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O dinheiro não é uma régua, e não serve para mensurar valor

Dizer que o dinheiro é uma espécie de régua que serve para mensurar o valor de bens e serviços é uma noção tão simples quanto equivocada, a qual vem enganando excelentes economistas há séculos.

O dinheiro — ou, caso prefiram, a moeda — facilita o cálculo econômico ao servir como uma unidade de conta, isto é, um meio comum para precificação de bens e serviços. Ou, dito de outra forma, um pouco mais científica, o dinheiro é um denominador comum para expressar as razões de trocas (os preços) no mercado.

No entanto, qualquer troca sempre envolve valorações subjetivas a respeito de mercadorias. E tanto a oferta de mercadorias quanto as valorações subjetivas sofrem constantes alterações. Consequentemente, e por definição, as razões de troca no mercado são cambiantes. Por definição.

E, sendo também a moeda uma mercadoria (contendo apenas uma diferença quanto ao seu grau de liquidez perante as demais mercadorias, pois a moeda é a mercadoria mais líquida de todas), sua demanda e oferta também variam normalmente, fazendo com que seu preço (seu poder de compra) seja "não fixo". Por definição.

Assim, imaginar que o dinheiro possa ser uma "medida" de valor — como se valor pudesse ser objetivamente mensurado — contraria os princípios mais básicos da teoria do valor subjetivo e da ação humana.

Valor pode, sim, ser comparado, mas somente ordinalmente (na forma de um ranking de preferências) e pelo próprio indivíduo subjetivamente. Jamais por terceiros e jamais de forma objetiva.

Sutis, mas, cruciais diferenças.

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autor

Fernando Ulrich
é mestre em Economia da Escola Austríaca, com experiência mundial na indústria de elevadores e nos mercados financeiro e imobiliário brasileiros. É conselheiro do Instituto Mises Brasil, estudioso de teoria monetária, entusiasta de moedas digitais, e mantém um blog no portal InfoMoney chamado "Moeda na era digital". Também é autor do livro "Bitcoin - a moeda na era digital".

 

  • Jorge  04/04/2018 01:37
    Ótima explanação!
  • Pobre Paulista  05/04/2018 01:32
    É mais fácil dizer que o valor de um bem é medido por uma variável aleatória. Além de fazer mais sentido.

  • anônimo  15/04/2018 13:42
    QUASE aleatória. pra quem ta comprando/vendendo, o valor que tal pessoa atribui às coisas faz sentido.
  • Comunista muito puto com a explicação fraca sobre MOEDA  19/04/2018 03:17
    Tá,

    Mas se a moeda é uma mercadoria e ela deriva do valor subjetivo, uma das hipóteses básicas é de que para conseguir-se pensar a demanda, essas mercadorias devem ter utilidades marginais decrescentes. O dinheiro tem utilidade marginal decrescente???? Eu ganho mais dinheiro, eu sinto menos prazer? Ela vale menos pra mim?
  • Leandro  19/04/2018 03:40
    Isso de "diminuir o prazer" não é utilidade marginal, mas sim a lei da saciedade, algo que Mises teve muito cuidado em não confundir.

    Só que o mainstream confunde tudo.

    Em termos técnicos, o mainstrem diz que utilidade marginal é a quantidade de necessidades que são satisfeitas quando se incrementa em uma unidade o consumo de determinada. Ou seja, o mainstream inventa uma soma que não existe e não faz sentido.

    Permita-me dar um exemplo que vai ajudar a entender a definição de utilidade marginal.

    Se um indivíduo possui 5 carros idênticos, os quais satisfazem completamente todos os seus desejos, então o valor de cada carro será determinado pela importância que esse indivíduo atribui ao quinto carro que ele possui (no sentido de que há um ranking de preferências pelos carros, e supondo que o quinto carro é o menos importante para ele). Assim, se ele por exemplo perder esse quinto carro, o valor de um carro aumentaria de acordo com a satisfação que ele agora tira do quarto carro no seu ranking de importância.

    Caso ele perdesse 4 carros, ficando com apenas um, o valor desse único carro restante aumentaria enormemente, e o indivíduo agora passaria a valorizá-lo de acordo com a importância que esse único carro tem para ele na satisfação de todos os seus afazeres diários.

    Por outro lado, caso ele ganhasse num sorteio 100 carros iguais -- um número que excede em muito a hipótese inicial de que 5 carros o satisfazem completamente --, então a utilidade marginal e o valor de cada carro agora seria de zero, pois a satisfação de todos os seus desejos automobilísticos não dependeria da posse de um centésimo carro -- aliás, não dependeria nem mesmo de um sexto carro.

    Portanto, o valor que um indivíduo atribui a uma unidade de uma determinada quantidade de bens é igual à importância que ele dá à satisfação da necessidade menos importante propiciada por essa unidade.

    Se você está com fome e tem inúmeras cédulas de 5 reais, perder uma cédula não lhe fará diferença alguma. Por outro lado, se você, estando com a mesma fome de antes, porém tendo agora apenas uma cédula de 5 reais, perder essa cédula, isso pode significar a diferença entre comer e morrer de fome. Logo, sua utilidade marginal para a cédula de 5 reais é nula no primeiro caso e, no segundo caso, possui o valor de sua vida.

    Este é o real conceito de utilidade marginal.

    Resumindo: uma unidade adicional de um bem (oriundo de uma oferta de bens homogêneos) terá para você um valor que equivale à importância que você dá à satisfação da necessidade menos importante propiciada por este bem adicional.

    Um copo d'água a mais para quem já está sem sede alguma não tem valor algum. Já um diamante a mais para um milionário ainda terá muito valor.

    Por outro lado, imagine esta mesma situação para um indivíduo completamente perdido em um deserto inóspito. A valoração será totalmente inversa.

    Deve-se sempre pensar em termos de valor subjetivo.

    Quando você entende isso, percebe que não faz sentido nenhum a ideia de valor-trabalho. E perceberá que a única explicação para o valor das coisas é a subjetividade dos indivíduos.

    Espero que já esteja agora "desputecido".
  • Pobre Paulista  20/04/2018 23:26
    "Meu reino por um cavalo" é a melhor explicação que existe sobre isso ;-)
  • Paulo Cesar Nunes  05/06/2018 15:48
    Obrigado pela valiosa contribuição.
  • l f g p  01/08/2018 13:26
    Valiosíssima contribuição
  • Pedro  04/05/2018 00:21
    "Portanto, o valor que um indivíduo atribui a uma unidade de uma determinada quantidade de bens é igual à importância que ele dá à satisfação da necessidade MENOS importante propiciada por essa unidade."

    Leandro, não entendo pq se trata da necessidade menos importante. Se o indivíduo agora, por exemplo, possui apenas um carro, pq ele irá valorizar esse bem de acordo com a necessidade atendida menos importante e não MAIS importante?
  • Fábio  04/05/2018 01:58
    Não foi isso o que foi dito.

    Eis o que foi dito: se você tem 5 bens homogêneos (idênticos), o valor que você irá atribuir a cada unidade será a importância que você dá à satisfação da necessidade MENOS importante propiciada por essa unidade.

    Exemplo: você tem 5 carros idênticos. Um carro você usa exclusivamente para ir às compras, o outro exclusivamente para viajar, o outro exclusivamente para ir almoçar, o outro exclusivamente para se encontrar com a amante, e o outro exclusivamente para levar a sogra para passear.

    Supondo que levar a sogra para passear seja a sua atividade menos favorita, o valor que você dá a cada carro (em caso de perda) corresponde ao valor que você dá ao passeio com sua sogra.

    A utilidade marginal não está ligada à saciedade, mas sim àvaloração de itens homogêneos, como explicado no exemplo dos carros e das cédulas de dinheiro.

    Se você quer aplicar o conceito de utilidade marginal à moeda, você tem de raciocinar em termos de "quantidades adicionais de unidades monetárias". Quanto maior for a renda de um indivíduo, menos importante será uma quantidade adicional unitária de moeda.


    R$ 1,00 tem mais importância para alguém que ganha um salário mínimo do que para um bilionário.
  • Laerty  08/05/2018 21:18
    Um artigo bastante inteligente e didático.
    Parabéns pela objetividade e clareza.
  • 0701user  26/05/2018 03:16
    Isso é uma coisa que os keynesianos nunca vão entender: a mera impressão de um pedaço de papel jamais pode gerar riqueza
  • Luiz Aguilella  06/06/2018 11:38
    Não seria o "papel" um parâmetro para a mensuração de um bem? Como poderíamos precificar algo sem ter algo para isso?
  • user0701  12/06/2018 23:04
    O papel fiduciário em si não tem nenhum valor. Quem estipula isso (de forma arbitrária) é governo. É ele quem determina o quanto o pedaço de papel vale.
    Antigamente sim, o dinheiro tinha um valor real, pois era lastreado em metais preciosos (principalmente ouro, daí o nome "padrão-ouro").
  • Pedro Afonsino  05/07/2018 17:03
    Se diminuirmos a base monetária, nossa moeda passaria a valer mais?

    Já que a valoração da moeda se baseia de forma subjetiva, podemos aplicar a lei de oferta e demanda, certo?

    Logo: Menos é mais...Ou não tem nada a ver?

    Como aumentar o valor de uma moeda?
  • Miguel Monteiro  24/07/2018 19:56
    Muito bem explicado e esclarecedor. Parabéns, Ulrich
  • Gustavo P. de Cristo  30/07/2018 23:43
    Olá, gostaria de tirar umas dúvidas, tem haver com padrão-ouro, alguém pode me ajudar? Sou leigo:

    A clássica: E se acabar o ouro? Para mim, se eu tenho, exemplo, 1kg de ouro, troco por cédulas ($1.000) e invisto, ganhando $1.300, esse $300 foi criado, foi PRODUZIDO, não é? Eu não "tirei" de ninguém.... Correto? Sendo assim, cada vez mais e mais dinheiro acaba entrando na sociedade, tendo que ser lastreado em ouro... e se acabar o ouro?

    Outra: Como funciona a "entrada do ouro" na sociedade? Tipo uma Mineradora vende 1T, e receberia $ 1 milhão.. Se ela conseguir, ou se conseguisse, produzir mais.... não afetaria, em relação a Lei da demanda, oferta...? Se aquela tonelada fosse vendida por, ao invés de $ 1 milhão, por $900k, não desvalorizaria todo o ouro, o ouro de todos? Mas então como funciona esse "controle" para que a "oferta e procure" não ferre com "tudo"?

    OBS: Li os artigos de padrão-ouro, concordo plenamente, mas tenho tais dúvidas.

    Por último: E se a produção de ouro não for o suficiente para "abastecer" a economia?

    Grato.

  • Jairdeladomelhorqptras  30/08/2018 16:09
    Caro Gustavo P. de Cristo,

    Justamente a impossibilidade de "produzir" ouro em quantidade é o que dá à moeda lastrada em ouro uma confiança insuperável.
    Vamos pensar. Este padrão - o padrão-ouro - perdurou até, ao menos, a I Guerra Mundial.
    Assim, todo o desenvolvimento verificado no século XIX verificou-se com moedas lastreadas no ouro. Ao menos as moedas significantes no comércio mundial. O sistema funciona.
    Pouco importa se vc tinha $ 1.000 reais e "ganhou" $300,00. Lastreado no ouro, pode acontecer de em vez de eu ganhar $300,0,0 eu perder 300, 00. Só que mesmo com $700,00 (se lastreado no ouro) eu acabo comprando mais mercadorias que estes $1300,oo baseados na confiança de papel pintado do Banco Central Brasileiro, OK?


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