clube   |   doar   |   idiomas
Adiante, para trás!

O governo brasileiro anuncia uma nova política industrial, com a reformulação nas linhas de financiamento para investimento e capital de giro do Banco Nacional de Desenvolvimento, Econômico e Social (BNDES), a ampliação dos setores favorecidos (isto é, o aumento no número dos "amigos do rei"), redução das taxas de juros e maiores prazos para pagamento. A previsão de mais essa agressão aos pagadores de tributos — mascarada de "inventivos à competitividade" — é de um aumento de gastos de cerca de R$ 18 bilhões.

Leia comigo parte da matéria publicada pelo O Estado de São Paulo no dia 1º de abril (infelizmente, não é uma brincadeira com a data):

Haverá mudanças nas regras de atuação dos fundos de desenvolvimento regional para alavancar investimentos em infraestrutura. Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal poderão atuar neste mercado, oferecendo empréstimos com recursos do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste e do Fundo de Desenvolvimento da Amazônia. O risco das aplicações deve ser transferido do Tesouro para os bancos. As medidas, preparadas pelo ministro da Fazenda Guido Mantega, serão anunciadas amanhã pela presidente Dilma Rousseff no Palácio do Planalto. O Estado apurou que as principais alterações no BNDES serão no Revitaliza e nas linhas do Programa de Sustentação do Investimento (PSI). Estes programas foram criados no governo Lula para ajudar setores que enfrentavam forte concorrência de produtos importados, mas que são grandes geradores de emprego.

PSI. O governo ampliará em R$ 18 bilhões o limite de financiamento das linhas do PSI, com subvenção do Tesouro Nacional. Subirá para R$ 227 bilhões o volume de empréstimo do banco com taxas de juros subsidiadas. Esta será a quarta mudança no PSI desde o seu lançamento em julho de 2009 para enfrentar a crise internacional. As novas condições de financiamento vão valer até dezembro de 2013. Será criada, dentro do PSI, uma linha para financiar projetos estratégicos com o objetivo de reduzir o custo de obra. A nova linha terá aporte de R$ 8 bilhões com taxas de juros de 5% ao ano. Os projetos terão que ser aprovados por uma comissão interministerial.

Os juros ficarão um ponto porcentual menor na linha do PSI destinada a financiar a aquisição de máquinas e equipamentos. Para micro, pequenas e médias empresas (MPME), o custo do empréstimo cai de 6,5% para 5,5%. Para as grandes empresas, de 8,7% para 7,7% ao ano. O BNDES ampliará o limite a ser financiado. Até 100% para as empresas de menor porte e de até 90% do investimento para as grandes. A linha para as MPME passa de R$ 3 bilhões para R$ 13 bilhões. A linha para financiar a aquisição de ônibus e caminhões o juro cortado de 10% para 7,7% ao ano. O prazo será ampliado de 96 para 120 meses. O financiamento, então, será de até 100% para as MPMEs e 90% para as grandes. Para os exportadores, as taxas de juros serão de 9% para as grandes empresas e de 7% para as demais. O limite do investimento a ser financiado sobe de 90% para 100% e o prazo de pagamento será ampliado de 24 para 36 meses. Esta linha ganhará um reforço de R$ 1 bilhão. Haverá uma queda nos juros de 5% para 4% no financiamento para capital inovador. No Procaminhoneiro, para autônomos, o prazo passa de 36 para 48 meses.

Passa de R$ 100 milhões para R$ 150 milhões o volume de recursos que podem ser liberados por grupo econômico. O Revitaliza tem linhas para capital de giro, investimento e a exportação.

Uma fonte do governo informou que serão anunciadas mudanças nas linhas para exportadores por meio do Adiantamento sobre Contrato de Câmbio (ACC) para ampliar as empresas com acesso aos recursos. O Banco do Brasil é o líder no mercado.

Parece o enredo de um filme de terror, mas não é. Parece uma piada de mau gosto, mas não é. Parece um retrocesso de 50/60 anos no tempo. E é! Notemos que, de acordo com o noticiário, o governo já havia liberado para a indústria nos últimos seis anos algo em torno de R$ 97,5 bilhões e, mesmo com todas essas "bondades" para os empresários amigos (leia-se "maldades" contra os consumidores e pagadores de tributos) o crescimento industrial não chega a pífios 3% ao ano.

Nos anos 50 e 60 do século passado, era forte a influência dos "estruturalistas" da Cepal, que ditavam aberrações semelhantes à que o governo brasileiro agora anuncia. É incrível como mercantilismo está de volta, com todos os seus malditos ingredientes: protecionismo, intervencionismo, dirigismo, nacionalismo, inflacionismo e outros "ismos", todos denotativos de uma absoluta ignorância do funcionamento do processo de mercado e, mais amplamente, das causas que levam as economias a crescerem de forma autossustentada.

É inacreditável que os economistas do governo ainda falem em "projetos estratégicos"! Estratégicos para quem? Podem ser para suas cabeças iluminadas, para os empresários contemplados com as benesses e para lobistas e políticos a seu serviço, mas, certamente, não têm nada de estratégico no que diz respeito aos verdadeiros empreendedores, aos pagadores de impostos (eu me recuso a usar a expressão "contribuintes") e aos consumidores. Na verdade, os verdadeiros empreendedores no conceito da Escola Austríaca serão prejudicados de saída, porque não foram escolhidos para serem favorecidos, os tributos mais cedo ou mais tarde poderão aumentar para financiar a festa e os consumidores serão obrigados a pagar mais caro por bens e serviços de qualidade inferior, pois esta é uma das consequências líquidas e certas das políticas protecionistas. Isto para não falarmos dos incentivos à corrupção que medidas desse tipo sempre acarretam.

Essas novas medidas do governo brasileiro, então, prejudicam enormemente o verdadeiro empreendedorismo e, onde quer que não exista empreendedorismo e onde quer que o arcabouço institucional prejudique a função empresarial, não existe lugar para o progresso. Mas, por incrível que pareça, nem todos pensam assim, a começar pelos economistas do governo. Prevalece uma aversão ao empreendedor, provocada por uma mistura de influências históricas, culturais e midiáticas que forjaram durante muitos anos uma mentalidade antiempresarial muito forte e não temos dúvidas de que esse é um dos fatores que prejudicam o desenvolvimento da economia desses países. Nessas sociedades, pode-se detectar uma verdadeira aversão à atividade empresarial.

E, além disso, uma ignorância absoluta dos fatores que motivam os empreendedores a investirem. A presidente do Brasil, por exemplo, só para citarmos uma pessoa importante e que diz possuir um mestrado em Economia na Unicamp, há poucos dias fez questão de demonstrar essa minha afirmativa, quando "conclamou" os empresários brasileiros a... investirem! Se isto fosse dito há 50/60 anos, ainda valeria a pena comentar, mas hoje, em 2012, sinceramente, eu me recuso a fazê-lo... Qualquer pessoa pode ser um empresário, mas apenas algumas pessoas podem ser empreendedores, porque os atributos de vontade, perspicácia, inventividade e capacidade decisória sob condições de incerteza e de assumir riscos são virtudes que a maioria dos seres humanos não possui. Fulano, por exemplo, pode ser muito inventivo, mas detestar correr riscos; ou Beltrano ter muita vontade, mas não possuir capacidade decisória.

Abrir uma empresa e mantê-la sempre voltada para atender aos interesses dos consumidores é o que garante e justifica moralmente o lucro, porque se trata de uma verdadeira aventura e, em muitos países em que o Estado parece fazer de tudo para interpor obstáculos entre os que produzem e os que consomem, é mesmo um ato de heroísmo.

O empreendedor, ao exercer sua função empresarial, deverá naturalmente ser obrigado a enfrentar os competidores que já estão estabelecidos, a dar respostas positivas para as inovações que surgirem e a lutar contra interesses já estabelecidos e que se sentirão ameaçados, o que os levará, já que sua vontade é de que tudo permaneça da maneira como está, a reagir, muitas vezes utilizando recursos não recomendados pela ética, como o de valer-se de proteções de grupos políticos que ocupam o poder. Além disso, precisa fazer com que os trabalhadores que dependem de sua iniciativa se sintam estimulados.

Definitivamente — e contrariamente ao que a maioria das pessoas pensa — qualquer obstáculo à livre iniciativa e ao empreendedorismo é, também, em empecilho ao progresso e ao desenvolvimento da economia e da sociedade.

A função empresarial e o empreendedorismo são plenamente exercidos quando o governo é limitado, quando existe respeito aos direitos de propriedade, quando as leis são boas e estáveis e quando prevalece a economia de mercado.  Por isso, uma ordem social que estimule as virtudes do empreendedorismo deve estimular o florescimento desses quatro atributos.

O novo pacote do governo, nesse sentido, é um verdadeiro desastre. Um desastre de R$ 18 bilhões, que vai ser colocado nas nossas contas! Acordai, consumidor brasileiro!


0 votos

autor

Ubiratan Jorge Iorio
é economista, Diretor Acadêmico do IMB e Professor Associado de Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).  Visite seu website.

  • Rene  03/04/2012 06:12
    A Dilma não cursou mestrado (veja.abril.com.br/blog/reinaldo/tag/falso-mestrado-de-dilma/). E os incentivos só irão inflar mais a bolha. As empresas brasileiras, que já são dependentes de incentivos e de protecionismo para competirem, agora ficarão muito menos eficientes, especialmente se compararmos com os concorrentes extrangeiros, que estão sempre se atualizando. Mais impostos e produtos mais caros e com menos qualidade. É a vida do brasileiro.
  • Leninmarquisson da Silva  03/04/2012 06:44
    Prezado Rene;

    Fala da bolha imobiliária? Ou temos outra bolha da qual desconheço? Pergunto porque, se esse dinheiro vai para o setor industrial, o qual suponho que irá gastar esse dinheiro em bens de capital, o impacto no preço dos imóveis seria em última instância, não? O dinheiro seguiria o caminho bens de capital >> salário (mais contratações e aumento nominal) >> consumo (resultante desse aumento de salários e salariados) >> imóveis, aumentando o preço nesses setores por onde passasse, mas o reajuste dos imóveis seria o último, ou estou errado?

    A verdade é que estou querendo vender meu imóvel, embora não o anunciei ainda, e ficar no aluguel por no máx um ano, que é tempo que acho que leva para a bolha estourar e, finalmente comprar algo melhor por um preço menor. Mas se houver essa nova impressão de dinheiro, vale arriscar segurar um pouco mais a venda.
    Lembrando que não é nada antiético se valer dos conhecimentos econômicos, afinal não sou eu causando a bolha, eu só estou tentando me ferrar o mínimo possível e proteger meu patrimônio...Bom, você é austríaco, você me entende.

    Grande abraço!
  • Rene  03/04/2012 09:05
    Realmente, inflar a bolha não foi bem o termo mais apropriado, por dar a impressão que estou falando de imóveis. O meu questionamento é que, se a indústria está sofrendo perdas por fazer investimentos errados durante a fase de expansão da bolha (a imobiliária mesmo), reforçar as barreiras protecionistas e injetar dinheiro nas indústrias só iria prolongar a destruição de capital, e evitar que estas ajustassem a produção à demanda. Mais ou menos a fase "f" deste artigo (www.mises.org.br/Article.aspx?id=1222).\r
    \r
    Abraços
  • Alan Denadary  03/04/2012 06:23
    Muitos daqui já desvendaram os olhos. O desafio agora é desatar as mãos...
  • josé ricardo das chagas monteiro  03/04/2012 06:36
    Saudações, egrégio professor, como sói acontecer, mandou bem, a história repetida que o professor foi buscar. Interessante que o jovem de hoje educado academicamente no estado assistencialista, não consegue pensar ou empreender fora das asas governamentais, pior do que alguém tentar manter outrem sob constrição, é esse outrem não saber que existe uma outra via,condição.
  • LUIZ OLIVEIRA  03/04/2012 07:07
    Ao invés de toda essa patacoada e lambanças a fim de agradar aos amigos do rei e penalizar os pagadores de impostos em R$ 18 bilhões, deveria o governo reduzir os seus gastos em, efetivamente, em R$ 18 bilhões. Isso sim, seria uma medida corajosa e atualizada para estimular o crescimento.

    Prof. Iorio, parabéns pelo artigo.

    O IMB deveria enviar uma cópia de Seis Lições de Mises para cada burocrata ligado à área econômica. Principalmente os burocratas mores desses país: Dilma Roussef, Guido Mantega e Alexandre Tombini. Seria um bom começo, já que é de leitura leve e é quase um opúsculo. Se enviassem Ação Humana, só de olhar ficariam com medo do volume do livro e não iam nem mesmo abri-lo... Algumas dessas sementes iria cair em solo fértil.
  • Carlos Pommer  04/04/2012 10:32
    Desculpe-me, mas não adiantaria nada.
    Pela forma que a presidente se comunica, eu acho que ela pouco lê.
    Quem lê tem mais vocabulário e erra menos o português.
    O triste é ver que o senso comum que impera hoje vê tais deficiências como virtudes.
    É virtude ter um presidente semi-analfabeto.
    É o tal "politicamente correto".
  • Eduardo  03/04/2012 07:25
    Estou ainda no segundo ano do curso de economia, mas já me interesso demais pelas ideias da economia austríaca(alias antes mesmo de cursar economia).
    O engraçado é que tenho professores que consideram economistas da CEPAL gênios, salvadores da pátria, etc. Infelizmente parece que grande parte das faculdades aqui no Brasil tem ideias mais esquerdistas e marxistas, não passando nem perto de escolas como a austríaca.
    Aproveitando já o comentário aqui, além dos artigos aqui do IMB que são muito bons, grande parte bem didáticos, vocês sugerem algum livro para entender melhor como funciona realmente esse complexo sistema chamado economia?
  • mcmoraes  03/04/2012 08:29
    O Tratado de Economia do George Reisman.
  • LUIZ OLIVEIRA  03/04/2012 07:51
    Eduardo, se não leu ainda o abc da Economia Austríaca, As Seis Lições, de Von Mises, faça isso. E depois, o passo seguinte, seria A Ação Humana, também de Von Mises. Seria um excelente começo.
  • Eduardo  03/04/2012 08:27
    Ja peguei aqui da biblioteca do IMB As Seis Liçoes. Vou começar a ler, muito obrigado Luiz Oliveira
  • Steve Ling   03/04/2012 07:56
    Lembrando que o BNDES fez um brilhante investimento em frigorificos em um passado recente e que a maior empresa que mais comercializa carne no mundo é brasileira. Também quase uma rede de supermercados francesa que está a beira da bancarrota seria comprada por um grande empresário com uma pequenina ajuda do BNDES.
  • Pipe  03/04/2012 08:47
    Realmente, esse investimento do BNDES em frigoríficos foi maravilhoso. Não tem nem um pouco de cheiro de podre em um banco estatal que faz empréstimos camaradas e depois converte a mesma dívida em ações da própria empresa.
  • Eduardo W.  03/04/2012 08:58
    Mas que belo exemplo do "fascismo à brasileira" que estão copiando por aqui.

    O pior é alguém achar isso bonito. Com exceção, é claro, de quem está no poder ou está no comando das empresas escolhidas por burocratas pra alcançarem o sucesso às custas do consumidor e contribuinte. Esses até vejo por quê achariam bonito.

    Vale ler esse artigo: www.mises.org.br/Article.aspx?id=437
  • JC  03/04/2012 10:08
    De uma coisa pode ter certeza. Todas estas empresas brasileiras que tiverem que quebrar no futuro vão primeiro socializar as perdas com o BNDES, que é financiado por dívida e pelo FAT, dinheiro retirado dos trabalhadores.

    Se hoje a Gol quebrasse, como a Varig quebrou um tempo atrás, alguém teria dúvida que o atual ministro colocaria o BNDES na jogada para salvar esta 'estratégica' empresa? E se uma destas grandes construtoras de SP quebrassem hoje, como foi a Encol no passado? Eles também pulariam dentro. Estamos em estágio avançado de 'moral hazard'. E parece inevitável no atual estado da bolha brasileira a quebra eventual de algumas destas empresas.
  • Francisco Alfaro  03/04/2012 08:24
    Olá, sempre leio os textos e tenho aprendido muito com o site. Queria dar uma sugestão: o instituto podia lançar compilações em livro dos artigos sobre cada tema. Acho que seria bem interessante e seria mais uma maneira de divulgar as idéias austríacas.
    Sobre o texto acima: Os CEPALINOS ainda gozam de algum prestígio, não só aqui no Brasil, mas também em outros países. Quando estudei nos EUA, Raul Prébisch foram um dos autores lidos quando se falou em desenvolvimento.
  • Max  03/04/2012 13:32
    Boa. Gostei da ideia.
  • Leocir  03/04/2012 09:43
    Magníficas observações do professor Ubiratan. Parabéns pelos esclarecimentos apurados de economia, algo que não se vê na grande mídia brasileira.
  • JC  03/04/2012 09:46
    Colegas, voltamos ao tempo dos pacotes econômicos. Vai ser um atrás do outro. Se pensarmos bem, é o que o atual ministro tem feito desde 2008, um pacote econômico atrás do outro.

    A intensidade dos erros vai aumentar, e em breve sr Mantega pode abandonar o 'Costa Concordia' à deriva e dar lugar a uma ciranda de ministros tão ou mais incompetentes, que ocuparão por um breve espaço de tempo a cadeira para tentar o 'seu' pacote.

    Nada disso funcionará, e é hora de termos uma representação política alinhada com nossas idéias para desde cedo indicar as falhas com o protecionismo e o intervencionismo que levarão o país à catástrofe, e na hora certa colher os frutos.

    Onde estão os políticos da oposição alertando para a retomada da inflação, para o colapso futuro da previdência, para o risco de rolagem da dívida brasileira, para os investimentos do BNDES deixando um rastro tóxico de maus-investimentos pelo caminho?

    Não há, porque quase todos eles seguem a linha estatista-desenvolvimentista.
  • Daniel Marchi  03/04/2012 10:25
    Leiam a reportagem abaixo, de 4 de maio de 2005. Reproduzi praticamente toda a matéria. Tanto ontem quanto hoje estamos falando de NACIONAL-SOCIALISMO. Ques as pessoas fiquem bem cientes do que está em curso - avançado - no Brasil.

    Hitler, 60 anos depois
    Corrupta e ineficiente, nem a economia nazista escapa do julgamento da história. Era um mito
    www.istoedinheiro.com.br/noticias/13588_HITLER+60+ANOS+DEPOIS

    (...)
    Antes de terminar em orgia de suicídios, a glória bandida do nazismo durou 12 anos. Nesse período construiu-se a lenda da "eficiência" de Hitler. Ele seria não apenas o gênio político e militar que dominou a Europa, mas, também, o homem que construiu na Alemanha um modelo econômico de ordem, prosperidade e crescimento sem paralelo. Pouco disso tem resistido ao olhar dos historiadores. Desde o clássico Ascensão e Queda do Terceiro Reich, de Willian Shirer, sabe-se que o ex-vagabundo austríaco era uma nulidade em economia. Novos livros, como Berlim 1945, de Antony Beevor, e Stalin, de Dmitri Volkogonov, lançam outras luzes sobre seus atos. Autodidata, sua escola foi a dos preconceitos da época. Antes de chegar ao poder, Hitler repetia uma fórmula que misturava reforma agrária, tabelamento de juros e nacionalização de lojas de departamento. Era o nacional-socialismo original, de cunho anticapitalista.

    Quando precisou de dinheiro para ganhar eleições, o aspirante a ditador esqueceu sua antiga plataforma. Fez campanha entre empresários prometendo acabar com os comunistas e a bagunça sindical. Os capitalistas alemães aderiram. Alçado ao poder em 1933, Hitler encarcerou e matou a esquerda, fechou sindicatos e transformou os operários em servos. Eles tinham emprego assegurado, mas perderam a liberdade de vender sua mão-de-obra no mercado. Os efeitos não tardaram a aparecer. Em 1938, em meio ao boom de crescimento, os salários dos trabalhadores representavam 53,6% do PIB. Eram três pontos percentuais a menos do que em 1932, no auge da recessão. Não havia mais desemprego, mas a liberdade encolhera com a renda. O Estado, antes paternal, tornou-se o eixo de uma economia de guerra movida a terror, com total desprezo pela eficiência e a lógica de mercado.

    Nesse cenário, os empresários pagaram caro pelos serviços de Hitler. Os nazistas montaram uma máquina de controle estatal que transformou as empresas em repartições do governo e vacas leiteiras do partido. Os pequenos empreendedores, um dos alicerces do nazismo, foram esmagados em benefício do grande capital. Um decreto de outubro de 1937 simplesmente dissolveu as empresas com capital inferior a US$ 40 mil e proibiu o estabelecimento de novas firmas com menos de US$ 2 milhões em capital. Apelar à Justiça era inútil. "A lei é a vontade do Fuhrer", dizia-se. Se o ditador ou seus acólitos achasse que as sentenças dos tribunais eram brandas ou equivocadas, podiam intervir "sem piedade". Hermann Goring, o piloto indolente que ganhou o status de superministro da economia, fez fortuna roubando e chantageando homens de negócios. Ao final e ao cabo, a guerra destruiu o capitalismo alemão. Ele só renasceu com a reconstrução patrocinada pelo Plano Marshal, no contexto de uma comunidade européia pacificada. Esses dois conceitos, no que têm de generosos e visionários, não caberiam na lógica primitiva de Hitler.
  • Lia  04/04/2012 06:40
    Lembrando também que muitas das grandes empresas que foram eventualmente "nacionalizadas" eram estrangeiras, e sem esse capital Hitler não teria tirado seu Reich do chão, muito menos o esticado por mais de uma década. Um toquezinho de hipocrisia, pra completar. Um livro muito bom no assunto é IBM e o Holocausto, de Edwin Black que, apesar de focar-se essencialmente no papel dessa empresa no patrocínio do nazismo, possui uma bibliografia e pesquisas extensas que apontam a participação vital de muitas outras empresas estrangeiras.
  • Julio  03/04/2012 11:17
    Ainda não li o artigo, mas já vi que é próprio, quero dizer não é tradução. Esses são os que mais gosto. Escrevam mais.
  • montana  03/04/2012 11:44
    Puf... o governo, assim como no ano passado, diz que precisa cortar gastos e tentar manter as contas equilibradas, e, para tentar socorrer alguém, abre mão de din din. Agora dá uns estímulos que parece mais um anabolizante na indústria, para ela malhar e ganhar musculutura para poder competir... aí vem uma simples gripe e ela mucha... . Depois vem os libertários dizendo que quem paga a conta é a gente se o governo ajudar seus "amigos". Mas sem essa ação não seria pior?
  • Andre Cavalcante  03/04/2012 12:27
    "Mas sem essa ação não seria pior?"

    Não! A única ação que o governo teria que fazer para melhorar a indústria era reduzir a carga tributária sobre a produção e sobre a folha de pagamento. Só isso era o bastante para favorecer a indústria (e os trabalhadores) de maneira sólida. Mas exatamente o que seria o certo, eles não querem fazer, porque significa perda na arrecadação!

    A grande questão é: de onde vem o dinheiro que o governo gasta? É ilusão achar que as empresas vão receber empréstimos a juros baixos e a indústria brasileira vai ficar bem. Para ganhar esses empréstimos a juros baixo, a sociedade como um todo, leia-se os demais empresários que não receberam o empréstimo a juros baixos e os trabalhadores, é que vão pagar a conta (sempre).

    Só quem vai se beneficiar serão os políticos corruptos que assinarão os gastos e as empresas que vão receber este dinheiro. O pior de tudo é que isso tudo retira capacidade de competir e a inovar da indústria.
  • Leandro  03/04/2012 12:40
    Até hoje ainda perdura esta idéia de que subsídios, de alguma forma milagrosa, irão melhorar o desempenho das empresas e aprimorar sua competitividade? Quem é que melhora sua competitividade sendo protegido e blindado da concorrência? Deve ser por isso que as indústrias automotivas e de informática da década de 1980 eram um espanto em eficiência e qualidade. E é pra lá que estamos regredindo.

    Saudades de Gustavo Franco na presidência do BC. Sempre que um industrial ia reclamar do câmbio, ele disparava com seu estilo saudosamente arrogante: "Seu setor é inútil e vai desaparecer". (Alguém aqui acha que FHC o tirou do BACEN com menos de dois anos de presidência e o substitui pelo horrendo keynesiano Armínio Fraga apenas por causa das consequências da crise asiática?)

    Talvez pelo fato de ser carioca, ele nutria um saudável desprezo pela FIESP. Exatamente o tipo de comportamento de que estamos precisando agora.
  • Rafael França  03/04/2012 12:35
    As crises só acontecem pq o sistema está viciado, viciado em ser ineficiente e ser socorrido. Quanto maior uma empresa, maior a chance de desperdício; determinadas empresas crescem de forma anormal pq sua ineficiencia é subsistida pelos "pacotes". Na hora que o crédito seca, elas consomem menos, quebrando por conseguinte outras empresas ineficientes, gerando desemprego, o que piora o quadro geral da economia.

    O governo socorre e reabastece esse ciclo, "salvando" empregos a custa da prosperidade dos negócios que funcionam. Como era a frase de Lavosier, tudo se transforma? Desempregados tem que procurar novas colocações, bens que a empresa possua podem ser vendidos; imóveis, máquinas, itens de escritório, etc.. tudo vai ser reaproveitado, e sem intervenções antinaturais, empresas saudáveis vão ser criadas.
  • Catarinense  03/04/2012 16:38
    O procurador do caso da Chevron quer que a empresa pague 20 BILHÕES de reais de multa por danos "ambientais e sociais" provenientes do segundo vazamento. Pergunto, que empresa estrangeira vai querer investir num país que não dá segurança nenhuma para os investidores? E vamos indo adiante, só que para trás!\r
    \r
    Notícia neste link:\r
    www1.folha.uol.com.br/mercado/1071297-em-nova-acao-procuradoria-pede-multa-de-r-20-bi-a-chevron.shtml
  • EUDES  03/04/2012 17:29
    Para trás e para baixo, em todos os sentidos.
  • Andre Cavalcante  03/04/2012 18:43
    Esse caso da Chevron é interessante. Ela só se meteu em problema porque deu um passo maior que as pernas. A tecnologia para o pré-sal ainda está a ser desenvolvida e ela tentou furar. Não digo que o governo está certo em multar a Chevron, mas se ela causou o acidente, ela tem que arcar com as soluções. Como disse Peter Schiff no Ocuppy Wall Street: "Capitalismo é lucros privados e prejuízos privados e não lucros privados e prejuízos socializados...".
  • Catarinense  06/04/2012 05:43
    André, não acho que possa ser chamado de prejuízo o clamor arbitrário de um funcionário público querendo aparecer na mídia. Prejuízo, neste caso, viria da consequência dos danos na imagem desta empresa, além dos processos de reparação de danos aos proprietários das áreas afetadas pelo óleo. De qualquer maneira, 20 bilhões custeariam com facilidade estes processos, afinal, qual foi o real tamanho do vazamento? Pela reação deste procurador e da mídia, deve ter sido algo no tamanho do despejo pelo Exxon Valdez. Além do mais, pelo que me consta, a Petrobrás esteve envolvida recentemente num vazamento semelhante, por que que a reação do governo e da mídia foi praticamente inexistente? Acho que sabemos a resposta :)
  • Rodrigo  03/04/2012 19:05
    Pessoal,

    Só pra complementar, não sei se todos leram essa notícia: www.valor.com.br/brasil/2601302/governo-eleva-ipi-de-bebidas-para-compensar-pacote-industrial


    Em suma, O governo vai aumentar o IPI das bebidas para compensar a diminuição na arrecadação. Isso pois uma das importantes metas do governo é manter o superavit primário.

    Em suma, mais benefícios aos companheiros as custas de que outros paguem a conta.
  • Hamilton  03/04/2012 19:39
    Também não aceito a expressão "contribuinte" já que a contribuição é algo voluntário, não pague leão para ver o que acontece, e por falar em bolha vem aí a previdência do setor público que na verdade será um BNDES II, já que os recursos vêm direto do tesouro e eles vão poder gastar como quiser.
  • Eduardo M  04/04/2012 05:42
    Bom vídeo didático, em inglês, sobre o tema:\r
    \r
    www.zerohedge.com/news/why-government-stimulus-spending-will-keep-unemployment-rate-high\r
    \r
  • Thyago  04/04/2012 07:31
    colunistas.ig.com.br/poder-economico/2012/04/04/brasil-e-vice-campeao-em-medidas-protecionistas-em-2012/

    brasil-e-vice-campeao-em-medidas-protecionistas-em-2012/

    O levantamento é da ong de monitoramento do comércio exterior Global Trade Alert: no primeiro trimestre, o Brasil foi o segundo país que mais implantou medidas protecionistas no mundo.

    Foram três canetadas de Dilma Rousseff contra cinco de Cristina Kirchner, da campeã Argentina.

    Segundo o GTA, o Brasil conta, atualmente, com 86 medidas protecionistas.
  • Rene  04/04/2012 09:32
    Cut, sindicatos e similares protestando contra a desindustrialização brasileira. Eles conseguem arrumar recursos para contratar 2.500 ônibus, além de todas aquelas bandeiras, camisetas, balões. O que eles querem: Intervenção do governo, conter a "ameaça" dos produtos importados, pressionar empresários, governadores e prefeitos a investir mais (seguindo o exemplo do governo federal). No mínimo, intrigante.\r
    \r
    www.gazetadopovo.com.br/economia/conteudo.phtml?tl=1&id=1240972&tit=Protesto-contra-desindustrializacao-reune-10-mil-em-Sao-Paulo
  • rickk  04/04/2012 20:56
    Capitalismo de estado nao significa nazismo, nao sejam sensacionalistas, tao parecndo esses populistas de merda.
  • Hay  06/04/2012 07:04
    Como todos sabemos, os juros baixíssimos levaram os EUA ao paraíso. Portanto, é uma maravilhosa notícia esta aqui:
    Caixa terá juro de 1,35% no cheque especial

    Está ficando difícil imaginar as cenas dos próximos capítulos sem pensar em cenários nem um pouco animadores (após um período em que todos estarão muito felizes, é claro)
  • william  05/05/2012 15:43
    Declarações recentes do Sr. Mantega:

    "É compreensível esse aumento da inadimplência, já que o nível de atividade caiu no ano passado. Afinal, nós saímos de 7,5% de crescimento do PIB 2010 para 2,7% em 2011. É natural a atividade econômica girar num ritmo menor. Girou menos crédito na economia, houve menos compra e venda, e tudo isso fez a inadimplência subir. A correlação é imediata. Se der uma acelerada na economia, com a redução dos juros, que estão muito altos, o volume de crédito vai aumentar e o nível da atividade também. A inadimplência vai cair. É essa a solução para baixar a inadimplência. E não o contrário. Muitas vezes os bancos agem de forma pró-cíclica. Se o ciclo de crescimento está em queda, ao subir os juros, a economia cai ainda mais. Subiu a inadimplência, o banco empresta menos e sobe a taxa de juros. Aí a inadimplência aumenta mesmo. O que o banco tem que fazer é o contrário, uma ação anti-cíclica, que é aquela que interrompe essa queda da inadimplência e estimula a atividade, com a redução dos juros e aumento do crédito."

    guilhermebarros.istoedinheiro.com.br/2012/05/04/os-bancos-privados-ainda-nao-deram-o-ar-da-graca-diz-mantega/#comment-1747

    Aiai, o futuro do Brasil...
  • Hay  06/05/2012 11:48
    O curioso nesse discurso - que é repetido pelos economistas - é que aqueles que o reproduzem não percebem que esse esquema todo de crédito farto para reativar a economia é baseado na confiança e somente na confiança e nada mais (porque não há poupança, não há lastro, nada disso). Ora, é exatamente por isso que fraudes e truques de rua são chamados de "Con", que é uma forma abreviada de "Confidence Trick". Porque o cara que dá o golpe nas pessoas é chamado de golpista e o economista que vive basicamente de elaborar sofisticados golpes não é chamado de golpista também?


Envie-nos seu comentário inteligente e educado:
Nome
Email
Comentário
Comentários serão exibidos após aprovação do moderador.