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Economia brasileira: águia ou galinha? - Aprendendo a prever os ciclos econômicos
Os dados que você tem de analisar e como você pode ganhar com eles


O artigo a seguir é uma adaptação desta apresentação feita pelo autor na ocasião da terceira edição da Summer School realizado pelo Instituto Mises Brasil entre os dias 1º e 4 de fevereiro na cidade de Espírito Santo do Pinhal, São Paulo.


Ciclo Econômico - por que é importante

Sem nenhum exagero, ciclo econômico é o assunto mais fascinante de toda a ciência econômica. E não só é o mais fascinante, como também é o mais importante: ciclo econômico é um fenômeno que tem a capacidade de acabar com todas as conquistas recentemente obtidas por uma economia.

A economia passa dez anos crescendo, com tudo indo aparentemente bem, até que então vem uma recessão profunda que acaba com todos os ganhos desse período.

Vide o Brasil.

Ao final de 2016, a economia havia recuado ao mesmo tamanho que tinha em 2010. Em dólares, nossa renda per capita em 2016 voltou a ser a mesma de 2008.

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Gráfico 1: evolução da nossa renda per capita em dólares ajustada pela paridade do poder de compra. Fonte: Trading Economics, com dados do Banco Mundial

Em termos de poder de destruição, o ciclo econômico só perde para o socialismo.

E um detalhe crucial: a economia pode ser bastante livre, com pessoas empreendedoras, baixa burocracia, baixos impostos etc. Porém, se o governo fizer besteira em uma determinada área — que é o assunto deste artigo —, a economia irá degringolar.

Exemplos clássicos são Irlanda e Islândia: economias livres que, por causa da lambança que fizeram nesta área, vivenciaram uma aguda recessão. O mesmo aconteceu também em toda a Europa, principalmente Portugal, Espanha, Grécia e Chipre.

E aconteceu no Brasil.

O que faz uma economia vivenciar um ciclo econômico

Em um dado momento, a economia parece estar indo muito bem: a renda está crescendo, o emprego está subindo, as indústrias estão se expandindo e contratando, os investimentos estão aumentando, o comércio e os serviços estão vendendo muito e contratando bastante, lojas de todos os tipos estão sendo abertas, restaurantes estão sempre cheios e com fila de espera, e a população está consumindo cada vez mais.

Tudo indo muito bem. Aparentemente.

E aí, de repente, o cenário vira, a economia entra em recessão, os investimentos se retraem, as pessoas param de consumir, as indústrias dão férias coletivas (e depois demitem), várias outras indústrias fecham, o desemprego aumenta, lojas passam o ponto, placas de "aluga-se" se tornam parte da paisagem urbana, vários pontos comerciais ficam permanentemente vazios, sem locatários etc.

Por que isso acontece?

Para entender por que e como ocorrem esses ciclos, é necessário utilizar a lógica. Por meio da lógica, uma teoria será deduzida a priori; em seguida, essa teoria será testada empiricamente.

Indo direto ao ponto: para entender por que há flutuações econômicas, é necessário analisar exatamente o que afeta as transações econômicas. Mais especificamente, qual é a variável que está presente em toda e qualquer transação econômica?

O dinheiro

O dinheiro é o elo entre todas as atividades econômicas, e representa a metade de toda e qualquer transação econômica feita.

Há um comprador demandando um bem, há um vendedor oferecendo esse bem, e esta transação será efetivada por meio do dinheiro.

Se você compra uma roupa, você recebe a roupa e em troca dá dinheiro. Se você compra comida, você recebe a comida e em troca dá dinheiro. Se você compra a mão-de-obra de um eletricista ou de encanador, você recebe o serviço e em troca dá dinheiro.

O dinheiro, portanto, está presente em todas as transações econômicas e representa a metade de cada um dessas transações.

E, dado que o dinheiro está presente em todas as transações econômicas, a lógica nos diz que qualquer manipulação e alteração nessa variável irá afetar toda a economia.

Portanto, em qualquer análise lógica de ciclo econômico é necessário analisar o que está ocorrendo com essa variável crucial, que é o dinheiro.

Mas qual dinheiro analisar? Há vários dinheiros. Há o dinheiro que está na sua carteira (as cédulas de papel e as moedas metálicas). Há o dinheiro que está na sua caderneta de poupança. Há o dinheiro que está em um depósito a prazo. Há o dinheiro que está em um fundo DI. Há o que está em um fundo multimercado. Há o que está em um fundo cambial etc.

Qual deles?

Apenas um: aquele que está na conta-corrente. Nos depósitos à vista.

Por quê? Basta utilizar a praxeologia.

Se você coloca dinheiro na poupança, ou em um fundo de investimento, ou em um depósito a prazo (CDB, LCI, LCA), ou em qualquer modalidade citada acima, você não está pensando em gastar todo esse dinheiro amanhã ou no futuro próximo.

Você quer deixá-lo ali, rendendo juros.

Você pode, em alguns casos específicos, até usar esse dinheiro para pagar contas, mas não é um dinheiro que você está pensando em gastar volumosamente (ou totalmente) daqui a, digamos, dois dias. Você, repetindo, quer deixá-lo ali rendendo juros.

E desse dinheiro aplicado, uma parte fica presa no mercado interbancário — servindo pra operações compromissadas, para compulsório junto ao Banco Central, para atender a regulamentações bancárias, para formar colchão de liquidez, para provisões contra calotes, para atender ao Índice de Basiléia etc. — e a outra parte será emprestada.

E esta, ao ser emprestada, cairá na conta-corrente de alguém, que então irá gastar esse dinheiro (afinal, foi para isso que ele pediu o empréstimo).

Já o dinheiro que você já deixa separado na conta-corrente é aquele dinheiro que você está pensando em gastar todo amanhã ou em um futuro próximo. Ele não rende juros.

No caso de empresas, esse comportamento é ainda mais óbvio. Empresa que deixa dinheiro na conta-corrente está usando esse dinheiro como capital de giro. Está planejando gastar esse dinheiro no futuro próximo. Ela não está atrás de juros.

Para uma empresa, dinheiro na conta-corrente é dinheiro de liquidez imediata. É o dinheiro que ela usa diariamente para consumir, investir, contratar mão-de-obra, pagar fornecedores, pagar salários etc.

Já quando a empresa está com alguma reserva de caixa e não está pensando em contratar, gastar ou expandir, ela aplica esse dinheiro — gerando os mesmos efeitos descritos acima para a pessoa física.

É crucial enfatizar esse ponto: dinheiro na conta-corrente é o dinheiro de liquidez imediata. É o dinheiro que pessoas e empresas deixam separado para usar diariamente, e em grandes volumes, para consumir, investir, contratar mão-de-obra e pagar salários. É o capital de giro, como já dito.

E como surge dinheiro na conta-corrente? De duas maneiras: ou ele vem do resgate de uma aplicação ou ele vem da expansão do crédito.

Quando uma empresa vai a um banco pedir um empréstimo ou descontar uma duplicata, esse dinheiro cai na conta-corrente dela e funciona ou como capital de giro ou como dinheiro a ser investido na expansão do negócio ou na contratação de mão-de-obra.

O mesmo vale para uma pessoa física que pega empréstimo. O dinheiro vai para a conta-corrente dela.

Portanto, o dinheiro na conta-corrente é o dinheiro que está prontamente disponível para as pessoas consumirem e para as empresas comprarem maquinário, expandirem suas instalações, ampliarem sua produção, pagarem fornecedores, reporem estoques, contratarem mão-de-obra etc.

Como se trata de uma aplicação que não paga juros, o dinheiro em conta-corrente representa aquele dinheiro que está sendo diariamente transacionado na economia a grandes volumes.

Trata-se do dinheiro realmente líquido. É o dinheiro que, em suma, irá determinar o volume de gastos da economia.

Assim, com isso em mente, é possível fazer a seguinte constatação praxeológica e apriorística: dado que é o dinheiro na conta-corrente quem determina o volume de gastos produtivos da economia — salários, investimentos na economia física, aquisição de máquinas, consumo, pagamento de fornecedores etc. —, é exatamente ele quem vai governar todas as flutuações da economia.

(Nota à margem: o primeiro a apresentar esse teoria foi, claro, Ludwig von Mises em seu livro "A Teoria da Moeda e do Crédito".)

Sendo assim, podemos fazer as seguintes deduções apriorísticas:

a) Se a quantidade de dinheiro nas contas-correntes está aumentando — seja porque o crédito está se expandindo ou porque as pessoas estão saindo da renda fixa (retirando dinheiro de aplicações) —, então o volume de gastos está crescendo e a economia está aquecida. Está havendo muito consumo e investimento.

b) Se a quantidade de dinheiro nas contas-correntes está diminuindo — seja porque o crédito está se contraindo ou porque as pessoas estão indo para a renda fixa (colocando o dinheiro em aplicações financeiras) —, então o volume de gastos está desacelerando e a economia está se arrefecendo. Consumo e investimentos estão em queda.

Essas são teorias apriorísticas, deduzidas por meio da lógica.

Vamos agora à prática.

O gráfico abaixo mostra a evolução da quantidade de dinheiro em conta-corrente (depósitos à vista). Trata-se de um gráfico do próprio Banco Central, retirado diretamente do site da instituição (clique aqui).

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Gráfico 2: evolução da quantidade de dinheiro em conta-corrente (depósitos à vista). Fonte: Banco Central

Como ele está cheio de oscilações mensais, que são perfeitamente normais — por exemplo, todo dezembro sempre há um aumento por causa das festas de fim de ano, do 13º salário, do comércio mais movimentado etc. —, coloquemos este gráfico na forma de média móvel de 12 meses pra suavizar as oscilações mensais.

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Gráfico 3: evolução da quantidade de dinheiro em conta-corrente (depósitos à vista). Média móvel 12 meses. Fonte: Banco Central

O gráfico é absolutamente o mesmo, mas agora na forma de média móvel para 12 meses. Em estatística, a média móvel é um recurso muito utilizado para se identificar a tendência de um conjunto de dados dispostos em uma série temporal. A média móvel suaviza os movimentos voláteis de uma série temporal.

Este, portanto, é o gráfico da evolução da quantidade de dinheiro nas contas-correntes do Brasil. Começando no ano 2000.

Segundo a teoria acima deduzida, quando a quantidade de dinheiro nas contas-correntes está acelerando, isso significa que:

a) ou está havendo expansão do crédito — os bancos estão jogando dinheiro na economia por meio do mecanismo das reservas fracionárias. (Mais especificamente, os bancos simplesmente criam dígitos eletrônicos no computador e acrescentam esses dígitos na conta do tomador do empréstimo; para saber todos os detalhes sobre como isso ocorre, recomendo este artigo);

b) ou as pessoas físicas e jurídicas estão saindo da renda fixa e indo para a conta-corrente para poderem consumir mais, contratar mais, investir mais na economia física.

Ou as duas coisas ao mesmo tempo.

Inversamente, quando a quantidade de dinheiro nas contas-correntes está desacelerando ou mesmo se contraindo, isso significa que: a) as pessoas e empresas estão indo para a renda fixa para aproveitar juros maiores, e b) mais empréstimos estão sendo quitados do que concedidos. Consequentemente, empresários estão gastando menos, contratando menos e investindo menos na produção.

Tudo isso é uma questão de lógica.

Portanto, só de olhar para o gráfico e munido de toda essa teoria lógica apresentada, é possível determinar exatamente quando a economia está em aceleração e quando está em retração.

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Gráfico 4: evolução da quantidade de dinheiro em conta-corrente. As linhas azuis indicam aumento e as linhas pretas, desaceleração ou contração. Fonte: Banco Central

Quando a quantidade de dinheiro na conta-corrente está acelerando, o número de transações econômicas está aumentando. O volume de gastos está aumentando, tanto para consumo quanto para investimentos produtivos. Está havendo mais consumo, mais investimentos, mais gastos, mais contratações.

E quando a quantidade de dinheiro está desacelerando, o número de transações econômicas está diminuindo. O volume de gastos está diminuindo, tanto para consumo quanto para investimentos produtivos. Está havendo menos consumo, menos investimento, menos gastos, menos contratações.

Assim, com base na teoria, só de olhar para o gráfico acima é possível inferir que houve desaceleração econômica (linhas pretas) em 2003, em 2005, no final de 2008 e início de 2009, no final de 2011 e início de 2012, e uma forte em 2015 e 2016.

E houve crescimento econômico (linha azul) nos outros períodos, sendo um crescimento forte nos períodos 2006-2008 e 2010.

Isso é a teoria. Será que a empiria corrobora a teoria?

Eis o gráfico do PIB de um trimestre em relação ao trimestre imediatamente anterior, de 2000 até o terceiro trimestre de 2017 (último dado disponível).

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Gráfico 5: evolução do PIB de um trimestre em relação ao trimestre imediatamente anterior. Fonte: TradingEconomics, com dados do IBGE

O que se observa?

Contração do PIB no primeiro trimestre de 2003 e estagnação no segundo trimestre. Exatamente como previsto no gráfico da oferta monetária.

Crescimento forte em 2004, estagnação no primeiro trimestre de 2005 e contração no terceiro trimestre de 2005. Exatamente como previsto no gráfico da oferta monetária.

Crescimento contínuo de 2006 até o final de 2008, e queda forte no último trimestre de 2008 e primeiro trimestre de 2009. Exatamente como previsto no gráfico da oferta monetária.

Crescimento forte em 2010 e 2011, e uma retração no terceiro trimestre de 2011 e outra no primeiro trimestre de 2012. Exatamente como previsto no gráfico da oferta monetária.

Finalmente, crescimento em 2013, estagnação em 2014 e recessão forte em 2015 e 2016, com vários trimestres seguidos de contração econômica. Exatamente como previsto no gráfico da oferta monetária.

Em 2017, há uma recuperação, mas simplesmente porque a oferta monetária, que estava encolhendo, parou de encolher e voltou a apresentar uma pequena reação.

No cômputo final, de 2002 até hoje, foram 63 trimestres. Destes, houve 16 trimestres de recessão e 4 de estagnação. Ou seja, em 20 trimestres de 63 — um terço do tempo —, nós ou encolhemos ou ficamos parados.

E uma curiosidade:

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Gráfico 6: evolução relativamente constante de 2002 a 2008, e evolução totalmente errática de 2009 a 2017

De 2003 até 2008, período em que tivemos uma política econômica (monetária e fiscal) mais ortodoxa, o crescimento foi relativamente estável e uniforme. E então veio a crise mundial de 2008 e o governo adotou a Nova Matriz Econômica. Como toda política heterodoxa, o crescimento inicial foi alto. Mas aí vieram os inevitáveis problemas estruturais, cambiais, fiscais e de inflação de preços, e os aparentemente bons (porém artificiais) resultados foram rapidamente abortados.

Primeira conclusão: o comportamento errático da economia brasileira está intrinsecamente ligado às variações na oferta monetária. Mas dado que o PIB mensura volume de gastos, então realmente não é nenhuma surpresa que ele se mova estritamente de acordo com as variações da oferta monetária líquida.

O que nos leva ao próximo ponto.

Quem causa essas variações na oferta monetária

Qual instituição está no direto controle da oferta monetária?

Obviamente, quem detém o monopólio sobre a moeda do país é o Banco Central. Mas como provar que quem realmente está no controle de toda aquela variação da oferta monetária é o Banco Central?

Foi dito que a quantidade de dinheiro nas contas-correntes varia de acordo ou com a expansão do crédito ou com as pessoas indo para a renda fixa ou saindo da renda fixa.

Mas essas são afirmações apriorísticas e praxeológicas. E também é uma afirmação apriorística e praxeológica dizer que quem controla ambos esses fenômenos é o Banco Central por meio de sua manipulação da taxa básica de juros, a SELIC

Pela teoria, se o BC aumenta a SELIC, ele encarece e desestimula empréstimos. Consequentemente, a criação de dinheiro em conta-corrente tende a diminuir. Juros maiores também estimulam pessoas e empresas a saírem da conta-corrente e irem para a renda fixa. Empresários deixam de investir e contratar e vão buscar refúgio na renda fixa.

Inversamente, se o BC reduz a SELIC, ele barateia e estimula empréstimos. Consequentemente, a criação de dinheiro em conta-corrente tende a aumentar. Juros menores estimulam pessoas e empresas a saírem da renda fixa em busca de maiores retornos na economia real. Empresários colocam dinheiro na conta-corrente para expandir os negócios, investir mais e contratar mais

Tudo isso, repetindo, é apenas uma teoria deduzida a priori, com base na praxeologia.

E a empiria? Será que a prática confirma a teoria de que quando o Banco Central mexe na SELIC ele mexe diretamente na oferta monetária?

Eis o gráfico comparando evolução da oferta monetária (dinheiro na conta-corrente) e as variações na SELIC (em valores mensais), ambas com média móvel de 12 meses:

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Gráfico 7: evolução da quantidade de dinheiro em conta-corrente (linha azul) versus evolução da SELIC em valores mensais (linha vermelha). Fonte: Banco Central

A linha azul, já exibida antes, é a evolução da quantidade de dinheiro nas contas-correntes. A linha vermelha é a taxa SELIC, que está sob direto controle do Banco Central. Ambas estão com média móvel de 12 meses para suavizar os movimentos.

Observe que a correlação é perfeita.

Quando a SELIC sobe (2003, 2005, 2008, 2010-2011, 2014-2016), a quantidade de dinheiro na conta-corrente ou desacelera ou pára de crescer ou encolhe. Quando a SELIC cai (2004, 2006-2007, 2009, 2012, 2017), a quantidade de dinheiro na conta-corrente aumenta.

Ou seja, exatamente como prevê a teoria, alterações na SELIC afetam diretamente a quantidade de dinheiro na conta-corrente — isto é, a quantidade de líquido na economia, aquele dinheiro pronto para o investimento e para o consumo.

Primeira conclusão

Até agora, dois fenômenos já foram constatados:

1) a taxa SELIC afeta diretamente a quantidade de dinheiro líquido na economia; e

2) alterações na quantidade de dinheiro líquido na economia afetam diretamente os números do PIB.

Logo, por consequência lógica, a taxa SELIC afeta diretamente a economia.

Embora essa constatação pareça um senso comum, dado que todas as escolas de pensamento econômico falam isso, as implicações dessa descoberta são muito mais profundas do que parecem. Normalmente, fala-se apenas que "juros altos são ruins". Mas ninguém faz essa ligação causal-realista, relacionando juros à oferta monetária e oscilações da oferta monetária às oscilações da economia.

Utilizando a praxeologia e uma dedução a priori, uma teoria foi estabelecida e, em seguida, foi confirmada na prática.

Posto isso, é verdade que, até agora, essa descoberta não parece ter sido tão especial assim. Por isso, façamos agora uma abordagem mais distintamente austríaca.

Como exatamente alterações nos juros e na oferta monetária afetam a economia

É neste ponto que a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos (TACE) assume um postulado ímpar. Ao contrário das outras escolas de pensamento, a TACE enfatiza que manipulações nos juros e na oferta monetária afetam diferentemente cada setor da economia.

Mais especificamente, a TACE afirma que os setores que estão no início da cadeia produtiva, aqueles que estão mais longe dos consumidores — isto é, as indústrias de bens de capital, as que produzem maquinário — serão os mais afetados pelas manipulações dos juros. E os setores que estão mais próximos dos consumidores — varejo e serviços — serão os menos afetados.

Eis a lógica.

Suponha que a economia esteja em forte crescimento. Os juros estão caindo e está havendo expansão monetária. Por exemplo, o período 2006-2008.

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Gráfico 8: evolução da quantidade de dinheiro em conta-corrente (linha azul) versus evolução da SELIC em valores mensais (linha vermelha), com ênfase no período 2006-2008. Fonte: Banco Central

Nesta fase, o crédito está se expandindo, as pessoas estão se endividando para consumir, a quantidade de dinheiro está aumentando, a renda das pessoas está crescendo, o emprego está farto, e tudo está indo aparentemente bem.

Principalmente: o consumo está alto e o comércio, aquecido.

Se as vendas das Casas Bahia estão aumentando e os estoques estão diminuindo, a primeira medida será encomendar novos produtos para repor seus estoques. Se as geladeiras, os fogões, as televisões e os móveis estão sendo vendidos rapidamente, de modo que os armazéns das lojas estão se esvaziando, então a encomenda de novos estoques será constante.

Consequentemente, os fornecedores das Casas Bahia — o setor atacadista — aumentarão suas encomendas para as indústrias. E as indústrias, por sua vez, aumentarão sua produção.

E com um detalhe: essas indústrias que irão aumentar sua produção de fogões, geladeiras e televisões irão demandar mais bens de capital (máquinas e equipamentos) para aumentar essa produção. Consequentemente, as indústrias de bens de capital terão de aumentar sua fabricação de bens de capital.

Observe que chegamos ao início das etapas de produção.

As indústrias de bens de capital produzem o maquinário que será utilizado pelas indústrias de bens de consumo para fabricar televisões, geladeiras, fogões etc. E as indústrias de bens de consumo venderão para o setor atacadista, que então irá revender para as Casas Bahia (varejo).

Como consequência dessa atividade aquecida, todas essas indústrias terão de contratar mais operários. E como os juros estão baixos, todas essas indústrias conseguem crédito barato para expandir sua produção.

E aí o ciclo se intensifica: a oferta monetária segue crescendo, aumentando renda e impulsionando ainda mais o consumo. O faturamento de todas essas indústrias está aumentando.

Ou seja, segundo a TACE, nessa fase da expansão do crédito, em que está havendo aumento da renda e do consumo, o setor industrial é o que mais se expande. A indústria faz vários investimentos visando a expandir suas instalações e sua capacidade produtiva, contratando mais empregados e fabricando mais bens.

Comércio e serviços também se expandem. As Casas Bahia terão de contratar mais comerciantes para vender os produtos. Com o consumo em alta, o comércio como um todo também contrata mais pessoas, assim como o setor de serviços.

Mas quem mais se expande é o setor industrial.

No entanto, tal bonança não dura para sempre. Como esse arranjo pujante é interrompido?

A alta de preços é o estopim.

Tudo começa com a alta dos preços.

A quantidade de dinheiro na economia está crescendo por causa da expansão do crédito tanto para consumo quanto para investimento. Consequentemente, o volume de gastos também está crescendo. E como os salários e o consumo estão em alta — por causa majoritariamente do aumento da quantidade de dinheiro e do volume de gastos —, não há como impedir o aumento acelerado dos preços.

E o que acontece quando os preços começam a subir forte? O Banco Central sobe a taxa básica de juros, a SELIC.

E o que acontece quando a SELIC sobe? Já demonstrado acima: a quantidade de dinheiro começa a desacelerar e chega até a estagnar.

Consequentemente, a renda e o consumo param crescer. E aí tudo começa a se desfazer.

Atentem para o detalhe: a renda estava aumentando por causa da expansão monetária. E estava havendo expansão monetária porque empresas e pessoas estavam pegando empréstimos ou saindo da renda fixa e indo para a economia real.

Logo, assim que essa expansão do crédito é interrompida, a renda para de subir. As pessoas estarão endividadas e com uma renda estagnada. Consequentemente, a demanda irá cair.

E então os investimentos feitos pela indústria se comprovarão errados, mal direcionados. Por quê? Porque as indústrias acreditaram que esta demanda dos consumidores seria definitiva e sustentável — ou, no mínimo, duradoura. Consequentemente, elas investiram de acordo com essa crença.

(E tinham de investir, pois estavam atendendo a uma demanda. É uma questão de sobrevivência. Se uma indústria não investisse, outra o faria e tomaria fatia de mercado).

Esses são os chamados "investimentos errôneos" (ou malinvestments). São investimentos para os quais a demanda não é sustentável, pois essa demanda era baseada na manipulação dos juros e na expansão monetária (o que inclui endividamento).

E aí o que acontece?

As vendas das Casas Bahia diminuem e os estoques se acumulam. Mas a primeira medida dos donos das Casas Bahia não será a de demitir empregados, pois os custos de demissão e de readmissão futura (treinamentos dos recém-contratados) são altos. Por isso, a demissão da mão-de-obra do setor de comércio tende a ser um recurso de última instância.

A primeira medida das Casas Bahia será diminuir a encomenda de novos estoques. Consequentemente, os fornecedores das Casas Bahia — o setor atacadista — reduzirão suas encomendas para as indústrias. E as indústrias de fogões, geladeira e televisão irão reduzir sua produção e, consequentemente, sua demanda por bens de capital. E então as indústrias de bens de capital irão parar. E o faturamento de toda a indústria vai diminuir.

E aí o primeiro recurso será dar férias coletivas. Se as coisas não melhorarem, demissões.

No final, todo aquele investimento e toda aquela expansão dessas indústrias se mostram errados, pois foram baseados na crença de que haveria uma demanda forte e contínua por seus produtos.

Ou seja, nos ciclos econômicos, os setores da economia que mais se expandem e que mais se contraem são aqueles que estão no início da cadeia produtiva.

Quando uma economia entra em processo de crescimento, o setor industrial é o que mais contrata e o que mais investe; e quando a economia entra em recessão, o setor industrial é aquele que mais corta empregos e que mais reduz seus investimentos.

Depois vem o setor atacadista. Depois o comércio. Já o setor de serviços tende a ser o que menos sofre.

A prática

Tudo o que foi descrito acima é apenas uma teoria, deduzida aprioristicamente.

Vamos ver a prática no Brasil.

No gráfico abaixo, a linha vermelha é a SELIC e a linha azul é a produção da indústria de bens de capital, que é quem fabrica as máquinas que serão usadas pelas indústrias que irão fabricar os fogões para as Casas Bahia.

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Gráfico 9: evolução da SELIC (linha vermelha) versus produção da indústria de bens de capital (linha azul). Fonte: Banco Central

O setor de bens de capital, relembrando, é aquele que está lá no início da cadeia produtiva.

A correlação é perfeita e direta: a SELIC cai, a produção da indústria de bens de capital sobe. A SELIC sobe, a produção da indústria de bens de capital cai. Exatamente como prevê a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos.

No próximo gráfico, a linha verde é a produção da indústria de bens de consumo, que é quem compra os bens de capital para fabricar os fogões pras Casas Bahia. Observe que a oscilação também acompanha diretamente os juros (linha vermelha) e a indústria de bens de capital (linha azul), embora já seja menor.

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Gráfico 10: evolução da SELIC (linha vermelha) versus produção da indústria de bens de capital (linha azul) versus produção da indústria de bens de consumo (linha verde). Fonte: Banco Central

A menor oscilação é explicada exatamente pelo fato de se tratar de uma indústria que está mais próxima do consumidor final.

Por fim, vejamos o comércio.

No gráfico abaixo (o site do BC mudou aleatoriamente a cor das linhas, sem dar opção), a linha vermelha é a SELIC, a verde é a indústria de bens de capital e a azul é o comércio.

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Gráfico 11: evolução da SELIC (linha vermelha) versus produção da indústria de bens de capital (linha verde) versus comércio ampliado (linha azul). Fonte: Banco Central

Observe que o comércio é o exatamente o setor que menos sofre, pois é o que está mais próximo do consumidor final. Ainda assim, há alguma correlação entre ele e a SELIC.

(A única vez em que o comércio não foi afetado por uma subida na SELIC foi em 2010-2011. Em todo o resto ele o foi, em maior ou menor grau. De 2014 em diante, foi explícito).

Ou seja, mais um pilar da TACE, deduzido aprioristicamente, foi comprovado pela empiria: alterações nos juros afetam muito mais profundamente aqueles setores que estão lá no início da cadeia produtiva, longe do consumidor final, e afetam menos aqueles que estão mais próximos dos consumidores. Quanto mais próximo do consumidor final, menor é a volatilidade do setor.

Atualmente, e sem qualquer surpresa, quem mais está crescendo na economia brasileira é exatamente a indústria.

Ludwig von Mises começou a explicar tudo isso em 1912 e explicou por completo na década de 1920. Estamos em 2017 e tudo continua funcionando exatamente como ele deduziu. Nenhuma outra escola de pensamento econômico enfatiza esse ponto. Com efeito, nenhuma outra parece sequer saber disso.

Como alterações nos juros, na oferta monetária e na estrutura de produção afetam os preços

Por último, a última e talvez mais importante parte: ver como as alterações nos juros, na oferta monetária e na estrutura de produção — que é o que o já vimos até agora — afetam os preços.

Afinal, vale lembrar que o Banco Central manipula a SELIC exclusivamente com a intenção de controlar os preços. Toda a justificativa para manipular juros é exatamente "gerenciar os preços".

Até agora, vimos as consequências da manipulação dos juros. Falta ver se essa manipulação ao menos alcança seu objetivo, que é controlar os preços.

O gráfico abaixo, também com média móvel de 12 meses, mostra a evolução da taxa de inflação de preços no setor atacadista.

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Gráfico 12: evolução mensal dos preços do atacado. Fonte: Banco Central

Relembrando: os atacadistas são aqueles que compram das indústrias e vendem para as Casas Bahia. Na prática, esse gráfico mostra o comportamento dos preços que os atacadistas — depois de terem comprado das indústrias — cobram das Casas Bahia pelos estoques fornecidos.

Se os preços estão aumentando, isso significa que a demanda dos empresários (Casas Bahia) para repor seus estoques está crescente, o que indica que o consumo e a renda da população estão em alta. Se os preços estão desacelerando, a demanda dos empresários para repor seus estoques está em retração, o que indica que o consumo e a renda real da população estão em queda.

Não existe queda contínua de preços no setor atacadista se a economia está aquecida.

Utilizando a lógica e tudo o que já foi apresentado, é possível deduzir aprioristicamente que, se os preços no atacado estão subindo, é porque a SELIC está caindo, a oferta monetária está aumentando, a renda está subindo, e o comércio está fazendo pedidos para as indústrias para repor seus estoques.

Inversamente, se os preços no atacado estão caindo, é porque a SELIC está subindo, a oferta monetária está desacelerando, a renda está estagnando, e o comércio não está repondo estoques.

Vamos à prática.

No gráfico abaixo (o site do BC novamente mudou aleatoriamente a cor das linhas), a linha vermelha é a SELIC e a azul, os preços no atacado. Média móvel para 12 meses. As escalas estão diferentes, mas o que interessa é a correlação.

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Gráfico 13: evolução da SELIC (linha vermelha) versus evolução mensal dos preços do atacado (linha azul). Fonte: Banco Central

Comecemos com uma curiosidade: ano 2002, Lula eleito, vários empresários acreditaram que a hiperinflação iria voltar. Logo, eles saíram aumentando seus preços avassaladoramente para se proteger (houve também uma forte desvalorização cambial à época, com o dólar indo de R$ 2,40 para R$ 3,99). Consequentemente, para conter essa escalada de preços, o Banco Central elevou a SELIC pra 26,50% ao ano.

E aí todo o ciclo começou. De novo, a correlação é total.

Aumento na SELIC desacelera o aumento da oferta monetária e da renda. O comércio passa a fazer menos pedidos para o atacado para repor estoques. Consequentemente, as indústrias vendem menos para o atacado. Ou seja: aumento dos juros gera diretamente uma desaceleração nos preços do atacado.

E vice-versa. Redução na SELIC acelera o aumento da oferta monetária e da renda. O comércio passa a fazer mais pedidos para o atacado para repor estoques. Consequentemente, as indústrias vendem mais para o atacado. Ou seja: redução dos juros gera diretamente uma aceleração nos preços do atacado.

Agora, outra curiosidade:

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Gráfico 14: evolução da SELIC (linha vermelha) versus evolução mensal dos preços do atacado (linha azul), com destaque para o período 2014-2015. Fonte: Banco Central

A única desconexão ocorre no período 2014-2015. A SELIC começa a subir em 2013 e os preços no atacado caem, como era de se esperar. No entanto, eles voltam a subir com força em 2015, mesmo com a SELIC subindo.

Motivo? Os controles de preços do governo Dilma. O congelamento dos combustíveis e das tarifas de energia elétrica diminui os custos das indústrias, o que as permitiu segurar um pouco o aumento dos preços no atacado. Isso se manteve até o final de 2014, pra garantir as eleições.

Em 2015, já reeleita, ocorre a inevitável correção dos preços. E então eles disparam, mesmo com os juros já subindo. Para piorar, ainda houve uma brutal desvalorização cambial, com o dólar saltando de R$ 2,40 para R$ 4,20.

Por isso, a SELIC teve de subir ainda mais para contrabalançar esses reajustes. Só que ela subiu tanto, que os preços voltaram a desabar feito a uma pedra. (Isso foi abordado em mais detalhes aqui).

Conclusão: os juros afetam diretamente os preços do setor atacadista.

Certo, mas nós consumidores compramos no varejo, e não no atacado. E são os preços do varejo que o IBGE mensura por meio do IPCA. E é o IPCA que o Banco Central monitora. O Banco Central mexe na SELIC exatamente de olho no IPCA. Toda a justificativa para se mexer na SELIC está no IPCA.

O que nos leva então à derradeira pergunta:

Afinal, aumentar a SELIC funciona ou não pra debelar a carestia?

Já vimos que a SELIC afeta a quantidade de dinheiro líquido na economia, o PIB, a estrutura de produção da economia, todo o setor industrial, os preços no atacado e o comércio (embora menos).

Mas a SELIC é manipulada pelo Banco Central com a justificativa de que isso irá afetar os preços ao consumidor, e não os preços do atacado.

Funciona?

Pela lógica apriorística, tem de funcionar. Afinal, se a SELIC afeta a quantidade de dinheiro na economia, isso de alguma forma tem de afetar os preços finais ao consumidor.

No gráfico abaixo, a linha azul é a SELIC e linha vermelha é o IPCA.

15.png Gráfico 15: evolução mensal da SELIC (linha azul) versus evolução mensal do IPCA (linha vermelha). Fonte: Banco Central

De novo, a correlação é direta.

Mas atenção! O IPCA embute vários preços que não estão sujeitos às leis do mercado, pois são preços administrados pelo governo. Combustíveis, energia elétrica, gás de bujão, pedágio, taxa de água e esgoto, planos de saúde, tarifas de celular e de telefonia fixa, remédios, licenciamento etc.

E esses preços, por definição, não podem ser afetados pela SELIC.

Assim, vamos pegar apenas os preços livres, que são os preços determinados livremente pelo mercado. (O site do BC trocou as cores de novo...)

16.png

Gráfico 16: evolução da SELIC (linha vermelha) versus evolução mensal do IPCA-itens livres (linha azul). Fonte: Banco Central

Observe que a correlação é total.

Começando no início de 2002: a SELIC está subindo e o IPCA, caindo. E então Lula é eleito e o IPCA dispara (por causa daquela elevação dos preços no atacado e também por causa da desvalorização cambial ocorrida).

Consequentemente, a SELIC sobe forte e o IPCA desaba.

Em 2004, a SELIC cai rapidamente e o IPCA ameaça uma reação tímida. Imediatamente a SELIC volta a subir (essa era a época de Afonso Beviláqua no BC) e, com essa subida da SELIC, o IPCA cai forte até o fim de 2006. Dali, a SELIC cai prolongadamente e o IPCA sobe. E por aí vai.

Nova curiosidade:

17.png

Gráfico 17: evolução da SELIC (linha vermelha) versus evolução mensal do IPCA-itens livres (linha azul), com destaque para o período 2014-2015. Fonte: Banco Central

Observe que, após a liberação dos preços congelados, o IPCA ameaça uma subida. Mas a SELIC subiu tão forte (e a oferta monetária já havia desabado; ver gráficos 2 e 3), que o IPCA perdeu força e afundou. Está hoje nas mínimas históricas.

Vale ressaltar que foi por causa daquele período destacado — em que os juros estavam subindo, mas o IPCA resistia e chegou até a subir após a liberação dos preços — que surgiram teorias esdrúxulas como a da "dominância fiscal", a qual dizia que aumentar juros não só não mais combatia a carestia como, ao contrário, gerava ainda mais carestia, e que o certo, portanto, seria reduzir a SELIC para quase zero, como disse André Lara Resende.

Tudo por causa daquele período ali. Aparentemente, foi esquecido que a economia havia vivenciado um período de dois anos e meio de controle de preços, e que após a liberação haveria vários reajustes em todas as áreas, inclusive nos preços livres — reajustes esse que, aliás, foram até bastante modestos. (Abordado em mais detalhes aqui).

Por fim, um dos gráficos mais reveladores de todos.

18.png

Gráfico 18: evolução mensal do IPCA-itens livres (linha azul) versus evolução mensal dos preços do atacado (linha vermelha). As escalas estão diferentes. Fonte: Banco Central

A linha vermelha são os preços no atacado, que nós já vimos, e a linha azul é o IPCA preços livres. As escalas estão diferentes (os preços do atacado, coluna da esquerda, variam com muito mais amplitude que o IPCA livre), mas o que importa é: a variação é praticamente idêntica. No entanto, quem varia primeiro são os preços no atacado. Depois, só depois, é que varia o IPCA.

Isso é óbvio. Como já visto, o comércio faz as encomendas para o setor atacadista, e o atacado encomenda para as indústrias. Se os preços no atacado sobem, os do comércio irão subir (embora menos). Se os preços do atacado caem, os do comércio irão desacelerar.

Ou seja, quem determina o IPCA são os preços do atacado.

Portanto, e finalmente, chegamos à conclusão derradeira: o Banco Central mexe na SELIC para influenciar o IPCA. Só que o IPCA só é influenciado depois que toda a estrutura de produção da economia foi alterada; depois que a SELIC afetou indústria, atacado e varejo.

Ou seja: para influenciar o IPCA, a SELIC primeiro afeta toda a estrutura de produção da economia. E então, só então, isso vai afetar os preços aos consumidores.

Conclusão: para que o governo consiga controlar preços manipulando juros, ele tem necessariamente que desarranjar toda a economia.

É impossível manipular juros e acreditar que os efeitos disso ficarão restritos apenas ao preço das roupas, do dentista, do encanador, da pizza, do liquidificador, da geladeira etc.

Os preços estão altos? O BC eleva a SELIC, o crédito diminui, a oferta monetária cai, o consumo cai, o comércio reduz encomendas para as indústrias, as indústrias cortam produção e demitem, os preços no atacado caem, e aí então, só então, o IPCA desacelera.

É assim que funciona um controle de preços via manipulação arbitrária de juros.

Eis aí um grande exemplo de por que todo e qualquer microgerenciamento de uma economia sempre irá gerar consequências não-premeditadas.

Águia ou galinha?

Tudo isso nos permite responder ao título dessa apresentação: vamos ter vôos de galinha ou de águia?

Voltemos ao gráfico que sintetiza toda essa apresentação, e que é o gráfico mais importante de todos.

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Gráfico 19: evolução da quantidade de dinheiro em conta-corrente (linha azul) versus evolução da SELIC em valores mensais (linha vermelha). Fonte: Banco Central

Linha azul, oferta monetária (dinheiro em conta-corrente). Linha vermelha, taxa SELIC.

Águia ou galinha? Tudo vai depender das políticas que irão afetar essas duas variáveis. Enquanto for mantido esse padrão de serpente, de montanha-russa, será galinha.

O que fazer?

Sem devaneios e considerando apenas o possível, há três medidas totalmente factíveis que podem ser adotadas.

1. Investimento Estrangeiro Direto

Quando estrangeiros vêm para o Brasil e trocam suas moedas por real, não há expansão monetária se o BC não intervier.

Quando estrangeiros trocam sua moeda por real, a taxa de câmbio se aprecia pontualmente. Se o BC nada fizer, não há expansão monetária. Porém, se o BC intervier para impedir a apreciação do câmbio, haverá expansão monetária, o que gera um ciclo econômico.

Portanto, o IED é uma maneira de os investimentos produtivos aumentarem e a economia crescer sem manipulação de juros e sem expansão monetária.

E com um adendo: IED implica necessariamente redução drástica de tarifas de importação — pois os estrangeiros terão de importar insumos que não há aqui — e inserção do país na economia mundial.

Vai acontecer? Difícil. E o difícil nem é o Banco Central se restringir e deixar o câmbio se apreciar, mas sim convencer os estrangeiros a virem pra cá. Não há segurança institucional, não há segurança física, a carga tributária é alta, o código tributário é indecifrável, não temos uma grande tradição de respeito à propriedade privada, e temos uma cultura que sempre foi incentivada a desconfiar dos capitalistas estrangeiros.

Logo, sem o IED, sobram apenas manipulação dos juros e expansão monetária. Como nossa poupança interna sempre foi baixa, os investimentos ocorrem por redução artificial dos juros e expansão do crédito.

2. Reforma da Previdência

A reforma reduziria os déficits do governo, e uma das causas das variações dos juros e da oferta monetária são os déficits do governo.

Quando o governo põe um grande volume de títulos do Tesouro à venda para se financiar, isso tende a elevar os juros de longo prazo, o que desestimula os investimentos produtivos. Se os juros de longo prazo são altos, investidores e empreendedores vão para a renda fixa.

E vendo o atual estado do déficit orçamentário do governo, as perspectivas não são nada auspiciosas.

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Gráfico 20: evolução do déficit nominal do governo federal. Fonte e gráfico: Banco Central

Reduzir esse déficit traria mais segurança quanto ao futuro das finanças do governo. Com déficits menores, as chances de aumentos de impostos no futuro são menores. E isso estimularia mais investimentos produtivos.

As taxas de juros de longo prazo também seriam menores, o que tornaria investimentos produtivos de longo prazo mais factíveis.

3. Respeitar o teto de gastos

Talvez a melhor medida aprovada pelo governo Temer, o teto de gastos, caso seja efetivamente respeitado, pode ajudar bastante nesse processo de redução do déficit orçamentário, gerando os efeitos benéficos citados acima (queda dos juros de longo prazo e redução das expectativas de que haverá aumento de impostos).

Com esses três itens, a economia poderia se aproximar mais de uma águia.

Duas notas mais otimistas

Antes de concluir, duas notícias boas.

A primeira é que, ao menos por ora, parece que as pessoas estão quitando suas dívidas. Ou, no jargão técnico, estão se desalavancando.

A linha vermelha mostra a evolução do endividamento das famílias em relação à sua renda anual. E a linha azul mostra a mesma coisa só que excluindo o crédito habitacional, ou seja, a dívida voltada exclusivamente para a compra de imóveis.

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Gráfico 21: evolução do endividamento das famílias em relação à sua renda anual (linha vermelha) e evolução do endividamento das famílias em relação à sua renda anual excluindo o crédito habitacional (linha azul). Fonte: Banco Central

A dívida total (linha vermelha) está em queda. Já esteve em 46% e agora está em 42% da renda anual. Pode parecer pouco, mas não é. Esse valor é o mesmo de 2011.

E quando se exclui o crédito habitacional, a queda foi de 32% para 22,5% da renda anual, mesmo nível em que estava em 2007.

Ou seja, as pessoas estão desalavancando. E essa foi uma das causas da queda na oferta monetária. Pessoas quitando dívidas junto aos bancos.

Por outro lado, essa desalavancagem significa que haverá espaço para uma nova rodada de endividamento. Mais expansão do crédito, mais consumo. Isso pode aditivar o PIB, temporariamente, e beneficiar o eventual governante que estiver na presidência. A conferir.

A outra notícia, e essa realmente é muito boa, é que a expansão do crédito subsidiado feita pelos bancos estatais não só está sob controle, como ainda está em retração.

A linha vermelha mostra a evolução do total de crédito concedido pelos bancos estatais, inclusive e principalmente BNDES; e a linha azul, o total de crédito concedido pelos bancos privados.

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Gráfico 22: evolução do crédito concedido pelos bancos estatais (linha vermelha) e evolução do crédito concedido pelos bancos privados (linha azul). Fonte: Banco Central

Os bancos estatais, desde 2008, foram os principais causadores da expansão monetária no Brasil. Bancos estatais não estão sujeitos à SELIC e obedecem a ordens políticas. (Veja todos os detalhes aqui).

Eles emprestam a juros bem baratos, muito abaixo da SELIC, criando depósitos em conta-corrente nesse processo. Consequentemente, para tentar conter um pouco dessa expansão monetária, o Banco Central tem de subir a SELIC para uma taxa muito maior do que seria necessária caso não houvesse essa prática.

Sendo assim, com os bancos estatais agora contidos — aliás, em retração — há sim uma grande chance de que a SELIC permaneça baixa por um bom tempo. E sem que haja grandes explosões na oferta monetária.

A questão é ver como os bancos privados irão se comportar, principalmente perante aquela desalavancagem feita pelos consumidores.

Conclusão

Águia ou galinha? Até hoje foi galinha

Poderá se aproximar de uma águia quando a) houver uma forte injeção de IED sem expansão monetária — ou seja, com o BC permitindo apreciação cambial; b) o déficit do governo estiver zerado ou ao menos com tendência de queda (o que depende da reforma da Previdência e da manutenção do teto de gastos); e c) os bancos estatais estiverem efetivamente domados, o que inclui o BNDES.

Acima de tudo, será menos galinha e mais águia quando esse gráfico da SELIC e da oferta monetária deixar de ter esse formato de montanha-russa.

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Gráfico 23: evolução da quantidade de dinheiro em conta-corrente (linha azul) versus evolução da SELIC em valores mensais (linha vermelha). Fonte: Banco Central

Para que isso aconteça, adotar esses três pontos — IED, zerar déficit e controlar bancos estatais — é imperativo. Não basta. Mas começa por ali.

Como sempre diz o economista Steve Hanke, "money dominates", o dinheiro domina. Dado que o dinheiro está presente em todas as transações feitas na economia, o que realmente irá conduzir as flutuações econômicas são essas duas variáveis: juros e oferta monetária.

São elas que têm o poder de transformar galinha em águia. O resto, por incrível que pareça, é secundário. Logo, o crucial é implantar medidas que estabilizem essas duas variáveis.

E como ganhar com isso

Por último, aqui vai o que realmente interessa: você e o seu dinheiro. Como investir e ganhar dinheiro com todos esses movimentos cíclicos?

A receita é um feijão-com-arroz tradicional, mas é incrivelmente funcional:

a) Se a SELIC já subiu bastante e a oferta monetária começou a se estagnar, isso significa que o IPCA irá desacelerar e, consequentemente, a SELIC voltará a cair. Invista em títulos prefixados (os CDBs de bancos pequenos, cobertos pelo FGC, são os mais rentáveis). Quem fez isso em 2003, 2005, 2008 e 2015 se deu bem. (No início de 2016, havia prefixados pagando 18% ao ano).

b) Quando a SELIC está caindo ou já está baixa e a oferta monetária já voltou a subir forte, invista em títulos atrelados ao IPCA. Como segunda opção, invista naqueles que pagam acima de 120% do CDI. (Atenção: este ainda não é o cenário atual, pois a oferta monetária ainda segue relativamente contida por causa dos bancos estatais. Por enquanto, prefixados pagando acima de 11% continuam um ótimo negócio, assim como títulos que paguem acima de IPCA + 6%).

c) Investir no Ibovespa é mais complicado porque o índice está repleto de estatais, e estas tradicionalmente seguem ordens políticas, e não uma demanda de mercado. Ainda assim, vale ressaltar que, excetuando-se o ano de 2013, há uma correlação direta entre o Ibovespa e a oferta monetária.

d) Para os que gostam de arriscar, em períodos de início de recuperação, como o atual, ações ligadas à indústria, principalmente aos setores do início da cadeia produtiva, tendem a desempenhar muito bem (desde que elas não sejam colhidas pela Lava-Jato). Inversamente, em início de recessão, ficar vendido nestas ações também trará ganhos.

Munido destas informações, você pode agora não só saber em que ponto do ciclo econômico está a economia brasileira, como também pode fazer previsões econômicas e, caso esteja seguro, se arriscar e investir de acordo com essas previsões.

 

40 votos

autor

Leandro Roque
é editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.

  • Fabiano M. C. Alves  01/03/2018 10:27
    Eu sempre tive dificuldade pra entender alguns detalhes específicos da TACE. A maneira como a estrutura de produção era afetada, com as indústrias caindo mais que o resto era algo que eu não conseguia explicar bem e nem visualizar.

    Esse artigo esclareceu tudo. Aliás em termos de economia prática e real, acho q esse já é o artigo mais completo do site.
  • Leandro  01/03/2018 14:34
    Foi a intenção. Obrigado!
  • João Paulo  01/03/2018 20:28
    Desculpe minha ignorância, mas existe esse livro ou equivalente traduzido para o português?

    www.amazon.com.br/dp/B005CRVFQ4/_encoding=UTF8?coliid=I3LPV0QE0K3RFD&colid=2Q9Y8DPA4XY14&psc=0

    Procurei no site, mas não encontrei. Obrigado.javascript:__doPostBack('ctl00$ContentPlaceHolder1$cmdAddComment','')
  • Daniel  01/03/2018 20:40
    O do Mises tem aqui:
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=149

    O do Rothbard também:
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=228

    Agora, sinceramente? Os artigos sobre ciclos econômicos deste site substituem o conteúdo deste livro de maneira completa.
  • Allan  01/03/2018 10:53
    Excelente texto, Leandro. Parabéns.

    Uma dúvida. É correto inferir que, caso seja eleito um governo comprometido com as medidas de contenção de déficit público (previdência, teto de gastos etc), haverá uma tendência a ocorrer um ciclo econômico de recuperação mais consistente, certo?! Todavia, qual a influência você acredita que poderia ter em tal ciclo interno mudanças nas políticas monetárias externas, por exemplo, caso o FED (ou também o BCE futuramente) comece a conter a expansão monetária de lá e, consequentemente, os investimentos estrangeiros aqui diminuam de volume? Será que o mercado interno conseguiria ignorar tais fenômenos?

    Obrigado e abraço.
  • Leandro  01/03/2018 14:46
    "caso o FED (ou também o BCE futuramente) comece a conter a expansão monetária de lá e, consequentemente, os investimentos estrangeiros aqui diminuam de volume? Será que o mercado interno conseguiria ignorar tais fenômenos?"

    Haveria de fato algum impacto. A própria restrição do consumo lá afetaria o setor exportador daqui.

    Mas, no final, tudo dependerá do ambiente interno aqui e de nossa receptividade aos investidores estrangeiros: se houver segurança jurídica, respeito aos lucros, baixos impostos e moeda estável (nada afugenta mais investimentos produtivos do que moeda fraca e instável, pois, dependendo da desvalorização cambial o investidor estrangeiro, ao converter reais em dólar para remeter lucros, pode perder tudo), o investimento estrangeiro continuará vindo. Ele só deixará de vir se a taxa de juros americana subir bastante (como na época do Paul Volcker).

    De resto, há um artigo sobre isso:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1826

    Muito obrigado pelas palavras e grande abraço!
  • Ninguem Apenas  01/03/2018 12:12
    Caramba Leandro, estava estudando o assunto e essa dúvida surgiu, receber esse artigo é como um presente kk

    Parabéns e obrigado!
  • Leandro  01/03/2018 14:36
    Obrigado a você pela leitura. Saudações!
  • ESTADO PARASITA  01/03/2018 12:23
    Olá pagadores de impostos !

    Meus queridos escravos, tenho estado muito cansado e um tanto preguiçoso, mas isso é passageiro, creiam em mim, o futuro será brilhantes para todos nós.

    Quanto a essas aves, eu diria que não há dúvidas de que a águia é muito superior a galinha, porém, entretanto, todavia, não é possível domesticá-la, logo, a galinha é a minha preferida: bota ovos, não voa alto, e ainda faz faxina no terreno.

    Espero que entendam e não me levem a mal: galinhas são mais dóceis e mais fáceis de se manipular.

    Uma ótima galinhada para todos!
    ESTADO PARASITA
  • Bruno  01/03/2018 13:45
    Recapitulando de uma forma mais popular, corrijam me se eu estiver errado

    Ao subir as taxas de juros, artificialmente pelo BC, os investidores e industrias contraem empréstimos para fazer investimentos e aumentar sua produção

    Acontece que os empréstimos estão sendo contraído porque o BC baixou o juros artificialmente e não porque havia mais poupança real. Os empréstimos não estão ocorrendo porque as pessoas tem mais dinheiro guardado, com capital acumulado pra gastar em um futuro, e sim porque o BC artificialmente barateou os empréstimos.
    Logo, quando os empréstimos são contraídos, a expectativa é de que haverá consumo, pois as pessoas tinham capital acumulado barateando o juros.
    O consumo não vem, as pessoas não tem capital acumulado pra gastar com o tempo e a quebradeira acontece....


    Por ai não?


    Abraços
  • Leandro  01/03/2018 14:45
    "Logo, quando os empréstimos são contraídos, a expectativa é de que haverá consumo, pois as pessoas tinham capital acumulado barateando o juros."

    A expectativa é que haverá consumo porque juros baixos estimulam endividamento e consumismo nas pessoas (e, na prática, geram expansão monetária). Industriais não irão investir e expandir se imaginarem que não haverá consumo para seus produtos.

    "O consumo não vem"

    Opa, o consumo vem sim. E forte. E perdura até a nova rodada de subida dos juros (para conter a inevitável inflação de preços).

    Aí, quando os juros sobem, a oferta monetária desacelera (ou até mesmo se contrai), a renda fica estagnada (ou cai), as pessoas estão mais endividadas (decorrência do consumismo anterior), e os preços ainda estão altos (preços ainda altos e renda estagnada ou em queda são uma combinação garantidamente recessiva).

    Neste cenário, não mais há demanda para todo aquele investimento feito na expansão. Consequentemente, a ociosidade das indústrias aumenta e há demissões.
  • Andre  01/03/2018 15:10
    Leandro parabéns pelo artigo e pela imensa capacidade de inovação e escrita, certamente lerei este artigo diversas vezes como tenho feito com vários aqui.

    "Neste cenário, não mais há demanda para todo aquele investimento feito na expansão. Consequentemente, a ociosidade das indústrias aumenta e há demissões. "

    Nosso estado atual é de ocupação da ociosidade na indústria, alguns setores chegam a 50% como na automotiva, bens de capital e cimenteiras, e tal situação se refletiu na composição do PIB 4º tri / 2017 que saiu hoje, a despeito do crescimento a taxa de investimento caiu, esta queda está mais relacionada à ociosidade ou à baixa capacidade do governo levar as reformas econômicas adiante?

    A dívida pública alta e grávida tem poder para pressionar os juros para cima e inverter a curva de depósitos em C.C. a ponto de paralisar o crescimento econômico recente?

  • Leandro  01/03/2018 15:29
    "Nosso estado atual é de ocupação da ociosidade na indústria, alguns setores chegam a 50% como na automotiva, bens de capital e cimenteiras, e tal situação se refletiu na composição do PIB 4º tri / 2017 que saiu hoje, a despeito do crescimento a taxa de investimento caiu, esta queda está mais relacionada à ociosidade ou à baixa capacidade do governo levar as reformas econômicas adiante?"

    Vamos por partes.

    Sim, de um lado, o fato de haver enorme ociosidade (consequência inevitável da expansão do crédito) inibe investimentos. Para que investir se o que você já tem está ocioso?

    A ausência de reformas sem dúvida também impacta. Qual a sua segurança para investir hoje na expansão de sua indústria se você não sabe se os impostos futuros irão aumentar para reduzir o déficit orçamentário do governo?

    Entretanto, vale ressaltar que a formação bruta de capital fixo está se recuperando continuamente. Veja o gráfico das páginas 7 e 12 (agradeço ao leitor Vladimir pelo link).

    agenciadenoticias.ibge.gov.br/media/com_mediaibge/arquivos/5452d8356484c9bf115862b4f64d9079.pdf

    Caso não houvesse bagunça política e tamanho rombo nas contas públicas, é fato que a recuperação já estaria muito mais adiantada. Falei especificamente sobre isso neste artigo de 2016.

    "A dívida pública alta e grávida tem poder para pressionar os juros para cima e inverter a curva de depósitos em C.C. a ponto de paralisar o crescimento econômico recente?"

    Por enquanto, ainda não. No mercado futuro, as taxas estão caindo. A encrenca é que, no final, tudo vai depender de quem assumirá o governo em 2019. Se for eleito um aventureiro, isso que você descreveu pode perfeitamente acontecer.

    Obrigado pelas palavras e grande abraço!
  • Bruno  01/03/2018 17:51
    Então Leandro, o consumo vem porém não se perpetua porque as pessoas gastaram todas suas poupanças pra consumir
    Antes de consumir precisa haver poupança

    E nesse cenário, os empreendedores não obtêm o retorno necessário para lucrar e pagar seus empréstimos

    E se o governo manter o juros artificialmente baixos para evitar esse ciclo? Qual seria a consequência?
    Supondo que, assim que o juros subisse, o BC segurasse a SELIC ...
    Eu entendo que as pessoas endividadas, gastaram toda sua poupança. Não terá dinheiro pra ser emprestado mesmo com o juros baixos, a escassez de poupança aumentaria os juros. Eai oque acontece, explode a terra?


    Eu entendi o artigo porem eu imagino de forma mais leiga

    O juros baixo pelo BC, vai proporcionar consumo desenfreado e a industria vai contrair empréstimos(agora baratos) para aumentar sua produção, apostando em um consumo sustentável!

    Porém como as pessoas torraram sua poupança nesse consumo desenfreado, agora não terá mais empréstimos a ser contraído e a escassez de poupança aumentará os juros e ai temos o problema. Acabou o capital pra consumir, acabou a poupança pra emprestar e consequentemente o consumo para e a industria não tem o retorno pra arcar com os investimentos. Ai começa o quebra-pal.

    O artigo é excelente, todos os detalhes e toda lógica básica realmente nos força a entender
    Porém na minha cabeça imagino desse jeito.

    Abraços
  • Vladimir  01/03/2018 13:52
    Com a divulgação agora do PIB de 2017 se vê que aconteceu exatamente isso: a indústria de transformação (bens de capital e de consumo), especialmente no quesito trimestre sobre mesmo trimestre do ano anterior, foi a que mais cresceu (depois do agronegócio, obviamente).

    Página 11:

    agenciadenoticias.ibge.gov.br/media/com_mediaibge/arquivos/5452d8356484c9bf115862b4f64d9079.pdf

    Perfeito o timing pra publicação deste artigo. E a Tace realmente é impressionante em sua precisão (coisa que as outras escolas não tem).
  • Luiz Felipe  01/03/2018 14:35
    Estamos acompanhando isso hoje na prática com o bull market da siderurgia na bolsa de valores.
  • anônimo  01/03/2018 14:00
    Quando vi o tamanho confesso que assustei. Mas mesmo assim decidi encarar. E que surpresa. O texto flui suave e agradável com linguagem fácil e sem nenhuma complicação frescura ou empolação. Nota-se que o autor tem segurança e sabe do que fala. Meu parabéns e meu obrigado pelas informações de alta qualidade.
  • Leigo  01/03/2018 14:55
    Pergunta de um leigo: É possível na economia de um país (Brasil, especificamente) nunca mais ocorrer aumento de oferta monetária? Ou seja, que nossas moedinhas de 1 real voltem a ter algum valor significativo para consumir?
  • Leandro  01/03/2018 15:33
    "É possível na economia de um país (Brasil, especificamente) nunca mais ocorrer aumento de oferta monetária?"

    Não. Isso exigiria uma total e profunda reforma do sistema bancário e monetário.

    "Ou seja, que nossas moedinhas de 1 real voltem a ter algum valor significativo para consumir?"

    Não. Para que elas voltassem a ter valor significativo, teria de haver uma profunda deflação de preços. E para que isso acontecesse, teria de haver uma profunda (e recessiva) deflação monetária.

    Sem chances.

    Aliás, exatamente sobre as moedas de um real, recomendo esta postagem de blog.

    www.mises.org.br/BlogPost.aspx?id=2768
  • Odanir Bertol  01/03/2018 15:21
    Fico muitíssimo agradecido pois, me foi deveras esclarecedor! Parabéns pelo texto e pela linguagem utilizada, facilitanto em muito o entendimento.
  • Leandro  01/03/2018 15:33
    Muito agradecido pelo depoimento. Grande abraço!
  • Miguel  01/03/2018 15:43
    Boa tarde!

    Aproveito, antes de mais, para vos parabenizar pelos excelentes artigos que tenho vindo a ler aqui neste blog.

    Tenho curiosidade em saber o que vocês acham da maneira de interpretar a economia de Ray Dalio, cuja "template" para analisar economias o ajudou a tornar o seu hedge fund no maior do mundo (Bridgewater). Pergunto porque a maneira de ele analisar os ciclos económicos, através do ciclo de crédito, me parece ter semelhanças com a TACE.

    Ele defende que o crescimento a longo prazo provém inteiramente de ganhos na produtividade e que expansões e contrações no crédito provocam ciclos curtos e longos de crédito que fazem com que o crescimento flutue à volta da produtividade à medida que as pessoas conseguem gastar mais (durante a fase de expansão do crédito) e menos (durante a fase de contração), criando assim o ciclo económico.

    O vídeo dele de youtube é muito conhecido (www.youtube.com/watch?v=PHe0bXAIuk0), mas uma explicação mais completa está disponível nos research papers no website dele (www.economicprinciples.org/).

    Ele diz que a maneira dele ver a economia é algo diferente da tradicional, pelo que se quiserem investigar e opinar, acho que daria para um bom artigo!

    Abraço!
  • Leandro  01/03/2018 16:20
    O Dalio pertence a uma categoria própria. Ele admite que nunca leu muito (embora haja um pouco de Minky e até mesmo de Mises em alguns de seus insights) e que suas idéias são produto exclusivo de sua carreira como corretor da bolsa.

    Neste vídeo dele que você mandou estão sintetizados todos os seus erros.

    A economia não é um mecanismo ou uma máquina; ela é um leilão entre ofertantes e demandantes.

    O vídeo não discute a figura central do livre mercado: o empreendedor.

    O vídeo não discute propriedade privada.

    Não discute os bancos centrais como agências reguladoras do governo federal, e nem discute o papel dos bancos centrais nas flutuações econômicas.

    Não há nenhuma menção ao funcionamento do sistema bancário de reservas fracionárias.

    Acima de tudo, o vídeo não faz a pergunta central, que só a TACE responde: "Por que os empreendedores, que são pessoas diferenciadas e sempre alertas ao mercado, repentinamente cometem os mesmos erros e tudo ao mesmo tempo?" A resposta está na expansão monetária comandada pelo Banco Central. Esta é a origem dos ciclos econômicos, e não o livre mercado. (Aliás, quem mora no Brasil, com sua economia toda regulada, já sacou isso melhor que um americano).

    O vídeo, no final, mais desinforma do que informa.
  • FL  01/03/2018 16:32
    Leandro, vou falar mais uma vez: precisamos de mais artigos seus!
  • Leandro  01/03/2018 20:40
    Vamos indo, de leve.

    Por incrível que pareça, estava faltando assunto. Ano passado o noticiário político sobrepujou o econômico. Mas este ano, com eleições e com Ciro Gomes, teremos um prato cheio.

    Abraços!
  • Paulo  01/03/2018 16:35
    Que artigo sensacional ! Quando crescer quero ser o Leandro
  • Rodrigo  01/03/2018 17:24
    Eu também.

    Só acho que ele devia dar mais as caras por aqui. Ter um canal do Youtube ou escrever livros.
  • Leandro  01/03/2018 20:39
    Caríssimos, obrigado pelas palavras excessivamente querençosas. Mas não almejem a mediocridade. Sejam alguém muito melhor do que eu.

    Rodrigo, estou sempre por aqui. Sempre que especificamente acionado, compareço.

    Grande abraço!
  • gabriel batista  01/03/2018 17:07
    Leandro Parabéns!!!!

    Suas explicações são puramente lógicas isso que facilita, voce só precisa de atenção para compreender, pode ser que fique algumas dúvidas mas o core voce consegue entender.

    Tenho algumas dúvidas:

    A taxa Selic, é o mecanismo que o Banco central manipula a oferta monetária isso está explicito, mas então qual seria uma taxa que não incentivasse a gastança mas ainda fosse acessível para investimentos com alguma certeza de retorno?


    Sem qualquer reforma ou mudança na nossa estrutura, consegui pensar em uma forma de talvez a economia poderia crescer estando fora de ciclo econômico. Se as pessoas ao em vez de gastar elas economizassem, com isso quando elas forem gastar suas economias, o ciclo na indústria seria o mesmo que uma taxa de juros manipulada estimulando a divida,mas com isso não haveria a retração como ocorre quando a oferta monetária diminui, fazendo o crescimento ser genuíno?

    Ultima dúvida qual seria um investimento bom ? tenho algum dinheiro que vamos dizer coloquei na cabeça que posso perder, conseguir ter um bom retorno com Bitcoins, mas teria alguma outro, apenas para eu estudar e ver se é viável.

    Muito obrigado desde já.


  • Leandro  01/03/2018 21:30
    "mas então qual seria uma taxa que não incentivasse a gastança mas ainda fosse acessível para investimentos com alguma certeza de retorno?"

    Seria aquela taxa de juros determinada voluntariamente pelo mercado, por meio da interação entre poupadores e consumidores/investidores.

    Em suma, seria a taxa determinada pela oferta de poupança e pela demanda por essa poupança para empréstimos.

    Mas isso exigiria a abolição do Banco Central.

    Há milênios, escrevi um artigo sobre isso:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=552

    "Ultima dúvida qual seria um investimento bom ? tenho algum dinheiro que vamos dizer coloquei na cabeça que posso perder, conseguir ter um bom retorno com Bitcoins, mas teria alguma outro, apenas para eu estudar e ver se é viável."

    No atual momento, as melhores taxas já ficaram para trás. No entanto, dado que se trata de um dinheiro do qual você não irá precisar, abra conta em corretora e compre CDBs prefixados que paguem mais de 11% ao ano. Você também encontrará CDBs e debêntures pagando IPCA + 6,5%. Ou então, dependendo de qual seja seu montante, aplique em um fundo multimercado (Mauá Macro, Adam Strategy, Bahia AM Marau).

    Grande abraço!
  • Alfredo  01/03/2018 17:23
    A solução pra sair de uma recessão então é baixar os juros, injetar capital? Vejam só, Friedman e Keynes concordaram sobre isso. O problema da liquidez. Foi o que foi feito em 2008 nos EUA e, de lá pra cá, a economia americana segue bombando.
  • Praxeologista  01/03/2018 17:47
    Pelo visto, não entendeu nada. Nem sequer o básico.

    Para começar, como mostra o artigo, sair de recessão por meio de redução artificial de juros simplesmente pavimenta o caminho para outra recessão ainda pior mais à frente. Compare a recessão de 2009 com a de 2015 e você verá a consequência dessa política.

    É daí que advêm os voos de galinha, meu caro.

    Outra coisa: a economia entra em recessão porque os fatores de produção foram mal direcionados e os investimentos foram errados. Capital foi imobilizado em investimentos para os quais nunca houve uma demanda genuína (apenas artificial, impulsionada pela expansão do crédito).

    Na prática, capital e riqueza foram destruídos. Cimentos, vergalhões, tijolos, britas, areia, azulejos e vários outros recursos escassos foram imobilizados em algo para o qual nunca houve demanda genuína. A sociedade está mais pobre em decorrência desse investimento errôneo. Recursos escassos foram desperdiçados.

    O governo querer estimular o consumo de algo para o qual nunca houve demanda natural irá apenas prolongar o processo de destruição de riqueza. Querer voltar a expandir o crédito e tentar criar demanda para estes investimentos errôneos irá apenas prolongar esse cenário de desarranjo, destruindo capital e tornando a recessão ainda mais profunda no futuro.

    (Com o agravante de que consumidores e empresários estarão agora bem mais endividados, em um cenário de inflação alta — por causa da expansão do crédito —, e sem perspectiva de renda).

    O que cura recessão é liquidação de investimentos errôneos. E isso ocorre por meio de redução de preços e flexibilidade do mercado de trabalho. Mão de obra e recursos escassos que foram imobilizados em um setor falido devem ser liberadas e direcionadas para outros setores mais demandados pelos consumidores. O governo deve apenas não atrapalhar. Se fizer isso já estará ajudando.
  • Alexandre  01/03/2018 18:14
    Resumindo: tirando as ações do BC, o grande problema está na hora em que os preços são elevados.
  • Tulio  01/03/2018 19:39
    Tirando as ações do BC (que geram oscilações monetárias, investimentos errôneos e aumento de preços), não haveria problemas.

    Sua frase faz tanto sentido quanto dizer: "Tirando a falta de comida, o problema é a fome".
  • Jônatas  01/03/2018 19:08
    Excelente artigo, muito esclarecedor e de fácil entendimento
  • Benjamim Cartwright  01/03/2018 19:31
    Prezado Leandro,
    Excelente texto, imprimi para ler mais tarde, com atenção.
    Agora, OFF Topic, eu tenho uma pergunta para você e aos demais colaboradores mais experientes que eu:
    Qual é a opinião do IMB sobre Caio Prado Junior, considerado um dos maiores "intelectuais" brasileiros?
    Abraços!!!
  • Richard Gladstone de Jouvenel  05/03/2018 13:08
    A do IMB eu não sei, mas a minha não é favorável ao sujeito.

    O cidadão é pai do arcabouço doutrinário marxista existente na historiografia nacional, e com isso contaminou o ensino de história no Brasil até os dias atuais.

    Sua obra mais famosa, "Formação do Brasil Contemporâneo" é cheia de imprecisões, lacunas e simplificações, que alguns explicam pelo fato de que seria o primeiro de uma trilogia, mas é sem desculpa: o homem pegou a história do Brasil e fez caber em "O Capital". Sendo assim, criou dogmas acadêmicos como os 500 anos de exploração dos pobres e oprimidos pelos poderosos e o blá-blá-blá da economia colonial de subsistência.





  • Benjamin Cartwright  05/03/2018 14:58
    Prezado Richard,
    Muito obrigado pela sua opinião. Servirá de base para a minha formação em Escola Austríaca.
    Você poderia, por gentileza, opinar sobre o Celso Furtado?
    Abraços!
  • Richard Gladstone de Jouvenel  06/03/2018 15:46
    Caro Benjamin,

    Não se baseie em minha opinião. Ela é pessoal, baseada na leitura da obra que citei e de "Evolução Política do Brasil", que é menos indigente.

    Como me solicitou, e só nesse caso, digo o que acho de Celso Furtado: um homem bastante inteligente, e bem menos pretensioso que Caio Prado, mas infelizmente um produto típico do nacional-desenvolvimentismo dos anos 1950 aqui no Patropi. Foi fundador daquele centro de ideias questionáveis chamado CEPAL, e baseado em seu trabalho lá, idealizou o Plano de Metas de JK, foi diretor do BNDE (ainda sem o "S"),se bem que nesse caso, Roberto Campos é cúmplice do crime... e fundador da finada SUDENE...puro estatismo.

    Sua obra "Formação Econômica do Brasil" até tem umas análises cabíveis , mas como o homem é keynesiano, erra no remédio proposto: intervenção estatal pra fomentar o desenvolvimento econômico e corrigir as desigualdades regionais.
  • Rodolfo  01/03/2018 19:40
    Quando o Leandro falou das indústrias de bens de capital, a primeira que veio na cabeça foi a ROMI, ai fui olhar o desempenho dela na bolsa e notei um grande tombo na crise e uma bela recuperação em seguida:
    fundamentus.com.br/cotacoes.php?papel=romi3
  • Fábio  01/03/2018 20:08
    Excelente exemplo! A Romi é o exemplo clássico de indústria de bens de capital: produz equipamentos utilizados por empresas dos mais variados setores industriais, como o automotivo, energia, bens de consumo, infraestrutura, máquinas e implementos agrícolas etc.

    O comportamento das ações dela é simplesmente um espelho dos ciclos econômicos. A valorização no boom de 2006 e 2007 foi absurda. E repare como ela começou a cair no início de 2008, já antecipando a recessão do final daquele ano (que aconteceria mesmo se não houvesse crise financeira mundial).

    A TACE realmente é completa.

    Aqui o link clicável: fundamentus.com.br/cotacoes.php?papel=romi3
  • Bruno  04/03/2018 20:57
    EALT, WEGE
  • Rafael  03/04/2018 16:25
    Dando continuidade ao tema:

    Produção industrial tem alta de 2,8% em comparação a fevereiro de 2017

    "No primeiro trimestre do ano, o avanço de 4,3% registrado pela produção industrial é o melhor desempenho para o período desde o primeiro bimestre de 2011, quando o crescimento ficou em 4,7%."
  • Felipe Lange  01/03/2018 20:39
    Leandro, em uma economia com um BC onde houvesse somente a manipulação pela taxa SELIC, haveria ciclos econômicos? Austrália seria um bom exemplo disso? Amei ter ouvido sua palestra, pena que no final ficou sem som e o áudio estava baixo. Um dia ainda irei conhecê-lo pessoalmente, agora estou mais perto (estou morando agora em São Vicente).
  • Leandro  01/03/2018 21:37
    "em uma economia com um BC onde houvesse somente a manipulação pela taxa SELIC, haveria ciclos econômicos?"

    Sim, pois a manipulação da SELIC inevitavelmente gera oscilações monetárias (pessoas indo para ou saindo da renda fixa). Ademais, há a expansão monetária feita pelo sistema bancário de reservas fracionárias, o que também gera ciclos.

    "Um dia ainda irei conhecê-lo pessoalmente, agora estou mais perto (estou morando agora em São Vicente)."

    Da próxima, não se esqueça de se apresentar pessoalmente.

    Grande abraço!
  • Felipe Lange  02/03/2018 23:40
    Se esse ano tiver a conferência (e eu tiver dinheiro sobrando) acho que dará para eu comparecer porque será bem mais perto, mas você quando diz se apresentar é se apresentar ao público na sala de palestras? Eu acho que teria prazer em fazê-lo, certamente muitas pessoas iriam dar risadas com o meu sotaque relaxado... eu iria até aproveitar e contar piada sobre os Correios também. Por enquanto não dá para eu mexer com renda fixa pois estou abaixo do mínimo para investir... agora mesmo só os bitcoins por enquanto.

    Acho que você merece até uma página no Facebook, Twitter e Instagram com o título "Leandro Roque da Zoeira".

  • anônimo  01/03/2018 20:46
    O pior da crise já passou. A economia tá se recuperando. O Brasil tá retomando os empregos
  • Pug  01/03/2018 21:54
    Leandro, a subida de juros não vai ser proporcional a descida dos juros definida pelo governo?

    Vamos supor que a SELIC é reduzida em 10%. Quando vier o aumento, vai vir 10% ou mais de aumento...(Isso é só um exemplo pra expressar minha duvida)

    Outra coisa e se o governo ficar segurando o juros la embaixo, isto é, evitar a subida dos juros depois? Quais seriam as consequências?

    E os economistas das industrias não sabem que o juros vai subir a toda um dia e destruir tudo? Porque não aconselha as empresas a serem mais prudentes então?

    Economia é sobre produção, não tem como criar mais riqueza quando o governo muda um indicativo da economia, no caso o juros que é o preço do dinheiro, isso por si só ja não faz sentido
    Pense, o governo não cria riqueza, porque mudar um indicativo economico faria isso? E pior, porque o efeito necessariamente é positivo?


    Se ao depositar o dinheiro no banco, eu transfiro o título do ativo pro banco e ao mesmo tempo no contrato, esta expresso tudo direitinho inclusive que o banco trabalha com RF...
    Porque seria errado então? Hoje os contratos dos bancos são assim ué

    E se os bancos não trabalhassem com RF, esses efeitos não existiriam? Porque ao fazer empréstimos, não estaria criando dinheiro do nada e sim dinheiro com lastro..


    Abraços
  • Leandro  02/03/2018 01:19
    "a subida de juros não vai ser proporcional a descida dos juros definida pelo governo?"

    Não há essa relação matemática pré-estabelecida. Grosso modo, pode-se dizer que será proporcional tanto à inflação monetária quanto ao aumento dos preços.

    Pensemos num exemplo prático: suponha que você tem uma padaria e sua margem de lucro é de 10% ao ano.

    Neste cenário, dado que você ganha 10% ao ano, qual a taxa de juros que você irá cobrar para emprestar dinheiro (seja para o governo, seja para bancos via CDB)? Exato, pelo menos 10%.

    Agora, suponha que houve uma inflação monetária. O volume de gastos subiu, seus preços subiram e suas receitas subiram. Suponha também que, de início, seus custos ficaram contidos. Sua margem de lucro subiu agora para 15%.

    Neste cenário, dado que você agora ganha 15% ao ano, qual a taxa de juros que você irá cobrar para emprestar dinheiro (seja para o governo, seja para bancos via CDB)? Exato, pelo menos 15%.

    E isso ocorre em toda a economia. Em decorrência dos efeitos da inflação monetária, as pessoas só irão emprestar para o governo e para os bancos se a taxa de retorno (juros) for maior.

    É assim que os juros sobem. Mesmo que o Banco Central não manipulasse a SELIC, a própria inflação monetária (que também está sob controle do Banco Central) levaria automaticamente a um aumento corretivo dos juros.

    "Outra coisa e se o governo ficar segurando o juros la embaixo, isto é, evitar a subida dos juros depois? Quais seriam as consequências?"

    Vivenciamos isso na prática no governo Dilma. As consequências foram detalhadas neste artigo.

    "E os economistas das industrias não sabem que o juros vai subir a toda um dia e destruir tudo? Porque não aconselha as empresas a serem mais prudentes então?"

    Explicado no artigo. Mesmo o industrial prudente e ciente deste fenômeno não pode se dar ao luxo de ficar parado e não investir e expandir sua produção. Se ele ficar parado, perderá fatia de mercado para os concorrentes. Ficará sem receita e poderá ir à falência antes mesmo da chegada da recessão.

    "Se ao depositar o dinheiro no banco, eu transfiro o título do ativo pro banco e ao mesmo tempo no contrato, esta expresso tudo direitinho inclusive que o banco trabalha com RF... Porque seria errado então? Hoje os contratos dos bancos são assim ué [...]"

    Não entendi. Em momento algum foi dito que tal prática é errada. Tampouco foi dito que a culpa dos ciclos econômicos é dela. A causa toda está na manipulação artificial dos juros pelo Banco Central.

    Aliás, renda fixa nada mais que uma proteção crucial contra os efeitos destrutivos da inflação. Trata-se de um mecanismo extremamente importante de autodefesa, o qual existiria normalmente em qualquer sociedade de livre mercado.

    Abraços.
  • Bruno  01/03/2018 22:10
    Leandro, e os títulos de divida do governo não influencia?

    Porque, o BC imprimi dinheiro parar comprar os títulos que estão em posse dos bancos privados
    Os títulos que os governos emitem pra poder se financiar..
  • Álvaro Rodrigues  02/03/2018 00:30
    Excelente artigo, de todos que já li por aqui esse foi o melhor até hoje.
  • Leandro  02/03/2018 01:55
    Muito obrigado pelas loas, prezado Álvaro.

    Cordiais saudações!
  • Vinícius Garcia  02/03/2018 02:41
    Dois!
  • Pobre Paulista  02/03/2018 01:17
    Leandro,

    Uma suposta adesão massiva às criptomoedas não configuraria uma expansão monetária (supondo que pudessem conviver com as fiduciárias). Não causaria isso um ciclo econômico?

    Semelhantemente, pode-se concluir que a corrida do ouro causou algum ciclo econômico?
  • Leandro  02/03/2018 01:56
    "Uma suposta adesão massiva às criptomoedas não configuraria uma expansão monetária (supondo que pudessem conviver com as fiduciárias)."

    Difícil. Para você conseguir uma criptomoeda, você tem de dar reais em troca. Você ganha um bitcoin, mas perde reais. Isso não eleva a oferta monetária.

    No entanto, pelo bem do debate, podemos imaginar aquele cenário extremo em que todo mundo vira minerador de Bitcoin (algo impossível por causa do custo da eletricidade e do algoritmo que limita a quantidade máxima da BTCs minerados, mas vamos supor que isso aconteça).

    Nesse caso, ok, aí haveria de fato expansão monetária. O efeito seria o mesmo de o ouro também virar moeda corrente (em paralelo ao real) e as pessoas saírem escavando o ouro.

    "Não causaria isso um ciclo econômico?"

    Causaria um "meio ciclo econômico". Explico.

    Houve expansão monetária porque foi introduzida uma nova moeda, mas não houve manipulação dos juros. Haverá aumento de preços, sem dúvida, mas não um ciclo econômico tradicional. Para haver um ciclo, além da expansão monetária, é necessário haver manipulação artificial dos juros, pois é isso que irá causar todos os investimentos errôneos (os quais dependem de endividamento barato).

    Ludwig von Mises chamou esse fenômeno de "inflação simples". Se o dinheiro novo entra na economia dessa maneira ("minerado"), o efeito será o da inflação de preços apenas. Ele não vai gerar novos investimentos, como ocorre no exemplo da inflação via mercado de crédito.

    Quando o dinheiro "minerado" entra na economia, há um aumento na demanda por bens de consumo. Esse aumento repentino da demanda fez com os lucros no setor de bens de consumo aumentem em relação aos lucros do setor de bens de capital, fazendo com que o investimento seja direcionado para aquele setor (bens de consumo).

    Consequentemente, a produção e o investimento no setor de bens de capital declinam, junto com o emprego - entretanto, sem que, diferentemente da inflação via mercado de crédito, tenha havido uma expansão anterior deste setor.

    Repetindo: se o dinheiro minerado vai direto para o setor de bens de consumo, a estrutura de produção se contrai, mas sem que tenha havido uma expansão anterior. (O que explica também por que todas as políticas de estímulo à demanda provocam o efeito oposto do esperado).

    "Semelhantemente, pode-se concluir que a corrida do ouro causou algum ciclo econômico?"

    Aumento de preços, sim. A própria Espanha, ao receber um enorme influxo de ouro pilhado de suas colônias, teve um longo período de aumento de preços. Esse ouro caiu direto nos cofres do governo, que o utilizou para financiar um aumento nos gastos do estado. Tudo o que houve na Espanha foi inflação de preços.

    Para haver ciclos econômicos, de novo, tem de haver manipulação artificial dos juros.

    Portanto, eis a regra: se o dinheiro entra na economia por meio do mercado de crédito (banco central comprando títulos diretamente dos bancos), haverá uma distorção nos juros e uma consequente expansão nos investimentos. Porém, se o dinheiro entrar na economia via "mineração", haverá apenas inflação de preços, sem novos investimentos.

    No final, o efeito de um aumento na oferta monetária vai depender de onde o dinheiro recém-criado entrará na economia: se via mercado de crédito ou via gastos simples.
  • Demolidor  02/03/2018 05:36
    Leandro, ótimo texto. Resumiu muito bem como ocorrem os ciclos e ressalto que vi tudo isso ocorrer no mercado financeiro. Sua explanação foi perfeita.

    Só uma observação: moedas só podem ser mineradas a taxas de inflação previstas no algoritmo, independente do tamanho da base de mineradores. Isso ocorre porque a dificuldade se ajusta. No Bitcoin, por exemplo, mesmo que se multiplique por dez ou se reduza em 90% o poder de processamento dos mineradores, continuaremos a ter um bloco a cada 10 minutos, com a recompensa prevista (no momento, 12,5 btc por bloco, até o próximo "halving" em 2020).

    A expansão monetária seria possível, no ambiente cripto, a meu ver, com a criação de novas moedas (por favor, me corrija se eu estiver errado). E, pelo episódio controverso do tether, aparentemente isso poderia inflar, indiretamente, o preço das outras criptomoedas.



    Voltando à questão da bolsa de valores, se me permite, adicionaria que existem pontos fora da curva, como Magazine Luiza (MGLU3) e Gol (GOLL4), que eram empresas com forte exposição a dívidas em dólar num ambiente de juro alto, o que as tornava pesadas e difíceis de renegociar. Uma vez que os juros baixaram e, principalmente, o câmbio melhorou, tais empresas tiveram brutal queda no endividamento em seus balanços em reais, bem como no serviço da dívida. Sua disparada foi consequência dos números bem mais positivos. De certa forma, até Oi (OIBR4) foi beneficiada. E esta eu acompanho de perto, pois é uma empresa com uma base grande de clientes, em recuperação judicial e com uma dívida significativa em multas da Anatel.

    Coloco isso porque pode ser bem interessante olhar as empresas por seu endividamento e consequente exposição a juros e fatores cambiais. Assim como empresas de bens de capital, essas podem ter alterações muito significativas em seus resultados entre os ciclos.
  • Trader  02/03/2018 15:43
    A Magazine Luiza foi um ponto bastante fora da curva, e se deveu majoritariamente à troca da direção da empresa: saiu a dona Luiza Helena e entrou Frederico Trajano, um sujeito discreto, avesso a politicagens (ao contrário da antecessora) e extremamente competente, que fez uma verdadeira revolução na empresa.

    www.istoedinheiro.com.br/frederico-trajano-e-o-empreendedor-do-ano-2017-em-e-commerce/

    www.infomoney.com.br/blogs/bolsa/o-investidor-de-sucesso/post/6431587/motivos-simples-para-entender-sucesso-magazine-luiza-acoes-disparam-novamente

    Só a modificação que fizeram no e-commerce trouxe enormes ganhos de fatia de mercado para a empresa, impulsionando absurdamente seus lucros.

    Alterações radicais desse tipo em uma empresa específica não podem, por motivos óbvios, ser antecipados por uma teoria dos ciclos econômicas.
  • Pobre Paulista  02/03/2018 19:51
    Demolidor, a expansão de cada criptomoeda é limitada, mas não há limites para quantas criptomoedas podem estar simultaneamente em circulação.
  • Demolidor  03/03/2018 23:50
    Demolidor, a expansão de cada criptomoeda é limitada, mas não há limites para quantas criptomoedas podem estar simultaneamente em circulação.

    Sim. Foi isso que eu disse, e talvez não tenha ficado claro, neste parágrafo:

    "A expansão monetária seria possível, no ambiente cripto, a meu ver, com a criação de novas moedas (por favor, me corrija se eu estiver errado). E, pelo episódio controverso do tether, aparentemente isso poderia inflar, indiretamente, o preço das outras criptomoedas."

    A questão, que ainda não está clara para mim, é quanto isso pode influenciar, para cima ou para baixo, a cotação das principais moedas, como BTC, ETH, DASH, etc.
  • Jorge Gaspar  02/03/2018 01:28
    Leandro, tendo em conta aquilo que escreveu neste texto, podemos considerar que todas as economias do mundo (de todos os países) funcionam desta forma, através de ciclos económicos? Fazendo pesquisa por evolução de oferta monetária M1 de alguns dos países mais desenvolvidos constata-se que têm tido aumentos incríveis da oferta monetária, vide o caso da Alemanha e dos Estados Unidos.
  • Leandro  02/03/2018 01:55
    Não utilizo o M1 para prever ciclos porque pelo menos metade dele é composto por papel-moeda (cédulas e moedas metálicas). E estas não têm nenhum efeito nos ciclos econômicos.

    Papel-moeda está em posse majoritariamente de pessoas de baixa renda, que não usam bancos. E essas pessoas não têm qualquer influência sobre os rumos da economia do país. O que determina as flutuações econômicas são os volumosos gastos em investimentos, em capital de giro, em contratações, em consumo etc. E esses gastos são afetados pelos juros. Já o papel-moeda não é afetado em nada pelos juros. E ele é usado em transações cotidianas de baixíssimo valor.

    O ideal é olhar os depósitos à vista (em conjunto com a expansão do crédito), mas essa estatística específica você só encontra nos sites dos bancos centrais destes respectivos países.
  • Wesley  02/03/2018 02:43
    Leandro,

    Primeiramente, parabéns por mais um extraordinário marco na história dos artigos do IMB. Top 5 !!
    Aguardo, pacientemente, o dia em que você colocará a modéstia de lado e escreverá um livro. Faço parte deste coro!

    Seu comentário me fez pensar em duas coisas:

    1. Num artigo seu, mais antigo, em que você mostra como destrinchar as séries do BC para chegar nos meios fiduciários. À época você disse que seria a forma mais interessante de se entender a influência da oferta monetária ao longo do ciclo, pois estaria monitorando o dinheiro "ex nihilo". Você ainda acompanha os meios fiduciários? Ou tem achado preferível acompanhar pelos depósitos à vista?

    2. Você tem familiaridade com os conceitos da Austrian Money Supply (AMS) e True Money Supply (TMS)?
    O Mises Institute tem acompanhado o indicador com certa frequência (aparentemente o Ryan McMaken tem compilado os números), e atualmente ele está dando fortes sinais de alerta (mises.org/wire/true-money-supply-flashing-red). Gostaria de saber sua opinião quanto ao que seria mais adequado, usar a oferta monetária austríaca (qual das duas definições), os meios fiduciários, depósitos à vista? Deixo como sugestão um artigo abordando este tema (das duas definições austríacas acerca da oferta monetária), dada sua relevância para o acompanhamento do ciclo.
  • Leandro  02/03/2018 16:24
    1) Continuo acompanhando diariamente. Aliás, até irei mandar aqui:

    postimg.org/image/rbo192gr9/

    Observe que a evolução e o formato são praticamente idênticos, de modo que você pode usar ambos de maneira intercambiável.

    2) Os EUA têm muito mais diversidade de modalidades bancárias que o Brasil. Sendo assim, lá há vários tipos de contas bancárias que funcionam como depósitos à vista, o que torna a análise bem mais complicada e ofuscada.

    Dito isso, confesso que não gosto de nenhuma dessas duas métricas que criaram. Veja você mesmo os gráficos: não há nenhuma correlação entre elas e os ciclos econômicos -- o que indica que os componentes selecionados para compor ambas as métricas estão muito errados (e, de fato, há várias inclusões esquisitas ali, como poupança, depósitos a prazo e fundos mútuos, o que é bizarro).

    Muito obrigado por suas palavras e forte abraço!
  • Wesley  03/03/2018 03:30
    Leandro,

    Discordando um pouco, parece que há sim uma forte indicação de que quando a TMS tende a estagnar (a oferta monetária ficando "flat"), ocorre num futuro próximo uma crise de crédito, sendo em alguns casos seguida de recessão. O artigo que citei antes (mises.org/wire/true-money-supply-flashing-red) tem uma figura que mostra isso.
    O que até faz bastante sentido com a teoria austríaca, de que a simples desaceleração a oferta monetária, não necessariamente sua contração, pode fazer o mercado se ver forçado a desalavancar, culminando nas crises.

    Este artigo aqui (www.forbes.com/sites/michaelpollaro/2014/10/12/central-bank-credibility-the-equity-markets-and-gold/#28b3be7b986a) também mostra um gráfico onde é possível ver como a TMS (ele chama de TMS2) conseguiu antecipar as 2 últimas grandes quedas no S&P500.
  • Marcelo  05/03/2018 12:07
    No caso da TMS, o timing é ruim. E também é cheio de falsos positivos. Pela TMS era pra ter ocorrido recessão em 1985. Não houve. Era pra ter ocorrido um em 1995. Não houve. A recessão de 1990 começou um ano e meio depois que a TMS ficou flat (junho de 1989). Igualmente a de 2009 começou quase dois anos depois que a TMS ficou flat (janeiro de 2007).

    Como disse o leandro, o fato de a TMS incluir poupança, depósitos a prazo e vários modalidades de fundos mútuos embaça totalmente a situação.
  • Wesley  07/03/2018 02:28
    Marcelo,

    Não sei se entendo qual é a precisão quando você fala de timing nesse caso, mas apenas para estabelecermos uma base um pouco mais objetiva, entendo eu que ao se analisar variações na oferta monetária como um previsor de crises ou recessões futuras, devemos considerar que um período de 1 ano é pelo menos a unidade básica.

    Como sabemos, a teoria austríaca não é precisa em timing, mas sim em apontar devidamente as relações de causa e consequência. Então, quando a oferta fica flat, isso quer dizer que provavelmente haverá uma crise/recessão no futuro, mas exatamente quando não é perfeitamente previsível. A bem da verdade, a oferta monetária pode nem ter que ficar flat para isso começar acontecer, ou mesmo ela precisa até passar do ponto "flat" para que o processo inicie.

    Outro ponto é se haverá apenas uma crise de liquidez ou uma recessão. Para fins práticos, meu interesse está mais em se ela consegue ser uma boa previsora de crises de liquidez. Estas, podem ou não ser seguidas de recessão.

    Quanto à TMS, você citou falsos positivos, mas na figura do Mises Institute ao qual me referi, só há o ano de 1995 como um falso positivo, todos os outros foram acertados: a TMS chega a zero (ou perto de), e ocorre uma crise de liquidez num futuro próximo (lembrando de considerar a unidade básica).

    Sobre a crise de 1990 não posso falar, já que sequer acompanhei os fatos na época, mas quanto à crise do subprime eu lembro bem. Ela começou efetivamente em 2007. A quebra do Lehman foi em Set/2008, mas já estávamos no meio da crise. Então seu comentário sobre 2009 não procede.

    Além disso, quando você menciona que "No caso da TMS, o timing é ruim.", faz pensar que então há outro indicador melhor. Há?

    E me faz levantar a dúvida: será que o acompanhamento do total de depósitos à vista (ou quem sabe dos meios fiduciários puros), neste período, teria sido melhor previsor que a TMS?
  • Jackson  02/03/2018 02:33
    off-topic

    Sou bem leigo quanto a economia de modo geral e uma coisa que me intriga é a respeito da influencia de economias "mais fortes" no contexto regional, por exemplo, costuma-se dizer que se a economia do Brasil vai bem, a da Argentina e outros países por aqui também vai (meu interesse em especial é justamente nessa interação em especifico), o mesmo para os EUA e México , Europa, etc. Isso é de fato tem correlação direta? E se Sim, como é dado esse processo? Alguém poderia por gentileza me explicar ao menos de maneira resumida? Talvez caiba até materia a respeito no site (isso se ja nao houver e eu não tenha me atentado a isso). Desde Já agradeço.
  • Michael  02/03/2018 02:41
    Sim, por causa do comércio exterior. Hoje, felizmente, tudo é interligado. Você não precisa fabricar sua própria roupa e nem o seu próprio computador (tampouco seria capaz disso). Você simplesmente "terceiriza" essa produção para trabalhadores que estão em outras localidades. Igualmente, eles "terceirizam" para você a produção de coisas que eles não sabem fazer.

    Assim, quando a Argentina vai bem, ela compra coisas de você e você compra coisas dela. Quando ela vai mal, ela não compra de você e nem produz para vender para você.

    Eis os dois melhores artigos sobre isso:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2320

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2757
  • Leigo  02/03/2018 14:02
    g1.globo.com/economia/noticia/governo-manifesta-preocupacao-com-decisao-dos-eua-de-tarifar-aco-e-aluminio-importado.ghtml
  • Guilherme  02/03/2018 14:24
    Leitor deste site não pode ficar surpreso com esta notícia:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2618 (Leia a Nota do Editor)

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2609
  • Master of Chaos  02/03/2018 03:08
    Pessoal, sei que o artigo não tem nada a ver com isso, mas me surgiu uma dúvida sobre algo que vi há um tempo atrás e nunca mais encontrei nada a respeito.
    Basicamente se trata de trabalho análogo à escravidão. Hoje, no Brasil, se em uma propriedade for identificado trabalho análogo à escravidão, pode ocorrer o confisco da propriedade por parte do Estado. Eu me lembro de ver em algum lugar (e agora não consigo encontrar) algo que dizia que no sistema anarcocapitalismo, se alguém escravizasse outrem, para trabalhar em sua propriedade, por exemplo, ele perderia o direito à propriedade etal deveria pertencer à quem a produziu, no caso, aqueles que foram escravizados... Se houver alguma inconsistência no comentário, me avisem. Se for possível me indicarem artigos que tratem a respeito do trabalho escravo e o anarcocapitalismo, ficarei grato. Minha dúvida é sobre o que acontece com a propriedade do indivíduo que realmente escraviza os trabalhadores...
  • Vitor  02/03/2018 15:58
    Sim, a teoria está correta. Se você detém escravos genuínos em sua propriedade, então você próprio perdeu o direito de manter sua propriedade. Se você agride a propriedade mais sagrada que um indivíduo possui (que é a propriedade sobre seu próprio corpo), então você próprio perdeu o direito de não ter sua propriedade agredida.

    Dito isso, vale lembrar que "trabalho escravo" simplesmente não existe mais. Essas notícias sobre "trabalho análogo à escravidão" relatam casos que estão a galáxias de distância de ser um genuíno trabalho escravo. Com efeito, na maioria dos casos, há simplesmente um arranjo mútua e voluntariamente acordado entre as partes.

    www.mises.org.br/BlogPost.aspx?id=2785
  • Master of Chaos  02/03/2018 16:40
    Muito obrigado Vitor, muito obrigado mesmo.

    Quando se trata do Brasil, se isso ocorrer, o Estado confisca a propriedade. Na minha humilde e inútil opinião, o Estado não tem o direito de fazer isso. Tudo bem, concordo plenamente que o sujeito deva perder a propriedade, mas também acho errado o confisco. Sendo assim, realmente a propriedade deveria passar para quem fez uso e produziu li, no caso, os indivíduos que foram privados de sua liberdade?
  • Vladimir  02/03/2018 16:51
    No Brasil, o estado confisca a propriedade pelo simples motivo de haver dois trabalhadores dormindo num beliche, tão bizarra e autoritária é a definição de "trabalho escravo" criada pelos burocratas.

    Realmente sugiro a leitura do artigo linkado.
  • Master of Chaos  02/03/2018 20:44
    Eu o li, e claro, li os comentários. Sempre aprendo muito com eles...
    Mas nesse caso, aqueles que foram privados de sua liberdade tem o direito à propriedade do criminoso? O meu problema é só aceitar que o Estado confisque para si esta propriedade...
  • Tulio  03/03/2018 13:16
    Mas é claro que não há por que confiscar a prioridade, e pelo simples fato de que não houve crime nenhum. Escravidão ali passou longe.
  • marcela  02/03/2018 11:23
    A Verdadeira ameaça aos EUA é a Russia como bem indicou o discurso belicoso do Putin nessa semana.A China representa apenas 2% de todo aço importado pelos americanos.Mas o mais engraçado é que os gastos militares do Trump serão bancados por chineses mediante a compra de títulos da dívida pública americana.E o Trump ainda vem com essa história de que os chineses ameaçam a segurança americana...
  • Victor  02/03/2018 13:42
    A China está causando muita confusão militar na zona de influência americana no Pacífico e Índico:

    www.independent.co.uk/news/world/asia/china-military-aggression-island-missiles-troops-south-china-sea-ishigaki-japan-winter-olympics-a8208586.html

    www.ndtv.com/opinion/china-gains-over-india-in-maldives-lanka-and-pak-by-yashwant-sinha-1818052

    www.aljazeera.com/news/2017/07/china-demands-india-pulls-troops-border-dispute-170724065132611.html

  • Rafael  02/03/2018 11:38
    Excelente artigo!

    Leando, você poderia se possível apresentar como é feito esse controle de preços em relação aos EUA?
    Se houve esses ciclos econômicos em comparação ao período no Brasil, como a taxa de juros lá é operada, e as ações do governo em relação a economia?

  • Intruso  02/03/2018 16:05
    Até 2008, era exatamente igual aqui, e os ciclos seguiam exatamente a mesma lógica. De 2008 em diante, mudou tudo, pois o Fed inventou uma política totalmente atípica, a qual simplesmente nunca havia sido imaginada e nem sequer prevista por nenhum manual de macroeconomia.

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1707
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1696
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2213
  • Supra  02/03/2018 11:56
    Leandro, a expansão monetária brasileira, não foi uma consequência da venda dos títulos dos bancos privados?

    Os títulos do tesouro que o governo emite pra se financiar, que estão em posse dos bancos privados e depois estes mesmos títulos foram comprados pelo banco central via impressão de dinheiro.

    Ou seja, a reserva fracionaria seria o menor dos problemas?

    Outra pergunta, empréstimos com uma taxa de juros livre, no atual sistema, porque não gera inflação?
    Pelo oque eu entendi, se os juros fossem livres o aumento da oferta monetária não teria ocorrido, logo não teria ciclo economico.
    Mas ate onde eu sei, o sistema de reservas fracionarias causa um aumento da oferta monetária quando os bancos emprestam certo?


    Magnifico artigo!
    Abraços
  • Leandro  02/03/2018 17:52
    "a expansão monetária brasileira não foi uma consequência da venda dos títulos dos bancos privados? Os títulos do tesouro que o governo emite pra se financiar, que estão em posse dos bancos privados e depois estes mesmos títulos foram comprados pelo banco central via impressão de dinheiro"

    Tal cenário, de fato, causa expansão monetária. Bancos compraram títulos do Tesouro e, em seguida, revenderam esses títulos para o Banco Central. No final, continuaram com o mesmo tanto de reservas bancárias, mas a quantidade de dinheiro na economia aumentou.

    Mas nada obriga o BC a comprar esses títulos. Tampouco os bancos necessariamente irão vendê-los. Eles podem, por exemplo, emitir CDBs que serão comprados por poupadores. Isso irá retirar dinheiro da economia. Se você aplica num CDB, por exemplo, dinheiro está sendo retirado da sua conta-corrente.

    Sendo assim, o banco comprou um título do Tesouro e vendeu um CDB (que paga menos que o título do Tesouro). Bom negócio.

    Portanto, por si só, bancos comprarem títulos do Tesouro não são uma prática necessariamente inflacionária. Isso foi explicado em mais detalhes neste artigo.

    "Ou seja, a reserva fracionaria seria o menor dos problemas?"

    De fato, o pior é haver um Banco Central com capacidade de criar dinheiro para comprar ativos em posse do sistema bancário.

    "Outra pergunta, empréstimos com uma taxa de juros livre, no atual sistema, porque não gera inflação?"

    O que gera expansão monetária -- e, consequentemente, inflação de preços -- é a expansão do crédito via reservas fracionárias, a qual só ocorre por causa da injeção de dinheiro feita pelo Banco Central no sistema bancário.

    A questão de a taxa de juros ser livre (e a própria definição disso é nebulosa quando há um Banco Central) é totalmente secundária.

    "Pelo que eu entendi, se os juros fossem livres o aumento da oferta monetária não teria ocorrido, logo não teria ciclo economico."

    Se não há flutuações da oferta monetária, não há ciclos econômicos, é fato. Mas não entendi essa parte dos "juros livres".

    De novo: havendo BC e reservas fracionárias, haverá manipulação dos juros e flutuações monetárias. Para não haver ciclo econômico, não poderia haver nem BC e nem reservas fracionárias.

    Não houvesse BC e nem reservas fracionárias, para cada real emprestado, um real deixaria de ser consumido. Se você poupa e empresta, você não gasta. Consequentemente, não há expansão monetária. Para cada real emprestado, uma pessoa estaria abrindo mão do consumo.

    Já no atual arranjo, dinheiro novo continua sendo despejado na economia e emprestado, independentemente da poupança e da abstenção do consumo das pessoas.

    Há muito tempo escrevi um artigo aprofundando este ponto. Ele ainda se mantém:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=552

    "Mas ate onde eu sei, o sistema de reservas fracionarias causa um aumento da oferta monetária quando os bancos emprestam certo?"

    Correto.


    Muito obrigado pelas palavras e grande abraço!
  • André Marques  02/03/2018 12:25
    Olá, Leandro,

    Sou BR (Recife-PE), mas vivo em Lisboa desde 2014. Formei-me em Ciência Política e Relações Internacionais por aqui e TALVEZ faça um mestrado em Economia (lecionado em inglês) por aqui também. Participo ativamente dos encontros ministrados pelo Instituto Mises Portugal e, claro, acompanho o IMB (em 2015, houve um "crossover" do IMP com o IMB aqui em Lisboa, com o Helio e o Bruno, que falou sobre o livro dele e acabei pegando um autógrafo; mas naquela época eu não havia estudado aquase nada ainda). Como meu interesse é maior em assuntos macroeconômicos (políticas monetárias e cambiais, inflação, ciclos, etc, etc; já que são o que vão determinar o rumo das coisas) e em mercados financeiros (de maneira geral) os artigos dos quais mais gosto de ler por aqui são os seus, que são bem claros nos assuntos macroeconômicos.
    Espero que você venha a escrever livros também.

    No meu blog (www.schiffinstitute.blogspot.com) escrevo sobretudo a respeito de macroeconomia, até agora só sobre os EUA e Brasil. Não há muita coisa pois ainda preciso aprender muito sobretudo a respeito de mercado financeiro, mas sempre que posso faço uma pesquisa pra escrever alguma coisa interessante.

    Quero continuar a enfatizar meu estudo em questões de macroeconomia, sobretudo em políticas monetárias, em mercados financeiros (que é eu mais preciso dar atenção pois sei menos). Mas pelo menos não tive dificuldade de entender o que você falou mais especificamente a respeito de investimentos no artigo, pois às vezes paro pra entender como é o mercado por aí e sei o básico das principais aplicações. Mas como não fiz Economia e por muito tempo não estudei especificamente estes assuntos (de início fiquei estudando mais assuntos de política, os quais hoje me deixam entediado) tenho dar mais ênfase em mercados financeiros agora.

    Você deve saber disso muito bem, mas, como disse, se a pessoa entende de política monetária (com o insight da Escola Austríaca, claro), consegue saber melhor pra onde vai a Economia. O próprio Peter Schiff conseguiu ganhar com isso com o crash da bolha .com e a crise de 2008. Eu acompanho os podcasts dele há um om tempo e embora ele infelizmente não dê muita atenção especificamente ao mercado financeiro ele fala bastante da política monetária do Fed e das implicações da Economia. E às vezes acaba falando um pouco sobre as estratégias que usa na empresa de asset management dele (Euro Pacifc Capital), baseado nessas análises. Ele não dá detalhes, mas basicamente ele investe fora dos EUA, em países menos piores (Cingapura, Suíça, Nova Zelândia, etc, etc) e em commodities (como ações de mineradoras de ouro). Há vários outros detalhes que ele fala a respeito dos EUA, mas não dá pra elencar aqui.

    Gostaria de saber se você poderia indicar livros ou outras leituras (pode ser em inglês) que pudessem me ajudar nos assuntos de mercados financeiros e de políticas monetárias. Quais são as fontes que você mais estudou ao longo da vida?
    Outra coisa que não sei: você fez mesmo faculdade de Economia, Gestão, ou algo parecido? Ou tinha interesse em economia, foi estudando aos poucos e também acabou por estudar Escola Austríaca?

    Eu não sei se vou fazer mesmo o mestrado em Economia aqui, mas por vários motivos não gosto de Portugal e verei se saio daqui. O Canadá não é lá essas coisas, mas fala inglês e é menos pior que aqui. Tenho um conhecido que trabalha lá (na área de finanças, com leasing, embora não seja o que me chama atenção na área), mas nunca é fácil imigrar e conseguir ficar permanentemente no país. Também devo tentar o Brasil, caso valha a pena. Só não tenho mesmo vontade de ficar aqui.
    Se for o caso de fazer o mestrado, vou ter de engolir as coisas do mainstream, mas tem de ser. As universidades aqui são intervencionistas, como é de se esperar, mas (raro) há uns que pelo menos têm disposição de ouvir. Na cadeira de Economia que fiz no meu curso (em 2015 ainda) o meu professor keynesiano me pediu pra fazer uma apresentação sobre a Escola Austríaca. Não era pra nota, mas fiz uma apresentação de meia hora explicando os princípios básicos. Claro que a turma não ficou convencida (o pessoal aqui ou é socialista/comunista mesmo ou é social democrata), mas pelo menos ouviu e respeitou.
    O mestrado dura dois anos e se eu fizer terei de ver pra onde vou. Mas até lá quero continuar dando ênfase nesses estudos que falei.

    Grande abraço,
    André Marques
  • Leandro  02/03/2018 18:53
    Obrigado pelo depoimento, caro André. Sendo bem sincero, eu não perderia tempo com faculdade, mas também sei que, por causa das regulações estatais, você só consegue emprego nessa área se possuir um diploma. Então, de fato, não há alternativa.

    Sobre suas perguntas:

    1) Ciclos econômicos e política monetária são meus assuntos favoritos, e estou mergulhado neles desde 2007. Há dois livros que se sobressaem e eu recomendo (abaixo), mas eles de modo algum exaurem o campo. O que eu realmente recomendo é que, de posse da teoria, você enfie a cara nos dados macroeconômicos (facilmente disponíveis na internet) e comece a analisá-los. Ao longo do tempo, você começará a perceber padrões imutáveis, os quais confirmarão sua teoria. Foi assim que fiz.

    Simplesmente não houve um livro que eu tenha lido e que, sozinho, tenha me feito "ver a luz". Foi tudo um conjunto de informações observadas e absorvidas ao longo de mais de uma década.

    Desconheço algum livro específico sobre mercado financeiro que faça todo esse serviço por você.

    Eis os livros:

    mises.org/library/money-bank-credit-and-economic-cycles

    mises.org/library/money-sound-and-unsound-1


    E, se me permite, alguns artigos que considero essenciais sobre o tema:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1943
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2466
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2694


    2) Sou formado em economia pela UFMG, mas não aprendi absolutamente nada que prestasse lá. Por isso, nem sequer menciono minha formação. Tudo o que de relevante aprendi foi por meio do autodidatismo.


    Obrigado pelas palavras e grande abraço! E boa sorte.
  • André Marques  06/03/2018 11:42
    Obrigado, Leandro. O livro do Huerta de Soto já conhecia; o do Salerno, não. Recentemente li o Currency Wars e o The New Case for Gold, do James Rickards, que também tem bons insights de política monetária.

    Nesses últimos dias vieram algumas perguntas à minha cabeça e gostaria de saber o que você acha:

    1 - O que você acha que está mantendo (ou poderá manter) o IPCA baixo não obstante uma queda substancial na SELIC (a mais baixa da história do Real). É apenas uma questão de expectativas? Afinal, é claro que não há tanta poupança assim pra justificar essa taxa no longo prazo, sem contar a situação dos déficits e da dívida do governo federal, que só devem aumentar. Imagine dois casos: cenário semelhante a 2002, com Lula tendo grande chance de ser eleito (isso elevaria a SELIC?); cenário em que Bolsonaro é eleito e Guedes entra na Fazenda, o que possivelmente traria mais confiança nos mercados (isso seria suficiente para manter o nível atual da SELIC, todo o resto permanecendo relativamente o mesmo?)

    2 - Você acha que o Fed vai fazer QE 4 (visto que o presidente que estiver no poder seja quando for que vier o crash não vai querer uma queda no mercado e quebra de empresas e bancos no seu mandato) após o próximo crash e isso vai trazer uma ainda maior desvalorização do dólar e dificuldade do governo de vender títulos nos mercados (desta vez os investidores não mais irão confiar, incluindo outros bancos centrais), e portanto, o Fed terá de comprar mais títulos (mais inflação, mais desconfiança, mais desvalorização). Sem contar o aumento do déficit que vira após o corte de impostos sem respectiva diminuição de gastos, o que vai subir ainda mais a dívida. Até que ponto você acha a situação do governo americano e do dólar poderá chegar caso (e acho que é o que vai acontecer) haja QE 4?
    [O endividamento do estado vai matando a economia aos poucos (ao contrário da adoção instantânea do socialismo), como agora mesmo na Venezuela. À medida que o endividamento aumenta e o arranjo não para, os gastos do governo vão subindo, os impostos e regulações aumentam, e a economia se enfraquece aos poucos. Aqui na Europa (Portugal é vice-campeão de estatismo, só perda pra Grécia, é uma derrota) e nos EUA foi isso o que ocorreu. A dificuldade de se arranjar emprego é grande e praticamente só há empregos low-paying. O privado tem de sustentar a máquina pública e vai ficando cada vez com menos oportunidades (não há diversificação no mercado e as pessoas não podem desenvolver suas potenciais habilidades, ficando no máximo em empregos low-paying, os quais até pagariam mais se não tivessem de sustentar o estado). Há décadas atrás, uma pessoa sozinha sustentava uma família inteira (4, 5 pessoas, ou mais); hoje, mesmo se for só um casal e ambos trabalharem (digamos que os dois têm empregos low-paying) não conseguem se sustentar sozinhos (se conseguem é com muito mais sacrifício do que antes). Com o endividamento crescente do governo, aos poucos os investimentos no país vão diminuindo e a atividade econômica se enfraquece. Quero só ver até que ponto isso vai chegar.]

    3 - Sobre Cingapura: pelo que sei eles adotam o câmbio fixo (Currency Board) e a moeda âncora é o dólar americano. Mas é o próprio banco central que atua como Currency Board (e não uma entidade privada em outro país, sujeito às leis do mesmo), certo? Mais ainda: caso haja essa tal maior desvalorização do dólar que mencionei na pergunta anterior, o que poderia acontecer ao Currency Board de Cingapura? E por que eles escolheram o dólar americano como moeda âncora?
    Nota: já vi um comentário seu recomendando um livro do Steve Hanke sobre Currency Boards, o qual devo ler em breve.

    Abraços,
    André Marques
  • Leandro  06/03/2018 12:58
    1) A baixa expansão monetária. O volume de depósitos em conta-corrente retornou hoje ao mesmo nível do início de 2010. Não há como haver explosão dos preços neste arranjo.

    Sobre expectativas, como expliquei na parte final do vídeo, elas importam no curto prazo. Você coloca no Banco Central uma equipa tida como qualificada, e os preços param de ser reajustados no curto prazo. Porém, no longo prazo, o que interessa é a oferta monetária. E esta, ao menos enquanto os bancos estatais estiverem sob controle, não irá explodir.

    Por isso, não visualizo a SELIC voltando a dois dígitos tão cedo.

    2) Quando a recessão chegar aos EUA, sim, haverá QE4. Qual será o comportamento do dólar? Nem ideia. Um coisa que aprendi é que jamais se deve fazer previsões cambiais.

    Seu comentário sobre como os déficits e o endividamento do governo deprimem a economia e afetam o padrão de vida da população foi perfeito.

    3) Não há Currency Board em Cingapura, mas sim um arranjo de câmbio atrelado. Fiz um podcast quase que exclusivo sobre Cingapura.

    www.mises.org.br/FileUp.aspx?id=364

    Grande abraço!
  • André Marques  18/03/2018 14:28
    Olá, Leandro.

    Obrigado mais uma vez pela resposta e esclarecimentos.
    Fui aprovado no mestrado em Economia da Lisbon School of Economics and Management (da Universidade de Lisboa). Como você disse, não é recomendável fazer faculdade (em economia nem se fala), mas infelizmente, devido a regulações e outros fatores, praticamente só se consegue emprego na área com diploma.

    Deixo aqui mais um questionamento. Sobre o FGC: você tem alguma ideia do porquê de as regras do FGC terem mudado? Como funciona o FGC? De onde vêm os recursos dele?
  • Leandro  18/03/2018 15:09
    "você tem alguma ideia do porquê de as regras do FGC terem mudado?"

    Antes, o FGC garantia até R$ 250 mil por CPF.

    Se você tivesse R$ 2 milhões espalhados em várias contas bancárias abaixo de R$ 250 mil cada, e todos esses bancos quebrassem, você receberia todo o dinheiro.

    Agora, o teto passou a ser de R$ 1 milhão. No exemplo acima, se todos os bancos quebrarem, você só recebe R$ 1 milhão.

    Por outro lado, investidores estrangeiros, que antes não contavam com a cobertura do FGC, agora passam a usufruí-la.

    Por que as regras mudaram? De um lado, pela própria realidade econômica (é irreal garantir depósitos sem limite máximo). De outro, foi para prejudicar os bancos pequenos e as fintechs, que, embora ainda com pequena fatia de mercado, estavam crescendo e tomando clientes dos bancos grandes. Com a redução do FGC, torna-se mais arriscado ter muito dinheiro em bancos pequenos.

    "Como funciona o FGC? De onde vêm os recursos dele?"

    O FGC é uma instituição privada e mantida pelos próprios bancos. No Brasil, não é o governo quem garante o sistema bancário em caso de quebras, mas sim os recursos do FGC.

    De novo: o FGC é um fundo privado formado pelas contribuições dos bancos. Cada banco deposita mensalmente no FGC uma porcentagem sobre todos os seus depósitos que são garantidos por esse fundo.

    Essa é uma vantagem do nosso sistema bancário em relação ao dos EUA, por exemplo. Isso o torna mais sólido e menos propenso a lambanças.

    Nos EUA, quem garante os bancos é o próprio governo federal, por meio da Federal Deposit Insurance Corporation, uma instituição estatal. No Brasil, são os próprios bancos que "têm o seu na reta".

    Ou seja, no Brasil, os bancos sabem que, se forem imprudentes, é o próprio dinheiro deles que terá de ser usado para socorrê-los (o PROER da década de 1990 nada tinha a ver com o comportamento dos bancos, mas sim com a radical mudança do regime monetário, obra do próprio governo).

    Já nos EUA, os bancos sabem que, caso algo dê errado, o governo federal está pronto para socorrê-los, pois esta é exatamente sua auto-declarada função.

    Esta garantia estatal foi um dos fatores a estimular a crise financeira de 2008
  • Victor  02/03/2018 12:30
    Se tudo der certo, muito certo e a economia brasileira crescer na média de 3% a.a. de 2018 a 2021 voltaremos ao PIB per capita de 2013, quais as chances de isso acontecer?
  • O Último Libertário vivo  02/03/2018 12:32
    Leandro,

    Por que o Meireles está repetindo as mesmas falas nas entrevistas há 6 meses ?
  • Petrus Ratisbonne  02/03/2018 16:20
    Posso utilizar esse artigo para convencer alguns jovens da igreja de que, existe um cenário promissor e que é possível uma explicação racional para esse descalabro todo e, convencê-los de que a veia socialista da economia brasileira promovida por muitos governos é um fator de erro?
  • Caio Henrique  02/03/2018 16:23
    Pergunta de Leigo:

    Renda fixa seria a renda média da empresa quando a economia não está subindo?

    Existe algum artigo explicando como funciona essa venda de Títulos do Tesouro ? Comprar dívidas ( ainda mais do estado ) não faz muito sentido pra mim.

    Outra, Por que os empresários se deixam levar por essas influências ? Não é um jogo de cartas marcadas ? Se essa manipulação dos juros é algo ruim, como as pessoas não percebem isso ? Não foi o mesmo ocorrido em 1929 ?

    "A quantidade de dinheiro na economia está crescendo por causa da expansão do crédito tanto para consumo quanto para investimento. Consequentemente, o volume de gastos também está crescendo. E como os salários e o consumo estão em alta — por causa majoritariamente do aumento da quantidade de dinheiro e do volume de gastos —, não há como impedir o aumento acelerado dos preços."

    Também não entendi essa parte. Como a economia cai ? O setor industrial acaba produzindo mais que a demanda e em seguida aumenta os preços para recuperar o prejuízo ?
  • Eduardo  02/03/2018 16:54
    "Renda fixa seria a renda média da empresa quando a economia não está subindo? [...] Comprar dívidas ( ainda mais do estado ) não faz muito sentido pra mim. [...] Como a economia cai?"

    Rapaz, vc tem muita leitura pela frente hein?
  • Caio Henrique  03/03/2018 04:17
    Se não quer ajudar...
  • Andre Fernandes  03/03/2018 15:58
    Caio,

    "Renda fixa seria a renda média da empresa quando a economia não está subindo? "

    Quando se fala em renda fixa, são os investimentos tipo CDB, LCI e etc. São investimento de baixo risco e que passam a valer a pena quando a taxa de juros está alta.

    O que ele quer dizer é que com uma taxa de juros alta no mercado, vale mais a pena uma aplicação financeira de baixo risco e retorno razoável do que pegar um empréstimo para investir em capacidade produtiva. Esse empréstimo viria com juros altos para quitação e o retorno desse investimento costuma levar alguns anos.

    Nesse caso, o empreendedor opta por uma aplicação financeira e deixa de aumentar a sua capacidade, não gera novos empregos e por aí vai...

    "Existe algum artigo explicando como funciona essa venda de Títulos do Tesouro ? Comprar dívidas ( ainda mais do estado ) não faz muito sentido pra mim. "

    Não deveria fazer sentido para ninguém. O governo, quando não consegue pagar as suas contas com o dinheiro arrecadado dos impostos, opta por incorrer em se endividar para cumprir seus compromissos.

    Ele emite os títulos da dívida e bancos e pessoas físicas compram de olho no rendimento e no baixo risco (já que o governo não irá dar calote). Desta forma o governo consegue dinheiro para se financiar e a bola de neve vai crescendo.

    "Outra, Por que os empresários se deixam levar por essas influências ? Não é um jogo de cartas marcadas ? Se essa manipulação dos juros é algo ruim, como as pessoas não percebem isso ? Não foi o mesmo ocorrido em 1929 ? "

    Foi um pouco do que o Leandro disse no texto. Se você vê esse aumento de demanda e não entra no jogo, corre o risco de ser engolido pelos seus concorrentes e acabar de fora. Pode ser que depois que passe o momento de expansão você tenha perdido uma fatia significativa do mercado e não consiga recuperar.

    Sobre 1929, acho que é melhor você ler artigos específicos sobre. Tem muita coisa pra ser esclarecida:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2594

    "Também não entendi essa parte. Como a economia cai ? O setor industrial acaba produzindo mais que a demanda e em seguida aumenta os preços para recuperar o prejuízo ? "

    Todo esse ciclo só se mantem enquanto a expansão da quantidade de dinheiro se mantém. E ela não pode se manter para sempre. A partir do momento em que isso desacelera, para ou começa a se retrair a situação se inverte.

    Você vai ter pessoas endividadas, crédito encarecendo e com isso o consumo começa a despencar. Se o consumo começa a cair, as empresas começam a ter dificuldades em manter o tamanho da operação que foi adotado para atender a demanda do momento anterior.

    É aí que a economia começa a se rearranjar. Os investimentos malfeitos terão que ser resolvidos para que se liberem recursos para setores com demanda real. Com isso empregos vão ser extintos em inúmeras áreas, empresas quebram e por aí vai.


    Espero que meus comentários possam te ajudar a clarear um pouco. E peço aos amigos do site que me corrijam se tiver cometido algum erro nas respostas.

    Abs,
    André
  • Caio Henrique  03/03/2018 21:23
    Muito obrigado Andre, agora eu compreendi perfeitamente.
  • Rene  02/03/2018 19:58
    Em minha humilde opinião, o maior mérito da Escola Austríaca de Economia é focar no mundo real, sem ignorar o senso comum. Ao estudar economia Keynesiana, a primeira recomendação que um professor pode fazer para os alunos é pedir para eles esquecerem tudo o que eles sabem sobre economia. Na escola Austríaca, não são feitas simplificações grosseiras do mundo, pressuposições que exigem um exercício mental pesado para não conflitarem com a realidade, ou mesmo explicações estapafúrdias para justificar algum dado empírico que não bate com a teoria. Muito pelo contrário, os conhecimentos empíricos de economia que aprendo desde criança na família continuam sendo válidos, como o fato de que eu não posso gastar mais do que ganho e que endividamento tem consequências. Talvez justamente por nunca ignorar o óbvio é que as explicações costumam ser simples e abrangentes, mesmo tratando de algo complexo como é a economia.
  • Felipe Lange  03/03/2018 21:20
    Exatamente. A Escola Austríaca incomoda o sistema estatal pois ela é a única escola que explica a economia como ela é, e a economia demonstra a realidade tal como ela é. Aprendi muito mais lições de vida lendo as primeiras páginas do livro Ação Humana do que em mais de 7 anos trancado em escolas.
  • Pobre Paulista  03/03/2018 23:22
    Seu comentário se resume em uma única frase: A escola austríaca é a única que propõe teorias apriorísticas
  • André B  02/03/2018 23:22
    Parabéns Leandro! Ótimo artigo, e a palestra idem.
    Obrigado por oferecer este grande conhecimento para nós e tudo gratuitamente.

  • Mídia Insana  03/03/2018 00:13
    Fantástico, Leandro!
  • Eric  03/03/2018 05:02
    Excelente artigo. Uma verdadeira aula em linguagem simples e clara! Muito obrigado Leandro.
  • Leandro  05/03/2018 21:21
    Prezados André B., Mídia Insana e Eric, muito agradecido pelas palavras e pelo reconhecimento. Abraços!
  • Andre Fernandes  03/03/2018 14:43
    Leandro,

    Artigo fantástico. Parabéns pelo trabalho!

    2 dúvidas:

    1 - É possível estender essa análise para chegar a uma correlação entre a quantidade de dinheiro disponível em depósitos a vista e o volume de vendas das empresas? Já que existe a relação com a taxa de juros, que deveria conter a inflação, que contém a variação nos preços dos produtos, isso deveria impactar diretamente no volume vendido (como foi falado no texto). Mas será que é possível colocar as séries lado a lado em um gráfico?

    Digo isso pois trabalho na área de previsão de demanda em uma empresa e ainda não vi ninguém tentar fazer a análise e projeção de vendas começando com este dado do dinheiro disponível.

    Acredito que seja possível seguir o caminho inverso para mostrar que faz sentido: dinheiro disponível -> volume vendas ao consumidor -> volume vendas distribuidores -> volume vendas da empresa q trabalho (produz cosméticos)

    Ou será que o mercado de cosméticos pode apresentar um comportamento diferente?

    2 - Se for possível passar pela etapa acima, ainda assim seria necessária uma estimativa de como a quantidade de dinheiro se comportaria nos próximos meses para tentar chegar a uma proposta de volume de vendas. (considerando outras variáveis como investimentos em mídia, verba comercial e etc...)

    Como tentar montar essa estimativa? É possível? Ou só podemos olhar para o passado?

    Não sei se fui claro nas dúvidas, mas fiquei com a sensação de que podemos mudar a forma como pensamos o trabalho dentro da empresa para algo mais próximo da realidade da economia. Só que será preciso uma demonstração (usando o passado) de que o raciocínio funciona.

    Abs
    André

  • Leandro  05/03/2018 21:39
    1) Difícil, pois se trata de uma mercadoria cuja demanda se tornou relativamente inelástica. Com desemprego baixo e renda em alta, as mulheres demandam para sua rotina cotidiana e também para sair e se divertir (o que ocorre com freqüência em um cenário de economia aquecida). Com desemprego alto e renda em queda, as mulheres demandam tanto para entrevistas de emprego quanto para usarem em sua rotina cotidiana (pois não querem ser vistas como relapsas, não importa a situação).

    Em todo o caso, eis aqui um gráfico que engloba artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, perfumaria e cosméticos. Veja você o que consegue extrair dele.

    2) Prever o comportamento da oferta monetária é mais fácil: ela irá subir, mas não muito aceleradamente (vai depender dos bancos estatais). Como isso irá impactar sua área? Bom, aí você está muito mais bem equipado do que eu. Mas o gráfico acima pode dar alguma pista.

    Obrigado pelas palavras e forte abraço!
  • Andre Fernandes  06/03/2018 14:19
    Leandro,

    Muito obrigado pela disponibilidade!

    1) No caso de maquiagens eu concordo, mas o alto volume da empresa que trabalho vem de produtos como shampoo, condicionador, coloração entre outros. Produtos de baixo valor agregado e alguns que não geram muita fidelidade. Entendo que pode variar em momentos de crise com uma migração para marcas mais baratas e o contrário quando a economia se aquecer.

    Existe alguma série temporal que nos permita ver essa variação da quantidade de dinheiro por classe (A, B...)?

    Sobre a série que me indicou, ele coloca como um índice. É um índice referente a preços?

    2) É o que pretendo fazer e esse artigo ajudou muito na forma de pensar. Consegui cruzar a série 1826 com dados de venda ao consumidor de um de nossos maiores clientes e parece trazer uma correlação significativa (incluí algumas variáveis que explicam eventos recorrentes nos anos) e acho que é um caminho interessante.

    De lá vou tentar fazer o caminho inverso para tentar chegar nas nossas vendas, levando em conta dados de estoque na cadeia. Tudo orientado por uma estimativa de crescimento do dinheiro na economia.

    Pode não dar em nada haha mas, no mínimo, vou aprender algumas coisas importantes no caminho e reforçar os argumentos no dia a dia.

    Vejo muita gente abordar previsão de vendas de um ponto vista puramente matemático, ao contrário de uma abordagem mais complexa que envolve entender o processo de decisão do consumidor na hora de comprar um produto. As leituras da EA tem ajudado bastante a questionar esse tipo de visão.

    Muito obrigado mais uma vez. Pode não parecer muito, mas sem esse artigo eu não estaria tentando trazer uma nova abordagem para um tema relevante dentro da empresa.

    Forte abraço e continuem o excelente trabalho!
    André
  • Kelvin  03/03/2018 14:58
    diferença entre livre mercado e governo no brasil

    epocanegocios.globo.com/Empresa/noticia/2018/03/mercado-livre-luta-contra-frete-mais-caro-no-brasil-enquanto-lanca-entrega-gratis-na-argentina.html
    adnews.com.br/internet/freteabusivonao-movimenta-redes-sociais-de-netshoes-mercado-livre-e-correios.html
    dc.clicrbs.com.br/sc/noticias/noticia/2018/02/mercado-livre-e-correios-duelam-sobre-aumento-no-preco-dos-fretes-10175180.html
  • Juros  03/03/2018 19:20
    Se o juros ficar baixo, graças ao governo, não vai secar todas as poupanças?

    Veja bem, ficar segurando o juros baixo, vai ter uma corrida pra pegar empréstimos. Não vai secar a fonte uma hora?
    No curto-prazo vai secar as poupanças e depois? Sem poupança não há empréstimo. Se o juros não fosse manipulado, quando houvesse escassez de poupança o juros aumentaria naturalmente e fomentaria a poupança novamente.
    Como um clico, juros alto = poupança escassa, juros baixo = poupança abundante


    E qual o efeito se o governo jogar o juros pra baixo e tiver pouca poupança?

    Abraços e desculpe sou estudante
  • Alessandro   03/03/2018 20:05
    Sensacional! Estou sem palavras para expressar minha gratidão pelo aprendizado.

    Alguém sabe se existe algum lugar onde se encontre o saldo em conta-corrente de todos os (ou de vários) países do mundo? Muito excitante essa parte que mostra como a SELIC afeta diretamente a oferta monetária, e consequentemente o PIB e a economia. Volúpia.

    Seria ótimo ver esse mesmo fenômeno em outros países para ficar ainda mais comprovada a teoria.
  • Leandro  05/03/2018 21:43
    Obrigado a você pelo reconhecimento, Alessandro. Certamente nos sites dos respectivos Bancos Centrais será possível encontrar essa variável. Nos sites que fazem estatísticas agregadas, você encontrará o M1, que engloba também cédulas e modas metálicas -- e que, por isso mesmo, não funciona bem.

    Papel-moeda está em posse majoritariamente de pessoas de baixa renda, que não usam bancos. E essas pessoas não têm qualquer influência sobre os rumos da economia do país. O que determina as flutuações econômicas são os volumosos gastos em investimentos, em capital de giro, em contratações, em consumo etc. E esses gastos são afetados pelos juros. Já o papel-moeda não é afetado em nada pelos juros. E ele é usado em transações cotidianas de baixíssimo valor.

    Por isso, p ideal é olhar os depósitos à vista (em conjunto com a expansão do crédito), mas essa estatística específica você só encontra nos sites dos bancos centrais destes respectivos países.
  • Alessandro  06/03/2018 02:30
    É, e eu já suspeitava.

    Mas valeu muito pela dica, Leandro. É mais que o suficiente.
  • Luiz Felipe  04/03/2018 06:03
    Parabéns pelos brilhantes insights sempre presentes em seus artigos, nos seus vídeos, e em suas respostas.
    É realmente um privilégio para a sociedade existirem pessoas como você, que, com uma expertise ímpar, conseguem analisar os fatos com extrema minúcia e explicar de maneira tão palatável um tema de demasiada complexidade.

    Sobre a divergência no final do vídeo entre você e o Hélio.

    Pelo que entendi o Hélio estava concordando com o rapaz da platéia que considera não ser correto dizer que o BNDES per si gera ciclo econômico, pois tal arranjo só resulta em ciclo econômico devido ao Banco Central, para manter a SELIC dentro da meta, comprar os títulos emitidos pelo tesouro em posse dos bancos.
    Logo, na visão de Hélio e do espectador que fez a pergunta, o Banco Central foi o indutor do ciclo econômico e o BNDES apenas um meio.

    Fiquei na dúvida quanto a este ponto.

    Está compreendido por mim que no atual arranjo o BNDES gera ciclo econômico, pois, para existirem os empréstimos do BNDES, em um primeiro momento o Tesouro emite títulos que são comprados majoritariamente pelos bancos, que os compram criando dinheiro (eletronicamente) através de reservas fracionárias, e como a taxa do compulsório é inversamente proporcional à criação de dinheiro, esses bancos são obrigados a recorrer ao mercado interbancário. Esse aumento de demanda de empréstimos no mercado interbancário tende a subir os juros do mesmo, que vem a ser a SELIC, e como o Banco Central possui uma meta para a SELIC, o Banco Central, para conter a subida da SELIC, injeta dinheiro nesse bancos comprando (criando dinheiro do nada) os títulos públicos em posse dos bancos, expandindo assim a base monetária. Está claro para mim que esse primeiro momento, que resultou em expansão da base monetária, somado ao segundo momento, que é quando o BNDES concede os empréstimos, gera ciclo econômico.

    Porém, pelo que entendi, o Hélio citou duas situações hipotéticas, a primeira de que o Banco Central não fizesse as operações de mercado aberto, permitindo a subida da SELIC e portanto, não expandindo a base monetária.
    Com a ausência do Banco Central do arranjo não ocorreram nem expansão monetária e nem manipulação artificial dos juros interbancários, características essenciais para um ciclo econômico. Sendo assim, apesar de a subida da SELIC afastar possíveis investimentos e gerar fugas para renda fixa, esse arranjo não comprovaria que o BNDES não gera ciclo econômico, e sim o Banco Central é quem o gera, e que o BNDES é apenas um meio que conduz o ciclo econômico, como parecia defender o Hélio?
    Outra questão, independente da questão monetária, o simples fato de o BNDES operar com juros subsidiados já não é um gerador de ciclos econômicos visto que esses juros subsidiados podem tornar investimentos errôneos "viáveis"?

    A segunda situação hipotética citada pelo Hélio é de que não fossem os bancos que comprassem os títulos do tesouro, evitando que haja criação de dinheiro através de reservas fracionárias. Nesse arranjo, como os bancos não compraram títulos públicos, a movimentação do mercado interbancário permaneceria a mesma, o que não tornaria
    necessária uma operação de mercado aberto do Banco Central, que expandiria a base monetária. Logo, nesse arranjo, além de não haver expansão da base monetária, a SELIC permaneceria a mesma e não criaria-se a situação da primeira situação hipotética de afastar possíveis investimentos e gerar fugas para renda fixa.
    Com a ausência dos bancos comprando títulos do tesouro e por consequência disso com a ausência do Banco Central do arranjo não ocorreram nem expansão monetária e nem manipulação artificial dos juros interbancários, características essenciais para um ciclo econômico. Sendo assim, esse arranjo não comprovaria novamente que o BNDES não gera ciclo econômico, e sim o Banco Central, e que o BNDES é apenas um meio que conduz o ciclo econômico, como parecia defender o Hélio?

    Essa questão me fez ter uma dúvida em relação as pedaladas fiscais cometidas por Dilma, e muito bem explicadas em um artigo seu aqui no IMB.
    Quando os bancos públicos emprestaram a grana das pedaladas criando dinheiro (eletronicamente) através de reservas fracionárias, suponho que era para ter havido uma disparada na SELIC e que tal disparada foi atenuada através da expansão da base monetária por parte do Banco Central, comprando títulos públicos em posse dos bancos.
    Indo de encontro a situação hipotética criada pelo Hélio, caso o Banco Central não fizesse as operações de mercado aberto, e tivesse deixado a SELIC disparar, as pedaladas teriam sido inflacionárias?
  • Daniel  04/03/2018 12:49
    "a primeira de que o Banco Central não fizesse as operações de mercado aberto, permitindo a subida da SELIC e portanto, não expandindo a base monetária."

    Ainda assim, o dinheiro estaria saindo das reservas bancárias. Ou seja, um dinheiro que estava represado nas reservas dos bancos entrou na economia. Isso, por si só, é uma expansão monetária.

    E a única maneira de contrabalancear essa expansão é com os bancos vendendo títulos (CDBs) a investidores privados para recuperar esse dinheiro.

    Se isso ocorrer, então, de fato não terá havido expansão monetária, mas haverá aumento de juros. Havendo aumento de juros, ocorre a migração das contas-correntes para a rende fixa, gerando oscilações na quantidade de dinheiro líquida na economia.

    "A segunda situação hipotética citada pelo Hélio é de que não fossem os bancos que comprassem os títulos do tesouro, evitando que haja criação de dinheiro através de reservas fracionárias"

    Aí tudo voltaria a ser exatamente como na época em que o BNDES se financiava exclusivamente via FAT.

    "caso o Banco Central não fizesse as operações de mercado aberto, e tivesse deixado a SELIC disparar, as pedaladas teriam sido inflacionárias?"

    Se a quantidade de dinheiro despejada na economia fosse igualmente recolhida da economia, então não. Mas isso exigiria juros altos, exatamente o oposto do objetivo do governo da época.

    No final, fixemo-nos à realidade: havendo um BC com o objetivo de manter a Selic dentro da meta estipulada, então ele sempre irá intervir e expandir a base monetária (e, com isso, efetivar a expansão monetária ocorrida) sempre que houver operações que afetem a taxa de juros.

    Na prática, portanto, bancos comprarem títulos sempre será uma prática inerentemente inflacionária — a menos que eles próprios consigam enxugar da economia a mesma quantidade de dinheiro que despejaram. Mas isso gera aumento de juros. E é aí que o BC entra, como exige seu mandato.
  • Leandro  05/03/2018 21:44
    O Daniel disse tudo e me poupou um trabalhão. Obrigado! E obrigado também ao Luiz Felipe pelas gentis palavras. Abraços aos dois.
  • Ricardo  04/03/2018 11:59
    www.bbc.com/portuguese/internacional-43247861

    e ai neoliberais o que tens a dizer?
  • Felipe Lange  04/03/2018 13:12
    (MEIO-OFF)

    Pessoal, tenho o costume de responder a alguns tweets que o Pirula faz envolvendo economia e filosofia política, e ontem eu dei essa resposta. Acho que eu argumentei errado, tanto é que a "militância" dos seus seguidores (eu gosto do Pirula, mas os seus seguidores são nojentos; são cientificistas) veio em massa. Como eu poderia melhorar isso?
  • Breno  04/03/2018 19:27
    Sobre a Finlandia, ver o que escreveu o leitor Vladimir (30/01/2018 12:53) na seção de comentários deste artigo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2834
  • Mídia Insana  05/03/2018 00:35
    Por que está tentando discutir em 160 caracteres o que ainda não foi decidido depois de décadas de literatura?

    O Twitter não é veículo para nada além de aforismos e links (onde está realmente o conteúdo). Discussão lá devolve em batalhas de popularidade, especialmente se você estiver cutucando uma colméia. Sendo que você terá mais sorte convencendo uma colméia com ideias abstratas do que terá convencendo o usuário médio do Twitter.

    Eis um injustamente esquecido podcast do Bruno com a Patrícia Bueno sobre o tópico da reforma agrária:
    www.mises.org.br/FileUp.aspx?id=373 (tão instrutivo que deveria ser mencionado em todo artigo sobre direitos de propriedade)

    Sobre o método do Freire, temo que você tenha sido de fato infeliz ao comentar a respeito. Você se colocou em uma situação desnecessariamente difícil. Talvez tivesse sido melhor aproveitar os 160 caracteres do Twitter e ter colocado a colméia na defensiva, argumentando por algo que jamais conseguiriam defender em 280 caracteres. Tipo perguntar "explique-me como a pedagogia do oprimido fez bem aos Sem Terrinhas do MST", ou simplesmente pedir para ouvir mais sobre como a reforma educacional teria sido benéfica.

    Só meus 20 centavos a respeito.
  • Leigo  05/03/2018 11:36
    "Como eu poderia melhorar isso?"

    Estudando.
  • Mídia Insana  05/03/2018 15:41
    O Lange sabe bastante. Assista aos vídeos dele. Ele só se colocou em uma posição difícil onde até o Sowell teria problemas.

    Imagina se eu tivesse ido ao Twitter para debater todas as burradas do governo Dilma em venezuelanos 280 caracteres. Aconteceu tanta ***** que eu mal arranharia o problema.

  • Julio Gonçalves  04/03/2018 15:16
    Como o artigo recente aqui no Mises economia não é um jogo de soma zero. Ou só ganha quando alguém perde. Que a fome na África irá ser debelada quando a escassez atingir a América. Parece o jogo da soma mas não é, evidentemente. Agora, quanto a economia brasileira se Águia ou Galinha a vejo como um voo rasteiro ainda assim num ambiente bastante turbulência. Para chegar ao um voo de Águia acompanho o artigo ou seja, é preciso fazer as Reformas - da previdência e tributária principalmente. Parabéns pelo excelente artigo Leandro.
  • Investidor Consciente  04/03/2018 20:30
    Gostaria de saber o que os economistas austríacos têm a dizer sobre análise fundamentalista e análise técnica dos mercados financeiros. Seria a análise técnica uma maneira errada de analisar os ativos, já que ela se vale da matemática?

    E quanto à análise quantitativa? Eles utilizam métodos matemáticos e estatísticos avançados e os hedge funds que o utilizam (Renaissance Technologies é um exemplo) obtêm retornos até 50% maior que o S&P500. Isso não deveria acontecer, pois de acordo com Mises é impossível modelar a ação humana matematicamente. Assim, toda a análise econômica deveria ser qualitativa. Ou seja, aparentemente a única forma sensata de se analisar ativos seria através da escola fundamentalista, que se usa de critérios subjetivos.

  • Pobre Paulista  05/03/2018 11:57
    A EA fala sobre a expansão do crédito e seus efeitos sobre a inflação e ciclos econômicos. Isso nada tem a ver com a forma que as pessoas precificam ativos.
  • Demolidor  05/03/2018 04:01
    Aproveitando o gancho da economia brasileira, arrisco um exercício de futurologia: estaria o governo Trump na primeira fase do populismo?

    Vejamos: desonerações, aumento de gastos com infra-estrutura, restrições à importação, aumento do déficit, e o M1 do Fed não para de crescer... não sei em qual país eu vi isso antes hehe.

    Minha leitura é que no curto prazo, os efeitos serão benéficos (como sempre ocorre no início do populismo. Aumentos salariais foram um exemplo disso). Mas a conta deve chegar, provavelmente no próximo governo (talvez ele mesmo).

    Na dúvida, estou achando vital não ficar exposto em dólar.

    Por favor, quem julgar que minha avaliação é equivocada, peço que faça um contraponto.
  • Rafael Nobre de Lima Santos  05/03/2018 16:07
    Amigo, o seu comentário parece bem lógico ! Mas acredito que precisaria de alguém bem mais experiente do que eu pra poder responder com mais propriedade, mas é uma observação que me parece fundamentada no que tenho lido nos últimos meses ! Seu amigo de Alagoas
  • Demolidor  06/03/2018 04:35
    Obrigado pelo elogio.

    Meu racional é que a única coisa realmente boa nesse pacote todo de medidas é a desoneração. O problema é que ela deve vir acompanhada de um corte de gastos. E o governo Trump me parece exageradamente intervencionista.

    Resta-nos esperar. Talvez até vejamos o dólar subir no próximo um ano ou dois, fruto da melhora inicial decorrente, principalmente, da redução dos impostos. Mas eu tenho aqui meu receio de que a conta vai acabar chegando.

    Uma outra coisa que pergunto é se o cálculo da balança comercial, aqui e lá, leva em conta os sacoleiros, de vários lugares do mundo, que vão aos EUA trazer malas carregadas de roupas e outros itens. Os números existem e, embora seja muito difícil (senão impossível) mensurar dados de gastos em dinheiro de papel, eles estão disponíveis para aqueles realizados em cartões de crédito:

    www.wttc.org/-/media/files/reports/economic-impact-research/countries-2017/unitedstates2017.pdf

    Esses números entram, efetivamente, como exportação no cálculo da balança comercial ou só aparecem no balanço de pagamentos?
  • Rafael Nobre de Lima Santos  06/03/2018 15:42
    Cara, isso aí já me parece algo bem avançado, eu não faço a menor ideia ! Inclusive vou me aproveitar de você pedindo algumas indicações de leitura pra um iniciante absoluto na escola austríaca, só tenho acompanhado alguns artigos e recentemente comecei a ler o Economia e Liberdade do Ubiratan Iorio, mas achei nível intermediário pra mim..
  • Demolidor  07/03/2018 08:03
    Eu não me considero um grande especialista em Economia Austríaca e posso deixar passar muita coisa.

    Minha recomendação é o básico apenas: site do IMB, Mises, Hayek e Rothbard.
  • Demolidor  09/03/2018 03:33
    Em tempo, o setor turístico é o segundo maior exportador dos EUA e leva em conta gastos no comércio. Só me pergunto se os números não são até subestimados:

    www.ustravel.org/sites/default/files/Media Root/2014_Export_Report-PDF-FINAL.pdf
  • Rafael Nobre de Lima Santos  05/03/2018 15:52
    Não tenho nem palavras pra descrever o quão prazeroso é assistir uma aula onde um curioso e iniciante nesta área como eu consegue entender o conteúdo. Tenho assistido algumas palestras do Mises Brasil e finalizei recentemente As Seis Lições do Mises e o Guia Politicamente Incorreto da Economia Brasileira. Eu gostaria de algumas indicações para que leigos no assunto pudessem ter uma percepção melhor dessas questões. Obs:. Eu sou Cirurgião-Dentista
  • adeki  05/03/2018 16:12
    Gostaria de solicitar que os senhores administradores(exploradores malvadões kkk) do instituto criassem um aplicativo do site, visando melhor qualidade de visualização dos seus expectadores, geraria alguma renda com publicidade, para manutenção do mesmo.
    Poderiam oferecer opções de: salvar o artigo; ler mais tarde; modo noturno e etc.
    Estou empolgado com a idéia, e gostaria muito de contribuir com o instituto.
  • Eduardo Sodré  05/03/2018 19:29
    Leandro, o seu artigo é excelente, de fácil compreensão, porém infelizmente a maioria das pessoas não tem acesso ou não tem interesse em um trabalho assim. Muito obrigado pelo conhecimento que nos proporcionou.
  • Leandro  05/03/2018 22:03
    Sou eu quem agradece pelo seu tempo e atenção.

    Quanto à difusão, essa depende não só do boca-a-boca, como também, e principalmente, da capacidade de cada um espalhar o que sabe. O conteúdo teórico do artigo é praticamente 0% meu. Apenas espalhei o que aprendi com terceiros; estou fazendo o trabalho de difusão dos gigantes que me antecederam.

    Grande abraço e obrigado novamente!
  • Rodrigo Fernandes Moreira  05/03/2018 21:33
    Leandro,

    O índice de velocidade do dinheiro acrescenta alguma informação relevante para essa análise?
  • Leandro  05/03/2018 22:24
    A velocidade nada mais do que o PIB dividido pelo M1. Em tese, ela mensura a quantidade de vezes que a moeda "muda de mãos". Como, em tese, cada transação econômica é computada no PIB -- o que é falso, pois compras com papel-moeda dificilmente o são --, quanto mais transações econômicas, maior será o PIB.

    Assim, para que um M1 constante gere um aumento no PIB, será necessário que a moeda mude de mãos mais vezes.

    Eu nunca dei muita trela para esse mensurador porque, por motivos óbvios, ele só pode ser computado após você já saber o resultado do PIB. Se você quer prever a economia, um mensurador que só funciona após você já ter os dados da economia não lhe será muito útil.
  • Julimar Oliveira  05/03/2018 23:04
    Muito esclarecedor o artigo. Parabens!
  • Henrique  06/03/2018 01:08
    Leandro,

    Simplesmente fantástico artigo e incrível a sua escrita que torna qualquer assunto simples e didático. Adoraria compartilhar com vários amigos mas, infelizmente, sei que não lerão apenas por não ser uma "fonte" do mainstream, uma pena.Uma pergunta, apesar da participação forte do governo no conselho da Vale, e considerando toda a teoria explanada, você compraria Vale? Não investirei apenas curiosidade.
  • anônimo  06/03/2018 01:51
    Um dos melhores artigos desse site.
  • Rafael Nobre de Lima Santos  06/03/2018 16:27
    No final do vídeo, há uma discussão sobre se A emissão de títulos da dívida pública pelo Tesouro para o BNDES causaria um aumento da SELIC. Isso acontece pelo fato de que essa emissão de títulos causa uma migração do dinheiro das contas correntes para a renda fixa?
  • Leandro  06/03/2018 17:32
    "Isso acontece pelo fato de que essa emissão de títulos causa uma migração do dinheiro das contas correntes para a renda fixa?"

    Não exatamente. Quando bancos compram títulos públicos, a quantidade de dinheiro em suas reservas cai. Com reservas mais baixas, sobra menos dinheiro para os bancos emprestarem entre si no mercado interbancário. Consequentemente, a taxa de juros no mercado interbancário sobe. E essa taxa de juros no interbancário é exatamente a SELIC.

    Com a SELIC ameaçando subir, o Banco Central -- que tem o objetivo de manter a SELIC dentro de uma meta -- terá de intervir. Ato contínuo, ele cria dinheiro e repassa aos bancos (em troca de títulos). Consequentemente, as reservas bancárias voltam a subir, e a SELIC volta ao valor de antes.

    Artigo inteiro sobre isso:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=344
  • Lucas  06/03/2018 18:33
    Parabéns pelo artigo excelente Leandro,

    Só fiquei com uma dúvida sobre o final. No gráfico em que você mostra a relação entre a oferta monetária e a bolsa, os movimentos na bolsa parecem anteceder os movimentos da oferta monetária. Isso não tornaria essa análise ineficiente para prever movimentos na bolsa? Talvez porque os operadores de bolsa já tenham previsto o início/final do ciclo.

  • Leandro  06/03/2018 20:01
    Só para repetir e enfatizar o que já foi dito, eu não recomendo tentar antecipar o Ibovespa por esse método, e não só porque as estatais (que seguem ordens políticas) contaminam o índice, mas também pelo fato de os estrangeiros -- por meio do fluxo de capital -- terem grande participação na bolsa. E o comportamento deles independe de nossa oferta monetária.

    No entanto, ainda assim há uma correlação entre a oferta monetária e o índice (com exceção do ano de 2013).

    "os movimentos na bolsa parecem anteceder os movimentos da oferta monetária"

    Confesso que não enxergo isso.

    s18.postimg.org/a7xddwgnd/bolsa-_CC.png

    De 2003 a meados de 2008, a oferta monetária cresce e a bolsa acompanha. Ainda em 2008, tão logo a oferta monetária estagna, a bolsa cai. Em 2009, tão logo a oferta monetária volta a subir (repare no exato momento em que a linha vermelha deixa de ser plana e começa a subir), a bolsa vai junto.

    Aí, a partir de 2011, começa a haver uma perda de correlação, a qual chega ao ápice em 2013 (período de maior politização das estatais e do BNDES completamente ensandecido).

    De 2016 em diante, a correlação volta.

    Ainda assim, repito: no que tange ao Ibovespa, siga esse método por conta e risco.

    Obrigado pelas palavras e grande abraço!
  • Antônio Galdiano  09/03/2018 19:16
    Dá pra contar nos dedos de uma mão as pessoas que entendem de ciclos econômicos com a abordagem da TACE entre os formados comigo em economia na usp em 2013. O Leandro está de parabéns pelo artigo, bem minuncioso e até com dicas de trade :)
  • Antônio Galdiano  09/03/2018 19:17
    Leandro, você é trader também?
  • Poupança  10/03/2018 19:49
    A poupança não acaba não? Por exemplo...

    O governo joga o juros la pra baixo e segura, vai ter empréstimos a dar com pau. Consumo sobe e investimentos também.

    Ta ai todo esse dinheiro gasto pra consumir e emprestar vai acabar... Ou seja, as reservas, o capital acumulado foi gasto.

    E ai ninguém tem mais grana pra torrar e nem empréstimo pra fazer. Quando chega nesse ponto, se o governo continuar segurando o juros. Quais as consequências?
    Teoricamente, o juros nessa situação subiria pois ha uma escassez de capital. Todo o consumo e investimentos iriam ser retraídos...
    Se o governo não manipula o juros, há uma equilíbrio natural. Poupança esvaziando juros subindo, poupança enchendo juros descendo... E não de uma vez como a canetada...
  • Rafael  13/03/2018 21:59
    Fiquei em dúvida
    Partindo dessa premissa: indústria bens de capital produz maquinário para as indústrias de bem de consumo e elas vendem para o setor atacadista que depois revende para as "casas bahia"
    Eu vou usar exemplo uma geladeira.
    Uma indústria vende a máquina/insumos para uma indústria produzir a geladeira(ex: brastemp) a brastemp já não vende o produto direto para as casas bahia? qual seria o exemplo do setor atacadista? fiquei meio perdido por ae
  • Leandro  13/03/2018 22:41
    Porque, tradicionalmente, a rede de distribuição nacional sempre se fez via atacado. É mais cômodo e, em alguns casos, até mesmo mais barato comprar no atacado.

    1) A base de negócios do atacado é investir pesado em estoque, comprando sempre grandes quantidades com bons descontos, e mantendo o menor custo médio possível do estoque -- o que permite ao atacado oferecer ao mercado preços iguais ou até inferiores aos do fabricante.

    2) Ao contrário da indústria, o atacado atua junto aos pequenos lojistas, que não têm acesso ao fabricante (uma Magazine Luiza em Quixeramobim não pode comprar geladeira diretamente de uma indústria do ABC paulista. Não tem como).

    3) Também recorrem ao atacado aqueles comerciantes que não conseguem obter concessão de crédito com o fabricante (ou seja, a esmagadora maioria dos pequenos comerciantes no Brasil).

    4) Ademais, o atacado oferece uma prestação de serviço irresistível, que é a reposição imediata ao varejo, algo que a indústria não consegue fazer, pois, com raras exceções, a maioria trabalha com mais de 60 dias para entrega do pedido.

    5) Dependendo do tamanho do atacado e da sua estrutura de vendas, os atacadistas atendem a áreas geograficamente distantes, localizadas no "interior do Brasil", as quais, por serem economicamente fracas, os fabricantes não mantêm vendedores atendendo diretamente. (Não tem como uma loja da Ricardo Eletro no interior de Sergipe encomendar 4 geladeiras diretamente para a indústria do ABC paulista).

    6) Por tudo isso, a própria indústria sempre dependeu exclusivamente de distribuidores, revendedores e franquias. De novo: não é comum o varejo como um todo lidar diretamente com a indústria. Uma loja em Xique-Xique não telefona para a indústria do ABC para pedir 5 fogões. Ele vai para o atacado, onde o produto já está pronto e estocado.

    Em suma: a Brastemp produz suas geladeiras e as vende em grande volume para o atacado. A Consul faz o mesmo. A Electrolux faz o mesmo. E dali (atacado) as geladeiras são vendidas para as Casas Bahia, Ricardo Eletro, Magazine Luiza, Ponto Frio, Pernambucanas, Americanas e Carrefour de todos os cantos do país.

    No entanto, a sua pergunta é boa, pois este mercado tradicional está prestes a mudar:

    A Indústria está encurtando o caminho até o consumidor final

    Indústria aposta em venda na internet para entender hábitos do cliente

    B2B2C: Venda direto ao consumidor e ainda ofereça vantagens ao varejista

    Direto ao ponto: o que a Indústria ganha indo para o Varejo?

    Por que as indústrias estão expandindo suas lojas no varejo
  • Ricardo  14/03/2018 03:04
    Leandro, sou leigo, não entendo nada de economia.

    Li este artigo com o intuito de procurar o melhor investimento atual e já entendi.

    No entanto, perdoe-me a minha ignorância, mas como localizar investimentos atrelados ao IPCA +6%?

    Grande abraço e parabéns!
  • Investidor  14/03/2018 12:38
    Abra conta em corretora e compre CDBs de bancos privados. Na XP e na Easynvest, o banco BMG oferece um CDB que paga IPCA + 6,25% ao ano.

    Apenas tenha em mente que se trata de um investimento de longo prazo (5 anos), e que o IPCA deve ficar baixo por pelo menos mais dois anos.
  • VICTOR HUGO  17/03/2018 15:58
    Caro Leandro, mais uma vez um artigo espetacular e indispensável .
    Eu não sou economista e gostaria também de acompanhar esses gráficos periodicamente, porém não sei como fazer esses gráficos bem fundamentados e didáticos iguais o seu. Você se importaria em ensinar a como nos pessoas comuns podemos montar esse "radar" com base em gráficos?
    atenciosamente
  • Leandro  18/03/2018 15:17
    Clique aqui:

    www.bcb.gov.br/pt-br/#!/n/SERIESTEMPORAIS

    Depois clique em "Acesso ao SGS (Sistema Gerenciador de Séries Temporais)".

    Aí, na coluna da esquerda, em "Por código", apenas digite os números de cada série (que você encontra na parte inferior de cada gráfico).

    Exemplo: o código dos depósitos à vista (conta-corrente) é 1826.

    Só isso.

    Obrigado pelas palavras e grande abraço!
  • Fernando  20/03/2018 22:25
    Prezado Leandro, primeiramente parabéns por mais um excelente e esclarecedor artigo!

    Fiquei apenas com uma dúvida que já me perturba há algum tempo. Dado o funcionamento atual de nossa economia mundial com BCs (à exceção de Hong Kong com seu Currency Board aparentemente legítimo), qual seria um bom indicativo de um crescimento sustentável da economia? Existe algum indicador econômico razoavelmente seguro de se observar?

    Veja meu problema: Dado que o PIB é (como você bem mencionou no artigo) apenas um mensurador de volume de gastos, ele tenderia a ou estagnar ou decrescer com o passar do tempo se não fosse pela expansão monetária.

    Isto é, numa economia de quantidade fixa de moeda, os preços dos bens de consumo tenderiam a cair (por conta de aumentos de eficiência em produção, como observamos em todo o setor de tecnologia) e a não ser que a população de um país crescesse muito ou consumisse/investisse em uma velocidade extraordinária, o PIB despencaria sem realmente indicar com veracidade a situação economica do povo.

    Mesmo se possuíssemos um deflator PIB "infalível" para calcularmos seu valor real descontando a deflação, a velocidade de troca de bens não necessariamente aumentaria o suficiente para garantir seu crescimento.

    Logo, se a tendência natural do PIB real, em uma economia de moeda lastreada/fixa, é diminuir/estagnar (a não ser, como eu já mencionei, que a população crescesse muito ou as pessoas fossem muito mais ativas no mercado), como identificar quando o crescimento em uma economia louca como a nossa é genuíno?

    Meu palpite seria um crescimento do PIB a uma taxa razoavelmente maior do que a taxa de crescimento do IPCA, mas isso, como já dito, é só um palpite. Como você identifica o crescimento sustentável de países como Suíça, Dinamarca, Nova Zelândia e Austrália? Para onde devemos olhar?

    Existe alguma posição da EA quanto a um bom indicador de desenvolvimento? Sei do PIB que desconta gastos governamentais e não computa importações como algo ruim, mas mesmo esse indicador seria extremamente sensível a consumo excessivo e expansões monetárias.

    Muito obrigado pela atenção e me perdoe pelo textão!
  • Intruso  20/03/2018 22:32
    A sua lógica tem uma falha: se os preços caem (e, de fato, cairiam num cenário de moeda fixa), o deflator se torna menor que 1. Consequentemente, a divisão do PIB nominal por um deflator menor que 1 irá aumentar o PIB real.

    Adicionalmente, não há por que dizer que as transações não aumentariam. Se a oferta monetária está constante, mas os preços estão caindo, então pode-se dizer que a oferta monetária real está aumentando, o que irá se refletir em um PIB nominal positivo.

    PIB nominal positivo dividido por deflator menor que 1 gera PIB real crescente.

    Há este artigo:

    Como uma economia cresceria com uma oferta monetária constante
  • uriel  23/03/2018 22:55
    o intruso explicou bem mas de uma forma capiciosa

    veja bem se vc tiver uma oferta monetaria constante em que o numero de bens estejam aumentando isso significa que o pib real esteja se elevando. olhando a china operando num cambio semi fixo pareado com o dolar durante duas decadas o pib chines cresceu absurdamente mesmo que ainda nao estivesse havendo aumento da oferta monetaria de modo explosivo
    obs: nao falo de pib mas de PPC esse sim indicara o real pib daquele pais




    "Como você identifica o crescimento sustentável de países como Suíça, Dinamarca, Nova Zelândia e Austrália? Para onde devemos olhar?"

    prefiro olhar para os eua do seculo xix

    foi o pais que chegou mais perto do que defende os austriacos e foi o maior periodo de crescimento economico da historia da humanidade e da diminuiçao de pobreza mundial
  • mateus  26/03/2018 13:08
    Um dos melhores artigos que já li, aqui no Mises. PARABÉNS
  • Paulo  29/03/2018 01:43
    Uma dúvida galera: Essa montanha-russa de PIB e depósitos à vista vale pra qualquer país?

    Pois não consegui ver uma relação tão explicita quanto essa quando relacionei o " GDP Growth Rate" com o M1(o indicador mais próximo de "depósitos à vista" que consegui) de alguns países europeus. Tem como ter um crescimento do PIB nominal sem atrelar este ao M1?
  • Leandro  29/03/2018 12:24
    Não dá pra utilizar o M1 para prever ciclos porque pelo menos metade dele é composto por papel-moeda (cédulas e moedas metálicas). E estas não têm nenhum efeito nos ciclos econômicos.

    Papel-moeda está em posse majoritariamente de pessoas de baixa renda, que não usam bancos. E essas pessoas não têm qualquer influência sobre os rumos da economia do país. O que determina as flutuações econômicas são os volumosos gastos em investimentos, em capital de giro, em contratações, em consumo etc. E esses gastos são afetados pelos juros. Já o papel-moeda não é afetado em nada pelos juros. E ele é usado em transações cotidianas de baixíssimo valor.

    O ideal é olhar os depósitos à vista (em conjunto com a expansão do crédito), mas essa estatística específica você só encontra nos sites dos bancos centrais destes respectivos países.
  • Paulo  02/04/2018 00:56
    Beleza, muito obrigado, Leandro! Só mais uma perguntinha: Qual é o nome para "depósitos à vista" em inglês?
  • English teacher  02/04/2018 12:13
    Demand deposits
  • Paulo  02/04/2018 17:07
    Obrigado!
  • Luiz Felipe  31/03/2018 01:34
    "BC reduz depósito compulsório exigido de bancos; medida deve liberar R$ 25,7 bilhões."
    "O Banco Central decidiu nesta quarta-feira (28) reduzir de 40% para 25% a alíquota de recolhimento compulsório pelos bancos nos depósitos à vista.(...) No caso da poupança, o recolhimento passou de 21% para 20%, na modalidade rural, e de 24,5% para 20%, nas demais modalidades.(...) Os novos percentuais entram em vigor em abril."
    g1.globo.com/google/amp/g1.globo.com/economia/noticia/bc-reduz-deposito-compulsorio-exigido-de-bancos-medida-deve-liberar-r-257-bilhoes.ghtml
    Quais os prováveis impactos a curto, médio e longo prazo dessa redução?
    É provável que essas medidas, que iniciam no próximo mês, causem ciclo econômico?
    Ao meu ver, com base nesse artigo, a medida anunciada é altamente inflacionária. Inclusive estou pensando em trocar meus poucos reais por dólares. Trago a questão pois é uma notícia dessa semana que saiu em diversos jornais, como Globo e Exame, e não vi nenhuma repercussão.
  • Leandro  31/03/2018 17:24
    Isso foi feito em 2012. Em 2013, houve uma grande expansão da oferta monetária. A conferir se agora o efeito será o mesmo. Tudo vai depender da propensão das pessoas a pegarem empréstimos.
  • Infiliz  06/04/2018 20:46
    A vida é engraçada mesmo né...
    Um cara tipo o Leandro TINHA que ser presidente desse caquedo de país mas certamente não teria nenhuma chance! Vou além e digo que tb não conseguiria realizar quase nenhuma reforma profunda mesmo que um poder divino implementasse ele na presidência. Já umas bestas quadradas são eleitas a torto e a direito.
  • TRADER DI-FUTURO  01/05/2018 20:43
    Uma forma de ganhar também com a mudança no juros é fazendo trade : Acredita na alta da selic: compra DIFUT ou LFT(titulo publico). Acredita na queda da selic: vender DIFUT ou LTN.
  • VICTOR HUGO  17/05/2018 19:10
    Caro leandro, boa tarde tudo bem?
    Eu baixei alguns dados do SGS e fiz uma analise de correlação sobre as variáveis, e aqui estão os resultados:

    Selic x Depósitos a vista
    R -0,800853576

    R² 0,64136645

    Selic x Produção bens de capital

    R-0,786311604

    R² 0,618285939

    Selic x produção bens de consumo

    R -0,868949667

    R² 0,755073525


    A correlação sem dúvidas é alta .

    Sobre o R ², quanto maior mais explicativo é o modelo, melhor ele se ajusta à amostra.
    Por exemplo, se o R² do modelo Selic x Depósitos a vista é 0,64136645, isto significa que 64,12% da variável dependente consegue ser explicada pelos regressores presentes no modelo.

    Pergunta:

    1- O restante 35.88% não pode ser explicado pelo modelo, então quais os outros fatores que podemos colocar neste exemplo?

    2- Até que ponto esse modelo é confiável? Existe um minimo de R e R² para ser considerado uma analise segura?

    Atenciosamente

  • Leandro  17/05/2018 19:47
    Se o resultado é esse, então a correlação é muito maior do que até eu próprio imaginava. Em economia, qualquer correlação acima de 50% é alta. Não há duas variáveis cuja correlação chegue a 100%. Isso é impossível. Há vários fatores externos que afetam essas duas variáveis, sendo a principal delas a ação humana.

    Por exemplo, eis duas variáveis cuja correlação deveria ser direta: aumento do salário mínimo e desemprego. A teoria ensina que, tudo o mais constante, se você elevar artificialmente o preço da mão de obra, aquelas pessoas menos qualificadas (e que, logo, não têm uma produtividade que justifique o preço de sua mão-de-obra) ficarão desempregadas.

    No entanto, nem sempre uma elevação do salário mínimo gera aumento no desemprego. Por quê? Por vários fatores, mas o principal é o aumento da oferta monetária. Se o governo decreta uma aumento de 5% no salário mínimo, mas a oferta monetária aumenta 10%, então não há motivos para haver aumento do desemprego. A quantidade de dinheiro aumentou mais que o preço da mão-de-obra. Consequentemente, em termos reais, o preço da mão-de-obra até barateou.

    (Outro fator que deve ser considerado é o contrafatual: o desemprego seria ainda menor caso não houvesse esse aumento do salário mínimo.)

    Se a correlação entre SELIC e produção industrial chegou a 75%, então, para efeitos econômicos, a correlação pode ser considerada praticamente total. E isso, repito, é muito maior do que até eu próprio imaginava.

    Com base apenas na teoria, eu já poderia afirmar -- respondendo agora à sua segunda pergunta -- que a análise é totalmente segura. Seus resultados econométricos, no entanto, serviram apenas para confirmar matematicamente a veracidade da teoria (que não é minha, como deixei claro, mas sim de Mises).

    Obrigado pelo seu trabalho e grande abraço!
  • VICTOR HUGO  18/05/2018 03:44
    Grande Leandro, obrigado pela resposta

    Se essa correlação te surpreendeu , olha só essa aqui sobre IVGR x operações de crédito do sistema financeiro (7518/20612).
    Correlação 0,907414289
    R² 0,823400691
    imgur.com/a/WZKWYdC

    O resultado está ai na nossa cara, crédito direcionado leva ao aumento dos preços, desencadeia a euforia, boom, demanda artificial , oferta não acompanha demanda etc etc.

    Aqui no caso preciso ressaltar que como a série de credito direcionado ficou descontinuada eu "juntei os buracos das duas" e incorporei uma série na outra , a antiga com a serie mais atual, não sei se seria a maneira mais adequada mas está ai.
    Eu não sou economista, mas acredito que a estatística seja universal . Fiz uma analise de regressão e correlação entre duas variáveis (séries).
    Eu trabalho no mercado imobiliário e agora graças ao artigo eu consigo refinar minhas analises.

    Obrigado caro Leandro

    Atenciosamente
    Victor Hugo
  • Brasil  22/05/2018 18:37
    Leandro, com certeza esse artigo vale mais que o diploma de muita faculdade em economia. Simplesmente brilhante e muito didático.

    Minha dúvida é a seguinte:

    Qual é a explicação que os keynesianistas dão para a crise que o Brasil passou?

  • Leandro  22/05/2018 19:20
    Desconheço qualquer tentativa da parte deles (o que, aliás, merece aplausos, pois realmente não teriam o que inventar). O governo Dilma foi simplesmente uma tragédia para o keynesianismo e para todas as políticas heterodoxas.

    O trágico legado da "Nova Matriz Econômica" - um resumo cronológico

    Explicando as pedaladas fiscais: por que são crime e por que prejudicaram exatamente os mais pobres

    O legado humanitário de Dilma - seu governo foi um destruidor de mitos que atormentam a humanidade

    Obrigado por suas gentis palavras. Grande abraço!
  • Fernando  29/08/2018 15:49
    Pessoal, fiquei com duas dúvidas: Essa relação entre Depósitos à vista X PIB é sempre válida? Pergunto isso pois ao observar no site do FRED a relação entre Deposits demand X GDP dos EUA não consegui estabelecer uma conexão tão evidente. E para que dados econômicos eu deveria olhar para identificar um crescimento sustentável da economia, já que o PIB brasileiro é tão atrelado à oferta monetária?
  • Leandro  29/08/2018 17:42
    "Essa relação entre Depósitos à vista X PIB é sempre válida?"

    Quando os depósitos à vista abarcam realmente apenas os depósitos a vista, sim. Esse é o caso do Brasil.

    Em determinados países, há depósitos que funcionam como se fossem à vista, mas que estão sob outras nomenclaturas, o que torna a análise bem mais difícil.

    "Pergunto isso pois ao observar no site do FRED a relação entre Deposits demand X GDP dos EUA não consegui estabelecer uma conexão tão evidente."

    Os EUA têm muito mais diversidade de modalidades bancárias que o Brasil, além de ter um shadow banking enorme (sendo que o do Brasil é quase inexistente). Consequentemente, lá há vários tipos de contas bancárias que funcionam como depósitos à vista, mas que não são incluídas na rubrica "demand deposits", o que torna a análise bem mais complicada e ofuscada.

    Ainda sobre os EUA, um indicador infalível é este: a recessão ocorre após a linha azul se encontrar com a vermelha (o que varia de 6 meses a um ano).

    fred.stlouisfed.org/graph/fredgraph.png?g=l0P0

    Ou seja, quando há uma inversão da curva de juros, isto é, quando os títulos de curto prazo (como os títulos de 3 meses) ficam com juros acima dos títulos de longo prazo (como os de 30 anos).

    Isso é uma anomalia que precede uma recessão.

    A curva de juros se inverte (com as taxas de curto prazo sendo mais altas que as de longo prazo) porque os investidores, ao perceberem que o país está entrando em recessão ou perceberam que a inflação futura será cadente, sabem que, no futuro, as taxas de juros cairão (ou por causa da recessão ou por causa da inflação em queda).

    Sendo assim, eles correm para garantir a aquisição de títulos de longo prazo que ainda garantam altas taxas de retorno nesse cenário de incerteza. Ao correrem para esses títulos em busca de segurança, o preço deles aumenta e a taxa de juros cai.

    Isso ocorreu no Brasil em 2003, no final de 2011 e em 2015. E ocorreu em todas as grandes desinflações de história, como EUA, Canadá, Alemanha, Austrália, Nova Zelândia nas décadas de 1980 e 1990.

    Especificamente nos EUA, esse é o melhor indicador que há para prever recessões. Até hoje, a acurácia é de 100%.

    Perceba que, no final, está relacionado com o que foi exposto no artigo: se os juros sobem, o aumento da oferta monetária desacelera. Isso afeta o crescimento econômico e reduz as expectativas inflacionárias quanto ao futuro. Logo, com a economia perto da recessão e com baixas expectativas inflacionárias quanto ao futuro, os investidores correm para os títulos de longo prazo, querendo travar uma taxa ainda alta para os próximos anos. Isso derruba as taxas de juros de longo prazo.

    No Brasil ocorre exatamente como nos EUA. A diferença é que lá há este indicador prontinho no site do Fed. No Brasil, não.

    "E para que dados econômicos eu deveria olhar para identificar um crescimento sustentável da economia, já que o PIB brasileiro é tão atrelado à oferta monetária?"

    Para o Brasil, não há um indicador único e garantido, mas você pode ver a rapidez da expansão do crédito. Se uniforme, a expansão do PIB tende a ser mais duradouro. Se muito acelerada, tende a ser efêmera, pois essa aceleração terá de ser reduzida.

    Para os EUA, é só acompanhar o gráfico acima.
  • Fernando  29/08/2018 18:46
    Beleza, muito obrigado pela resposta rápida, como sempre, Leandro!

    Realmente é interessantíssima a relação entre as curvas de juros destes títulos e as recessões nos EUA. E pelo andar da carruagem elas estão bem próximas de se cruzar novamente, o que não é de se espantar dadas as bolhas de ativos que estamos observando se formar nos últimos anos.

    E quanto a expansão de crédito no Brasil, qual taxa de crescimento dos empréstimos você consideraria estável e qual seria uma já muito elevada?
  • Leandro  29/08/2018 21:33
    Não há número mágico. E, no caso do Brasil, a coisa fica ainda mais complexa por causa da ampla participação dos bancos estatais, que não seguem condições de mercado, mas sim ordens políticas.

    Escrevi sobre isso aqui. Vide o primeiro gráfico:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2466
  • Pedro  18/09/2018 11:44
    Bom dia, alguém sabe porque a série 1826 está desativada? Segundo consta no site, o último valor da série é de jun/2018.

    Ela foi substituída por alguma outra?

    Att.
  • Leandro  18/09/2018 16:13
    Sim, a série foi descontinuada. Burocratas vivem inventando novas maneiras de sempre atrapalhar sua vida e dificultar seu acesso a dados públicos.

    A nova série agora é 27790.


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