clube   |   doar   |   idiomas
A natureza do empreendedor - o problema com a teoria de Hayek e Kirzner

Em 1920, Ludwig von Mises escreveu uma monografia explicando a impossibilidade econômica do socialismo.  Segundo Mises, se o socialismo, por definição, consiste no gerenciamento centralizado da economia — com os meios de produção sendo propriedade do governo —, resta a pergunta: como pode um sistema centralizado, onde não há mercados entre os meios de produção, saber como decidir qual é a maneira mais eficiente de utilizar os recursos necessários para a produção de um determinado bem?  Se não há um sistema de livre formação de preços para balizar a produção, a utilização de recursos produtivos passa a ser feita às cegas.  Qualquer "preço" que o planejador da economia impuser para qualquer bem será um preço arbitrário e não terá qualquer valor para um cálculo genuíno.

Ou seja, a explicação de Mises sobre a impossibilidade econômica do socialismo pode ser assim resumida: se os meios de produção são propriedade exclusiva do estado, não há um genuíno mercado entre eles.  Se não há um mercado entre eles, é impossível haver a formação de preços legítimos para eles.  Se não há preços, é impossível fazer qualquer cálculo econômico.  E sem esse cálculo econômico, é impossível haver qualquer racionalidade econômica — o que significa que uma economia planejada é, paradoxalmente, impossível de ser planejada.  Para Mises, portanto, o socialismo, ao abolir a propriedade privada dos meios de produção, impossibilitava qualquer cálculo econômico racional, algo que, por sua vez, torna o socialismo um sistema econômico insustentável.

Os socialistas, entretanto, disseram que, ao fazer essa constatação, Mises havia na realidade prestado um inestimável serviço ao socialismo: Mises havia apontado o problema do cálculo econômico no socialismo, problema esse do qual os socialistas ainda não estavam cientes.  Ato contínuo, Oskar Lange, o polonês stalinista, passou a dizer que era incorreta a teoria de que o cálculo econômico no socialismo era impossível, pois, uma vez assentido que preços são necessários para o cálculo econômico, os planejadores centrais poderiam, por meio de algumas equações matemáticas, determinar os preços de acordo com suas mentes.  Para Lange, o número de equações necessárias para se determinar a oferta, a demanda e os preços existia no socialismo assim como existia no capitalismo.

Quando o debate chegou a esse ponto, F.A. Hayek e Lionel Robbins, que até então estavam ao lado de Mises, abandonaram o argumento da impossibilidade do cálculo econômico no socialismo e recuaram para uma segunda linha de defesa: que, embora o problema do cálculo econômico pudesse ser resolvido na teoria, na prática seria muito difícil.  Assim, Hayek e Robbins passaram a sustentar que o socialismo sofria apenas de um problema prático, um problema mais voltado para o grau de eficiência; e não um problema de natureza drasticamente distinta da do capitalismo.

Entretanto, não é correto dizer que Hayek e seus seguidores haviam aceitado o argumento das equações, abandonado assim a abordagem "teórica" de Mises e refugiando-se em objeções "práticas" ao planejamento socialista.  Hayek raramente concedia a equações matemáticas de equilíbrio geral o monopólio da correta teoria econômica.  Porém, é também verdade que Hayek e seus seguidores alteraram fatal e decisivamente todo o enfoque de sua posição "austríaca" acerca do socialismo — seja dando um outro sentido ao argumento de Mises, seja conscientemente, embora silenciosamente, substituindo termos cruciais do debate.

Não foi por acidente, portanto, que Hayek e os hayekianos abandonaram a misesiana expressão "impossível" para descrever o socialismo, alegando que esta era embaraçosamente extrema e imprecisa.  Para Hayek, o principal problema a ser enfrentado por um comitê planejador socialista é a sua falta de conhecimento acerca de vários dados da economia, sua incapacidade de obter informações sobre variáveis essenciais da economia.  Sem um mercado, o comitê planejador socialista fica desprovido de meios para saber as preferências dos consumidores, sua escala de valoração dos bens, a oferta de recursos ou as tecnologias disponíveis.  Já a economia capitalista é, para Hayek, um arranjo valioso justamente porque possibilita essa disseminação de conhecimento de um indivíduo para outro.  Essa dispersão de informação ocorre através dos "sinais" enviados pelos preços formados no livre mercado. 

Uma economia estática, em equilíbrio geral, poderia superar esse problema hayekiano da dispersão de conhecimento, uma vez que, sendo estática, todos os dados dessa economia acabariam se tornando de conhecimento de todos.  Porém, no mundo real, os dados econômicos estão constantemente sofrendo alterações; sendo incertos, esses dados inconstantes impedem que o comitê planejador socialista adquira o conhecimento necessário para gerenciar a economia.  Logo, como é típico de Hayek, seu argumento em prol de uma economia livre e contra uma economia estatizada baseia-se inteiramente no argumento da incapacidade de dispersão de informações acuradas sob o socialismo.

Porém, para Mises, o problema central do socialismo não é o "conhecimento".  Ele explicitamente mostra que, mesmo que os planejadores socialistas soubessem perfeitamente de tudo e estivessem genuinamente ávidos para satisfazer os desejos prioritários dos consumidores, e mesmo que esses planejadores possuíssem um perfeito conhecimento acerca de todos os recursos e de todas as tecnologias, eles ainda assim não seriam capazes de calcular, pois continua não existindo um sistema de preços para os meios de produção.  O problema, portanto, não é de dispersão de conhecimento, mas sim de possibilidade de cálculo.

Como o professor Joe Salerno demonstrou, o conhecimento transmitido pelos preços de hoje — ou pelos preços do imediato "passado", como os do dia de ontem — representam apenas as valorações dos consumidores, a disponibilidade de tecnologias, as ofertas de vários bens etc. do passado imediato ou recente.  Porém, um agente empreendedor está realmente interessado — ao investir recursos na produção e na venda — é nos preços futuros.  O empreendedor compromete recursos hoje na expectativa de colher lucros futuros.  A função do empreendedor é avaliar e estimar — antecipar — os preços futuros, e alocar recursos de acordo com essa sua estimativa.

É exatamente essa função central e vital do empreendedor — estimar os preços futuros e investir recursos apropriadamente, buscando lucros e evitando prejuízos — que não pode ser realizada por um comitê planejador socialista, devido à ausência de mercado nos meios de produção.  Sem tal mercado, não há preços monetários genuínos e, consequentemente, não há como o empreendedor calcular e fazer estimativas em termos monetários.

Em termos mais filosóficos, toda a ênfase hayekiana no problema do "conhecimento" é mal empregada e mal concebida.  O propósito da ação humana não é "conhecer", mas sim empregar meios para satisfazer objetivos.  Como Salerno, com grande discernimento, resumiu a posição de Mises

O sistema de preços não é — e praxeologicamente não pode ser — um mecanismo para economizar e comunicar o conhecimento relevante para os planos de produção [essa é a posição hayekiana].  Os preços correntes são preços já concretizados, e representam um acessório de avaliação e estimativa; eles auxiliam na operação mental na qual a faculdade da sabedoria é utilizada para avaliar a estrutura quantitativa das relações de preços, relações essas que correspondem a uma constelação de dados econômicos que já se concretizaram.  Da mesma forma, preços futuros previstos não representam ferramentas de conhecimento.  Preços futuros previstos são apenas instrumentos de cálculo econômico.  E o cálculo econômico por si só não é o meio pelo qual se adquire conhecimento, mas sim o pré-requisito essencial da ação racional que ocorre dentro do arranjo da divisão social do trabalho.  O cálculo econômico fornece aos indivíduos, independente de sua dotação de conhecimento, a ferramenta indispensável para se apreender a situação e fazer uma comparação mental entre os meios e os fins da ação empreendedora.

Em um recente artigo, o professor Israel Kirzner argumenta em prol da posição hayekiana.  Para Hayek e para Kirzner, o mercado é um "processo de descoberta", isto é, um processo de revelação de conhecimento.  Nessa visão de mercado e de mundo, não há um reconhecimento genuíno da função do empreendedor; o empreendedor não é um "descobridor", como ambos sustentam, mas sim um agente dinâmico que está disposto a correr riscos, alguém que se arrisca a ter prejuízos caso sua avaliação e prognóstico deem errado.  A insistência de Kirzner no "processo de descoberta" funciona muito bem dentro do seu conceito original de empreendedorismo, segundo o qual a função do empreendedor é estar "alerta", e a função de diferentes empreendedores é estar alternadamente alertas às oportunidades que eles veem e descobrem.

Porém, essa perspectiva interpreta de maneira totalmente distorcida a função do empreendedor.  O empreendedor não está simplesmente "alerta"; ele prognostica, ele avalia, ele estima, ele assume e lida com riscos e incertezas ao buscar lucros e tentar evitar prejuízos.  Como Salerno aponta, por causa de suas insistentes e repetitivas menções sobre dinamismo e incerteza, o "empreendedor" de Hayek-Kirzner é curiosamente um agente passivo, indiferente e inanimado, recebendo e passivamente absorvendo conhecimento transmitido a ele pelo mercado.  O empreendedor de Hayek-Kirzner é bastante semelhante — muito mais do que ambos gostariam — ao agente do leilão walrasiano, o "leiloeiro" fictício que evita todas as trocas reais que ocorrem no mercado.[*]

Infelizmente, embora exponha lucidamente a posição hayekiana, Kirzner obscurece a história do debate ao alegar que Mises, mais tarde, junto com Hayek, viria a mudar sua posição (ou, no mínimo, "aprimorá-la") em relação à sua visão "estática" original de 1920.  Mas o que ocorreu foi justamente o contrário, como apontou Salerno: mais tarde, Mises rejeitou explicitamente a ideia de que a resposta para o problema do cálculo está na incerteza quanto ao futuro.  A explicação para a questão do cálculo, declarou Mises em Ação Humana, não está no fato de que "toda a ação humana está voltada para o futuro e o futuro é sempre incerto".  Não, o problema do socialismo

não é esse.  O cálculo que efetuamos hoje considera o nosso conhecimento atual e a previsão que fazemos hoje da situação futura.  Não se trata de saber se o comitê socialista será ou não capaz de prever a situação futura.  O que estamos afirmando é que o comitê não tem como calcular com base no seu próprio julgamento de valor e na sua própria previsão da situação futura, seja ela qual for.  Se investir hoje na indústria de alimentos enlatados, pode ocorrer que uma mudança nos hábitos ou nas considerações higiênicas sobre a comida em lata venha a transformar seu investimento num desperdício.  Mas a questão não é essa; o problema consiste em como definir, hoje, a melhor maneira de construir uma fábrica de conservas da maneira mais econômica.

Algumas estradas de ferro construídas no início do século não teriam sido construídas caso as pessoas àquele tempo tivessem previsto o iminente progresso do automóvel e da aviação.  Mas aqueles que naquele tempo construíram estradas de ferro sabiam qual a alternativa — dentre as várias possíveis para a realização de seus planos — deveria ser a escolhida, em função de suas próprias avaliações e previsões, e dos preços de mercado nos quais estavam refletidas as valorações dos consumidores.  É precisamente esta possibilidade de discernir que faltará ao comitê.  Sua situação será idêntica à de um navegante em alto mar que não conheça os métodos de navegação... (Mises, Ação Humana, pág. 797)

Kirzner aparentemente acredita que o enfoque no empreendedorismo dado por Mises em sua discussão sobre socialismo em Ação Humana demonstra que Mises adotou a posição hayekiana.  Kirzner parece negligenciar a enorme diferença que há entre a visão de Mises sobre o empreendedorismo, a qual envolve prognósticos, avaliações e estimativas, e a sua própria doutrina do "empreendedor alerta", a qual deixa completamente de fora a possibilidade de prejuízos empreendedoriais.

_____________________________________________

Leitura indispensável sobre o assunto:

Mises contra Hayek — o socialismo é um problema de propriedade ou de conhecimento?, de Hans-Hermann Hoppe

______________________________________________

Nota

[*] Israel M. Kirzner, The Economic Calculation Debate: Lessons for AustriansReview of Austrian Economics 2 (1988): 1-18.  Hayek cunhou o termo "processo de descoberta" em F. A. Hayek, "Competition as a Discovery Procedure," in New Studies in Philosophy, Politics, Economics and the History of Ideas (Chicago: University of Chicago Press, 1978), pp. 179-90.  Para uma crítica ao conceito de empreendedorismo de Kirzner, ver Murray N. Rothbard, Professor Hébert on EntrepreneurshipJournal of Libertarian Studies 7 (Fall 1985): 281-85.  Para as próprias contribuições de Hayek para o debate sobre o cálculo econômico no socialismo após o debate com Oskar Lange, ver  F.A. Hayek, "Socialist Calculation 111: The Competitive 'Solution'" (1940), e O Uso do Conhecimento na Sociedade (1945), in Individualism and Economic Order, pp. 181-208; 77-91.



autor

Murray N. Rothbard
(1926-1995) foi um decano da Escola Austríaca e o fundador do moderno libertarianismo. Também foi o vice-presidente acadêmico do Ludwig von Mises Institute e do Center for Libertarian Studies.


  • anônimo  20/04/2011 15:44
    "Os preços correntes são preços já concretizados, e representam um acessório de avaliação e estimativa; eles auxiliam na operação mental na qual a faculdade da sabedoria é utilizada para avaliar a estrutura quantitativa das relações de preços, relações essas que correspondem a uma constelação de dados econômicos que já se concretizaram. Da mesma forma, preços futuros não representam ferramentas de conhecimento".

    Alguém sabe explicar a formula do sistema de preços?

    "Os preços correntes já são preços concretizados,"

    "e representam um acessório de avaliação e estimativa; ... Da mesma forma, preços futuros não representam ferramentas de conhecimento"
  • Leandro  20/04/2011 17:41
    Anônimo, a "fórmula" do sistema de formação preços é complexa e não há um consenso geral. Tanto Mises quanto o próprio Kirzner têm bons argumentos:

    Mises:
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=148

    Kirzner:
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=288


    O principal debate, entretanto, é sobre a real função dos preços.

    Os seguidores de Hayek (sendo Kirzner o principal) afirmam que o conhecimento disperso pela sociedade é a explicação para tudo. Consequentemente, eles afirmam que os preços transmitem conhecimento, e que os preços vigentes hoje de alguma transmitem conhecimento útil para os empreendedores. Os preços de hoje dizem o que você deve fazer amanhã.

    Essa postura encontra objeções entre os misesianos. Para estes, os preços vigentes hoje são apenas relações numéricos que informam o resultado das condições imediatamente passadas do mercado. O preço da picanha hoje traz informações sobre as condições do mercado da picanha de ontem.

    Agora, como empreendedor, você pode utilizar esses preços para tentar entender as condições futuras do mercado da picanha, para tentar prognosticar os preços futuros que serão relevantes para seus empreendimentos.

    Porém, preços são simplesmente guias; preços não dão ordens. Os hayekianos afirmam que os preços de hoje nos dizem o que fazer, nos dizem como alocar recursos. Já os misesianos afirmam que os preços de hoje apenas refletem as condições imediatamente anteriores do mercado, e podem no máximo te ajudar a tentar prognosticar seu comportamento futuro.
  • Breno Almeida  20/04/2011 23:03
    Interessante explicação. Valeu Leandro.
  • Artur Reis  20/04/2011 17:58
    A formula é; RACIOCÍNIO ...
  • Thiago Beserra Gomes  20/04/2011 17:03
    Perfeito. O papel do empreendedor tem sido minha principal linha de pesquisa nos últimos tempos. E quando comecei a estudar a fundo, vi fraquezas incríveis na obra do Kirzner. Ele abandona o que considero essencial na obra do Mises ao dizer que o empreendedor está alerta numa realidade subjacente: o empreendedor é mais que uma pessoa alerta, ele especula e cria, e isso o deixa numa incerteza maior que apenas "descobrir" oportunidades subjacentes no mercado (a incerteza que Mises trabalha é mais próxima do que o economista David Dequech chama de "incerteza fundamental").

    Como disseram Klein e Foss, Kirzner tirou o foco do ajustamento dos recursos no mercado miseano através do lucro e prejuízo e colocou no "processo equilibrador".

    Rothbard sempre genial em suas críticas!
  • Aecio Ribeiro  22/04/2011 09:58
    Fantástico o texto!

    Rothbard sempre genial em suas críticas! {2}
  • Flavio Ortigao  22/04/2011 11:41
    O problema da PRECIFICACAO, e' um problema recorrente a todo gerente de negocio, e pode ser bastante complicado. Todos gerente sabe que existem em principio dois caminhos, o preco e' dado pelo mercado, ou o preco e' calculado pelo gerente. Na maioria dos mercados competitivo, a primeira opcao e' a mais verdadeira. Quando o empresario quer lancar um novo produto no mercado, o preco ja esta fixado, e qualquer diferenca do preco que o mercado impoe, so sera conseguida com grande dificuldade. Por outro lado temos as inovacoes, para as quais o mercado ainda nao tem uma base de precificacao. Nesse caso cabe ao gerente decidir. O preco nao e' o custo de producao. O bom gerente esta interessado em lucrar e nao cobrir os custos de producao. A grande questao e' descobrir o que REALMENTE o segmento-alvo no mercado desejaria pagar, ou aguentaria pagar. A que nivel de Preco e Vendas, seria o melhor negocio feito?
  • Emerson Luis, um Psicologo  30/11/2014 22:36

    Hoje é fácil constatar que Mises estava absolutamente certo, com todos esses colapsos econômicos dos países socialistas que ocorreram. Mas na época de Hayek parecia que economias planejadas podiam funcionar tão bem ou melhor do que o livre mercado e havia esse debate hipotético, sem claríssimas provas empíricas para demonstrar quem estava certo. Neste contexto, faz sentido a cautela de Hayek para se expressar.

    Mas se vivesse hoje, com as informações empíricas que dispomos, ele com certeza se expressaria de forma ainda mais enfática. Podemos considerar suas palavras como demonstração de que não apenas a etapa inicial, mas todas as etapas do planejamento central são impossíveis de serem bem sucedidas continuamente.

    * * *
  • Josélton  17/09/2016 09:52
    "Porém, para Mises, o problema central do socialismo não é o "conhecimento". Ele explicitamente mostra que, mesmo que os planejadores socialistas soubessem perfeitamente de tudo e estivessem genuinamente ávidos para satisfazer os desejos prioritários dos consumidores, e mesmo que esses planejadores possuíssem um perfeito conhecimento acerca de todos os recursos e de todas as tecnologias, eles ainda assim não seriam capazes de calcular, pois continua não existindo um sistema de preços para os meios de produção. O problema, portanto, não é de dispersão de conhecimento, mas sim de possibilidade de cálculo."

    Não entendi porque um planejamento central não conseguiria alocar os recursos caso tivesse total conhecimento de tudo, a lógica implica que o mesmo faria melhor que o próprio mercado, já que este tem conhecimento imperfeito porém em constante processo de aprimoramento.

    Não entendi porque não é um problema de conhecimento, como Hayek disse...
  • Ludwig   17/09/2016 13:49
    Porque ele não tem como calcular preços e custos se não houver propriedade privada.

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2348
  • Josélton  17/09/2016 14:27
    Eu ainda não consegui entender, se o planejador central tivesse pleno conhecimento de tudo, logo ele conseguiria calcular os preços com formular matemáticas de forma mais eficiente que o próprio mercado.
  • Ludwig von Hayek  12/05/2017 23:51
    Rothbard é vergonhoso ao negar o problema do conhecimento como relevante no socialismo. Mais ridículo ainda é ele dizer, para criticar Hayek:

    "Uma economia estática, em equilíbrio geral, poderia superar esse problema hayekiano da dispersão de conhecimento, uma vez que, sendo estática, todos os dados dessa economia acabariam se tornando de conhecimento de todos. Porém, no mundo real, os dados econômicos estão constantemente sofrendo alterações; sendo incertos, esses dados inconstantes impedem que o comitê planejador socialista adquira o conhecimento necessário para gerenciar a economia. Logo, como é típico de Hayek, seu argumento em prol de uma economia livre e contra uma economia estatizada baseia-se inteiramente no argumento da incapacidade de dispersão de informações acuradas sob o socialismo."

    Mas isso é algo que o próprio Mises não cansava de afirmar. Em Socialism, ele diz:

    "A stationary society could, indeed, dispense with these calculations. For there, economic operations merely repeat themselves. So that, if we assume that the socialist system of production were based upon the last state of the system of economic freedom which it superseded, and that no changes were to take place in the future, we could indeed conceive a rational and economic Socialism. But only in theory a stationary economic system can never exist. Things are continually changing, and the stationary state, although necessary as an aid to speculation, is a theoretical assumption to which there is no counterpart in reality." Ludwig von Mises, Socialism, part 2, chapter 5

    Em Ação Humana, ele repete:

    "Se quisermos construir a imagem de uma economia cujas condições se alterem permanentemente e na qual não haja lucros nem perdas, temos de recorrer a uma hipótese irrealizável: a de que todos os indivíduos têm uma perfeita presciência de todos os eventos futuros. Se os primitivos caçadores e pescadores, aos quais habitualmente se atribui a primeira acumulação de capital, conhecessem de antemão todas as vicissitudes futuras dos assuntos humanos, e se eles e seus descendentes, até o dia do julgamento final, equipados com a mesma onisciência, tivessem assim avaliado todos os fatores de produção, jamais teriam surgido os lucros e as perdas empresariais. Lucros e perdas empresariais são criados pela diferença entre os preços esperados e os preços reais fixados mais tarde pelo mercado. É possível confiscar lucros e transferi-los dos indivíduos que os realizaram para outras pessoas. Mas lucros e perdas jamais poderão desaparecer de um mundo sujeito a mudanças, a não ser que esse mundo seja povoado por pessoas oniscientes." Ludwig von Mises, Ação Humana, cap. XV

    Rothbard também critica a ideia de que os preços transmitem informação, indo, novamente, contra Mises:

    "Os cálculos do homem de negócios se baseiam todos no fato de que, na economia de mercado, os preços em dinheiro dos bens não só informam o consumidor, como fornecem ao negociante informações de importância vital sobre os fatores de produção, porquanto o mercado tem por função primordial determinar não só o custo da última parte do processo de produção, mas também o dos passos intermediários." Ludwig von Mises, As Seis Lições

    "Num sistema capitalista, o cálculo da lucratividade constitui o guia que indica ao indivíduo se a empresa que opera deve, sob dadas condições, estar em operação, e se está sendo gerida do modo mais eficiente possível, isto é, ao menor custo de fatores de produção." Ludwig von Mises, Liberalismo

    Além do mais, ele fala da importância da divisão mental do trabalho -- que não é mera coincidência ser similar à "divisão do conhecimento", em Hayek:

    "Nenhum homem pode jamais dominar todas as possibilidades de produção — que são inúmeras — de modo a estar apto a fazer juízos de valor diretamente evidentes, sem a ajuda de algum sistema de computação. Se distribuíssemos para alguns indivíduos os controles administrativos sobre os bens de toda uma comunidade — cujos homens que trabalham na produção desses bens estão também economicamente interessados neles — teríamos de ter algum tipo de divisão intelectual do trabalho, algo que não seria possível sem algum sistema que calculasse a produção." Mises, O Cálculo Econômico sob o Socialismo

    E em Liberalismo, ele diz que essa é a principal objeção contra o socialismo:

    "Esta é a objeção mais importante que a Ciência Econômica coloca à viabilidade de uma sociedade socialista. Esta deveria abandonar a divisão intelectual de trabalho, que consiste na cooperação de todos os empresários, donos de terras e trabalhadores, na qualidade de produtores e consumidores, na formação dos preços de mercado. Mas, sem isso, a racionalidade, isto é, a possibilidade de produzir-se o cálculo econômico, é inimaginável." Mises, Liberalismo, cap. 2

    Em Ação Humana, ele repete:

    "Mas, sendo assim, voltamos ao ponto de partida: o diretor, ao pretender conduzir a atividade econômica, não pode recorrer à divisão do trabalho intelectual que, no regime capitalista, nos proporciona um método prático de efetuar o cálculo econômico.

    O emprego dos meios de produção pode ser controlado seja pela empresa privada ou pelo aparato social de coerção e compulsão. No primeiro caso, há um mercado, há preços de mercado para todos os fatores de produção e é possível o cálculo econômico. No segundo caso, não. É inútil iludir-se na esperança de que os órgãos da economia coletiva serão "onipresentes" e "oniscientes". A praxeologia não lida com os atos de uma divindade onipresente e onisciente; lida com os atos de homens dotados apenas de uma mente humana.

    E a mente humana só pode planejar se puder fazer uso do cálculo econômico." Ludwig von Mises, Ação Humana, cap. XXVI

    E ele credita Hayek por esclarecer essa questão do conhecimento:

    "O fato de que o conhecimento existe de forma dispersa, incompleta e inconsistente, em muitas mentes individuais, foi apontado por Hayek e isto é muito importante. Hayek diz que, se estamos falando sobre o conhecimento de nossa era, estamos cometendo um erro se pensarmos que este conhecimento existe em todas as mentes, ou mesmo que sua totalidade existe na mente de um homem. Ele observou, por exemplo, no caso da sociedade socialista, que o progresso possível é limitado pela mente de um homem. É importante para a economia capitalista que todos aqueles que têm um conhecimento melhor sobre algum problema específico possam tentar obter lucros desta superioridade e de suas tentativas de contribuir para o aprimoramento das condições gerais. Na economia socialista, o conhecimento tem valor somente na medida em que está disponível para a autoridade central, para os ditadores que estão elaborando o plano central. Sob o capitalismo, a coordenação das várias porções de conhecimento é produzida através do mercado. Em uma sociedade socialista, ela deve ser efetuada seja na mente do ditador, seja na mente dos membros do comitê do ditador." Ludwig von Mises, in: Bettina Bien Greaves, Steneographic notes of Ludwig von Mises New York University Seminar. 20 mar. 1958


Envie-nos seu comentário inteligente e educado:
Nome
Email
Comentário
Comentários serão exibidos após aprovação do moderador.