restringir a entrada de produtos da Coreia do Sul no Brasil, em retaliação", estará defendendo dois buracos na canoa.

Encarecer artificialmente os componentes eletrônicos, as máquinas, as TVs, os smartphones e os carros para todos os brasileiros em nada irá ajudar os desempregados da pecuária. Ao contrário: tende só a aumentar seu contingente. Pior: diminuirá substantivamente o padrão de vida de toda a população (especialmente a dos desempregados).

Por outro lado, se você reagir denunciando a injustiça dos governantes da Coreia do Sul cometida lá e aqui contra indivíduos inocentes, e pressionar pela a abertura do mercado coreano, estará de fato combatendo o bom combate.

Livre comércio não é bom só quando é para ambos -- mas, sem dúvida nenhuma, é ainda melhor.

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