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EUA x Venezuela - um conto de duas escassezes

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Grãos de café não podem ser cultivados em qualquer lugar.  Eles têm de ser plantados em lugares que, durante a maior parte do ano, recebam a incidência moderada de chuva e luz de sol.  Logo, praticamente todo o café do mundo é produzido dentro do 'cinturão do café' - aquela região que fica entre o Trópico de Câncer e o Trópico de Capricórnio.

Dentre as commodities naturais, o valor monetário do café é considerado menor apenas que o do petróleo.  E para aqueles viciados em café, seja do Starbucks ou mesmo o caseiro, o preço pago por galão consumido supera de longe o que pagam enchendo o tanque do carro.

Para os usuários de café em geral, principalmente do hemisfério norte, a marca colombiana Juan Valdez sempre foi o símbolo da produção cafeicultora - e a Colômbia ainda hoje é a segunda maior produtora mundial de café, depois do Brasil. 

Localizada bem ao lado desses dois gigantes do café está a Venezuela, um país que em uma época chegou a rivalizar com a Colômbia na produção de café.  E embora abençoada com um solo poroso e um clima perfeito, ambos pré-requisitos necessários para o bom cultivo, a Venezuela hoje produz menos do que 1% do café mundial - quantia insuficiente até para satisfazer sua própria população.

Após ter sido uma das principais exportadoras de café na primeira metade do século XX, a situação reverteu-se a tal ponto que, no mês passado, a Venezuela começou a importar o fruto do Brasil, ainda que, como reportou o Financial Times, os nativos digam que o produto brasileiro "não se compara com a qualidade do grão Arábica local".

Ou seja: embora tenha as melhores sementes e as condições perfeitas para cultivá-las, a Venezuela está hoje praticamente fora do setor cafeeiro.  Uma das explicações padronizadas é que, após ter sido descoberto petróleo nas décadas de 1960 e 1970, o cultivo de café atrofiou, pois o país preferiu enriquecer extraindo petróleo.

Porém, o cultivo de café na Venezuela sempre foi dominado por fazendas familiares.  Não é crível dizer que esses fazendeiros, abandonando décadas de tradição, resolveram desenterrar suas cafeeiras e começaram a cavar o solo em busca de petróleo. 

Ao contrário: o poder do governo venezuelano fez a escavação em nome da reforma agrária - supostamente em prol da classe trabalhadora.  "A reforma agrária é uma arma voltada para o coração da oligarquia," escreveu em 2006 o The Marxist, "e, desde o início do novo programa agrário, os latifundiários, os capitalistas e seus partidários na mídia nacional e internacional se organizaram contra a ameaça da mudança agrária".

Mas a mudança veio quando o Estatuto da Terra foi aprovado em dezembro de 2001.  Desde então o Instituto Agrário Nacional já distribuiu milhões de acres de terras para cooperativas gerenciadas por camponeses.  Essa política foi batizada de "guerra ao latifúndio".  De acordo com o Financial Times, a redistribuição de terra promovida pelo governo venezuelano "gerou um clima de incerteza que arrefeceu os investimentos".

Portanto, ao invés de receber o plantio de cafeeiras, a terra fica devoluta ou vira pasto, reduzindo a oferta de café e aumentando seu preço, certo?  Errado, pois o governo impôs congelamento de preços do café vendido no varejo.  Assim, não há incentivo para os agricultores plantarem café.  Da mesma forma, muitos torrefadores já quebraram.  O pouco que os agricultores e torrefadores conseguem salvar é contrabandeado para a Colômbia, onde os preços não são controlados por Hugo Chávez e são duas vezes mais caros.

E enquanto os preços do café estão congelados, os custos do cultivo continuam subindo.  É difícil encontrar mão-de-obra a um salário razoável, porque "muitos trabalhadores vivem do assistencialismo que recebem do governo e não estão interessados em trabalhar", disse um fazendeiro ao Financial Times.

Com a população clamando por uma solução para a escassez de café, Chávez expropriou as duas maiores torrefadoras do país, Fama de América e Café Madrid, culpando essas duas empresas pela escassez e alegando que as torrefadoras estavam estocando, especulando e contrabandeando.  "Já estamos cheios disso.  Temos de fazer o mesmo com todas as empresas que se comportarem dessa maneira.  O Estado venezuelano está combatendo todas as medidas que prejudiquem o direito à alimentação do povo, não vamos aceitar que isso aconteça e, se necessário, expropriaremos", disse Chávez.  "Vamos continuar estatizando monopólios para transformá-los em negócios produtivos nas mãos dos trabalhadores, do povo, da revolução."   

Ludwig Von Mises, entretanto, mostra em Ação Humana que

O efeito da interferência [do estado] é que as pessoas são impedidas de utilizar seus conhecimentos e habilidades, sua mão-de-obra e seus meios materiais de produção, de uma maneira na qual elas iriam obter o máximo de retorno e satisfazer ao máximo possível suas necessidades.

"Tal interferência", ele acrescenta, "torna as pessoas mais pobres e menos saciadas".

Enquanto isso, nos EUA, o presidente Obama insiste na ideia de que todas as pessoas devem ter acesso à assistência médica, pois a saúde "deve ser um direito de todo americano".

Houve uma época, não muito tempo atrás, em que a medicina americana era considerada a melhor do mundo, e era financeiramente acessível a todos.  E então o governo decidiu que era hora de regular melhor a relação paciente-médico.  Como explicou Gabriel E. Vidal em seu recente artigo no mises.org, "os custos da saúde americana agora refletem as distorções que as regulamentações governamentais introduziram via mecanismos de reembolso.  Esses mecanismos foram criados por burocracias de estilo soviético que operam nos níveis federal e estadual".

Em um debate entre democratas, em 2007, Obama disse: "Minha ênfase é diminuir os custos da saúde atacando as empresas de seguro, impondo limites em sua capacidade de extrair lucros e de recusar coberturas; e as empresas farmacêuticas têm de fazer o que é de direito de seus pacientes, e não simplesmente acumularem seus lucros".

"[As montanhas da Venezuela] costumavam ser cobertas por cafeeiras", disse tristonhamente Don Luis Paparoni ao Financial Times.  "Hoje você dificilmente encontra alguma".  Certamente será melancólico quando a medicina de qualidade nos EUA se tornar tão escassa quanto o café na Venezuela.  


autor

Douglas French
é o diretor do Ludwig von Mises Institute do Canadá. Já foi o presidente do Mises Institute americano, editor sênior do Laissez Faire Club, e autor do livro Early Speculative Bubbles & Increases in the Money Supply.  Doutorou-se em economia na Universidade de Las Vegas sob a orientação de Murray Rothbard e tendo Hans-Hermann Hoppe em sua banca de avaliação.

  • Djalma  16/09/2009 12:28
    Excelente artigo ! Não se enganem,Obama é tão socialista quanto Chávez !
  • Rogério Amaral Silva  16/09/2009 16:09
    Antes das eleições americanas, eu dizia que se Obama ganhar, o povo americano estará assinando o mesmo "atestado de burrice" assinado pelo povo brasileiro, quando escolheu Luis Stalinácio Lula para Presidente. Pelo visto, não engolirei minhas palavras.
  • Bruno  17/09/2009 10:09
    No caso da reforma do sistema de saúde, o Obama citou o modelo na inglaterra que foi duramente atacado pela imprensa norte-americana.\nE levou uma resposta dura.\nApesar de um sistema público de saúde conter várias distorções medonhas, o sistema americano é como permitir uma pessoa jogar tênis sem lhe dar a chance de adquirir uma raquete. Na prática, fica sem acesso a recuperação da saúde mesmo.
  • Núbia  17/09/2009 11:24
    Artigo genial!
  • Juliano Torres  17/09/2009 13:51
    Mas é provável que a reforma aconteça ou Obama vai recuar?
  • Emerson Luis, um Psicologo  24/03/2014 19:53

    Maduro foi um bom aprendiz de seu mestre e piorou a situação ainda mais!

    * * *
  • UNASUL  15/08/2018 12:20
    Pelo menos pra plantar café, o Brasil é bem livre e é o maior produtor mundial.


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