clube   |   doar   |   idiomas
O gerenciamento do dinheiro pelo livre mercado

Este artigo foi extraído do livro "O que o governo fez com o nosso dinheiro", futuro lançamento do IMB.






A unidade monetária

Na seção anterior, vimos como o dinheiro surge naturalmente no mercado.  Agora, veremos como ele pode ser produzido e gerenciado privadamente.  A primeira pergunta a ser feita é: como este dinheiro-mercadoria (no caso, ouro e prata) é utilizado?  Mais especificamente, qual é o estoque — ou a oferta — de dinheiro na sociedade e como ele é transacionado?

Em primeiro lugar, bens físicos tangíveis são comercializados em termos de sua massa ou de seu peso.  A massa é a unidade característica de uma mercadoria tangível.  Sendo assim, o comércio ocorre em termos de unidades como toneladas, libras, onças, grãos, gramas etc.[1]  O ouro não é exceção.  Como outras mercadorias, o ouro pode ser transacionado em unidades de massa.[2]

É óbvio que o tamanho da unidade comum escolhida para o comércio não faz diferença para o economista.  Um país que esteja no sistema métrico pode preferir calcular em gramas; já a Inglaterra ou os Estados Unidos podem preferir trabalhar com grãos ou onças. Todas as unidades de massa são conversíveis entre si: uma libra equivale a dezesseis onças; uma onça equivale a 437,5 grãos ou 28,35 gramas etc.

Supondo que o ouro seja escolhido como dinheiro, o tamanho da unidade de ouro utilizada no cálculo não importa.  João pode vender um casaco por uma onça de ouro nos Estados Unidos ou por 28,35 gramas na França.  Ambos os preços são idênticos.

Embora tudo isso pareça óbvio demais para ser enfatizado, a realidade é que uma enorme quantidade de miséria ao redor do mundo teria sido evitada caso as pessoas houvessem entendido completamente essas simples verdades.  Por exemplo, quase todas as pessoas pensam no dinheiro como se ele fosse uma unidade abstrata de algo que pode ser trocado por outra coisa, com cada moeda estando ligada exclusivamente a um determinado país.  Mesmo quando os países estavam no "padrão-ouro", as pessoas continuavam pensando desta forma.  A moeda norte-americana era o "dólar", a francesa era o "franco", a alemã, o "marco" etc.  Todas estas moedas estavam explicitamente vinculadas ao ouro, mas todas elas eram consideradas soberanas e independentes por seus cidadãos.  Exatamente por isso foi fácil para os países "saírem do padrão-ouro".  Mas isso não altera uma verdade: todos estes nomes de moedas eram meras denominações para unidades de massa de ouro ou prata.

A "libra esterlina" inglesa era a denominação originalmente dada a uma libra de prata.  E o dólar?  O dólar surgiu como sendo o nome dado a uma onça de prata cunhada por um conde da Boêmia chamado Schlick, no século XVI.  O conde Schlick vivia no Vale do Joachim, ou Joachimsthal em alemão.  As moedas do conde ganharam grande reputação por sua uniformidade e pureza, e passaram a ser chamadas por todos de Joachimsthalers.  Com o tempo, elas passaram a ser chamadas simplesmente de "thalers" [que significa proveniente "do vale"].  O nome "dólar" surgiu de "thaler".

No livre mercado, portanto, os vários nomes que as unidades podem ter são simplesmente definições de unidades de massa.  Até antes de 1933, quando estávamos "no padrão-ouro", as pessoas costumavam dizer que o "preço do ouro" estava "fixado em 20 dólares por onça de ouro".  Mas isso era uma forma perigosamente errada de ver a moeda.  Na realidade, "o dólar" havia sido definido como sendo o nome dado a 1/20 (aproximadamente) de uma onça de ouro.  Era, portanto, errado falar em "taxas de câmbio" entre a moeda corrente de um país em relação às outras moedas de outros países.  A "libra esterlina", na prática, não "cambiava" por cinco "dólares".[3]  O dólar havia sido definido como 1/20 de uma onça de ouro, e a libra esterlina, na época, era simplesmente o nome dado a 1/4 de uma onça de ouro.  Logo, por simples matemática, uma libra esterlina também valia 5/20 de uma onça de ouro.  Daí o senso comum de que uma libra esterlina valia 5 dólares.

Claramente, todos estes valores e todo este emaranhado de nomenclaturas eram complicados e enganosos.  Como eles surgiram é algo que será mostrado mais adiante no capítulo sobre a interferência do governo na questão monetária.  A questão é que, em um mercado genuinamente livre, o ouro simplesmente seria transacionado diretamente em gramas, grãos ou onças, e tais denominações confusas, como dólares, francos, marcos etc., seriam supérfluas.  Por conseguinte, nesta seção, trataremos o dinheiro como sendo diretamente transacionável em termos de onças ou gramas.

É certo que o livre mercado irá escolher como sendo a unidade comum aquela grandeza do dinheiro-mercadoria que for a mais conveniente.  Se o dinheiro fosse a platina, ela provavelmente seria transacionada em termos de frações de uma onça; se o ferro fosse utilizado como dinheiro, ele seria calculado em libras ou toneladas.  Obviamente, o tamanho da unidade não faz diferença para o economista.

O formato da moeda

Se o tamanho da unidade monetária ou o seu nome fazem pouca diferença econômica, o formato do metal monetário também é igualmente irrelevante.   Dado que o metal é o dinheiro utilizado, conclui-se que a todo o estoque do metal, contanto que esteja disponível ao homem, constitui o estoque mundial de dinheiro.  Não faz muita diferença qual seja o formato em que o metal se encontra em determinado período.  Caso o ferro seja o dinheiro, então todo o ferro existente é dinheiro, esteja ele em formato de barras, de minério ou incorporado em um maquinário especializado.[4]  O ouro já foi comercializado como dinheiro na forma de pepitas, de pó em sacas, e até mesmo como jóias.  Não é de se surpreender que o ouro, ou outras metais, possa ser comercializado em vários formatos, uma vez que a característica que importa é sua massa.

É verdade, no entanto, que alguns formatos são mais convenientes do que outros.  Nos últimos séculos, ouro e prata foram fracionados em moedas metálicas para as transações de menor valor, aquelas do dia-a-dia, e em barras para as transações de maior valor.  Alguma quantidade foi transformada em jóias e outros ornamentos.  Mas isso é importante: qualquer tipo de transformação de um formato para outro custa tempo, esforço e consome vários recursos.  Realizar tal trabalho será um empreendimento como qualquer outro, e os preços por esse serviço serão estabelecidos da maneira habitual.  A maioria das pessoas concorda que é legítimo que joalheiros façam ornamentos a partir do ouro bruto, mas elas estranhamente rejeitam que o mesmo princípio seja aplicado à manufatura de moedas.  Não obstante, no livre mercado, a cunhagem é, em essência, um empreendimento como outro qualquer.

Muitas pessoas acreditavam, na época do padrão-ouro, que as moedas eram, por algum motivo, um dinheiro mais "real" do que o ouro maciço não cunhado e em estado natural (em barras, lingotes ou qualquer outro formato).  É verdade que as moedas usufruíam um ágio sobre o ouro em barra, mas isso não se devia a nenhuma misteriosa virtude embutida nas moedas.  Isso adivinha do simples fato de que era mais caro cunhar moedas a partir da barra do que fundir moedas de volta ao formato de barra.  Por causa dessa diferença, as moedas eram mais valiosas no mercado.

A cunhagem privada

A ideia de cunhagem feita por empresas privadas parece tão estranha nos dias de hoje, que vale a pena uma análise mais minuciosa.  Estamos acostumados a pensar na cunhagem de moedas como sendo uma "necessidade de soberania".  No entanto, o mundo não mais está vinculado a uma "prerrogativa real", e o conceito de soberania jaz não no governo, mas no povo.  Ou é o que dizem.

Como funcionaria a cunhagem privada?  Da mesma maneira que qualquer outro empreendimento, como dissemos acima.  Cada cunhador ou empresa cunhadora, ao receber clientes com lingotes de ouro, iria fundir estes lingote e produzir moedas nos tamanhos ou formatos que mais agradassem a seus consumidores.  O preço deste serviço seria estabelecido pela livre concorrência no mercado.

A objeção típica a este arranjo é que seria muito trabalhoso mensurar o peso ou avaliar a pureza do ouro em cada transação realizada.  Mas absolutamente nada impede os cunhadores privados de estamparem tais informações nas moedas, e garantirem seu peso e sua pureza.  Cunhadores privados podem garantir a qualidade de uma moeda com, no mínimo, a mesma eficácia que a Casa da Moeda estatal.  Aqueles cunhadores reconhecidos como os mais honestos ganhariam proeminência no mercado.  As pessoas utilizariam as moedas daqueles cunhadores que usufruíssem a melhor reputação pela boa qualidade de seu produto.  Meros pedaços de metal polido não seriam aceitos como moeda.  Como vimos, foi exatamente assim que o "dólar" se tornou notório e conhecido — como uma moeda de prata competitiva e de qualidade.

Os opositores da cunhagem privada dizem que as ocorrências de fraude seriam generalizadas.  No entanto, estes mesmos opositores estão dispostos a conceder ao governo o monopólio da cunhagem.  Mas, dado que eles estão dispostos a confiar no governo, então, certamente, com a cunhagem privada, elas deveriam ao menos confiar no governo para evitar ou punir as fraudes.  Normalmente se pressupõe que a prevenção ou a punição da fraude, do roubo e de outros crimes é a verdadeira justificativa para a existência de um governo.  Mas se o governo não é capaz nem de deter um criminoso quando a sua função é a de meramente fiscalizar a cunhagem privada, então qual a esperança de haver uma cunhagem confiável quando a integridade dos agentes do mercado privado é descartada em prol de um monopólio governamental de cunhagem?  

Se o governo não é confiável nem para desmascarar aquele malfeitor que ocasionalmente surgiria no livre mercado de moedas, por que então deveríamos confiar no governo quando este é colocado em uma posição de total controle sobre o dinheiro, podendo depreciá-lo, adulterá-lo, falsificá-lo ou deturpá-lo com plena sanção legal para agir como o único vilão no mercado?  Da mesma forma que é uma insanidade dizer que o governo deve socializar toda a propriedade a fim de evitar que alguém roube propriedades, é também ilógico dizer que o governo deve abolir a cunhagem privada e monopolizar esta tarefa com o intuito de evitar fraudes.  O raciocínio por trás da abolição e da proibição da cunhagem privada é o mesmo daquela da socialização da propriedade privada.

Ademais, todos os empreendimentos modernos baseiam-se na garantia de padrões.  A farmácia vende um frasco de 250 mililitros de remédio; o açougueiro vende um quilo de carne.  O consumidor espera que tais medidas sejam acuradas, e elas são.  E pense nos vários milhares de produtos especializados e vitais fabricados pelas indústrias, os quais devem seguir padrões e especificações extremamente rigorosos.  O comprador de um parafuso de 12,7 milímetros (1/2 polegada) deve obter um parafuso de exatamente 12,7 centímetros, e não um de 9,5 milímetros.

E, ainda assim, não obstante todo este rigor de medidas, tais empreendimentos não faliram.  Eles não desapareceram.  São poucas as pessoas racionais que defendem que o governo tem de estatizar a indústria de maquinários como parte da sua tarefa de evitar fraude nas medidas indicadas.  A economia de mercado moderna é formada por um número infinito de transações intricadas, a maioria delas dependente de padrões de quantidade e qualidade muito precisos.  E as fraudes ocorrem em níveis mínimos, e esse mínimo, ao menos em teoria, está sujeito a ação judicial.  O mesmo ocorreria caso houvesse a cunhagem privada.  Podemos ter a certeza de que os clientes de um cunhador, bem como os concorrentes desse cunhador, estariam intensamente alertas para qualquer possibilidade de fraude no peso ou no grau de pureza de suas moedas.

Os defensores do monopólio estatal da cunhagem alegam que o dinheiro é diferente de todas as outras mercadorias porque a "Lei de Gresham" comprova que "o dinheiro ruim expulsa o dinheiro bom" de circulação.  Sendo assim, o livre mercado não é confiável para ofertar ao público um dinheiro de qualidade.  Mas essa formulação tem por base a interpretação equivocada da famosa lei de Gresham.  A lei de Gresham é válida apenas quando há um controle de preços imposto pelo governo sobre o dinheiro.  O que a lei de Gresham realmente diz é que "o dinheiro que está artificialmente sobrevalorizado pelo governo tirará de circulação o dinheiro que está artificialmente subvalorizado".

Suponha, por exemplo, que haja várias moedas de uma onça de ouro em circulação.  Após alguns anos de intenso uso, começam a surgir desgastes em algumas dessas moedas, de modo que elas passam a pesar somente 0,9 onça.  É óbvio que, no livre mercado, essas moedas desgastadas circulariam valendo 90% do valor das moedas íntegras, de modo que o valor de face das moedas desgastadas teria de ser repudiado.[5]  No mínimo, são justamente essas moedas "ruins" que deixariam de ser utilizadas e sairiam de circulação. 

Mas suponha que o governo decrete que todos os cidadãos devem tratar as moedas desgastadas da mesma maneira como tratam as íntegras, e que todos devem aceitá-las igualmente, ao seu valor de face, em suas transações diárias.  O que o governo fez neste caso?  Impôs um controle de preços coercivo sobre a "taxa de câmbio" entre os dois tipos de moeda.  Ao insistir na paridade em vez de permitir que as moedas desgastadas fossem transacionadas a um valor nominal 10% menor, o governo sobrevalorizou artificialmente as moedas desgastadas e subvalorizou as moedas novas.  Consequentemente, todos os cidadãos tenderão a utilizar apenas as moedas desgastadas, e entesourarão (ou exportarão) as novas.  Portanto, não é no livre mercado que "o dinheiro ruim expulsa o dinheiro bom", mas sim como resultado direto da intervenção governamental no mercado.

Não obstante o infindável assédio dos governos sobre esta atividade, algo que tornou as condições altamente precárias, as moedas privadas ainda assim conseguiram prosperar em vários momentos da história.  Em conformidade com a lei que diz que todas as inovações surgem de indivíduos livres e não do estado, as primeiras moedas foram cunhadas por cidadãos privados e ourives.   Com efeito, quando o governo começou a monopolizar a cunhagem, as moedas da realeza traziam as garantias de banqueiros privados, os quais, aparentemente, usufruíam muito mais confiança aos olhos do público do que o governo.  Moedas de ouro cunhadas privadamente circularam na Califórnia até 1848.[6]

 

Veja também:

Como seria a produção de dinheiro no livre mercado 



[1] Mesmo aqueles bens que são nominalmente comercializados em termos de volume (fardo, alqueire, etc.) assumem de maneira tácita um padrão de peso por unidade volumétrica.

[2] Uma das virtudes cardeais do ouro como dinheiro é a sua homogeneidade — ao contrário de muitas outras mercadorias, o ouro não possui diferenças em sua qualidade. Uma onça de ouro puro é igual a qualquer outra onça de ouro puro ao redor do mundo.

[3] Na verdade, a libra esterlina era por definição igual a US$4.87, mas estamos utilizando US$5 por uma questão de conveniência nos cálculos.

[4] Enxadas de ferro foram extensamente utilizadas como dinheiro tanto na Ásia quanto na África.

[5] Para lidar com o problema do desgaste, os cunhadores privados poderiam ou estabelecer um tempo limite de garantia do peso estampado em sua face ou concordar em cunhar novamente, seja no peso original ou em um mais baixo. Podemos notar que, em uma economia livre, não haverá aquela padronização compulsória das moedas que predomina quando um monopólio estatal controla o processo de cunhagem.

[6] Para exemplos históricos de cunhagem privada, ver B.W. Barnard. "The Use of Private Tokens for Money in the United States", Quarterly Journal of Economics (1916-17), p. 617-26; Charles A, Conant, The Principles of Money and Banking, Nova York: Harper Bros, 1905, vol. I, p. 127-32; Lysander Spooner, A Letter to Grover Cleveland, Boston: B. R. Tucker, 1886, p.79; e J. Laurence Laughlin, A New Exposition of Money, Credit and Prices, Chicago: University of Chicago Press, 1931, vol. I, p. 47-51. Sobre cunhagem, ver também Ludwig von Mises, Theory of Money and Credit, p. 65-67; e Edwin Cannan, Money, 8th Edition, Londres: Staples Press, 1935, p. 33ss.


0 votos

autor

Murray N. Rothbard
(1926-1995) foi um decano da Escola Austríaca e o fundador do moderno libertarianismo. Também foi o vice-presidente acadêmico do Ludwig von Mises Institute e do Center for Libertarian Studies.


  • Pobre paulista  23/01/2013 12:20
    É interessante notar que todas as bolhas e catástrofe financeiras ocorridas nos últimos tempos foram causadas pela "cunhagem" de papel feita pelos governos ao redor do planeta...
  • PESCADOR  23/01/2013 15:56
    Muito bom saber que o IMB vai lançar esse livro no futuro!
  • Eduardo  23/01/2013 16:00
    Há um tempo eu tinha certas dúvidas quanto à essas fraudes generalizadas, mas esse exemplo do Rothbard sobre a garantia de padrões desce como um soco. De fato, atualmente existem inúmeras transações baseadas na garantia dessas qualidades.

    É difícil criar uma objeção ao dinheiro de ouro e prata acerca de fraudes que não se aplicasse a outros setores. Especialmente porque é possível encontrar diversos produtos comercializados que custam muito dinheiro, então a suposta "motivação lucrativa" de fraudar dinheiro também se aplicaria a esses itens.


    --

    Aproveitando o assunto, outro dia vi uma discussão sobre o valor do dinheiro fiat.
    Uns diziam que o dinheiro fiat tinha valor apenas por leis que obrigavam sua aceitação no mercado ou que impostos sejam pagos com ele, e outros diziam que o dinheiro fiat tinha valor apenas da esperança de poder passá-lo adiante em breve e alguém aceitá-lo com a mesma intenção (como um jogo de batata-quente).

    Existe algum artigo ou livro que explique mais a fundo essa questão do valor do dinheiro fiat?

    E mais uma pergunta: se praticamente todos os cidadãos tivessem uma aula sobre como o dinheiro fiat é apenas um monte de papel e dígitos eletrônicos "sem valor", e aprendessem sobre o dinheiro de verdade (que surge espontaneamente do mercado como em Menger), então esse sistema iria à ruína com a descrença da população no fiat?

    Que tem como complemento a pergunta: esse sistema atual funciona unicamente por causa da ignorância da população em perceber que é um sistema fraudulento? Ou teria algo mais?
  • Rene  23/01/2013 16:22
    Além da ignorância, o único "algo mais" que consigo imaginar é a arma apontada para nossas cabeças. O dinheiro é de curso forçado, ou seja, nós somos obrigados a realizar transações utilizando a moeda emitida pelo governo. Mesmo na época da hiperinflação, quando a população obviamente não confiava na moeda, pelo fato desta perder o valor constantemente, as transações continuava sendo realizadas pelo dinheiro estatal. Não surgia outras moedas concorrentes, quer sejam moedas extrangeiras ou ouro.

    Obviamente, o sistema que vigorou durante a hiperinflação foi ajudado pela ignorância da população, e prova disso é que o plano cruzado teve larga aprovação, plano que passava longe das reais causas da inflação.
  • Ismael M Santos  23/01/2013 18:02
    Leandro se me permite,tenho dúvidas referentes ao site que saem um pouco do artigo em questão.
    Acompanhamos aqui o tempo todo temas como mercado, valores, alocação de recursos, custos, empreendimentos e tal! Para manter um site como este atualizado, ativo e interagindo com os usuários hà todo um custo empreendido (não vem ao caso aqui detalhes de valores).
    Noto que há no canto direito da tela o ícone DOAR que acredito seja um 'canal de interação' para a manutenção do site. E neste quesito confesso que sinto me faltoso porque ainda não contribuí, uma vez que ja tenho colhido valiosas informações do mundo econômico que acabam nos valendo como compreensão/questionamentos do mundo ao redor e tambem na alocação de recursos no âmbito micro-econômico!
    E então a questão que gostaria de fazer é por que não oferecer espaços do site para anunciantes afim de gerar recursos, já que os assuntos aqui estão tão próximos de 'mercado'?
    Ressalto que não estou sugerindo nada, nem tampouco reclamando da falta de anúncios. Pelo contrário, é saudável à intenção didática do site que não temos a tela poluída de anúncios disto ou daquilo. E aplaudível a iniciativa de manter um ícone de doações, que espero esteja e continue sendo aproveitável aos mantenedores do site.
    Por isso minha questão curiosa é...qual o princípio norteador da decisão de não oferecer espaço para anunciantes quando há aqui tantas bandeiras defendendo a liberdade de mercado?
  • Leandro  23/01/2013 19:09
    Prezado Ismael, é uma questão de ética. Receber financiamentos de empresas nos deixaria vulneráveis a críticas, pois poderiam dizer que estamos publicando artigos que defendem os interesses da empresa A e que vão contra o seu concorrente, a empresa B.

    Ademais, desnecessário dizer que, dada a mentalidade protecionista e cartorial dos empresários brasileiros, e considerando as ideias que defendemos -- liberdade individual, livre concorrência, livre comércio, desregulamentação, fim de todo e qualquer protecionismo, de todo e qualquer subsídio (individual e corporativo), e moeda forte --, nenhuma empresa até hoje nos procurou para oferecer ajuda. E dificilmente alguma procurará. Só querem pegar dinheiro com o BNDES, aumentar as tarifas de importação, pedir ainda mais desvalorização do câmbio e demandar mais medidas das agências reguladoras para tolher a concorrência.

    Por isso, contamos apenas com as doações de indivíduos -- isso é, vocês, os cidadãos pagadores de impostos -- microempresários ou empregados -- e que não possuem nenhuma liberdade de consumo.

    Grande abraço!
  • Ismael M Santos  24/01/2013 13:06
    Pois bem Leandro, só posso dizer que estão de parabéns pela iniciativa ética, isto com certeza lhes cercam de um respeito admirável. Ainda que tenham de se ajustarem a todas as dificuldades concernentes da geração de recursos sem anunciantes, isso reforça todo o propósito do site minimizando as armadilhas de críticas.
    Outro dia um usuário comentou aqui que sentia-se espantado com os colegas de um dado curso de economia que não paravam para questionar o socialismo ideológico em sala de aula, uma vez que nem mesmo precisaria da didática (sic) da Escola Austríaca para suspeitar de erros ideológicos.
    Achei divertida a reclamação, mas inda acho que tais questões estão próximas em maior parte de estudantes de economia. Restante da população confia no protecionismo estatal, não consegue pensar em outra realidade e assim endossa todas as práticas do estado sem ter noção se será nocivo. Portanto parabéns à todas as iniciativas do Mises em avançar além da Internet afim de colocar um maior número de pessoas pra pensar, seja através de livros, revistas, não invalidando o empenho que moderadores e usuários promovem diariamente aqui no site!
    Obrigado e abraços!
  • livre-pensador pertubado  23/01/2013 18:34


    LEANDRO POR FAVOR PEÇO-TE PARA TIRAR-ME UMA DÚVIDA.
    EXPANSÃO MONETÁRIA+CONTRAÇÃO DO CRÉDITO=INFLAÇÃO SIMPLES SEM FORMAÇÃO DE CICLOS ECONÔMICOS.
    EXPANSÃO MONETÁRIA+EXPANSÃO DO CRÉDITO=HIPERINFLAÇÃO E CONSEQUENTEMENTE COM FORMAÇÃO DE CICLOS ECONÔMICOS.
    ESTE É O RESUMO SIMPLIFICADO DA TEORIA AUSTRÍACA DOS CICLOS ECONÔMICOS OU NÃO?
  • Leandro  23/01/2013 18:59
    Sobre o primeiro cenário, expansão monetária e contração de crédito é algo meio difícil de ocorrer em simultâneo. Mas acho que entendi o que você está querendo dizer. Você se refere àquilo que ocorria no Brasil na década de 1980, quando o BC podia comprar diretamente títulos do Tesouro, o que fazia com que o dinheiro entrasse na economia sem ter necessariamente de passar pelo sistema bancário.

    Nesse caso, sim, há o fenômeno da inflação simples, a qual tende a não gerar grandes alterações na estrutura de produção da economia. O problema, no entanto, é que tal arranjo sempre tende a terminar em hiperinflação. E, quando há hiperinflação, ciclo econômico é a menor das preocupações. A economia fica tão desarranjada, e o horizonte temporal fica tão reduzido pela incerteza, que praticamente não há investimentos visando ao longo prazo. A divisão do trabalho fica severamente avariada, e a toda a economia empobrece.

    Quanto ao segundo cenário, volto a ressaltar que a hiperinflação é mais propícia de ocorrer no primeiro cenário. Quando a expansão monetária depende dos bancos, que é o caso do segundo cenário, as chances de hiperinflação são muito menores porque não é do interesse dos bancos vivenciar uma hiperinflação. Uma hiperinflação destruiria seus balancetes, pois todos os empréstimos que fizeram poderiam agora ser quitados com uma moeda que não mais teria valor.

    Portanto, repito: gerar hiperinflação não é do interesse dos bancos.

    Por último ressalto que, mesmo que haja hiperinflação, esta surgirá após o ciclo econômico. Quando a hiperinflação surge, a economia já se desmantelou há um bom tempo.
  • Andre Cavalcante  23/01/2013 22:16
    Leandro,

    Atualizando um pouco este texto do Rothbard, como seria o gerenciamento do dinheiro pelo livre mercado em plena era da internet? Perceba que a dúvida é pontual, pois boa parte do nosso dinheiro são dígitos eletrônicos (e os meios de troca são cartões, tíquetes, etc.) e não necessariamente moedas cunhadas. Não seria, portanto, possível a existência de dinheiro fiduciário, sem estar 100% lastreado?

    Abraços
  • evandro  23/01/2013 23:35
    leandro, vou lhe fazer um questionamento a respeito de uma notícia que li hoje:
    blogs.estadao.com.br/jamil-chade/2013/01/23/brasil-se-transforma-no-4o-maior-destino-de-investimentos-do-mundo/ ... esta no site do estadão de hoje caso vc queira ler a materia toda... eu gostaria de saber como isso foi possível? quais as implicações para o brasil para os proximos anos? isso é sustentavel? vc ficou surpreso com esta notícia, como eu fiquei? Abraço.
  • Leandro  24/01/2013 01:00
    Alguns dados estão bem esquisitos. Como assim a Alemanha, com toda a sua pujança, recebeu apenas 1 bilhão em investimento estrangeiro? E a Itália recebeu 5 bi? Cinco vezes mais que a Alemanha? Até o Acre deve ter recebido mais que a Alemanha, pelo visto...

    No entanto, pelo bem do debate, vamos supor que todos os dados estejam corretos. O que acho? Totalmente decepcionante.

    Primeiramente, convém ressaltar que, tomando-se a zona do euro em conjunto, o Brasil é a quinta maior economia do mundo (EUA, zona do euro, China e Japão vêm antes). Logo, é obrigação estar entre os maiores destinos de investimentos estrangeiros.

    Segundo, há a humilhação de uma cidade como Hong Kong receber mais investimentos estrangeiros do que um país de dimensões continentais como o Brasil, a quinta economia do mundo.

    Por fim, pelo que entendi, o Brasil galgou posições não porque se tornou mais atraente ("Segundo os dados da ONU, o fluxo de investimentos externos ao Brasil também caiu em comparação a 2011. Mas em apenas em 2%"), mas sim por causa da fuga de capitais da Europa (de novo, a Alemanha ter caído de 40 bi para 1 bi está muito esquisito) e do Japão.

    Não melhoramos; ao contrário, pioramos. Mas os outros pioraram mais (segundo o blogueiro, "países ricos registrara uma queda de 37% nos investimentos").

    Mas repito: esses dados estão esquisitos. Ou a ONU errou (o que é de esperar), ou o jornalista entendeu tudo errado.

    Essa outra notícia, por exemplo, não fala nada sobre o Brasil ter sido o quarto maior destino. Mas fala isso: "O Chile, com aumento de 52,7% no fluxo, foi o país da América Latina que teve a maior alta no IED em 2012. Mas o total de US$ 26,4 bilhões ficou bem abaixo do volume brasileiro (65 bi)."

    O jornalista aparentemente deve achar que o Chile, que tem menos de um décimo da população brasileira, está pior que o Brasil só porque recebeu uma quantia nominal menor. Mas se formos ver em termos per capita, que é o que realmente conta, o Chile (cuja população é de 17,4 milhões) recebeu 4,5 vezes mais do que o Brasil (cuja população é de 195 milhões).

    Sempre tenha cuidado ao analisar notícias: hoje em dia, jornais eletrônicos fazem de tudo para ganhar "likes" e "compartilhar" de Facebook, o que aumenta enormemente sua audiência. Sendo assim, eles apresentarão notícias da maneira mais chamativa possível, visando a pessoas mais ideológicas. A qualidade do conteúdo fica em segundo lugar.

    Faça uma análise do investimento estrangeiro per capita e veja a real situação do Brasil. Certamente perderá para vários latino-americanos.
  • Renan  24/01/2013 13:28
    Me corrijam se estiver errado. É fácil verificar se uma moeda de ouro está adulterada. Basta joga-la num vidro de água com medição precisa de volume e ver quanto subiu o nível.
  • Renan  24/01/2013 13:44
    Opa, esqueci de um detalhe muito importante. Você precisa de uma balança de precisão alem do vidro que mede o volume. Com a massa e o volume você sabe a densidade da barra de ouro. Mas este método pode ser falseado, eu acho. Combinando diversos metais de densidades diferentes você pode chegar à densidade do ouro. É claro que o brilho muda. Mas o adulterador pode banhar esta liga em ouro, de modo que a fraude só será descoberta depois de a barra ser derretida.
  • Luciano A.  24/01/2013 22:33
    Gostei muito do artigo, mas fiquei com uma dúvida

    Em uma economia que utiliza o ouro dessa forma, como o artigo descreve, como seria a oferta monetária? Quero dizer, quem controlaria a extração e a entrada de ouro no mercado? O aumento da quantidade de ouro provocaria inflação (nível de preços) e/ou ciclos econômicos?
  • TL  25/01/2013 14:39
    Prezado Luciano. Creio que posso contribuir.

    "Em uma economia que utiliza o ouro dessa forma, como o artigo descreve, como seria a oferta monetária?"

    A oferta monetária seria feita por agentes privados (igual a oferta de veículos, pães, carne, . . .). Eu poderia cunhar uma moeda de ouro e chegar no seu estabelecimento e trocar seu serviço/produto por essa moeda. Se você aceitar, acabamos de criar um moeda.

    Demorei, mas achei, a história de uma moeda emitida por uma pessoa:

    "Em 1931, um alemão, proprietário de uma mina de carvão fechada, decidiu reabri-la e pagar os mineiros em wara (uma stamp script currency). Entretanto, essa moeda poderia ser resgatada em carvão, uma commodity útil para todos [provavelmente na época, as residências eram aquecidas pela combustão do carvão], além de ter o poder de persuadir mercantes locais e vendedores por atacado a aceitá-la. A cidade mineira floresceu, e dentro de um ano, pelo menos mil lojas na Alemanha aceitavam o wara e alguns bancos começaram a aceitar depósitos nessa moeda. Isso pôs a moeda no radar. Sentindo-se ameaçado, o Governo alemão tetou declarar o wara ilegal em muitas cortes; quando aquilo falhou, a moeda foi simplesmente banida por um decreto emergencial." [Minha tradução. Fonte: Sacred Economics, página 211, de Charles Eisenstein].

    "Quero dizer, quem controlaria a extração e a entrada de ouro no mercado? O aumento da quantidade de ouro provocaria inflação (nível de preços) e/ou ciclos econômicos?"

    Ninguém controlaria a extração de ouro. Entretanto, extrair ouro não é uma tarefa fácil; é onerosa e arriscada. Historicamente, a quantidade mundial de ouro aumenta aproximadamente 2% a.a. Vale ressaltar que ouro não é somente utilizado como meio de troca, ele têm outras utilidades (joias, circuitos eletrônicos, decoração, . . .).

    Agora, suponha que eu tenha descoberto o segredo da alquimia. Nesse cenário, haveria inflação conforme a taxa de transformação de metais inferiores em ouro. Nesse cenário, provavelmente o mercado substituiria o ouro como meio de troca, pois eu deteria o poder de controlar a quantidade de ouro no mercado.

    Entretanto os estados já descobriram a "alquimia", só que essa transforma papeis em dinheiro. Ou mais barato ainda, transforma bits eletrônicos em dinheiro!

    Sobre ciclos econômicos e ouro, recomendo o seguinte artigo:
    Ciclos econômicos e ouro
  • Luciano  27/07/2013 04:17
    Leandro,

    Estes artigos me deixaram muito ansioso pelo lançamento do livro "O que o governo fez com o nosso dinheiro". Tem idéia de quando será lançado? Certamente comprarei uma versão impressa.

  • Leandro  27/07/2013 11:42
    Já está na editora, no processo de edição final, Luciano. O lançamento será bem em breve.

    Grande abraço!
  • Nyappy!  27/07/2013 13:22
    O MES ainda está em andamento?
  • Leandro  27/07/2013 14:12
    Confesso que deste não estou a par.


Envie-nos seu comentário inteligente e educado:
Nome
Email
Comentário
Comentários serão exibidos após aprovação do moderador.