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O Waze e a ordem espontânea de Hayek
por André Mellagi, terça-feira, 23 de setembro de 2014

Quem se depara com o crescente congestionamento dia após dia nas grandes cidades sabe o desgaste que é enfrentar o trânsito parado nas horas de pico. Hoje em dia, programar algo em São Paulo, por exemplo, depende de conciliar o horário da saída do trabalho, o início de uma sessão de cinema e todos os imprevistos que eventualmente irão surgir ao longo do caminho.

Tempo perdido e o estresse entraram na rotina diária dos motoristas e, por extensão, de todos envolvidos na mobilidade urbana.

Há alguns anos, o aplicativo Waze surgiu para nos propiciar algo melhor e mais completo do que um GPS convencional. Além dos mapas e direções para se sair do ponto X e se chegar ao Y, o recurso se baseia na interatividade entre os usuários.  E é por isso que o Waze é superior ao GPS tradicional: trata-se de um aplicativo baseado na interatividade voluntária e espontânea de seus usuários.

No Waze, as rotas são configuradas levando-se em conta as informações em tempo real que são inseridas no sistema pelos seus milhares de usuários.  Os usuários podem relatar acidentes, congestionamentos, barreiras policiais, radares escondidos, volume de tráfego, velocidade média da via, câmeras rastreadoras etc. Isso permite que o motorista preveja os pontos onde há maior congestionamento, os locais de acidentes, os bloqueios e os radares móveis.

Ao solicitar um trajeto, o aplicativo reúne todas as informações alimentadas pelos usuários e traça a melhor rota para que o motorista economize seu tempo de viagem. Sendo melhor que um GPS, o Waze fornece rotas e atualizações de tráfego em tempo real.

Por seu lado, o próprio motorista também contribui com informações que encontra pelo caminho, seja uma árvore que caiu no chão, pista escorregadia ou uma blitz policial.

É por meio dessas particularidades do Waze que um fenômeno inerente às sociedades livres se manifesta por completo: a ordem espontânea.

Segundo o economista austríaco F. A. Hayek (1899-1992):

O que na verdade constatamos em todas as sociedades livres é que, embora grupos de homens se unam em organizações para consecução de alguns fins específicos, a coordenação das atividades de todas essas várias organizações, bem como dos diversos indivíduos, é produzida pelas forças que favorecem uma ordem espontânea. A família, a propriedade rural, a fábrica, a pequena e a grande empresa e as diversas associações [...] são organizações que, por sua vez, estão integradas numa ordem espontânea mais abrangente. (HAYEK, 1985, p. 48).

Ou seja, a ordem espontânea é fruto da evolução da ação de vários atores da sociedade e se regula de maneira descentralizada e ao mesmo tempo coordenada.

Veja no caso do Waze: no momento em que o sistema processa as informações inseridas por um determinado usuário que está em uma determinada localidade, este usuário não tem a mais mínima ideia de para onde os outros usuários estão indo.  O usuário simplesmente fornece informações, voluntária e espontaneamente, para que os outros usuários tracem suas rotas, mas ele não tem interesse em saber o destino final de nenhum outro usuário. Excetuando-se uma rede de amigos que compartilham entre si seus trajetos pelo aplicativo, nenhum usuário sabe para onde outro usuário se desloca, mas mesmo assim eles se auxiliam reciprocamente atualizando informações que vão acrescentando ao longo do trajeto.

Em um âmbito mais geral, é essa ordem espontânea -- descentralizada e ao mesmo tempo coordenada -- que seleciona e constrói conhecimentos que, por sua vez, são transmitidos via herança cultural.  É essa ordem espontânea que difunde normas organizacionais e normas espontâneas.

As normas organizacionais são regras para a execução de tarefas específicas. Cada indivíduo ocupa um lugar na estrutura da organização.  Ele é nomeado por determinação de alguém, e a autoridade dirigente indica suas atividades próprias.

Já as normas que regem uma ordem espontânea são

Aplicáveis a um número desconhecido e indeterminável de pessoas e situações. Terão de ser aplicadas pelos indivíduos à luz de seus respectivos conhecimento e propósitos; e sua aplicação independerá de qualquer propósito comum, que o indivíduo não precisa sequer conhecer (HAYEK, 1985, p. 52).

Temos, portanto, as normas organizacionais formuladas por entidades responsáveis pelas regras de trânsito.  Elas estipulam que tipos de veículos podem trafegar em determinada pista, quais vias são de mão dupla ou única, que limite de velocidade é permitido numa avenida etc. Os sinais de trânsito indicam as regras que devem ser seguidas. Já as normas da ordem espontânea no tráfego provêm de um conhecimento adquirido por experiência individual (saber conduzir o próprio veículo no trânsito) e por interação com outros (interpretar os sinais de farol que concedem uma passagem, o gesto de um pedestre que sinaliza que vai atravessar a rua, a intensidade e cadência de uma buzina que informa um agradecimento, aviso ou xingamento).

Com a utilização do aplicativo, outras informações são fornecidas e utilizadas pelos usuários que servem aos propósitos de cada um. A ordem espontânea que pode ser verificada no Waze é que o melhor itinerário não é conhecido a partir da maior quantidade de possibilidades de rota, mas sim das informações dispersas inseridas pelos indivíduos, as quais ajudam na elaboração do trajeto mais rápido. Essas informações dispersas também possibilitam aos motoristas encontrarem postos de combustível com preços mais atrativos na área onde se situam, por meio do recurso que permite a pesquisa de postos e preços listados pelos usuários do aplicativo.

Para Hayek,

Essa ordem, ao implicar um ajustamento a circunstâncias, cujo conhecimento está disperso por um grande número de indivíduos, não pode ser estabelecida por um sistema que centraliza as decisões. Só pode decorrer do ajustamento mútuo dos vários elementos e da sua reação aos eventos que atuam imediatamente sobre eles. (HAYEK, 1983, p. 177).

A abordagem de Hayek sobre a ordem espontânea vem do Iluminismo escocês de David Hume e Adam Smith, e ele a desenvolve a partir de suas principais influências econômicas, notadamente Carl Menger e Ludwig von Mises (BOETTKE, 1990). Hayek expande a ordem espontânea percebida no livre mercado para o uso do conhecimento em diversas esferas da sociedade.

Desta maneira, ele critica as sociedades cujo certo tipo de racionalismo arroga a pretensão onisciente de conhecer e, portanto, controlar e planejar todos os aspectos desse conhecimento disperso na sociedade, seja na economia, no direito ou na política.

A descentralização é o poder disperso para que os indivíduos possam buscar o conhecimento necessário e adequado a seus objetivos particulares, e cada um sabe o que é melhor a ser utilizado a partir dos interesses de cada um, pois "precisamos da descentralização porque somente ela poderá nos assegurar que o conhecimento de circunstâncias particulares de tempo e local serão prontamente utilizados" (HAYEK, 1945, p. 524).

Um aplicativo que reúna todas as informações que seus usuários alimentam (intensidade de tráfego), e as devolve para a utilização na consecução do propósito de cada um deles (o destino escolhido), serve como exemplo de como este conhecimento pautado nas ações aparentemente desconectadas e alheias entre si pode ser produzido por uma vasta e interligada cooperação.

Observamos, porém, o quanto esses recursos, assim como outros programas tecnológicos que armazenam uma grande quantidade de dados, podem servir a outros propósitos que nada têm a ver com deslocamento no trânsito. Organizações como a NSA (National Security Agency) dos EUA monitoraram informações de outros programas, como Google e Facebook, tendo acesso a dados privados de seus usuários. Tal serviço de vigilância governamental foi revelado por Edward Snowden, atualmente exilado na Rússia.

Surge, então, a dúvida sobre se até mesmo essa ordem espontânea pode ser vulnerável a um poder centralizador capaz de reunir todas informações disponíveis com o intuito de controlar e monitorar. Da mesma maneira que a tecnologia propicia autonomia aos indivíduos, sua vulnerabilidade também pode comprometer a privacidade de cada um, expondo tudo o que ele escreve, fotografa, filma e compartilha.  E, agora, expondo também para onde ele se desloca.

A ambição de qualquer sistema de poder centralizador sempre foi justamente a de tentar domesticar essa ordem espontânea para a consecução não mais dos propósitos dos indivíduos, mas sim daqueles que exercem esse poder. O risco que ocorre agora não é o de uma vigilância ostensiva, mas sim uma vigilância subterrânea, em que os dados são violados e monitorados em um tráfego virtual de informações aparentemente invisível.

O Waze é um aplicativo limitado aos seus usuários e a ordem espontânea refletida nele é apenas uma fração da ordem espontânea mais ampla da grande sociedade formada pelos outros cidadãos que se movem e agem conforme seus interesses.  O Waze apenas possibilita a seus usuários cooperarem com a troca de informações dispersas, as quais serão úteis aos seus objetivos particulares.

Mas quando toda essa informação passar a ser utilizada de maneira escusa por outros órgãos que violam a privacidade, a liberdade já estará seriamente comprometida.

 

Referências

BOETTKE, P. J. (1990). The theory of spontaneous order and cultural evolution in the social theory of F. A. Hayek. Cultural Dynamics. Vol 3 (1), pp. 61-83.

HAYEK, F. A. (1945). O uso do conhecimento na sociedade

HAYEK, F. A. (1983). Os Fundamentos da Liberdade. São Paulo: Visão

HAYEK, F. A. (1985). Direito, Legislação e Liberdade – volume I. São Paulo: Visão