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Entrevista com Jesús Huerta de Soto sobre a “inusitada” situação europeia

[Nota do IMB: como recentemente divulgado em um de nossos artigos, os países da zona do euro que estão apresentando uma deflação de preços são, ao contrário do que prevê o senso comum, exatamente aqueles que mais estão crescendo.  O professor Huerta de Soto comenta este cenário.]

Entrevista concedida ao jornal de finanças alemão Handelsblatt.

 

Professor Huerta de Soto, a taxa de inflação de preços na zona do euro, acumulada em 12 meses, está atualmente em 0,4%.  Por acaso a deflação está nos ameaçando, como vários especialistas alertam?

Bom, em primeiro lugar, vamos corrigir os conceitos.  'Deflação' significa que a oferta monetária está encolhendo.  Isso não está ocorrendo na zona do euro.  O agregado monetário M3, que é o maior agregado disponível, está crescendo a aproximadamente 2% ao ano, ao passo que o M1, que é o agregado mais restrito, está crescendo a mais de 6% ao ano.

Embora a taxa de inflação de preços na zona do euro esteja atualmente abaixo da meta do Banco Central Europeu, que é de 2%, não há nenhum motivo para insuflar temores sobre uma iminente deflação, como vários bancos centrais ao redor do mundo estão fazendo.

Ao agirem assim, eles estão insinuando que uma queda de preços seria algo ruim.  Isso está errado.  Uma deflação de preços não apenas não é nenhuma catástrofe, como, ao contrário, é uma bênção.

O senhor terá de explicar isso.

Veja o que está acontecendo no meu país, a Espanha.  No momento, os preços ao consumidor estão literalmente diminuindo.  Ao mesmo tempo, a economia passou a crescer aproximadamente 2% em termos anuais.  Mais de 275.000 empregos foram criados em 2013 e o desemprego caiu de 27% para 23%.

Os fatos contradizem os cenários de horror para vislumbrados pelos especialistas para a deflação.

[Nota do IMB: uma das maneiras mais rápidas e corretas de se acabar com uma recessão — ou ao menos suavizar seus efeitos, é permitindo que preços e salários se encaminhem para níveis mais próximos da oferta e da demanda.  Estando em recessão, uma economia deve permitir que salários caiam para que haja mais contratações de desempregados; e deve permitir que os preços caiam ainda mais para que se adéquem à realidade dos salários menores].

Isso significa que deveríamos ficar alegres com a deflação de preços?

Certamente.  A queda de preços é particularmente benéfica quando resulta de uma combinação entre oferta monetária estável e aumento da produtividade.

Um ótimo exemplo prático dessa combinação foi o padrão-ouro clássico existente no século XIX.  Naquela época, a oferta monetária crescia aproximadamente, e apenas, 2% ao ano.  Ao mesmo tempo, as sociedades industrializadas produziram, em termos percentuais, o maior aumento da prosperidade em toda a nossa história.

É por isso que o Banco Central Europeu deveria utilizar aquele padrão-ouro clássico como um exemplo a ser seguido e reduzir a meta de crescimento anual do M3.  Atualmente, a meta é de 4,5% ao ano.  Ela deveria ser reduzida para 2% ao ano. [Nota do IMB: no Brasil, M3 e M4 estão crescendo a uma taxa de 12% ao ano].

Se a economia da zona do euro passasse a crescer aproximadamente 3% ao ano — algo plenamente factível caso ela fosse libertada dos grilhões das várias regulamentações estatais que a restringem —, os preços cairiam aproximadamente 1% ao ano.

Se a deflação de preços é tão benéfica, por que as pessoas têm medo dela?

Não creio que o cidadão comum tenha medo de preços em queda.  Essa fobia da deflação de preços é fomentada por economistas representantes da economia convencional.  Eles argumentam que a deflação de preços faz com que o fardo da dívida aumente, e com isso estrangule a demanda geral.  Mas os alarmistas se esquecem de dizer que uma queda de preços estimula ainda mais a demanda.  Também se esquecem de dizer que os credores — inclusive pessoas que têm aplicações bancárias — se beneficiam da deflação, e que isso também estimula a demanda.

[Nota do IMB: no Japão, após vários pacotes de estímulo do governo, a inflação de preços atingiu 3% ao ano, um recorde em décadas.  "Espantosamente", a demanda caiu e a economia entrou em recessão].

Não há um perigo de os consumidores adiarem seus gastos por acreditarem que tudo estará mais barato amanhã?

Esse é um argumento obtuso que você escuta repetidamente, e simplesmente parece não ir embora. 

Apenas veja a rapidez com que são vendidos os mais recentes modelos de smartphones.  E os consumidores sabem que esses aparelhos estarão mais baratos apenas daqui a uns meses.  E ainda assim eles compram. 

Os EUA foram dominados pela deflação de preços durante décadas após a Guerra Civil, a partir de 1866.  Apesar disso — ou melhor, por causa disso —, o consumo aumento.  Se as pessoas parassem de comprar porque os preços estão caindo, elas acabariam morrendo de fome.

[Nota do IMB: o ser humano sempre irá preferir ter um bem hoje a ter esse mesmo bem apenas no futuro distante. Isso é o básico da teoria da preferência temporal.  Logo, sempre que possível, consumidores preferem consumir no presente.  Além de você não poder postergar sua demanda por alimentos, roupas, moradia e alguns outros bens, há também o fato de que você não necessariamente irá adiar sua aquisição de um bem hoje só porque ele estará mais barato daqui a uma ano. Porque mesmo comprando-o hoje a um preço maior, você sabe que seu poder de compra será maior no futuro, por causa da deflação de preços].

Mas preços em queda diminuem as receitas de venda e reduzem a propensão das empresas em investir.  O senhor quer ignorar isso?

Receitas de vendas não são cruciais para empresas.  O que é realmente crucial é o seu lucro, isso é, a diferença entre receitas e custos.

Uma redução nos preços de venda aumenta a pressão para se reduzir custos.  Consequentemente, as empresas começam a substituir trabalho humano por máquinas.  Isso significa que será necessário produzir mais máquinas, o que aumenta a demanda por mão-de-obra no setor de bens de capital, que é o que paga os melhores salários.

Dessa maneira, aqueles trabalhadores que eventualmente perderam seus empregos no setor de serviços ou comercial em decorrência de uma deflação de preços irão encontrar novos empregos no setor de bens de capital. 

O estoque de capital da economia irá aumentar sem que isso resulte em desemprego em massa.

O senhor não está facilitando muito suavizar a sua posição?  A realidade é que a diferença entre as qualificações dos desempregados e as exigências das empresas é, na maioria das vezes, muito grande.

Não estou alegando que o mercado é perfeito e que as transições são suaves, rápidas e indolores.  É exatamente por isso que é crucial que o mercado de trabalho seja flexível o bastante de modo a oferecer incentivos para que empregadores criativos possam contratar novos empregados sem grandes empecilhos e custos.

Qual o papel da política?

O problema é que políticos têm um horizonte temporal muito curto.  Eles enxergam apenas as próximas eleições.  É por isso que precisamos de uma política monetária que restrinja ao máximo políticos e governos.

O euro está fazendo isso na Europa.  A moeda comum acabou com a opção dos governos de recorrer à desvalorização de suas moedas como uma maneira de ocultar os efeitos de suas políticas econômicas desastradas.  Erros de política econômica agora são vistos e sentidos diretamente pela população do país, e a perda de competitividade decorrente desses erros obriga os políticos a fazer reformas mais duras.

Em um período de apenas um ano e meio, dois governos da Espanha implementaram reformas que eu jamais sonharia ver serem implementadas durante meu tempo de vida (ver aqui e aqui).

Agora a situação econômica está melhorando e a Espanha está colhendo os benefícios da reforma.

O senhor pode estar certo no que diz respeito à Espanha, mas não há sinais de reformas fundamentais na Itália e na França...

E é por isso que a situação lá terá de piorar ainda mais para que as reformas sejam feitas.

Já aprendemos com a experiência que, quanto pior a situação, mais forte é a pressão por reformas.  Os êxitos reformistas que a Espanha e outros países do euro alcançaram aumentas a pressão sobre Roma e Paris.  O alto desemprego na Espanha reduziu os custos trabalhistas, que eram dos mais altos da Europa.  Atualmente, a uma média de €20 ou US $24.90 por hora, os custos trabalhistas espanhóis são hoje metade dos da França. 

É por isso que os franceses não poderão evitar uma drástica cura por meio da política econômica, mesmo que as pessoas de lá se oponham a isso.  Já vocês alemães deveriam se manter firmes ao rigor orçamentário como maneira de pressionar a França e a Itália.

O Banco Central Europeu está sob crescente pressão para abrir as comportas da inflação monetária e desvalorizar o euro.  A pressão está vindo de acadêmicos, dos mercados financeiros e de políticos.

O keynesianismo e o monetarismo, que são as correntes dominantes na economia, dizem que a Grande Depressão americana da década de 1930 ocorreu porque havia uma escassez de dinheiro. 

[Nota do IMB: a Grande Depressão americana se prolongou por 16 anos justamente porque o governo americano não deixou que preços e salários caíssem. A recessão gerada pelo crash da bolsa não deveria ter durado mais do que um ano, assim como ocorreu em 1920, quando houve uma recessão idêntica. Só que, ao contrário de 1920, o governo americano não permitiu a liberdade de preços e salários, de modo que estes se adequassem à nova realidade da oferta monetária. Mesmo keynesianos ortodoxos hoje já reconhecem o fracasso do New Deal, que nada mais foi do que um conjunto de políticas de controle de preços, controle de salários, aumento das tarifas de importação, aumento de impostos, aumento de gastos, aumento do déficit, e de arregimentação sindical e de empresários incentivados pelo governo a não reduzirem seus preços.]

Isso gerou uma mentalidade anti-deflação entre os acadêmicos.  E os políticos utilizam a caixa de ressonância acadêmica como forma de pressionar o BCE a reinflacionar a economia.

Governos adoram inflação porque ela lhes possibilita, por algum tempo, viver com um orçamento muito superior à realidade econômica tributária do país.  A inflação permite que os governos se endividem de maneira aparentemente indolor, e também faz com que essas próprias dívidas sejam desvalorizadas ao longo do tempo, uma vez que a moeda vai perdendo poder de compra. 

Não é de se estranhar que sejam justamente os oponentes da austeridade os principais arautos dos horrores da deflação e os grandes demonizadores do euro e de suas políticas de estabilização.  Eles têm medo de apresentar os reais custos do assistencialismo e do estado de bem-estar social aos eleitores.

O presidente do BCE, o italiano Mario Draghi, sucumbiu à pressão ao prometer que, se necessário, irá acionar as impressoras.  Foi um erro?

Vamos com calma.  Até o presente momento, o senhor Draghi se limitou apenas a fazer promessas.  Ele ainda não agiu de acordo com elas.

Embora o BCE tenha iniciado generosos programas de empréstimos e transações, e tenha reduzido as taxas básicas de juros, os juros dos títulos de 10 anos dos governos dos países mais enfermos da zona do euro estão acima dos juros dos títulos de 10 anos do governo dos EUA.  Mensurado em termos de balancetes, o BCE atuou menos do que outros bancos centrais ocidentais. (Veja a evolução dos balancetes do BCE, do Fed, do Banco Central da Inglaterra e do Banco Central do Japão )

Enquanto os guardiões do euro estiverem apenas falando e não agindo, a pressão permanecerá sobre Itália e França para que façam suas reformas.  É por isso que é crucial que o BCE resista à pressão dos governos e do mundo financeiro anglo-saxão, e não compre títulos dos governos.

Que papel estão tendo os mercados financeiros anglo-saxões?

A imprensa e os mercados financeiros anglo-saxônicos estão ostensivamente conduzindo uma cruzada contra o euro e contra as políticas de austeridade que ele impôs à Europa.  Eu realmente não acredito em teorias da conspiração, mas os seguidos e incansáveis ataques ao euro feitos por Washington e Londres sugerem uma agenda oculta.  Os americanos temem a possibilidade de que os dias do dólar como moeda global estejam ameaçados caso o euro sobreviva e se mantenha como uma moeda forte.

O euro pode sobreviver sem uma união política?

Uma união política não terá o apoio maciço da população.  E também não é desejável, pois ela reduz a pressão por austeridade fiscal.

O melhor regime monetário para uma sociedade livre é o padrão-ouro, no qual todos os depósitos bancários que funcionam à vista são 100% lastreados por ouro e não há bancos centrais.  Porém, enquanto não tivermos esse arranjo, deveríamos defender o euro porque ele restringe bastante o acesso dos governos às impressoras e os obriga a consolidar seus orçamentos e a fazer reformas. 

De certa forma, o euro possui o efeito de um padrão-ouro.


1 voto

autor

Jesús Huerta de Soto
, professor de economia da Universidade Rey Juan Carlos, em Madri, é o principal economista austríaco da Espanha. Autor, tradutor, editor e professor, ele também é um dos mais ativos embaixadores do capitalismo libertário ao redor do mundo. Ele é o autor de A Escola Austríaca: Mercado e Criatividade Empresarial, Socialismo, cálculo econômico e função empresarial e da monumental obra Moeda, Crédito Bancário e Ciclos Econômicos.


  • Pobre Paulista  09/12/2014 14:22
    Mas e aquela história que a Escola Austríaca não pode ser considerada científica pois não tem conexão com a realidade? Será que esta realidade não é real?
  • Charles Miller  09/12/2014 14:27
    Que cenário seria melhor para a zona do Euro, ter uma moeda só obrigando os governos a andarem na linha ou ter várias moedas concorrentes emitida por cada país e deixar as pessoas usarem as que elas preferirem?
  • Rhyan  09/12/2014 14:29
    Qual desses representa melhor o dinheiro? BM, M1, M2, M3 ou M4?

  • Leandro  09/12/2014 15:53
    Se a idéia é apenas saber todo o dinheiro que há na economia, independentemente de sua liquidez, então quanto maior o M melhor.

    Mas a evolução de um grande agregado de M (tipo M3 ou M4) não serve como previsão para nada -- nem pra inflação de preços e nem pra ciclos econômicos -- pois, dado que os principais componentes de um M grande são diretamente afetados por alterações nos juros (uma taxa de juros maior faz com que depósitos a prazo e fundos de investimento rendam mais, inflando o valor de M), a evolução de um M3 ou M4 deixa de funcionar como previsor para o que acontecerá com a economia.
  • Rhyan  09/12/2014 17:29
    Entendi, obrigado!
  • Enrico  10/12/2014 01:18
    Se fôssemos então transitar para um padrão-ouro com reservas de 100%, até qual agregado haveria lastro em ouro?
  • Leandro  10/12/2014 01:37
    Todos os depósitos à vista (aqueles cujo dinheiro pode ser sacado imediatamente ou transferível por meio de cheque ou cartão de débito).

    Todos os detalhes aqui:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1553
  • Enrico  10/12/2014 13:34
    "Abolição da prática das reservas fracionárias e o restabelecimento de 100% de reservas para todos os depósitos em conta-corrente e demais depósitos que na prática funcionem como conta-corrente (como aqueles depósitos em poupança que podem ser movimentados por meio de cheque ou cartão de débito)"

    O que o Soto estava falando é que seriam abolidas as reservas fracionárias, mas a pergunta era em relação ao lastro em ouro. Por exemplo, o meio circulante também seria resgatável em ouro ou até mesmo poderia ser ouro físico, certo?

    Sendo ainda mais direto no meu ponto: como seria definido o preço do ouro, da mesma forma que $20.64 equivalia a uma onça troy de ouro. Seria dividindo o M1 pelas reservas de ouro? O M2? O M3? O M4? Outro indicador?
  • Leandro  10/12/2014 14:05
    Não. Não teria nada de "definir o preço do ouro" em outra moeda. O ouro seria o dinheiro. Esse artigo faz um esboço de como funcionaria a coisa na prática.

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=710
  • Enrico  10/12/2014 14:18
    Eu entendo isso, Leandro. A pergunta era como definiríamos, por exemplo, durante uma transição para um padrão-ouro, a equivalência entre reais e ouro. Como o Rothbard escreveu, um dólar significava aproximadamente 1/20 de onça de ouro; a libra, 1/4; o franco francês, 1/100.

    Se fosse haver um padrão-ouro paralelo às moedas fiduciárias, a meu ver, o preço do ouro flutuaria como o câmbio flutua, exatamente como hoje. Correto?

    Mas se fosse haver uma transição com o Banco Central lastreando o real em ouro, seria necessário lastrear todo o dinheiro em ouro, já que estamos falando de um padrão-ouro com reservas integrais. "Todo o dinheiro", no caso, corresponderia a quê? M1? M2? M3? M4? Outro indicador?
  • Leandro  10/12/2014 14:33
    Exatamente como ocorreria para a implantação de um Currency Board.

    A maneira correta de se determinar a taxa de câmbio ouro/real a ser fixada é deixar o mercado de câmbio totalmente livre por um tempo -- a literatura diz que um mês já basta. Tão logo o real começar a apresentar estabilidade em relação ao ouro, esta deve ser a taxa escolhida. Dado que não estaria havendo expansão monetária, a taxa apresentada será a mais próxima da realidade possível. Uma vez escolhida essa taxa de câmbio, haveria a conversão.

    Ou seja, para se determinar e fixar o valor do câmbio de real para ouro é necessário, paradoxalmente, deixá-lo flutuar plenamente.
  • Enrico  10/12/2014 15:16
    1) Mas o que garantiria que o lastro seria completo? Não poderia haver uma corrida aos bancos e haver falta de ouro? Todos os reais seriam conversíveis?

    2) A definição real/ouro variaria depois da determinação ou quem minerasse ouro poderia requisitar ao Banco Central ou à instituição responsável pela impressão de reais cédulas equivalentes ao ouro minerado?

    3) Historicamente, como foi determinado que um dólar valia 1/20 de onça troy de ouro e as demais moedas?

    4) "Câmbio livre" seria compra e venda de reais e ouro sem impostos e regulações?

    5) As pessoas teriam de comprar ouro ou poderiam deixar os reais parados na conta esperando a conversão?

    6) Haveria perdas e ganhos durante a época de câmbio livre, uma vez que haveria flutuações?

    7) Você poderia me recomendar algum livro em relação a implementação de um currency board ou algo do tipo?
  • Leandro  10/12/2014 15:34
    Tudo explicado no artigo recomendado, o qual deve ser lido. Por isso ele foi recomendado. (Ao lê-lo, você verá que não tem nada disso de "Banco Central imprimindo reais equivalentes a ouro minerado"). E o item 3 é explicado m detalhe neste livro (gratuito online):

    www.mises.org.br/Ebook.aspx?id=92

    Sobre Currency Board, procure por "Steve Hanke" no Google. Ele tem dezenas de publicações a respeito.


    P.S.: estou escrevendo sucintamente e sem detalhes porque estou em trânsito, digitando num celular.
  • Enrico  10/12/2014 23:53
    Leandro, eu não estava me referindo ao que foi proposto pelo Soto, mas já que você foi explicitamente a ele, então vamos ao proposto por ele, se é que eu compreendi plenamente. Ele diz que seriam abolidas as reservas fracionárias e seria legalizada a concorrência bancária. Até aí eu entendo a ideia dele de transição, que é exatamente a que eu vinha pensando.

    A partir de então, ele diz que o Banco Central seria abolido e o ouro seria adotado como moeda. É também o que eu vinha pensando, mas com uma diferença: a meu ver, o Banco Central determinaria uma taxa de conversão entre reais e onças de ouro e passaria a gerenciar um processo de transição, onde as pessoas converteriam seus reais por ouro na taxa determinada. Até então, o Banco Central teria a função de controlar o real (por isso eu disse imprimir reais por ouro minerado) e, depois de todo o processo terminado, ele seria extinto.

    O artigo do Soto vai até a parte de dar a ideia de troca de moeda fiduciária pela moeda commodity baseada em ouro e o seu começa já com um padrão-ouro, mas nenhum dos dois dizem o que eu estou tentando compreender: o funcionamento da transição, especialmente a definição da taxa de conversão.

    Pensando aqui um pouquinho acho que ficaria mais simples e recente a minha pergunta: como foram determinadas as taxas de conversão entre as moedas europeias (marco, florim, escudo, lira, etc.) e o euro? Seria a mesma coisa determinando a taxa de conversão entre uma moeda fiduciária qualquer e o ouro?

    Obrigado pela indicação do livro e pela paciência.
  • Leandro  11/12/2014 00:04
    Exato. Igual à transição do euro. Ou, se você quiser um exemplo prático em terras tupiniquins, igual à transição do Cruzeiro Real para o Real, descrita em detalhes aqui.
  • Enrico  12/12/2014 02:33
    Parece que, um dia depois de ler bastante, estou começando a entender como seria uma transição de moeda fiduciária para um padrão-ouro.

    O que eu ainda sinceramente não consegui entender é como a ideia de deixar o câmbio flutuar por um tempo e depois determinar a taxa de conversão seria funcional.

    Não haveria necessidade de acumular reservas de ouro? É simplesmente fixar a taxa e pronto? O que impediria que houvesse uma falta de ouro durante a conversão?

    O que eu sempre vinha pensando é que haveria acúmulo de reservas de ouro e depois dividir-se-ia a quantidade de reais (não sei exatamente se seria M0, M1, M2, etc.) pela quantidade de reservas acumuladas, lastreando cada real em ouro baseado na taxa fixa determinada pela divisão, havendo de fato nos cofres dos bancos a quantidade de ouro para cada real em existência. Isso seria errado?
  • Leandro  12/12/2014 11:25
    Você está correto quanto ao acúmulo de reservas. Tem de ter reservas de ouro acumulada para se fazer a transição. Assim como tem de ter muita reserva de dólar para fazer um Currency Board.

    Quanto ao método de apenas dividir um agregado monetário (tipo M4) pela quantidade de ouro, ele seria incorreto, pois a divisão da quantidade de dinheiro por uma commodity não necessariamente gera um preço correto.

    Preço é resultado de duas coisas: valorização subjetiva que um indivíduo faz de um bem, e interação entre oferta e demanda.

    Simplesmente dividir a quantidade de papel-moeda existente pela quantidade de ouro existente faria tanto sentido quanto determinar o preço de uma unidade de pão dividindo o M4 por todos os pães existentes no Brasil naquele momento. Não é desse jeito que funciona.

    Assim como a melhor maneira de determinar o preço do pão é deixando o livre mercado fazê-lo, a melhor maneira de saber o preço do ouro é também por meio do livre mercado.

    Logo, a melhor maneira disponível para determinar o preço do ouro é justamente pelo câmbio, que é o que representa de maneira mais acurada o valor real de algo naquele exato momento.
  • Pobre Paulista  12/12/2014 13:39
    Mas espere, isso não geraria um descasamento da oferta monetária em relação à quantidade de ouro estocado?

    Suponha que todos os portadores de reais resolvam se desfazer de suas cédulas e sacarem seu ouro. Se a medida não é estritamente igual, é certeza que ou faltarão cédulas ou faltará ouro, não é?
  • Leandro  12/12/2014 14:35
    Se o intuito é cobrir apenas as cédulas e moedas metálicas em posse do público, então é fácil: isso é menos que o valor da base monetária.

    Agora, o certo seria ter ouro para cobrir, além das cédulas e moedas, os depósitos de liquidez imediata (M1 + poupança + alguns tipos de depósitos a prazo).

    Para os depósitos de longo prazo, que não têm liquidez imediata, você não precisa de ouro. Afinal, quando estes depósitos maturam, o banco tem de vender ativos para arrumar esse dinheiro (ouro).
  • Diego  12/12/2014 15:21
    Oi leandro,

    Li um artigo há alguns dias (não consegui encontrar este artigo novamente para lhe passar a fonte - mas talvez você possa me dizer se é fato) que o Fed criou tanto dinheiro nos QEs que só o que os bancos já possuem em reservas já seria suficiente para cobrir todos os depósitos à vista. Sendo assim, já poderia se implementar um sistema de full-reserve, como sugerido pelo professor Jesus Huerta de Soto. Isso é fato? Se sim, implementar oficialmente esta solução não seria uma passo importante em direção a um sistema financeiro mais saudável?

    Obrigado,
    Diego
  • Leandro  12/12/2014 16:03
    Correto.

    A quantidade de reservas em excesso já está igual ao M1, o que significa que cobre perfeitamente todos os depósitos em conta-corrente.

    research.stlouisfed.org/fred2/graph/?g=Uix
  • Enrico  12/12/2014 20:36
    Estou chegando perto de visualizar a transição.

    Então o Banco Central e os bancos teriam de acumular reservas em ouro, como eu havia dito, certo? Mas então por que você disse que deveria haver determinação pela taxa de câmbio?

    Eu ainda estou com a ideia de divisão na cabeça como sendo a única forma possível de determinar a taxa. Quando você falou do pão, se nós fôssemos adotar o pão como lastro (improvável devido à efemeridade e à abundância), eu acho que a taxa de conversão seria determinada pela divisão entre reais e pães que compusessem as reservas.

    Um legítimo padrão-ouro implica em 100% de reservas em ouro, logo não seria contraditório defender uma transição que não cumpra isso, como a de determinar a taxa de conversão pelo câmbio?
  • Leandro  12/12/2014 21:02
    Não são os bancos que terão de acumular ouro no início, mas sim o Banco Central. E não são todos os depósitos que inicialmente terão de ser cobertos por ouro, mas sim apenas os depósitos que funcionam à vista.

    Eu realmente terei de insistir para que você leia este artigo sobre o plano real, pois o esquema de transição é idêntico.

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1294

    O BC acumula reservas até que estas sejam suficientes para cobrir os depósitos com liquidez diária. Simultaneamente, o câmbio é totalmente liberado. Quando as reservas do BC já forem suficientes para cobrir esses depósitos, e quando houver estabilidade cambial, já será possível converter a moeda nacional pelo ouro à taxa de câmbio vigente no dia.

    De novo: por favor, leia o artigo linkado acima. O mecanismo de transição ocorrido durante a implementação do real é idêntico.
  • Enrico  13/12/2014 02:04
    Li e reli. Com seu último post parece que finalmente entendi. Logo, "reescrevendo" a parte do post, adaptando ao "Plano Dourado", que criaria o Dourados (D$), equivalente a 1/100 da onça de ouro.

    1) Aumentar acentuadamente as reservas internacionais — isto é, o governo deveria comprar ouro continuamente, acumulando-os até o momento da introdução da nova moeda. Quanto mais ouro o governo tivesse em suas reservas, maior seria a confiança dos investidores internacionais na seriedade e na robustez do plano, e menores seriam as chances de um ataque especulativo e de uma fuga de capitais.

    2) A mudança seguinte — e a mais importante — então ocorreria: a introdução da UDV, Unidade Dourada de Valor. A UDV foi apenas um nome técnico tupiniquim para se evitar a palavra 'ouralização'. Na prática, a UDV nada mais era do que a cotação da centésima fração da onça de ouro do dia anterior. A taxa de câmbio do final de cada dia era estabelecida como sendo o valor da UDV do dia seguinte. Este valor serviria de indexador para todos os valores da economia. Assim, os bens e serviços precificados em Real deveriam ser divididos pela UDV (taxa de câmbio determinada no dia anterior) para se encontrar os preços em Dourados.

    3) Finalmente, a taxa de câmbio encerrou o dia com o ouro valendo R$50,00 a centésima fração da onça. Portanto, todos os valores em Real deveriam ser divididos por 50 para se obter os valores em Dourados. Todas as contas bancárias, todas as aplicações e investimentos foram automaticamente convertidos em Dourados. R$50,00 foi, portanto, a paridade estabelecida entre o Real e o Dourados. Morria o Real e, nascia o Dourados, valendo exatamente 1/100 da onça de ouro (e teria de continuar, no caso, certo?). Toda a base monetária foi trocada de acordo com esta paridade de R$50,00 para cada D$1,00. Quem estivesse em posse de cédulas de Real deveria trocá-las nos bancos por certificados e moedas de Dourados.

    4) O Dourados é criado somente através de mineração de ouro, sendo todas as outras formas nada além do que falsificação de dinheiro, punível pelo artigo 289 do Código Penal. Não há mais Banco Central e os bancos operam competindo entre si, tendo como restrição apenas o direito de propriedade dos clientes e, consequentemente, a proibição de fraude e o cumprimento dos contratos.

    5) O Dourados é tratado como uma moeda comum no mercado internacional e o câmbio do Dourados flutua livremente de acordo com o preço da centésima fração da onça de ouro - a definição de D$1,00.

    É isso?
  • Raphael  09/12/2014 14:30
    Mais um excelente artigo Mises. Parabéns.

    Amigos, depois de muito acompanhar os posts, estou ciente do grande nível cultural e curricular de todos envolvidos no site(leitores/editores) Venho por meio deste pedir uma humilde opinião, trabalho com Mercado Financeiro em um Banco, e estou prestes a me matricular no curso Analista Financeiro da FGV (126h), ficaria muito grato se alguém que conhece o curso ou instituição me desse qualquer feedback. Abraços.
    Raphael AZ
  • Pobre Paulista  09/12/2014 15:14
    Você está atrás de conhecimento ou de uma estrela no currículo?
  • Raphael  09/12/2014 16:15
    Pobre Paulista

    Conhecimento é a primeira opção! Agradeço o interesse.
  • Pobre Paulista  09/12/2014 17:13
    Conhecimento vc consegue aqui mesmo, ou em qualquer biblioteca. Praticamente de graça, ou com custos muito baixo.

    Mas com o que vc quer trabalhar? "Mercado Financeiro em um Banco" é tão genérico quanto "Engenharia numa Montadora" hehe :). Muitos cargos no MF exigem certificação, em particular o CPA20, que é muito difícil de conseguir. Por isso que perguntei: Se a estrela no currículo é importante, sinceramente, atualmente uma pós na GV não quer dizer nada. (Com todo respeito à instituição e àqueles que cursaram).

    Quero dizer apenas que pós na GV não é mais um diferencial, mas CPA20 é.

    Abs
  • anônimo  09/12/2014 18:12
    Pobre Paulista entendi!!
    No meu caso já pssuo a CPA20 e CEA, meu objetivo é estar sempre bem qualificado para assessoria em investimentos. Tambem estou tentando($$) fazer o curso de Valuation no Insper em SP.. Estou no interior, e aqui é carente em cursos para esta area..
  • Senhor A  09/12/2014 15:08
    Ótima entrevista. E eu gosto quando o IMB faz "intervenções", na verdade, adição de comentários com o intuito de aproveitar algumas partes da entrevista como gancho e explicar coisas a mais. É bom porque, além de nos dar mais conhecimento, tira dúvidas de várias pessoas, sem precisar que elas perguntem.

    E só eu notei um pouco de "espanto" ou ressentimento do entrevistador por causa das respostas dadas pelo professor Huerta de Soto?
  • Adriano  09/12/2014 16:19
    Gostaria de ver uma entrevista nesse nível sendo televisionada em terras tupiniquins.
  • anonimo  09/12/2014 23:12
    Sotto já se rendeu aos argumentos do seu aluno, Philipp Bagus, ou ele insiste que uma moeda transnacional de cunho forçado é uma boa idéia (euro é o novo ouro)?
  • IRCR  10/12/2014 03:15
    Quando vão trazer Huerta de Soto para a Conferencia Anual da EA no Brasil ?
  • Eufrásia  11/12/2014 11:31
    "Eles argumentam que a deflação de preços faz com que o fardo da dívida aumente, e com isso estrangule a demanda geral. Mas os alarmistas se esquecem de dizer que uma queda de preços estimula ainda mais a demanda. Também se esquecem de dizer que os credores — inclusive pessoas que têm aplicações bancárias — se beneficiam da deflação, e que isso também estimula a demanda."

    Não há como negar que a deflação de preços beneficia os credores, e isso é ótimo. Mas justamente por isso - mesmo com toda a disciplina imposta pelo euro, e que tem sido tão benéfica para o crescimento de alguns países daquela região - ainda está difícil visualizar um país, como a Espanha por exemplo, adotando o padrão-ouro, genuíno, e sem um banco central. E por causa da dívida pública.

    Porque em um padrão-ouro, a possibilidade de a produtividade aumentar mais rápido que a oferta monetária é grande, o que poderia provocar uma contínua deflação de preços que poderia fazer com que o fardo da dívida pública pesasse nas contas públicas (principalmente se pensarmos que existem títulos de 10 anos). Por isso, é impossível pensar em qualquer reforma monetária, sem pensar simultaneamente em quitar totalmente a dívida pública.

    Mas só para que eu tenha uma ideia, e vendo as dificuldades que seria para liquidar a dívida pública brasileira hoje, pergunto a quem puder responder: na transição do cruzeiro para o real, a dívida pública chegou a ser zerada? Porque de qualquer forma, esta ainda teria uma prerrogativa de estar-se transitando para uma moeda inflacionária, algo que com certeza deixa os governantes mais confortáveis, qualquer coisa era só desvalorizar a moeda. Ou também, pode ser respondido se naquela época, daria para ser adotado o padrão-ouro, sem que isso pesasse nas contas públicas?

    E, a propósito, a presente entrevista do de Soto é ótima e muito oportuna. Agradeço muito pela oportunidade de lê-la.

    Abraços!
  • Emerson Luis, um Psicologo  13/12/2014 10:34

    Como outros fenômenos, a deflação só se torna maléfica quando os burocratas oniscientes, onividentes e "oniprepotentes" interferem em um processo natural.

    * * *
  • Yonatan Mozzini  05/04/2015 00:18
    Muito boa essa entrevista. Professor Soto foi claro e objetivo.

    Quanto à pergunta sobre o perigo da deflação de preços, ele também poderia apelar ao extremo na argumentação e dar corda ao entrevistador: mesmo que em determinado país houvesse tão baixa expansão monetária que causasse deflação de preços e, de fato, as pessoas começassem a adiar o consumo, o próprio mercado se encarregaria de resolver esse "desconforto".
    Pois, conforme o número de pessoas postergando o consumo de diversos bens e serviços fosse aumentando significativamente, simplesmente as empresas acumulariam seus estoques, reduziriam a produção e começariam a demitir. Haveria um esfriamento da economia. Esse esfriamento da produção reduziria a demanda por moeda, e esta passaria a perder seu poder de compra e depreciar; a deflação de preços iria reduzir-se, se tornando até em leve inflação de preços, retornando ao equilíbrio.


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