clube   |   doar   |   idiomas
A irônica guerra cambial

Em uma guerra no sentido convencional, o exército mais forte é normalmente o vencedor. Na guerra cambial, o mais fraco é quem ganha. Esta é a doutrina dominante.

Esta semana no jornal inglês Financial Times, nosso Ministro da Fazenda, Guido Mantega, estampou a capa com sua declaração de que "estamos em uma guerra cambial". Até aqui nada surpreendente. A relevância do tema parece ser que Mantega foi o primeiro a deixar de lado os eufemismos e expor claramente o que todos os bancos centrais estão fazendo, mas não querem dizer.

A doutrina é: moeda fraca é saudável para a economia. Moeda enfraquecendo com mais velocidade do que as outras, melhor ainda. A lógica empregada é a seguinte, uma moeda desvalorizada diminui os preços para o mercado externo aumentando a competitividade, logo estimula as exportações. Exportações são benéficas para a economia, importações não. Esse é o legado dos mercantilistas. Infelizmente, é também o legado de outras escolas econômicas, dentre elas a Keynesiana, que de tempos em tempos volta das cinzas ao socorro de governos insolventes.

Por outro lado, a mídia também faz sua parte em perpetuar tais falácias. Somos diariamente inundados por matérias, artigos e entrevistas de especialistas, políticos e empresários denunciando o "mal" causado pelas importações, como a nossa balança comercial pode se "deteriorar" devido à competição externa, que devemos barrar a entrada da concorrência estrangeira e que devemos aumentar nossas tarifas de importação e impor cotas! E se isto não for o suficiente, que desvalorizemos nossa moeda! Moeda forte é coisa do passado!

Não é preciso ser economista para chegar à conclusão de que há algo fundamentalmente equivocado nestas bravatas protecionistas. Basta empregar o reductio ad absurdum para concluir que estas teses carecem de fundamentação:

1)     Ora, se exportar é benéfico e importar é maléfico, deveríamos tentar erradicar o último utilizando-se de todas as ferramentas possíveis. Não desperdicemos nossos esforços em atividades que prejudicarão a nação! Mas para alguém exportar, alguém tem que necessariamente importar, ou seja, é impossível todos os países simultaneamente abolirem suas importações.

2)     Se é interessante para um país exportar mais do que importa, a mesma lógica deveria ser válida para estados dentro do mesmo país. Portanto, deveríamos impor tarifas no comércio interestadual. Na mesma linha, seria benéfico impor tarifas para o comércio intermunicipal. E por que não entre bairros? Ou então entre ruas, casas e até indivíduos? Não sairíamos todos ganhando?

É visível o quão absurdo se tornam os argumentos mercantilistas quando levados às suas conseqüências lógicas. Exportar e importar nada mais é do que vender e comprar. A fronteira entre os países apenas ofusca nossa compreensão, no entanto, não altera a essência da transação[1]. Por exemplo, imaginemos que o estado de São Paulo declare sua independência e sua soberania seja reconhecida internacionalmente. A partir deste momento, qualquer venda de São Paulo ao estado do Paraná será considerada exportação por aquele e importação por este. Analisando esta situação hipotética, seria sensato impor barreiras alfandegárias para dificultar o comércio entre os dois territórios? Seria a sociedade beneficiada desta forma?[2]

Desde o colapso de Bretton Woods, mais precisamente a partir de 1973, vivemos o chamado sistema de moeda fiduciária flutuante (fluctuating fiat currencies). Sob tal sistema, não há qualquer lastro com dinheiro material (ouro e/ou prata), onde o dólar acabou dominando como a moeda de reserva mundial. Nosso sistema atual é baseado na confiança. O lastro do dólar é a "total confiança e crédito do governo dos EUA" (conforme está escrito nas cédulas do Federal Reserve - Full Faith and Credit of the US Government). Seria mais preciso afirmar que o sistema atual é baseado não na confiança, mas na ignorância total e generalizada. Se a maioria da sociedade compreendesse a inerente insolvência do atual sistema, a realidade dificilmente seria a mesma.

Entretanto, a atual situação de moedas fiduciárias flutuantes não é de todo desconhecida, muito menos seus perniciosos efeitos. Após o mundo viver uma relativamente estável era monetária, durante o padrão-ouro clássico, os governos mundiais foram "obrigados" a suspender o resgate em espécie para financiar suas campanhas na Primeira Guerra Mundial.

A consequência foi um período similar ao que vivemos hoje em dia, com a diferença que naquela época, poucos economistas enxergavam um cenário de papel-moeda sem lastro como ideal[3]. Apesar de bem intencionada, a tentativa de restaurar um padrão-ouro fracassou levando o sistema monetário novamente a experimentar os malefícios de moedas fiduciárias baseadas na "total confiança e crédito" dos governos. Como bem explica Rothbard:

O caos e a desenfreada guerra econômica dos anos 30 ensinam uma importante lição: a grave falha política (sem considerar os problemas econômicos) no esquema monetário para moedas livremente flutuantes de Milton Friedman — Escola de Chicago. O que os Friedmanites fariam — em nome do livre mercado — é cortar completamente todos os vínculos com o ouro, deixando o controle absoluto das moedas nacionais nas mãos de seus governos centrais, os quais emitiriam papel-moeda fiduciário de curso forçado — e então aconselhar cada governo a permitir que sua moeda flutue livremente em relação às demais moedas, além de abster-se de inflar o seu próprio papel-moeda muito escandalosamente. A grave falha política é entregar o controle total da oferta monetária ao Estado-Nação, e então ter a esperança e a expectativa de que o Estado se absterá de usar tal poder. E como o poder sempre tende a ser abusado, incluindo o poder de falsificar legalmente, a ingenuidade, bem como a natureza estadista deste tipo de programa deveria ser fortemente evidente[4].

Com o objetivo de restaurar a estabilidade monetária e o comércio internacional após a Segunda Guerra Mundial, foi instaurado o sistema de Bretton Woods, o qual durou até 1971. O que sucedeu é o sistema atual, conforme já descrito acima.

Desgraçadamente, a atual guerra cambial pode sim beneficiar alguns poucos, mas certamente empobreceremos todos. Como verificamos, a batalha é atual, mas os argumentos que embasam estas políticas são tão falaciosos quanto antigos.

As consequências de uma chamada guerra cambial são desvalorizações competitivas, uniões monetárias em atrito, controles cambiais, tarifas, cotas e por fim, o colapso do comércio e investimento internacionais[5].

Na atual crise financeira que enfrentamos, fruto das expansões monetárias que induziram a investimentos errôneos em larga escala, governos mundiais tentam desesperadamente estimular suas economias de alguma maneira. Uma via óbvia, ainda que falsa, é estimular as exportações. E, seguindo o título deste artigo, é desencadeada uma guerra cambial, onde a ferramenta utilizada é a desvalorização de suas moedas.

Constantes intervenções na esfera monetária distorcem a estrutura produtiva, promovem benefícios nos setores exportadores em detrimento de todos os demais, dificultando o saudável processo de liquidação de investimentos errôneos e deficitários, impedindo a realocação dos recursos para onde estes podem ser empregados eficientemente.

Em geral, e especificamente no Brasil, a guerra cambial tem o nefasto efeito de desviar o foco dos reais problemas na economia: um estado gigante, uma carga tributária vergonhosa, uma legislação trabalhista rígida e uma burocracia sufocante. Empresários se lançam a defender um câmbio "justo", e esquecemo-nos de tratar dos problemas estruturais. Um câmbio desvalorizado beneficiaria alguns setores no curto prazo. No longo prazo, somente competitividade pode garantir êxito em qualquer mercado. Mises via a política de desvalorização cambial da seguinte maneira:

Se alguém vê a desvalorização cambial não com os olhos de um defensor do governo e de políticas sindicais, mas com os olhos de um economista, é preciso antes de tudo enfatizar que todas as supostas bênçãos são somente temporárias. Além disso, elas dependem da condição de que apenas um país desvalorize enquanto os outros se abstêm de tal política. Se os outros países desvalorizam na mesma proporção, nenhuma alteração no comércio internacional aparecerá. Se eles desvalorizarem com uma intensidade maior, todas estas bênçãos transitórias, quaisquer que sejam, favorecerão este exclusivamente. Uma aceitação generalizada dos princípios de um padrão flexível acaba, portanto, resultando na mútua e crescente desvalorização entre as nações. No final desta corrida está a completa destruição dos sistemas monetários de todas as nações[6].

Mises continua:

As tão faladas vantagens que a desvalorização assegura ao comércio externo e ao turismo são inteiramente devidas ao fato de que o ajuste dos preços domésticos e dos salários às novas condições criadas pela desvalorização requerem algum tempo. Enquanto este processo não termina, a exportação é encorajada e importação, não. Entretanto, isto simplesmente significa que, durante este intervalo, os cidadãos do país cuja moeda foi desvalorizada estão recebendo menos pelo que eles vendem no estrangeiro.  Concomitantemente, eles devem restringir o seu consumo. Este efeito pode parecer como uma dádiva na opinião daqueles que medem a saúde de uma nação pela balança comercial[7].

Com um mundo altamente globalizado e integrado, desvalorizações cambiais causam caos no comércio internacional. A recente proposta de Bernanke de lançar um novo pacote de quantitative easing é no mínimo alarmante e assustadora. Explico. Donos da moeda de reserva internacional e da maior economia do planeta, qualquer manipulação no valor do dólar americano tem efeitos que repercutem mundo afora rapidamente. O governo do Zimbábue vem desvalorizando constantemente sua moeda, no entanto, isto tem relativamente poucos efeitos fora de seu próprio território.

Portanto, uma desvalorização da moeda americana é um péssimo sinal para a recuperação econômica e do sistema financeiro. E não adianta querer dar distintos nomes à impressão de dinheiro e à desvalorização monetária. Impressão de dinheiro é, sempre, impressão de dinheiro. O chamado quantitative easing, que pode ser traduzido por "facilidade ou flexibilização quantitativa", é apenas mais um eufemismo para o mesmo fenômeno: impressão de dinheiro. Operações de compra no mercado aberto: impressão de dinheiro. E a conseqüência? Moeda desvalorizada. Por sinal, Robert Mugabe é fã de quantitative easing[8].

O Bank of Japan está seguindo o mesmo modelo, preocupadíssimo com as maldições de uma moeda forte. No Reino Unido, o Bank of England estuda novas medidas de QE. No Brasil, aumentamos nossas reservas cambiais a níveis históricos e o Fundo Soberano Nacional está autorizado a intervir no mercado cambial através do BC. Enquanto isso, a cotação do ouro segue batendo recordes. Aonde isto vai parar? Até que ponto o dólar seguirá como reserva mundial? Até que ponto os banco centrais seguirão uma política de desvalorização? Será a completa destruição dos sistemas monetários nacionais conforme advertiu Mises?

Difícil prever quando. Entretanto, estamos neste perigoso caminho. O que podemos concluir é que haverá maiores turbulências no comércio internacional, e a recuperação será mais lenta do que poderia ser. Em um cenário como este, é imprescindível que a legislação trabalhista seja tão flexível quanto possível, permitindo que as empresas demitam e contratem empregados rapidamente, pois distorções cambiais levarão algumas empresas à beira da falência e outras ao sucesso. É fácil dizer. Politicamente factível? Nem tanto. Ainda assim, imprescindível.

Preocupante é o $1.2 trilhão de dólares de reservas em excesso, depositados no Federal Reserve pelo sistema bancário americano.  Não satisfeitos, Bernanke e sua trupe estudam novas medidas de "flexibilização quantitativa".  Quantos bilhões serão necessários desta vez?  $900 bilhões?  Talvez $1 trilhão?  Quando esta oferta monetária for liberada de fato na economia, será como tirar o pino da granada.  Salve-se quem puder.  

Mas, antes, compre ouro, óbvio.

______________________________________________

Leia também: Aflições cambiais


Notas

[1] Logicamente, no mundo atual, exportar e importar normalmente requer o uso de divisas. Em um sistema de padrão-ouro clássico, tal problema não existiria.

[2] Apesar de estas questões "óbvias" já terem sido abordadas em outros artigos do IMB, entendo que o óbvio deva ser repetido exaustivamente. Portanto, para uma análise mais profunda de questões referentes a comércio internacional e balanço de pagamentos sugiro a leitura de Capitalism de George Reismann (Illinois, Jameson Books, 1990) pp. 526-541, Human Action de Ludwig Von Mises (Alabama, Mises Institute, 1998), pp. 447-449 e Man, Economy and State de Murray Rothbard (Alabama, Mises Institute, 2009), pp. 822-826.

[3] Ver Murray Rothbard, What has Government Done to Our Money?, (Alabama, Mises Institute, 2005), p. 89.

[4] Ibid. p. 94.

[5] Ibid. p. 89.

[6] Ludwig Von Mises, Human Action, (Alabama, Mises Institute, 1998), p. 785.

[7] Ibid.

[8] Curiosamente a mídia européia trata destes fenômenos de forma muito mais idônea do que a americana. Neste artigo da BBC pode-se entender bem como funciona o mecanismo de quantitative easing. O leitor atento verá que Robert Mugabe na verdade não utilizou um quantitative easing, pois a impressão de dinheiro no Zimbábue foi para financiar déficits governamentais. No entanto, este é um mero detalhe, o efeito final é aumento da oferta monetária e desvalorização da moeda, seja através da compra pelo BC de títulos diretamente do governo ou de instituições financeiras. Além disso, como didaticamente explica o artigo da BBC, pergunto eu, por que não fazer o sistema mais eficiente. Acabemos com intermediários. Ora, se o objetivo é estimular empréstimos às empresas e aos consumidores, por que não emprestar diretamente? Desta forma o sistema de QE se torna muito mais eficiente e se há algum benefício de fato nesta política, ele será percebido de maneira muito mais rápida.

2 votos

autor

Fernando Ulrich
é mestre em Economia da Escola Austríaca, com experiência mundial na indústria de elevadores e nos mercados financeiro e imobiliário brasileiros. É conselheiro do Instituto Mises Brasil, estudioso de teoria monetária, entusiasta de moedas digitais, e mantém um blog no portal InfoMoney chamado "Moeda na era digital". Também é autor do livro "Bitcoin - a moeda na era digital".

 

  • Angelo Noel  01/10/2010 09:54
    Fernando,
    A mudança do padrão ouro para uma moeda fiduciária sem lastro pôde ser considerada como um colapso completo do sistema monetário ou numa escala menor, foi uma "tungada" nas finanças dos indivíduos?

    Abraço.
  • Fernando Ulrich  01/10/2010 11:07
    Angelo, creio que o seu termo é apropriada. Foi uma tungada nas finanças dos indivíduos sim. Como os governos inflacionaram a moeda para financiar a guerra, já era impossível resgatar em espécie pelo valor de face das cédulas. Portanto, suspender o resgate foi consequência "natural".\r
    Colapso do sistema monetário, talvez o melhor exemplo seja a Alemanha de 1923 e o Zimbábue recentemente. Quando os cidadãos simplesmente se recusam a usar a moeda imposta pelo governo pois ela foi inflacionada de forma escandalosa. Ou utilizam alguma moeda internacional como meio de troca ou voltam ao escambo. Imaginem uma economia moderna voltar ao escambo. Logicamente, impraticável.\r
  • Luís Dietz  01/10/2010 11:32
    Parabéns Fernando, seu melhor artigo até agora aqui, pelo menos dos que eu li.
  • Juliano Camargo  01/10/2010 13:07
    Obrigado por este artigo Fernando. Este tema é muito importante. E quem tem uma base em escola Austríaca sabe ainda mais do que a opinião pública que estamos vivendo um verdadeira mudança de paradigma monetário.

    Mises descreveu bastante cedo o mecanismo da desvalorização competitiva, onde os ganhos temporários se cancelam e o mundo mergulha em uma onda inflacionária global, com a perda de riqueza real que isto implica. Aqui no Brasil sabemos bem o quanto de riqueza deixa de ser criada quando se vive em um ambiente inflacionário.

    Aparentemente lá fora eles se esqueceram disso. Um Keynesiano até acharia bom que todos desvalorizassem ao mesmo tempo, porque eles acham que podem controlar o 'pino da granada', que você citou no final.

    O que vai acontecer quando o QE FUNCIONAR é o que mais nos assusta. Porque como é que eles vão conseguir impedir o sistema monetário de expandir múltiplos a mais do que antes? E não era esse o objetivo, que os bancos emprestassem de novo?

    Deixo uma pergunta para os colegas então: o que o Fed poderá fazer quando o QE funcionar e a economia começar a entrar no turbo-charge? O que acontecerá quando subirem juros pela primeira vez? Será sempre insuficiente? Quero entender bem o mecanismo desta explosão inflacionária.
  • Rafael Hotz  01/10/2010 13:16
    a apreciação cambial é a única tendência que está contrabalanceando o boom gerado pela expansão monetária do BACEN, BB, BNDES, bancos comerciais e pelos déficits do governo... breca-la é, como o autor disse, retirar o pino da granada aqui no brasil...

    e o próximo imbecil no comando do governo vai fazer justamente isso...
  • Caio  01/10/2010 16:03
    Ótimo texto!
  • Rhyan Fortuna  01/10/2010 17:10
    Gostei bastante do texto!

    Qual a função das reservas internacionais?
  • Gustavo  01/10/2010 22:24
    Deveriam perguntar pro Bernanke como ele vai enxugar os trilhões que ele imprimiu. Imprimir é fácil, mas depois ninguém sabe o tamanho da catástrofe: Inflação, desemprego, recessão, juros altos, queima de capital etc...
  • Jonas Fagá Jr  01/10/2010 22:33
    Nada mais fácil.
    Toma-se o dinheiro das populações, sem que elas percebam, enquanto se joga a culpa nas "outras" populações lá fora.

    "-Olhem o inimigo lá fora" gritam os batedores de carteira, enquanto surrupiam o fruto do trabalho de seus governados.

    E ainda de quebra, pode-se jogar a culpa pros sucessores, quando a bomba estourar, e dizer: "-Viram, como nós sabíamos governar, e eles não?"

    Lamentável a postura desses "doutores".

    Mas o texto não. O texto está excepcional. Principalmente na dica simples e pragmática que o encerra.

    Parabéns, Fernando.
  • Getulio Malveira  02/10/2010 13:20
    Excelente artigo. Hume deve estar a se revirar no túmulo. Afinal, como é possível que a velha mentalidade mercantilista possa ter retornado ainda mais grosseira depois de tantos séculos? Como é possível que se possa ainda confundir riqueza e moeda depois de Hume, dos fisiocratas e de todo o pensamento econômico sério? É até compreensível que nos tempos de Hume, os reis confundissem a riqueza de seus reinos com a quantidade de metais precisos, afinal tais metais possuem certo valor como mercadorias. Mas ultrapassa todo o limite de compreensão possível que nossos atuais "soberanos" hajam do mesmo modo com relação a simples pedaços de papel pintado ou, pior, simples algarismos eletrônicos. Não há palavras para descrever a estupidez e o fetichismo dos keynesianos.
  • Fernando Ulrich  03/10/2010 02:55
    Juliano, perguntas difíceis. Tentarei respondê-las em outro artigo. Enquanto isso, recomendo um ótimo artigo (em inglês) que fala sobre as "alternativas" de saída do FED.\r
    \r
    mises.org/daily/4570\r
    \r
    Rhyan, o papel das reservas internacionais é simplesmente permitir que o BC possa manipular o mercado de cambio. É convencionalmente visto como "saudável" para um país ter reservas internacionais , pois funciona como um colchão que pode amortecer uma apreciação ou depreciação brusca do cambio. O artigo do Leandro fala um pouco sobre este tema também. Sugiro a leitura. www.mises.org.br/Article.aspx?id=419
  • Rhyan Fortuna  03/10/2010 16:45
    Obrigado, Fernando!
  • Helio  03/10/2010 23:46
    Rhyan, as reservas internacionais formam o principal ativo do Banco Central, e que portanto servem de lastro para o passivo do BC, que são principalmente o papel-moeda e as reservas dos bancos (base monetária), que estão compulsoriamente depositadas no BC.

    Em um país com um "currency board" há uma identidade legal entre as reservas e a base monetária. Toda vez que entra um dólar, o BC é obrigado a imprimir um "dinheiro local", e cada vez que sai um dólar, o BC cancela um "dinheiro local".

    Em países como o Brasil, não há necessariamente uma identidade entre as reservas e a base. Hoje, o BC tem cerca de US$270 bi de reservas e US$100 bi de base monetária. Portanto, há uma razoável cobertura do passivo. Caso todos os brasileiros quisessem sair do país com seu dinheiro (não digo patrimônio, apenas o dinheiro papel e na conta-corrente, excluindo inclusive os fundos de investimento, contas poupança, etc), haveria moeda forte para todos. Houve momentos no passado nos quais não havia cobertura de reservas suficiente. Tais momentos geravam grande instabilidade, pois o mercado "testava" o BC, ao se preocupar com a quantidade de lastro. Essas são as chamadas crises do balanço de pagamentos, O Mário Henrique Simonsen dizia que a inflação aleija, mas o balanço de pagamentos mata. E ele não estava muito longe da verdade.

    Por conta do descrito acima, toda reserva deve estar aplicada em títulos da mais alta qualidade da moeda que se escolheu como reserva. No caso do Brasil, as reservas portanto deveriam ser aplicadas em títulos do governo americano.

    Há governos que abusam desta regra e tentam se apropriar das reservas ou mesmo comprar títulos de pior qualidade. A Argentina fez isso em 1992, ao usar as reservas para comprar títulos da dívida do PRÓPRIO governo argentino, caindo abaixo de 1:1 entre reservas e base monetária. Tal malandragem quebrou o austral, e como Simonsen previu "matou" a Argentina.

    O FED americano agora tem boa parte de suas reservas em hipotecas de baixa qualidade, quando na verdade deveriam ter ouro. (durante a maior parte do tempo eles detiveram títulos do governo americano). O balanço patrimonial do FED é muito pior que o balanço do BC brasileiro. Pelo menos nossa arara azul tem como lastro títulos do governo americano, ou seja, do contribuinte americano com um todo. O FED tem como lastro em grande parte apenas um virtual inadimplente.

    Espero ter auxiliado em uma melhor compreensão deste complexo assunto.

  • Fernando Ulrich  04/10/2010 09:10
    Helio, obrigado pela explicação adicional.\r
    \r
    E o que acontecerá quando o dólar não ser mais a "moeda forte"?\r
    \r
    O suposto lastro do dólar, ouro, não se sabe sequer a quantidade e a localização destas reservas. Em teoria estaria a maior parte em Fort Knox.\r
    \r
    O congressista americano Ron Paul pretende introduzir uma legislação em 2011 com o objetivo de auditar as reservas de ouro do FED.\r
    \r
    A impressão que tenho é que o BC brasileiro tem seu lastro em dólar e o dólar não tem lastro em nada, logo...
  • Juliano Camargo  04/10/2010 13:19
    Obrigado Fernando pela dica e ao Helio por seu comentário nesta área tão complicada.

    O artigo do Howden explica que a estratégia de saída do Fed é continuar pagando 3bi$ por ano aos bancos para que estes mantenham suas reservas com o Fed, e evitar vender os títulos podres por enquanto. Deixar debaixo do tapete. Assim que for descoberta a verdadeira perda que o Fed tomou nestes títulos, vai haver um aumento equivalente de liquidez para o sistema bancário, para ser alavancada em níveis pré-crise, o que causaria inflação.

    Este artigo que você citou é bem recente. Mas com este clima de guerra de desvalorização e de grande retórica Keynesiana nos EUA estou ainda mais pessimista. .
  • Helio  04/10/2010 16:35
    E o que acontecerá quando o dólar não ser mais a "moeda forte"?\r
    \r
    Essa pergunta contém a própria resposta embutida. Se o dólar não for mais "moeda forte", será uma moeda "fraca", como qualquer outra. Mas isto ainda vai levar algum tempo, na minha opinião.\r
    \r
    \r
    O suposto lastro do dólar, ouro, não se sabe sequer a quantidade e a localização destas reservas. Em teoria estaria a maior parte em Fort Knox. \r
    \r
    O suposto lastro do dólar não é o ouro. O lastro é por definição o que estiver contido no ativo do FED. Hoje fazem parte do balanço de US$2.3 tri: a) títulos públicos do tesouro americano - US$800 bi, hipotecas (garantidas pela Fannie/Freddie) - US$1.1 tri, outros - US$400 bi, e ouro (contabilizados a US$11bi históricos de US$35/onça-troy , mas que se realmente estiverem lá as 8100 toneladas, valerão a mercado cerca de US$350bi)\r
    \r
    Portanto, o lastro do dólar é grosso modo de 15% de altíssima qualidade (ouro), 30% de qualidade muito alta (treasuries), 40% de qualidade duvidosa ou baixa (hipotecas), e 15% de indeterminado (outros). Historicamente o lastro sempre foi composto de 100% de altíssima ou muito alta qualidade, até dois anos atrás, quando começaram as compras de hipotecas dos bancos (dando em troca treasuries - que beleza).\r
    \r
    \r
    \r
    O congressista americano Ron Paul pretende introduzir uma legislação em 2011 com o objetivo de auditar as reservas de ouro do FED. \r
    \r
    Perfeito. E aí saberemos se há realmente 8100 toneladas de ouro (que valem US$350bi) - mas sem esquecer que isso é de qualquer forma apenas 15% do total do ativo (e passivo) do FED.\r
    \r
    A impressão que tenho é que o BC brasileiro tem seu lastro em dólar e o dólar não tem lastro em nada, logo...\r
    \r
    A impressão está equivocada. O melhor ativo financeiro (largamente aceito) do mundo (excetuando-se ouro) é exatamente Treasuries de curto prazo. Qualquer investidor quer ter Treasuries, pois o "lastro" destes é a capacidade de pagamento do contribuinte americano, que por sua vez está em grande parte nas mãos do governo e sua taxação. Qualquer outro ativo financeiro é mais arriscado que Treasuries, segundo o mercado. É por isso que qualquer ativo financeiro é cotado como "spread over Treasuries". O ouro é o único ativo financeiro que não é passivo de ninguém, e portanto é ainda mais seguro que Treasuries. Mas Treasuries são o segundo melhor.\r
    \r
    O balanço do BC brasileiro não divulga oficialmente a composição das reservas, abertas por emissor do título, mas estimo que cerca de 90% sejam aplicações em Treasuries dos US. Portanto, o lastro do real é muito melhor que o lastro do US$.\r
  • kenzo  01/11/2014 16:52
    Leigo em economia.

    Você diz que os treasuries são um bom lastro porque são por sua vez lastreados na capacidade de pagamento do "contribuinte" estadunidense. Mas o "contribuinte" estadunidense paga os juros desses treasuries com dolar, certo? Então o ponto é: os treasuries são bons lastros para o dólar e, ao mesmo tempo, estão lastreados por dólares - pagos pelo "contribuinte" estadunidense? Que esquisito isso.
  • Fernando Ulrich  04/10/2010 19:07
    Helio, considerando a situação fiscal dos EUA, as unfunded liabilities, etc., na sua opinião, os Treasuries continuam sendo o melhor ativo financeiro (após o ouro)?\r
    \r
    A capacidade dos EUA de honrar a sua dívida é real?
  • Helio  04/10/2010 19:27
    Sim Fernando, os outros governos centrais tem problemas similares ou piores (unfunded liabilities de porte similar, ou risco institucional maior, etc). O contribuinte americano, continua sendo o ativo financeiro de menor risco, após o ouro.\r
    \r
    Alguns poderão argumentar que títulos da China ou do Brasil ou do país Y são menos arriscados. Mas o mercado é rei, e ele tem preço todos os dias. O título do governo americano é que indica menor risco, segundo o mercado.\r
    \r
    A capacidade do governo dos US de honrar suas dívidas depende de sua capacidade de arrecadar impostos dos contribuintes americanos, de sua capacidade de dar um calote parcial ou total nos mesmos contribuintes, e de sua capacidade de dar um calote inflacionário (parcial) nos detentores de dólares. O mercado percebe que a capacidade de pagamento do contribuinte americano conjugado com os poderes governamentais acima conferem ao detentor de dívida a melhor combinação em termos de risco no mundo de hoje.\r
    \r
    Te pergunto - excetuando-se o ouro, você investiria em que título se você fosse o responsável pelo BC? E na sua poupança pessoal? (imaginando títulos de renda fixa apenas)\r
    \r
  • Helio  04/10/2010 19:42
    Me esqueci de falar sobre o Fort Knox.\r
    \r
    O Fort Knox não é o maior repositório de ouro nos US. Na verdade é o cofre do Fed em New York. A título de curiosidade, todo o ouro jamais extraído na história do mundo cabe em um cubo com menos de 20m de aresta (lado). Se for verdade que o FED possui 8100 toneladas, tal ouro caberia em um cubo com cerca de 7 metros de aresta.\r
    \r
    A maior parte do ouro depositado nos US, em especial em New York, é detido por bancos centrais de terceiros países, e está apenas em custódia nos Estados Unidos.\r
    \r
  • Fernando Chiocca  04/10/2010 20:01
    O Fort Knox não é o maior repositório de ouro nos US.

    Claro que não. Até eu tenho mais ouro que o Fort Knox. O Fort Knox tá vazio, heheheh: Is There Any Gold in Ft. Knox?
  • Helio  04/10/2010 20:15
    Ainda que haja 20.000 toneladas em Fort Knox, ela bem pode ser de propriedade de terceiros, e não do Federal Reserve.\r
    \r
    Vou ouvir o podcast do Lew. Eu tenho curiosidade em saber a última data na qual houve alteração na alegada posição de ouro do Fed, que é de 8100 toneladas. Se foi antes de 1965, terei certeza de que é uma fraude, pois na segunda metade da década de 1960 os Estados Unidos ainda "defenderam" o padrão-ouro durante a enorme corrida detonada pelo ministro das Finanças (e misesiano) Jacques Rueff, que demandava o cumprimento de entrega de ouro em troca de dólares detidos pelo Banco Central da França. Os outros países seguiram a França quando perceberam que o ouro poderia acabar.
  • Ricardo  04/10/2010 20:35
    O ouro de Fort Knox está contaminado. Goldfinger fez isso. E o ouro do Federal Reserve de Nova York foi roubado. O irmão do Hans Gruber fez isso. Bwahahuhuahuhauhaahuha
  • Rhyan Fortuna  04/10/2010 20:54
    Valeu, Helio!
  • Lucas  04/10/2010 23:53
    Grande aula, Helio! Sinceramente, você deveria não só escrever, mas também palestrar mais. O tema é complexo, e um texto seu com mais detalhes seria de grande valor.
    abraço
  • Fernando Ulrich  05/10/2010 00:27
    Helio, o tema é de fato complexo. Dizer que o mercado é sempre rei? Na época do boom imobiliário o melhor ativo era um imóvel. As hipotecas securitizadas tinham um rating AAA das agências. Assim como os bonds americanos.

    Sabemos que o mercado pode ser induzido ao erro em grande escala, por exemplo durante uma expansão monetária. Outra questão é o fato de o próprio FED atuar no mercado comprando títulos americanos. Outro fator que distorce o "mercado".

    Confesso que é preciso estudar mais sobre este tema, mas não estou totalmente convencido de que os Treasuries sejam de fato o segundo ativo de menor risco no mundo.
  • Helio  05/10/2010 09:05
    Fernando, quem tiver certeza de que o mercado está errado, pode ficar bilionário rapidamente. No caso em questão, é só comprar o título considerado menos arriscado que Treasuries e vender a descoberto os Treasuries (e alavancar ao limite). Ou comprar credit default swaps de Treasuries e vender CDS dos títulos menos arriscados. Assim você teria uma máquina de dinheiro se a tese estiver correta. (e o mesmo vale para apostas durante o ciclo de expansão monetária - basta comprar ações de empresas de bens de capital e vender a descoberto empresas de consumo, e fazer o inverso depois que a bolha estourar).

    Você dirá que o mercado pode continuar "errado" por muito tempo e a operação não funcionar, mas isso ilustrará a fraqueza do argumento contra o mercado.

    As hipotecas AAA hoje sabemos que continha lixo tóxico, mas é fácil falar a posteriori. Enquanto estamos aqui, o Paulson ganhou US$20 bilhões apostando contra tais hipotecas desde 2006. Ele viu isso antes dos outros e fez a aposta. Mas milhares de outras apostas feitas por caras tão ou mais inteligentes que ele deram errado. Não é fácil ganhar dinheiro, e é muito, muito perigoso soltar a frase: "Mercado, você está errado!" (rei mercado, me perdoe pela heresia de ter dito essa frase, risos)

    Abs!
  • Fernando Ulrich  05/10/2010 11:08
    Helio, concordo em parte, pois o que você descreve tem muito de "timing" de mercado e isso sabemos que é extremamente arriscado fazer. Entretanto análises macro é possível fazer e saber onde há situações insustentáveis. Não digo em ficar rico com operações especulativas long-short, mas sim evitar de perder. Ou seja, nem participar no mercado em questão. Quem entende de ouro, não compra ouro pois acha que vai subir incrivelmente e poderá lucrar rios de dinheiro com isso, mas sim pq papel-moeda é inerentemente inflacionário e no longo-prazo perderá poder de compra. Pelo menos eu enxergo desta maneira. Abs!
  • Helio  05/10/2010 12:45
    Fernando, eu não disse que não seja possível fazer análises ou ganhar dinheiro. Mas apenas que é mais fácil palpitar contra o mercado do que ganhar dinheiro. Ao contrário de gestores de recursos, economistas não tem diariamente uma "quota" de fundo, que mostra todos os dias quanto a opinião deles foi acertada ou errada.

    Aliás, eu procuro utilizar as teses da escola austríaca exatamente para fazer dinheiro, o que significa que por vezes (raramente) considero que no futuro[/i] o mercado vai caminhar na direção da minha visão. Mas eu procuro evitar a postura perigosa de achar que o mercado [b]hoje esteja errado.

    Ou seja, hoje os treasuries são o ativo financeiro menos arriscado (após o ouro), mas concordo que há uma grande chance que deixem de ser no futuro.

    No entanto, argumentar que os treasuries são mais arriscados que os títulos do Brasil ou da China, etc, é um erro e uma contradição - erro, pois no mercado pode-se comprar o outro título bem mais barato, arbitrar e ganhar dinheiro, e contradição, pois se realmente se acredita nisso, deveria put your money where your mouth is, como dizem os americanos. Se não puser, significa que acha que a operação é "arriscada" ou que pode levar muito tempo para se materializar, o que mostra a disparidade entre discurso e ação. Ações são sempre mais reveladoras de uma postura do que o discurso.

  • Fernando Ulrich  05/10/2010 00:29
    Ah, e aproveitando para "puxar o saco", concordo com o Lucas. Seremos gratos de poder aproveitar mais de seu conhecimento.
  • Fernando Ulrich  05/10/2010 12:49
    Agora sim. Estamos de acordo. :)
  • Aldo Ternieden Bredan  17/10/2010 02:35
    Os E.U. A chegaram a possuir 20.000 toneladas de ouro hoje não passa de 4.000 toneladas.\r
    Todo ouro do mundo junto 143.000 toneladas produção ouro anual mundial é de 2000 toneladas com expectativas para no máximo 10-12 anos depois se esgotara.\r
    Este CAPITALISMO SELVAGEM... esta fadado ao total colapso as soluções socialistas/comunistas nunca deram certo.\r
    OBAMA defende apenas os interesses dos Bancos lá esles fazem o que querem e tiram ate a propriedade de qualquer um estando paga ou não..PERGUNTO QUE CAPITALISMO SELVAGEM É ESSE???Onde não existem sequer direito a propriedade ...aqui no Brasil nesta parte estamos anos luz a frente!!!\r
    Teria de ser um Capitalismo autossustentável... um aparente paradoxo!!!Sem consumo não há capitalismo...\r
    O lastro atual este mais baseado no petróleo.\r
    Uma simples conta que qualquer ginasiano pode fazer com os numero acima.\r
    Revela um valor da onça Troy ouro bem superior a 50mil dólares!\r
    Caríssimos... vendi tudo o que tinha e estou com barrinhas de ouro m espécie sorte a nossa que nos cidadãos brasileiros temos em relação aos americanos que não podem possuir ouro em barras apenas "papeis...que se revelarão moeda podre!!!" sorte de quem possuir o vil metal em espécie\r
    A profecia dos fins dos tempos esta próxima onde diz que com todo o trabalho de um dia só será possível comprar alimento para este dia!\r
    Aldo Bredan Engenheiro Pesquisador Santos/ SP\r
  • Emerson Luis, um Psicologo  29/07/2014 21:33

    Se desvalorizar a própria moeda é tão bom, por que não fazem uma ultra-desvalorização de vez?

    * * *


Envie-nos seu comentário inteligente e educado:
Nome
Email
Comentário
Comentários serão exibidos após aprovação do moderador.