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O problema dos subsídios aos investimentos públicos

Empreendedores só levam adiante projetos que sejam lucrativos.  Isso significa que eles irão utilizar os meios de produção, que são escassos, de maneira a satisfazer primeiro as necessidades mais urgentes; nenhum capital ou mão-de-obra serão utilizados para satisfazer necessidades menos urgentes enquanto houver uma necessidade mais urgente ainda não atendida. 

Quando o governo intervém tornando lucrativo um projeto que, caso contrário, geraria prejuízos, todos falam das necessidades que serão assim atendidas; ninguém fala das necessidades que deixarão de ser atendidas em decorrência de o governo ter retirado recursos disponíveis para estes setores e os desviado para suas obras de cunho político.  Só se considera o benefício proporcionado pela ação do governo, e não o seu custo. 

Não cabe ao economista dizer o que o povo deve preferir e nem como deve usar os seus recursos.  Mas é de seu dever chamar a atenção de todos para os custos das decisões do governo.  Isso o diferencia do charlatão, que só fala dos benefícios da intervenção sem jamais se referir aos malefícios que ela acarreta. 

Consideremos, por exemplo, um caso que podemos hoje analisar objetivamente porque é um assunto passado, embora não um passado muito distante.  Suponhamos que uma estrada de ferro, cuja construção e operação não seriam economicamente viáveis — isto é, não seriam lucrativas — seja viabilizada pela concessão de um subsídio do governo.  Costuma-se dizer, em situações como essa, que a estrada de ferro não seria lucrativa no sentido usual do termo e que, portanto, não despertaria o interesse dos empresários e dos capitalistas.  Mas contribuiria para o desenvolvimento de toda uma região promovendo o tráfego, o comércio e a agricultura, dando assim uma importante contribuição para o progresso da economia.  

Segundo os defensores do ativismo estatal, tudo isso precisaria ser levado em consideração ao se avaliar a conveniência de se executar a estrada de ferro.  Não podemos nos ater a efêmeras considerações de lucratividade.  Para o interesse privado, a construção da estrada de ferro pode parecer desaconselhável, mas do ponto de vista do interesse público sua construção seria benéfica.  Logo, o governo deve agir.

Esse raciocínio está inteiramente errado.  É claro que não se pode negar que a construção da estrada de ferro beneficia os habitantes da região por ela servida.  Ou, melhor dizendo, beneficia os proprietários de terras da região e todos aqueles que ali investiram mas que não conseguem transportar sua produção sem incorrer em grandes custos de transporte.  Alega-se, geralmente, que a estrada de ferro irá desenvolver as forças produtivas da região atendida.  

Mas o economista tem de colocar a questão de forma diferente: o estado usa o dinheiro dos contribuintes para subsidiar a construção, a manutenção e a operação da linha que, sem esse subsídio, não poderia ser construída e operada.  Estes subsídios irão inevitavelmente desviar uma parte da produção daqueles locais cujas condições naturais são mais favoráveis à produção para outros locais menos adequados a esse propósito. 

Estará sendo cultivada uma terra que, devido à sua distância dos centros de consumo e devido à sua baixa fertilidade, não possibilitaria a existência de uma agricultura rentável, a não ser que fosse favorecida pelo subsídio dado ao sistema de transporte, para cujo custo de construção os empresários locais não teriam condições de contribuir proporcionalmente.  

Sem dúvida, estes subsídios contribuem para o desenvolvimento econômico da região.  Sem eles, a produção ali seria menor.  Mas o aumento de produção nesta região favorecida pelo subsídio governamental deve ser contrastado com o ônus imposto sobre a produção e o consumo nas regiões que terão que pagar por essa política do governo.  As terras mais pobres, menos férteis e mais distantes estão sendo subsidiadas com a arrecadação de impostos que estão ou onerando a produção de terras melhores ou sendo arcados diretamente pelos consumidores. 

As empresas localizadas em regiões menos adequadas terão condições de aumentar a produção, enquanto as empresas mais bem localizadas terão de restringir a sua produção.  Há quem considere isso "justo" ou politicamente correto, mas não devemos nos iludir e acreditar que desta forma a satisfação geral estará sendo aumentada; na realidade, está sendo diminuída. 

O aumento de produção na região servida pela estrada de ferro subsidiada não deve ser considerado como "benéfico do ponto de vista da prosperidade nacional".  Estes benefícios significam apenas que um certo número de empresas estará operando em locais que, não fossem os subsídios, seriam considerados inadequados.  Os privilégios concedidos pelo estado a suas empresas favoritas, ainda que indiretamente através do subsídio à estrada de ferro, não são diferentes dos privilégios que o estado concede diretamente a empresas menos eficientes. 

No final das contas, dá no mesmo o estado subsidiar ou conceder privilégios a um sapateiro, por exemplo, a fim de habilitá-lo a competir com a indústria de calçados, ou favorecer o proprietário de terras — cuja competitividade é menor em virtude de sua localização — utilizando recursos oriundos de impostos para pagar parte do custo de transporte de seus produtos. 

Pouco importa se o estado efetua o investimento improdutivo diretamente ou se ele subsidia uma empresa privada para viabilizar a realização de um projeto antieconômico.  O efeito sobre a economia é o mesmo, em ambos os casos.  Tampouco importa o método usado para conceder o subsídio.  Não importa se o produtor menos eficiente é subsidiado para que possa produzir ou aumentar sua produção ou se o produtor mais eficiente é incentivado a não produzir ou reduzir sua produção.  Pouco importa se a doação é feita para produzir ou para não produzir, ou se o governo apenas compra as mercadorias e as retira do mercado. 

Em ambos os casos os cidadãos pagam duas vezes — uma vez como contribuintes, que são os que indiretamente pagam os subsídios, e depois uma vez mais como consumidores, ao ter de pagar preços maiores pelos bens que desejam comprar. 

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Leia também:

Como as obras públicas subtraem riqueza da população 

As parcerias público-privadas - a porta de entrada para o socialismo


1 voto

autor

Ludwig von Mises
foi o reconhecido líder da Escola Austríaca de pensamento econômico, um prodigioso originador na teoria econômica e um autor prolífico.  Os escritos e palestras de Mises abarcavam teoria econômica, história, epistemologia, governo e filosofia política.  Suas contribuições à teoria econômica incluem elucidações importantes sobre a teoria quantitativa de moeda, a teoria dos ciclos econômicos, a integração da teoria monetária à teoria econômica geral, e uma demonstração de que o socialismo necessariamente é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico.  Mises foi o primeiro estudioso a reconhecer que a economia faz parte de uma ciência maior dentro da ação humana, uma ciência que Mises chamou de "praxeologia".


  • Rene  25/08/2012 09:26
    Este artigo me fez lembrar daquela aberração que chamamos de Rodovia Transamazônica. Apesar de não ser viável economicamente, foi construída com o único intuito de desenvolver a região. O resultado todo mundo conhece.
  • Gustavo Sauer  25/08/2012 09:57
    A questão que o estatista defende para esse tipo de projeto usa o argumento da distribuição de renda. Aquelas regiões mais "ricas" devem contribuir com o desenvolvimento das mais pobres através desse tipo de programa estatal. Pra eles não é problema se a eficiência e prosperidade geral ficará menor....
  • Nyappy!  25/08/2012 11:16
    Não lembra do Plínio de Arruda Sampaio dizendo que é melhor que o crescimento seja menor desde que haja "justiça social"?
  • Patrick de Lima Lopes  25/08/2012 13:40
    As afirmações que mais escuto de estatistas quando argumento isto:

    "Mas são só uns impostos. Os produtores das terras férteis já possuem uma riqueza grande, não fará falta a eles e à população do país alguns impostos entregues para auxiliar uma população carente e produtores sem chances de agradar aos consumidores."

    "O argumento de Mises é retórica, pois enquanto este defende a ética dos proprietários da fábrica, pouco é levada em questão a ética do pequeno sapateiro."

    "Subsidiar não é ético, mas ao subsidiar o pequeno produtor e fazendo com que ele possa competir pelo mesmo consumidor do grande produtor, o mercado consumidor sairá ganhando com mais inovação e menores preços."
  • Eduardo  25/08/2012 15:31
    Patrick,

    faltou o "mas os empresários não iam investir em nada, iam por o dinheiro no banco para ganhar juros".

    O artigo é muito bom, ao resumir como se destrói capital com esse tipo de obra. Porém, o que me espanta no Brasil é que com toda a corrupção e ineficiência, nem deveríamos precisar chegar a esse argumento. Deveria ser natural pensar em reduzir o estado. Porém, a grande maioria acha que o dia em que as pessoas "certas" estiverem no poder tudo irá mudar. Não se perguntam por que isso nunca ocorre(u). Ninguém se pergunta por que só há, e sempre houve, corruptos em todos os níveis dos governos.

    Fui atraído inicialmente para o IMB e as obras de Mises, quando ficou óbvio que se décadas de governos intervencionistas, com excesso de poder, geraram pobreza e corrupção, então deveríamos guinar para o outro lado. Entender como cada função do governo poderia ser passada para a livre iniciativa. Sempre que me envolvo em discussões sobre corrupção bato nessa tecla, dizendo que é preciso cortar o mal pela raiz.
  • Quintela  14/03/2014 16:29
    O Brasil é o país dos CORRUPTOS!
    Não existem corruptores!
    Isso é incrível!!!!
    Só existe CORRUPTOS... os corruptores estão aonde????
    Quem financia as campanhas dos políticos?
    Sã outros funcionários públicos e os empresários são os santos do pau oco!
    Até quando vai existir... politico ladrão e empresário bonzinho???
    Dá vontade de rir...
  • Moderador  14/03/2014 19:33
    Prezado Quintela, se você acha que este site defende empresários ligados ao governo, então você deve urgentemente ler os seguintes artigos:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1816
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1714
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=265
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1647
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1363
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1200

    De resto, pode nos criticar à vontade, cidadão, mas, antes, ao menos verifique o que realmente defendemos. Partir para acusações graves e descabidas como essa sem sequer nos conhecer é uma postura que depõe severamente contra o seu caráter.
  • Carlos Prado  14/03/2014 19:40
    Mais um motivo para minimizar o estado até que este desaparece é não corruptíveis para os corruptores agirem.
  • Quintela  16/04/2014 15:15
    É isso aí... quando sua filha começar a namorar vc tira o sofá da sala.
  • anônimo  16/04/2014 17:17
    Mas leu os artigos?
  • Marco Aurélio Agarie  25/08/2012 15:37
    Este sucinto e brilhante artigo se une sinergeticamente à um outro - www.brasil-economia-governo.org.br/2011/04/13/vale-a-pena-construir-o-trem-bala/ -, que fala da impropriedade na construção do megalomaníaco projeto Trem Bala. \r
    \r
    O governo federal petista, no seu costumeiro delírio de alcançar e superar o 1º mundo, não parece se preocupar com os altos custos financeiros do projeto achando que pode alcançar ilusórios ganhos políticos. E a população brasileira, como sempre, arcará com os custos de mais um projeto para alimentar a egoística satisfação dos ufanistas e membros do establishment petista.
  • Davi  25/08/2012 16:45

    Como economista adorei a frase "Não cabe ao economista dizer o que o povo deve preferir e nem como deve usar os seus recursos. Mas é de seu dever chamar a atenção de todos para os custos das decisões do governo."
    Ela lembra que o economista é um ciëntista e não um "engenheiro social" que não deve dizer o que as pessoas devem fazer, mas apontar os önus e bönus de suas decisões.
  • Andre Cavalcante  26/08/2012 18:34
    Estão aí duas palavras perigosas de andarem juntas: engenharia e sociedade.
  • R Santos  15/03/2014 12:30
    Na verdade, ele não quis dizer nem isso. Mises somente diz que o economista deve chamar a atenção dos custos das decisões do governo. Quanto às decisões pessoais, ele não aponta ônus e bônus, ele apenas se abstém de opinar.
  • Peterson Mota  25/08/2012 17:53
    O artigo é fantástico...mas foto é ainda mais emblemática: Políticos num vagão...lá atrás vem a locomotiva empurrando-os! Como de fato é na realidade.
  • Rodrigo Polo Pires  27/08/2012 03:07
    A construção de estradas de ferro é comemorada, no centro oeste, pois favorece em muito ao escoamento dos grãos para exportação, aliás exportação esta que vem sendo estimulada há anos. Agora os grãos estão em um patamar de preços considerado recorde histórico, os EUA exportaram inflação para o mundo já que o preço dos agricolas é formado lá. Ocorre agora que muitos produtores de carne, estimulados pelo governo via criação de novas empresas processadoras e via financiamentos, foram pegos no contra-pé e seus projetos estão inviáveis. Não há matéria prima para a criação e nem preço para muitas indústrias continuarem operando em condições normais. Os produtores reclamam que há milho no centro oeste sobrando, o que é verdade, só que esse milho não chega aos estados produtores do sul, a não ser em condições inviáveis de preço e agora temem que o desabastecimento desse cereal por pensar que todo o milho irá ser embarcado para o exterior. Eles correm o risco de parar por falta de alimento aos animais, muitos já fecharam as portas. É claro nesse caso o planejamento governamental, via financiamentos para criar artificialmente cadeias produtivas, no caso para exportação. O Brasil vai alimentar o mundo é o slogan deles. Bem modesto como se pode ver. Deu errado, e agora toda essa cadeia pede providências ao governo, justamente aquele que criou o problema, para que solucione o problema. Ótima oportunidade, pois está na imprensa diária, sem falar que haverá grandes aumentos de preços nos alimentos.
  • David  14/03/2014 14:41
    Embora ainda esteja me familiarizando com as teorias da escola austríaca(minha faculdade deu pouca enfase no assunto-UFRJ), e concorde com muitas de suas proposições, esse aspecto particular(investimento estatal) me incomoda. A razão aqui é que se desconsidera os impactos futuros desses investimentos pesados na economia. No caso discutido, o das ferrovias, no artigo se considera apenas a questão da alocação de recursos, e sobre essa ótica é corretíssimo. No entanto, se esquece que esse tipo de obra, assim como investimentos em estradas e usinas elétricas, obedece ao seguinte ciclo: depende de alta demanda para ser viável, mas a alta demanda normalmente só surge após sua existência. Ou seja, alguém precisa colocar o ovo pra primeira galinha nascer.

    Exemplo: Centro-Oeste. Hoje o CO brasileiro é uma realidade, mas a construção de estradas para escoamento de produção não faria sentido em 1950, quando boa parte da terra era imprópria para consumo. Só se tornou própria após o Embrapa(uma das poucas coisas públicas que funcionam nesse país) descobriu uma maneira de neutralizar a acidez da terra local e os governos JK e militar construírem estradas desbravando o interior. Desde então, demoraram quase 20 anos para essas terras se tornarem o celeiro do país. Caso dependesse da lógica econômica, ninguém investiria nessa terras. Quem investiria milhões de dólares em uma terra de ninguém ácida, em que não crescia quase nada, somente com um vislumbre de que no futuro, uns dez ou vinte anos, haveria alto fluxo de carros e caminhões que pagariam o investimento.

    Meu ponto é, muitas vezes, existem projetos que só serão viáveis após várias décadas de prejuízo, sendo que somente se os investidores estiverem malucos ou muitos cheios de fé no futuro, serão alocados recursos para os mesmos. Não me entenda mal, não acho que o governo é a melhor saída para esses investimentos, porém nesses casos não há muita saída.
  • Leandro  14/03/2014 14:46
    Prezado David, este raciocínio não faz sentido.

    Você está dizendo que investimentos que são viáveis no longo prazo não serão feitos hoje. Ora, por que não? É exatamente assim que empreendedores ganham dinheiro: prevendo acuradamente quais investimentos serão lucrativos no longo prazo.

    Se o desenvolvimento do Centro-Oeste foi essa bonança toda, então certamente empreendedores mais perspicazes teriam notado esta chance e lucrado em cima disso. Dizer que isso não ocorreria significa dizer que empreendedores odeiam lucros.

    Ademais, dizer que o estado "acertou" ao tomar dinheiro dos cidadãos e direcioná-lo para determinados investimentos significa dizer que o estado deve ter carta branca para direcionar dinheiro para qualquer setor da economia que ele julgar viável. Só que, dado que o governo não é guiado pelo sistema de lucros e prejuízos, ele não tem jamais como saber se qualquer "investimento" foi ou será acertado; para o estado, tudo é um jogo de adivinhação. Se o investimento dará "certo" ou "errado" vai depender totalmente do acaso.

    E, no final, dizer que deu "certo", como você fez, é uma questão de mera subjetividade -- afinal, como dito, não há um sistema de lucros e prejuízos para definir o quão acertado foi o investimento. Você, ao dizer que foi "correto" o governo fazer estradas para o Centro-Oeste, está ignorando todos os outros investimentos que deixaram de ser feitos em decorrência disso.

    No final, tudo isso é um ótima desculpa para o estado torrar à vontade o dinheiro dos pagadores de impostos -- os quais, no final, ainda aplaudirão o esbulho e os privilégios concedidos a terceiros.
  • Antonio Galdiano  14/03/2014 14:50
    Leandro, eu tive a mesma dúvida que o David teve e cheguei a conclusão de que o estado deveria se manter fora, mas usando uma outra abordagem:

    Realmente é concebível que alguém no governo tenha uma boa idéia e idealize algum bom projeto. No entanto, não cabe a ningúem a não ser a mim ou alguém que eu voluntariamente designe correr risco com o dinheiro que ganho eticamente.

    É engraçado isso, David. Veja o absurdo da lógica neoclássica: Eu tenho vários professores que sustentam que o investimento em educação é de retorno certo mas que, devido ao fato de nenhum banco brasileiro financiar a educação em nível superior de ninguém, que o estado deveria bancar a educação superior por causa de externalidades positivas.

    Uma questão simples: Se o investimento em educação é realmente de retorno certo, porque esses professores não se unem e começam um negócio de financiamento educacional? Isso dá certo em outros países, pode ser que dê certo aqui também e se dar certo eles podem ganhar bastante dinheiro, não acha?

    O fato é que esses professores não querem correr o risco com o próprio dinheiro de serem mal sucedidos, mas não tem vergonha nenhuma em correr risco com o dinheiro dos outros.

    Eu realmente acredito que a Embrapa possa ter produzido algo de positivo, mas os fins não justificam os meios. Se os fins justificassem os meios, você certamente teria de concordar que os mais ricos poderiam e deveriam tomar o dinheiro que você ganhou honestamente para correr o risco e empreender novos negócios, uma vez que eles possuem um know-how maior que o seu e que a destinação final do dinheiro produzirá, com maior chance, um "maior nível de bem-estar agregado" que você faria. Vê a absurdidade do raciocínio?
  • David  14/03/2014 14:51
    "Prezado David, este raciocínio não faz sentido. Você está dizendo que investimentos que são viáveis no longo prazo não serão feitos hoje. Ora, por que não? É exatamente assim que empreendedores ganham dinheiro: prevendo acuradamente quais investimentos serão lucrativos no longo prazo. Se o desenvolvimento do Centro-Oeste foi essa bonança toda, então certamente empreendedores mais perspicazes teriam notado esta chance e lucrado em cima disso. Dizer que isso não ocorreria significa dizer que empreendedores odeiam lucros."

    Aí que mora o problema, o desenvolvimento do CO não foi essa bonança toda, pelo contrário, mas partiu do entendimento que era necessário desenvolver o interior do País. Outra coisa, o empresariado gosta de lucro, mas lucro no curto prazo. Além do que, no Brasil, o empresariado ainda não se acostumou a pensar no longo prazo, dado a instabilidade de nossa economia.

    O lucro de projetos de longo prazo teriam que ser altíssimo para compensar o investimento pesado necessário, durante o longo prazo necessário, isso por si só inviabilizaria os projetos, pois os produtos desses investimentos(transporte, energia, água, telecom) precisam ser baratos para tornarem os negócios que demandam esses produtos viáveis. Na lógica de mercado, os preços desses serviços estariam nas alturas, pois são monopólios naturais, com retornos crescentes de escala.

    Só pra constar, não gosto, quase tanto quanto você, da idéia de deixar qualquer iniciativa nas mãos do governo. Gosto bastante de história e minha experiência me diz que governos servem a si mesmo, não ao povo, com nefastas tendências centralizadoras e pouquíssima eficiência em quase tudo que se presta a fazer, porém nesse caso específico, o livre mercado não atenderia ao interesse da sociedade como um todo.
  • Leandro  14/03/2014 14:54
    O raciocínio continua sem fazer sentido.

    Você está dizendo, muito corretamente, que ninguém faz investimentos de longo prazo justamente porque o governo cria várias inseguranças jurídicas, tributárias, monetárias e reguladoras. Perfeito.

    Aí, logo em seguida, qual a sua solução para corrigir este descalabro? Dar ao governo a liberdade de fazer aqueles investimentos que ele julgar adequados. Faz alguma lógica econômica isso? Garantir ao monopolista a continuidade de seus privilégios?

    Por que não defender a total destributação e desregulamentação dos investimentos? Por que não defender a abolição das expansões monetárias? Aí, sim, eu lhe garanto que haveria segurança jurídica para investimentos de longo prazo.

    Quanto a "monopólio natural", convido-lhe a ler este artigo:

    O mito do monopólio natural
  • Bruno D  14/03/2014 18:05
    Faz mais do que sentido o argumento do articulista, é realmente descabido qualquer pretensão centralizadora de definir o que vai ser melhor para determinada população e para os indivíduos que a constituem, isso é sempre assim, a própria foto da Dilma na locomotiva e seus lambe-borra-botas já demonstra como é ridícula e inviável essa situação. Alias, a foto em si é uma tremenda caricatura in natura, troque a Dilma e coloque outro ditador qualquer e a cena será a mesma de qualquer país comunista.

    Depois vão falar as pessoas que em determinado caso é algo justificável, eu considero enfim, algo extremamente injusto, como o próprio articulista no final disse, ter que pagar duas vezes: por fornecer subsídios estatais a empresa fornecedora e como consumidor de pagar para usufruir do empreendimento.

    São os mesmos que reclamam do trem e do metro (ambos monopólios) por acharem que não se pode ter mais que uma empresa e mais de um trem ou metro sendo fornecido... para eles mesmos!
  • Ulisses   14/03/2014 14:53
    E o sobre a Zona Franca de Manaus. Qual opinião à respeito das isenções que as empresas recebem?
  • Guimarães  17/03/2014 13:19
    Dado que isenção é algo completamente diferente de subsídio, não há problemas. Subsídio é dar dinheiro dos pagadores de impostos para empresas privilégiadas; isenção é simplesmente retirar uma barreira governamental (impostos) que nem sequer deveria existir.

    O único problema é que há zona franca em apenas um estado do Brasil. Deveria ser em todos.
  • Victor  14/03/2014 15:23
    "Outra coisa, o empresariado gosta de lucro, mas lucro no curto prazo. Além do que, no Brasil, o empresariado ainda não se acostumou a pensar no longo prazo, dado a instabilidade de nossa economia."

    Todo agente prefere o benefício no curto prazo ao benefício no longo prazo, faz parte da natureza humana, e não é uma característica exclusiva do empresário, ou do empresário brasileiro apenas.

    É daí que surge a necessidade da remuneração - juros - pela abdicação de um benefício presente por um benefício no futuro.

    Por isso, não faz sentido dizer que o empresário brasileiro não gosta do longo prazo. Ele não é mais ganancioso que o empresário de outro lugar mais civilizado, o problema é que, no brasil, qualquer empresário que depender de fluxos de longo prazo para viabilizar seu investimento vai tomar uma rasteira. Os direitos de propriedade simplesmente mudam a sabor dos ventos. Veja qualquer setor da economia que tenha características de longo prazo que se verá isso. O setor elétrico é um exemplo claro atualmente, com restrições, mudanças de regras, discrição de apoio a certos subsetores, empresas etc... Enfim, todos os ingredientes para que um empresário são simplesmente não possa confiar no longo prazo. De fato, ele terá que ter retorno de seu investimento, se é que ele o fará, num prazo bem curto.

    E qual a fonte de todos os ataques aos direitos de propriedade que acabam por causar o aumento da preferência temporal por toda a sociedade? O governo, claro.

    Enfim, como todo problema do governo, eles são a origem do mal que pretendem resolver.

    Aliás, me espanta que se diga que o Governo tenha um horizonte mais longo que o do empresário. Cada declaração e ato do governo demonstra que seu horizonte é o da próxima eleição. Eles fazem o "diabo para se reeleger".

  • Eduardo  14/03/2014 15:42
    É interessante o exemplo do transporte público.

    Direto se fala dos altos custos de transporte para o trabalhador, e que esse custo deveria ser subsidiado.

    No entanto, se um cara gasta uma fortuna para se transportar para o trabalho e seu salário não está rendendo tudo isso, quer dizer que ele está gastando mais recursos escassos se transportando de lá para cá do que produzindo ao trabalhar.
    É um indicador de que ele deveria procurar outro emprego mais produtivo e que não gastasse tanto com transporte (ainda que o salário fosse menor).

    O subsídio o transporte é ESSENCIALMENTE tirar dinheiro de trabalhadores produtivos de outras áreas e entregar para artificialmente reduzir os altos custos de transporte de trabalhadores cuja produção não justifica os recursos gastos com esse transporte.

    É uma distorção tremenda do sistema de preços e salários, e da organização da cadeia produtiva.
    Somente preços livres para o sistema de transporte poderiam coordenar adequadamente a produção de cada indivíduo em seu respectivo emprego.
    O subsídio nesse caso particular é uma forma de tirar de uns e dar para os outros, e ainda manter funcionando esquemas de prejuízos (que destróem mais riquezas do que produzem)

    Com efeito do intervencionismo, vemos cada vez mais lotação e problemas no transporte subsidiado e rotas de casa-trabalho-casa cada vez mais bizarras.
  • anônimo  14/03/2014 16:33
    E o que me dizem das Grandes Navegações e do Project Apollo que foram investimentos estatais?
  • Fabrício   14/03/2014 18:32
    Foram excelentes para o estado e para os indivíduos privilegiados ligados ao estado, exatamente como explicado neste artigo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1816
  • R Santos  15/03/2014 12:55
    Mises foi claro no artigo. As Grandes Navegações e o Projeto Apollo trouxeram benefícios? Sim, mas isso gerou escassez em outras áreas que estariam sujeitas ao teste do sistema de preços.
    No caso estatal, uma boa idéia é uma boa idéia e ponto. Se um político consegue vendê-la e expor seus benefícios já é o suficiente. Ela não passa pelo teste de fogo do sistema de preços, dos lucros e prejuízos.
    No caso privado, uma boa idéia só é uma boa idéia se der lucro.
    Uma boa forma de vender essa idéia seria a seguinte: quer Projeto Apollo, Grandes Navegações, Embrapa grande, ferrovias para o Centro-Oeste, etc., ou prefere pagar muito menos imposto?
  • Emerson Luis, um Psicologo  15/03/2014 17:56

    Como Batiast explicou, há aquilo que se vê e aquilo que não se vê. Ou como diz o ditado, "o óbvio só é óbvio para olhos treinados. Nossa obrigação moral é ajudar outros a perceber o que a maioria não percebe.

    * * *
  • Rivaldo  15/04/2014 17:33
    Muito bom artigo!

    Entendi que não é papel de um economista dizer onde investir o dinheiro.

    Mas o qual seria uma boa alternativa de investimento para um país como o Brasil? Pegando por exemplo áreas da região no nordeste onde não há mão de obra qualificada, a terra é improdutiva, infraestrutura ridícula... Pelo que entendi do artigo o governo não deveria investir numa região destas porque não haveria viabilidade econômica.

    Eu consigo compreender que se este dinheiro fosse investido em outra região onde haveria uma maior viabilidade econômica o bem para o país como um todo seria indiscutivelmente melhor. Mas e o que seriam destas áreas improdutivas? Elas deveriam ser realmente excluídas de projetos governamentais? Se sim (ou se o governo não existisse), imagino que com o passar dos anos a população migrasse para áreas mais produtivas. Mas este processo levaria décadas (ou mais) fazendo com que gerações de pessoas fossem excluídas do desenvolvimento econômico de um país.
  • Andre Cavalcante  15/04/2014 17:55
    Essa pergunta já foi feita pelo leitor David ali em cima. Leia a discussão.

    Após tê-la lida, aqui vai um adendo.

    Essa coisa de o nordeste brasileiro precisar de obras governamentais é parcialmente correto. Precisar, precisa, mas vamos ver na prática como isso acontece: atualmente o nordeste é a região mais beneficiada com o dinheiro dos impostos federais, entretanto, mesmo com essa dinheirama toda, porque o nordeste permanece como uma das regiões mais atrasadas do país?

    A questão verdadeiramente é: como deve ser a aplicação de quaisquer recursos naquela região? Com certeza cada político de lá, ou mesmo os de outras regiões tem várias "sugestões" (que viram imposições), mas aqui quero colocar o outro lado da moeda: por que não se deixa o recurso diretamente à população, isto é, por que não se deixa o dinheiro dos impostos com as próprias pessoas, para elas fazerem o que elas acharem mais necessário?

    Ao contrário de outras regiões semi-áridas e áridas do planeta, o nosso nordeste é rico em água subterrânea (falo do interior, porque o litoral é bem úmido). Ora, não seria viável que as pessoas de lá gerassem as suas soluções para os seus problemas? E mais, porque a "interiorização" não acontece a partir do úmido (e rico) litoral?

    As soluções estão lá, mas enquanto os recursos escassos estiverem sendo usadas para beneficiar a poucos, a custa de todo o resto, nada vai mudar, aliás, vai piorar...


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