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Sim, os recentes aumentos salariais dos americanos foram por causa dos cortes de impostos
por Nathan Keeble, quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Desde que o governo Trump anunciou a redução da alíquota máxima do imposto de renda de pessoa jurídica, de 35% para 21% [no Brasil, a alíquota máxima chega a 34%], os assalariados americanos passaram a receber ótimas notícias.  

Empresas como Wal-Mart, Apple, Bank of America e várias outras anunciaram amplas bonificações e substantivos aumentos salariais. Para muitas pessoas, os cortes de impostos parecem ter sido um claro exemplo de sucesso.

Entretanto, alguns comentaristas, mesmo libertários, como a doutora Veronique de Rugy, da Reason Magazine, estão dizendo que não é bem assim.

A doutora de Rugy alega que tais anúncios salariais não estão alinhados à teoria econômica. Segundo ela, leva algum tempo para que os salários sejam afetados por cortes de impostos. A fatia da receita que agora não mais será tributada tem de ser acumulada e investida em novos equipamentos e maquinários (bens de capital), os quais irão aumentar a produtividade do trabalhador e, consequentemente, seus salários.

De maneira bem direta, a doutora de Rugy está dizendo que os cortes de impostos (anunciados em dezembro de 2017) ainda não estão em vigor há tempo suficiente para serem apontados como diretamente responsáveis por estes anúncios de bonificações e aumentos salariais. Mais ainda: segundo ela, tais anúncios não passam de uma manobra de relações públicas.

No entanto, a realidade é que esses aumentos e bonificações estão perfeitamente em linha com aquilo que prevê a teoria econômica.

Como os salários são determinados

Os salários são equivalentes ao aumento esperado na receita que o trabalho de um indivíduo gera para a empresa. Ou, de maneira equivalente, o volume de receita a ser perdido caso esta mão-de-obra fique desempregada.

Por exemplo, imagine que um restaurante empregue 5 cozinheiros capazes de servir a um número C de clientes por dia, o que garante ao restaurante uma receita R.

E então um cozinheiro ganha na loteria, se aposenta, e vai morar nas Bahamas. Agora, o restaurante é capaz de atender a apenas C-L clientes, e consequentemente passa a ganhar apenas X de receita.

Claramente, o proprietário do restaurante estará disposto a pagar apenas a diferença entre R e X -- um valor que será chamado S -- para empregar um quinto cozinheiro. S é aquilo que os economistas chamam de 'receita marginal do produto'. E, graças à concorrência no mercado de trabalho, os salários tendem a este valor em um livre mercado, menos um desconto devido à preferência temporal.

Para ver como a tributação afeta os salários, imagine que, a cada vez que o dono do restaurante vai ao banco depositar seus ganhos, um ladrão armado rouba 35% da receita líquida da empresa. Desconsiderando momentaneamente o que o ladrão fará com o esbulho -- se irá construir estradas ou financiar grupos de teatro --, o fato é que, no momento em que ocorre o assalto, o restaurante passa a ganhar menos dinheiro do que ganhava até então. Esse roubo imediatamente torna a empresa menos eficiente.

Pior: aquele dinheiro que poderia ser reinvestido no empreendimento -- contratar mais trabalhadores, comprar mais máquinas e equipamentos, ou conceder aumentos salariais -- se torna imediatamente menor.

Colocando de outra maneira: a receita que o restaurante pode manter para si próprio caiu, o que significa que a receita por empregado caiu. Isso, inevitavelmente, empurra os salários para baixo -- mesmo considerando que, como vimos acima, em um livre mercado, a empresa estaria disposta a pagar mais para cada empregado.

Após algum tempo, um novo e mais "benevolente" ladrão substitui o ladrão anterior, e decide roubar apenas 21% da receita líquida do restaurante. Assim, parte do custo do crime foi reduzida, e isso terá o mesmo efeito que uma redução de qualquer outro custo. Embora os salários não irão retornar aos valores que estavam em vigor antes de os roubos terem começado, eles irão subir, pois o trabalho de cada empregado se tornou mais produtivo tão logo houve uma redução no roubo (a receita líquida gerada por cada empregado agora é maior).

Mais ainda: com a redução do roubo, as expectativas da empresa quanto às receitas futuras também irão aumentar, potencialmente levando a maiores salários.

Na estória acima, se você substituir a palavra 'roubo' por 'imposto', e 'restaurante' por 'empresas em geral', você perceberá claramente que o amento anunciado nos salários está totalmente em linha com uma análise econômica padrão. E com um adendo: se uma empresa não elevar os salários em resposta a este corte de impostos, suas concorrentes o farão e, com isso, cooptarão os melhores funcionários das empresas que não concederam o aumento salarial.

De resto, embora seja verdade que uma redução no imposto de renda de pessoa jurídica permitirá mais investimentos em bens de capital -- o que também permitirá aumentos salariais no futuro, devido à maior produtividade dos trabalhadores --, tal fenômeno é distinto daquele que está ocorrendo já agora. Reduzir o fardo do governo sobre o setor privado possui benefícios tanto imediatos quanto de longo prazo para trabalhadores e capitalistas, e a reforma tributária do governo Trump é uma evidência disso.

Cortar impostos é ótimo, mas cortar gastos é essencial

No entanto, mais medidas serão necessários para que os benefícios desta reforma tributária sejam permanentes. Enquanto os cortes de impostos levarem a um aumento dos déficits orçamentários, os gastos do governo terão também de ser reduzidos. Caso contrário, no longo prazo, estes benefícios presentes serão revertidos.

Déficits orçamentários maiores significam que o governo irá se endividar ainda mais, e a consequência é que ele tomará mais crédito junto ao setor privado. E dado que o governo está tomando mais crédito, sobrará menos crédito disponível para financiar empreendimentos produtivos, o que afetará os salários futuros. Mais: também no futuro, para fazer frente a todo este aumento da dívida, impostos terão de ser aumentados novamente, o que também afetará os salários.

Retornando ao nosso exemplo, imagine que o ladrão não queira reduzir seus gastos mesmo estando agora roubando menos. Nesse caso, ele pode tentar convencer os financistas da comunidade a lhe emprestar dinheiro. E os financistas ficarão contentes em fazer isso, pois o ladrão pode claramente comprovar que possui uma ampla e extremamente confiável fonte de renda. Neste caso, o ladrão seria capaz de manter seus atuais níveis de gastos, mas à custa do crescimento do resto da economia. Cedo ou tarde, no entanto, a dívida do ladrão terá de ser quitada, e para que ele possa bancá-la sem reduzir seus gastos, sua única opção será voltar a roubar uma maior quantidade de dinheiro do restaurante.

Outra alternativa, embora menos provável, seria o ladrão simplesmente recorrer à falsificação de dinheiro (também chamada de inflação monetária). Nesse caso, os efeitos tangíveis serão similares aos do roubo explícito. Os preços dos bens e serviços irão aumentar de uma maneira tal que irá anular os aumentos salariais nominais. Pior: com a falsificação de dinheiro, riqueza real será transferida para o ladrão e para aqueles que primeiro receberem esse dinheiro recém-criado e puderem usá-lo para adquirir bens e serviços a preços que ainda não foram alterados.

Conclusão

A lição é clara. Se o Congresso americano e o governo Trump quiserem ver o bem-estar do povo americano aumentar de maneira permanente, os cortes de impostos deveriam ser seguidos de um corte de gastos.

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