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Cantillon, os ciclos econômicos e a não-neutralidade da moeda

Leia a primeira parte deste artigo aqui.

Resumo da teoria monetária de Cantillon

Sua bem sucedida carreira como banqueiro desempenhou papel importante em sua economia monetária, que Hayek considerava sua maior contribuição. Cantillon era um homem de dinheiro que entendeu que a natureza do dinheiro como meio de troca levou à sua evolução para metais preciosos e que os príncipes não podem introduzir dinheiro imaginário ou obterem sucesso quando desvalorizam sua moeda.

Uma posição firme em sua análise ao estilo austríaco era sua rejeição à ingênua abordagem global da teoria quantitativa da moeda.  Cantillon defendia uma abordagem de processo microeconômica para o estudo da moeda.  Ele mostrou que o tipo de alteração na oferta de moeda e o ponto onde essa moeda entra na economia são cruciais para determinar que efeitos são gerados.

Em outras palavras, Cantillon antecipou em dois séculos a abordagem austríaca dos ciclos econômicos!

Rejeitou a visão mercantilista de Locke de que a taxa de juros era um fenômeno puramente monetário. Como Mises, ele descobriu que a taxa de juros é um preço baseado nas forças de oferta e demanda no mercado de fundos emprestáveis??, e que se o dinheiro novo aumenta a oferta monetária, o efeito disso será a redução da taxa de juros.

Ele também descreve minuciosamente as forças que causam alterações nas taxas de juros, e mostra como a taxa de juros é um fenômeno normal e importante da economia. Defende os ganhos obtidos com altas taxas de juros por meio da comparação dos lucros e rendas gerados por taxas ainda mais elevadas. Com base na sua descrição das taxas de juros e o que faz com que sejam elevadas, Cantillon ridiculariza a noção de que o governo as deve regular.

Teoria dos ciclos econômicos

Cantillon construiu uma teoria dos ciclos econômicos bastante semelhante à teoria austríaca ao analisar as mudanças na oferta de moeda e seus impactos de curto e de longo prazo sobre a economia.  O aumento da oferta de moeda é a fase de crescimento, o início do ciclo.  Suas descrições desta fase do ciclo levaram muitos comentaristas a rotularem Cantillon como um mercantilista, pois ele afirma que mais dinheiro leva a um maior nível de atividade econômica. No entanto, como ele apontou veementemente, surgem problemas, mais cedo ou mais tarde.  O principal gira em torno da inflação dos preços e do colapso da indústria nacional.  A lição austríaca de Cantillon é que a política mercantilista é uma conveniência de curto prazo que falha no longo prazo.

Cantillon, portanto, teve a percepção de que os efeitos da política monetária são diferentes e caminham em sentidos opostos no curto e no longo prazo. Nisto, além de antecipar os austríacos do século XX, antecipou também os monetaristas, especialmente Milton Friedman e seus discípulos da Escola de Chicago, na segunda metade do mesmo século.

Exatamente como os economistas austríacos modernos, Cantillon rejeitou o objetivo da política mercantilista de aumentar a oferta de dinheiro permanentemente a uma taxa constante, como recomendava Friedman. Percebeu, como Mises duzentos anos depois, que uma dada quantidade de dinheiro, fixa, era suficiente, e que o montante só precisa mudar à medida que a economia muda de um sistema de trocas diretas para um de trocas monetárias, embora haja vários fatores que reduzam naturalmente a necessidade de dinheiro, tais como os serviços bancários e um aumento na velocidade com que circula a moeda.

Cantillon mostrou ainda por que o bimetalismo criaria escassez de dinheiro e alertou contra o uso de papel-moeda e contra os bancos nacionais (estatais, bancos centrais).

É significativo que tenha fechado o Essai com uma acusação a John Law e seu sistema, e esse ataque serve como um aviso que continua a ser importante e ignorado nos dias atuais:

É um fato inquestionável que um banco, com a cumplicidade de um ministro, seja capaz de estimular o preço das ações públicas e de reduzir a taxa de juros ao bel-prazer deste ministro, e, com isso, pagar a dívida do Estado. [...] O excesso de notas, feitas e emitidas nessas ocasiões, não perturba a circulação de bens e serviços porque está sendo usado para a compra e venda de ações que não servem para as despesas dos consumidores, além de não serem transformadas em prata. Mas se algum pânico ou crise imprevista levar os titulares a exigirem prata do Banco estatal, a bomba irá estourar e então ver-se-á que estas são operações perigosas. [p. 323 da edição em inglês]

Cantillon foi mal interpretado como um mercantilista e teórico do valor objetivo (ou intrínseco), mas na verdade o que fez foi expor os inúmeros erros do mercantilismo e explicar claramente o conceito de custo de oportunidade, o princípio fundamental da teoria econômica. Cantillon e seu Essai são as origens da teoria econômica e sua teoria é claramente consistente com a da Escola Austríaca de nossos dias.

Ainda em sua teoria dos ciclos, Cantillon verificou que a principal entre as forças que provocam desequilíbrios na economia é a manipulação da moeda por parte do governo. Enquanto os mercantilistas geralmente consideravam o dinheiro como fonte de riqueza que poderia ser rentável quando manipulado pelo governo, Cantillon mostrou que o dinheiro, taxas de juros e comércio internacional eram todos "bem regulamentados" e razoavelmente estáveis em seu estado natural (ou seja, sem o intervencionismo). Além disso, as manipulações por parte dos bancos nacionais e intervenções monetárias dos governos causam instabilidade e levam a distúrbios prejudiciais para a economia.

Mostrou que os padrões de consumo e produção foram alterados e a economia acabou prejudicada quando o dinheiro e os juros foram manipulados pelo governo, criando o que hoje chamamos de "efeito Cantillon". Sua abordagem fornece tanto um caminho metodológico para o estudo de ciclos quanto para a causa dos ciclos (a intervenção do governo), que foi posteriormente absorvida e elaborada por Ricardo, pela Currency School, por Wicksell, por Mises, por Hayek, e pela moderna Escola Autríaca.

O efeito Cantillon

O "efeito Cantillon" — expressão cunhada por Blaug — é a ideia de que as mudanças nos níveis de preços causadas por um aumento da quantidade de dinheiro dependem da forma como o dinheiro novo é injetado na economia e de como esse dinheiro novo irá afetar os preços.  Esse dinheiro novo, ao ir se espalhando pela economia, altera o nível geral de preços e a estrutura de preços, ou os preços relativos.  

Outra maneira de dizer isso é que, embora os preços subam conforme a quantidade de dinheiro aumenta, os preços — ao contrário do que diz a ingênua teoria quantitativa da moeda — não sobem proporcionalmente, mas sim de uma forma complexa que depende de quem primeiro recebeu o dinheiro e de como ele foi gasto.  Ora, este é um dos pontos centrais da moderna teoria austríaca dos ciclos econômicos. Cantillon foi um austríaco nascido com dois séculos de antecedência!

Além disso, sua abordagem realista para os ciclos econômicos também inclui um insight à la "teoria da escolha pública" a respeito da natureza e da causa do ciclo, em que o governo manipula o dinheiro e o crédito, não por ignorância, mas para beneficiar determinados grupos.  Cantillon não só nos fornece a causa e os efeitos dos ciclos, mas também a sua cura, que consiste em impedir a intervenção do governo na moeda e no crédito bancário.  Esta é uma visão muito importante no mundo de hoje, dominado pelo controle dos bancos centrais sobre o dinheiro e o credito bancário e acuado com a crise financeira em curso em todo o mundo desde 2007.

Cantillon baseou sua análise na não-neutralidade da moeda, mostrando claramente como alterações no estoque de moeda produzem efeitos reais.  Começou a sua análise da moeda com sua origem como um meio de troca e, em seguida, mostrou como a circulação de dinheiro ocorre em um modelo de fluxo circular da economia, incluindo o papel da velocidade do dinheiro. Concordou com John Locke e os teóricos quantitativistas que um aumento na quantidade de dinheiro gera um aumento nos preços — um ponto que ele afirmou e com o qual todos concordam —, mas, a partir de uma perspectiva realista, Cantillon mostrou que as mudanças na quantidade de dinheiro não são neutras em termos de produção e consumo e que nem havia qualquer relação numérica confiável entre a quantidade de dinheiro e seu poder de compra.

Antecipando a crítica austríaca à "teoria do helicóptero" despejador de dinheiro, um famoso exemplo de Milton Friedman, ele afirmou: "dobrando a quantidade de dinheiro em um estado, os preços dos produtos e mercadorias não serão sempre o dobro" [pp 235/177/7 da edição em inglês].  O impacto depende de onde o dinheiro é injetado na economia e de como esse dinheiro gera um novo padrão de consumo e até mesmo uma nova velocidade de circulação, não sendo possível, no entanto, dizer exatamente até que ponto. Portanto, a relação proporcional da teoria quantitativa da moeda entre moeda e preços pode não acontecer.

Cantillon mostrou que alterações na quantidade de moeda podem causar vários tipos diferentes de efeitos reais sobre a produção, o investimento, o consumo e o comércio, ou seja, sobre o setor real da economia, dependendo de quem primeiro recebeu o dinheiro, efeitos esses agora denominados de efeito Cantillon, efeito de injeção ou efeito de primeira ordem.  

Em seu primeiro exemplo, ele mostrou que o aumento do dinheiro por meio de um aumento tanto do ouro doméstico quanto da mineração de prata levaria ao aumento do consumo de pessoas envolvidas na indústria de mineração, algo que, consequentemente, levaria a um aumento nos preços dos bens que estas pessoas rotineiramente adquirissem (por exemplo, carne e bens de luxo). Empresários e agricultores teriam de adaptar a sua produção para atender ao novo padrão de demanda, de modo que a estrutura de produção teria que se alterar.

As pessoas não associadas à indústria de mineração iriam ter de lidar com preços mais altos e também com uma agora menor quantidade de bens de consumo, os quais passaram a ser consumidos em maior quantidade pelas pessoas da indústria de mineração.  Consequentemente, haveria também uma mudança na distribuição de renda.

Como os preços continuariam a subir, o ouro seria exportado em troca de bens importados, e as pessoas não ligadas à mineração podem até migrar para áreas com salários reais mais elevados. Cantillon demonstra assim que os mercantilistas estavam errados, pois mais dinheiro em circulação pode prejudicar a economia e causar distorções no padrão de produção e nos salários, como nos casos da Espanha e Portugal de seu tempo.

A partir dessa perspectiva de que a moeda não é neutra, Cantillon mostrou que o fluxo de dinheiro terá consequências reais em termos de produção, consumo e distribuição de renda.

O ponto importante salientado por Cantillon é como a produção de ouro — ou o aumento da oferta de dinheiro — altera o padrão de consumo, os preços relativos e a estrutura de produção. Mesmo com este simples exemplo podemos ver como Cantillon foi marcadamente diferente dos macroeconomistas modernos, especialmente Friedman e os monetaristas, que defendem o princípio da neutralidade da moeda no longo prazo e concentram assim seus estudos nos efeitos das mudanças no nível de preços em vez de mudanças nos preços relativos e seu impacto sobre os padrões de produção no mercado interno e no internacional, bem como sobre o consumo.

Outro ponto que nunca é demais ressaltar, mesmo correndo o risco de sermos repetitivos, é que Cantillon percebeu claramente que os efeitos de curto prazo e de longo prazo da moeda sobre o nível de preços e sobre a produção são diferentes, podendo inclusive, especialmente os efeitos sobre a produção e sobre todo o setor real da economia, ter sentidos contrários.

 

No próximo artigo, Cantillon e os ciclos causados por flutuações na economia internacional.


1 voto

autor

Ubiratan Jorge Iorio
é economista, Diretor Acadêmico do IMB e Professor Associado de Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).  Visite seu website.

  • Emerson Luis, um Psicologo  15/03/2014 18:11

    Se cada seu geração aprendesse com seus próprios grandes pensadores, não seria necessário que nas gerações seguintes os grandes intelectos reinventassem tudo. Infelizmente, no mundo das ideias nem sempre se continua a partir de onde outros já avançaram e ainda por cima há retrocessos. Basta constatar que Marx escreveu muito depois de Smith, Locke e outros.

    * * *
  • marcos  19/03/2014 18:04
    Basta constatar que Adam Smith escreveu muito após os Escolásticos de Salamanca e ainda sim esposava aquela sua estrovenga da teoria do valor-trabalho.
  • Mateus Maciel  16/03/2014 01:04
    Professor, essa série está incrível! Estarei aguardando o próximo artigo.
  • 'Mister 'x'  16/03/2014 12:34
    O Mises Brasil é uma referencia no Brasil em termos de escola de pensamento econômico, e o ideal é que todos os brasileiros o lesse diariamente.

    Excelente o artigo, estamos aguardando a continuação.
  • Fernando Schoulten  16/03/2014 17:24
    Fiquei em dúvida agora. Por que Cantillon não é considerado o primeiro austríaco? Apesar de Cantillon ser inlandês e Carl Menger ser da Austria, me parece que por essa série de artigos o primeiro muito se encaixa e antecede os pensamentos da Escola Austríaca de economia, não?
    Qual é o contrário que podemos dizer que o elimina?
  • Sérgio  16/03/2014 18:14
  • anônimo  16/03/2014 17:34
    Os principais problemas econômicos do Brasil seriam os Juros e a Tecnologia?
  • Jeferson  17/03/2014 15:10
    Não, é o tamanho do estado.
  • Manoel  16/03/2014 20:44
    Parabéns pelo ótimo artigo, prof. Iorio!!!
  • Luiz Berenguel  17/03/2014 14:27
    Muito bom artigo.

    Fico pensando se os governantes,
    em geral, tem alguma noção econômica?
  • Gustavo Paiva  24/02/2015 12:44
    Socorro! O texto pode ser rico, mas se for, deve conter "Ouro nativo, que na ganga impura, a bruta mina entre os cascalhos vela". Veja essa frase:
    - "Cantillon defendia uma abordagem de processo microeconômica para o estudo da moeda. Ele mostrou que o tipo de alteração na oferta de moeda e o ponto onde essa moeda entra na economia são cruciais para determinar que efeitos são gerados."

    Que isso significa?! Visão Microeconômica da Moeda??? Ponto de Entrada na Economia???

    Sinceramente, tentei entender, mas não entendi nada!
  • Leandro  24/02/2015 14:44
    Prezado Gustavo, quando você vai a um banco e pede um empréstimo, o banco cria dinheiro do nada. Na verdade, o banco simplesmente cria dígitos eletrônicos no computador, e acrescenta esses dígitos na conta do tomador do empréstimo (você). Ou seja, o banco empresta esse dinheiro — dígitos eletrônicos que ele criou do nada —, e cobra juros sobre ele.

    Todo o processo de expansão de crédito nada mais é do que um mecanismo que aumenta a quantidade de dinheiro na economia.

    Sendo assim, imediatamente após receber esse empréstimo, você irá gastar esse dinheiro em algum lugar. Se você gastá-lo na aquisição de um apartamento, esse dinheiro recém-criado estará entrando no setor imobiliário. Se você gastá-lo na expansão de uma fábrica, esse dinheiro estará entrando no setor industrial (e no setor da construção civil). Se você gastá-lo na compra de um carro, esse dinheiro recém-criado estará entrando no setor automotivo E por aí vai.

    É a isso que o autor se refere quando diz que Cantillon mostrou que "o tipo de alteração na oferta de moeda e o ponto onde essa moeda entra na economia são cruciais para determinar que efeitos são gerados".
  • Austriaco fera  08/09/2017 04:14
    Economistas sabem que o banco central é o causador de inflação,mas teimam em repetir esse erro para atender interesses inconfessáveis,portanto inocente não são talvez em alguns casos equivocados,mas inocentes jamais,afinal o poder corrompe pois o mundo do crime é sedutor,Maquiavel em seu livro o príncipe mostra como o chefe de quadrilha deve conduzir seus asseclas,enfim é um manual de condutas para qualquer chefe de orcrim e o poder estatal é uma orcrim,pois imposto é roubo!!!


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