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A insensatez do Nobel de economia de 2013

A edição de 1974 do "Prêmio para as Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel", concedido pelo Banco Central da Suécia, foi um paradoxo.  O prêmio foi dividido entre dois economistas de ideias completamente distintas: Friedrich Hayek e Gunnar Myrdal.  Ambos foram premiados por seus trabalhos sobre flutuações monetárias e ciclos econômicos.

No início de suas carreiras, havia algumas afinidades entre eles: ambos partiam dos mesmos fundamentos estabelecidos pelo economista Knut Wicksell; ambos enfatizavam a importância da "incerteza knightiana" (em homenagem ao economista Frank Knight, trata-se do risco que não é possível de ser mensurado ou calculado); e ambos deram importância ao papel das expectativas ex ante versus os resultados ex post nas decisões de investimento.  No entanto, quando ambos foram premiados com o Nobel, eles já estavam em extremos opostos.  Hayek havia direcionado seu trabalho para o estudo dos fundamentos de uma sociedade livre ao passo que Myrdal havia assumido uma inclinação decididamente mais socialista.

O prêmio Nobel deste ano de 2013 foi compartilhado por três economistas eminentes: Eugene Fama, Lars Peter Hansen e Robert Shiller.  Neste artigo, meu objetivo é comparar as contribuições e as realizações de Fama e Shiller, e constatar o que a premiação de ambos realmente representa.  Como veremos, embora estes dois acadêmicos tenham ganhado o prêmio por causa de seu trabalho a respeito da precificação de ativos, os resultados e as conclusões de seus respectivos estudos estão em total divergência entre si.

Fama é mais conhecido por seu trabalho sobre a hipótese do mercado eficiente (HME).  Falando resumidamente, tal hipótese diz que todas as informações relevantes já estão embutidas nos preços dos ativos e os mercados basicamente não podem errar porque eles já contêm todas as informações relevantes.  Logo, não há bolhas na economia e, consequentemente, não há estouro de bolhas.  Segundo a HME, os mercados são eficientes quando todas as informações relevantes a respeito de um determinado setor da economia ou de uma empresa já estão ponderadas e refletidas no preço de seus ativos e ações. Uma vez que informações futuras a respeito das ações ainda não são conhecidas, e não podem ser conhecidas antecipadamente, não há como nenhum investidor "vencer" o mercado, isto é, alcançar consistentemente retornos superiores à média do mercado. 

Fama construiu toda a sua teoria baseando-se nesta conclusão, e foi ainda mais adiante: não apenas é impossível um indivíduo vencer o mercado, como também qualquer retorno de mercado será aleatório — a natureza desconhecida do futuro implica que o preço de qualquer ação tem de seguir um imprevisível "passeio aleatório".

É claro que tal concepção de conhecimento e de eficiência interpreta erroneamente, e de forma grave, a natureza de ambos os conceitos.  Para que a HME seja verdadeira, não somente todo o conhecimento disponível tem de ser interpretado da mesma maneira por absolutamente todos os investidores, como também o impacto deste conhecimento tem de ser idêntico entre todos eles! 

Observe que a primeira condição implica que não há absolutamente nenhum elemento subjetivo na formação do conhecimento.  Todos os elementos subjetivos foram removidos do processo de formação do conhecimento.  Isso significa que a teoria é toda construída sobre elementos objetivos.  Já a última condição implica que não há absolutamente nenhuma diferença no comportamento e na percepção dos investidores — todos eles têm absolutamente os mesmos objetivos; todos eles interpretam de maneira idêntica todo o conhecimento disponível; e todos eles têm preferências temporais exatamente iguais.  (Leitores interessados podem ler meus trabalhos anteriores sobre HME aqui e aqui).

Se a HME não passa de um enfadonho conto de fadas que descreve como as pessoas agiriam sob a mais irrealista das condições e de como o resultado deste arranjo fictício são mercados eficientes, o trabalho de Robert Shiller faz o extremo oposto, e se concentra em buscar maneiras de mostrar como os mercados são ineficientes.

Um dos mais famosos trabalhos de Shiller é seu artigo de 1981 intitulado "Do Stock Prices Move Too Much To Be Justified By Subsequent Changes In Dividends?", no qual ele desafia a posição dominante da hipótese do mercado eficiente.  Seus trabalhos subsequentes se concentraram em explicar o papel que os aspectos comportamentais têm na criação de bolhas.  Para Shiller, bolhas e expansões econômicas são uma mera questão de psicologia, não tendo relação alguma com variações da oferta monetária.

Sob vários aspectos, Shiller é uma das mais proeminentes personalidades na área das finanças comportamentais.  Um dos principais pontos desta sub-disciplina é a crença de que os agentes econômicos tomam decisões baseando-se em simples regras práticas e heurísticas, e não na lógica.  Os adeptos dessa teoria (também chamada de behaviorista) acreditam que a maneira como um indivíduo pensa um determinado problema (isto é, a maneira como ele estereotipa um problema) irá determinar como ele irá responder a um evento.  Um dos pilares da economia comportamental é a crença de que os mercados são, ou ao menos podem ser, ineficientes — e isso é observado seja em uma precificação errônea de ativos ou em tomadas de decisão não-racionais.

Não é nenhum exagero afirmar que a economia comportamental não tem nada em comum com a hipótese do mercado eficiente.

Fora da torre de marfim, Shiller é provavelmente mais conhecido pelo livro que publicou em 2000, Irrational Exuberance.  Partindo da crença de que investidores estão sujeitos a surtos de exuberância irracional, Shiller tentou explicar como a aparente bolha no mercado de ações dos EUA — que chegou ao seu ápice no ano 2000 — foi gerada por investidores que, de maneira totalmente irrealista, basearam suas expectativas de retornos futuros não em algum evento fundamental, mas sim em suas próprias e descontroladas crenças a respeito de um crescimento econômico futuro pra lá de otimista.

Não me entendam mal: todos os economistas concordam que a psicologia tem sim um papel nos movimentos do mercado.  No entanto, o que realmente comanda as oscilações econômicas são as variações na oferta monetária causadas pelo Banco Central e pelo sistema bancário de reservas fracionárias.  Shiller nega isso completamente.  Como consequência, ele não considera o Banco Central como sendo a causa do problema, mas sim a primeira linha de defesa contra os ciclos econômicos.  Ato contínuo, ele recomenda várias políticas econômicas de cunho altamente regulador.

Mas o que é realmente interessante nesta questão do Nobel é notar que Eugene Fama foi um severo crítico do livro e da abordagem de Shiller, chegando a dizer que "Robert ... tem sido consistentemente pessimista em relação aos preços".  Com efeito, nesta mesma entrevista, Fama gabou-se de ter cancelado sua assinatura da The Economist porque a revista estava utilizando exageradamente a palavra "bolha".  Ele disse isso em abril de 2010, quase um ano e meio após o início de uma crise que todos os economistas, jornalistas e leigos diriam que foi precipitada por uma bolha nos preços dos imóveis e no crédito imobiliário.

Em 2008, Shiller publicou outro livro, agora sobre a crise financeira americana, intitulado The Subprime Solution.  O livro não apenas negligencia totalmente a volumosa criação de crédito e a redução nas exigências para a concessão de empréstimos imobiliários como as causas da crise, como também recomenda abertamente que o governo americano implemente um novo New Deal, com um forte aumento nos gastos públicos.  Ora, em termos de gastos nominais, isso foi exatamente o que governo americano fez nos últimos cinco anos.  Podemos ver o quão benéfico isso foi para a economia.  (Sem considerar toda a explosão da dívida pública, que será legada para as futuras gerações de americanos.)

Eugene Fama e Robert Shiller não têm quase nada em comum, exceto pelo fato de ambos serem economistas bem conhecidos que publicaram trabalhos na ampla seara da precificação de ativos.  Suas abordagens são diametralmente opostas uma da outra.  Suas previsões sobre preços de ativos e sobre a capacidade de agentes econômicos tomarem decisões informadas e "corretas" não poderiam ser mais diferentes entre si.  No entanto, eles são os co-recipientes do Prêmio para as Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel concedido pelo Banco Central da Suécia.

Ao contrário da vida real, o comitê do Nobel e os economistas por ele premiados não estão limitados por um desventurado fato da vida: prejuízos.  Já no mundo dos investimentos, a realidade é mais crua.  E o fato é que investidores utilizam modelos baseados tanto na HME quanto na economia comportamental.  Fundos de pensão que utilizam o dinheiro de viúvas e órfãos são administrados por banqueiros e economistas treinados no espírito destes trabalhos laureados com o Nobel.  E isso tem sérias consequências.  Tanto Fama quanto Shiller podem ser elogiados por seus respectivos trabalhos, os quais são tidos como perspicazes, independentemente de sua real utilidade ou acurácia.  Mas o problema é que teorias ruins geram prejuízos financeiros para inocentes.  Ainda pior é a credibilidade imerecida que este prêmio confere aos seus recipientes.

Cinco anos atrás, Barack Obama foi laureado com o Prêmio Nobel da Paz pelos seus "extraordinários esforços" em estabelecer uma cooperação internacional.  Vimos como tudo isso terminou.  Um efeito colateral benéfico desta insensata premiação foi o descrédito e a má reputação que ela trouxe para todo o comitê do Nobel.  Torçamos para que os laureados deste ano possam gerar o mesmo efeito sobre o prestígio do Nobel de economia.


1 voto

autor

David Howden
é professor assistente de economia na Universidade de St. Louis, no campus de Madri, e vencedor do prêmio do Mises Institute de melhor aluno da Mises University.


  • José Américo   15/10/2013 15:03
    Nada melhor a esperar de quem já premiou também Paul Krugman.
  • Pupilo  15/10/2013 15:04
    Esse "premiozinho" já perdeu a credibilidade faz tempo.
  • Pedro Ivo  15/10/2013 18:02
    Na minha opinião, nunca teve, salvo para quem não conheça o básico de economia (99%)
  • Andre Cavalcante  15/10/2013 15:08
    Bah! Eu fico meio fulo da vida quando vejo essa de Prêmio Nobel de Economia. Primeiro que não é um Nobel, nem mesmo o agraciado é escolhido pelo mesmo comitê que escolhe os demais, mas sim por um comitê do banco central da Suécia. E o dinheiro do prêmio é dinheiro público. É complicado!

  • Renato Borges  15/10/2013 15:09
    Muito bom!! Hoje valorizam mais a robustez matemática de uma teoria do que a sua utilidade e acurácia. Bom que a imprensa tem destacado a fala do Robert Shiller sobre a bolha imobiliária no Brasil e o IMOB já apresenta sinais de queda. hehehe

    ps.: tem um erro de digitação em "Ele disse isso em abril de 2010, quase um ano e maio..."
  • Daniel  15/10/2013 16:21
    Modelos servem para entender o mercado de uma forma geral. Agora, as condições de contorno, ou algumas premissas na teoria são muito locais. Tanto que o próprio Fama teve que rever suas idéias do mercado eficiente.
  • Pedro Ivo  15/10/2013 18:04
    Discordo que sejam questões de contorno ou premissas mui locais. Leia Os irmãos Mises: o positivismo e as ciências sociais que você entenderá o porquê
  • davilson sabino  15/10/2013 15:09
    Todos os cientistas do mundo estão atrás de fama e glória, mercadorias que se compram apenas se defenderem o indefesável.
  • Outro  15/10/2013 15:31
    Tá, vamos ver a base monetária americana (research.stlouisfed.org/fred2/graph/?s[1][id]=BOGMBASE):

    Jan 2000 US$ 601,868 bi
    Jan 2005 US$ 775,222 bi
    Jan 2008 US$ 830,632 bi

    No período da bolha imobiliária americana a base monetária subiu 38%, OK. Agora veja depois da crise o resultado das medidas adotadas pelo Fed :

    2008-09-01 US$ 909,687 bi
    2009-01-01 US$ 1,712,014 bi
    2010-01-01 US$ 1,994,962 bi
    2011-01-01 US$ 2,047,917 bi
    2012-01-01 US$ 2,640,764 bi
    2013-01-01 US$ 2,741,743 bi
    2013-09-01 US$ 3,486,915 bi

    Um aumento de 283%. Agora eu pergunto, onde está a bolha?? E a hiperinflação de Mises??
    5 Anos e nada aconteceu, isso porque esse dinheiro não entrou diretamente na economia porque diminuiu a velocidade de circulação do dinheiro (olha a TQM!)

    Pura abobrinha isso aí de toda expansão monetária causar, por si só, bolhas. Mas não to dizendo que ela não cause, só não é sempre (e na ciência teoria que falha precisa ser revista);

  • Leandro  15/10/2013 15:55
    Abobrinha é confundir expansão da base monetária com expansão do crédito, que é o que realmente causa bolhas. Abobrinha é achar que ambas são mesma coisa. Abobrinha é tudo o que foi gerado pela sua participação aqui.
  • Charles  15/10/2013 16:23
    Leandro, por gentileza, perdoando a minha ignorância sobre o assunto, mas considerando o meu desejo de aprender, você poderia me indicar um artigo ou se não tiver, me explicar de que maneira a expansão do crédito gera bolha em determinados setores?

    por exemplo, no Brasil houve uma expansão do crédito, mas parece que o único setor que realmente surgiu alguma bolha foi o setor imobiliário...

    isso se deve a alta demanda por imóveis e apenas e a oferta alta de crédito? mas a expansão não atinge todos os setores?
  • Leandro  15/10/2013 17:00
    Recomendo a parte inicial e a parte final (seção sobre bolha imobiliária) deste artigo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1108

    E recomendo também este artigo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1347
  • Charles  15/10/2013 17:10
    Muito Obrigado! vou ler ambos!
  • Alfeu Rabelo Neto  15/10/2013 17:05
    Leandro, você acredita que a velocidade de circulação da moeda se manteve estável?
  • Leandro  15/10/2013 17:23
    Matematicamente não, pois a base monetária, que entra como denominador da divisão, aumentou sobremaneira. Mas essas variáveis copiadas da física não fazem o mais mínimo sentido na economia.
  • anônimo  15/10/2013 18:20
    E a inflação Leandro!?

    "Como Mises explicou em seu ensaio, "Inflação: uma política fiscal impraticável",

    Inflação, como esse termo sempre foi utilizado em praticamente todos os lugares do mundo, significa aumentar a quantidade de dinheiro (cédulas e moedas metálicas) em circulação, bem como a quantidade de depósitos bancários que podem ser utilizados por meio de cheques. Porém, as pessoas hoje utilizam o termo "inflação" para se referirem ao fenômeno que na verdade é uma consequência inevitável da inflação, qual seja, a elevação de todos os preços e salários. O resultado desta deplorável confusão é que não mais existe um termo disponível para explicar a causa desse aumento generalizado nos preços e salários. Não mais existe qualquer palavra disponível para assinalar o fenômeno que, até então, sempre foi chamado de inflação...

    Se você é incapaz de definir corretamente um fenômeno, você não tem como lutar contra ele. Aqueles que se arvoram a capacidade de lutar contra a inflação estão na verdade lutando apenas contra a consequência inevitável da inflação: o aumento dos preços. Seus esforços irão inevitavelmente fracassar porque não se está atacando a raiz do problema. Eles tentam manter os preços sob controle ao mesmo tempo em que continuam decididamente aumentando a quantidade de dinheiro na economia, algo que necessariamente fará com que os preços continuem subindo. Enquanto essa confusão terminológica não for completamente extirpada, é impossível haver qualquer chance de se acabar com a inflação."

    fonte: www.mises.org.br/Article.aspx?id=918

  • Leandro  15/10/2013 18:28
    Inflação = aumento da quantidade de dinheiro circulando na economia (cédulas e moedas metálicas mais depósitos bancários).

    A inflação é uma consequência da expansão do crédito. Antigamente, os governos jogavam dinheiro diretamente na economia (o Banco Central financiava o Tesouro diretamente). Hoje, o BC apenas dá dinheiro aos bancos. São eles que decidem se irão ou não jogar este dinheiro na economia. Ou seja, em última instância, são os bancos que controlam a real inflação da oferta monetária.

    O que você quer saber mais especificamente a respeito da inflação? Pode perguntar.
  • Outro  15/10/2013 19:16
    Olha a sua lógica: ("A inflação é uma consequência da expansão do crédito")

    Aumento do crédito -> aumento de moeda (inflação)

    Porque né, aumenta o crédito o Banco Central cria moeda (Mises fala o contrário no parágrafo que o anônimo citou) :p
  • Leandro  15/10/2013 19:26
    Não sei se o seu problema é com a teoria econômica ou com a alfabetização.

    Supondo-se que seja com a teoria econômica, vou repetir, agora de maneira um poucoo mais pedagógica:

    1) Inflação significa aumento da quantidade de dinheiro na economia.

    2) Expansão do crédito bancário é uma medida que gera aumento da quantidade de dinheiro na economia, pois os bancos, ao concederem empréstimos, criam dinheiro do nada por meio das reservas fracionárias e jogam este dinheiro na economia,

    3) Logo, por definição, uma expansão do crédito é uma medida inerentemente inflacionária, pois ela, por definição, aumenta a quantidade de dinheiro na economia. (E aumento da quantidade de dinheiro na economia é a definição própria de inflação.)

    Acompanhou ou se perdeu? Se quiser, pode levantar a mãozinha e perguntar de novo, que o tio explica novamente sem problemas.

    "porque né, aumenta o crédito o Banco Central cria moeda"

    Frase completamente ininteligível e sem sentido, tanto econômico quanto gramatical.
  • Leonardo Couto  15/10/2013 21:51

    Acho que o que você não entendeu, Outro, é que grande parte deste dinheiro criado não adentrou a economia. Saiu do FED para os bancos e lá ficou como reservas em excesso.

    Não houve o próximo passo, que é a disseminação deste dinheiro para o restante da economia, pois os bancos vêem mais favoravelmente os retornos dos juros destas reservas do que os de possíveis empréstimos. As maciças quantias de dinheiro não se traduziram totalmente, então, em um aumento de crédito.

    Dado este passo, completada efetivamente a inflação monetária, se terá um aumento de preços.

    Confira este artigo: Na política monetária dos EUA, as relações de causa e efeito deixaram de ser previsíveis

    Se ainda houver alguma lacuna, pergunte.
  • Pedro.  17/10/2013 14:34
    O que produz elevação contínua dos preços É O CONSUMO!

    Os muito ricos e maioria dos ricos consomem muito menos do que a renda que auferem.

    Quem tende a consumir tanto quanto seja sua renda são aqueles que ainda possuem demanda não realizada. Portanto, se houver um direcionamento de moeda para ricos e muito ricos, toda a moeda falsa (sem lastro) criada não irá resultar em consumo inflacionário. Ou seja, os preços dos produtos de altíssimo luxo poderão subir, porém os preços ao alcance dos "comuns" tenderão a manterem-se.
    ...Contudo, se os ricos investirem em produção as receitas em "moeda falsa" fabricada pelo governo (BC) haverá demanda de MO sobretudo em bens de insumo/infraerstrutura produtiva para só então haver a produção. Isso levará a inflação de preços. Pois que o dinheiro sem lastro fabricado pelo governo (BC) acabará remunerando indivíduos com demandas pendentes que se dirigirão ao mercado e tornarão os bens disponíveis sofrendo maior demanda com oferta não proporcional.

    ...mas se o excesso de moeda é dirigido a ricos que não aumentam a produção, oque ocorre é o empobrecimento da população produtora via divisão dos bens e serviços produzidos com os consumidores com demandas pendentes que se beneficiam do estado. Não há elevação de preços pq o empobrecimento de um setor corresponde ao "enriquecimnento" ou aumento de consumo do setor estatal. Assim as contas tendem a se equilibrarem via empobrecimento do setor consumidor privado para beneficio do setor consumidor estatal.

    Os muito ricos e ricos que recebem o excesso de moeda, caso nao disponibilizem ao público esrte excesso, não há como inflacionar os preços. Assim estes individuos podem criar um mercado próprio, restrito, onde imaginam estarem aumentando sua riqueza sem nada estarem produzindo de bens ou serviços, mas apenas jogando uns contra os outros num "cassino capitalista" de fichas que no final das contas não poderão ser trocadas por dinheiro vivo (real).

    Acho que os especuladores estão no cawssino ganhando muitas fichas uns dos outros e cada vez mais fichas são disponibilizadas para que continuem jogando.

    ...mas isso não pode durar para sempre, É EXATAMENTE UMA "CORRENTE DA FLEICIDADE" ...quando os jogadores resolverem abando nar o jogo oui mesmo momentaneamente trocarem suas fichas ...ahhhh!!! ai sim, descobrirão que o cassino vendeu fichas e agora não há como troca-las por dinehiro vivo. Descobrirão que possuem fichas nas mãos, mas o mercfado fora do cassino NÃO ACEITA FICHAS.

    So assim a "conta fecha" ...não magia. O basico da teoria, o principio, não pode ser revogado. Logo, há artificialismo para manter um equilibrio de cerat forma medonho, pois que um monstro cada vez mais voraz como uma "corrente da felicidade" ou pirâmide...

    Para dinehiro falso, mercadorias falsas.
    ...o pior é que tanta falsidade vai levar a falsos preços e vai ser aterrorizante a solução. ...uma Piramide ou corrente não pode durar para sempre.
  • Daniel Marchi  15/10/2013 17:53
    Ludwig von Mises sobre behaviorismo, empirismo e metodologia das ciências econômicas.

    [Ação Humana, Cap. I]
    A questão que temos de enfrentar é a de saber se é possível compreender intelectualmente a ação humana se nos recusarmos a compreendê-la como comportamento propositado, que procura atingir determinados fins. O behaviorismo e o positivismo querem aplicar à realidade da ação humana os métodos empíricos das ciências naturais. Interpretam a ação como uma resposta aos estímulos. Mas esses estímulos, em si mesmos, não são passíveis de descrição pelos métodos das ciências naturais. Qualquer tentativa de descrevê-los tem de se referir ao significado que o agente homem lhes dá. Podemos chamar de estímulo a oferta de uma mercadoria à venda. Mas o que é essencial nesta oferta e a distingue de outras ofertas não pode ser explicado sem que se considere o significado que os agentes atribuem a essa situação. Não há artifício dialético que possa negar o fato de que o homem é movido pelo desejo de atingir determinados fins. É este comportamento propositado — ação — que é o objeto de nossa ciência. Não podemos abordá-lo, se negligenciarmos o significado que o agente homem associa a uma situação, ou seja, a uma dada conjuntura, e ao seu próprio comportamento diante da mesma.

    [Ação Humana, Cap. II]
    Ocorre, entretanto, que as ciências da ação humana são radicalmente diferentes das ciências naturais. Todos os autores que pretendem estabelecer uma base epistemológica das ciências da ação humana segundo o padrão das ciências naturais erram lamentavelmente.
    (...)
    A impraticabilidade da medição não decorre da falta de meios técnicos para a efetivação da medida. Deve-se à ausência de relações constantes. Se o problema fosse apenas de insuficiência técnica, pelo menos uma estimativa aproximada seria possível em alguns casos. Não é possível porque o problema principal está no fato de que não existem relações constantes. Os ignorantes positivistas repetem frequentemente que a economia é uma disciplina retrógrada por não ser "quantitativa".
  • Emerson Luís, um Psicólogo  15/10/2013 18:07
    Os outros prêmios Nobel possuem uma paródia, o prêmio Ignóbil.

    Já o prêmio Nobel de Economia não precisa disso, ele mesmo é a sua própria paródia.

    PS: A psicologia comportamental não tem nada a ver com essa tal "economia comportamental", mesmo que esta use conceitos do Behaviorismo.

    * * *
  • Pedro Ivo  17/10/2013 14:28
    Tem sim Emerson.

    Este é o link do arquivo de 'economia comportamental' de um blog de comportamentalismo em português:[link=olharbeheca.blogspot.com.br/search/label/Economia%20Comportamental][/link]. E este um artigo em particular do link Psicologia das bolhas de mercado.

    Embora as pesquisas de economia comportamental + famosas sejam cognitivistas, os analistas do comportamento tem uma interpretação analítico comportamental para elas. No artigo Por que só damos valor a alguém quando perdemos? é apresentada uma interpretação analítico comportamental às teorias de Kahneman e Tversky, por ex..

    E tenho visto algumas pesquisas de economia comportamental através dos conceitos de Metacontingências e Macrocontingências (embora eu ache muita forçação de barra chamar "comportamentos localizados frente a necessidades", e os "meios pelos quais as pessoas agem para atender suas necessidades" de economics. Acho que economia comportamental, como antropologia econômica, tem algo a dezer sobreeconomy, não sobre economics).

    E não podemos nos esquivar de Skinner propôs uma modalidade de socialismo, em que a economia seria toda regulada via controle de estímulos.

    Digo tudo isto como analista do comportamento (metodologia). O Behaviorismo (epistemologia) do Skinner é insustentável. Mero baconianismo. Extremamente inocente.
  • Emerson Luis, um Psicologo  21/10/2013 18:01
    Pedro, os artigos que você citou são interessantes. O primeiro diz:

    "Às vezes fenômenos econômicos ocorrem em cadeias um tanto previsíveis, por conta de contingências muito parecidas. Isso torna possível que economistas identifiquem padrões.

    O gráfico acima, que achei navegando na net, mostra um bom resumo do que ocorre numa "bolha de mercado" (quando um mercado parece ir muito bem, mas na verdade foi superestimado).

    Quem entende o funcionamento dessas cadeias pode se prevenir para não entrar em bolhas, e tirar proveito das que existem. Fique esperto!


    É o que diversos artigos daqui explicam. Só faltou dizer que as "contingências" são as intervenções governamentais que superestimulam o mercado. O behaviorismo pode estudar todos os comportamentos humanos, inclusive o econômico.

    O que eu quis dizer é que não podemos responsabilizar a psicologia comportamental por causa do mau uso que estes economistas fazem dos seus conceitos, pensar que ela é equivalente da economia comportamental e que uma endossa tudo o que a outra diz.

    A seguinte afirmação não tem nada a ver com a psicologia comportamental:

    Um dos pilares da economia comportamental é a crença de que os mercados são, ou ao menos podem ser, ineficientes — e isso é observado seja em uma precificação errônea de ativos ou em tomadas de decisão não-racionais.

    Sim, Skinner errou nesse ponto. Pior, foi autocontraditório. Mas a psicologia comportamental não é em si mesma de viés socialista/keynesiano. Ela valoriza o indivíduo, reprova a coerção e defende que o autocontrole é melhor do que o controle externo.

    Eu não sou behaviorista. Trato Skinner como a todos os pensadores que estudei: (1) uso os seus acertos e (2) não repito os seus erros. Se não me engano, Mises chamou o nazismo de "ditadura de direita" ou algo assim, não? Mas eu o admiro assim mesmo.

    * * *
  • Pedro Ivo  24/10/2013 11:56
    "Só faltou dizer que as "contingências" são as intervenções governamentais que superestimulam o mercado." - Até aqui concordo

    "O behaviorismo pode estudar todos os comportamentos humanos, inclusive o econômico."[/i] - Concordo parcialmente. Em 1º lugar, o estudo analítico-comportamental (como o cognitivista, psicanalítico, antropológico, etc.) do comportamento humano não produz teoria econômica (economic); pode no máximo decorrer em estudos das relações sociais dentro da esfera econômica (economy). Pode parecer preciosismo, mas é uma distinção fundamental. Quando estudamos as decisões econômicas que as pessoas tomam, estamos fazendo sociologia e psicologia. Estamos aprendendo sobre as socializações e aprendizagens a que estas pessoas foram expostas; as razões subjetivas que elas têm/desenvolveram para apresentar esta ou aquela necessidade, preferência, predisposição. Mas isto não é teoria econômica.

    O problema esta justamente no fato de os psicólogos, sociólogos e antropólogos (filiem-se a que linha de pensamento for) não distinguirem entre economic e economy. Praxeologia = economic, teoria econômica; sociologia (ou antropologia, ou psicologia) = economy, comportamentos econômicos no dia a dia. Mas estes profissionais insistem em dizer que ao fazerem economy estão fazendo teoria econômica.

    "O que eu quis dizer é que não podemos responsabilizar a psicologia comportamental por causa do mau uso que estes economistas fazem dos seus conceitos, pensar que ela é equivalente da economia comportamental e que uma endossa tudo o que a outra diz." - Discordo, até o dia em que psicólogos saibam diferenciar economic de economy.

    Para quem deseje entender a diferença entre economic de economy, ver: Psicologia versus Praxeologia
    O que é a economia e por que estudá-la
    A utilidade marginal não é nenhuma astronáutica
    Praxeologia - A constatação nada trivial de Mises
    O que é a Economia Austríaca?
  • Pedro Ivo  24/10/2013 12:36
    Errata: na postagem em que coloquei o link para os artigos de economia comportamental, esqueci-me de colocar uma frase entre os colchetes. Ei-lo corrigido.

    Economia comportamental.
  • IRCR  15/10/2013 21:26
    Sejamos realistas vcs acham que alguem ganharia um nobel dado por um banco central a alguem que acusaria os proprios bancos centrais e comerciais como fonte das bolhas ?
    Por isso que dificilmente veriamos um trabalho com vies "austriaco" sendo laureado.

    Com relação ao Shiller a parte comportamental até está correta, mas isso é apenas a consequencia e não a causa das bolhas.
  • JBALL  16/10/2013 06:47
    Leandro, uma dúvida. Qual o método de precificação de ativos segundo a EA então? Nenhum? Se for nenhum daí já é fanatismo. Impossível os bancos e as empresas não seguirem modelos de precificação
  • Leandro  16/10/2013 09:32
    Criticar um determinado modelo não significa estar advogando o não-uso de nenhum modelo. Entender a coisa desta forma, isso sim, configura fanatismo.
  • Pedro Ivo  17/10/2013 14:55
    Caro JBALL:

    Modelos de precificação de ativos usam parâmetros colhidos econometricamente no mercado. Tais parâmetros são história econômica recente, e não teoria econômica. Estes dados econométricos e os parâmetros estabelecidos a partir deles nos mostram como tem sido, preteritamente, as correlações entre comportamentos dos agentes e preços dos ativos; mas não estabelecem relações fixas entre preços e comportamentos. Isto porque, conforme a 'teoria do valor subjetivo' nos mostra, as avaliações/precificações que os agentes fazem de quaisquer bens, transformam-se conforme as alterações na escassez relativa destes bens, escassez relativa esta que se transforma graças ao empreendedorismo.

    Para ter um panorama mais completo, vide sobre "aação humana ser propositada":

    Ação humana é ação propositada
    Como o apriorismo permite o verdadeiro conhecimento
    O apriorismo de Mises contra o relativismo na ciência econômica
    Explicando o verdadeiro significado do apriorismo

    Sobre matemática aplicada à economia:
    Uma observação sobre o uso da matemática na economia
    Matemática na economia: bom ou ruim?
    Previsões econômicas e seus modelos infundados
    A estatística, o ponto fraco do governo

    Sobre utilidade marginal:
    A utilidade marginal não é nenhuma astronáutica

    E sobre empreendedorismo:
    A função econômica da poupança e dos bens de capital
    A natureza do empreendedor - o problema com a teoria de Hayek e Kirzner
    A irresistível força da concorrência de mercado
    Empreendedorismo, eficiência dinâmica e ética
    Sociedades pobres e sociedades ricas - o que faz a diferença
    A GM e o fim da indústria de pianos nos EUA

    E estes são apenas uns exemplos. Mergulhe no assunto!
  • Carlos P.Samamez  16/10/2013 08:17
    Por que E. Fama mereceu o prêmio Nobel de 2013?

    O Instituto Ludwig von Mises - Brasil postou em seu site em 15-10-2013 o artigo "A insensatez do Nobel de economia de 2013" de autoria de David Howden, professor assistente de economia na Universidade de St. Louis, e vencedor do prêmio do Mises Institute de melhor aluno da Mises University.

    O trabalho de E. Fama, com todas suas limitações e inconsistências originais, é relevante no sentido que permitiu o avanço posterior do conhecimento na preficação de títulos nos mercados de capitais. Sem a invenção da roda não haveria o automóvel. Quem mereceria mais ser premiado? o inventor da roda ou do automóvel? Sem um mercado de capitais que precifique adequadamente seus títulos não há economia eficiente. Sem gente que se preocupe em pensar sobre qual a melhor forma de precifica-los não há mercados desenvolvidos. Foi o caso de Black & Scholes (Nobel de 1997), que ajudaram com seus modelos ao desenvolvimento dos mercados futuros e de derivativos, verdadeiros veículos de diluição de risco para os agentes econômicos.

    A afirmação do autor do artigo de que "uma vez que informações futuras a respeito das ações ainda não são conhecidas, e não podem ser conhecidas antecipadamente, não há como nenhum investidor "vencer" o mercado, isto é, alcançar consistentemente retornos superiores à média do mercado" peca enormemente de falaciosa quando não identifica o período temporal, pois as constatações são muito diferentes no curto, médio e longo prazo.

    A afirmação do autor de que "o conhecimento disponível tem de ser interpretado da mesma maneira por absolutamente todos os investidores, como também o impacto deste conhecimento tem de ser idêntico entre todos eles", está totalmente superada pelo avanço recente da Teoria de Finanças, que o autor do artigo por descuido, desconhecimento ou tendenciosidade não menciona. Os trabalhos primitivos de Fama, que dentre outras coisas pressupunham expectativas homogêneas e estados da natureza constantes, permitiu a outros autores mais recentemente desenvolver modelos muito mais robustos, em que as expectativas são heterogêneas e condicionadas a estados da natureza variáveis. Nessas modernas abordagens, que tiveram como base os trabalhos primitivos de Fama, conflito com a realidade não existe, pois nesses modelos muito bem podem ser estipulados retornos ex-ante condicionados a estados da natureza diferentes, em que as políticas monetárias, crescimento econômico, oferta de crédito e moeda são diferentes e não homogêneos. Assim, nessas modernas versões, não há conflito com o pensamento da Escola Austríaca.

    A afirmação de que os modelos pressupõem que os retornos seguem um caminho aleatório esta totalmente superada pelos atuais desenvolvimentos. Os modelos e abordagens mais modernas consideram diferentes processos estocásticos para a evolução do preço das ações, tais como volatilidade condicional, dinâmica e estocástica.

    A pesquisa mais atual no assunto atualmente está nas mãos de pesquisadores que, partindo dos modelos primitivos de E. Fama, conseguiram incorporar de modo mais apropriado a realidade e os drives dos quais depende o processo gerador de retornos nos mercados de capitais. Dentre os recentes trabalhos mais relevantes que aprimoram a ideia original Fama, podemos citar alguns:

    Adcock, C.J., Cortez, M.C, Rocha Armada, M.J. e Silva, F. (2012) Time varying betas and the unconditonal distribution of asset returns. Quantitative Finance, 12, 5, 951-967

    Avramov, D. e Chordia T. (2006) Asset pricing models and financial market anomalies. Review of Financial Studies , 19, 3, 1001-1040

    Bentz, Y. (2003) Quantitative Equity Investment Management with Time-Varying Factor Sensitivities. No livro de Dunis, L.C., Laws, J. e Naïm, P. Applied Quantitative Methods for Trading and Investment. Wiley Online Library

    Brennan, M. J., Chordia, T. e Subrahmanyam, A. (1998) Alternative factor specifications, security characteristics, and the cross-section of expected stock returns. Journal of Financial Economics, 49, 3, 345-373

    Jostova, G. e Philipov, A. (2005) Bayesian analysis of stochastic betas. Journal of Financial and Quantitative Analysis, 40, 4, 747-778

    Mergner, S. (2009) Applications of State Space Models in Finance: An Empirical Analysis of the Time-varying Relationship between Macroeconomics, Fundamentals and Pan-European Industry Portfolios. Universitätsverlag Göttingen

    Mergner, S. e Bulla, J. (2008) Time-varying beta risk of Pan-European industry portfolios: A comparison of alternative modeling techniques. The European Journal of Finance, 14, 8, 771-802
  • David Howden  16/10/2013 09:21
    Você próprio matou a questão ao longo de seu ataque à minha pessoa. A contribuição original de Fama possui várias limitações e inconsistências, que tiveram de ser corrigidas por terceiros ao longo do tempo. Isso está em total contraste com as contribuições de Mises, por exemplo, que não possuíam limitações e inconsistências, e que não tiveram de ser posteriormente corrigidas e alteradas.

    O principal problema com a construção estática criada por Fama é que ela simplesmente não ajuda a entender o mundo. O modelo original criado por Fama partia de duas suposições: (1) alterações sucessivas nos preços ocorrem de forma independente do período temporal anterior, e (2) estas alterações nos preços se dão de acordo com uma conhecida probabilidade de distribuição.

    Alguns anos depois, Fama adicionou mais três restrições a este seu modelo: (3) expectativas homogêneas, (4) ausência de custos de transação, e (5) informações sem nenhum custo (apenas um subconjunto da hipótese anterior).

    A conclusão é que todos os preços devem, no presente, refletir totalmente todas as informações existentes, de modo que todos os movimentos futuros nos preços resultarão apenas de informações futuras, as quais são diferentes das informações atuais, que não estão disponíveis atualmente.

    Bom, as três primeiras suposições excluem todo o tempo real do modelo, e as duas últimas excluem todo e qualquer atrito, permitindo que os preços se ajustem instantaneamente.

    Até aí, tudo bem. É uma construção válida. Mas o problema é que mesmo um mundo no qual não há nenhum elemento temporal real ainda assim vivencia criação de informações. Logo, neste mundo sem atrito, a informação seria disseminada instantaneamente e sem nenhum custo para o mercado. Sendo assim, dado que as preferências não estão mudando, qual é o resultado alcançado?

    Essa lógica nos permite concluir que a HME não serve para aferir as mudanças que ocorrem no próprio mundo que ela criou. Um arranjo de HME iria, por definição, se limitar exclusivamente a estudar efeitos que ocorrem em decorrência das informações que já estão disponíveis em seu arranjo. Mas, ora, estamos interessados é em ver o efeito que a influência de novas informações terão sobre os preços dos ativos. Mas como o elemento da incerteza está excluído deste mundo -- por causa da concepção temporal --, esse objetivo se torna impraticável. É apenas no desequilíbrio que os preços desempenham sua função informativa. Um movimento para o equilíbrio, que é o que pressupõe o modelo, iria negar a função dos preços, desta forma fazendo com que qualquer informação fosse desnecessária para determinar o valor dos preços.

    Qual a solução então? O próprio Mises já havia criado um modelo semelhante, porém superior, que é o modelo da economia uniformemente circular. E, ao descrevê-la, Mises acaba explicando por que o modelo HME não é uma construção adequada da qual se deve partir para se analisar alterações no mercado:

    "Para compreender a função do empreendedorismo e o significado do sistema de lucros e prejuízos, construímos um sistema onde tais realidades não existem. Essa imagem é meramente uma ferramenta para o nosso pensamento. Não é a descrição de um estado de coisas possível ou realizável. É até mesmo inconcebível levar a construção imaginária de uma economia uniformemente circular às suas últimas consequências. Porque é impossível eliminar a figura do empresário e do empreendedorismo do quadro de uma economia de mercado. Os fatores de produção não se podem juntar espontaneamente."

    O fato é que a HME não pode ser levada até sua conclusão lógica. E, mesmo se pudesse, o resultado iria nos levar para ainda mais longe da resposta que queríamos quando começamos. O que queremos é determinar o efeito das informações sobre os preços dos ativos. No entanto, quando adentramos o mundo da HME, surgem duas coisas que complicam essa possibilidade: 1) as informações reais deixam de existir, o que consequentemente faz com que elas percam todo o seu valor para o agente empreendedor, uma vez que o futuro passa a ser visto como certo; e 2) os preços monetários são completamente eliminados como resultado da remoção de toda a incerteza.

    Logo, justamente os dois objetos que queríamos estudar -- a informação e seu efeito sobre os preços -- se tornam uma impossibilidade. A HME, ao contrário do modelo de economia uniformemente circular criado por Mises, é irrealista demais e incapaz de fornecer insights para estes elementos, mesmo quando usada como uma construção puramente artificial.


    Leituras sugeridas (é curioso que os links para os trabalhos acadêmicos a este respeito disponibilizados ao longo do artigo foram por você ignorados):

    Fama's efficient market hypothesis and mises's evenly rotating economy: comparative constructs

    The Efficient Market Conjecture

    Bursting Eugene Fama's Bubble
  • Julio Heitor  16/10/2013 18:20
    Sabe o que eu acho mais bacana na teoria austriaca? É que não preciso saber quase nada de matemática para enteder as ideias. Acredito que os "doutores" em economia lançam mão da matemática exatamente para que apenas uns poucos (senão nenhum) tenham condições de refutá-los.

    Só pela explanação do David eu entendi toda a ideia de Fama e seus problemas conceituais. E ele nem precisou usar matemática para isso.
  • Gilberto  18/10/2013 13:03
    David, os três links que você postou no seu comentário não funcionam.
  • Mauro  18/10/2013 13:19
    Os dois primeiros links são mesmos que estão no artigo, na frase "(Leitores interessados podem ler meus trabalhos anteriores sobre HME aqui e aqui)." É só clicar lá.

    O terceiro é este: mises.org/daily/4056
  • Ricardo  16/10/2013 16:54
    "Isso está em total contraste com as contribuições de Mises, por exemplo, que não possuíam limitações e inconsistências, e que não tiveram de ser posteriormente corrigidas e alteradas."

    Muito bom! Mises foi irretocável!
  • Marcos  17/10/2013 13:24
    Uma coisa ninguém nunca conseguiu me explicar: se grande parte dos participantes do mercado não agem de maneira lógica, e sim a partir de suas crenças e de estereótipos, então por que os integrantes do governo não agiriam da mesma forma? Eles por acaso são líderes escolhidos por alguma entidade sobrenatural, que imputa a eles a lógica contínua? São gênios disciplinados ao extremo?

    Achar que é necessário um ente para consertar a irracionalidade dos mercados implica em acreditar que de algum modo os participantes dessa entidade são MENOS irracionais que o mercado. E isso é absolutamente falso. Há provas inequívocas de que o governo tende a ser ainda mais irracional do que os mercados
  • Pedro Ivo  17/10/2013 17:49
    Ninguém te explicou porque quando esta ponderação é colocada, os propositores da intervenção desviam do assunto, ao invés de responder.

    Já vi sua ponderação ser colocada noutras situações, e o interlocutor invariavelmente foge da raia.

    Quando eu fazia faculdade de psicologia, tive oportunidade de perguntar numa palestra sobre políticas públicas algo semelhante ao que você ponderou Marcos: "se participantes do mercado não agem de maneira lógica, mas a partir de crenças e de estereótipos, então por que os integrantes do governo não agiriam da mesma forma?" A questão na palestra era que no mercado de trabalho, gerentes tomam decisões esteriotipadas a partir de preconceitos de gênero, classe e raça, portanto, o estado tem de criar intervenções para anular essa distorção. Minha pergunta se baseou na falta de critérios objetivos para estabelecer se uma contratação foi esteriotipada. Daí, qualquer interferência seria ela própria baseada em crenças e esteriótipos, induzindo, aí sim inequivocamente, a uma interferência seria ilógica. A palestrante se esquivou dizendo que sua posição era baseada não só em fatos, mas também numa abordagem ideológica e valorativa do que a sociedade deve se tornar, e que eu não podia condicionar a abordagem que ela propunha a um crivo estritamente factual, porque a interferência, que ela propunha, é valorativa. - Tentei então questionar como ela podia argumentar, usando de uma "abordagem ideológica e valorativa" (a sua) contra outra abordagem (dos gerentes) ideológica e valorativa. Desta ela se esquivou dizendo que não tinha, dadas as limitações de tempo, como responder.

    Houve situações semelhantes em aulas de psicologia do trabalho psi. social, quando questionei a validade de abordagens que criticavam 'julgamentos de valor', mas elas próprias não eram isentas de valores. Nunca obtive respostas, só saídas pela tangente como a supracitada.

    A linguagem da academia é a fraude. [1] Se você adota uma postura relativista, pode dogmaticamente se esquivar de quaisquer questionamentos, pois "minha abordagem é valorativa". [2] Se você não tem uma resposta a uma pergunta, pode simplesmente não responder, pois tem o direito de cátedra de inquirir, mas não ao dever de responder inquirições.
  • penselivre  17/10/2013 13:34
    capitalismo d compadres, espoliando o povo diariammente...isso eh o brasil


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