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As taxas de juros negativas na Europa sinalizam a aproximação de uma profunda crise econômica
por Diversos Autores, terça-feira, 21 de junho de 2016

Hoje, um investidor tem de pagar para emprestar dinheiro a longo prazo para os governos da Alemanha e da Suíça.

A pergunta é inevitável: por que alguém aceitaria pagar para que o governo pegasse seu dinheiro emprestado?

Tal ideia seria completamente inconcebível há não mais que cinco anos.  Hoje, a prática está se tornando uma norma na Europa.

E o pior é que ela faz total sentido hoje. 

Comecemos pelo básico. 

Não há escapatória

Muitas pessoas, normalmente leigas, se perguntam por que pagar para emprestar dinheiro ao governo (que é o que ocorre quando as taxas de juros são negativas) sendo que seria muito mais vantajoso simplesmente deixar o dinheiro parado.  Afinal, no primeiro caso, você está perdendo um pouco do dinheiro; no segundo, você mantém a quantia original intacta.

Essa pergunta é típica de quem não conhece o atual sistema financeiro e monetário.  A esmagadora maioria do dinheiro (mais de 85%) está na forma de dígitos eletrônico; apenas uma quantia mínima (não mais do que 10%) está na forma de cédulas e moedas metálicas. 

Sendo assim, simplesmente não há como investidores que gerenciam bilhões de euros -- ou até mesmo aqueles que gerenciam "apenas" milhões de euros -- irem até o banco da esquina e sacaram tudo em espécie.  Os bancos não restituem em espécie esses valores.  Eles são legalmente isentos, pelo governo, de fazerem isso.  O dinheiro eletrônico está "preso" no sistema financeiro e não há como esses dígitos serem convertidos integralmente em cédulas e moedas metálicas.  Tudo o que os investidores podem fazer é transferir dígitos eletrônicos de um lugar para outro.  E só.  Não há como sair dos dígitos eletrônicos.

O Banco Central da Suíça, por exemplo, já anunciou que os bancos não mais têm de fornecer cédulas para nenhum fundo de investimento que queira sacar dinheiro.  Uma empresa de seguros tentou fazer isso, mas o banco se recusou.  O Banco Central da Suíça, portanto, fez uma declaração ao mundo: ele deixou claro que não há como fugir do dinheiro eletrônico digital.

Portanto, dado que não há como fugir desse arranjo monetário e bancário, a única maneira de grandes investidores preservarem seu principal é aplicando-o justamente naquilo que é considerado essencialmente um ativo livre de riscos. 

E só há um ativo que seja oficialmente considerado livre de risco: títulos da dívida de um governo considerado financeiramente sólido (alemães e suíços são os que mais se destacam nesse quesito, mais ainda que os americanos). 

Adicionalmente, vale enfatizar que, em uma situação em que as taxas de juros estão em queda, é possível obter elevados ganhos de capital ao se comprar títulos de longo prazo: à medida que os juros vão caindo ainda mais, os preços de mercado desses títulos vão subindo.  Ou seja, se você comprar um título por $ 100, e os juros caírem, você pode revender esse mesmo título por, digamos, $ 102.  Isso é uma taxa de retorno muito positiva, e nada negativa.

O que vem por aí

Tendo entendido agora que fundos de investimento e hedge funds não têm como converter em papel-moeda todos os bilhões de dólares e euros sob sua administração -- eles operam com dígitos eletrônicos e esses dígitos eletrônicos podem apenas ser transferidos de um lugar para outro --, fica mais fácil começar a entender o que se passa.

Mas por que então eles simplesmente não deixam esse dinheiro parado em alguma conta-corrente de algum banco?  Afinal, bancos ainda não estão aplicando taxas de juros negativas sobre as contas-correntes.

É aí que a encrenca se revela: tudo indica que os investidores não estão seguros quanto à solidez dos bancos europeus.

Esse fenômeno que está ocorrendo na Europa indica que:

1. Uma crise econômica se aproxima

2. Há uma grande desconfiança em relação ao sistema bancário europeu.  Assim como ocorreu no Chipre, caso os bancos europeus quebrem não mais haverá pacotes de socorro com dinheiro público; os próprios correntistas é que terão de socorrer seus respectivos bancos.

3. Os títulos alemães e suíços são mais seguros que quase todos os outros

Em um cenário de grandes incertezas econômicas e de desconfiança em relação à solidez do sistema bancário, investidores fazem exatamente o que estão fazendo agora: eles direcionam seu capital para aqueles ativos mais seguros que existem, mesmo que para isso tenham de pagar uma taxa (os juros negativos).  E eles pagam alegremente essa taxa, desde que ela lhes garanta proteção.

Mais ainda: caso os juros caiam ainda mais -- o que significa que o preço dos títulos está subindo -- é possível auferir grandes lucros.

Tendo em mente todo esse cenário, onde você colocaria o seu dinheiro caso fosse rico?

Os grandes investidores já perceberam que os Bancos Centrais não deixarão as taxas de juros de longo prazo subir.  Os BCs estão recorrendo a todos os tipos de heterodoxias monetárias -- desde a compra de títulos governamentais de longo prazo até a compra de todos os tipos de debêntures emitidos por empresas -- para tentar manter baixas todas as taxas de juros de longo prazo. 

O Japão foi o primeiro a fazer isso.  Começou ainda na década passada.  Após 2008, o Fed fez o mesmo.  O Banco Central Europeu entrou na onda em 2010.  O Banco Central da Suíça fez coro a partir do final de 2011.

E, dado que as taxas de longo prazo tendem a se manter em queda, faz total sentido para os grandes investidores europeus continuar comprando títulos públicos.

Logo, eles estão fazendo exatamente o que fazem em épocas de grande incerteza: tentando manter seu principal.  Eles querem receber de volta o máximo possível do valor total de que eles inicialmente abriram mão.  Para isso, aceitam pagar aos governos alemão e suíço uma "taxa de custódia".

Isso não ocorre nos EUA

Nos EUA, há um serviço privado que não existe na Europa.  São as contas CDARS (Certificate of Deposit Account Registry Service).

Quando você coloca seu dinheiro em um CDARS, ele divide esse dinheiro em várias contas bancárias entre mais de 3 mil bancos diferentes.  Cada conta bancária fica dentro do limite de US$ 250.000 garantido pelo FDIC (o FGC americano) em caso de quebra bancária.

Ou seja, por meio dos CDARS, os milionários e bilionários americanos podem dividir suas fortunas em mais de 3 mil bancos distintos, em montantes que não ultrapassam US$ 250.000 por banco, de modo que o montante total acaba contando com a cobertura da FDIC.  Assim, eles têm a segurança de que serão totalmente restituídos em caso de quebras bancárias, não perdendo nem um centavo.

Na Europa, tal serviço não existe.  Consequentemente, todos correm para os títulos dos governos alemão e suíço.

As taxas de juros que os grandes investidores europeus estão pagando aos governos alemão e suíço em troca de seus títulos nada mais são do que um seguro contra um calote.  Faz muito sentido.

Conclusão

O fato de que milionários e bilionários estão pagando essa taxa aos governos da Alemanha e da Suíça indica que há um crescente temor de que haverá uma monumental contração na economia européia -- pior do que qualquer coisa já vista no mundo pós-Segunda Guerra.

Títulos públicos com juros negativos indicam um amplo e profundo temor entre os grandes investidores de que está se avizinhando algo pior do que a crise de 2008-2009. 

"Melhor uma perda pequena e segura do que uma enorme e altamente provável" tornou-se o mantra entre os grandes investidores europeus.

Isso não é alarmismo barato.  Trata-se de uma reação perfeitamente sensata a um cenário inconcebível em 2010.

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