clube   |   doar   |   idiomas
Aflições cambiais

O texto a seguir foi originalmente publicado no dia 15 de outubro de 2009.  Com o recente anúncio de que o Fed irá injetar mais US$ 700 bilhões na economia americana, o artigo ficou ainda mais atual.


Sim, é fato que a recente valorização do real perante o dólar — que veio para ficar — é prejudicial para o setor exportador, embora seja ótimo para as importações.  Porém, o problema todo não está no câmbio valorizado, tampouco nas importações chinesas.  Todo o problema jaz no arranjo econômico do país.   

Ainda não é o caso, mas se alguns empecilhos criados pelo governo brasileiro não forem removidos e o dólar seguir em queda livre, o país estará diante de um real perigo de desindustrialização (se isso é necessariamente ruim ou não, também será analisado mais abaixo).  Mas isso, repito, será apenas no extremo — algo ainda muito distante.

Os mais afobados, inclusive alguns autoproclamados liberais, já estão clamando por intervenções no câmbio.  Qualquer política cambial que vise a impedir a desvalorização do dólar não apenas não atingirá seu intento, como também poderá gerar consequências ainda mais nefastas, algo que será explicado mais adiante.  Ademais, sempre que se mexe no câmbio visando a favorecer um setor, você inevitavelmente acaba prejudicando vários outros — o que significa que, no final, vão ganhar aqueles setores que tiverem maior influência política.  Difícil imaginar que tal arranjo, totalmente baseado no poder de lobby, será o melhor em termos econômicos.

Outra solução que sempre é analisada com muito carinho — principalmente por empresários mercantilistas — e que já foi implementada para beneficiar o setor siderúrgico, é o protecionismo — que consiste no aumento de tarifas de importação (leia-se "confisco do seu dinheiro para o benefício dos ineficientes").  Os efeitos perniciosos de tal medida que já foram explicados detalhadamente aqui.  Voltaremos a eles no decorrer deste artigo.  Mas antes, alguns esclarecimentos.

A teoria para os novatos

Antes de adentrarmos a discussão, convém fazer alguns esclarecimentos técnicos sobre taxa de câmbio.

Vivemos em um mundo em que cada país (meras extensões territoriais cujos limites são delineados politicamente) possui seu próprio papelzinho pintado que funciona como moeda de troca.  Todos esses papeizinhos flutuam entre si no mercado financeiro internacional e, por ação do mecanismo de oferta e demanda, o preço de um é determinado em relação a outro.  Esse preço é a taxa de câmbio.

(Só um adendo: economistas liberais, principalmente aqueles associados à Escola de Chicago, dizem que câmbio flutuante é sinônimo de livre mercado.  Como pode?  Mesmo que não houvesse absolutamente nenhuma intervenção dos governos no mercado de câmbio, a simples existência de taxas flutuantes entre diferentes áreas geográficas já configura intervencionismo.  Afinal, um genuíno sistema monetário de livre mercado — o padrão-ouro — não teria essas flutuações baseadas em fronteiras nacionais).

Uma vez determinada a taxa de câmbio, o conceito de moeda forte e moeda fraca torna-se muito importante.  Por exemplo, há um ano, no dia 15 de outubro de 2008, 1 dólar custava R$ 2,15.  Ontem, dia 14 de outubro de 2009, 1 dólar custava R$ 1,70 (acompanhe a cotação diária aqui).  Nesse período o real se apreciou em relação ao dólar, o que significa que o real se fortaleceu perante o dólar — ou, da mesma forma, o dólar se enfraqueceu perante o real.  Porém, ainda assim, diz-se que o dólar é mais forte que o real, pois com 1 dólar você compra R$ 1,70, ao passo que com 1 real você compra US$ 0,59.

Importante: o conceito de forte e fraco refere-se à taxa de câmbio de uma moeda em relação à outra, e não ao poder de compra doméstico de uma moeda.

Quando se considera o comércio internacional, moedas fortes e fracas podem ser boas ou ruins.  Por exemplo, por um lado, uma moeda forte é boa para os consumidores de seu país de origem, pois ela faz com que as importações e as viagens ao exterior sejam mais baratas.  Ser forte significa que ela é capaz de comprar mais unidades da moeda de outro país.  Por exemplo, um produto que custa US$100, custava R$ 215 em outubro do ano passado e hoje custa R$ 170.  O real se fortaleceu em relação ao dólar. 

Por outro lado, uma moeda forte é ruim para as empresas que exportam, pois ele faz com que seus produtos fiquem mais caros no exterior.  Por exemplo, um produto que custa R$ 100, custava US$ 46 em outubro do ano passado e hoje custa US$ 59.  Assim, se o exportador quiser manter o mesmo preço de US$ 46, ele receberá apenas R$ 78,20 na cotação atual do dólar.  Em ambos os casos — menor volume de vendas ou menores preços — os exportadores terão menores receitas.

O raciocínio é exatamente o oposto para uma moeda fraca.

Portanto, uma moeda fraca não necessariamente significa uma moeda moribunda.  Ela pode ser fraca em relação a outra moeda, porém manter um alto e estável poder de compra dentro de seu país — o Chile é um bom exemplo disso.

Explicado o básico do básico, vejamos agora uma interpretação mais austríaca da taxa de câmbio.

O que realmente determina o câmbio

Faça a pergunta acima para um economista qualquer e as chances são de ele lhe responder dizendo que é o saldo das transações comerciais do país que determinam o câmbio.

Explica-se: economias eficientes exportam aquilo que produzem e importam aquilo que não produzem.  Sob condições ideais, o saldo total das transações comerciais de todos os países (exportações menos importações) deve ser zero.  Entretanto, em um momento qualquer, um país vai apresentar um déficit ou um superávit comercial, dependendo de sua relação entre importações ou exportações (se as importações forem maiores do que exportações, haverá um déficit comercial; se as exportações forem maiores que as importações, um superávit).  Isso, em conjunto com outros fatores — como estabilidade política e econômica do país, os juros pagos nos títulos de sua dívida pública e os investimentos estrangeiros feitos no país — contribuem para a relação de oferta e demanda entre as moedas. 

Essa é a explicação convencional para a determinação da taxa de câmbio: o resultado do balanço de pagamentos (balança comercial e de serviços mais a entrada ou saída de capitais). 

Entretanto, essa explicação aborda apenas um lado da equação.  Para que o mecanismo de formação do câmbio seja entendido corretamente, é preciso olhar também o outro lado da equação: a oferta e a demanda das moedas em questão.

As mudanças ocorridas na oferta monetária de uma determinada moeda influem em sua taxa de câmbio.  Por exemplo, fazendo-se uma comparação ao longo do tempo entre a taxa de crescimento da oferta monetária de um país e a taxa de crescimento da atividade econômica desse país (e sabendo-se que, quanto maior o crescimento da atividade econômica, maior a demanda por moeda), temos o que os austríacos chamam de "taxa de crescimento do excesso de oferta monetária".  Falando mais popularmente: se no período de um ano, a oferta monetária do Brasil cresceu, digamos, 15%, e a atividade econômica cresceu 5%, então a taxa de crescimento do excesso de dinheiro foi de 10%.  Essa taxa é um indicador importante na previsão da provável direção da taxa de câmbio daquela moeda no mercado.

Ao se comparar a taxa de crescimento do excesso de dinheiro de um país em relação a outro, temos uma previsão da tendência da taxa de câmbio.  A moeda daquele país cujo excesso de oferta monetária estiver crescendo mais rápido será aquele que vai se enfraquecer ao longo do tempo.  Inversamente, a moeda daquele país cujo excesso de oferta monetária estiver crescendo a uma taxa mais lenta irá se apreciar em relação à moeda do outro país.  É exatamente isso que está acontecendo com o real em relação ao dólar.  Nos últimos 12 meses, a oferta monetária (M1) dos EUA cresceu a uma média de 15%, ao passo que a atividade econômica ficou em - 2%.  Já no Brasil, nesse mesmo período, o M1 cresceu 7%, ao passo que a atividade econômica apresentou um crescimento de 1,3%.  O excesso de oferta monetária cresceu nos EUA a uma taxa muito maior que no Brasil. 

Portanto, de acordo com a Escola Austríaca, a taxa de câmbio de uma moeda, assim como o preço de qualquer outro bem, é determinada por sua relativa escassez em relação à sua demanda — que, por sua vez, é influenciada pelo nível de atividade econômica.

Assim como para qualquer outro bem, é a oferta e a demanda que determinam o preço — ou taxa de câmbio — de uma moeda. 

Logo — e eis aqui o segredo —, a taxa de câmbio entre duas moedas tenderá a ser igual à razão entre o poder de compra de cada uma.  Em outras palavras, é o poder de compra relativo de cada moeda que vai determinar a taxa de câmbio entre elas.

Como o poder de compra do dólar ainda é maior que o do real, o dólar continua mais forte do que o real.  Porém, como tudo indica que a 'taxa de crescimento do excesso de oferta monetária' continuará sendo maior para o dólar do que para o real, a tendência é que o real continue se valorizando perante o dólar. 

Qual o limite?

A impossibilidade da política cambial

Se a teoria austríaca estiver correta, o dólar inevitavelmente seguirá se enfraquecendo (para desespero dos exportadores).  É claro que pode haver momentos pontuais em que o dólar volte a subir, mas a sua tendência geral é de queda.

Apenas três coisas podem reverter essa tendência: (1) um xerife durão ser empossado o novo presidente do Fed e elevar os juros para a casa dos dois dígitos — algo improvável; (2) a economia americana se recuperar estrondosamente — algo impossível; ou (3) o Banco Central do Brasil enlouquecer e começar a imprimir dinheiro ensandecidamente — embora esta seja a mais plausível das três, também é muito improvável.

Portanto, o cenário é sim de desvalorização do dólar e de valorização do real.  E como o Fed não dá sinais de que vai parar de imprimir dinheiro tão cedo (veja o assustador gráfico da base monetária), é bom os exportadores já irem se acostumando com essa realidade.

É óbvio que sempre há aqueles que defendem que o Banco Central faça uma intervenção no câmbio para elevar artificialmente a cotação do dólar (sempre para beneficiar os exportadores).  Teoricamente, o BC poderia fazer uma das duas coisas a seguir. 

No primeiro cenário, ele imprimiria reais e compraria dólares com esses reais.  Essa retirada de dólares do mercado (menor oferta) teoricamente pressionaria sua cotação para cima e os exportadores voltariam a sorrir.  O problema é que esse mesmo artifício já foi adotado durante anos (como mostramos aqui), e o dólar continuou caindo — o que não foi novidade alguma para os adeptos da teoria austríaca; afinal, como vimos, o que determina o câmbio não é apenas a oferta de dólares.

No segundo cenário, o BC venderia títulos em troca de reais e utilizaria esses reais para comprar dólares, gerando o mesmo processo acima.  A única diferença desse método para o anterior é que esse não é inflacionário, embora aumente a dívida pública.  E, repetindo, nenhum deles lograria êxito em sua intenção de apreciar o dólar.

Alexandre Schwartsman sugeriu uma interessante terceira hipótese: o governo elevar seu superávit primário.  O raciocínio é que um superávit primário maior possibilitaria um maior abatimento da dívida interna, o que levaria a uma queda da taxa de juros, o que por sua vez desestimularia a entrada de dólares. 

O problema é que essa ideia — baseada no modelo de Mundell-Fleming — não se sustenta.  De janeiro a agosto, a SELIC já caiu cinco pontos percentuais — e o dólar se desvalorizou mais de 28%.  Dados recentes mostram que o dólar está indo para a bolsa e para investimentos, e não para a compra de títulos do governo — o que significa que o diferencial de juros não está tendo papel decisivo. 

Portanto, a atual cotação não é anormal e tampouco configura "sobrevalorização artificial".  O dólar de fato está condenado.  Os comentaristas da nossa mídia simplesmente deveriam ser mais humildes e passar a ler e ouvir Peter Schiff e Jim Rogers com mais atenção.

Por fim, vale a pena repetir: mexer deliberadamente no câmbio significa favorecer um grupo (apenas os exportadores) em detrimento de todo o resto da população.  É impossível que tal intervenção seja para o bem de todos.  Essa, aliás, é a lógica de toda e qualquer intervenção: favorecer um pequeno grupo — aquele que é eleitoralmente rentável — à custa de todos os outros.

Por exemplo, mesmo que o dólar pudesse ser artificialmente valorizado, isso seria ruim para a importação de bens de capital, algo essencial para o crescimento econômico, pois representam investimento.  Todo o país perderia.

A questão da desindustrialização

Questão polêmica: é necessário um país ter várias indústrias, que produzam várias coisas, para ele ter um desenvolvimento sustentável? 

O que é certo é que ele precisa vender coisas ao exterior para poder importar.  Nenhum país é autossuficiente em tudo.  Ele estará sempre dependendo de alguma importação para sobreviver.  E para importar, ele precisa produzir algo e exportar.

A única exceção seria para o caso de um país que possuísse uma reserva infinita da moeda internacional de troca.  Por exemplo, imagine um país que detivesse um estoque abundante de ouro.  Ele poderia utilizar seu ouro para importar todos os bens de que precisasse.  Nesse caso, seria desnecessário ele possuir qualquer base industrial.  Ele poderia obter tudo de fora.  Isso até o dia em que seu ouro acabasse...

Situação muito semelhante vem ocorrendo aos EUA.  Desde o acordo de Bretton Woods, em 1944, o país foi agraciado com o privilégio de deter a moeda internacional de troca.  O banco central americano imprimia dólares e os mandava para o exterior, e em troca esses países devolviam aos EUA produtos de todos os tipos.  A coisa aparentemente funcionava.  Os dólares enviados ao exterior voltavam na forma de investimento em títulos do governo americano, e o ciclo se reiniciava — algo que mais parecia um moto-perpétuo.  Porém, veladamente, a base industrial americana foi desaparecendo.  Afinal, não fazia sentido o país produzir coisas se ele podia adquiri-las do exterior muito mais facilmente. 

Essa erosão da base industrial americana, historicamente robusta e conhecida por seus bons salários, também teve outras causas: sindicatos agressivos que exigiam privilégios crescentes, aumento das regulamentações governamentais, carga tributária crescente, plantas e equipamentos envelhecidos, a cultura do bigger is better — que gerava desperdício e não estimulava a conservação e a disciplina —, e um descaso para com a qualidade e o design de seus produtos — que foi onde os japoneses fizeram a festa.

Agora que o dólar está cada vez mais desacreditado, a tendência é que os estrangeiros, principalmente os chineses, parem de continuar aplicando nos títulos do governo americano — afinal, ninguém quer ter rendimentos em uma moeda que vale cada vez menos.  Quando essa descrença no dólar se efetivar, os EUA terão enormes dificuldades para importar bens, dado que o país perdeu sua base industrial.  Com efeito, o país terá problemas até para estocar suas prateleiras (essa é a previsão de Gerald Celente).  E embora o setor de serviços seja aparentemente robusto, é impossível gerar divisas suficientes apenas com a exportação de filmes e de tecnologia de informação.

Toda essa digressão foi apenas para dizer que, sim, a industrialização de um país é importante.  O Brasil, por exemplo, não é conhecido por exportar tecnologia da informação para os outros países.  Os produtos industrializados representam 59% de nossas exportações, sendo que o resto é banana, laranja, soja e carne.  Portanto, o setor industrial é sim um setor vital para a economia.  Quanto mais bens produzirmos, mais ricos seremos. 

(Alguns afirmam que, em uma economia toda voltada para o setor de serviços, os serviços podem ser substitutos aceitáveis para os bens, pois ambos geram dinheiro.  Nesse caso está-se ignorando a distinção básica entre dinheiro e riqueza.  Dinheiro é o meio de troca.  Riqueza é aquilo que é recebido nessa troca.)

Destarte, embora as escolas econômicas concordem quanto à importância do setor industrial, a pendenga toda está em como fortificá-lo. 

Há aqueles que acham que adotar tarifas protecionistas é necessário para proteger e melhorar a eficiência das indústrias.  Por mais paradoxal que seja, eles creem que a melhor maneira de levar eficiência a um setor é protegendo-o da concorrência.  Deixando de lado a imoralidade envolvida em se roubar de uns para dar a outros, bem como a de achar-se no direito de impedir a liberdade de compra das pessoas, aos protecionistas ficam as seguintes perguntas: Tarifa de quanto?  Por que tal valor?  Por que não um valor maior ou menor?  Por quanto tempo deve durar tal tarifa?  Por que não um tempo maior ou menor?  Qual setor deve ser protegido?  Por que tal setor e não outro?  E, finalmente, por que o segredo para a eficiência é a blindagem da concorrência?

Há aqueles que defendem subsídios diretos via BNDES.  As perguntas acima continuam valendo.  Afinal, como é possível alguém achar que despejar subsídios em empresas fará com que elas se tornem mais produtivas?

A única medida que estimula a produtividade e a inventividade chama-se concorrência.  Qualquer política que proteja um determinado setor da concorrência de outros irá apenas perpetuar a ineficiência deste.

O que fazer então

Como a queda do dólar veio pra ficar, é bom as indústrias irem se aprumando.  Que elas aproveitem a oportunidade e importem insumos e maquinários mais baratos, o que aumentará sua produtividade.

Por sua vez, o governo pode fazer muita coisa.  Até onde se sabe, o Brasil é o único país do mundo que tributa bens de capital, como máquinas.  Se um empreendedor comprar uma máquina para aumentar a produtividade dos seus empregados, ele terá de arcar com ICMS, PIS e COFINS, o que faz com que o investimento fique onerado em até 36%, somente por causa desses impostos.  Quanto mais longa a cadeia produtiva, mais acumulados ficam os impostos. Nenhum outro país do mundo faz isso.

Portanto, o estado pode diminuir a enorme carga tributária que onera o setor e desregulamentar, criando forte competição interna e atraindo empresas estrangeiras.  Deixar inalterado todo o atual aparato regulatório e tributário e (tentar) ficar manipulando câmbio é garantia de fracasso e mais ineficiência.  Se o governo sinaliza que vai mexer no câmbio, ele está enviando sinais enganosos à indústria: "Não façam nada por enquanto, que eu vou dar um jeito na situação!".  Impossível imaginar que nesse cenário as indústrias ficarão estimuladas a aumentar sua eficiência.

A desestatização de portos e aeroportos agilizaria o processo de embarque das mercadorias e reduziria os custos operacionais, como os de estocagem.

Por último, dado que o dólar está condenado, e considerando que ele é o problema, então que o Brasil passe a negociar em outras moedas.  Peter Schiff elogiou quando, em maio deste ano, Brasil e China anunciaram a intenção de abandonar o dólar e passar a comercializar entre si em real e yuan.  Quanto maior a liberdade monetária para o comércio exterior, melhor (veja o vídeo, essa parte começa aos 8:30).

Ter uma moeda naturalmente forte é algo benéfico para todos.  Tentar impedir esse processo será bom apenas para os suspeitos de sempre.



autor

Leandro Roque
é editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.

  • Roberto Chiocca  15/10/2009 13:18
    ótimo artigo! Creio que uma maneira de "conter" essa queda do dolar seria a liberaçao das importaçoes, e aretirada de tarifas. No Brasil os consumidores são extremamente carentes e não seria dificl acreditar que a verdadeira invasao de produtos importados(carros usados, computadores, videogames, remedios, suplementos alimentares, roupas, etc) tivesse um peso enorme na balança comercial fazendo um contraponto à impressao descontrolada do FED, se bem que haja compras para deter aquela maquininha.Claro que a desvantagem comparativa dos nossos industriais ficariam evidentes, devido à altissima carga tributaria, regulamentaçoes excessivas, leis trabalhistas, entre outras, o que tambem seria ótimo para faze-los lutarem contra elas, isso seria algo que beneficiaria toda a cadeia produtiva do brasil, e a nossa Liberdade.
  • Sol Moras Segabinaze  15/10/2009 14:24
    É isso aí, Leandro, muito bom.
  • anônimo  15/10/2009 15:40
    Esse texto, além de ser ótimo, é bastante didático. Parabéns, Leandro! E digo uma coisa: a imprensa tupiniquim não vai se render ao Jim Rogers e ao Peter Schiff porque eu DUVIDO que algum jornalista de economia do mainstreaming jornalístico conheça algum dos dois. Não é desdém, é ignorância mesmo.
  • Núbia  15/10/2009 15:41
    Meu Deus, esqueci de assinar! O comentário anterior é meu. Áproveito o deslize para acrescentar que do jeito que o Leandro está afiado, quem sabe um dia não teremos um livro de autoria do próprio?
  • João Paulo  15/10/2009 16:32
    É isso ai, concordo com a Núbia. E também como Roberto, muito didático o texto, parabéns!
  • Marco Aurélio  15/10/2009 18:33
    Mais um artigo cristalino, didático e intransigente do senhor Leandro. Muito interessante a visão austríaca do câmbio.
  • André  15/10/2009 18:53
    Não me canso de elogiar o Leandro Roque. Espero que ele vá ao seminário em Porto Alegre em 2010. \nParabéns Leandro, um assunto muito interessante e um texto didático mesmo.\nAbraços
  • Rafael Hotz  15/10/2009 20:27
    realmente câmbio é um tema meio que renegado pelos Austríacos... há pouca coisa nos principais autores sobre o assunto, seja porque escreviam na época do padrão ouro ou porque escreviam nas economias centrais... é uma lacuna a ser suprida mesmo...
  • Leandro  16/10/2009 00:09
    Prezados, agradeço enormemente as efusivas manifestações. Mas, não. Nada de livros, por enquanto. Quem aguentaria o castigo de lê-los? Rafael, é isso mesmo. Vale lembrar que câmbio flutuante só veio a ser implementado mesmo nesta década.
  • Felipe André  16/10/2009 11:25
    Mais um excelente texto, Leandro. Obrigado pela aula, e continue o ótimo trabalho tanto nos artigos próprios quanto nas traduções.

    Apenas uma pequena correção ortográfica, em:

    "Nesse caso está-se ignorando a distinção básica entre dinheiro e riqueza."

    Acredito não haver hífen em "está se".

    Parabéns!
  • Leandro  16/10/2009 11:38
    Opa, muito obrigado, Felipe. Na verdade aquele hífen está correto, sim. É uma construção meio pedante, admito, mas é correta.
  • Guilher Inojosa  17/10/2009 14:01
    Ótimo artigo.\n\nLeandro, só um detalhe importante. Isso me faz lembrar a idéia do onipotente mago da economia José Serra, ele está com a brilhante idéia de voltar com um câmbio fixo desvalorizado para manter um ambiente favorável às exportações.\n\nImagina se isso ocorre mesmo...
  • Leandro  18/10/2009 22:03
    Prezado Inojosa, sem chance. Considerando-se o que o governo dos EUA está fazendo com o dólar, não há a menor chance de este ser manipulado. Vão apenas aumentar a dívida e a inflação, sem que o dólar se valorize.
  • Marcelo  19/10/2009 12:46
    Muito bom o artigo, Leandro.

    Com a clareza do Mises.
  • Tiago  22/10/2009 19:32
    Parabéns pelo artigo!\n\nSó não concordo muito que o padrão-ouro seria o "livre mercado monetário genuíno". Pra mim livre mercado monetário são múltiplas moedas concorrentes, com "piso" no que seus emissores bem entenderem: ouro, prata ou até mesmo papel moeda de algum governo. E os seus valores seriam flutuantes...\n\nMas enfim, o texto todo está muito bom, parabéns!
  • Rafael Crivelli  28/01/2010 20:42
    Desculpem-me a ingnorância mas me perdi aqui, no comentário de Roberto Chiocca: "Creio que uma maneira de "conter" essa queda do dolar seria a liberaçao das importaçoes, e aretirada de tarifas. No Brasil os consumidores são extremamente carentes e não seria dificl acreditar que a verdadeira invasao de produtos importados(carros usados, computadores, videogames, remedios, suplementos alimentares, roupas, etc) tivesse um peso enorme na balança comercial fazendo um contraponto à impressao descontrolada do FED, se bem que haja compras para deter aquela maquininha."
    Isso procede? Como a abertura das importações forçariao dólar para cima? Até onde meu raciocínio chegou (não muito longe, sou quase completamente leigo em economia) os produtos importados deveriam ser pagos em reais, fazendo essa moeda "sumir" e se valorizar ainda mais. Ou estou errado?
  • Roberto Chiocca  28/01/2010 21:51
    Na verdade Rafael, teriamos que pagar com dolares, os dolares seriam bastante demandados, e "subiriam", mas acho mesmo que nada conterá a queda do dolar, a não ser que ele leve consigo todas as moedas "fiat" do mundo, ao vermos o dolar destruido o mercado iria tambem se perguntar, se nem os eua consiguiram segurar essa farsa como nós conseguiriamos? e a corrida aos bancos e ativos reais seria enorme acabando tambem o real, o yene, todos os pesos, e etc.
  • Fernando Ulrich  07/07/2010 12:41
    Excelente artigo Leandro. Excelente mesmo!
  • Leandro  08/07/2010 04:22
    Ulrich, extremamente agradecido pelas palavras, principalmente sabendo-as vindas de um mestrando de Jesus Huerta de Soto.
  • Rhyan Fortuna  19/10/2010 07:57
    Por que um país para importar ele precisa exportar?
  • Leandro  19/10/2010 09:16
    Rhyan, ao exportar, um país adquire divisas externas (moeda estrangeira). É com essas divisas externas que ele vai importar bens.

    Via de regra, se um país nada exportasse, ele não adquiriria divisas externas e, consequentemente, não teria como importar bens -- a menos que investidores estrangeiros ficassem seguidamente injetando dinheiro na economia desse país (seja comprando ações, papéis de empresas ou títulos do governo), o que permitira importações. Porém, caso esse fluxo de dinheiro cessasse, o país imediatamente estaria em dificuldades, originando aquilo que se chama de crise no balanço de pagamentos.
  • Rhyan Fortuna  19/10/2010 12:33
    Leandro, e se o mundo negociasse com base no ouro?
  • Leandro  19/10/2010 15:17
    Aí o ouro seria essa moeda de troca. Um país que apenas importasse e não recebesse investimentos externos, teria seu estoque de ouro diminuído gradualmente. Porém, isso faria com que seus produtos ficassem extremamente baratos, o que inevitavelmente iria estimular as exportações. Não teria como esse país ficar sem ouro.

    Como explicado no texto, a única exceção seria para o caso de um país que possuísse uma reserva infinita da moeda internacional de troca. Por exemplo, imagine um país que detivesse um estoque abundante de ouro. Ele poderia utilizar seu ouro para importar todos os bens de que precisasse. Nesse caso, seria desnecessário ele possuir qualquer base industrial. Ele poderia obter tudo de fora. Isso até o dia em que seu ouro acabasse...
  • Rhyan Fortuna  19/10/2010 17:25
    Obrigado, Leandro!
    Abraço!
  • Duvida  26/10/2010 10:38
    Caro Leandro,\r
    \r
    Benjamin Steinbruch em sua coluna desta semana reproduziu a frase de Simonsen: "inflação aleija, o câmbio mata".\r
    \r
    Poderia explicar de que forma o câmbio mata?
  • Leandro  26/10/2010 11:39
    Anônimo, na verdade o Simonsen se referia a uma crise no balanço de pagamentos. Tal crise ocorria quando os investidores estrangeiros resolviam retirar suas aplicações do país, o que fazia com que o BC tivesse de vender suas reservas internacionais para aplacar essa fúria especulativa.

    Caso não houvesse uma cobertura de reservas suficiente, o país passaria por momentos de instabilidade, pois os especuladores testariam o BC para ver até onde ele se disporia a defender a moeda. No extremo, o país poderia ficar sem um centavo de reservas internacionais.

    Crises assim ocorrem sempre que a base monetária do país é maior que as reservas internacionais. Nesse caso, a retirada de recursos do país -- os quais precisam ser convertidos em moeda estrangeira -- provoca um esgotamento das reservas.

    Já quando a base monetária é menor que as reservas internacionais, como é o caso do Brasil hoje, crises extremas como essa são impossíveis.

    Um exemplo de como o balanço de pagamentos mata foi a crise da Argentina em 1991, quando o austral quebrou. Isso ocorreu justamente porque as reservas estrangeiras ficaram menores que a base monetária, e os especuladores se aproveitaram disso para lucrar.


    Quanto ao Steinbruch, ele estava apenas chorando por causa do câmbio barato, que estimula importações e atrapalha exportações -- ou seja, que atrapalha os negócios dele e beneficia os consumidores brasileiros.
  • Fernando  02/10/2018 17:44
    Leandro, uma dúvida:

    "Já quando a base monetária é menor que as reservas internacionais, como é o caso do Brasil hoje, crises extremas como essa são impossíveis"

    Como está a base monetária hoje no Brasil, continua menor?
  • anônimo  02/10/2018 18:58
    Bem menor. A base monetária está em R$ 277 bilhões e as reservas internacionais estão em US$ 381 bilhões, o equivalente a R$ 1,5 trilhão.
  • Fernando  31/10/2018 22:45
    Obrigado pela resposta anon, voltei a estudar o texto e vi agora que foi respondido .
  • amauri  05/11/2010 08:14
    Bom dia Leandro!\r
    A base monetaria (M1) brasileira cresceu 7% e a atividade economica 1,3%. Isto seria como se fosse uma alavancagem?\r
    Ou, há um estimulo ao consumo e não há como produzir o suficiente?\r
    Em minha planilha de gastos domesticos, comparando os mesmos produtos, de dois anos atras, nota-se que o aumento dos preços foi maior que a inflação oficial, e não observei que as prateleiras estavam com falta de produtos. Este aumento do M1 não provoca inflação? Há inflação só quando o BC imprime dinheiro?\r
    Existe a possibilidade de que estimulos do BNDES aos grandes produtores mantenham os preços menos altos?\r
    Como o BNDES consegue tanto dinheiro?\r
    grato
  • Leandro  05/11/2010 09:15
    Prezado Amauri,

    1) Permita-me uma pequena correção: o M1 é diferente da base monetária.

    A base monetária é formada por papel-moeda emitido pelo BC (cédulas e moedas) mais as reservas bancárias que os bancos são obrigados a manter junto ao BC.

    Já o M1 (também chamado de agregado monetário de maior liquidez) é composto de papel-moeda em poder do público mais depósitos à vista.

    Bom, explicado isso, enfatizo que esses valores de 7% e 1,3% foram para o período outubro 2008-setembro 2009. E sim, o aumento do M1 causa inflação de preços, mais que o aumento da base monetária. E sim, a inflação de preços real sempre será maior do que a indicada pelos índices de inflação oficiais.

    2) Esse fenômeno de os preços aumentarem junto com o concomitante aumento na oferta de produtos é perfeitamente explicável (a oferta monetária sempre aumenta mais que a produção, para a maioria dos setores). Por gentileza, tenha a bondade de ler a seção "Inflação real versus inflação divulgada" desse artigo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=314

    3) Sobre o BNDES, originalmente era para ele ser financiado exclusivamente com o dinheiro de impostos específicos sobre as empresas. Hoje, porém, o Tesouro inventou de emitir títulos para levantar dinheiro e repassá-lo para o BNDES, que por sua vez repassa o dinheiro subsidiadamente para as grandes empresas por ele escolhidas (o critério para tal é a afinidade política).

    Ou seja, somos nós que financiamos a contra-gosto as grandes empresas.

    4) Sobre os subsídios manterem os preços baixos, isso vai contra a teoria. Simplesmente porque os fornecedores dessas empresas irão cobrar preços mais altos, pois sabem que o cliente é subsidiado. Se você tivesse um cliente que recebesse rios de dinheiro do governo, você iria cobrar mais caro ou menos caro?

    Abração!


  • Zen  05/11/2010 11:43
    Bom dia caros editores do site,

    Que tal criarem uma área do tipo "economics for dummies" explicando cada termo usado na economia por uma perspectiva austríaca, numa espécie de glossário, ou mesmo um dicionário?
  • anônimo  07/11/2010 18:26
    "Ao adquirir dólares o BC deposita reais na conta do banco vendedor, que não deixa estes recursos ociosos, mas tenta emprestá-los, trocando-os por títulos públicos, levando assim à queda da taxa de juros."

    Alguém consegue me explicar isso aí.
  • Leandro  07/11/2010 20:00
    Anônimo, essa frase do Schwartsman, bastante confusa, quer dizer o seguinte:

    O BC cria reais (do nada, tudo eletronicamente) e utiliza esses reais para comprar dólares dos bancos. Esses bancos, por conseguinte, vão utilizar esses reais comprando títulos da dívida pública que são negociados no interbancário, que é justamente o mercado que define a taxa SELIC. E essa maior demanda por títulos públicos irá derrubar a taxa SELIC.

    Caso queira entender melhor como funciona o mercado interbancário e a determinação da SELIC, tenha a bondade de ler esse texto:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=344
  • Rhyan Fortuna  12/05/2011 02:51
    A dívida pública externa e a interna geram uma só taxa de juros?
  • rafael  27/07/2011 03:44
    > Só um adendo: economistas liberais, principalmente aqueles associados à Escola de Chicago, dizem que câmbio flutuante é sinônimo de livre mercado. Como pode? Mesmo que não houvesse absolutamente nenhuma intervenção dos governos no mercado de câmbio, a simples existência de taxas flutuantes entre diferentes áreas geográficas já configura intervencionismo.

    como assim? o cambio entre moedas deveria ser fixo num livre mercado?

    > Rhyan, ao exportar, um país adquire divisas externas (moeda estrangeira). É com essas divisas externas que ele vai importar bens.

    tem algo faltando nessa explicacao, entao para importar eu preciso de moeda estrangeria, mas para exportar o importador precisa de minha moeda, e ai?
  • Leandro  27/07/2011 11:56
    Rafael, um sistema de câmbio flexível é, por definição, um sistema de "quase-escambo". Taxas de câmbio flutuantes introduzem incertezas indesejadas nos mercados internacionais, obstruindo o livre comércio, principalmente os investimentos. O investidor torna-se muito mais um especulador do que propriamente um investidor.

    Taxas de câmbio flutuantes são aceitas por economistas simplesmente porque estes têm em mente apenas o conceito de 'nação'. Entretanto, embora 'nação' seja uma importante unidade política, ela não é uma unidade econômica. Assim, imagine se houvesse uma taxa de câmbio flexível entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro? Ou entre Bahia e Santa Catarina? Isso seria um incentivo ao livre comércio entre os estados ou seria uma barreira?

    Se os estados adotassem câmbios flexíveis entre si, os efeitos seriam desastrosos para o comércio, com cada estado fazendo guerra cambial e impondo várias tarifas protecionistas. Ainda bem que (ainda) não é assim.

    Não faz sentido -- a menos para protecionistas inveterados, é claro -- defender câmbio flutuante entre países, mas "câmbio fixo" entre estados, cidades e bairros.

    Ademais, vale lembrar que o padrão-ouro clássico, que vigorou de 1814 a 1913, nada mais era do que um sistema de câmbio fixo. Porém, ao contrário da ideia deturpada que se tem hoje de câmbio fixo, o câmbio fixo do padrão-ouro não era um câmbio determinado por políticos. As moedas nacionais (dólar, libra, franco etc.) eram simplesmente denominações para uma determinada massa de ouro. Um dólar era igual a 1/20 onça de ouro e uma libra era igual a 1/4 onça de ouro -- o que significava que uma libra era igual a 5 dólares.

    O dólar era "fixo" em relação à libra da mesma forma que 1 real é fixo em relação a duas moedas de 50 centavos. Ou seja, na prática, todos os países tinham a mesma moeda (ouro) e, neste sentido o câmbio, entre eles era fixo.

    Assim, respondendo à sua primeira, o câmbio entre moedas deveria ser fixo num livre mercado? Depende da interpretação que se dá a este "fixo".

    Se for um banco central manipulando o mercado de câmbio e determinando arbitrariamente qual deve ser o valor da moeda estrangeira em relação à moeda nacional (como foi feito no Brasil de meados de 1994 a março de 1999), então a resposta é um redundante não. Tal sistema é inerentemente instável e irá durar enquanto os especuladores julgarem que as reservas internacionais do país estão em um nível adequado. Caso as reservas comecem a baixar -- como ocorreu repentinamente em setembro de 1998 no Brasil --, os ataques especulativos serão intensificados até o país finalmente abrir mão de sua manipulação cambial.

    Entretanto, se o conceito adotado for o da "âncora cambial", no qual a moeda de um país torna-se um mero substituto de uma moeda estrangeira, aí a situação já é diferente. Neste sistema, a moeda nacional é totalmente atrelada a uma moeda estrangeira (por exemplo, X reais são equivalentes a 1 dólar, sempre), e a variação de oferta monetária nacional se dá de acordo com o saldo do balanço de pagamentos (saldo da quantidade de moeda estrangeira que entra e sai da economia nacional).

    Tal sistema é ortodoxamente chamado de Currency Board e está em vigor, por exemplo, em Hong Kong desde 1983, quando o país adotou o dólar americano como âncora cambial. Estônia, Lituânia e Bulgária também utilizam um Currency Board, sendo a âncora o euro.

    Neste sistema, em teoria, não deve haver um banco central e, consequentemente, não há nenhuma política monetária. A base monetária do país (seria ainda melhor se fosse o M1) tem de ser idêntica à quantidade de reservas internacionais (no caso, a moeda adotada como âncora), e varia de acordo com a quantidade de moeda que entra e sai da economia em decorrência das transações internacionais do país. Quando houvesse um superávit nas transações internacionais, a quantidade de moeda doméstica aumentaria; quando houvesse um déficit, diminuiria.

    Quando a quantidade de moeda nacional é idêntica à quantidade de reservas internacionais, é impossível haver um ataque especulativo, pois seria impossível exaurir as reservas internacionais (a moeda nacional teria de ser toda mandada pra fora, algo por definição impossível).

    Observe que, neste sistema, a oferta monetária de um país varia da mesma maneira que a oferta monetária de Minas Gerais varia quando seus habitantes transacionam, por exemplo, com os habitantes de Goiás. O país que adota o Currency Board passa a funcionar como se fosse um estado do país emissor da moeda utilizada como âncora pelo Currency Board -- por exemplo, Hong Kong funciona como se fosse mais um estado americano; Estônia, Bulgária e Lituânia funcionam como se fizessem parte da zona do euro.

    Para que tal sistema funcione plenamente, uma Agência de Conversão (o Currency Board) é criada com a única missão de trocar moeda nacional (que ela própria emite) por moeda estrangeira, e vice versa. Por exemplo: suponhamos que em 1994 o Brasil tivesse adotado um Currency Board seguindo a paridade R$ 1 = US$ 1. Neste caso, partindo-se do princípio de que a quantidade de dólares em posse da Agência de Conversão fosse igual ou maior do que a quantidade de reais em circulação (tal princípio é pré-requisito indispensável para o bom funcionamento do sistema), a Agência estabeleceria que sempre trocaria, sem custo e sem demora, 1 real por 1 dólar e 1 dólar por real. Ao determinar isso, a taxa de câmbio estaria "fixa" em 1 real pra 1 dólar.

    (Se você quisesse vender 1 dólar por um valor maior do que 1 real para outra pessoa, esta preferiria simplesmente ir à Agência de Conversão e lá trocar 1 real por um dólar. Ou seja, tal artifício é totalmente eficaz em realmente fixar a taxa de câmbio. E como a quantidade de dólares é, por definição, superior à quantidade de reais, é impossível haver qualquer ataque especulativo.)

    Não vou me esticar aqui em mais detalhes técnicos sobre este sistema, porém é fato que ele seria bastante superior, para um dado país, ao arranjo de câmbio flutuante, pois traria estabilidade de longo prazo para os investimentos, acabaria com as especulações e tiraria completamente das autoridades políticas do país a capacidade de fazer politica monetária.

    O único problema do Currency Board é que, em última instância, ele ainda utiliza uma moeda fiduciária criada por outro banco central. E este teria de ser parcimonioso em sua emissão. Na década de 1990, o dólar era a única opção para o Brasil. É difícil imaginar como estaríamos hoje, porém é certo que, em termos de inflação de preços, estaríamos melhor, e em termos de investimentos estrangeiros, muito melhor.


    Sobra a sua última pergunta, para você exportar, no atual sistema em que vivemos, o importador dos seus produtos precisa ter a moeda internacional de troca, que é o dólar. Ele não precisa ter reais; ele vai mandar dólares para você, e aqui você irá trocar estes dólares por reais.


    Abraços!
  • EUDES  22/09/2011 20:40
    Leandro, parece que o padrão-ouro, por si só, não garante a existência do livre mercado. Se o mundo já teve o padrão-ouro, teve também, ao mesmo tempo, o protecionismo. \r
    \r
    Ao que parece, somente na Antiguidade e Idade Média é que não houve práticas mercantilistas, embora tenha havido intervencionismo nessa época. \r
    \r
    Tenho a impressão de que antes de 1814, a economia era bem mais metalizada, por assim dizer, que durante o período de 1814 a 1913. Estou correto? Se é assim, por que considerar o padrão-ouro clássico somente durante esse último período ? Por que este padrão-ouro clássico tem características especiais ?\r
    \r
    Parece que sempre haverá protecionismo, pelo menos um pouco, enquanto houver mais de um Estado na Terra. O que você me diz? Ou o remédio definitivo seria uma moeda global em conjunto com a doutrina econômica austríaca, uma vez que esta é a mais liberal ? \r
  • Rhyan  23/09/2011 06:23
    É a diferença entre padrão-ouro clássico e padrão-ouro puro. Por ex. o 1º aceitava as reservas fracionárias.
  • Rhyan  27/07/2011 23:54
    "o que determina o câmbio não é apenas a oferta de dólares."

    Está falando sobre a demanda ou outro mecanismo?
  • Leandro  28/07/2011 08:11
    Rhyan, como explicado no texto, o poder de compra da moeda é o principal determinante da taxa de câmbio.

    Neste artigo, o próprio Mises expõe sua teoria:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=829

  • Rhyan  28/07/2011 13:07
    Estranho, porque sempre imaginei que o poder de compra e a taxa de câmbio fosse a mesma coisa.
  • Alex  09/02/2012 11:15
    Adorei a explicação, realmente muito boa. No entanto, sempre achei que não havia relação ou proporção entre poder de compra e taxa de câmbio. E justifico meu pensamento com base no índice Big Mac, pois avaliando o mesmo bem e seguindo os valores que custam em seus respectivos países (no caso, Brasil e EUA), e considerando que o valor do Big Mac no Brasil deveria ser inferior e é mais caro, não acho que tal disparidade reflita a diferença cambial de apenas R$ 0,72.

    Segundo o site economist, neste link:
    www.economist.com/blogs/dailychart/2011/07/big-mac-index

    o índice big mac mostrava que para o Brasil tal lanche custava U$ 6.16, porquanto nos EUA U$ 4,07. No dia de hoje o dólar está cotado a R$ 1,72 (09/02/2012).

    Onde estou errando? Seria a falta de diversos outros fatores, ou índices de consumo interno, para avaliar essa proporção.

    Grato.
  • Leandro  09/02/2012 11:49
    O índice Big Mac é um índice interessante. Não é perfeito, pois o preço do bem em questão varia muito por causa dos custos trabalhistas de cada local (algo que não está diretamente relacionado ao poder de compra da moeda).

    Também não é bom por se tratar de um bem "non tradable" -- isto é, um bem que não pode ser exportado e importado (você não importa um Big Mac da China, por exemplo). Não se trata de um bem negociado no mercado internacional.

    Em minha opinião, o índice Big Mac funciona melhor como indicador do custo de vida. Em termos gerais, os preços médios dos produtos devem ser menores em países mais pobres em relação a países mais ricos porque, via de regra, os custos trabalhistas são menores em países mais pobres.

    Por exemplo, o Índice Big Mac apontou que, considerando-se o câmbio, o Big Mac era 44% mais barato na China do que nos EUA. Isso sugeriria que o Yuan estaria maciçamente subvalorizado em relação ao dólar. Porém, quando fizeram o ajuste desses números levando-se em conta o PIB per capita, descobriu-se que o Yuan estava na verdade praticamente pari passu com o dólar -- o que, aliás, não poderia ser diferente, dado que a China praticamente utiliza o dólar como âncora cambial.

    Ademais, a própria The Economist deixa claro que esse seu índice é mais para fazer "comparações divertidas" do que para prever qualquer coisa. Fora isso, é um bom quebra-galho. Curiosamente, uma edição de agosto da The Economist mostrou que o real (na época, em torno de R$ 1,65) estava sobrevalorizado, o que significa que o dólar deveria estar muito mais caro do que estava. Isso entrou em contradição com Guido Mantega, que vivia falando que o dólar estaria ainda mais barato não fossem as pirotecnias do BACEN no mercado de câmbio e da Fazenda criando taxas sobre a entrada de capital.

    Eu acho que o atual valor do dólar (que está variando entre R$ 1,60 e R$ 1,75 há uns dois anos) é o correto, e não vejo como o dólar poderia estar mais caro do que isso -- não sustentavelmente (lembre-se que, em setembro e outubro de 2011 ele disparou para R$1,95, mas rapidamente voltou para onde estava. Exatamente como prevê a teoria.)

    Abraços!
  • Anônimo  05/12/2012 10:31
    Leandro, boa tarde.
    Hoje é 05/12/2012 e o dólar esta custando R$ 2.11, o que ocorreu com a desvalorização do dólar frente ao real? O que ocorreu nesse ínterim?
  • Leandro  05/12/2012 10:44
    O que ocorreu é que o nosso Banco Central conseguiu a façanha de ser (muito) pior que o Fed. Ou seja: da única vez em que me arrisquei a dar alguma credibilidade para os burocratas do BACEN, me estrepei. Eles são muito piores do que imaginei. É bom para eu aprender a nunca, jamais, em hipótese alguma, dar meu voto de confiança para esses ignaros destruidores de moeda.
  • Henrique  24/06/2014 19:25
    Hoje, 24/06/2014, 1 USD = 2,22 BRL.

    O que os jeniais burrocratas do BACEN conseguiram fazer para desvalorizar o real em aproximadamente 24% desde 2011?

    Não compensa nem mais trazer umas muambas do PY quando vou visitar meus pais...
  • Pedro Lima  24/09/2012 08:39
    "...mexer deliberadamente no câmbio significa favorecer um grupo (apenas os exportadores) em detrimento de todo o resto da população. É impossível que tal intervenção seja para o bem de todos. Essa, aliás, é a lógica de toda e qualquer intervenção: favorecer um pequeno grupo — aquele que é eleitoralmente rentável — à custa de todos os outros."

    Esse parágrafo resume tudo.
  • Emerson Luis, um Psicologo  07/08/2014 23:22

    Pois, é: o BACEN imprimiu dinheiro em excesso, elevando o dólar e a inflação. A sabedoria humana tem limites; a estupidez humana não.

    * * *
  • iury  12/03/2017 03:07
    Para um país importar ele precisa exportar para adquirir divisas. Porém, uma dúvida me surgiu, talvez meio ingênua. Se um país precisa exportar para poder importar o país que estará, consequentemente, importando deste país que necessita exportar, também precisa ou precisou exportar. Minha pergunta é, como que então o primeiro país que começou a exportar conseguiu fazer isso sem divisas ?
  • Minerius  20/01/2018 17:57
    "Quando essa descrença no dólar se efetivar, os EUA terão enormes dificuldades para importar bens, dado que o país perdeu sua base industrial. Com efeito, o país terá problemas até para estocar suas prateleiras (essa é a previsão de Gerald Celente). E embora o setor de serviços seja aparentemente robusto, é impossível gerar divisas suficientes apenas com a exportação de filmes e de tecnologia de informação.

    Toda essa digressão foi apenas para dizer que, sim, a industrialização de um país é importante. O Brasil, por exemplo, não é conhecido por exportar tecnologia da informação para os outros países. Os produtos industrializados representam 59% de nossas exportações, sendo que o resto é banana, laranja, soja e carne. Portanto, o setor industrial é sim um setor vital para a economia. Quanto mais bens produzirmos, mais ricos seremos."


    Fiquei agora em dúvida. Qual o problema afinal da desindustrialização? Isso não seria desenvolvimentismo, de querer "estimular" várias indústrias? Não entra em contradição com este artigo?
  • Felipe Lange  29/01/2018 15:23
    Também queria saber.


Envie-nos seu comentário inteligente e educado:
Nome
Email
Comentário
Comentários serão exibidos após aprovação do moderador.