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Um “austríaco híbrido” e pouco conhecido: Wicksteed

Este artigo não pretende ser original. Minha principal motivação para escrevê-lo é tornar mais conhecido o nome de um economista que muito provavelmente só nos remete vagamente a uma ou outra nota de rodapé esquecida na implacabilidade do tempo e na imensidade de livros já lidos e que repousam em alguma estante. Não realizei pesquisa profunda para esse intento, apenas tomei como principal referência um artigo de Israel Kirzner que vou mencionar mais adiante, bem como informações que colhi durante poucos dias na Internet. Alguns confundem seu sobrenome com o de Knut Wicksell (1851-1926), considerado o pai da Escola Sueca de Economia e famoso por sua obra no campo da teoria monetária.

Mas de quem vamos tratar aqui é de Philip Henry Wicksteed (1844-1927), filho de um clérigo da igreja unitária, que foi ministro dessa mesma denominação (que, como sabemos, acredita em um Deus uno, rejeitando a Santíssima Trindade), classicista, medievalista (ficou famoso por seus trabalhos sobre a obra do poeta florentino Dante Alighieri), crítico literário e, a partir da meia idade, economista. Foi influenciado por Henry George e William Stanley Jevons e exerceu alguma influência sobre o pensamento de Joseph Schumpeter, Ludwig von Mises e, mais tarde, Henry Hazlitt e Murray Rothbard.

Seu interesse em Dante serviu para consagrá-lo como um dos maiores medievalistas de sua época e suas motivações teológicas, bem como sua preocupação com a ética da sociedade comercial moderna despertaram seu interesse  pela economia. Talvez essas preocupações o tenham levado a ser membro da Sociedade Fabiana, uma organização britânica cujo objetivo era propagar os princípios socialistas de maneira gradual, mediante reformas e não por revoluções, algo como o que tentou fazer Antonio Gramsci posteriormente. Essa sociedade deu origem a uma reformulação política da qual acabou surgindo, em 1900, o Partido Trabalhista britânico.

Mas como? Um socialista da Escola Austríaca? Bem, não nos assustemos com isso, porque Joseph Schumpeter chegou a escrever que Wicksteed "estava um pouco fora da profissão de economista"...

No entanto, sua teoria econômica é anti-marxista por excelência. Como escreveu Alceu Garcia em 2002,

"Quando a doutrina econômica marxista emergiu de sua obscuridade inicial em fins do século XIX e reclamou um lugar de honra no panorama teórico da disciplina, já encontrou um novo e firme edifício científico erigido a partir das descobertas dos pioneiros do marginalismo, na década de 1870. Descartada a teoria clássica do valor-trabalho, o marxismo, que dela deduzia todo o seu sistema, também soçobrou. Autores treinados na nova técnica, como Eugene von Böhm-Bawerk, Philip Wicksteed e Vilfredo Pareto, analisaram e refutaram as teses marxistas com a maior facilidade. O marxismo foi portanto barrado na porta de entrada do templo da respeitabilidade científica no campo da economia, e ficou confinado a guetos ortodoxos estagnados que não eram levados a sério fora de seu círculo".

Portanto, ele poderia ser enquadrado atualmente como um social-democrata moderado e não como um socialista e muito menos como um comunista. Wicksteed manteve uma postura subjetivista no pensamento econômico, colocando a medida de valor na mente do consumidor e não apenas no próprio bem. Mesmo não tendo sido reconhecido em vida como um grande economista, influenciou, embora indiretamente e nem sempre claramente, a segunda geração de austríacos notáveis, ??entre eles Ludwig von Mises, em cuja obra alguns insights de Wicksteed são perceptíveis às mentes mais atentas.

Além disso, devemos notar que sua preocupação sempre manteve natureza teológica e que foram aquelas questões de forte apelo no que hoje os politicamente corretos chamam de "social" que contribuíram para despertar seu interesse pela ciência econômica.

Lecionou economia durante muitos anos em Londres e, em 1894, publicou seu célebre An Essay on the Co-ordination of the Laws of Distribution, em que tentou provar matematicamente que um sistema distributivo que recompensasse os proprietários das fábricas de acordo com a produtividade marginal esgotaria o produto total produzido. Mas foi em 1910, com The Common Sense of Political Economy, que surgiu mais claramente sua maneira peculiar de enxergar a teoria econômica.

Como observou o Prof. Israel Kirzner no capítulo 7 do excelente The Great Austrian Economists  (Randall G. Holcombe, Mises Institute, 1999. iBooks), sob o título Philip Wicksteed: the British Austrian, Wicksteed ocupa na História do Pensamento Econômico uma posição situada entre a de Jevons e a dos austríacos.

A opinião de Kirzner é que, do ponto de vista doutrinário, Wicksteed tem alguma identificação com a tradição iniciada por Carl Menger, embora não possamos classificá-lo como um austríaco puro, no senso que essa expressão significa. Embora tenha sido contemporâneo de Menger, Wieser e Böhm-Bawerk, tudo leva a crer que ele não teve contacto direto e nem por cartas com nenhum deles e nem tampouco esteve em Viena. Mas, em The Common Sense, obra com quase novecentas páginas distribuídas em dois volumes, ele citou Menger duas vezes, Wieser três, Böhm-Bawerk duas e Mises uma vez, ainda que não tenha revelado qualquer influência forte dessa primeira geração de economistas austríacos. Quem teve maior influência sobre ele foi William Stanley Jevons, citado diversas vezes no livro mencionado e que de certa forma também possuía algo de "austríaco". Sua obra influenciou em alguns pontos a segunda geração dos seguidores da tradição de Menger, mas, embora Mises, no final de sua vida, tenha se referido ao The Common Sense como um "grande tratado" de Wicksteed, ninguém pode afirmar que tenha sido fortemente influenciado por ele. Em Ação Humana, Mises o cita apenas uma vez, em uma nota de rodapé.

Em que sentido, então, o Prof. Kirzner, um austríaco de quatro costados, refere-se a Wicksteed como um "austríaco britânico"? A resposta é que existe uma afinidade não desprezível entre ele e os austríacos em relação ao âmbito, caráter e conteúdo da análise econômica. Sob o ponto de vista ideológico, no entanto, Wicksteed não foi um austríaco, pois era um tanto simpático ao socialismo, como observamos anteriormente, o que se explica pelo fato de que em sua época, as ideias socialistas tinham apelo mais forte em Londres do que em Viena. É importante, para que o entendamos melhor, atentarmos para o fato de que sua abordagem não seguiu a tendência marshalliana dominante naquele tempo, nem tampouco a de Leon Walras que, como sabemos, juntamente com Menger e Jevons, foram os "descobridores" da doutrina da utilidade marginal, em 1871, embora trabalhando independentemente. Foi por desconfiar ou rejeitar o pensamento clássico sobre o funcionamento dos mercados e por rejeitar as ideias de Marx que Wicksteed aproximou-se dos austríacos, especialmente de Mises.

Naqueles anos, a maior influência sobre a mainstream economics era a de Alfred Marshall, que a herdara dos clássicos. Marshall não procurou destruir essa tradição, mas limitou-se a preencher algumas lacunas que julgava haver encontrado nas obras dos economistas clássicos. Já Wicksteed, assim como Menger e Jevons, acreditavam que era preciso fazer uma reconstrução completa na teoria econômica. Marshall foi um revisionista, enquanto Wicksteed foi um revolucionário em termos de teoria econômica.

Kirzner, no artigo citado, escreve que podemos identificar fortes componentes austríacos nesse intento revolucionário de Wicksteed, que seriam decorrentes de sua postura subjetivista e destaca três deles, a saber, sua forte ênfase no componente subjetivista dos custos; sua rejeição à visão clássica da teoria econômica com seu modelo do homo oeconomicus; e sua preocupação com o processo de mercado, em contraposição à visão clássica de equilíbrio de mercado. A esses três componentes analisados pelo Prof. Kirzner, acrescento um quarto, que pode revelar alguma influência na obra de Hayek, especialmente a partir dos anos quarenta, o da imperfeição do conhecimento.

Nas palavras de Kirzner,

Podemos aventar a hipótese de que, em relação a estes três aspectos do 'austrianismo' de Wicksteed, o primeiro parece ter sido o que mais impressionou o Robbins, o segundo talvez seja o que mais tenha impressionado Mises, e o terceiro talvez seja o de maior interesse para os austríacos modernos, os discípulos de Mises e Hayek.

Vamos resumir em seguida cada um desses três componentes austríacos seguindo o excelente artigo de Kirzner.

1o. O subjetivismo

Wicksteed se rebelou contra a visão clássica da atividade econômica, especialmente a de produção, que a estuda a partir de relações estritamente técnicas, totalmente distintas das considerações de utilidade marginal que regem as decisões de consumo. Para ele, em nenhum caso o custo de produção pode ter influência direta sobre o preço de uma mercadoria, pois, em todos os casos em que os custos de produção ainda não foram incorridos, o fabricante faz uma estimativa das alternativas ainda em aberto para ele antes de determinar se, e em que quantidades, a mercadoria deve ser produzida, e o fluxo de produção assim determinado estabelece o valor marginal e o preço.

A única hipótese em que o custo de produção pode afetar o valor de um bem é no sentido de que ele próprio é o valor de outro bem. Assim, os custos de produção possuem uma natureza claramente subjetiva. Para Wicksteed, então, o custo desempenha um papel na explicação do preço de mercado apenas quando equivale ao valor previsto de uma alternativa em perspectiva, que é, no momento da decisão de produção, rejeitada em favor do que se decidiu produzir.

Como observou o Prof. James Buchanan, "o trabalho de Wicksteed exerceu uma influência muito importante na teoria dos custos que surgiu no final dos anos 1920 e início dos anos 1930 na London School of Economics".

2o. O objeto de estudo da teoria econômica

Em Common Sense, Wicksteed manifesta grande interesse sobre o que realmente significa o adjetivo economics (em português, o melhor significado para esta palavra é teoria econômica). E ele manifesta essa sua busca tentando desenvolver as implicações revolucionárias da obra de Jevons, tentando demonstrar a incoerência da visão clássica da teoria econômica, sustentando que é arbitrário o procedimento analítico de enxergar a busca de riqueza material como um campo exclusivamente distinto da pesquisa econômica. E vai mais além, argumentando que, além de arbitrário, esse expediente é inútil, do ponto de vista analítico, para sequer dizer o mínimo, para enxergar as conclusões da ciência econômica como dependentes do domínio dos motivos egoístas — empregados não com o sentido de individualistas -, que são característicos do homo oeconomicus.

Nesse aspecto, as semelhanças com os insights de Mises são bastante visíveis. Ambos insistiram no aspecto da aplicação universal das conclusões deduzidas de nossa compreensão dos propósitos e racionalidade dos agentes econômicos ao tomarem suas decisões. Então, um preço, no sentido mais restrito do "dinheiro usado para adquirir um bem material, um serviço ou um privilégio", é para ele apenas um caso especial de um conceito mais amplo, aquele das condições sob as quais diversas alternativas são oferecidas aos agentes.

Para Mises, a exclusão de motivos altruístas da teoria econômica é arbitrária, porque é baseada em uma compreensão equivocada dos fins da ação humana, já que o que movimenta o comportamento dos agentes nos mercados são simplesmente suas intenções. Wiksteed caminhou dentro dessa perspectiva, ao insistir que o "propósito de excluir de consideração os motivos benevolentes ou altruísticos no estudo da teoria econômica é algo completamente irrelevante e inadequado".

Então, vemos com clareza que aquilo que Wicksteed e os austríacos estavam fazendo era consistentemente e subjetivamente redirecionar o foco da análise econômica dos objetos puramente materiais do método clássico para as implicações das escolhas individuais. Aqui, encontramos um componente do individualismo metodológico comum a Wicksteed e aos austríacos.

3o. O mercado como um processo

Na concepção de Wicksteed, um mercado "é o mecanismo pelo qual os que possuem escalas de preferências elevadas para um determinado bem são colocados em comunicação com os que, relativamente ao mesmo bem, possuem escalas de preferências baixas, de modo que as trocas podem oferecer satisfação mútua até que o equilíbrio seja estabelecido. Mas esse processo sempre e necessariamente exige tempo". [negritos nossos]

Sem qualquer dúvida podemos achar aspectos dessa definição consistentes com os postulados da Escola Austríaca sobre o processo de mercado. Alguns poderão argumentar que a afirmativa de Wicksteed de que os mercados tendem para o equilíbrio seria "não austríaca", mas por outro lado — e aí é que reside sua importância — ele também reconhece explicitamente que o mercado é um processo em que há uma tendência demorada, ou seja, que demanda tempo, no sentido do equilíbrio, durante a qual os agentes estão em comunicação uns com os outros e não como uma instituição social em que se assume no instante seminal a hipótese de conhecimento perfeito mútuo, que é instantaneamente transplantado em uma matriz de preços e quantidades de equilíbrio.

Aqui, é bastante clara a semelhança de Wicksteed com Mises, Rothbard e o próprio Kirzner, bem como com Hayek, este último no que se refere à imperfeição e dispersão do conhecimento. Lionel Robbins, na longa introdução que escreveu para The Common Sense, já chamava a atenção para esse aspecto austríaco da obra de Wicksteed, muitos anos antes de Hazlitt, Rothbard e Kirzner sequer pensarem em estudar economia, como também bem antes de Hayek desenvolver sua teoria do conhecimento.

A abordagem de Wicksteed é diferente das de Jevons e Marshall e é bem diferente da de Pareto que, como sabemos, na linha de Leon Walras, se transformou no principal teórico do "equilíbrio geral". Sua análise do equilíbrio não o vê como um fim por si próprio, mas como uma ferramenta analítica para tentar explicar as tendências de uma determinada situação do mundo real. Sua preocupação com a evolução ao longo do tempo dos fenômenos econômicos era muito maior do que com os resultados finais momentâneos. Então, vemos que Wicksteed, dentro da tradição austríaca, vê as decisões dos agentes nos mercados não como implicações de condições de equilíbrio que de alguma forma foram aceitas como existentes, mas como as causas iniciais, bem como as fases características do processo de mercado em seu caminhar no sentido do equilíbrio.

4o. A questão do conhecimento

Ao rejeitar o equilíbrio dos mercados como paradigma da ciência econômica e ao analisar os mercados como processos dinâmicos, Wicksteed, implicitamente, estava querendo chamar a atenção para o fato de que o conhecimento dos agentes econômicos das circunstâncias de tempo e de espaço não é perfeito e ao definir os mercados como mecanismos em que os indivíduos com escalas de preferências elevadas para um determinado bem se comunicam com os que, relativamente ao mesmo bem, têm escalas de preferências baixas, de modo que as trocas podem oferecer satisfação mútua até que o equilíbrio seja estabelecido, ele estava antecipando os rudimentos da teoria do conhecimento que Hayek desenvolveria a partir dos anos quarenta.

Nesse sentido, Wicksteed também foi um austríaco. Não tenho informações sobre se Hayek conhecia com profundidade a obra de Wicksteed, mas a probabilidade de que a conhecesse é quase de 100%, o que me permite incluir este quarto elemento que não foi enfatizado por Kirzner em seu brilhante artigo. Portanto, creio que podemos admitir que Hayek, conhecedor profundo da obra de Mises, que, por sua vez, conhecia bem a de Wicksteed, também foi de certa forma influenciado por este último.

Kirzner conclui seu artigo escrevendo que

"Em conclusão, talvez o sentido em que Wicksteed pode ser visto como um austríaco possa ser encontrado nas observações de Mises acerca das características distintivas do economista".

E encerra citando Mises,

"O economista trata de assuntos presentes e operantes em cada homem. O que distingue [o economista] de outras pessoas não é nenhuma oportunidade esotérica para lidar com algum assunto não acessível aos outros, mas a maneira como ele olha para as coisas e descobre nelas os aspectos que as outras pessoas não conseguem perceber. Foi isso que Philip Wicksteed tinha em mente quando escolheu para seu grande tratado [The Common Sense] um lema do Fausto, de Goethe: A vida humana todos a vivem, mas apenas poucos a conhecem". [Em alemão: Eins jeder lebt's, nicht vielen ist's bekannt e em inglês; We are all doing it; very few of us understand what we are doing"]

Esta frase de Goethe também pode ser aplicada, claramente, à questão hayekiana da limitação do conhecimento: se quase todos vivem sua própria vida, porém sem conhecê-la, é porque o conhecimento de quase todos é limitado e contém imperfeições.

Philip Henry Wicksteed foi sem dúvida um homem multitalentoso, uma personalidade singular e um modelo de erudição: classicista, medievalista crítico literário e economista, sendo que quando se interessou pela ciência econômica já tinha mais de quarenta anos. Juntamente com John Aitken traduziu do italiano para o inglês a Divina Comédia, de Dante Alighieri. Em 1903 escreveu um livro, The Convivio of Dante Alighieri e também publicou Dante and Aquinas, The Early Lives of Dante e From Vita Nova to Paradiso, que o consagraram como profundo conhecedor do maior dos poetas italianos.

Construiu reputação como um dos maiores medievalistas de seu tempo. Escreveu estudos teológicos e sobre ética desde 1867, ano em que se formou, com medalha de ouro, em Classicismo no Manchester New College e continuou a escrever sobre Teologia mesmo depois que deixou o púlpito, em 1897. Além disso, suas críticas literárias eram reconhecidas pelo público como excelentes. Foi, sem dúvida, um humanista e universalista de mão cheia, o que também o aproxima dos economistas austríacos que como todos sabem não se restringem nem se limitam a estudar apenas a teoria econômica. Isso é particularmente importante na atualidade, em que a maioria dos economistas limita-se à técnica de maximizar funções, às regressões econométricas, aos modelos dinâmicos de equilíbrio geral e aos gráficos.

Em The Common Sense, um volume bastante extenso, encontramos pouquíssimos gráficos e uma ou outra equação algébrica que qualquer estudante mediano do ensino básico entende com facilidade. No entanto, a teoria econômica exposta na obra é densa e profunda, tal como nos livros dos economistas austríacos, a começar por Human Action.

Outro fato que chama a atenção e que impressiona, sobretudo no mundo de hoje, em que a especialização em campos restritos é a tônica, é que ele foi competente em todas essas múltiplas facetas de sua vida profissional. O segredo para tal sucesso só pode ser explicado por três determinantes: inteligência bem dotada, busca de conhecimentos e dedicação exemplar ao trabalho.

Finalizo explicando por que classifiquei Wicksteed, no título deste artigo, como um austríaco híbrido. Evidentemente, sua simpatia pelo socialismo e seu envolvimento com os fabianos o afastam da tradição de Menger. Mas não se pode negar que ele foi, sem dúvida, quase que um autêntico austríaco na ênfase ao subjetivismo, na discussão sobre o objeto de estudo da ciência econômica, na abordagem dinâmica dos mercados como processos que convergem para o equilíbrio (mas que, contudo, não chegam a atingi-lo) e na aceitação de que o conhecimento dos agentes econômicos está longe de ser perfeito.

Se pudéssemos retirar de sua biografia seu lado fabiano, seria — é claro! — muito bom, mas de qualquer forma acredito que ele tenha sido uma personalidade a ser exaltada e respeitada por todos os que se interessam pela tradição de Carl Menger.


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autor

Ubiratan Jorge Iorio
é economista, Diretor Acadêmico do IMB e Professor Associado de Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).  Visite seu website.

  • Hugo Baaten  14/04/2013 16:45
    Gostaria de saber como o laissez-faire pretende resolver problemas como o dumping que pode ser usado por grandes empresas para falir as pequenas e fracas (a exemplo da grande maioria de empresas norte-americanas nas décadas de 50 e 60, quando entraram a América Latina), e então se forma um monopólio/oligopólio, que aumenta os preços a produtos altíssimos e prejudica a população. Eu sei que voces vao dizer que provavelmente nada disso teria acontecido se nao houvesse intervenção governamental que ajudou essas grandes empresas, mas agora que já teve, o que voces fariam para acabar com esse poder das grandes empresas e com o dumping? E também os carteis, o que voces pretendem fazer contra aquelas empresas que combinam preços com a concorrencia de forma a lucrar mais?
  • Leandro  14/04/2013 17:17
    Esta pergunta ainda não havia sido feito esta semana -- muito embora o artigo de ontem falasse sobre isso.

    A resposta é que, excetuando-se os casos em que essas grandes empresas são protegidas pelos governos (situação esta que é problema dos intervencionistas, e não nosso), não apenas este seu cenário nunca aconteceu no mundo, como também é teoricamente impossível de acontecer.

    A explicação completa desta impossibilidade começa no sexto parágrafo do link abaixo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1381

    Sobre carteis, o mesmo raciocínio se aplica. Só existem carteis naqueles setores que são oligopolizados pelo governo, seja por meio de agências reguladoras, seja por meio de regulações e burocracias que impedem a livre entrada na concorrência, como postos de gasolina.

    Apenas olhe ao seu redor. Todos os cartéis, oligopólios e monopólios da atualidade se dão em setores altamente regulados pelo governo (setor bancário, aéreo, telefônico, elétrico, televisivo, postos de gasolina etc.).

    E quando não era assim, o que ocorria? Quando o governo não tinha ainda poderes para se intrometer, havia formação de cartel entre os poderosos? Havia "exploração"? Não. O que ocorria era isso.

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  • anônimo  14/04/2013 17:53
    Teoricamente impossível é uma cosia que depende da teoria que se escolhe. E nunca aconteceu? Se for por isso o anarco capitalismo também nunca aconteceu.
  • Hugo Baaten  14/04/2013 18:50
    Essa explicação do link que eu recebi se aplica apenas as medias empresas, mas o dumping pode ser praticado por empresas gigantes, muitas vezes multinacionais, que assim podem manter seus preços normais em grande parte do mercado ao passo que diminuindo-o em uma determinada região para lá exercer monopólio, sem ter que ficar necessariamente no vermelho e se descapitalizar. Mesmo que os carteis tenham sido formados devido a intervenção governamental, o que impediria as empresas grandes que já existem de se organizarem em carteis, mesmo que sem interferencia, afinal de contas é um negocio lucrativo para todos, menos para o consumidor.
  • Mauro  14/04/2013 19:35
    Qual grande empresa faz ou já fez isso sem proteção governamental? É só citar. O porquê de isso ser irracional já foi explicado. Falta agora o exemplo prático de tal situação sem ajuda estatal.
  • Hugo Baaten  15/04/2013 02:02
    Grande parte das multinacionais que se estabeleceram na america latina nas décadas de 50 e 60 fizeram assim.
  • Pedro Ivo  15/04/2013 20:18
    Hugo Baaten, corrija-me se estou errado, mas esta acusação de dumping, embora recursiva, nunca foi provada. Ela é uma explicação "inocente", isto é, de quem não conhece nada de história, economia ou contabilidade. Prova disso nunca vi quem faz esta acusação citar fontes. E nem poderia: como você prova que estou operando no prejuízo, seja eu que empresa for?! E se você não pode provar o que afirma, como pode ter tanta certeza? Curioso isto: sei tudo sobre um fenômeno. Sou capaz de citar os mais arcanos, detalhados e mínimos detalhes sobre ele e propriedades que este tem, exceto um: aquele que prova sua existência. Cômodo, não?

    Ademais, aquilo que sei ter ocorrido, levando grandes empresas a provocarem o fechamento das médias (lembrando que foi você quem fez esta caracterização: grandes levaram ao fechamento de médias) não foi por dumping, mas eficiência. Pense bem: uma empresa mais capitalizada, com tecnologia mais eficiente, estrutura de capital mais alongada, mais acesso a financiamento, maior capital de giro e conhecimento de mercado, mão-de-obra mais especializada, economias de escala em suas plantas industriais; por que ela precisaria praticar dumping?!!! É óbvio que ela ou produz o mesmíssimo produto que as demais, só que mais barato. Ou um produto diferenciado, de maior qualidade, e que arrebata os consumidores, ainda que mais caro, pois vale a pena pagar mais por algo que satisfaz melhor às próprias necessidades (isto sem falar nas situações em que um produto era melhor e mais barato). Empresas mais produtivas fecham as menos produtivas: isto é um fato da vida. Aposto como à época o Zé Povinho, ignorante de "nexos de causa e efeito", história, tecnologia e economia; e sem imaginação sequer para conceber como uma saca de feijão vai do campo à cidade; atribuiu a queda de preços à dumping ou quaisquer outras "desonestidades", como tem gente até hoje vendo mensagens da besta do apocalipse em cartoons da Disney. E claro, após "todos os concorrentes terem fechado as portas", é óbvio que você pode elevar os preços (o que não significa, antes, estar operando no vermelho): isto também é um fato da vida.

    Nas décadas de 1950 e 1960 sei que entraram siderúrgicas, automobilísticas e empresas de maquinário pesado (tratores, bens de capital, etc.) no Brasil e Argentina. Também empresas de química fina (farmacêuticas e perfumaria, por ex.) e química pesada (adubos e petroquímicas, por ex.). Fácil ver o que quer que houvesse na America do Sul à época fechou porque contava com uma estrutura obsoleta para concorrer com estes mamutes empresariais.

    Quanto ao consumidor ter saído prejudicado, se isto é verdade, então porque ele preferiu os bens que estas empresas lhes forneciam, e não os nacionais? Que prejuízo é este em que opto pelas opções disponíveis, algumas delas fecham as portas por absoluta falta de consumidores, e depois digo que fui prejudicado porque as opções às quais desprezei não existem mais?

    Isto que citei é uma panorâmica. Se estou enganado, pode me dar algum caso específico?
  • anônimo  14/04/2013 19:05
    Mas qual é problema do dumping? Por que é errado uma empresa vender a preços baixos?

    Leia este texto do Rothbard, principalmente esta parte:

    "Dumping"

    Uma outra linha contraditória de ataque protecionista ao livre mercado afirma que o problema não é tanto os baixos custos desfrutados pelas empresas estrangeiras, mas a "injustiça" de elas venderem seus produtos a preços "abaixo dos custos" para os consumidores americanos, praticando, dessa forma, o pernicioso e pecaminoso "dumping." Ao praticar esse dumping, essas empresas podem obter uma vantagem injusta sobre as empresas americanas que presumivelmente nunca fazem tal prática e que sempre se certificam de que seus preços são sempre altos o suficiente para cobrir os custos. Mas se vender abaixo dos custos é uma arma tão poderosa, por que é que tal prática nunca é feita por empresas dentro do país?

    Nossa primeira resposta a esse ataque é que, novamente, mantenhamos o olho nos consumidores em geral e nos consumidores americanos em particular. Por que deveríamos reclamar de algo que beneficia os consumidores tão claramente? Suponhamos, por exemplo, que a Sony está a fim de prejudicar suas concorrentes americanas e, assim, ela começa a vender aparelhos de TV por um centavo cada. Não deveríamos nos regozijar com essa absurda política da Sony, de sofrer severos prejuízos simplesmente para subsidiar a nós, consumidores americanos? E a nossa resposta não deveria ser: "Vamos lá, Sony, nos subsidie mais!"? No que se refere ao consumidor, quanto mais "dumping" houver, melhor.

    Mas e quanto às pobres empresas americanas que produzem aparelhos de TV, cujas vendas irão sofrer enquanto a Sony estiver praticamente dando seus aparelhos? Bem, certamente, uma política sensata para a RCA, Zenith, etc. seria parar a produção e as vendas até que a Sony fosse à falência. Mas suponhamos que o pior acontecesse, e a RCA, a Zenith, etc. fossem elas próprias levadas à falência pela guerra de preços feita pela Sony. O que aconteceria? Bem, nesse caso, nós consumidores ainda assim estaríamos melhores, já que as plantas das empresas que faliram ainda existiriam e seriam compradas por um preço irrisório em um leilão — e os compradores americanos desse leilão estariam aptos a entrar no ramo de TV e bater a Sony, pois esses novos competidores agora gozam de custos de capital bem mais baixos.

    Na verdade, durante décadas os opositores do livre mercado alegaram que muitas empresas ganharam poder no mercado praticando aquilo que chamam de "cortes de preços predatórios", isto é: essas empresas forçariam seus concorrentes menores à falência vendendo produtos abaixo do custo, e, logo em seguida, colheriam a recompensa desse método injusto aumentando seus preços e, assim, cobrando "preços de monopólio" dos consumidores. A alegação é que mesmo que os consumidores tenham algum benefício no curto prazo — com guerras de preços, "dumping", e vendas abaixo dos custos —, eles perderiam no longo prazo com esse alegado monopólio. Mas, como temos visto, a teoria econômica mostra que isso seria um empreendimento inútil, onde essas empresas praticantes de "dumping" perderiam dinheiro e nunca atingiriam o preço de monopólio. Além disso, uma investigação histórica não encontrou um único caso em que preços predatórios, quando tentados, foram bem sucedidos. Na verdade, há poucos casos em que eles realmente foram tentados.

    Outra acusação diz que empresas japonesas e outras estrangeiras têm condições de fazer "dumping" porque seus governos estão dispostos a subsidiar seus prejuízos. Mas, novamente, deveríamos ainda assim dar boas vindas a tal absurda política. Se o governo japonês está realmente disposto a gastar escassos recursos subsidiando as compras dos consumidores americanos de aparelhos da Sony, quanto mais, melhor! Essa política seria tão auto-destrutiva para as empresas japonesas, que seria como se suas perdas fossem privadas.

    Há ainda um outro problema com a acusação de "dumping", mesmo quando esta é feita por economistas ou outros "experts" alocados em comissões tarifárias independentes ou escritórios governamentais. Não há maneira alguma de observadores de fora — sejam eles economistas, executivos ou outros peritos — decidirem quais podem ser os "custos" de outras empresas. "Custos" não são entidades objetivas que podem ser aferidas ou mensuradas. Custos são subjetivos ao próprio executivo, e eles variam continuamente, dependendo de qual o horizonte temporal do executivo, ou o estágio de produção ou o processo de venda com o qual ele esteja lidando em um dado momento.

    Suponhamos, por exemplo, que um negociante de frutas comprou uma caixa de pêras por $20, ao preço de $1 o quilo. Ele espera conseguir vender essas peras por $1,50 o quilo. Mas se algo acontecer ao mercado de pêras, e ele descobrir que é impossível vender a maioria das pêras por qualquer valor perto daquele preço, ele vai perceber que terá que vendê-las pelo preço que conseguir antes que elas apodreçam. Agora suponha que ele descubra que só poderá vender seu estoque de pêras por $0.70 o quilo. O observador de fora poderá dizer que o fruteiro praticou "preços predatórios", vendendo "injustamente" suas pêras a preços "abaixo dos custos," imaginando que os custos do fruteiro foram de $1 o quilo.
  • Ubiratan Iorio  14/04/2013 17:32
    Leandro, às vezes me pergunto se o velho ditado "água mole em pedra dura tanto bate até que fura",,, Os pseudo argumentos repetitivos usados como chavões são como as baratas, sua exterminação é impossível.
  • Gustavo BNG  15/04/2013 04:21
    Prof. Ubiratan, os desafios gigantes recompensam gigantemente: é vitória de lascar, ou é derrota de lascar.
    Se vencermos o desafio da educação econômica (através da promoção incessante da Teoria Austríaca), atacaremos um dos males radiciais da civilização. Isto raramente é feito na História - mas, quando feito, produz benesses a toda a humanidade, como o que os Estados Unidos da América foram por dois séculos!
  • Tiago Moraes  16/04/2013 16:30
    O pior, professor Ubiratan, não é o repetitivo esforço de refutar dadas falácias, mas o comportamento comum dessas pessoas, que ignoram totalmente as argumentações apresentadas e em outros redutos de discussão, insinuam que lançaram essas indagações aqui e não obtiveram respostas satisfatórias. Já me deparei com muitas pessoas, em outros círculos, insinuando que isso aqui é "religião". Ao passo que eu sempre digo; "amigo, vai lá e posta teus questionamentos, os caras lá não tem filtro de post não, teu comentário vai aparecer lá e alguém vai te responder..."
  • Getulio Malveira  14/04/2013 20:45
    Muito interessante esse artigo. É curioso que o sujeito tenha desenvolvido uma boa teoria econômica como mostra o prof. Iorio, mas tenha sido simpático ao socialismo. Acho que isso mostra que mesmo grandes pensadores nem sempre são coerentes ou que motivos outros (que não científicos) interferem nas opções políticas.
  • Inacio Juventino  14/04/2013 21:27
    Mikhail Tugan-Baranovsky também merece um pouco de atenção. Não sei, mas talvez tenha sido o primeiro Marxista a reitar completamente a teoria do valor-trabalho e substituí-la pela teoria do valor subjetivo. Ele cita Menger e Bawerk em " Los Fundamentos Teóricos del Marxismo ", na parte em que critíca a teoria do valor de Marx. E também Hayek se baseou um pouco nele para a construção da sua teoria do ciclo econômico. Além disso, a leitura dos seus livros é bem agradável, apesar de ser Marxista, rsrsrsrsrs.
  • Pedro Ivo  15/04/2013 20:43
    Não achei para comprar na internet. Tem digitalizado? Onde
  • Lopes  15/04/2013 00:05
    Excelente artigo, Ubiratan.
    Despertou um interesse particular em tal autor e em suas ponderações sobre as ciências econômicas austríacas.
  • Hugo Baaten  15/04/2013 02:14
    Outra questão, qual é essencialmente a diferença entre a escola austriaca e a escola de chicago?
  • Pedro Ivo  15/04/2013 20:54
    Cara, também tem este aqui Viena e Chicago e suas divergências sobre moeda, inflação e a Grande Depressão. Esta é uma questão bastante abordada aqui no sítio, e mui importante. Vale também conferir:

    O caleidoscópio de Lachmann e o mundo encantado de keynesianos, monetaristas e novos clássicos
    Os irmãos Mises: o positivismo e as ciências sociais Explica a diferença entre o método empiricista de Chicago e o racionalista austríaco
    Previsões econômicas e seus modelos infundados
    Elucidando Milton Friedman e a Escola de Chicago
    As três escolas liberais do século XX muito bom
    A pretensão do conhecimento Este é o melhor em minha opinião.
    A Escola de Chicago versus a Escola Austríaca

    Em minha opinião este é tópico de vital importância para o debate econômico contemporâneo. Você deveria se aprofundar.







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