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Por que os juros são altos no Brasil

Imagine um indivíduo cuja renda total mensal seja de R$ 10.000.  Imagine também que seus gastos correntes (conta de luz, condomínio, internet, TV a cabo, alimentação, escola dos filhos, vestuário, lazer etc.) sejam de R$ 8.500.

Teoricamente, ele está tendo uma poupança de R$ 1.500 por mês.  Sempre que ele for ao banco pedir empréstimos, ele vai utilizar esse número como prova de sua austeridade e de seu bom histórico.

Entretanto, não incluído nesses gastos correntes, está o pagamento de juros de uma dívida que ele contraiu há alguns meses, quando comprou um apartamento financiado.  As prestações mensais custam R$ 1.300.

E além do pagamento dos juros dessa dívida, há também outras dívidas que estão vencendo (por exemplo, dívidas com alguns amigos e parentes), as quais ele deve pagar.  A amortização dessas dívidas lhe custa R$ 1.520.

O leitor — que certamente está com uma calculadora na mão — já percebeu que, caso este indivíduo diga que está poupando R$ 1.500 por mês, ele estará mentindo fragorosamente.  A realidade é que ele está tendo gastos maiores que sua receita.  Embora ele ganhe R$ 10.000, ele está gastando R$ 11.320 — ou seja, sua despesa total é R$ 1.320 maior que sua receita.

Um economista governamental diria que este indivíduo possui um superávit primário de R$ 1.500.  Um economista mais realista diria que ele, na verdade, está tendo um déficit nominal de R$ 1.320, e que é esse número que interessa.

E como esse indivíduo não tem poupança, ele precisa se endividar para cobrir esse seu déficit nominal.  Ou seja, ele terá de pedir R$ 1.320 emprestados.  Consequência: no final do mês, mesmo pagando dívidas, seu endividamento aumentou.  Cada déficit nominal representa um aumento na sua dívida.

Entretanto, a agonia ainda não acabou.  Os números acima representam apenas as despesas totais deste indivíduo.  Há, no entanto, outras despesas com dívidas que não foram incluídas no relato acima.  São despesas que não alteram seu endividamento total; elas não aumentam nem diminuem sua dívida, mas possuem enorme influência na sua capacidade futura de obter novos empréstimos.  Refiro-me às operações de refinanciamento da dívida.  Explico melhor.

Imagine que este indivíduo, além de todos os gastos acima — gastos correntes e gastos com juros e amortização de dívidas —, tenha tido de renegociar outras dívidas pendentes.  Imagine que ele possua uma alta dívida com o Banco A porque pediu empréstimo para um cruzeiro para as Bahamas.  O banco está lhe cobrando a quitação de R$ 4.000.  Como ele não quer ficar encrencado com bancos, ele decide quitar essa dívida.  Mas, obviamente, não tem dinheiro sobrando para isso.  Logo, ele vai ao Banco B, no qual também possui conta, e pede um empréstimo de R$ 4.000 para quitar a dívida com o banco A. 

Ou seja, ele trocou uma dívida por outra.  Em termos práticos, ele rolou sua dívida ou refinanciou-a.  No geral, sua dívida total não se alterou.  Porém, o observador mais iniciado sabe perfeitamente que essa medida pode ser bastante perigosa caso venha a tornar rotineira.  Nesse caso, o rolamento da dívida vai depender totalmente da boa vontade do Banco B em continuar fornecendo crédito para este indivíduo.  Vai depender também, e principalmente, do histórico de crédito desse indivíduo.  Se seu histórico se deteriorar, os juros cobrados pelo Banco B irão subir — ou, na melhor das hipóteses, nunca serão baixos.

Portanto, eis o resumo da situação fiscal desse indivíduo:

1) Renda: R$ 10.000

2) Gastos totais (gastos correntes + juros + amortizações): R$ 11.320

3) Despesas apenas com juros e amortizações: R$ 1.300 + R$ 1.520 = R$ 2.820  (28,2% da renda).

4) Refinanciamento: R$ 4.000 (40% da renda).

5) Volume total despendido com a dívida (juros + amortizações + refinanciamento): R$ 6.820. (68,2% da renda)

Embora a situação acima seja hipotética, os valores são percentualmente idênticos à situação do governo federal brasileiro em 2010.

Por que isso importa?

A ilustração acima ajuda a entender um dos principais motivos de a taxa SELIC — a taxa básica de juros da economia brasileira — ser alta.  Principalmente, ajuda a entender por que ela não tem como diminuir caso a situação fiscal do Brasil continue como está.

Veja os números fiscais do governo federal para o ano de 2010, ano considerado excelente em termos econômicos:

Receita total: R$ 919.773.319.934

Despesa total: R$ 1.044.122.830.205

Déficit nominal: R$ 124.349.510.271

Despesa sem juros, encargos e amortizações: R$ 782.204.970.288

Superávit primário: R$ 137.568.349.646

Gastos apenas com juros, encargos e amortizações: R$ 261.917.859.917

Gastos com juros, encargos, amortizações e mais refinanciamentos: R$ 635.355.479.805

Despesa total do governo, incluindo o refinanciamento da dívida: R$ 1.417.560.450.094

PIB = R$ 3.674.964.000.000

Gasto total apenas com a dívida = 69% da receita total ou 17,3% do PIB

Observe que a diferença entre considerar apenas as despesas com juros, encargos e amortizações e considerar esse mesmo valor acrescido dos valores do refinanciamento é enorme.

A mídia gosta de divulgar apenas o superávit primário, dando a impressão de austeridade governamental.  Quando muito, ela divulga rapidamente o déficit nominal.

Entretanto, mesmo o déficit nominal não é suficiente para explicar o valor da SELIC.  Afinal, o déficit nominal representa 13% da arrecadação total, 12% dos gastos totais e "apenas" 3,38% do PIB.  Há vários países, principalmente na Europa, com valores muito piores do que esse, mas com uma taxa de juros muito menor.

Logo, quem procurar explicações para o alto valor da SELIC apenas nos números fiscais divulgados pela mídia ficará completamente à deriva, sem entender nada do que se passa.

Dado que a taxa SELIC representa os juros anuais que o governo paga sobre sua dívida, fica mais fácil entender a relação entre seu alto valor e a real situação fiscal do governo: um dos principais motivos de a SELIC ser alta está na necessidade de refinanciamento da dívida do governo federal, cujo volume é extremamente alto.

Como demonstrado pelo exemplo do indivíduo no início deste artigo, o governo, além de pagar encargos e amortizar parte da dívida, tem também de rolar boa parte da dívida que está vencendo.  E para rolar essa dívida, o Tesouro tem de emitir novos títulos da dívida, os quais devem ser comprados por investidores.  E para atrair investidores dispostos a comprar esse alto volume de títulos, os juros devem ser atraentes.  Quanto mais alto o valor da dívida a ser rolada, mais altos têm de ser os juros — caso contrário, não haveria investidores suficientemente atraídos para isso, o que significa que boa parte da dívida não poderia ser rolada.  Logo, ela teria de ser paga, restringindo ainda mais a liberdade orçamentária do governo federal.  A outra única opção seria o calote.

Veja no gráfico a seguir a situação de alguns países do mundo nesse quesito.  Observe a coluna "NFSP total" (Necessidade de Financiamento do Setor Público Total), que representa justamente os gastos com juros, encargos, amortizações e refinanciamentos:

arte27opin-202-col_op1-a12.jpg

Observe que todos os países que estão piores que o Brasil são justamente aqueles que estão enfrentando graves crises fiscais.  Os investidores não mais estão dispostos a seguir rolando a dívida destes países ao atual nível de juros oferecidos, o que significa que os juros terão de ser elevados.  O Brasil aparentemente não enfrenta essa dificuldade justamente pelo fato de os juros aqui já serem elevados.

Portanto, enquanto a necessidade de financiamento do governo federal brasileiro continuar alta, simplesmente não haverá espaço para grandes reduções da taxa básica de juros.  Se esta for reduzida, o governo dificilmente conseguirá continuar rolando o mesmo montante da dívida que rola anualmente.  Isso faria com que essa dívida rolada tivesse de ser efetivamente quitada, o que comprimiria sobremaneira o orçamento do governo.  Daí a importância do corte de gastos.  Apenas um genuíno corte de gastos pode fazer com que haja menos necessidade tanto de tomar dinheiro emprestado quanto de refinanciar a dívida, o que permitiria sua efetiva quitação.

Isso também explica por que meras perfumarias, como o espalhafatosamente recém-anunciado plano de aumentar o superávit primário em meros R$ 10 bilhões, não trarão efeito nenhum sobre juros — o déficit nominal e a necessidade de refinanciamento seguem inatacados.

Outra teoria complementar

O presidente do IMB, Helio Beltrão, tem uma teoria — a qual funciona complementarmente à apresentada acima — para a taxa básica de juros no Brasil ser alta.  Segundo ele, um dos principais motivos de a SELIC ser alta é porque, durante a década de 1980 e a primeira metade da de 1990, muita gente aplicava em títulos públicos apenas para se proteger da inflação.  Isso elevou enormemente o M3 e o M4, que é o agregado monetário que considera os títulos públicos.

Sendo assim, os agregados monetários hoje podem ser vistos como um "triângulo invertido" (com a base monetária representada pela ponta da pirâmide, embaixo, e o M3/M4 sendo a base da pirâmide, acima).

Nos países centrais a pirâmide invertida é "magra", ou seja, a relação entre M3/M4 e a base monetária é bastante menor que no Brasil.  Isso significa que no Brasil há enorme pressão ou potencial de que os poupadores (M3 e M4) queiram transformar sua poupança em "dinheiro" (M1), para gastar.  Quem segura e impede a conversão é a taxa de juros de curto prazo (SELIC, que é muito próxima ao CDI).

Quanto mais o governo emite títulos, mais essa pirâmide fica "gorda" — mais o M3 e o M4 aumentam em relação ao M1.  Consequentemente, mais aumenta a pressão de conversão de títulos públicos em dinheiro — o M3/M4 começa a "pingar" ainda mais no M1.  Sendo assim, se a taxa SELIC diminuísse, o pinga-pinga viraria uma cachoeira inflacionária — e como o Banco Central trabalha com metas de inflação, ele não pode deixar isso acontecer.

Conclusão

Esse artigo abordou apenas a questão da SELIC, nada comentando sobre o nível dos juros praticados pelos empréstimos bancários, cujos motivos de serem altos são outros — embora sejam diretamente influenciados pelo valor da SELIC.  (Para uma explicação completa sobre o que é a SELIC e sua relação com o sistema bancário, veja este artigo.)

Embora possa parecer menos importante do que os juros bancários, o fato é que a taxa SELIC traz impacto direto sobre as finanças do governo — e, logo, sobre toda a economia.  Quanto maior a SELIC, maiores serão os gastos do governo com a dívida.  Consequentemente, maior terá de ser a carga tributária.

Sem cortes de gastos, será impossível o governo reduzir sua necessidade de financiamento.  Sem reduzir sua necessidade de financiamento, será impossível uma redução expressiva na SELIC.  Sem uma redução na SELIC, os gastos com a dívida seguirão altos.  Com altos gastos, será impossível uma redução na carga tributária.

E isso afeta toda a economia.



autor

Leandro Roque
é editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.

  • Sol Moras Segabinaze  01/09/2011 10:35
    Excelente, Leandro.
  • Thiago  01/09/2011 11:29
    Gostei do artigo. Frequento o site a algum tempo, e acho ótimo. Estou lendo alguns livros do site. Eu li:

    Economia do Indivíduo, do Rodrigo Constantino.
    Seis Lições, de Mises.
    A Lei, de Bastiat.
    e agora estou lendo A Mentalidade Anticapitalista, de Mises.

    Acho incrível como tudo é muito claro.

    Mas eu não entendo o que é M1, M2, M3 e M4, algumas das siglas utilizadas em economia. Existe algum artigo aqui que explique isso?

    Desde já grato.
  • Leandro  01/09/2011 11:37
    Prezado Thiago,

    M1, M2, M3 e M4 são tecnicamente chamados de "agregados monetários" e representam mensurações do que vem a ser dinheiro.

    Antes de todos esses, é preciso saber o que é base monetária.

    Base monetária e M1 foram bem explicitados neste artigo. Recomendo bastante a leitura, pelo menos de sua parte inicial.

    Após entender o que é base monetária e M1, você pode partir para M2, M3 e M4.

    Faço aqui o resumo:

    BM = papel-moeda emitido (todas as cédulas e moedas metálicas impressas e cunhadas pela casa da moeda) + reservas bancárias (depósitos compulsórios que os bancos mantém junto ao Banco Central).

    M1 = papel-moeda em poder do público + depósitos em conta-corrente (depósitos do setor privado; depósitos dos governos federal, estaduais e municipais; depósitos de empresas federais, estaduais e municipais; depósitos de instituições financeiras não sujeitas a recolhimento compulsório; depósitos de domiciliados no exterior; cheques de viagem; cheques marcados; cheques-salário; saldos credores em contas de empréstimo e financiamento e obrigações por prestação de serviço de pagamento.)

    M2 = M1 + depósitos em poupança + depósitos a prazo + depósitos de reaplicação automática + letras de câmbio + letras imobiliárias + letras Hipotecárias.

    M3 = M2 + quotas de fundos de investimentos + operações compromissadas registradas no Selic

    M4 = M3 + títulos federais (inclui títulos do Banco Central do Brasil e do Tesouro Nacional em poder do público) + títulos estaduais e municipais em poder do público.


    De início, parece bastante confuso. Mas você deve se preocupar apenas com a BM e o M1.

    Grande abraço!
  • Thiago  01/09/2011 12:32
    Ainda está um pouco complicado para mim. Pelo que entendi:

    Base monetária é aquantidade de dinheiro "físico" que existe. Quer ele esteja na mão das pessoas ou dentro do Banco Central.

    M1 é a quantridade de dinheiro físico que circula na sociedade mais o que as pessoas têm na conta. É o somatório de R$ 10000 reais que eu tenho na conta corrente mais os R$ 5500 reais que o banco emprestou para alguém (com um compulsório de 45%).

    M2 é o M1 somado à poupança de fato, aquela que não produz inflação, como ensina Mises.

    M4 é o M3 mais as notas promissórias que o governo emite para financiar seus gastos.

    É isso?

    A teoria do Hélio Beltrão diz somente que o governo mantêm as taxas altas para evitar que as pessoas resgatem os empréstimos que fizeram ao governo? É isso?

    um abraço.
  • Leandro  01/09/2011 12:49
    É bem isso, Thiago.

    Apenas uma pequena correção sobre a base monetária: além de ela contabilizar todo o dinheiro físico existente, ela também contabiliza o dinheiro meramente eletrônico que os bancos mantêm depositados junto ao Banco Central. O dinheiro que os bancos mantêm junto ao Banco Central são apenas números eletrônicos, os quais podem vir a ser impressos em cédulas sempre que um banco demandar.

    Sobre a teoria do Helio, ela é complementar a essa do artigo. Vale lembrar que a SELIC também regula outras taxas, como CDI, CDB, Renda Fixa e Fundos DI. Logo, uma redução na SELIC, em teoria, faria com que as pessoas retirassem o dinheiro dessas aplicações, convertendo para M1 ou para outras aplicações mais líquidas. Tal debandada traria enorme volatilidade às taxas de juros de curto prazo (a SELIC), que flutuariam como uma pluma bêbada. E o governo não quer nem pensar nisso.

    Abraços!
  • Thiago  01/09/2011 13:16
    Tá bom Leandro, mas como esse dinheiro eletrônico vai para lá? Eu sei que não existe um galpão com tijolos de notas de 50 e 100 reais, mas de alguma forma esse dinheiro da base monetária saiu de circulação. Ou não?

    A teoria do Hélio então ajuda a perceber que o governo não sabe o que acontecerá se abaixar a SELIC. O dinheiro pode ser usado tanto para consumo quanto para invertimanto na bolsa, por exemplo. A proporção não é previsível. Se for para o mercado, aumenta a inflação. Se for pra bolsa, abaixa o dólar. Algo desse tipo?

    Resumindo: se enfiaram num buraco e não sabem como sair. E ainda querem sair sem sujeira na roupa.
  • Leandro  01/09/2011 13:40
    Thiago, o Banco Central compra títulos públicos que estão em posse dos bancos. Ao fazer isso, o BC cria dinheiro eltrônico diretamente na conta que esses bancos têm no Banco Central. É assim que ele aumenta a base monetária; é daí que vem esse componente meramente eletrônico da base monetária.

    Por gentileza, leia este artigo, que explica detalhadamente esse processo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=344

    Abraço!
  • Thiago  01/09/2011 14:16
    Li o artigo.

    Obrigado por sua explicação.
  • Angelo T.  01/09/2011 14:06
    A quantidade de dinheiro físico, sem as reservas bancárias, é o M0.
  • KiKo  01/09/2011 13:19
    Possivelmente o BC brasileiro vai testar a capacidade de rolar divida abaixando os juros e monitorando a procura por títulos.
  • Rafael  01/09/2011 13:22
    Pelo menos eles ainda não estão imprimindo dinheiro (ou jogando digitos a mais nas contas eletrônicas) para diminuir os juros. MAS NÃO SE ENGANEM. Logo, logo, veremos isso, é a continuação lógica das políticas atuais do governo: "resolve" o problema dos juros e ainda a valorização do Real em relação ao Dólar, que tem sido uma preocupação constante do governo nos últimos tempos, e que tende a se acelerar nos próximos meses (pois os bancos americanos estão começando a emprestar suas reservas em excesso).
  • Felix  01/09/2011 13:39
    Se o governo abaixar os juros, e faltar dinheiro pra pagar dívida, terá que aumentar imposto e/ou imprimir moeda. Imprimindo moeda, sobe a inflação. Correto?
  • Leandro  01/09/2011 13:43
    É isso mesmo, Felix.
  • Rafael  01/09/2011 13:53
    Imprimir dinheiro é inflação. Infla-se a base monetária, não os preços. Após alguns meses inflando a BM, haverá aumento nos preços.
  • Marcos  03/09/2011 12:14
    Como posso saber se esta sendo "impresso" dinheiro? O governo ou Bacen divulgam?
  • Leandro  03/09/2011 19:52
    Marcos, para ver a quantidade física de dinheiro na economia (cédulas e moedas metálicas), veja aqui.

    Para ver a evolução do M1, veja aqui.

    Abraços!
  • Marcos  03/09/2011 20:54
    Leandro,

    Fiz uma consulta para o dia 23/08/2011, lá aparece 132.106 milhões.
    Na tabela os meios de pagamentos são da ordem de 253.174 milhões.
    Posso afirmar que temos 91% de "moeda" criada pelo banco através do Multiplicador bancário?

    Vlw,
    Marcos
  • Leandro  04/09/2011 02:53
    Não nesse caso, Marcos. Os valores que você olhou para os meios de pagamento incluem a variável "papel-moeda em poder do público". E essa variável faz parte da quantidade física total de dinheiro. Logo, você estaria fazendo dupla contagem.

    Para você saber quanto de meios fiduciários (moeda eletrônica sem lastro físico) foi criado, subtraia o M1 da Base Monetária.

    Há todo um artigo sobre isso: www.mises.org.br/Article.aspx?id=913

    Abraços!
  • Rafael Hotz  01/09/2011 20:40
    "Isso significa que no Brasil há enorme pressão ou potencial de que os poupadores (M3 e M4) queiram transformar sua poupança em "dinheiro" (M1), para gastar. Quem segura e impede a conversão é a taxa de juros de curto prazo (SELIC, que é muito próxima ao CDI)"

    Leandro, a "teoria Beltrão" não quer dizer simplesmente que a preferência temporal dos brasileiros é acima da média? É bem plausível, uma vez que nossos traços culturais são de fazer "tudo para a última hora"... Fora que os gastos de nosso governo em especial são absurdamente ineficientes (transferências diretas que viram consumo, investimentos superfaturados e infundados e corrupção).

    Você não acha que a falta de abertura de nossa economia ao exterior colabora para uma taxa mais alta, assim como o excesso de burocracia e regulações?

    Um país que enfrenta restrições governamentais para importar bens e "capital financeiro" se torna artificialmente mais pobre. Produção menor e mais ineficiente. Renda real menor. Bens presentes se tornam valorizados em relação aos bens futuros - taxas de juros mais altas.

    Realizar um investimento no Brasil acaba necessitando de mais funding para suportar os prazos dos trâmites burocráticos - ou seja, taxas mais altas para financiar um mesmo investimento.
  • Leandro  01/09/2011 21:49
    Concordo com suas colocações, Rafael, embora eu não esteja muito certo sobre se os juros exigidos para financiar a dívida do governo seriam menores caso apenas a economia fosse mais aberta e mais desregulamentada. Pode ser que sim.

    Mas sem abordar as finanças -- que em minha opinião é primordial para essa questão -- nada feito. Como você corretamente colocou, o governo é absurdamente ineficiente, esbanjão e voraz sobre a riqueza da sociedade. Um governo é um exterminados de capitais. Sem atacar esse buraco negro, é meio difícil a economia ficar produtiva, mesmo que haja grande abertura da economia.

    Grande abraço!

  • Robson Cota  01/09/2011 21:35
    Leandro

    Quando dizemos que a carga tributária no Brasil é 40% do PIB, considera-se o quê nessa "carga"? É a receita ou a despesa? Se for despesa, é incluído aí o refinanciamento da dívida?

    Isso porque, segundo esses dados, a receita total é apenas 25.03% do PIB, a despesa total é 28.41%. A conta só chega perto de 40% quando se adiciona às despesas o refinanciamento da dívida, que no total dá 38.57% do PIB. Mas acho que a "carga tributária" não deveria conter o refinanciamento, estou certo?
  • Leandro  01/09/2011 21:41
    Robson, a carga tributária de 40%, alardeada pela mídia, envolve os impostos estaduais e municipais. Ou seja, é a carga total que os cidadãos têm de pagar para as três esferas de governo.

    Se você pegar apenas a carga federal, ela será de 25% do PIB. E, justiça seja feita, alguns veículos da mídia sabem fazer essa distinção.

    Grande abraço!
  • Robson  01/09/2011 21:47
    Tava esquecendo que esse número era só o federal...
  • Jonatas F  01/09/2011 22:10
    Leandro,eu estou com 600 euros em minha casa, e queria saber a sua opiniao se eu devo trocar esses euros por real imediatamente, ou posso demorar mais algum pouco?
    Voce acha que a partir de agora, o euro só tende a desvalorizar e o real o sentido contrário? Obrigado
  • Leandro  01/09/2011 22:47
    Não faça nada apressadamente nem impetuosamente, caro Jonatas. O futuro do Euro é incerto e é até bem possível que ele venha a se valorizar caso, por exemplo, a Grécia ou outro país venha a dar um calote.

    Se isso ocorrer e o Banco Central Europeu nada fizer, o euro irá aumentar de valor. Isto é, o euro irá se valorizar.

    Explico.

    Se houver o calote, os vários bancos da Europa que investiram nos títulos da dívida destes países sofrerão enormes perdas. Pensando em termos contábeis, haverá uma perda de ativos desses bancos, o que significa que eles terão também de reduzir seus passivos. E reduzir passivos significa contrair o número de contas-correntes.

    Portanto, tal medida geraria uma deflação monetária na economia, pois, explicando novamente, após sofrerem essas perdas, os bancos têm de restringir novos empréstimos e requisitar a quitação antecipada de empréstimos pendentes, pois agora seu capital sofreu uma redução. Isso faz com que várias contas-correntes que foram criadas para esses empréstimos sem lastro sejam encerradas. E como o sistema bancário trabalha com reservas fracionárias, tal medida inevitavelmente iria gerar um processo deflacionário, pois se está requisitando a devolução de um dinheiro que foi criado do nada -- um dinheiro cuja criação expandiu a oferta monetária e cuja extinção contrai a oferta monetária.

    Portanto, haveria uma redução na oferta monetária de euros, e isso deixaria a moeda mais valorizada, e não menos.

    Porém, há também a outra hipótese, que é a o BCE simplesmente jogar fora as cláusulas de seu mandato e sair imprimindo dinheiro para socorrer os bancos, o que, aí sim, geraria uma grande desvalorização do euro. Os bancos, entretanto, poderiam ser salvos. Quem pagaria por isso seriam os cidadãos que utilizam o euro, que teriam de lidar com preços mais altos sem um concomitante aumento de suas rendas.

    E há também a terceira hipóteses: os países caloteiros voltam à suas moedas originais.

    Creio que a segunda hipótese seja a mais factível, mas não quero especular nada.

    Eu, no seu lugar, faria o seguinte: caso você não esteja planejando nenhuma viagem para Europa, procure alguém que esteja e pergunte se ela não tem interesse em comprar seus euros. Vocês podem fazer a transação na taxa de câmbio vigente do dia e isso será vantajoso para ambos. Pois, se você vender seus euros em uma casa de câmbio, vai receber bem menos que a taxa de câmbio vigente. E se essa pessoa comprar numa casa de câmbio, ela vai pagar bem mais que a taxa vigente. Logo, vocês dois lidando diretamente um com o outro seria bem mais vantajoso para ambos.

    Mas, de novo, não seja impulsivo nem estouvado. Nada garante que o Banco Central brasileiro não vá ser pior em termos de desvalorização da própria moeda do que o BC Europeu, de modo que você se estreparia caso vendesse todos os seus euros agora. Siga seus instintos.

    Grande abraço!
  • Jonatas F  02/09/2011 22:47
    Muito obrigado pela resposta, Leandro.

    Eu tambem acho a segunda hipotese mais possível, mas é claro, que como falaste, o BC brasileiro pode começar a imprimir dinheiro tambem.

    Mas a melhor ideia é fazer o câmbio com alguem que queira comprar meus euros.

    Obrigado
  • Augusto  03/09/2011 15:29
    mises.org.br/Donate.aspx\r
    \r
    ;-)
  • Fernando Z  01/09/2011 22:12
    Oi Leandro,

    Em um outro artigo seu você disse que somente alguns bancos tinham acesso a compra de títulos do governo. Mas ao mesmo tempo o público pode adquirir esses títulos. Como funciona na prática isso?
  • Leandro  01/09/2011 22:35
    Fernando, nesse artigo a que você se refere, eu disse o seguinte:

    "O Tesouro precisa emitir títulos - isto é, precisa se endividar - para conseguir financiamento. Quem compra esses títulos? Em sua maioria, bancos (também chamados de 'intermediários financeiros', no jargão politicamente correto). Entretanto, pessoas físicas como você também podem comprar esses títulos diretamente do Tesouro. Basta ir aqui"

    Portanto, basta você ir ao site do Tesouro Direto e comprar títulos. Mas, para fazer isso, você precisa utilizar uma corretora ou um banco habilitado. Ou seja: inevitavelmente os bancos sempre estão no meio. A diferença é que, no Tesouro Direto, os bancos servem apenas como custódia, ao passo que, quando são os próprios bancos a comprarem os títulos, eles são os maiores beneficiados pelo sistema, como expliquei aqui.

    Existem inúmeros sites na internet detalhando esse processo de compra via Tesouro Direto. Veja, por exemplo, este.

  • Carlos  01/09/2011 23:04
    "Nos países centrais a pirâmide invertida é "magra", ou seja, a relação entre M3/M4 e a base monetária é bastante menor que no Brasil."

    Leandro Roque, como isso é possível se os países centrais tem dívidas públicas maiores que a do Brasil? Não deveria ser o contrário, o Brasil ter uma razão entre M3/M4 e a base monetária menor?
  • Leandro  01/09/2011 23:37
    Carlos, esse fenômeno da engorda está mais relacionado à quantidade de gente que transaciona títulos públicos do que à quantidade de títulos propriamente emitida.

    Esses países centrais não passaram pelo mesmo processo hiperinflacionário por que passou o Brasil recentemente. Foi durante essa hiperinflação que as pessoas correram para aplicar maciçamente em títulos públicos (quem viveu a década de 1980 está bem familiarizado com a expressão "overnight" ou "aplicar no over") para proteger seu poder de compra. Foi esse fenômeno que gerou a engorda do M3 e do M4 em relação ao M1 -- ou seja, as pessoas saiam do M1 e iam pro M4, não com o intuito de financiar o déficit do governo, mas apenas para se proteger da hiperinflação.

    Ademais, a emissão de títulos, naquela época, não era a principal fonte de financiamento do déficit do governo. Inclusive, a dívida pública brasileira daquela época não era muito grande -- estava abaixo dos 20% do PIB. Isso porque o governo nem se preocupava muito em emitir títulos para financiar seu déficit. Ele simplesmente imprimia dinheiro para tal (naquela época, podia; hoje, não pode mais).

    Portanto, essa nossa engorda vem de longe e está muito mais ligada ao volume de compra dos títulos do que ao volume de criação de títulos.

    Já o fenômeno do descontrole da dívida pública dos países centrais é bastante recente. Ademais, vale lembrar que a nossa dívida total é de 2,3 trilhões de reais, quase 63% do PIB -- muito diferente do número propagandeado efusivamente pela mídia, que lida apenas com a dívida líquida, que está abaixo de 40% do PIB. Os investidores se preocupam é com a dívida bruta.

    Espero que isso responda à sua dúvida.

    Grande abraço!
  • Carlos  01/09/2011 23:23
    Pelo que entendi o texto fala que a Selic é alta no Brasil por causa da NFST (Necessidade de Financiamento do Setor Público Total), mas dos países que figuram no quadro a maioria apresenta NFST maior ou igual ao do Brasil, no entanto tem juros muito menores. Pq o Brasl que tem uma situação fiscal boa comparada com o resto do mundo tem os maiores juros reais de todos os países?
  • Leandro  01/09/2011 23:42
    Essa sua pergunta foi especificamente respondida nesse trecho:

    "Observe que todos os países que estão piores que o Brasil são justamente aqueles que estão enfrentando graves crises fiscais. Os investidores não mais estão dispostos a seguir rolando a dívida destes países ao atual nível de juros oferecidos, o que significa que os juros terão de ser elevados. O Brasil aparentemente não enfrenta essa dificuldade justamente pelo fato de os juros aqui já serem elevados.

    Portanto, enquanto a necessidade de financiamento do governo federal brasileiro continuar alta, simplesmente não haverá espaço para grandes reduções da taxa básica de juros."


    Logo, não é que o Brasil tenha uma situação fiscal boa comparada aos outros países. A questão é que os juros aqui são altos justamente para não causar o mesmo susto que os outros países estão causando nos investidores. Há uma grande diferença entre ter situação fiscal boa (como Alemanha e Austrália) e ter de usar juros altos para esconder uma situação fiscal ruim -- e com isso fazer parecer que ela não é tão ruim assim.
  • Gustavo B  02/09/2011 02:40
    Acho que sua explicação Leandro ficaria mais completa quando relacionada também com o sistema de metas de inflação adotado no Brasil, pois com a impressora na mão o governo consegue se financiar com qualquer taxa de juros (vide EUA, Japão etc...) mas não o faz porque os efeitos inflacionários seriam enormes.
  • Leandro  02/09/2011 03:20
    Não é verdade que o governo pode suprimir os juros para sempre utilizando a impressora. Se o governo cria dinheiro hoje, as taxas de juros de fato tendem a cair no curto prazo. Porém, no longo prazo, ao sentirem que a inflação de preços só tende a aumentar, os investidores embutem esse prêmio inflacionário nas taxas de juros demandadas. Como consequência, os juros subirão para um nível muito maior do que aquele em estavam antes dessa expansão monetária (a qual foi feita justamente para tentar suprimir os juros).

    Logo, expansão monetária tende a fazer os juros aumentarem no curto prazo, e não a diminuírem.

    Nos EUA, os juros estão baixos por dois motivos:

    1) o Fed criou muito dinheiro, mas o dinheiro ficou represado no sistema bancário, criando reservas em excesso (reservas em um nível muito acima daquele exigido como compulsório pelo Fed).

    E, como se sabe, a taxa básica de juros -- seja aqui no Brasil, seja lá nos EUA -- é formada pela taxa que os bancos cobram entre si no mercado interbancário; é a taxa que o banco A cobra para emprestar dinheiro ao banco B no final do dia, quando as reservas do banco B ficam abaixo daquele nível mínimo determinado pelo Banco Central (o chamado compulsório).

    Só que, exatamente por causa das reservas em excesso, os bancos americanos não têm a menor necessidade de recorrer ao mercado interbancário para recompor suas reservas, simplesmente porque o sistema bancário americano está nesse momento com US$1,3 trilhão de reservas em excesso, em decorrência justamente das impressões monetárias feitas pelo Fed.

    E dado que a taxa básica de juros é o juro que um banco cobra do outro no interbancário, resta claro que não tem como essa taxa ser alterada pelo Fed no presente momento, simplesmente porque os bancos não estão com a menor necessidade de buscar empréstimos no interbancário.

    Sendo assim, o Fed pode declarar a meta de juros que quiser, pois isso não terá efeito prático nenhum sobre o mercado. Se os bancos não estão precisando de empréstimos entre si, a taxa em vigor no mercado interbancário é completamente inócua.

    O que pode acontecer é o Tesouro anunciar que está emitindo títulos a juros altos, mas ele obviamente não teria por que fazer isso. Afinal, por que pagar juros mais caros se no momento todos estão perfeitamente felizes em financiar o déficit a juros quase zero?

    2) E é aí que entre o segundo fator: os investidores, por ainda considerarem os títulos americanos um porto seguro, continuam comprando em grande volume esses títulos. Quanto maior a procura, maior o preço, menores os juros.

    Esses dois fatores explicam a baixa taxa de juros americana.


    Sobre o Japão, os juros lá são baixos justamente por causa da baixa expansão monetária praticada pelo seu Banco Central desde a década de 1990.

    Dois artigos sobre isso:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=735

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=894

    Grande abraço!
  • Ademar Lara  02/09/2011 12:56
    Você não acha que outro motivo para que os juros sejam tão elevados seja conter a inflação? Uma vez que este nível elevado de juros tira liquidez do mercado e faz com que seja mais interessante investir em títulos públicos do que em ativos reais. E também pela via do câmbio, pois com a captação de dólares pela venda de títulos o real se valoriza e os preços de produtos importados cai.
  • Leandro  02/09/2011 18:13
    Essa é uma confusão bastante comum, Ademar: achar que juros altos indicam política monetária restritiva e juros baixos, política monetária expansionista.

    Tal raciocínio teria muitas dificuldades para explicar por que países como Austrália, Suíça, Nova Zelândia, Japão, Canadá etc. sempre tiveram juros baixos e baixa inflação de preços ao passo que países como Brasil e qualquer outro da América Latina sempre tiveram juros altos e alta inflação de preços.

    A questão é que a relação é justamente essa: alta taxa de juros, em vez de ser um antídoto para a inflação de preços, é na verdade uma mera consequência da inflação de preços. Uma subida repentina da taxa de juros de fato pode ter o efeito de reduzir a expansão monetária; porém, uma taxa de juros continuamente alta, longe de ser uma medida de restrição monetária, é na verdade uma consequência da inflação de preços.

    Vou dar um exemplo simples, mas que vai a ajudar a entender o motivo dessa relação.

    Por exemplo, pela teoria, se a oferta monetária de um país fosse congelada, essa repentina "escassez" de moeda geraria um súbito e aguda aumento de juros no mercado interbancário no curto prazo -- afinal, se a impressão de dinheiro cessou, a quantidade a ser emprestada entre os bancos parou de aumentar, e essa súbita paralisia pode gerar um aumento temporário de juros.

    Entretanto, uma vez entendida que a quantidade de dinheiro não vai mais aumentar, os agentes econômicos (desculpe o jargão economicista) perceberão que de nada adiantará cobrar juros nominais altos: afinal, como eles seriam pagos? Em um cenário de quantidade de moeda fixa, se você emprestar 100 reais e cobrar, por exemplo, 20% de juros, não haverá como receber 120 reais, pois não está havendo aumento na oferta monetária. Assim, se você não cobrar juros (muito) menores, simplesmente não fará empréstimo algum. Esse raciocínio, aliás, não é exclusividade austríaca. Milton Friedman -- monetarista convicto que no final da vida passou a defender a extinção do banco central -- também concluiu que era isso que ocorreria.

    Esse cenário descrito acima ocorre, por exemplo, na Suíça, país de banco central tradicionalmente conservador (no sentido de incorrer em baixíssimas expansões monetárias), de juros (no caso, refiro-me à SELIC deles) também baixos e de inflação de preço das menores do mundo.

    Já o cenário inverso ocorre no Brasil. Se o Banco Central pratica expansões monetárias mais vultosas (no Brasil, a média de crescimento do M1 varia de 15 a 20% ao ano) e a economia é fechada (o que significa que as pressões inflacionárias não podem ser abrandadas pelas importações), então grande parte dessa expansão irá se traduzir em grande aumento de preços. Sendo assim, os bancos embutem essas expectativas inflacionárias no valor dos juros que eles cobram. Ou seja: a maior expansão monetária gerou, ao contrário do imaginado, um aumento nos juros (tanto na SELIC quanto nos juros cobrados das pessoas físicas e jurídicas).

    Logo, a relação de longo prazo entre juros e expansão monetária é inversa daquela que muitas pessoas imaginam: juros altos são conseqüência de uma grande expansão monetária, ao passo que juros baixos são consequência de uma baixa expansão monetária.

    Assim, uma das maneiras de reduzir a SELIC no Brasil, no longo prazo, seria reduzir ao máximo a expansão monetária. Se o BC fizesse isso hoje, a SELIC daria um tiro. Porém, à medida que o tempo fosse passando e os preços fossem se mostrando rigidamente estáveis, a SELIC cairia, chegando a um nível muito menor que o atual.

    Grande abraço!
  • Guilherme  04/09/2011 00:45
    Leandro,
    mas nesse caso, o BC parar hoje de emitir moeda, como o governo iria financiar sua divida, uma vez que gasta mais do que arrecada?
    Para o BC parar de emitir moeda hoje não seria necessário que o governo também parasse de emitir títulos da sua dívida?

    Obrigado por sua atenção e parabéns a vocês por este excelente site!

    Abraços,
    Guiherme
  • Leandro  04/09/2011 05:04
    Exatamente, Guilherme. Por isso a principal função do BC é justamente financiar a dívida do governo. Não existisse um BC, o governo não poderia incorrer continuamente em déficits.

    Há um artigo completo sobre isso: www.mises.org.br/Article.aspx?id=961

    Abraços!
  • Alexandre M. R. Filho  02/09/2011 13:32
    Quando é que esse artigo vai entrar no currículo dos alunos do ensino fundamental e médio??\r
  • Thyago  02/09/2011 22:10
    bom artigo.
  • André  03/09/2011 02:05
    Olá, desculpem a minha ignorância... Acho até engraçado, pois não tenho o menor idéia do que seria essa taxa de juros em termos prático. Se eu tivesse uma aplicação que rendesse 2% líquido ao mês já estava muito satisfeito!\r
    \r
    Então, gostaria que alguém explicasse em termos práticos o que é essa taxa de juros 12,5% /12% que tanto falam!!! É mensal??? É um juros de algo concreto??? Algo que eu possa comprar do governo??? Ganharia 12% líquido???\r
    \r
    ONDE EU INVISTO COM ESTA TAXA DE JUROS??? \r
    \r
    \r
    OBS.: O investimento que costumo fazer é no tesouro direto, onde recentemente obtive em curo prazo, 0,72% líquido ao mês em um investimento pré-fixado e 0,89% líquido ao mês em um pós-fixado.
  • Luiz Gustavo Vianna Almas  03/09/2011 06:00
    Muito bom artigo Leandro. Parabens. Como escrevo as vezes comentando artigos que saem na midia, estamos caminhando a passos largos de volta aos anos 80. Espero que o povo brasileiro se de conta disto, porque ja sabemos muito bem como termina esta novela.
  • void  03/09/2011 10:52
    Uma dúvida de principiante: o que significa um país com juro real negativo? Significa, a grosso modo, por exemplo, eu emprestar agora uma quantia de dinheiro e esperar receber no futuro, como pagamento, menos do que emprestei?
  • Leandro  03/09/2011 19:49
    Void, um país com uma taxa de juros real negativa é um país cuja taxa básica de juros é menor do que a taxa de inflação de preços. Por exemplo, os EUA atualmente. A taxa básica deles é de 0,25%, mas a inflação de preços já chega 3%, de acordo com estatísticas do governo. Fontes privadas garantem que a inflação já está acima de 10%.

    A taxa é negativa porque o dinheiro que é emprestado ao governo hoje é devolvido daqui a um ano com um poder de compra menor do que o valor original a que foi emprestado.

    Por exemplo, quem empresta US$ 100 para o governo, vai receber daqui a um ano US$ 100,25, sendo que, nesse período, a inflação de preços fez com que um bem que custava US$ 100 passou a custar US$ 103 -- ou US$ 110, dependendo de suas fontes.

    O mesmo é válido para quem tem depósitos bancários que rendem próximo à taxa básica de juros.

    Ou seja, a poupança da população é dizimada. Do jeito que keynesiano gosta.

    Abraços!
  • void  03/09/2011 20:55
    Bem simples, entendi! Obrigado pela resposta, Leandro.

    Então, é de se esperar que países com essas taxas passem por problemas pra financiar suas dívidas já que, sendo assim, imagino eu, haveria uma contração no crédito para tal fim?

    E no geral, ocorreria uma redução no crédito disponível em mercado, e um aumento com o "consumo" que os keynesianos adoram, não? Digo, haveria "queima de capital" e uma crise de crédito nesse processo todo?

    Tô indo pelo lado certo, ou fiz uma enorme confusão e falei um monte de bobagens? Sou realmente iniciante nisso.

    Se for tudo assim, mesmo, então parece ser bem elementar. E se for elementar assim, então eu não entendo o motivo de tantos economistas acreditarem e quererem manter o juro baixo na base da "canetada", isso é muito retardado.
  • Leandro  04/09/2011 03:03
    Não sei se entendi bem o que você quis dizer, Void, mas se a intenção de um governo é estimular o crédito, tudo o que ele tem de fazer é parar de incorrer em déficits. Se o governo cortasse gastos e equilibrasse seu orçamento, parando de incorrer em déficits, a poupança dos cidadãos deixaria de ser utilizada para financiar o governo, passando a ser liberada para investimentos realmente produtivos, o que daria um grande impulso à economia. Isso, em conjunto com uma baixa expansão monetária, elevaria enormemente o padrão de vida dos cidadãos.

    Sob um padrão-ouro, por exemplo, em que a oferta monetária é rígida e fora do controle do governo, o governo só pode se financiar via impostas e empréstimos. Porém, cada déficit inevitavelmente geraria um grande aumento dos juros, pois o governo estaria retirando ouro do mercado de crédito para financiar sua própria gastança. E caso o governo não se adequasse ao seu orçamento, ele rapidamente se tornaria insolvente, pois não poderia ficar pegando ouro emprestado ad eternum da população. No atual arranjo, há um banco central pronto para imprimir dinheiro e resolver esse problema dos juros.

    É por isso que todos os governos tremem só de ouvir falar em padrão-ouro. Trata-se de um arranjo monetário que retira completamente toda a sua capacidade de expansão.

    Para entender a relação entre juros baratos e Banco Central, recomendo este artigo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1015

    Abraços!
  • Andre Poffo  03/09/2011 22:12
    Esses alternate charts são realmente incríveis.. :O
  • Guilherme  03/09/2011 12:48
    Um complemento do que está sendo discutido aqui pode ser encontrado no bom texto do Gustavo Franco:
    www.riobravo.com.br/gustavofranco/Juros-CLP_Casa_do_Saber-GFranco_final.pdf
  • Daniel V.  05/09/2011 01:54
    Leandro,\r
    Acredito que boa parte da resposta para o nível da SELIC se concentram em mais outros dois pontos:\r
    \r
    a) +- 60% do crédito no Brasil vem de recursos livres e 40% de direcionados. Arredondando brutalmente, para todo empréstimo direcionado = TJLP e todo recurso livre indexado à SELIC = 12%, temos uma média ponderada de +-9,5%. Com a inflação rodando á 7%, temos um juro real de 2,5%, não tao distante de outros países.\r
    \r
    B) Cross-border transactions, que é o risco do investidor estrangeiro não conseguir remeter seu dinheiro para fora do país ou p.ex. perder uma disputa judicial. Se não me engano o spread coberto (ou seja, protegido da variação cambial) dos títulos domésticos e dos globals do Brasil é um dos maiores do mundo.
  • Leandro  05/09/2011 02:41
    Bons pontos, Daniel, embora acho que tal raciocínio seja mais aplicável para explicar as taxas de juros bancárias.

    Há algum tempo venho pensando em escrever um artigo -- o qual venho adiando -- mostrando que, ao contrário do que muitos pensam, a taxa de juros efetiva do Brasil não é alta. Explico melhor.

    Em setembro de 2009, por exemplo, a SELIC estava em 8,75%. Isso significa que, ao emitir um título de R$ 1.000 naquele mês, o Tesouro teve de pagar, em setembro de 2010, R$ 1.087,50. Entretanto, durante esse mesmo período, a oferta monetária da economia (e aqui estou pegando apenas os depósitos em conta-corrente) aumentou 19%. Isso significa que a quantidade de dinheiro disponível para o governo pagar essa dívida aumentou a uma taxa muito maior do que a taxa de juros a ser paga.

    Uma coisa é você pegar R$ 1.000 reais emprestados e ter de pagar R$ 1.087,50 daqui a um ano em um cenário de oferta monetária rígida. Outra coisa, bem mais tranquila, é você ter de pagar esses mesmos R$ 1.087,50 em uma economia cuja quantidade de dinheiro aumentou a uma taxa mais de duas vezes maior que sua dívida.

    Da mesma maneira, uma empresa que tenha pegado empréstimo em setembro de 2009, teve de pagar, dali a um ano, juros de 26%. Dado que a oferta monetária cresceu 19% nesse mesmo período, então os "juros efetivos" foram muito menores do que esses 26% (grosso modo, foram de 7%).

    Não colhi dados de outros países, mas não creio que os juros efetivos da Austrália, da Nova Zelândia, da Suíça, do Chile etc. sejam muito menores do que isso. Aliás, esses juros efetivos do Brasil explicam por que, ao contrário do que muitos pensam, é perfeitamente possível haver formação de bolhas no Brasil -- como a bolha imobiliária atual.

    O pessoal acha que é impossível haver bolhas em países onde a taxa de juros é alta. Apenas esquecem-se eles que o que dá aditivo para a contínua formação de bolhas é a injeção monetária, e o não o nível nominal dos juros. Mudanças nos juros servem para dar início ao ciclo econômico (como no Brasil, onde a SELIC caiu de 13,75% para 8,75% de setembro de 2008 a abril de 2010), porém, uma vez iniciado o ciclo, o que comanda o show a partir daí são as injeções monetárias, pois são elas que distorcem os preços relativos e os lucros nominais (quanto maior a injeção de dinheiro, maiores os lucros nominais), tornando o investimento em certos setores bem mais atrativo do que em outros setores.

    Portanto, sim, um dos fatores que explicam os juros altos no Brasil -- e aqui falo mais especificamente dos juros bancários -- é justamente a alta expansão monetária anual da economia. Desde 1994 até hoje, em todos os anos tivemos expansões monetárias maiores do que 15% -- o que significa que nenhum banco pode ser louco de cobrar taxas de juros menores do que um mínimo seguro de, por exemplo, 20%.

    Abraços!
  • EUDES  15/09/2011 20:39
    Leandro,\r
    \r
    Nosso IPC é menos confiável que o CPI americano ?\r
    \r
    Qual o melhor índice para calcular a inflação no Brasil ?\r
    \r
    Taxa de juros real é o mesmo que taxa de juros efetiva ? Parece que você faz diferença.\r
    \r
    Você dá um exemplo interessante. Se uma empresa pegou dinheiro emprestado em setembro de 2009, depois de 1 ano ela pagou 26% de juros, ou seja, se pegou R$ 100, ela pagou R$ 126, caso tenha quitado a dívida. Mas, como a inflação monetária foi de 19%, a dita empresa pagou cerca de 7 % de juros efetivos, o que é uma taxa de juros relativamente baixa.\r
    \r
    Porém, se levarmos em conta uma inflação de preços de 7%, a taxa de juros reais foi de 17,75 %, e isso não é pouco. O que você me diz ?\r
    \r
    Além disso, a diferença entre a taxa básica de juros e a taxa de juros de certos empréstimos é simplesmente astronômica. Mas alguém poderia dizer que isso acontece por causa dos riscos envolvidos. Mas, quando o risco é muito alto, é mais prudência não emprestar do que emprestar a juros altos. Os juros são muito elevados até mesmo para empréstimos quase sem riscos. Creio eu, que o que acontece hoje no Brasil é um conluio entre o cartel dos banqueiros e os poderosos que governam o país. Isso vem acontecendo desde o início do plano real, plano esse totalmente eleitoreiro, pois os políticos não fizeram as reformas necessárias para a implantação de uma moeda forte. Na verdade, atualmente, o Brasil é refém do cartel dos banqueiros e dos políticos incompetentes e corruptos.\r
  • Leandro  15/09/2011 21:07
    Eudes,

    1) O CPI é ok, o problema está é no fato de o Fed se preocupar apenas com núcleo do CPI, que desconsidera alimentos e combustível. O CPI acumulado em 12 meses nos EUA está em 4%, ao passo que o núcleo está em 2%. Diferença de 100% do núcleo para o índice cheio.

    2) Em minha opinião, o índice melhorzinho seria o deflator de preços utilizado para calcular o PIB. Mas os índices da FGV também costumam ser bons.

    3) Taxa de juros real é quando se compara a taxa básica de juros (no Brasil, a SELIC) com a inflação de preços medida pelo IPCA. Pra mim, isso não tem importância nenhuma. Já a taxa efetiva é um conceito que eu mesmo inventei ali na hora.

    4) A sua taxa real de 17,75% é alta em relação a qual taxa, especificamente? Lembre-se que sempre que você ouve a imprensa comparando os juros reais do Brasil com os juros de outros países, a taxa de juros utilizada nessa comparação é a taxa básica de juros (a SELIC de cada país). Nunca vi a imprensa fazendo cálculo de taxa real para juros bancários.

    Ademais, comparar os juros nominais que uma empresa tem de pagar com a taxa de inflação do pão, da cerveja e do cigarro, para mim, é algo que não tem sentido nenhum. Para uma empresa, mais vale a facilidade de pagamento destes juros -- isto é, o quanto aumentou a quantidade de dinheiro na economia. E não o quanto aumento o preço da farofa.

    5) Os juros bancários são elevados justamente pelo que foi explicado no artigo. O governo gasta mais do que arrecada e aí tem de sair pedindo empréstimos. Bancos preferem emprestar mais para o governo do que para um empreendedor, pois com o governo o risco é (praticamente) nulo. Assim, grande parte dos recursos vai para o governo, e sobre pouco para os empreendedores. Logo, juros mais altos.

    Qualquer um que fale a sério em reduzir juros tem necessariamente de falar sobre corte de gastos do governo e sobre superávit nominal.

    No mais, concordo plenamente que falta concorrência. Mas é aí que entra uma das duas funções do banco central: cartelizar o setor bancário e impedir a concorrência, justamente para favorecer os bancos. Há um artigo inteiro sobre isso.

    Abraços!
  • EUDES  15/09/2011 22:09
    Leandro,\r
    \r
    Quis dizer que taxa de juro real de 17,75 % ao ano é alta, tendo-se por base a inflação de preços. Ou seja, em um cenário assim: uma empresa pega emprestado R$ 100 e após 1 ano paga R$ 126, mas nesse mesmo período, a inflação de preços foi de 7 %.\r
    \r
    Para quem pega emprestado, a inflação de preços pode não ser muito importante, mas para quem empresta é. \r
    \r
    Já li muitos artigos seus, inclusive o que você indica.\r
    \r
    Abraços!
  • Leandro  15/09/2011 22:23
    Eu entendi, Eudes. Sei que era exatamente a isso que você se referia. Mas veja só: você está dizendo agora que a inflação de preços importa mais para quem empresta do que para quem toma emprestado.

    Ora, mas a sua crítica era justamente oposta: que a taxa de juros real afetava o tomador de empréstimo.

    No mais, mantenho minha posição: comparar taxas de juros com a taxa de inflação de preços de bens de consumo não traz nenhuma informação decisiva. Muito mais importante é analisar a variação da oferta monetária neste período.

    Grande abraço!
  • EUDES  16/09/2011 11:50
    Obrigado pela paciência.Você passou para mim informações importantes.\r
    \r
    Abraço!
  • Daniel V.  05/09/2011 11:04
    Uma defesa não-austriaca de como expansão de M0 ou M1 é equivalente á inflação esperada caso a neutralidade da moeda seja valida.\r
    \r
    LUCAS, R. (1980). Two Illustrations of the Quantitative Theory of Money. The American Economic Review, 70, pp. 1005-1014.\r
    \r
    Concordo que a razão dos juros serem altos é gigantesca expansão monetária. Mas na ausencia do crescimento da carteira do BNDES ou num ambiente institucional decente, aonde os investidores possam transformar imediatamente seus R$ em USD ou não sejam impedidos de hedgear suas posições (ngm sabe ainda como será feita a computação das posições liquidas na BM&F e CETIP e etc..), certamente M0 e/ou M1 não estaria crescendo tão depressa.\r
    \r
    Parece que essa visão está ganhando um pouco de força, aparecendo com alguma frequencia :\r
    \r
    www.valor.com.br/brasil/997730/corte-do-juro-nao-garante-ambiente-para-reduzir-divida-atrelada-selic (goncalvez, fea/usp)\r
    \r
    Um exercicio interessante é comparar em um gráfico a taxa de crescimento de M1 e a inclinação da taxa de juros.\r
    \r
  • Gustavo  15/09/2011 11:52
    Pois é.
    Dívida de governo não se paga. Se rola.
  • Marco Aurelio Agarie  15/09/2011 18:58
    Caro Leandro\r
    \r
    Como sempre, seus artigos, precisos e didáticos, estão também ao alcance de pessoas leigas nos assuntos econômicos mas sempre despertando vivo interesse nelas, que é o meu caso.\r
    \r
    Pelo que pude observar na sua conclusão, o corolário dela parece ser que a taxa SELIC alimenta um círculo vicioso, um loop interminável: a alta taxa de juros SELIC eleva o endividamento do governo que, por sua vez, lança mão de tributação pesada para cobrir seus gastos e mantem elevado a taxa de juros para atrair investidores dos papéis emitidos pelo tesouro para cumprir o orçamento e mantendo elevada a taxa de juros ela realimenta o endividamento do governo e assim por diante. \r
    \r
    Não sei se meu raciocínio acima está correto mas sem corte expressivo de gastos, a situação do país será a de permanecer neste círculo por muito tempo e com possibilidades preocupantes de agravamento e crise num futuro não muito distante.\r
    \r
    Um forte abraço e muito obrigado pela excelente aula.\r
    Marco Aurélio Agarie
  • Leandro  15/09/2011 19:28
    É exatamente isso, meu caro Marco Aurélio. Seu raciocínio foi perfeito.

    Há também uma maneira de a SELIC diminuir sem haver corte de gastos: a situação internacional ficar feia a tal ponto que os investidores estrangeiros, por pura falta de opção, passariam a direcionar todo o seu dinheiro para cá, contentando-se em exigir juros menores. Mas, para isso, os EUA e boa parte da Europa teriam de estar totalmente na lona.

    Obrigado pelos elogios e grande abraço!
  • Norival Ferreira das Flores  24/10/2011 23:01
    "O agente econômico mais deficitário de recursos no Brasil é o governo... razão pela qual pode ser explicada grande parte dos altos juros cobrados pelos outros agentes econômicos para se efetuarem o financiamento e a rolagem da dívida."\r
    \r
    Diante do acima exposto, como se explica então o comportamento dos juros nos EUA que tem uma das maiores dívidas públicas do mundo? O monstro do rebaixamento do seu "credit rating" de AAA vem se aproximando cada vez mais... Não temos (EUA e Brasil) problemas similares do funcionalismo, da previdência e de toda a máquina pública? O texto acima sugere que os juros no Brasil são altos devido à situação deficitária do governo, o que sugere que os juros nos EUA deveriam também ser muito mais altos ou não?\r
    \r
  • Leandro  24/10/2011 23:21
    Norival, existem duas diferenças básicas:

    1) Os EUA têm o "privilégio" de ser os detentores da moeda internacional de troca. Logo, todos os países que possuem dólares em suas reservas (inclusive o Brasil) aplicam esses dólares em títulos que tragam retorno. Na esmagadora maioria dos casos, os dólares são aplicados justamente em títulos do Tesouro americano. Ou seja, tem-se uma situação em que todos os países do mundo correm para comprar títulos do Tesouro. Quanto maior a procura, maior os preços dos títulos, menores os juros.

    Isso já garante que os juros dos EUA possam ser baixos não obstante os altos déficits do governo. Já o Brasil não desfruta deste privilégio de ter o mundo todo ávido para financiar nossos déficits.

    2) Ademais, há um fator estrutural um tanto inédito ocorrendo agora nos EUA. O Fed criou muito dinheiro, mas o dinheiro ficou represado no sistema bancário, criando reservas em excesso (reservas em um nível muito acima daquele exigido como compulsório pelo Fed).

    E, como se sabe, a taxa básica de juros -- seja aqui no Brasil, seja lá nos EUA -- é formada pela taxa que os bancos cobram entre si no mercado interbancário; é a taxa que o banco A cobra para emprestar dinheiro ao banco B no final do dia, quando as reservas do banco B ficam abaixo daquele nível mínimo determinado pelo Banco Central (o chamado compulsório).

    Só que, exatamente por causa das reservas em excesso, os bancos americanos não têm a menor necessidade de recorrer ao mercado interbancário para recompor suas reservas, simplesmente porque o sistema bancário americano está nesse momento com US$1,3 trilhão de reservas em excesso, em decorrência justamente das impressões monetárias feitas pelo Fed.

    E dado que a taxa básica de juros é o juro que um banco cobra do outro no interbancário, resta claro que não tem como essa taxa ser alterada pelo Fed no presente momento, simplesmente porque os bancos não estão com a menor necessidade de buscar empréstimos no interbancário.

    Sendo assim, o Fed pode declarar a meta de juros que quiser, pois isso não terá efeito prático nenhum sobre o mercado. Se os bancos não estão precisando de empréstimos entre si, a taxa em vigor no mercado interbancário é completamente inócua.

    Esses dois fatores explicam a anomalia das baixas taxas de juros nos EUA.

    Abraços!
  • Rhyan  25/10/2011 01:32
    Leandro, não entendo bem esse macanismo inverso dos juros. Por que a demanda aumenta se o preço for alto e os juros não compensarão?
  • Leandro  25/10/2011 09:59
    Rhyan, a sequência correta é a seguinte: um aumento na demanda por títulos faz com que os preços destes papeis subam. Quando os preços dos títulos sobem, seus juros caem. Essa relação entre preços dos títulos e juros foi explicada em maiores detalhes neste artigo, na seção "Amarrando os pontos".

    Logo, não é bem correto dizer que a demanda aumentará se o preço dos títulos for alto (pois aí os juros seriam baixos). A demanda aumentará se o preço for baixo (porque aí, sim, os juros serão altos).

    No caso dos EUA, no entanto, os investidores ainda seguem comprando títulos do Tesouro a juros insignificantes unicamente porque ainda consideram -- por questões históricas -- tais investimentos um porto seguro em épocas de incerteza, como essa em que vivemos. Porém, tal ilusão um dia acabará sendo desfeita. Ou realmente o mundo enlouqueceu.
  • Rhyan  25/10/2011 20:12
    Entendi, Leandro!

    Obrigado! Abraço!
  • Erick SKrabe  26/10/2011 00:08
    Oi Leandro,

    Isso me lembra a frase: "ninguém jamais foi demitido por comprar IBM !" - é um termo que os vendedores da IBM usavam: "se vc comprar outra amrca e der problema vc vai ser responsabilizado pela economia porca. Se vc comprar IBM e der problema vai sempre poder dizer: era o melhor que tinha !"

    Acho que isso se aplica aos bancos e instituições com relação aos titulos: os caras mais preocupados em tirar o seu da reta do que necessariamente fazer o melhor investimento, nao ?

    (mais um ótimo artigo)
  • Norival Ferreira das Flores  25/10/2011 20:51
    Leandro, muito obrigado pela sua contribuição. Você é um nec plus ultra!!!
  • Leandro  25/10/2011 22:09
    Incomensurável exagero, meu caro Norival. Muito obrigado e grande abraço!
  • Andersonnn  26/10/2011 10:30
    Nossaaaaaaaaaa,todos os numeros dos U.S.A são assombrosos quando sabe-se compreender a politica econômica do sistema se percebe a relevância dos U.S.A no contexto mundial.

    RESUMINDO:"os cara é foda"

    as vezes me pego pensando,os U.S.A são como o império romano,mais roma caiu.se esse dia chegar e os U.S.A também cair,como sera?

    LEMBREM-SE QUE APÓS A QUEDA ROMANA ENTRAMOS NO ESCURO PERÍODO MEDIEVAL.

    não acredito muito em uma substituição radical de sistema(capitalista),talvez alteções,adaptações e etc...
  • Absolut  26/10/2011 13:41
    LEMBREM-SE QUE APÓS A QUEDA ROMANA ENTRAMOS NO ESCURO PERÍODO MEDIEVAL

    Talvez os tomistas eram mulatos, né?
  • Alessandre Argolo  21/03/2012 08:15
    Discordo do artigo, principalmente pelo fato de que ele chama de "receita total" o que na verdade são "receitas primárias", expressamente assim identificadas nas planilhas EXCEL que são acessadas pelo link intitulado incorretamente de "receita total". Não, receitas primárias não podem ser consideradas "receita total". Este é o erro. Para calcular o déficit nominal é errado subtrair do montante das receitas primárias o montante da depesa total. Desepesa total deve ser subtraída da receita total, a qual não se confunde com o montante das "receitas primárias", que apenas leva em consideração a arrecadação tributária, basicamente. Várias receitas ficaram de fora, a exemplo dos haveres financeiros, mobiliários e as operações oficiais de crédito rural, agroindustrial e exportações, o que torna a exposição do artigo, na essência, errada. A União não se vale em sua arrecadação apenas dos tributos. Existem as chamadas receitas originárias, também, além de que os tributos não esgotam o rol das receitas derivadas. Parece-me errado em demasia considerar, no cálculo do déficit nominal, as operações financeiras em que a União figura como devedora, mas esquecer aquelas onde al figura como credora. Todo o artigo é desmontado a partir da percepção deste erro inequívoco.
  • Leandro  21/03/2012 09:38
    Prezado Alessandre, se você olhasse com mais cuidado as tabelas, veria que não há esse erro que você afirma ter descoberto. A receita total do Tesouro é tudo aquilo que ele arrecadou; na planilha linkada, não há essa distinção entre primária e total. Ocorre que não são todas as rubricas que estão discriminadas explicitamente na tabela. Mas, já que pediu, você pode constatar este mesmo valor para a receita total nesta outra planilha, que discrimina as fontes de renda, citando inclusive todas estas fontes que você alega terem sido ignoradas (apenas certifique-se de clicar no ano de 2010). O valor é o mesmo (só não é idêntico porque houve atualizações nos números, uma vez que este artigo foi publicado no final de agosto, ou seja, há quase sete meses).

    Para o artigo, utilizei apenas uma planilha, a qual compilava todos os números. Não discriminei todas as fontes de renda pelo óbvio motivo de que isso tornaria o artigo enfadonho. E também por respeitar a inteligência do leitor. Mas vejo que, a de alguns, acabei superestimando.

    Abraços e mais atenção antes de sair fazendo julgamentos, por favor.
  • mcmoraes  21/03/2012 09:54
    @Alessandre Argolo: "...Todo o artigo é desmontado a partir da percepção deste erro inequívoco."

    Essa forte afirmação me fez lembrar de uma bela tentativa furada. :)
  • Alessandre Argolo  21/03/2012 10:49
    De fato, existem os dados das receitas líquidas corrente de 2010 no segundo link, acabei de consultar. Mas os dados contábeis no segundo link são diferentes e mais amplos do que os existentes na primeira tabela usada no cálculo do déficit nominal feito no artigo. Na tabela intitulada "receitas primárias", a que foi usada no artigo, não existem os dados sobre as receitas industriais, patrimoniais, de serviços e etc, como estas estão declinadas no segundo link, tabela intitulada "receitas correntes líquidas". Comparando as rubricas existentes em cada um dos links, logo notamos as diferenças. Na tabela "receitas primárias", usada no artigo para calcular o déficit nominal, só existem os dados dos impostos, das contribuições e dados classificados como "demais", além de dados oriundos do Banco Central e da previdência social. Já no segundo link, temos rubricas mais amplas, tais como Receita Tributária, Receita de Contribuições, Receita Patrimonial, Receita Agropecuária, Receita Industrial, Receita de Serviços, Transferências Correntes, Receitas Correntes a Classificar e outras Receitas Correntes. Tratam-se notoriamente de dados contábeis diferentes.
  • Leandro  21/03/2012 11:07
    Que geraram os mesmos resultados, obviamente -- exceto pelas atualizações a que me referi acima. Aliás, esta segunda tabela, que inclui todos os itens que você exigiu, aponta receitas ligeiramente menores, o que implicaria um déficit nominal ainda maior do que o apontado no artigo.

    Como eu disse, sempre pesquise antes de sair fazendo ataques.
  • Leandro  21/03/2012 11:28
    Alessandre, só para lhe esclarecer melhor, a rubrica "I.1.1.3. Demais", presente na tabela indicada pelo texto, contabiliza todos estes itens que você disse estarem ausentes. Pode fazer os cálculos e comparar com a segunda tabela. É por isso que os resultados são os mesmos.

    Como eu disse, seja mais atento e menos afobado.

    Abraços!
  • Alessandre Argolo  21/03/2012 15:51
    Você citou uma tabela que traz apenas as assim chamadas receitas correntes, que são diferentes das chamadas receitas de capital. Ora, é claro que receitas correntes não resumem a receita total, pois existem outras receitas, além de existirem as chamadas receitas extraorçamentárias. Explicando melhor, receita orçamentárias se dividem em receitas correntes e receitas de capital. Mas também existem as receitas extraorlamentárias, que são aquelas que estão fora do orçamento, mas que existem e devem ser contavilizadas na hora de calcular a receita total, soma de todas as receitas arrecadas pela União.

    Eis aqui um pdf. para as receitas totais: corrente e de capital.

    www.tesouro.fazenda.gov.br/contabilidade_governamental/downloads/Balanco_Setor_publico_Nacional.pdf
  • Leandro  21/03/2012 15:53
    Prezado Alessandre, agora que você mudou de ideia e de foco, e passou a falar sobre "receitas de capital", permita-me lhe ensinar algo: você parece não entender o que significa "receitas de capital".

    Essas "receitas de capital" de que você tanto fala -- e cujo .pdf comprovam ser do BNDES -- não podem ser consideradas receitas do Tesouro, e por um motivo muito simples: elas são ativos (empréstimos do BNDES) e não receitas per se. É só olhar o estrondoso valor delas mais de R$ 517 bilhões (pagina 61). Fosse isto realmente receita, o Brasil poderia abolir todos os seus impostos.

    Você está dizendo que eu desconsiderei estas "receitas de capital" R$ 517 bilhões de reais como receita do governo. Ora, mas é claro que sim. Aliás, eu não. O próprio Tesouro desconsidera. E é óbvio, pois não são receitas, mas sim ativos. São empréstimos realizados pelo BNDES, os quais o governo classifica como ativos sem que tenha recebido um só centavo destes empréstimos.

    Funciona assim: eu empresto R$100.000 para você e cobro juros de 6% ao ano durante 10 anos (o que me daria R$ 160.000 após dez anos). No mesmo dia em que faço este empréstimo, coloco como ativo que tenho R$ 160.000 de receita de capital. Ora, mas isto é realmente uma receita? Eu só tive gastos; não recebi um só centavo nisso tudo.

    Se você acha que isso deve ser incluído como receita, então o governo teria superávit nominal todos os anos. Pior ainda: quanto mais o BNDES emprestasse para alguém, maior seria a receita do governo! Quanto mais o governo gastasse, mais ele arrecadaria. Não é fantástico? É por isso que o Tesouro não considera isto em suas rubricas.

    Você confundiu balanço patrimonial e valorização de ativos com receitas do Tesouro. Por isso falei para você ir estudar antes de palpitar.

    Aliás, ainda nesta tabela da página 61, por que você parou nas "receitas de capital"? Por que não considerou todos os outros ativos também? Vá até o final e você verá que, por este seu método inovador, a "receita" do governo em 2010 foi de magnânimos R$8 trilhões. Obama morreria de inveja. Com uma receita de R$ 8 trilhões, poderíamos quitar completamente nossa dívida interna bruta (R$ 2,5 trilhões), e ainda duplicar os gastos do governo. Que mágica, hein?

    E eu achando que seria difícil haver um ministro pior que o Mantega. Mas, pelo visto, o destino ainda não havia me apresentado a Alessandre Argolo.
  • José Carlos Pereira  21/03/2012 21:49
    Pelo que eu li, acredito que as observações quanto aos erros no cálculo estão corretas. Realmente, o autor do artigo não levou em consideração, em seus cálculos, outras receitas, distintas das receitas correntes líquidas. Era necessário contabilizar todas as receitas e isso não foi feito.
  • Leandro  22/03/2012 00:02
    Prezado José Carlos (ou Alessandre, já que o IP é o mesmo),

    Quais seriam os erros quanto à receita? Fique à vontade para apontá-los aqui, mostrando os números faltantes e todo o suposto impacto destes números. Você estima a ordem de grandeza destes números faltantes? Se sim, é só falar, que eles serão prontamente trocados.

    E você, aliás, possui fartas fontes para isso.

    1) Resultados Fiscais Consolidados: Receitas totais de R$ 917,266 bilhões.

    2) Receita Corrente (não confundir com Receita Corrente Líquida, que inclui as deduções, e que aparecem apenas na metade final da tabela): R$ 908,470 bilhões. A este valor você pode acrescentar o item "execução de outras receitas correntes", cujo total é de R$ 26,310 bilhões, o que eleva o item 2 para R$ 934,78 bilhões.

    3) Há também o "Execução Financeira do Tesouro Nacional", mas neste lida com fluxo fiscal, o que joga o valor real arrecadado para R$ 853 bilhões, o mais baixo deles.

    4) E, finalmente, há a Receita Total do Tesouro, que foi exatamente a tabela que utilizei no artigo, com sua receita total de R$ 919,773. Há, no entanto, duas amortizações no final da tabela (Restituições e Incentivos Fiscais). Se elas não forem descontadas, o valor da receita sobe para R$ 934,78 bilhões, que é exatamente o valor do item 2.

    Não há nenhuma outra tabela sobre fontes de receita além destas.

    Ou seja, podemos constatar que a tabela do item 4, a que utilizei, é de fato a mais completa, pois é a que dá o maior valor de receitas para o governo. Pode conferir. Se a sua reclamação é de "está faltando receita", então esta é a sua tabela.

    Logo, temos o seguinte cenário: o item 1 e o item 3 são menores do que o valor que utilizei no artigo. Assim, sobram apenas os dois valores do item 4 (pois um destes valores é idêntico ao item 2).

    Portanto, o dilema é: as receitas são de R$ 919,773 bilhões ou de R$ 934,78 bilhões? Eu optei por R$ 919,773, justamente por já ser um valor descontado de restituições e incentivos fiscais. No entanto, caso alguém opte por R$ 934,78, sem problemas por mim. Mas eu não vejo sentido, pois se trata de uma receita fictícia, dado que parte deste dinheiro nunca foi realmente para o governo.

    No entanto, caso a opção pelos R$ 943 bilhões seja definitiva, a diferença final no valor do déficit nominal será de R$ 15 bilhões, de maneira que o déficit nominal em relação ao PIB será de 3% em vez de 3,38%. Absolutamente nada do raciocínio restante que foi apresentado é alterado.

    Caso queira apontar onde você acha que está o erro, fornecendo novos números que não foram contemplados por nenhuma das quatro tabelas acima, será um prazer ouvir suas ideias. Sempre estou à procura de novos links.

    Forte abraço e volte sempre!
  • Felipe Rosa  22/03/2012 06:58
    O fato do IP ser o mesmo é coinscidencia Leandro, não seja maldoso...hehehehe
  • anônimo  22/03/2012 10:55
    Verdade, o rapaz só "disperdiçou a chance" dele em ganhar na mega-sena. Só isso.
  • Cesar  22/03/2012 18:13
    Caro Leandro,
    Parabens pelo excelente artigo e consequentemente por formar e orientar economistas responsáveis e úteis a sociedade. Na ocasiao, tenho uma duvida: "Gasto total com apenas divida 17,3% PIB" é o mesmo que relacao divida pib? ou estou a fazer confusao?
  • Leandro  22/03/2012 19:47
    Prezado Cesar, obrigado pelo elogio. Sobre a relação dívida/PIB, ela não foi contemplada neste artigo. Tal relação indica a dívida total do governo federal (líquida em bruta) em relação ao PIB, e não apenas gastos do governo relacionados ao serviço da dívida, que é o que foi apresentado neste artigo.

    Para mais informações sobre a relação dívida/PIB, veja os seguintes artigos:

    O que fazer com a dívida do governo federal brasileiro?

    Atenção aos títulos do governo (Apenas a nota inicial)

    Grande abraço!
  • Ricardo Montillo  25/03/2012 22:19
    Leandro, só mais uma dúvida. No arquivo abaixo, na página 91, além das receitas correntes há também a rubrica 'receitas de capital' cujo valor é enorme, de 579 bilhões para 2010. Somando-se elas às receitas correntes, também discriminadas na tabela, temos que a receita total de 2010 apenas para a União foi de R$1,482 trilhão, um valor que sabemos ser totalmente irreal (o Impostômetro registra um valor um pouco abaixo desse, mas é para a arrecadação total de união, estados e municípios).

    www.tesouro.fazenda.gov.br/contabilidade_governamental/downloads/Balanco_Setor_publico_Nacional.pdf

    Creio que é essa a dúvida do Alessandre Argolo. Como se explica isso? Seria esta de fato a receita real do governo?
  • Leandro  25/03/2012 22:51
    Prezado Ricardo, o valor não apenas é irreal, como o próprio Tesouro não se baseia nele. E por quê? É fácil. Porque ele não representa as arrecadações genuínas. Explico.

    Observe que dos R$579 bilhões de 'receitas de capital', nada menos que R$502 bilhões são de 'operações de crédito'. Mas o que são 'operações de crédito'?

    A explicação está logo abaixo, na página 97.

    "Os valores referentes ao refinanciamento da dívida mobiliária e de outras dívidas constam, destacadamente, nas receitas de operações de crédito internas e externas e, nesse mesmo nível de agregação, nas despesas com amortização da dívida de refinanciamento."

    Entendeu? Estas receitas de 'operação de crédito' nada mais são do que o refinanciamento da dívida da União. O simples fato de a União conseguir rolar suas dívidas -- como explicado no artigo -- é considerado contabilmente como um receita.

    O que, aliás, gera um fato curioso: quanto maior for o volume da dívida que o governo federal conseguir rolar, maior será sua "receita" contábil.

    Pode isso? É uma prática comum contabilizar dívida rolada como receita? De acordo com o próprio relatório, esta contabilidade tem a função de "complementar as informações contidas no Balanço Patrimonial e Demonstração das Variações Patrimoniais no sentido facilitar a avaliação e tomada de decisão dos usuários."

    Ou seja, o nosso estimado Alessandre escolheu uma contabilidade que existe para justificar as tomadas de decisões do governo à luz da variação do Balanço Patrimonial (palavras do próprio governo), e não a contabilidade que espelha os genuínos resultados do governo em termos de receitas reais.

    Ademais, na prática, nem o próprio Tesouro utiliza esta contabilidade (como demonstrado pelas minhas 4 tabelas do comentário acima). E ainda bem. Pois veja que esta tabela que você apontou mostra que, por este método contábil, em 2009 teria havido um superávit nominal de incríveis R$110,2 bilhões de reais, algo que realmente teria sido sensacional. Mas o que ocorreu na prática? Segundo o próprio governo federal, houve um déficit nominal de R$107,3 bilhões.

    É por isso que nosso estimado Alessandre ficou confuso. Não o culpo. A culpa é do governo.

    Grande abraço!
  • Rhyan  25/11/2012 06:10
    Leandro, faz sentido colocar o refinanciamento na conta como se fosse uma despesa? Pois se eu devo $10 pra A mas faço dívida com B para pagá-la, não aumentou minha despesa nem minha dívida, desconsiderando juros.

    Outra coisa, como você acha que o juros nos EUA vai aumentar? Pois uma hora terá que subir, certo?

    E por último, essa queda da selic que vem ocorrendo mudou algo no refinaciomento, encargos, amortizações, juros ou dívidas? Esses M3/M4 foram derramados para o M1?

    Obrigado, abraço!
  • Leandro  26/11/2012 00:37
    "Faz sentido colocar o refinanciamento na conta como se fosse uma despesa?"

    É mais complexo do que parece. Afinal, que é o refinanciamento? O Tesouro emite títulos novos para pagar títulos velhos. Quando o Tesouro emite títulos novos, o sistema bancário é quem compra esses títulos. Como ele faz isso? Criando dinheiro do nada e dando ao Tesouro. Isso é, por definição, inflacionário. Logo, todo refinanciamento do governo envolve mais inflação. E mais inflação possibilita aumentos de gastos do governo.

    Ou seja, indiretamente, o refinanciamento leva a mais despesas do governo, embora não seja uma despesa em si.

    Por outro lado, se o governo repentinamente não mais conseguisse se refinanciar, ele teria de vender ativos para pagar seus credores. Consequentemente, ele seria obrigado a cortar gastos para poder pagar novos futuros credores. Caso não cortasse gastos, estes futuros credores começariam a duvidar da solvência do governo, iriam restringir os empréstimos e os juros disparariam.

    "Outra coisa, como você acha que o juros nos EUA vai aumentar? Pois uma hora terá que subir, certo?"

    Dado que a taxa básica de juros nada mais é do que a taxa de juros cobrada pelo mercado interbancário, e dado que os bancos estão repletos de reservas em excesso, não visualizo como a taxa básica de juros americana poderá subir. Uma maneira, talvez, seria um súbito aumento da inflação de preços que levasse os bancos a cobrarem juros mais altos pelos seus empréstimos. Ou isso, ou o Fed começa um maciço programa de venda de títulos para enxugar essas reservas em excesso. Os preços dos títulos cairiam, os juros subiriam. Mas isso seria fatal para o serviço da dívida do governo, que encareceria sobremaneira.

    A conferir.

    "E por último, essa queda da selic que vem ocorrendo mudou algo no refinanciamento, encargos, amortizações, juros ou dívidas? Esses M3/M4 foram derramados para o M1?"

    Ficou mais barato para o governo se refinanciar. O serviço da dívida também ficou mais barato. Isso, obviamente, apenas aguçou o apetite do governo por mais endividamento. Já há notícias de que o cumprimento da meta do superávit primário (eufemismo para déficit nominal) ficará bem abaixo do previsto. O M1 está aumentando bem, mas não creio que seja por reconversão de títulos da dívida em dinheiro. Ainda é muito vantajoso aplicar em títulos da dívida brasileira, principalmente no atual cenário de juros baixos em todos os cantos do mundo.
  • Cesar  30/11/2012 06:43
    Prezado Leandro,
    Em relação aos dados estatisticos utilizados no seu excelente artigo, o Tesouro Nacional (em 2012)retirou do ar todas as informações, você saberia onde podemos coletá-las?
  • Leandro  30/11/2012 07:01
    Pois é, eu percebi isso recentemente. Os idiotas do Ministério da Fazenda -- os maiores idiotas do Brasil fazem ponto no Ministério da Fazenda -- recentemente reformularam o site de tal maneira que todos os links anteriores foram perdidos. Quando você reformula um site, a primeira preocupação sua é manter os links inalterados. Isso é básico de programação. Mas o Ministério da Fazenda, muito certamente espelhando-se em seu líder, opera em uma dimensão racional paralela.

    Confesso que ainda não me entreguei à faina de sair corrigindo os estragos feitos por essas criaturas, de modo que você terá de aceitar minhas desculpas por esse inconveniente.

    Grande abraço!
  • TL  05/12/2012 19:15
    Olá Leandro.

    Eu quis analisar em mais detalhes os números expostos no teu artigo.
    Como os links originais não estavam funcionando, eu achei outra fonte de dados. (Não foi fácil achar esses dados, o site do Tesouro Nacional está um caos!)

    Essa fonte está discretizada mensalmente, portanto para obter o valor anual basta somar todos os meses (cuidado para não incluir o mês de Dezembro 2009)

    A receita total continua igual ao do artigo.
    Receita total (artigo) R$ 919.773.319.934
    Receita total (novo link) R$ 919.773.319.934


    Entretanto a despesa sem juros, encargos e amortização varia bastante. Método de cálculo:
    {Tab1 – Linha 23} [TRANSFERÊNCIAS A ESTADOS E MUNICÍPIOS] +
    {Tab1 – Linha 29} [DESPESA TOTAL]

    Despesa sem juros, encargos e amortizações:
    (Artigo ): R$ 782.204.970.288
    (Novo link): R$ 840.807.017.906


    Eu gostaria de ter calculado as demais variáveis, entretanto não existe um campo específico com esses dados.

    Para calcular os gastos apenas com juros, encargos e amortizações, eu deveria utilizar os seguintes dados?
    {Tab1 – Linha 58} [JUROS NOMINAIS] +
    {Tab4 – Linha 28} [ENCARGOS DA DÍVIDA CONTRATUAL] +
    {Tab4 – Linha 31} [ENCARGOS DA DPMF - MERCADO] +
    {Tab4 – Linha 34} [OPERAÇÕES OFICIAIS DE CRÉDITO] +
    {Tab4 – Linha 41} [FLUXO DE FINANCIAMENTO - DESPESAS]


    E o refinanciamento (rolagem da dívida) seria:
    {Tab4 – Linha 38} [FLUXO DE FINANCIAMENTO – RECEITAS]


    Obs.: eu não sou letrado em finanças públicas, portanto desculpe-me os eventuais erros metodológicos.
  • Leandro  05/12/2012 20:15
    Desde que fizeram essa mudança, eu não tive mais paciência (para não dizer outro termo relativo à anatomia genital) para entrar no site. Impressionante a incompetência dessa gente.

    A tabela anterior dava tudo prontinho; todos os itens que usei no artigo estavam lá, prontos. Bastava copiar. Agora resolveram obscurecer tudo.

    O seu cálculo para gastos com juros, encargos e amortizações está perfeito. Já para o refinanciamento será impossível, pois a tabela discrimina apenas "emissão de títulos"; ela não especifica quantos títulos foram emitidos para refinanciar o principal e quantos foram emitidos para pagar juros vincendos.

    Grande abraço!
  • André Luiz S. C. Ramos  06/12/2012 05:09
    Será que eles tiraram os links originais por causa do seu artigo?
  • pensador de direita  31/01/2013 18:11
    Leandro boa tarde, sempre me ensinaram que o governo pode se endividar a vontade sem precisar inflacionar a moeda,bastando manipular a taxa de juros e ai vem o IMB dizendo que não é bem assim então como é que é esse processo por favor me explique pois estou endoidando o cabeção?
  • Guilherme  15/03/2013 21:32
    Leandro,
    estava lendo novamente o artigo e fiquei com mais uma dúvida. Nos dados que você mostrou sobre a contabilidade do governo em 2010, o cálculo Despesas(R$1.4T) - Receitas (R$919B) =~ -R$498 Bilhões
    Isso significa que o governo teria que aumentar sua dívida bruta em R$498 Bilhões em 2010, certo?
    Procurando nas séries disponíveis pelo Banco Central (4182-Dívida bruta do governo geral) verifiquei que em 2010 a dívida aumentou em R$346 Bilhões. Com isso fica faltando R$152 Bilhões de gastos a serem pagos que não vieram nem de receitas nem de aumento da dívida. Minha pergunta então, onde estão esses R$152 Bilhões?

    Obrigado!
  • Leandro  15/03/2013 22:38
    "o cálculo Despesas(R$1.4T) - Receitas (R$919B) =~ -R$498 Bilhões
    Isso significa que o governo teria que aumentar sua dívida bruta em R$498 Bilhões em 2010, certo?"


    Não necessariamente, Guilherme. Esse cálculo (Receita - Despesa = aumento da dívida bruta) não é tão direto quanto parece. Ele não tem como ser 100% exato por dois motivos:

    O primeiro motivo é puramente de "defasagem contábil": o artigo é de setembro de 2011, e os dados de 2010 são periodicamente revisados. Há inclusive receitas atrasadas que só entram em uma contabilidade posterior. Por exemplo, os dados exatos de 2011 só serão conhecidos lá pra 2014, 2015.

    Mas há um segundo motivo, tão ou mais importante: há outras formas de alterações da dívida que não estão diretamente ligadas a gastos e despesas do governo. Por exemplo, alterações na base monetária (que é também considerada uma fonte de financiamento interno), alterações na dívida líquida do governo para com os bancos (por causa de alterações nos juros), alterações no financiamento externo líquido e alterações no valor da própria dívida mobiliária em mercado.

    Um ótimo exemplo desta discrepância ocorreu agora em janeiro. O governo anunciou que houve um superávit nominal para aquele mês. Não obstante o superávit nominal, a dívida pública aumentou R$44,5 bilhões. O que ocorreu é que algumas operações de mercado aberto e de financiamento externo líquido ajudaram a mascarar o resultado, gerando superávit nominal ao mesmo tempo em que a dívida subia.

    Veja na seção I deste comunicado do Banco Central.

    www.bcb.gov.br/?ECOIMPOLFISC
  • Henrique  24/05/2014 23:04
    Eu tenho uma dúvida: se é tão fácil financiar seus gastos através da inflação monetária, por que num passado recente o governo brasileiro recorria a empréstimos do FMI? Qual a vantagem?
  • Nigel  25/05/2014 00:42
    Porque o governo não imprime dólares. O FMI emprestava dólares porque o governo brasileiro precisava de dólares, pois suas reservas internacionais eram baixas.
  • Gabriel  11/07/2015 00:03
    Boa noite Leandro, estava vendo aqui o relatório fiscal do FMI deste ano e lá aparece que a NFSP do Brasil é de 13,1 e mesmo assim o nossos juros estão subindo, tem explicação?
  • Leandro  11/07/2015 02:49
    Esse valor é o total (incluindo amortizações e refinanciamento)?

    Acho improvável, pois, neste exato momento, só o déficit público nominal acumulado em 12 meses já está em 8% (em 2011, data deste artigo, ele foi de 2,5%). Se incluirmos amortização e refinanciamento (rolagem), o resultado certamente será maior que o de 2011.
  • Gabriel  11/07/2015 03:03
    Da uma olhada:
    https://uploaddeimagens.com.br/imagens/nfpt-jpg

    pag 12
    www.imf.org/external/pubs/ft/fm/2015/01/pdf/fm1501.pdf
  • Leandro  11/07/2015 04:31
    Era o que imaginei. Fala apenas do déficit nominal projetado e das dívidas que irão vencer no ano (amortização). Nada fala sobre o refinanciamento (que não é divulgado antecipadamente pelo governo, de modo que não tem como o FMI saber), que é a parte mais pesada.

    Achei o relatório de 2014. Logo ali na página 4 tem os valores (juros e encargos da dívida, amortização sem refinanciamento e amortização com refinanciamento):

    www.tesouro.fazenda.gov.br/documents/10180/352657/RRSdez2014.pdf/caaaa952-eb39-4028-992e-86c397c0c341

    A soma total deu R$ 977,9 bilhões.

    Como o PIB de 2014 foi de R$ 5,521 trilhões, temos uma NFSP total de quase 18% do PIB.

    Vale lembrar que, em 2011, os juros chegaram a 12,50%, e em 2014 eles passaram praticamente todo o ano em 11%.
  • Gabriel  11/07/2015 05:16
    Entendi, mas isso sem somar com o deficit nominal de 6,7% do pib, com ele o NFSP total seria de 24,2%, me corrija se eu estiver errado.

    Agora o que me deixa espantado e curioso é o gasto com a dívida dos EUA, aqui no Brasil, principalmente a auditoria cidadã, se reclama muito que quase metade do orçamento público é para juros e amortizações, mas vendo esse relatório do FMI os EUA não são tão diferente, Japão então nem se fala, a coisa lá é muito pior(46,5% do PIB para pagamento da dívida), e mesmo assim eles oferecem serviços públicos decentes.

  • Leandro  11/07/2015 21:46
    No caso, o pagamento de juros já é o déficit nominal. Lembre-se: o resultado primário não inclui o pagamento de juros; já o resultado nominal, sim.

    Sem o pagamento de juros, há um pequeno superávit primário (normalmente; no último ano, isso mudou). Logo, o déficit nominal é gerado pelo pagamento de juros.
  • Gabriel  12/07/2015 00:22
    Entendo, acabei incluindo o gasto com juros duas vezes. Então agora, pelo que eu entendi da tabela lá de cima o NFSP total é igual a amortizações + deficit nominal. Ano passado o governo pagou de amortização sem financiamento(190,7 Bi) + amortização com financiamento(616.8 Bi) + deficit nominal que já inclui os juros(344 Bi) dando um total de 1151,5 Bi, dividindo isso por 5,521 Tri dá 20,8% de NFSP, meu cálculo está certo dessa vez?
  • Leandro  12/07/2015 13:51
    Ainda não...

    No valor do déficit nominal já estão incluídas algumas amortizações (o déficit nominal não engloba apenas pagamento de juros, mas também algumas amortizações). Sendo assim, está havendo dupla contagem.

    A fórmula correta é: juros e encargos da dívida + amortizações totais + déficit primário (se houver).
  • Gabriel  12/07/2015 15:50
    Hmmmm entendi, obrigado pela explicação.
  • Gabriel  06/08/2015 21:35
    Leandro, estava pesquisando mais sobre a dívida pública e em um site o autor dizia que o refinanciamento da dívida entrava no orçamento da união, no fim ele concluía que os altos gastos com juros+rolagem+amortizações(aproximadamente 43% do orçamento) seriam uma manipulação de dados usado pela auditoria cidadã, isso procede?
  • Leandro  07/08/2015 14:40
    Desconheço essa teoria.
  • Joaquim Saad  10/08/2015 21:49
    Olá, Leandro.

    Quando escreveu este artigo (Set/2011), a taxa SELIC passou a ser reduzida voluntariamente pelo BC (c/a meta dela chegando a 7,25% em Out/2012 até começar aumentar em Abr/2013) sem pelo visto ter ocorrido alguma piora perceptível na dificuldade de colocação primária dos papeis do Tesouro no período, os quais não apresentaram melhora significativa em seus prazos médios de rolagem, além da dívida pública obviamente também não ter tido qualquer diminuição em seu tamanho e em seu ritmo de crescimento, já àquela época bastante elevados.

    1) Em que medida você atribuiria tal fato inesperado (pois, segundo o texto, a derrubada da taxa básica de juros não poderia ser arbitrária) à forte presença do BC nos leilões de títulos públicos na última década, adquirindo-os diretamente do emissor e, deste modo, eliminando (em princípio) os riscos de rejeição dos certificados do Tesouro pelo mercado (configurando assim a proverbial operação "zé c/ zé", levando-nos na prática de volta à década de 80, diferente apenas por desta vez haver um "impacto" no indicador da dívida, a qual no entanto pelo jeito estaria livre p/ crescer indefinidamente em relação ao PIB, já que não há qualquer limite p/ seu percentual na LRF 101/2000, nem tampouco ausência de comprador de última instância, representado pela própria autoridade monetária neste arranjo promíscuo que "bypassa" os bancos comerciais, normalmente intermediários no endividamento público) ?

    2) O único recurso à disposição dos bancos p/ subscreverem ofertas primárias de títulos federais seriam seus excessos de reservas na ocasião desses leilões ? Ou cartel bancário - em conluio c/ o maior beneficiário (o governo central) - já arrumou maneiras de driblar qualquer restrição financeira momentânea de seus membros nos dias de funcionamento do mercado primário, tornando portanto inócua qualquer proibição que houvesse ao BC de participar dos leilões comprando diretamente os papeis do Tesouro ? (ps: por isso que em outro questionamento a você aventei a hipótese de uma espécie de alavancagem de curtíssimo prazo, baseada por ex no redesconto - sem custo - intradia, que fosse lastreado c/ papeis emitidos pelos próprios bancos, ou então sem qualquer garantia, em linha c/ a completa esculhambação retratada neste esquema !).

    Obrigado.

    Abraços.
  • Leandro  10/08/2015 22:08
    "sem pelo visto ter ocorrido alguma piora perceptível na dificuldade de colocação primária dos papeis do Tesouro no período"

    Aí é que você se engana. E tremendamente.

    Nesta palestra do Gustavo Franco, a partir do minuto 12:40, ele diz que uma parte dos títulos que o Tesouro colocava a leilão não conseguia ser vendida, pois os juros ofertados não eram atrativos o bastante.

    Consequentemente, os títulos que sobraram foram repassados ao Banco Central, que em seguida os utilizou para fazer operações compromissadas.

    Segundo ele, essa situação "é pior que a da Grécia; mas como a Grécia não tem um Banco Central autônomo, seu governo não tem esse privilégio de poder repassar ao seu Banco Central os títulos não-vendidos".

    Ou seja, houve sim consequências. A dívida pública simplesmente não conseguiu ser rolada.

    Consequentemente, sua pergunta 1) já está respondida (recomendo muito que você veja a palestra do Gustavo).

    "O único recurso à disposição dos bancos p/ subscreverem ofertas primárias de títulos federais seriam seus excessos de reservas na ocasião desses leilões ?"

    Esqueça esse negócio de "ter reservas para só então poder emprestar".

    A verdade é que o evento ocorre de maneira inversa: primeiro os bancos criam crédito, e depois, só depois, eles vão atrás de reservas para lastrear esse crédito.

    Em outras palavras, primeiro os bancos criam dígitos e emprestam; depois, só depois, eles vão ao Banco Central (ou ao mercado interbancário) pegar fundos para compor suas reservas.

    E não precisa acreditar em mim, não. Pode ir direto a uma fonte nada suspeita: o BC da Inglaterra. Nessa monografia feita para o público leigo (a qual eu fortemente recomendo, pois é extremamente esclarecedora sobre o sistema bancário), o BC inglês explica exatamente como funciona esse mecanismo.

    Em termos puramente didáticos, não faz muita diferença dizer que primeiro o BC cria dinheiro e então, só então, os bancos emprestam. Afinal, os efeitos finais são os mesmos.

    No entanto, em termos práticos, faz toda a diferença.

    O modelo-padrão dos livros-texto leva a entender que os bancos esperam passivamente por depósitos de seus correntistas para então, só então, começar a emprestar. Isso é falso. Não é assim que os bancos operam. No mundo real, os bancos criam crédito -- e, nesse processo, criam depósitos -- e então, só então, vão buscar reservas.

    Primeiro vem os empréstimos -- que criam depósitos -- e depois, só depois, vêm as reservas.

  • Joaquim Saad  11/08/2015 00:08
    Quando afirmei que não se percebia agravamento na dificuldade de colocação da dívida pelo Tesouro, referia-me apenas à estabilidade de sua taxa efetiva nos leilões em relação à meta estabelecida p/ seu custo médio de captação (SELIC), justamente pelo motivo do BC ter entrado sistematicamente em cena absorvendo diretamente do governo os papeis não adquiridos pelos bancos comerciais (prática denunciada pelo GHBFranco no vídeo, e da qual eu já estava ciente ao verificar há algumas semanas naquela planilha do Tesouro uma grande quantidade de títulos reservados à autoridade monetária nas rodadas do mercado primário ao longo da última década).

    A pergunta "1)" anterior foi motivada por já ter me dito em outra oportunidade que as intervenções do BC nos leilões primários seriam "pontuais" (do que inferi como equivalente a "pouco significativas"), além de reiteradamente explicar aos leitores em vários de vossos artigos e comentários que a autoridade monetária não financiava diretamente o estado, o que agora compreendo tratar-se de um arranjo "genérico" desconsiderando didaticamente "particularidades" do caso brasileiro como esta.

    A propósito das características específicas do sistema bancário/financeiro tupiniquim (p/ cujo entendimento completo de algumas delas talvez não baste nem mesmo a leitura sugerida do excelente material britânico, o qual inclusive agradeço pela indicação), a simples multiplicação de dinheiro levada a cabo pelos bancos comerciais ao concederem empréstimos ao público (físico e jurídico) que depois redundarão certamente em novos depósitos a serem então parcialmente reservados p/ cumprimento das exigências de compulsório (de acordo c/ a sequência que é a observada na prática, conforme esclareceu) entendo não poder ser empregada nem mesmo nesta ordem na aquisição de títulos públicos nos leilões, pois as compras neles efetuadas seriam necessariamente quitadas através da inevitável saída (ainda que momentânea) de reservas das contas dos bancos p/ a conta do Tesouro no BC (via seu Sistema de Transferência de Reservas - STR, exatamente como no caso de TED's, DOC's, etc), hipótese em que as reservas bancárias representariam um limite do financiamento possível de se conceder ao governo sem a intervenção direta do criador-mor de moeda.

    obs: talvez as reservas já sejam mais do que suficientes p/ a compra intradia da dívida que o Tesouro coloca em cada oferta primária, mesmo no caso de um Estado tão perdulário quanto o nosso...

    ps: acredito em você sim, senão jamais investiria meu tempo (e gastaria o teu!) tentando compreender melhor o assunto ! ;)

    []'s
  • Marcos  11/11/2015 11:28
    Leandro a Mídia ela e financiada pelo oligopolio Bancario e depende dos anuncios dos bancos, por isso ela gosta de divulgar apenas o superavit primario e do interesse do oligopolio. Nossa divida explode por mecanismo meramente financeiros como as operações comprimissadas que tem servido para os Bancos tambem entregar toda qualquer sobra de caixa que eles não conseque emprestar para a sociedade ao governo, operações de swap que protege os proprios bancos da variação do dolar, e fazer divida para pagar juros . E conforme a CPI dos anos 80 apenas 30% da divida externa dos anos 70 tem contrato e essa parte foi transformada em divida interna nos anos 90. Não e uma divida feita para financiar o setor publico, são mecanismo financeiros feito para proteger o olipolio bancario. E o superavit primario e uma invenção criada pelo FMI para os paises subdesenvolvido enganar a sociedade mais que é do interesse do olipolio bancario.
  • Marcos  11/11/2015 11:31
    Um dos motivos dos juros bancarios seram altos para a sociedade e que no Brasil o governo enxuga toda sobra de caixa que eles não conseque emprestar para a sociedade e entrega titulos do governo, ai eles não tem interesse em baixar juros e competir entre si para oferecer juros a sociedade e melhor entregar por governo.
  • Marcos  11/11/2015 11:38
    A base monentaria muito baixa tem servido tambem para os bancos entregar toda a sobra de caixa por governo em troca de titulos por isso eles não tem interesse em emprestar mais para empresas e pessoas. Faz explodir a divida por mecanismo financeiros (operações comprimissados,Swap, pagamento de juros que e a maior parte, BNDS) ai depois vão querer reduzir o deficit nominal cortando gasto de áreas ja sucateada. Nossa divida não e feita para financiar gastos é esses mecanismo que faz ela explodir.
  • Ethel Airton Capuano  08/05/2018 02:56
    Como liberal que sou, nunca entendi porque precisamos ter a chamada "taxa SELIC", que acaba servindo de piso para todos os juros bancários praticados no país e livra a cara do banqueiro, que não precisa assumir muito risco ao emprestar dinheiro para os industriais e comerciantes. Eu gostaria de ver o Instituto Mises defender o fim desse verdadeiro instrumento de perversão do liberalismo econômico, pois a taxa SELIC não passa de um indexador financeiro.


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