clube   |   doar   |   idiomas
Richard Cantillon (168?-1734) e o início da economia moderna
1. INTRODUÇÃO

Este artigo tratará de um verdadeiro gigante, um economista pouco estudado nos cursos de História do Pensamento Econômico, mas para muitos considerado não apenas um importante protoaustríaco, mas o verdadeiro fundador da Ciência Econômica, honraria quase sempre associada ao nome (não menor) de Adam Smith.

Foi o primeiro a publicar um tratado em que apresentava a economia em bases organizadas e científicas, o Essai sur la nature du commerce en général, escrito por volta de 1730 e publicado em França em 1755 e, portanto, cerca de 46 anos antes de Riqueza das Nações, de 1776.

O economista brasileiro Domingos Crosseti Branda, em artigo publicado em 24 de março de 2011, sob o título O pai fundador da economia moderna, escreve:

A sistemática de exposição [metodológica] de ideias e seu enfoque emancipado da política e da ética demarcaram um campo independente de investigação — a economia —, o que caracterizava Cantillon como um tipo de pensador diferente dos escolásticos medievais. Centrava sua análise econômica na ação humana e a abstraia de outras dimensões, procedimento que Mises caracterizaria mais tarde como "método Gedanken", assim podendo analisar as relações de causa e efeito existentes na vida econômica. Desse modo ele desenvolveu sucessivas aproximações e abstrações e explicar questões fundamentais da teoria econômica, como a do valor e preço, a da atividade empresarial, a da moeda e a da auto-regulação do mercado, entre outras questões.

O Professor Mark Thornton inicia o capítulo 2 do livro "The Great Austrian Economists", editado por Randall G. Holcombe (Ludwig von Mises Institute, 1999, iBooks), com a seguinte consideração;

Muitas das percepções austríacas foram estabelecidas na economia pelo banqueiro irlandês Richard Cantillon (168? — 1734) e sua publicação solitária, Essai sur la Nature du Commerce en Général. Parece claro que Cantillon foi uma importante influência sobre o desenvolvimento da economia austríaca, e que ele pode ser considerado um membro da Escola Austríaca. Carl Menger tinha uma cópia do Essai em sua biblioteca antes da publicação dos Princípios de Economia Política.

Na verdade, as origens da própria teoria econômica podem ser atribuídas a Cantillon . William Stanley Jevons, um dos co-fundadores da revolução marginalista, e o economista que geralmente é creditado como o redescobridor de Cantillon, classificou o Essai como "um tratado sistemático e conectado, cobrindo, de uma forma concisa, quase todo o campo da economia. . . . É, portanto, o primeiro tratado sobre a economia". Ele chamou o trabalho de "berço da Economia Política". Joseph Schumpeter, o grande historiador do pensamento econômico e estudante de Eugen von Böhm-Bawerk, descreveu o Essai como "a primeira penetração sistemática do campo da economia", e Murray N. Rothbard, em seu tratado sobre a história do pensamento econômico, chama Cantillon de "o pai fundador da economia moderna" e chega a tratar deselegantemente Adam Smith como um "plagiador" de Cantillon.

E o Professor Thornton prossegue lembrando que o episódio de maior relevância na vida de Cantillon foi o seu envolvimento com John Law (1671—1729) e seus famosos esquemas monetários. Cantillon se opunha às teorias inflacionistas de Law, mas entendia como os esquemas funcionavam no mundo real e quais as suas falhas. Assim, ele foi capaz de criar uma grande fortuna a partir do Sistema de Mississippi e da famosa bolha de South Sea.

Durante o pesadelo e no rescaldo daqueles desastres financeiros, Cantillon escreveu seu famoso Essai, emancipando-se do pesadelo mercantilista predominante naqueles dias para fazer uma contribuição pioneira para o nosso conhecimento do método, teoria e política. Pouco depois de escrever o Essai, Cantillon foi assassinado em condições misteriosas e seu Essai permaneceu completamente desconhecido por mais de duas décadas.

É interessante notarmos que seu livro influenciou o desenvolvimento tanto dos fisiocratas quanto dos economistas clássicos, a ponto de ser um dos poucos autores mencionados por Adam Smith na Riqueza das Nações. No entanto, o escocês, que ficou com os louros de fundador da Ciência Econômica, teria deturpado as ideias de Cantillon, o que fez que este ficasse quase que esquecido durante o apogeu da economia clássica. O resgate da importância de sua obra deve-se aos franceses Turgot e Say, dois importantes precursores da moderna Escola Austríaca, bem como a John Stuart Mill, este já no apagar das luzes do século XIX.

Graças a Mill, quando da chamada Revolução Marginalista, ocorreu uma redescoberta de Cantillon e de muitas de suas proposições. Como escreveu Rothbard no capítulo 12 de seu tratado Economic Thought Before Adam Smith [páginas 343-62], "o filósofo escocês e 'cobrador de impostos' Adam Smith não deve ser considerado o pai da economia, pois esse título deve pertencer ao empresário irlandês e economista austríaco Richard Cantillon".

Controvérsias à parte,é indiscutível que Cantillon foi um economista e homem de negócios brilhante, que antecipou em dois séculos muitos insights austríacos, bem como algumas proposições de Milton Friedman, da Escola de Chicago, especialmente no que diz respeito aos efeitos diferentes que variações na oferta monetária provocam na economia no curto e no longo prazo.

2. BIOGRAFIA

Não há muitos pormenores sobre a vida de Richard Cantillon, mas sabe-se que ele nasceu durante a década de 1680, no Condado de Kerry, na Irlanda, filho de um proprietário de terras. Na primeira década do século XVIII, mudou-se para a França e obteve cidadania francesa. Em 1711, servindo ao governo da Espanha, organizou pagamentos para os prisioneiros de guerra britânicos durante a Guerra de Secessão Espanhola. Permanecendo na Espanha até 1714, estabeleceu um grande número de conexões empresariais e políticas, antes de retornar a Paris, onde passou a se envolver com a indústria bancária, trabalhando para um primo, que na época era um correspondente do ramo parisiense de um banco familiar.

Dois anos mais tarde, graças ao apoio financeiro de James Brydges, comprou a parte de seu primo e obteve a propriedade do banco. Dadas as conexões financeiras e políticas que foi capaz de obter através de sua família e de James Brydges, e principalmente a seus talentos, revelou-se um banqueiro de sucesso, especializando-se em transferências de dinheiro entre Paris e Londres.

Cantillon associou-se então com o mercantilista escocês John Law (1671-1729) que, com base na teoria monetária de William Potter em seu tratado de 1650, The Key of Wealth — no qual o economista inglês refutou a validade das teorias metalistas, propondo usar como moeda títulos de dívida emitidos por uma empresa de comerciantes e garantidos por imóveis — afirmou que os aumentos da oferta de moeda levariam ao emprego de terra e trabalho não utilizados, elevando a produtividade.

Em 1716, o governo francês deu-lhe permissão para fundar o Banque Générale e um monopólio virtual sobre o direito de desenvolver territórios franceses na América do Norte, criando-se então a Mississippi Company, com a promessa de Law de que financiaria a dívida do governo francês a baixas taxas de juros. Law criou, então, uma bolha financeira especulativa ao vender ações da Mississippi Company, usando o monopólio virtual do Banque Générale para emitir notas bancárias para financiar seus investidores.

Richard Cantillon acumulou uma grande fortuna a partir de sua especulação, comprando a preços baixíssimos as ações da Mississippi Company no início e as vendendo a preços bem maiores posteriormente. O sucesso financeiro e a influência crescente de Cantillon causaram atrito em seu relacionamento com John Law e algum tempo depois Law teria ameaçado prender Cantillon se ele não deixasse a França dentro de vinte e quatro horas. Cantillon respondeu: "Eu não vou embora, mas vou fazer seu sistema ter sucesso". Ao final, em 1718, Law, Cantillon e o rico especulador Joseph Gage fundaram uma companhia privada para financiar a especulação de imóveis da América do Norte.

Em 1719, Cantillon deixou Paris e foi para Amesterdam, retornando brevemente no começo de 1720. Realizando empréstimos em Paris, Cantillon tinha dívidas sendo quitadas em Londres e Amsterdam. Com o colapso da "bolha de Mississippi", Cantillon foi capaz de exigir altas taxas de juros. A maior parte de seus devedores tinham sofrido prejuízos financeiros no colapso da bolha e culpavam Cantillon, que se envolveu em inúmeros processos movidos por seus devedores, provocando  um grande número de planos de assassinatos e acusações criminais.

Em 16 de fevereiro de 1722, Cantillon casou-se com Mary Mahony, filha do Conde Daniel O'Mahony — um rico mercador e ex-general irlandês — passando grande parte do restante da década de 1720 viajando pela Europa com sua esposa. Embora ele frequentemente retornasse a Paris entre 1729 e 1733, sua residência permanente era em Londres. Em maio de 1734, sua casa em Londres sofreu um incêndio devastador, e presume-se que Cantillon tenha morrido no fogo. Apesar das causas do incêndio serem desconhecidas, a teoria mais aceita é a de que Cantillon foi assassinado.

Uma outra hipótese levantada por alguns historiadores é que Cantillon teria forjado sua própria morte para escapar do assédio de seus devedores, ressurgindo posteriormente no Suriname com o nome de Chevalier de Louvigny. Como vemos, uma biografia rica e cheia de peripécias e emoções fortes, entre as quais a de que, em certa ocasião, Cantillon teria feito uma oferta para comprar a Polônia, que foi rejeitada.

3. A TEORIA ECONÔMICA DE CANTILLON 

Em outro artigo, Cantillon on the cause of business cycle, o mesmo Thornton enfatiza que Cantillon foi o primeiro economista a examinar com sucesso a natureza cíclica da economia capitalista. Vivendo em um tempo (início do século XVIII) em que as instituições da economia capitalista moderna foram estabelecidas e os primeiros grandes ciclos de negócios ocorreram, ele foi o primeiro a identificar suas causas e seus efeitos com singular originalidade. Em contraste com os mercantilistas, Cantillon era um observador astuto que desenvolveu uma compreensão econômica clara sobre moeda, bancos, comércio internacional e mercados de ações, mercados em que arriscou seu capital e fez sua fortuna.

Cantillon foi o primeiro a modelar a economia como um todo interligado e a desenvolver o que hoje conhecemos como o modelo do "fluxo circular da riqueza", assim como o mecanismo de preços que regem os fluxos  internacionais de moeda. Ele percebeu que os mercados eram regulados pelos movimentos de preços com base na oferta e demanda e identificou tendências equilibradoras mediante as trocas voluntárias nos mercados.

Observemos que o gráfico do "fluxo secular da riqueza" de Cantillon, a seguir mostrado, é bem mais rico em pormenores e em realismo do que o apresentado comumente nos livros-texto de Economia.

fluxo circular.jpg

De fato, o Essai apresenta uma metodologia causal distintiva, separando Cantillon de seus antecessores mercantilistas e é uma obra em que a palavra "natural" é constantemente usada, tentando implicar uma relação de causa e efeito entre as ações econômicas e os fenômenos reais.

Murray Rothbard credita Cantillon como sendo um dos primeiros teóricos a isolar o fenômeno econômico com modelos simples, onde outras variáveis incontroláveis podem ser fixadas. Jörg Guido Hülsmann compara alguns dos modelos apresentados no Essai, que trabalha com a hipótese de um equilíbrio constante, ao conceito de Ludwig von Mises de "economia uniformemente circular" ("evenly rotating economy").

Cantillon faz uso frequente do conceito de coeteris paribus no Essai, em uma tentativa de neutralizar variáveis independentes, na linha seguida quase duzentos anos depois por Alfred Marshall.  Além disso, ele é creditado pelo emprego de uma metodologia semelhante ao individualismo metodológico de Carl Menger, ao deduzir fenômenos bastante complexos a partir de simples observações individuais.

Cantillon enxergava a economia como um sistema organizado de mercados interligados que operam no sentido de chegar a um equilíbrio. As instituições deste sistema organizado evoluiriam ao longo do tempo em resposta às necessidades, que por sua vez ligam todos os habitantes de uma sociedade em "uma rede de reciprocidade".  O sistema é mantido em ajuste pelo livre jogo dos auto-interesses, e a economia funciona mediante a ação de uma classe de empresários que realizam todas as trocas e a circulação do estado.

Cantillon tinha convicção de que um sistema de mercado funciona melhor sem a interferência do governo. Os empresários, assim como outros participantes do mercado, estão vinculados em reciprocidade, uma vez que na realidade são consumidores e clientes um em relação ao outro.  Seu número é, portanto, regulado pelo número de clientes, ou a demanda total e suas decisões são tomadas em condições de incerteza sobre o futuro.

Atividade empresarial

A segunda metade da primeira parte do Essai é onde Cantillon torna-se o primeiro economista a desenvolver as idéias austríacas sobre o empreendedor e seu papel na economia. O empreendedor para ele é o tomador dos riscos causados pelas mudanças na demanda do mercado. Este é um reflexo direto do próprio início da carreira de Cantillon como assistente de tesoureiro durante a Guerra da Sucessão Espanhola. Lá, ele aprendeu e se destacou no papel de contador e negociador de contratos, e aprendeu o básico do sistema bancário e financeiro internacional.

Na segunda parte do Essai, Cantillon expôs sua análise austríaca pioneira da economia monetária, expondo o grande erro do mercantilismo — a falsa ideia de que o dinheiro é riqueza.

Na parte três, Cantillon aborda as questões de comércio exterior e taxas de câmbio, bem como o papel dos bancos. Nesta parte, Cantillon faz algumas de suas mais importantes contribuições para a compreensão da economia. Esta seção é uma crítica das políticas mercantilistas e das inovações financeiras de John Law nas bolhas do Sistema de Mississippi e da South Sea. Isto é um reflexo do terceiro período na carreira de Cantillon, durante o qual ele fez fortuna através da compreensão do sistema financeiro e suas consequências inevitáveis.

De 1721 até sua morte em 1734, Cantillon, como vimos, foi envolvido em disputas legais. Ele estava envolvido com diversos processos envolvendo seus negócios bancários e a South Sea Bubble. Foi também acusado de tentativa de homicídio e preso duas vezes, embora por pouco tempo. É importante atentarmos para o fato de que o Essai foi escrito neste momento e há indícios para suspeitar que Cantillon tenha desenvolvido sua teoria econômica como parte de sua defesa legal contra as acusações de usura.

O papel do empresário é uma das grandes contribuições de Cantillon à teoria econômica. Ele fala do empresário, no sentido clássico do agente de grandes aventureiros de negócios, mas também faz uma distinção teórica entre aqueles que trabalham para um retorno fixo ou salário e aqueles que enfrentam os retornos incertos, incluindo os agricultores independentes, artesãos, comerciantes e fabricantes. Esses empresários compram insumos a um determinado preço para produzir e vender mais tarde a um preço incerto. Em busca do lucro, o empresário deve suportar os riscos que ele enfrenta com a incerteza generalizada do mercado.

Sobre as origens da teoria econômica

Cantillon envolveu-se de corpo e alma nos acontecimentos cruciais de sua época e conheceu muitos grandes intelectuais, incluindo vários escritores mercantilistas importantes. Por essa razão, não escapou completamente da mentalidade mercantilista então em moda, mas é realmente incrível como ele claramente rompeu com esse passado por conta própria, para produzir o primeiro trabalho coerente e abrangente de teoria econômica.

As contribuições de Cantillon ao método da economia, enquanto não apreciadas em seu tempo e em grande parte esquecidas, são verdadeiramente notáveis quando colocadas no contexto histórico. O que impressionou economistas importantes, como Jevons, Schumpeter, Hayek e Rothbard foi a abordagem científica de Cantillon e a teorização lógico-dedutiva, tão característica da Escola Austríaca e da revolução marginal. Ao longo do Essai, Cantillon está permanentemente preocupado com o fornecimento de explicações científicas para os fenômenos econômicos. Suas investigações mostram sempre preocupação com o estabelecimento de causas e efeitos. Cantillon, como já escrevemos, muitas vezes expressa a relação causal com o termo "natural", que ele usou trinta vezes no Essai e que foi utilizada com o mesmo significado por Knut Wicksell no século XX.

Outra característica marcante de sua análise austríaca é a sua intenção de limitar-se à economia positiva de cada tema, um atributo que Hayek considerou especialmente notável para um economista de sua época.

Cantillon também emprega o método de abstração ou construção imaginária para teorizar sobre a economia. Ele usa a cláusula coeteris paribus, por exemplo, quando se discute a produtividade do trabalho: "Quanto mais trabalho é gasto nela (terra), outras coisas sendo iguais, mais ela produz"

Ele usa a ferramenta teórica do país pequeno e isolado, como os teóricos modernos da Economia Internacional fazem para eliminar fatores complicadores, tais como distúrbios monetários e comércio internacional. Mais importante, ele usou esta construção ou modelo para deduzir o ponto central austríaco de que a produção depende da demanda, neste caso, a demanda do proprietário da grande propriedade. Além disso, como o proprietário contrata a produção de suas terras aos agricultores, ele "cria" empresários e uma economia se desenvolve com a troca, os preços, o dinheiro e a competição.

Cantillon tem uma compreensão sofisticada do sistema de preços e sua análise contém a maioria dos elementos da análise austríaca moderna. O preço é determinado pela demanda e escassez relativa. A demanda é um conceito subjetivo com base nos "humores" e "fantasias" do povo. É o "consentimento do povo", juntamente com a relativa escassez de um produto, o que determina o preço de mercado, entendendo-se por preço de mercado o preço pago ao vendedor. Do mesmo modo, o valor dos metais no mercado "varia de acordo com a sua escassez ou abundância ou de acordo com a demanda."

Cantillon faz uma distinção importante entre 'preço' e 'preço de mercado' e entre 'valor' e 'valor de mercado', que tem servido como fonte de confusão sobre o significado de sua economia.  Preço de mercado e valor de mercado são os preços reais que ocorrem no mercado com base em forças de oferta e demanda. Preço e valor são conceitos distintos e separados de preços de mercado. Eles estão relacionados com o que ele chamou de "valor intrínseco", e são usados para descrever o custo de oportunidade dos recursos utilizados para produzir o bem particular em questão, a terra e o trabalho específico que foram sacrificados para produzir o bem.

Custos de oportunidade

Como observou Hayek, [Richard Cantillon, Journal of Libertarian Studies 7, n 2, outono de 1985, p. 263], o aspecto mais importante no Essai no campo do valor e teoria dos preços é a sua busca por regras e fórmulas que podem explicar a relação "normal" entre o valor ou o preço de vários bens, concentrando-se nas forças e mecanismos consistentes em restaurar a normalidade destas relações.

Mais importante ainda foi Cantillon nomear e descrever um conceito para o qual não exista um termo no mundo porque Cantillon dominava diversas línguas fluentemente. Sua concepção de custo como o sacrifício de terra e trabalho é muito mais avançada do que a teoria da terra e do valor dos fisiocratas, ou a teoria do custo e do valor-trabalho dos economistas clássicos, entre eles, claramente, Adam Smith. Mas Cantillon tinha uma compreensão muito mais rica de custos do que uma simples medida da quantidade de terra e trabalho que entram em produção.

Cantillon ressaltou dois conceitos importantes no Essai que fornecem maior profundidade à sua concepção de custo. Primeiro, ele via todos os recursos como heterogêneos. Cada pedaço de terra era de uma qualidade diferente, e cada trabalhador também de uma qualidade diferente. Ou seja, antecipou elementos importantes da Teoria do Capital Austríaca esboçada por Menger e desenvolvida por Böhm-Bawerk. Por isso, enquanto o valor intrínseco era uma medida de custo, não era possível simplesmente contar o número de horas e acres, exceto de um modo abstrato ou em ilustrações simples. Na verdade, depois de estabelecer uma teoria preliminar da terra e trabalho de valor na primeira parte, ele observa, no início da segunda parte, que para determinadas mercadorias na economia real, é impossível fixar os seus respectivos valores intrínsecos.

O outro conceito que ele ressaltou foi o uso alternativo de recursos. A terra poderia ser usada para o cultivo de milho ou para fornecer feno para os cavalos. E o trabalho poderia ser realizado na fazenda ou treinado em um ofício. Cantillon viu claramente que quando um proprietário escolhe possuir mais cavalos, ele está abrindo mão da produção (e venda) de grãos, e que se a França desejava importar rendas finas, então ela teria que renunciar a uma certa quantidade de vinho produzido em seus vinhedos.

Cantillon entendeu perfeitamente o conceito de custo de oportunidade e seu Essai foi uma tentativa de construir o conceito para explicar escolhas econômicas. A descoberta do custo de oportunidade por este importante precursor da Escola Austríaca marca sem dúvida a origem da teoria econômica.

Outro ponto da teoria de Cantillon a ser ressaltado, especialmente em sua teoria monetária e bancária, é o dos custos de transporte, porque o banqueiro (como o próprio Cantillon) serve como intermediário para reduzir os custos de risco e de transporte de enviar grandes quantidades de dinheiro ao longo de grandes distâncias. Cantillon foi o primeiro economista a aplicar os princípios da economia espacial em um tratado econômico geral. Deu contribuições originais e universais para a economia espacial sobre a natureza de princípios facilmente aplicáveis para os campos da teoria da localização e de preços internacionais.

 

Na segunda parte deste artigo serão abordadas as teorias monetárias e dos ciclos econômicos de Cantillon.


1 voto

autor

Ubiratan Jorge Iorio
é economista, Diretor Acadêmico do IMB e Professor Associado de Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).  Visite seu website.

  • Ramiro  09/03/2014 02:32
    Professor Iorio, muito obrigado pelo artigo.
  • Henrique  09/03/2014 21:41
    Fica a dúvida para os amigos responderem:

    O que é pior para a economia, gastos governamentais oriundos de impostos ou de empréstimos?

    valeu
  • Eduardo Bellani  10/03/2014 00:54
    Na minha visão, a classificação da extração de recursos em termos
    destrutivos segue proporcionalmente a facilidade de entender o
    mecanismo utilizado. Nesse caso:

    1 - Impostos. Mais claro.

    2 - Empréstimos. Menos claro.

    3 - Inflação. O mais obscuro.

    Todos os 3 removem os mesmos recursos da população, já que, ceteris
    paribus, o governo não cria valor ao extrair os recursos da população
    para seus programas.

    Em outras palavras, o que importa para a classe extratora dos recursos
    é o capital político que é empregado para conseguir extrair tais
    recursos. E o gasto desse capital político é inversamente proporcional
    a compreensão da população sobre os mecanismos de extração.

    Abraços.
  • aspone  11/03/2014 15:50
    Pois é, mas empresta quem quer, certo?

    Num ambiente livre, quem emprestaria pro governo se houvesse lugar melhor pra por o dinheiro?
  • Eduardo Bellani  11/03/2014 18:02
    Pois é, mas empresta quem quer, certo?

    Sim. O problema não é emprestar, é como que o recipiente vai arranjar os recursos pra te pagar de volta.

    Como analogia, se você empresta recursos pra um famoso assaltante, sabendo
    que o cara vai usar esses recursos pra comprar armas pra assaltar velhinhas pra
    te pagar de volta, você é cumplice no crime. O mesmo se aplica a empréstimos
    (não estou falando, é claro, do estado imprimir grana pra 'emprestar' pra si mesmo).
  • aspone  11/03/2014 22:37
    Sim, concordo.

    Mas se o negócio fosse só com base no "emprestar", vc não acha que seria bem mais fácil combater o estado?

    Afinal, bastaria que muitos não quisessem emprestar...

    Mas é uma discussão teórica boba. Os cara ficam transitando entre os três campos para tentar fugir da fúria popular.

    Uma vez um cara da unicamp foi palestrar na faculdade e eu perguntei como ele achava que o estado deveria financiar as quimeras dele (na área ambiental), se com inflação, com roubo ou com fraude (empréstimos).

    Ele disse claramente: "inflação. não é tão ruim quanto parece".
  • Leandro  10/03/2014 00:55
    É um bom debate.

    No atual arranjo monetário e bancário, quando o governo lança títulos e se endivida, os títulos são comprados majoritariamente pelo sistema bancário. E os bancos compram estes títulos criando dinheiro do nado. Portanto, no atual arranjo, gastos governamentais oriundos de empréstimos geram inflação (monetária e de preços).

    Já gastos oriundos de impostos -- embora não gerem inflação monetária e também não necessariamente gerem inflação de preços -- privam as pessoas de seu dinheiro e afetam todo o padrão de gastos da sociedade. Aquele dinheiro que o João gastaria comprando bens para sua casa ou pagando uma boa escola para seus filhos será retirado dele e entregue a políticos, que irão gastá-lo com seus grupos de interesse favoritos.
  • Henrique  10/03/2014 15:02
    Inicialmente eu havia pensado que seria pior para a economia o governo financiar seus déficits por meio de empréstimos, pois ele gastaria recursos que estariam disponíveis para os empreendedores investirem, enquanto os recursos oriundos de impostos não seriam destinados totalmente aos investimentos, boa parte seria para o consumo dos indivíduos.

    Mas, pelo o que o Leandro falou, o governo, majoritariamente, não usa recursos que foram poupados, mas sim dinheiro eletrônico criado pelos bancos. Ou seja, é quase a mesma coisa que imprimir dinheiro?
  • Leandro  10/03/2014 15:07
    Correto.

    A criação de um Banco Central anula esse efeito da "escassez de recursos" que você corretamente descreveu. Sem um BC, o contínuo endividamento do governo geraria uma disparada dos juros. Com um BC, este efeito é sensivelmente atenuado e substituído pelo aumento de preços gerado pela inflação monetária.
  • Emerson Luis, um Psicologo  10/03/2014 19:59

    Mesmo hoje, com toda essa informação disponível, muitos com formação superior não conseguem entender esses princípios econômicos, imaginem a proeza de tê-los compreendido naquela época!

    * * *
  • Eric Lima  18/03/2014 01:46
    Acho que o Prof. Ubiratan Jorge Iorio deveria escrever livros sobre esses diferentes personagens e sobre a história econômica brasileira sob uma perspectiva "austríaca".
  • Wellington Trotta  06/06/2016 02:16
    Bom trabalho, aprendi bastante. Contudo, do ponto de vista histórico, é um anacronismo a concepção de que haja precursão no campo das ideias, ou seja, de que um determinado pensador do século XV, por exemplo, já tenha elementos de um teórico do século XX. Pelo contrário, este aprende e apreende com aquele. Um abraço.


Envie-nos seu comentário inteligente e educado:
Nome
Email
Comentário
Comentários serão exibidos após aprovação do moderador.