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O novo paradigma do Banco Central da Suíça

No último dia 06 de Setembro de 2011, o Banco Nacional Suíço (BNS) surpreendeu o mercado mundial quebrando um paradigma de décadas: abandonou o câmbio flutuante ao estabelecer um piso para o valor do franco suíço em relação ao euro.  Cada euro não poderia valer menos que CHF 1,20.

Há pouco menos de um mês, levantei alguns pontos sobre por que essa medida era temerária.  Honestamente, não achei que o BNS tomaria esta ação em tão pouco tempo.  É preciso, no entanto, analisar com mais profundidade e entender a lógica desta nova política.  Veremos adiante que, sob a ótica do Banco Central da Suíça, é possível verificar sensatez e coerência nesta mudança de rumo, ainda que para alguns tenha parecido apenas uma reação desesperada.  Logicamente, não resolverá nada.  Apenas comprará tempo e acirrará ainda mais a guerra cambial.

História e mandato

O franco suíço sempre foi visto como um porto seguro no mundo das moedas fiduciárias.  O comportamento do seu guardião ao longo dos anos provou esta percepção.  Anos de prudência na condução da política monetária da Suíça o creditam a este status de estabilidade e segurança.  Não é somente na sua reputação que jaz esta noção. A própria Constituição Federal da Confederação Suíça, artigo 99, estipula que o ouro faça parte das reservas do banco central.  Ainda que não defina a proporção a ser detida, o mero fato de incluir esta determinação na Constituição é louvável.  Curiosamente, analisando a composição das reservas em ouro do BNS, verificamos que praticamente 100% das cédulas e moedas em circulação estão lastreadas em ouro físico (dados de Maio/11).  Isso não quer dizer que a Suíça tenha 100% de sua oferta monetária lastreada no metal.  Infelizmente não.  Analisando a relação do ouro com o verdadeiro agregado monetário M1 (moeda em poder do público + depósitos à vista), o percentual cai para meros 9,9%.

Item

EUA

RU

BCE

BCE+UE

BNS

Cédulas e Moedas

$ 959.600

£ 54.270

EUR 810.822

EUR 810.822

Fr. 45.374

M1

$ 1.935.100

£ 1.089.898

EUR4.707.665

 EUR4.707.665

Fr. 441.035

Reservas em Ouro

$ 405.061

£ 9.317

EUR 17.371

EUR 373.378

Fr. 43.871

Onça Troy (em mi)

261,5

10,0

16,1

347,0

33,4

 

 

 

 

 

 

Ratio Ouro/C&M

42,2%

17,2%

2,1%

46,0%

96,7%

Ratio Ouro/M1

20,9%

0,9%

0,4%

7,9%

9,9%

 

 

 

 

 

 

Figura 1. Fonte: Fed, BCE, Banco da Inglaterra e BNS.

 

 

Assim como a grande maioria dos bancos centrais, a atuação do BNS está pautada na estabilidade de preços, equivalente a um aumento de não mais do que 2% no nível de preços ao consumidor nacional.  Fazendo eco às demais autoridades monetárias, o BNS também considera tanto inflação quanto deflação prejudiciais ao crescimento econômico e à prosperidade.  E em consonância com seus pares, a manipulação das taxas de juros de curto prazo é a ferramenta utilizada para assegurar a tão almejada estabilidade de preços.

Mas nem sempre foi assim.  Após o fim de Bretton Woods, e o início do paraíso de Friedman (câmbios flutuantes), os bancos centrais estavam consideravelmente perdidos.  Durante a maior parte da década de 70, a política monetária do BNS era perseguir um certo aumento na oferta monetária.  Em 1976, a meta era de 6% de crescimento do agregado M1.  Ao final daquele ano, o alvo foi reduzido para 5%, onde permaneceu até 1978, quando então se decidiu fixar o valor do franco suíço ao marco alemão, a uma relação de 80 francos por 100 marcos.  Para a década seguinte, o BNS alterou a política.  Ao invés de perseguir o crescimento do M1, em larga medida fora do controle do banco central, estabeleceram como objetivo um aumento da base monetária na ordem de 4%.

Durante os anos 80, a meta situou-se ao redor de 3%, chegando a 2% de incremento para 1989. Ao avançar dos anos, esta forma de política monetária foi abandonada.  O foco de atuação passou a residir principalmente na manipulação das taxas de juros.

O fato é que o BNS sempre foi relativamente conservador.  Em harmonia com o Bundesbank, a estabilidade de preços e a manutenção do poder de compra do franco suíço sempre foram levadas a sério.  Relativamente.  O que fez com que o franco ocupasse uma destacada posição no âmbito das moedas consideradas seguras, estáveis.

Por que a mudança de paradigma?

Mais de 50% das reservas internacionais do BNS são denominadas em euros.  Dólares representam atualmente 25%.  Sob a ótica do banco central suíço, este arranjo faz perfeito sentido.  A União Européia é responsável por mais de 75% das importações suíças e por quase 60% das exportações.  Nada mais sensato do que lastrear o passivo do BNS em euros, assim como feito na década de 70 com o marco alemão.  O balanço do BNS está, portanto, bastante vulnerável às oscilações da moeda emitida pelo BCE.

2.png

Figura 2. Fonte: Bloomberg.

Analisando o gráfico acima, vemos como o franco suíço manteve uma relativa estabilidade vis-à-vis o euro desde o seu nascimento no início da década passada.  Flutuando dentro de uma banda entre 1,65 e 1,45, o euro não apresentava nenhuma complicação ao BNS.  Entretanto, o desenrolar da crise de dívida soberana na Europa levou o euro a patamares indesejados, beirando a paridade de 1 para 1 e fechando ao final de agosto a um câmbio de CHF 1,16.

Que implicações esta depreciação do euro tem para o Banco Nacional Suíço?  Perdas contábeis.  Menos lucros a serem distribuídos aos cantões e demais acionistas privados, proprietários do BNS.  Após um lucro de CHF 10 bilhões em 2009, o banco central teve que arcar com um prejuízo de CHF 20 bilhões no ano passado.  Em 2011, as perdas até junho acumulam CHF 10,8 bilhões.  O patrimônio líquido do BNS já está em seu menor nível dos últimos 15 anos.  Seguindo esta tendência, poderia chegar a zero em alguns meses.  Tecnicamente, um banco central está imune a bancarrota, mas tal evento geraria um considerável embaraço institucional.

Mas e a inflação?  As taxas de inflação da Suíça sempre foram invejadas mundo afora.  Inclusive pelos países desenvolvidos.  Nos últimos 30 anos, os preços suíços cresceram em média 2% ao ano.  Sendo que, desde os anos 2000, a inflação não passou de 0,8% ao ano.  (Um breve parêntesis, e nós neste terceiro mundo temos que aturar um BACEN e um Ministério da Fazenda que acredita em inflação de no mínimo 4,5% para criar prosperidade.  Por sinal, o desemprego na Suíça está em menos de 3%).

Digressão a parte, por enquanto, o BNS vê poucos riscos de uma substancial e continuada escalada de preços nos cantões suíços.  Ao contrário, sua maior preocupação é uma possível deflação, que vem se confirmando após a última medição.  Em agosto de 2011, o índice de preços ao consumidor nacional (NCPI) apresentou deflação de 0,3%.  Em julho, a deflação foi de 0,8%.

Apesar do incremento considerável do M1 suíço após a crise financeira de 2008, a maior demanda pelo franco como porto seguro tem compensado a expansão de sua oferta.  Enquanto o NCPI não subir, o Banco Nacional Suíço manterá sua nova política.  Esta é a peça fundamental.  É justamente a inflação (ou falta de) que está permitindo o BNS adotar esta postura.      

Portanto, com o objetivo de evitar maiores perdas no seu balanço, acalmar os exportadores, estabilizar a relação mercantil com o seu maior parceiro comercial e combater a deflação, o BNS optou por não mais deixar o franco flutuar, e estabeleceu um piso para o seu câmbio com o euro.  Ou melhor, deixou o câmbio flutuando sim, contanto que seja acima de CHF 1,20.  Como o próprio presidente do BNS afirmou, "mesmo com um câmbio a 1,20, nossa moeda ainda está consideravelmente cara.  O franco deve continuar se enfraquecendo ao longo do tempo".

Implicações da nova política

Ao fixar um piso para o valor do euro em relação ao franco suíço, o BNS abre mão de parte de sua independência na condução da política monetária.  Como ele mesmo afirmou taxativamente, "o BNS defenderá este câmbio mínimo com extrema determinação e está preparado a comprar moeda estrangeira em quantidades ilimitadas". Na prática, isso significa que se o Banco Central Europeu recorrer à expansão monetária, o BNS terá que surfar na mesma onda.

Mas o Banco Nacional Suíço teria a capacidade de manter esta política?  Nosso ignoramus da Fazenda, Guido Mantega, não sabe se a Suíça teria condições de bancar os ataques especulativos.  Elucidando nosso ministro, a resposta é sim.  O BNS é perfeitamente capaz de bancar qualquer ataque especulativo.  O que Mantega não entendeu é que a situação é inversa aos câmbios fixos de antigamente, em geral utilizado por bancos centrais emergentes.  Esse sempre foi o problema de países em desenvolvimento que tentavam fixar suas moedas ao dólar e não tinham a disciplina monetária para isso.  Sempre inflavam mais e acabavam gerando crises financeiras (no jargão de economia, crise no balanço de pagamentos).

Mas o que seria um ataque especulativo ao franco suíço?  Pela primeira vez ,um BC conservador atrela sua moeda à moeda de um BC (potencialmente) mais imprudente.  Caso o BCE decida ser austero e não inflar a moeda, não haverá problema; o BNS sempre operou desta forma e seguirá assim com tranquilidade.  A questão é saber se o BNS irá mesmo imprimir o quanto for necessário caso Jean-Claude Trichet infle o euro para salvar os países problemáticos.

A realidade é que o banco central da Suíça jamais corre o risco de ficar "sem francos" para desvalorizar o próprio franco.  É o contrário das âncoras cambiais normais.  Naquelas chamadas crises monetárias, os países emergentes não detinham divisas suficientes para vender no mercado e defender a paridade cambial.  Por isso o capital deixava o país em massa, enquanto não houvesse uma desvalorização forçada que refletisse corretamente a relação de quantidade de moeda nacional contra moeda estrangeira.  O problema agora não é o BNS ficar sem euros.  É quantos euros ele estará disposto a comprar.  Mas a capacidade para tal é infinita, pois depende somente de sua capacidade de imprimir francos suíços.  Portanto, não há dúvidas de que o BNS consiga manter o piso cambial.

Nesse cenário, um "ataque especulativo" causaria uma valorização forçada.  Os investidores, ao invés de vender o franco em massa (como faziam com o real em 98/99 vislumbrando uma desvalorização), o comprariam em massa, esperando uma valorização forçada.  Imaginem um comunicado à imprensa pelo BNS: "Pois é, devido ao ataque especulativo ao franco suíço, somos obrigados a admitir que não inflamos a nossa moeda na mesma intensidade que o Banco Central Europeu e em conseqüência é preciso valorizar o franco.  A partir de hoje nossa meta passa ser um piso de CHF 1,00".

Mas uma "valorização forçada" pode ocorrer?  Em teoria sim, ainda que soe bizarro.  Em última instância, tudo dependerá da vontade do BNS em imprimir francos suficientes para desvalorizá-lo e sustentar um câmbio a CHF 1,20.  Como comentado acima, a capacidade para tal empreitada é infinita.  Na história de políticas monetárias, não consigo recordar de episódio semelhante.

No caso de o BCE recorrer à desvalorização do euro para resgatar os países em apuros, e o BNS honrar sua promessa de inflar em sintonia, o risco que o último corre é o de gerar um aumento considerável nos preços domésticos e possíveis bolhas em alguma ou várias classes de ativos.

Conclusão

Obviamente não existe limite para a impressão de francos.  Hoje em dia, nem papel e tinta são necessários.  Mas isso não quer dizer que o BNS esteja livre das consequências de tal política insana. Se o euro for desvalorizado de fato, e o franco suíço seguir no mesmo ritmo, cedo ou tarde aumentarão os índices de preços ao consumidor, o qual serve de baliza à política monetária de ambos os bancos centrais. Será que o Banco Nacional Suíço seguirá à risca o seu mandato?

A verdade é que, até então, o BCE não expandiu a oferta monetária da mesma maneira absurda que o Fed americano.  Portanto, grande parte da desvalorização do euro pode ser atribuída à percepção de que há um enorme potencial de expansão por parte do BCE — entretanto, ainda não materializado.

Acho que esta foi uma cartada que o BNS utilizou para forçar o mercado a não duvidar de sua capacidade de inflar a moeda e forçar uma desvalorização.  No entanto, meu instinto diz que o BNS está blefando.  Acredito que ou o BNS não crê que o BCE criará dinheiro infinitamente e, portanto, não há risco em estabelecer um piso ao câmbio.  Ou então, caso o BCE venha de fato a comprar a dívida de países periféricos depreciando o euro, o BNS abandonaria esta política de piso cambial tão logo uma inflação de preços doméstica começasse a impactar a economia suíça.  Dessa forma, a medida anunciada seria somente para forçar o mercado a diminuir a excessiva valorização do franco suíço.

Sob o ponto de vista do Banco Nacional Suíço esta mudança de paradigma é perfeitamente justificada.  Seguindo a orientação de Robert Mundell, muitos concordam que a saída para o mundo é voltar ao regime de câmbios fixos (assunto para um futuro artigo).

A lição que fica para os investidores é que não existe porto seguro em moedas de papel.  Simplesmente não se pode confiar em banqueiros centrais.  Será que o Banco do Japão fará algo do gênero?  Será que Bernanke lançará seu próximo programa de impressão maciça de moeda (QE3)?

Nesse cenário intricado, teria o BNS alguma alternativa?  O que o BNS deveria fazer com os seus euros?  Vendê-los.  E comprar ouro.  Sim, isto valorizaria em demasia o franco suíço.  Mas talvez fizesse com que o mundo enxergasse a loucura em que estamos nos submetendo.  A tarefa de um banqueiro central é impossível.  Não só pela inerente instabilidade que seu sistema gera, mas porque ele está suscetível à ação dos demais bancos centrais que apelam para a impressora, desestabilizando o comércio no mundo todo.

O fato é que qualquer medida adotada pelos bancos centrais terá vantagens e desvantagens significativas.  Mas todas serão meros paliativos.  Até o momento em que o mundo retome a sanidade monetária imposta pelo ouro. 



autor

Fernando Ulrich
é mestre em Economia da Escola Austríaca, com experiência mundial na indústria de elevadores e nos mercados financeiro e imobiliário brasileiros. É conselheiro do Instituto Mises Brasil, estudioso de teoria monetária, entusiasta de moedas digitais, e mantém um blog no portal InfoMoney chamado "Moeda na era digital". Também é autor do livro "Bitcoin - a moeda na era digital".

 

  • Felix  09/09/2011 10:19
    Se entendi direito,
    A Suíça gostaria de participar da farra mundial de expansão monetária porque possui banqueiros privados em seu banco central que estão começando a perder dinheiro. Ou seja, pessoas fortemente ligadas ao governo não podem deixar de ter sua boquinha, nem que pra isso a população tenha que pagar com perda do poder de compra...
    Realmente um Banco Central parece ser algo desnecessário para um país...
  • Fernando Ulrich  09/09/2011 10:40
    Não só privados Felix. Públicos também. Os cantões (e bancos dos cantões) detêm cerca de 55% do BNS.
  • Gustavo B  09/09/2011 15:56
    Vou acompanhar o gráfico do EUR/CHF diariamente aqui em casa. A situação está bem engraçada, o par simplesmente "travou" nos 1,20. Ao contrario do autor duvido que o BCS consiga resistir por muito tempo... Será que não vai aparecer nenhum George Soros para trocar 10 bilhoes de euros por Francos e acabar com a palhaçada?
  • Felix  09/09/2011 20:38
    Mas porque alguém compraria franco se eles vão começar a desvalorizar a coisa ?
    realmente é uma aposta, mas "eles" são o dono da roleta...
    Se o mundo ficar comprando CHF acho que eles vão ficar dando risada e imprimindo mais dinheiro, enriquecendo com o dinheiro novo estrangeiro entrando, igual os japoneses fabricando espadas para china (vide: www.mises.org.br/Article.aspx?id=772)
    A única consequencia que consigo prever é uma inflação generalizada quando os francos começarem a retornar para o mercado suíço, e creio que não vai demorar muito...
  • Rafael Hotz  09/09/2011 19:22
    Vivemos um mundo de ponta cabeça.

    O propósito da competição de moedas é selecionar as moedas com maior apreciação e menor volatilidade, garantindo maior capacidade de importar bens e serviços para seu usuário (da forma mais previsível possível).

    O novo paradigma, coordenado por BCs comandados por retardados Keynesianos e Friedmanitas é selecionar as moedas mais vagabundas, que se depreciam mais o longo do tempo e cujo gráfico parece um eletrocardiograma. Tudo isso para que sua riqueza seja ao máximo transferida para os estrangeiros e exportadores, e para que você não possa viver sem gastar fortunas com hedge.

    Acham que o Manteguinha deu um jab no Bernanke? Espere até o retardado mor resolver imprimir um gancho de trilhões de dólares em nossas cabeças...
  • Rhyan  09/09/2011 22:06
    Os países emergentes não podiam imprimir dinheiro na crise monetária?
  • Fernando Ulrich  10/09/2011 14:23
    Rhyan, o problema das crises era justamente a impressao de dinheiro por parte dos paises emergentes. Como a Argentina que tentou manter uma paridade cambial com o dolar, mas logicamente imprimiu relativamente mais dinheiro que o FED. Quando o mercado comecou a se dar conta da situacao e tentou trocar a moeda argentina pelo dolar na paridade oficial de 1 para 1 o BC Argentino foi obrigado a deixar a paridade. Simplesmente nao haveriam dolares suficientes para honrar na paridade de 1 para 1 todos os pesos que estavam no mercado. Se o BC Argentino imprimisse mais dinheiro sem abrir mao da paridade o problema seria apenas exacerbado.
  • Rhyan  10/09/2011 15:02
    Valeu, Ulrich! Entendi! Tava achando que eles queriam desvalorizar a moeda mas não conseguiam por alguma lei ou algo do tipo.
  • PM  15/09/2011 20:25
    O principal motivo de o SNB atrelar o CHF ao EUR é para proteger o exportadores suíços.
    Como economia aberta, a Suíça exporta o equivalente a 50% do seu PIB e, desses, cerca de 65% vão para a UE. Como se viu no gráfico CHF/EUR o CHF se valorizou em cerca de 50% (!!) em cerca de 1,5 ano. Imaginem o barulho que não seria aqui no Brasil se o USD passase de 2,00 para 1,00 por BRL, já em BRL 1,65 os exportadores acendem a luz amarela e Mantega fala em Guerra cambial... Então, a pressão sobre o SNB por parte das empresas exportadoras e por parte do governo foi bastante grande nos últimos tempos. Interessante notar que as exportações suíças não sofreram até agora, o que provavelmente se deve também ao fato de que boa parte dos produtos exportados serem produtos "premium" de alta qualidade, onde a elasticidade de preços é mais baixa e com menos concorrentes. Os principais produtos exportados são os químicos (medicamentos principalmente), máquinas industriais, autopeças e relógios, entre outros.
    Assim, discordo de que o principal motivo da mudança de paradigma sejam as perdas sobre as reservas cambiais do SNB. Mesmo porque, os 75% da reservas só foi atingido no 2o semestre de 2010 (www.snb.ch/en/iabout/stat/statpub/balsnb/stats/balsnb/snbbil_A1) (em 2008 era de 25% do balanço do SNB). Em 2010, quando o franco já estava históricamente valorizado o SNB entrou comprando pesadamente EUR no mercado para tentar desvalorizar o CHF - funcionou mal e por poucos meses. Nesse período as reservas cambiais do SNB saltaram de CHF 93 bilhões em janeiro de 2010 para CHF 211 bilhões em março de 2011, quando a cotação do EUR estava em cerca de 1,30. Nesse mesmo paríodo as reservas cambiais passaram de 48% para 75% do balanço do SNB.
    Em agosto de 2011 o EUR atingiu paridade com o CHF e as mídias locais só falavam nisso. Empresas assustavam políticos e o SNB com ameaças bastante críveis de mandar inúmeros trabalhadores para a rua porque as exportações estavam ameaçadas. Assim, foi dado o triste passo de atrelar o CHF ao EUR.
    Os riscos para a Suíça são, ao meu ver, muito grandes. Por um lado existe o risco de inflação. Muito difícil imaginar que o SNB aceitaria uma inflação acima de 2%, os suíços são muito prudentes com a inflação. A aposta do SNB é que os CHF criados para se proteger dos ataques contra o fortalecimento do CHF fiquem depositados nos bancos e não entrem de fato em circulação na economia, o que traria pouca pressão sobre o nível de preços dos produtos no país. Será que vai funcionar?
    Por outro lado a Suíça propositalmente não entrou na UE e nunca renunciaria ao CHF, isso está na constituição do país e requereria um referendo que certamente seria rejeitado. Por isso é ainda mais difícil aceitar o fato de o SNB renunciar a sua independência ao atrelar o CHF à moeda da união da qual quer ser independente. Além de também provocar perda de poder de compra relativa para os cidadãos suíços.
    Essa medida, caso se provar incapaz de sustentar o limite de CHF 1,20 (esse cenário aconteceria caso a inflação disparasse e o SNB não mais pudesse imprimir CHF para manter o câmbio a 1,20) faria com que o SNB fosse obrigado a reconhecer perdas imensas sobre as reservas cambiais que possui. Fala-se que possivelmente as reservas em EUR podem atingir EUR 1 trilhão (!!).
    Certamente é uma situação muito difícil para o SNB, exportadores, etc. Mas tenho a impressão de que o SNB pode provocar um estrago muito maior do que a perda de empregos poderia. Afinal o SNB está lutando com um mercado cambial que negocia DIARIAMENTE USD 4 trilhões.
  • EUDES  22/09/2011 11:17
    Esse câmbio fixo, preconizado por Robert Mundell, estaria isento de enfrentar problemas como aqueles que a Argentina enfrentou, ou seria a mesma maluquice ?
  • Carlos Garcia  12/10/2014 16:22
    Suiça dando banho de economia mais uma vez: Em novembro serão votadas as medidas para retomar um padrão ouro no país.

    etfdailynews.com/2014/08/26/switzerland-to-take-back-its-gold-ishares-silver-trust-etf-spdr-gold-trust-etf/

  • Fellipe  15/01/2015 19:25
    Fernando ou Leandro,

    Li a seguinte notícia hoje e fiquei curioso (tirando o mimimi dos corporativistas de plantão, vulgo "especialistas"):

    É um tsunami, é uma bomba? Suíça toma decisão extrema e mercados ficam "perplexos"

    Desde o anúncio do piso de 1,20 eu também acreditava que o SNB tão teria culhão para depreciar muito o franco suíço, pois caso gerasse muita inflação o impacto político seria muito alto.

    Porém não seria este anúncio uma antecipação a uma ação do BCE em inflacionar demasiadamente a moeda?

    Com relação à redução da taxa de depósitos, isso não incentivaria os bancos a emprestar mais, em busca de maior remuneração, aumentando mais a base monetária e criando inflação de preços? Se sim, e caso o que esteja ocorrendo no momento é deflação, na lógica do banqueiro central faz sentido...

    E finalmente, qual a opinião de vocês sobre o que está acontecendo nos BCs da Suíça e Europa atualmente?

    Obrigado antecipadamente pelos esclarecimentos.

    Abs,
  • Leandro  15/01/2015 20:20
    Parece que o bom senso, commodity cada vez mais escassa entre bancos centrais, voltou a aparecer ao menos no BC suíço (em conjunto com o de Cingapura).

    "Porém não seria este anúncio uma antecipação a uma ação do BCE em inflacionar demasiadamente a moeda?"

    Eles certamente estão receosos com o futuro resultado das eleições gregas. Mas o euro também vinha em um processo de lenta desvalorização (também por causa da Grécia), então o BC suíço foi forçado a fazer a opção (inteligente e sensata) pela moeda forte.

    "Com relação à redução da taxa de depósitos, isso não incentivaria os bancos a emprestar mais, em busca de maior remuneração, aumentando mais a base monetária e criando inflação de preços?"

    Só se houver pessoas que queiram se endividar.

    Uma coisa que poucas pessoas ainda não perceberam é que, ao contrário da intuição normal, juros excessivamente baixos acabam restringindo a expansão do crédito. E a lógica é simples.

    Se os juros estão em, por exemplo, 50% ao ano, então os bancos podem se dar ao luxo de ser menos cautelosos na concessão de empréstimos. É a mesma lógica do agiota: se você emprestar para pessoas com histórico de crédito duvidoso, cobre juros altos; quanto mais altos os juros, mais você empresta para pessoas assim.

    E quanto mais baixos os juros, mais criterioso e cauteloso você tem de ser. Se os juros são muito altos e o prestamista mutuário dá calote em algumas prestações, tudo bem; desde que ele pague as outras, o banco ainda tem lucro. Já com juros baixos, qualquer atraso na prestação já afeta severamente a possibilidade de lucro do banco.

    Por isso esse aparente paradoxo entre juros zero, crescimento do crédito quase nulo e inflação de preços zero.

    "E finalmente, qual a opinião de vocês sobre o que está acontecendo nos BCs da Suíça e Europa atualmente?"

    Acho que acabei de explicar, de certa maneira: Grécia e restauração de um pouco de sanidade em relação à opção pela moeda forte.
  • Rogério  15/01/2015 21:44
    Leandro, o que significa a taxa de juros negativa de -0,75% adotada pelo BC suiço? Significa que os bancos ganham dinheiro caso recorram ao interbancário? Não entendi muito bem o que aconteceu, achava que quanto menor fosse a taxa de juros, maior seria a tendencia de desvalorização da moeda.

  • Leandro  15/01/2015 22:21
    Os bancos que deixarem um grande volume de dinheiro parado no BC suíço pagarão 0,75% sobre o montante que supere uma determinada soma (cujo valor agora me esqueci).

    "Não entendi muito bem o que aconteceu, achava que quanto menor fosse a taxa de juros, maior seria a tendencia de desvalorização da moeda."

    Em tese, sim. Mas como todas as principais economias do mundo estão com juro zero, como o franco suíço goza de enorme reputação, e como não há países emergentes (onde os juros são mais altos) que sejam minimamente páreos (em termos de confiança e segurança) ao franco suíço, todo mundo corre pra ele.
  • Fellipe  16/01/2015 12:28
    Leandro,

    Obrigado pelos esclarecimentos, como sempre bem claros. Vou escutar seu podcast assim que possível para me atualizar sobre Cingarupa.

    No mises.org encontrei outra análise, acredito que também contribua com a discussão (há a menção a um provável QE do ECB):

    What a Swiss Surprise!

    Abs!
  • Mohamed Attcka Todomundo  16/01/2015 15:34
    leandro, posta uns links sobre a suiça e cingapura pragente? artigos q vc teja lendo por ex. pode ser em portugues ingles ou turco.
  • Mohamed Attcka Todomundo  20/01/2015 11:26
    valeu por esse artigo leandro - www.mises.org.br/Article.aspx?id=2010 -. respondeu a minha duvida
  • Mr. Magoo  16/01/2015 05:46
    Mudou o esquema,

    www.20min.ch/ro/economie/dossier/franc/story/Une-1ere-capitulation-dans-la-guerre-des-monnaies-16246101

    www.20min.ch/ro/economie/dossier/franc/story/Chute-de-l-euro--ruee-sur-les-bureaux-de-change-16863753
  • Yonatan Mozzini  16/01/2015 14:46
    A economia da Suíça é incrível. Mesmo agora forçosamente tendo juros nominais razoavelmente negativos, o país é um refúgio para especuladores, um verdadeira esponja da liquidez no mundo. Os bancos centrais ao redor do mundo devem se contorcer de inveja da Suíça.

    O interessante é que tal medida do banco central suíço já está sendo vista com maus olhos pela mídia -- pelo menos é o que parece aqui no Brasil --, dizendo que o setor exportador irá sofrer bastante, dizendo que devido a um "mini crack" da bolsa eles vão entrar em recessão. Ignoram totalmente o acesso ainda maior que a população suíça terá sobre os bens ao redor mundo e que poderão ampliar o consumo "com um pé nas costas". É trágico o pseudo-intelectualismo vigente no mainstream.
  • IRCR  18/01/2015 23:00
    Leandro,

    Nesse artigo de 2011 fala muito de uma possível inflação de preços mais elevada para os padrões suíços, com a impressão de francos pra comprar euros, mas de lá pra cá ficou praticamente 0 ou quando não negativo.

    O motivo não seria pq eles são convertidos em títulos públicos do euro ?, ou seja, não teria como afetar o CPI, pois os francos impressos não estariam circulando na economia "real".

  • Leandro  19/01/2015 13:41
    Explicado no artigo de hoje:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2010
  • Emerson Luis  09/09/2019 11:40

    "A própria Constituição Federal da Confederação Suíça, artigo 99, estipula que o ouro faça parte das reservas do banco central. Ainda que não defina a proporção a ser detida, o mero fato de incluir esta determinação na Constituição é louvável"

    Mas que ótima ideia de PEC para o Brasil!

    PS: Lamentável que até os suíços acreditam que deflação é sempre ruim e que alguma inflação é benéfica e necessária.

    * * *


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