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O milagre do mercado e a fé dos empreendedores

Ludwig von Mises não gostava de referências ao "milagre" do mercado ou à "mágica" da produção ou a quaisquer outros termos que sugerissem que os sistemas econômicos dependem de que algum tipo de força que está além da compreensão humana.

Em sua visão, seria mais apropriado se entendêssemos racionalmente o porquê de os mercados serem responsáveis por estarrecedores níveis de produtividade, capazes de sustentar aumentos exponenciais da população e padrões de vida cada vez maiores.

Não houve milagre nenhum na Alemanha após a Segunda Guerra Mundial, ele costumava dizer.  A gloriosa recuperação foi resultado da lógica econômica.  O então ministro Ludwig Erhard simplesmente aboliu todos os controles que existiam sobre a economia e passou a permitir que esta operasse segundo as forças de mercado. 

Uma vez entendidas as relações entre direitos de propriedade, moeda estável, preços de mercado, estrutura da produção e divisão do trabalho, acaba-se todo o mistério; e então podemos observar a ciência da ação humana tornando possível a ocorrência de grandes feitos.

Mises estava certo ao dizer que o entendimento da ciência econômica não requer fé.  Entretanto, há várias ações efetuadas por indivíduos empreendedores que exigem fé (e Mises não discordaria disso) — uma fé enorme, capaz de mover montanhas e erguer civilizações. 

Se aceitarmos a interessante descrição feita por São Paulo Apóstolo ("a evidência das coisas que não são vistas"), podemos entender o empreendedorismo e os investimentos capitalistas como atos de fé.

Todos aqueles que estão no mundo empreendedorial entendem isso.  Para conseguir se manter ativo, o empreendedor tem de praticar milhares de atos diários que envolvem a capacidade de prever um futuro incerto.  A realidade do mercado, porém, é cruel; o público consumidor pode levar seu empreendimento à bancarrota amanhã — basta que eles não mais apareçam para consumir seus bens e serviços.

Isso é válido tanto para as microempresas como para a maior das corporações.  Não há certeza alguma em qualquer empreendimento.  Nada é garantido.  Cada empresa em uma economia de mercado está a apenas um pequeno passo da falência.  Nenhuma empresa possui o poder de obrigar as pessoas a comprar aquilo que elas não querem.  Todo e qualquer sucesso é potencialmente efêmero.

É verdade que o sucesso gera um lucro; porém, de modo algum o sucesso fornece um conforto.  Cada fatia de lucro que o empreendedor eventualmente tire para desfrute próprio estará saindo daquilo que, de outra forma, poderia ser um investimento voltado para o desenvolvimento do seu negócio.  Se o lucro virar consumo pessoal do empreendedor, seu empreendimento estará condenado.

E mesmo esse potencial investimento voltado para o desenvolvimento do seu negócio não irá garantidamente gerar algum retorno.  O sucesso estrondoso de hoje pode ser o fiasco de amanhã.  Aquilo que parecia ser um investimento sólido pode acabar se revelando apenas uma mania de curto prazo.  Aquilo que, baseando-se no histórico de vendas, parece ser algo extremamente popular entre as massas, pode, na verdade, ser um segmento de mercado já quase saturado.

Os imperadores podem descansar sobre os louros da glória; os empreendedores capitalistas, nunca.

O histórico de vendas e de receitas é uma estatística que fornece apenas um olhar para o passado, e nada mais do que isso.  O futuro nunca é visto com claridade; ele é visto somente através de um espelho que mostra o passado, e de forma confusa.  O desempenho do passado não é uma garantia de sucesso futuro; é simplesmente uma coleção de dados que nada pode nos dizer sobre o futuro. 

Se o futuro por acaso for igual ao passado, ainda assim as probabilidades não mudam — da mesma forma que a probabilidade de uma moeda lançada dar coroa não aumenta só porque seus últimos cinco lançamentos também deram coroa.

Não obstante a completa ausência de um roteiro, o empreendedor-investidor tem de agir como se algum futuro já estivesse mapeado.  Ele tem de contratar empregados e tem de pagar a eles antes mesmo de os bens produzidos serem levados ao mercado, e bem antes de esses produtos serem vendidos e gerarem o primeiro lucro.  Equipamentos têm de ser comprados, aprimorados, modernizados, trabalhados e substituídos, o que significa que o empreendedor tem de pensar sobre os custos de hoje, de amanhã, de depois de amanhã, e assim para todo o sempre.

E os custos podem ser estonteantes.  Um varejista tem de considerar um incrível arranjo de opções envolvendo fornecedores e sistemas de comunicação, e se decidir entre todos eles.  É necessário pensar em uma maneira de avisar o mundo sobre sua existência.  E, não obstante um século de tentativas de se empregar métodos científicos para descobrir o que de fato açula o consumidor, a publicidade continua sendo apenas uma arte cultural, e não uma ciência positiva.  Mas trata-se também de uma arte que exige altos gastos.  Será que o empreendedor está jogando dinheiro no ralo?  Será que sua mensagem está de fato sendo ouvida?  Não há como saber de antemão.

E há outro grande problema: não há maneiras de se testar as causas do sucesso simplesmente porque não há como controlar perfeitamente todos os fatores e variáveis importantes.  Algumas vezes nem mesmo os empreendimentos de maior sucesso sabem exatamente por que seus produtos vendem mais que os de seus concorrentes.  Será o preço?  A qualidade?  O status?  A geografia?  A promoção?  As associações psicológicas que as pessoas fazem com o produto?  O quê, afinal? 

Ainda na década de 1980, por exemplo, a Coca Cola decidiu alterar sua fórmula, e passou a propagandeá-la como Nova Coca (New Coke).  O resultado foi uma catástrofe.  Os consumidores fugiram, ainda que os testes de sabor tenham comprovado que as pessoas preferiam o novo sabor ao antigo.

Se os dados históricos são tão difíceis de serem interpretados, pense no quão mais difícil é imaginar os possíveis resultados futuros.  O empreendedor pode contratar contadores, agências de marketing, magos das finanças e programadores de ponta.  Eles são técnicos competentes, mas de modo algum são especialistas em sobrepujar incertezas.  Ninguém é.  Uma analogia válida é a de um homem que está em uma sala totalmente escura e contrata pessoas para ajudá-lo a pôr um pé na frente do outro.  Seus passos podem ser firmes e resolutos, porém nem ele e nem seus ajudantes sabem ao certo o que está na frente deles.

"O que diferencia um empreendedor de sucesso das outras pessoas", escreveu Mises, "é precisamente o fato de que ele não se deixa guiar por aquilo que foi ou por aquilo que está sendo, mas, sim, porque ele organiza seus negócios com base em sua opinião sobre o futuro.  Ele vê o passado e o presente da mesma forma que as outras pessoas; no entanto, ele julga o futuro de maneira diferente."

É por essa razão que o hábito empreendedorial da mente não pode ser implantado por meio de treinamento ou educação.  Trata-se de algo inerente a um indivíduo, algo que foi cultivado por ele.  Não há comitês empreendedoriais, muito menos centrais de planejamento empreendedorial.

A incapacidade dos governos incorrerem no ato de fé empreendedorial é uma das várias razões por que o socialismo não tem como funcionar.  Mesmo que um burocrata possa olhar para a história e alegar que sua agência poderia ter construído um carro, uma parede ou um microchip, esse mesmo burocrata ficaria perdido se tivesse de prever como seriam as inovações futuras.  Seu único guia é a tecnologia: ele pode apenas especular sobre o que poderia funcionar melhor do que tudo o que está atualmente disponível. 

Mas essa não é a questão econômica: a real questão envolve saber qual é o melhor meio — considerando-se todos os usos alternativos que podem ser dados aos recursos disponíveis — de satisfazer os desejos mais urgentes dos consumidores, sabendo-se que há uma infinidade de possíveis desejos.

Isso é algo impossível de os governos fazerem. 

Há milhares de motivos para que um ato de empreendedorismo nunca seja praticado, e apenas um bom para que ele ocorra: esses indivíduos empreendedores, por terem uma capacidade superior de julgamento especulativo, estão dispostos a dar o salto de fé necessário para testar suas especulações contra todos os fatos de um futuro incerto.  E, ainda assim, é esse salto de fé que impulsiona nossos padrões de vida e aprimora a vida de bilhões de pessoas. 

Estamos cercados pela fé.  As economias que crescem estão impregnadas e infundidas de fé.

Mises que me perdoe, mas isso é um milagre.

 


autor

Lew Rockwell
é o chairman e CEO do Ludwig von Mises Institute, em Auburn, Alabama, editor do website LewRockwell.com, e autor dos livros Speaking of Liberty e The Left, the Right, and the State.



  • Amarilio Adolfo da Silva de Souza  03/04/2015 17:32
    Num Livre Mercado de verdade, somente as empresas que servissem aos consumidores seriam as maiores. Nada de proteção, como ocorre com a quase falida Petrobras.
  • Peter Racz  07/05/2015 15:17
    Aqueles que nunca tentaram empreender nada e que sempre dependeram de um emprego ou do assistencialismo, além de serem bombardeadas pelas ideologias que alimentam-se da inveja, dificilmente vão entender ou simpatizar com este ponto de vista e vão continuar a ver no empreendedor apenas alguém que os explora em vez de alguém que lhes dá trabalho, razão pela qual tantas indústrias nacionais estão mudando para a China e empregando a mão de obra de lá muito menos revoltada e ressentida, para depois exportarem para cá.

    Mudar esta mentalidade é talvez o maior desafio que existe em toda a América Latina.
  • Gredson  07/05/2015 15:53
    Não é somente no Brasil, essa mentalidade está em praticamente em todo lado ocidental, no livro a vida na sarjeta de Theodore Dalrymple, ele mostra que essa cultura de ódio, já começa nas escolas, e até mesmo um pais desenvolvido como londres, está presente a inveja, o ressentimento por quem cria riqueza. Este é um problema do nosso século.
  • Chato  08/05/2015 13:42
    Só para constar, Londres não é um país.
  • Alexandre Coutinho  07/05/2015 15:18
    Somada a essa incerteza natural, própria do mercado, devidos aos inúmeros fatores macro-econômicos e conjunturais, temos no Brasil um estado que contribui ainda mais para a INSEGURANÇA JURÍDICA do empreendedor.... as regras do jogo não são claras, e existe um proposital subjetivismo na interpretação das leis de modo a beneficiar alguns em detrimento de outros.
  • anônimo  07/05/2015 16:11
    Pois é, muitas pessoas têm imensas dificuldades em entender sistemas descentralizados, mal sabem elas como o próprio cérebro funciona...
  • Eduardo  07/05/2015 16:17
    Ótimo texto.
    Infelizmente aqui no Brasil se você é empresário já é visto como bandido, ou pelo menos tratado como tal pelo rei e seus asseclas, enquanto que em países desenvolvidos o empresário é um herói e exemplo de vida.
  • Salve  07/05/2015 16:59
    Uma argumentação dos estatistas é que num livre mercado é possível a criação de um monopólio em um determinado setor através de propaganda em uma grande emissora ou através da mídia. E quem tem monopólio pode cobrar o quanto quiser pelo seus produtos.

    Eu discordo, devido ao fato de que hoje não existe monopólio no setor de alimentação e nem de cabeleireiro que são setores competitivos. Existem sim gredes empresas, o que não quer dizer absolutamente nada. Um Mac Donalds por exemplo não cobra um lanche mais caro do que uma lanchonete. E nos Oligopólios (que é diferente de monopólio) das empresas de celulares a disputa é tão acirrada que os preços são sempre baixos.

    E eu só pude perceber estas coisas porque eu andei lendo o site misses.
  • Jorge  07/05/2015 17:06
    Monopólio e oligopólio só existem em duas ocasiões:

    1) Há agências reguladoras impedindo a entrada de novos concorrentes;

    2) Há leis que proíbem a participação de empresas estrangeiras na economia nacional.

    Se esses dois itens foram abolidos, é absolutamente impossível surgirem monopólios ou oligopólios.
  • Eduardo  07/05/2015 17:14
    De fato meu caro…
    Não existe um caso registrado na história econômica de um monopólio ou oligopólio ser bem sucedido (no sentido de conseguir "aproveitar" de um lucro acima do normal oferecendo produto ou serviço ruim) sem a ajuda da mafia estatal.

    Nenhuma corporação tem capital físico ou intelectual para impedir a entrada de concorrência em um cenário onde não exista barreira de entrada (livre iniciativa), ainda mais se estivermos falando em um contexto global. Mesmo a maior empresa do mundo não é mais poderosa que todas as outras do mundo somadas… Se um empreender enxerga oportunidade em um mercado onde atua apenas uma empresa ou poucas empresas (seja por que as margens são altíssimas ou porque o serviço/produto da(s) empresa(s) é abaixo da qualidade que ele acha que conseguirá fornecer) ele irá entrar neste mercado...

    A única instituição que possibilita a existência de monopólios ou oligopólios no sentido clássico é o ditador estado através de assalto e violência…

    o CADE é uma instituição que nasceu para tentar corrigir o problema que o próprio estado gera...
  • Mônica  08/05/2015 13:53
    "o CADE é uma instituição que nasceu para tentar corrigir o problema que o próprio estado gera..."

    Agora fico na dúvida se o pessoal que criou o CADE fez isso na má-fé ou se fez isso porque era tremendamente estúpido.
  • Típico Universitário  07/05/2015 17:25
    Tá serto. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Só tendo fé para o mercado fazer alguma coisa, mesmo.

    "O capitalismo é a crença mais estarrecedora de que o mais insignificante dos homens fará a mais insignificante das coisas para o bem de todos." - John Maynard Keynes. Dá para ver o que um economista de verdade acha dos empreendedores e do capitalismo.

    Deve achar que não precisamos da esquerda para lutar pelos nossos direitos nos séculos XIX e XX e que o sindicalismo não funciona para todos os trabalhadores. Esquece que a única razão pela qual uma tribo indígena aceita a opressão do cacique na forma 12 horas de trabalho para produzir é porque já há uma cultura de exploração; é do tipo que defende que é o desenvolvimento dos bens de capital pelos exploradores que permite desenvolver mais com menos. É contra as leis que defendem o trabalhador contra o "empreendedor" e acha, que em pleno século XXI, que o estado não é capaz de mudar as coisas com a legislação. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    Queria ver se quer um "empeerdedor" escocês criaria uma só máquina se não fossem os britânicos do outro lado do mundo escravizando negros e índios pelos últimos 600 anos. Se não fosse o ouro da América, inglês não teria tido nem o que comer. Riqueza não se cria. Empreender é roubo.'kkk
    Liberdade à pátria. Vocês são psicóticos.
  • bruno  07/05/2015 19:38
    Excelente relato de um seguidor inconsciente do Rubro Eneadactilo!
  • Viking  07/05/2015 20:03
    tu és o filho do típico filosofo?
  • Vinicius  07/05/2015 20:44
    Finalmente oxigênio! Realmente não existe progresso quando o acumulo vem antes da circulação da riqueza, acumular riqueza sem a empreender de forma justa e produtiva e achar que é um herói do planeta por fazer isso é no mínimo cômico. Não sou a favor do estado mas esses anarcos são uns diamantes! Conseguem ser piores que os governos, não conhecem a ética e a cobram dos outros e por fim esfolam o trabalhador com baixos salários e preferem pensar que o consumo diminuiu simplesmente por causa do estado. Cada vez menos vejo diferença entre os políticos e os anarcos a não ser o fato de que os primeiros estão no poder.
  • Professor Diferenciado  07/05/2015 21:20
    É isso aí, Vinicius. Tá certinha a ordem.

    Primeiro a gente come; depois, só depois, a gente prepara os alimentos.

    Primeiro a gente consome; depois, só depois, a gente pensa em produzir.

    Primeiro a gente constrói o prédio; depois, só depois, é que a gente pensa em fabricar os tijolos, o cimento, e os vergalhões.

    É isso aí, campeão.

    Agora me explica: como é possível uma pessoa criar empregos sem que ela antes tenha acumulado capital? Como é possível uma pessoa fazer investimentos sem que antes alguém tenha poupado?

    Se todo mundo só faz consumir, como é que sobrarão aços, cimentos e tijolos para se construir moradias? Para que haja aços, cimentos e tijolos, outras pessoas têm de se abster de consumi-los. Esse ato de poupança é a própria acumulação de capital em si.

    Sem essa acumulação de capital, é impossível fazer investimentos. E sem investimentos, é impossível haver empregos. E sem empregos, é impossível haver salários.

    E não há mágica ou ideologia capaz de reverter essa ordem.

    Aprenda o básico antes de falar besteira e fazer papel de bobo em público. Não sei se você percebeu, mas você disse que concordou com uma pessoa ("Típico Estudante") que estava claramente fazendo uma ironia, e satirizando pessoas que têm justamente o seu raciocínio. Você mordeu a isca e se humilhou em público.

  • Lopes  08/05/2015 02:01
    Salários não são determinados pela bondade ou maldade do patrão - a mão de obra é um bem como qualquer outro e tem seu valor nominal determinado pela escassez. Se você almeja verdadeiramente aumentar o bem-estar dos trabalhadores, Vinicius, você quer que exista mais empreendedorismo e mais capital pois esses aumentam os salários reais deles: uma produção mais barata gera bens mais competitivos que são mais acessíveis especialmente por aqueles que possuem uma renda menor. E se você quer salários nominais maiores, você ainda sim quer o empreendedorismo: uma maior demanda por mão de obra, seja estimulada artificialmente (por uma expansão artificial de crédito) ou naturalmente (por um desastre natural), gerará números maiores no seu contracheque - entretanto, não significará que a quantia de bens que você pode comprar com ele permaneceu estável. Uma expansão de crédito aumenta salários nominais, porém os preços crescem ao ponto de você precisar de crédito para comprar o que anteriormente consumia apenas com seu salário.

    Se as crianças hoje não precisam trabalhar é porque graças aos empreendimentos e seus bens de capital, adultos são capazes de produzir por toda a unidade familiar. Siga o exemplo de nosso universitário: vá a uma comunidade indígena isolada na África e os obrigue a trabalhar menos de 12 horas por dia. Se tua lei for bem-sucedida, assisti-los-á morrer de fome pois não possuem capital para sustentar tamanha bonança; ou vá ao Peru e estabeleça uma carteira de privilégios aos trabalhadores só para ver metade da mão-de-obra migrar ao setor informal para fugir "dos seus direitos" porque uma lei não é capaz de tornar todos mais ricos ou mais produtivos.

    Quer de fato ajudá-los, Vinicius? Abandone a retórica da universidade. Estude. Empreenda. Descubra um serviço que as pessoas precisam e como ofertá-lo por um preço que queiram pagar. Gere empregos expandindo a oferta do serviço ofertado (sim, é a expectativa do lucro que gera os salários, e não os salários que geram o lucro - se fosse por isso, não haveria demissão) Ou descubra como fazer algo já existente de uma forma muitíssimo mais barata.

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1241
  • Vinicius  08/05/2015 14:04
    Com a ideia fixa de descobrir tudo o que está errado na política e na economia brasileira a fim de melhor entender as manifestações de rua nas últimas semanas, e votar certo no ano que vem, Simplício resolveu ficar alguns dias em São Paulo e teve a sorte de encontrar na USP um economista ortodoxo que estava fazendo uma palestra sobre a necessidade de reduzir os salários para o país crescer. "Se é um ortodoxo é porque está certo, pensou Simplício." E foi esperá-lo na porta de sua sala.

    O economista ortodoxo estava vermelho de raiva porque não havia recebido a quantidade de aplausos a que achava que tinha direito. Por isso, acolheu Simplício satisfeito com a possibilidade de que viesse a se tornar um discípulo. Com modelos e gráficos explicou como o salário alto prejudica os lucros, e como os lucros devem ser altos para atrair grandes investimentos. "No Brasil tudo está errado", disse. "A carga salarial espanta os investimentos e a geração de empregos. Se duvidar vá ouvir os sociólogos da Fiesp."

    Simplício, timidamente, sussurrou: "Mas não seria o contrário?" "Como?", reagiu indignado o economista ortodoxo. "Como ousa contestar uma afirmação que está apoiada solidamente em modelos e gráficos, e ainda na opinião dos economistas da Fiesp, e ainda na experiência recente da China?" Simplício sussurrou novamente: "Se o salário é baixo, quem vai comprar as mercadorias e serviços produzidos com os altos investimentos gerados pelos lucros estratosféricos? Ou os capitalistas vão comer os próprios lucros uns dos outros?"

    — Você está confundindo as coisas, Simplício. Se os salários forem suficientemente baixos, haverá mais empregos. Mais empregos significam mais compras. É o efeito horizontal dos salários. O outro, prejudicial ao país, seria o efeito do salário vertical.

    — Compras de gente com salário na horizontal, e baixo, não devem ajudar muito o país a crescer, deixou escapar Simplício, imaginando quantos salários na vertical o economista ortodoxo estaria ganhando para defender aquelas ideias. Quem sabe não seria melhor fazer o contrário?, arriscou.
    — Aumentar os salários? Você está louco. Se eu fizesse uma recomendação desse tipo poderia rasgar meu diploma de economia da USP. A propósito, Simplício, a entrevista está encerrada. Tenho que escrever um artigo sobre a inflação para o jornal "Valor".

    — A inflação está descontrolada?

    — Está cinco milésimos além da terceira casa decimal fora da meta. Mas se não aumentarmos logo a taxa básica de juros perderemos o controle, isso vai virar uma hiperinflação. Aliás, se esse movimento que está nas ruas fosse racional, como deveria ser, os manifestantes deveriam estar gritando palavras de ordem a favor do aumento da taxa de juros. Que me perdoe o espírito do Vice José Alencar, mas o Brasil só vai para frente aumentando os juros.

    Simplício escreveu na agenda vermelha: "Se salário baixo e juro alto é bom para o Brasil, por que nenhum manifestante pediu isso?" –– "Preciso investigar..."
  • Simplício  08/05/2015 14:25
    Tá falando isso para quem? Dado que você é novato neste site, ganha uma colher de chá: a economia aqui ensinada não é ortodoxa. Aqui não se defende combater inflação com aumento de juros, mas sim com taxa de câmbio.

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2089

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2055

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2018


    Ah, e se você acha que a atual inflação de preços é uma mera neurose com margens decimais, que está apenas "cinco milésimos além da terceira casa decimal fora da meta", fale isso para essas famílias que, por causa da inflação, voltaram a passar fome.

    www.em.com.br/app/noticia/politica/2015/05/03/interna_politica,643417/dragao-corroi-beneficio-e-acorda-fantasma-da-fome.shtml


    E aprenda também as causas da inflação, e passa a combater justamente essas instituições que estão causando a carestia.

    Quem realmente está causando a carestia no Brasil
  • Lopes  08/05/2015 14:47
    "Só Cinco milésimos acima da """""""meta"""""""." E o déficit? Ah, dependendo do truque contábil que o governo arranja para tornar o índice completamente irrelevante, ele até vira um superávit primário.

    pt.tradingeconomics.com/brazil/inflation-cpi
    Acumulada (IPCA Geral) desde 2010: 42,08%.

    Não o impeça de olhar para a acumulada. Sentir-se-á bastante simplício ao colocar-se na carne de um investidor que realizou investimento de longo prazo em 2009 apenas para descobrir como a evolução do índice de preços adicionado ao imposto de renda para pessoa jurídica corroeram a possibilidade de quaisquer investimentos de longo prazo junto à possibilidade de lucro líquido. Também não o impeça de olhar as países desenvolvidos, em especial os industrializados, somente para discernir que inflação de 2% ao ano (lembre-se da acumulada. Investimentos de infraestrutura como o Brasil precisa e indústria são de longo prazo) já é muito.

    Imagine uma empresa como a GE no Brasil:

    São muitas as pessoas que não entendem corretamente esse conceito de que os capitalistas adiantam bens presentes para receber, após muito tempo, bens futuros. No entanto, basta verificar os balancetes de qualquer empresa para verificar esse fenômeno. Por exemplo, a General Electric investiu (adiantou) US$685 bilhões para recuperar, na forma de fluxo de caixa anual, aproximadamente US$35 bilhões. Ou seja, os capitalistas da GE abriram mão de US$685 bilhões (e seu equivalente em bens de consumo que eles poderiam ter adquirido no presente) para receber, anualmente, uma receita de US$35 bilhões. Nesse ritmo, serão necessários 20 anos apenas para recuperar todo o capital adiantado.

    Imagine uma inflação acumulada em 20 anos, se em apenas 5 já foi de 42,08%? Qual seria seu impacto no cálculo contábil de qualquer companhia?
  • Lopes  08/05/2015 14:54
    Nota: contei de janeiro de 2010 até janeiro de 2015. Nem mesmo contei o curto período em que ocorreu o maior caos do gráfico supramencionado.
  • Felipe  08/05/2015 15:08
    Adiciona o fato de que IPCA está longe de representar a realidade inflacionária no brasil, que é muito maior.
  • Leandro  08/05/2015 15:03
    O detalhe maior é que a meta de inflação é de 4,50% -- que já é extremamente alta para qualquer país minimamente sério --, mas a inflação acumulada em 12 meses está em 8,20%.

    Isso não é "cinco milésimos além da terceira casa decimal fora da meta". Isso é 82% acima da meta.

    Nem matemática básica essa gente domina.
  • Douglas  08/05/2015 17:24
    Mas ainda ha esperanças que seja uma nova mascara do Tipico Filosofo
  • Amarilio Adolfo da Silva de Souza   07/05/2015 20:39
    Infelizmente, os governos deturpam tudo e a massa acredita.
  • Daniel  07/05/2015 22:51
    Pessoal, uma dúvida off:
    Supondo o fim do governo, como fica a situação dos índios? Eles assumiriam a posse das áreas de reservas já definidas?
  • Henrique Zucatelli  08/05/2015 01:03
    Daniel, vou responder da minha parte (outros mais gabaritados podem me contrapor ou complementar).

    Vou fingir que entendi, pois governo e Estado são diferentes, embora semelhantes.

    A essa pergunta, pensemos: De quem são as reservas? Dos índios ou do Estado?

    - Se dos índios, então fica como está.

    - Se do Estado, logo sem Estado elas devem ser apropriadas por alguém, pois terras são recursos escassos, logo o que não tem dono um dia terá. Se os índios já estão ali, então que tomem posse e comprovem a mesma perante a nova ordem de propriedade privada vigente.

    Lembrando Daniel que a ausencia de Estado não implica na ausencia de leis sobre propriedade privada, sendo que a causa maior libertária é justamente a preservação da mesma, fazendo sua crítica ao modelo estatista justamente por este criar leis e regras que tira a força do ente privado sua riqueza com o pretexto de "igualdade social". Logo, a causa libertária antes de tudo é uma causa jurídica. Falamos de um código de leis civis que prezam pelo princípio do respeito ao indivíduo.

    Voltanto aos índios, se estes são moradores das terras, logo são donos, a menos que outro venha e reclame a posse junto ao árbitro da ordem vigente, e se este comprovar que é ele o proprietário, os mesmos terão de se retirar (reintegração de posse).
  • Lopes  08/05/2015 01:43
    Supondo o estado, como ficaria a situação dos índios? <- Tal seria, creio, a pergunta mais apropriada.

    Eles detêm várias porções de terra que não podem vender, negociar ou utilizar como bem entendem. Nossa "sociedade" vai até suas comunidades, pinta universitários de esquerda com marcas de guerra que há muitos significavam algo e os transforma em um grupo "marginalizado" que fomenta o financiamento de uma série de ONGs que não resolvem seus problemas.

    Tudo parte do falso pressuposto que o índio viveria como índio por viver - ou que ele, por exemplo, caça por caçar. É óbvio que um indígena é como qualquer pessoa como você ou eu, que trabalha para adquirir recursos pois somos todos miseráveis por natureza e é somente a ação humana que suspende a escassez - sua comida, suas roupas e seu tato não são dádivas da metafísica platônica; por isso que quase todos eles, quando podem, não mais perdem tempo em meio ao mato: vendem artefatos artesanais, entretém "filósofos" e infelizmente, muitos criam pedágios ilegais aos motoristas que transitam em suas terras ou substituíram suas temporadas de caçada por temporadas de visita à Brasília - que é sua maior inimiga junto aos governos estaduais:

    (Exemplo: Indígenas cobram "pedágio" porque precisam de recursos para reparar estradas esburacadas nas terras deles)
    www.onortao.com.br/noticias/pelo-2-dia-indigenas-de-mt-cobram-pedagio-de-ate-r-50-em-rodovia,39790.php

    Outra forma de obter o recurso financeiro necessário para as obras de infraestrutura nas comunidades seria a liberação da construção de uma Pequena Central Hidrelétrica (PCH), no Rio Juína, que fica nos limites das terra indígena dos povos Nhambiquara. Segundo a liderança, a comunidade receberia uma quantia em dinheiro como forma de compensação pelo uso dos recursos naturais da área."

    Ou seja, apesar de as terras "pertencerem" aos Nhambiquara, eles não podem por conta própria permitir que seja feita, apesar de o líder claramente desejar o direito de usar a própria terra. Mais um exemplo de como o estado os prejudica com a falsa noção de que possuem domínios.
    ---
    Agora, receio que estado algum desapareceria de um dia ao outro; há inúmeros procedimentos com os quais liberdades são adquiridas e ele é diminuído (sendo a secessão na estratégia hopperiana uma das mais proeminentes). A tendência é que dados os custos do sustento do "modo de vida" indígena e a necessidade da exploração de recursos por empreendedores dentro de um território menor (reservas indígenas costumam ser significativas aqui e nos EUA - especialmente quando se localizam próximas de rios com potencial para centros hidrelétricos): static.hsw.com.br/gif/indios-mapa-terras.gif e americanindiantah.com/images/reservations2010.gif ), seria natural que indígenas recebessem plenos direitos sobre suas terras e, como no exemplo acima, finalmente poderiam vendê-las ou negociá-las como bem entendem.

    O que eu não posso dizer a você é como seriam divididas entre as diferentes famílias dentro de uma reserva. As sociedades indígenas são muitíssimo mais complexas, pragmáticas e conflitantes do que a visão ofensiva de que são todos "irmãos das árvores"; receio que haveriam inúmeros problemas a serem tratados por princípio da subsidiariedade dentro de cada clã ao invés da onividência de uma elite universitária em Brasília.
  • Daniel  10/05/2015 17:17
    Gostei dos pontos que vocês falaram. Deram mais coisas para pensar sobre o assunto.
    Obrigado.
  • Guilherme Ce  08/05/2015 12:30
    Pra quem interessar, blog sobre o liberal Roberto Campos.

    alanternanapopa.blogspot.com.br/
  • Emerson Luís  08/05/2015 13:29

    Depende do que se quer dizer com "milagre" e "fé".

    A "fé" das religiões pagãs (e "cristãs paganizadas") é mística, a crença em um Universo regido por forças misteriosas arbitrárias. Já a "fé" judaico-cristã é racional, a crença em um Cosmos governado por leis naturais instituídas por uma Inteligência Suprema.

    Embora não apreciem usar esse termo, a confiança dos cientistas nas leis naturais e no método científico é uma "fé" racional e ela provém em grande parte da cosmovisão judaico-cristã. Um cientista pode não acreditar na existência de um Grande Legislador, mas não pode desacreditar em uma Grande Legislação sem contradizer-se.

    Um "milagre" pode ser definido como um evento causado por um poder sobre-humano, além da nossa capacidade de compreensão e/ou realização. Visto que a Humanidade coletivamente possui um poder e inteligência muito acima dos de qualquer indivíduo ou grupo, a invenção e fabricação de um simples lápis pode ser chamado de "milagre"







    Por outro lado, vivemos em uma cultura de misticismo e de analfabetismo funcional. Se no meio anglo-saxão já é perigoso falar de "milagre" e de "fé" para explicar o funcionamento do mercado, muito pior é no nosso meio latino-americano. Quando ouvem ou leem a explanação de Adam Smith sobre a "mão invisível", enquanto alguns pensam que ele defendeu o egoísmo predatório, outros imaginam que se trata literalmente de uma "mão invisível".

    Concluindo, tanto Rockwell quanto Mises têm razão em perspectivas diferentes.

    * * *
  • Leandro Rosendo  30/05/2015 15:37
    Artigo excelente, somente discordo que empreender não se aprende, acredito que sim se aprende e para isso precisamos ter mentores empreendedores, alguns não conseguiram, outros nem tentaram, mas todos podemos sim ser empreendedores. No mais esse artigo foi mais que excelente.


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