clube   |   doar   |   idiomas
Falando claramente sobre balança comercial, investimento estrangeiro e câmbio

Quando os brasileiros vendem mais produtos para os estrangeiros do que compram deles — isto é, quando as exportações são maiores do que as importações —, diz-se que o país apresentou um superávit na balança comercial.  Quando os brasileiros compram mais do que vendem — ou seja, quando importam mais — ocorre um déficit na balança comercial.

Por algum motivo obscuro, imprensa e acadêmicos recorrentemente alertam sobres os "perigos" de se ter um déficit na balança comercial, dando a entender que uma economia só está saudável quando apresenta um superávit comercial — isto é, quando envia aos estrangeiros mais produtos do que adquire deles.  Ato contínuo, praticamente todos os anos o governo anuncia uma nova "política industrial" para estimular o setor exportador e reprimir as importações.

O que absolutamente quase ninguém diz é que, para os habitantes de um país, o único benefício trazido pelas exportações é justamente as importações; a única função de se exportar é que, com isso, pode-se importar.  Explico melhor.

Quando o Brasil vende seus produtos ao exterior, o comprador estrangeiro paga ao exportador brasileiro em dólares, que é a moeda internacional de troca.  Quando um fazendeiro do Mato Grosso vende soja para uma empresa lá em Xangai, o chinês paga o mato-grossense em dólares.  Ele deposita dólares na conta do mato-grossense.  Mas como, por decreto governamental, a única moeda corrente no Brasil é o real, esse mato-grossense terá então de trocar esses dólares por reais aqui no Brasil.  E quem vai comprar os dólares do mato-grossense?  Quase sempre, os bancos, por meio de suas corretoras.  E o que os bancos farão com esses dólares?  Venderão para importadores, que os utilizarão para, obviamente, comprar produtos do estrangeiro.

O que interessa, portanto, é que, no final, esses dólares que foram vendidos pelo mato-grossense serão utilizados para importar produtos estrangeiros.  Sem esses dólares seria impossível importar.

Para os brasileiros que não estão no setor exportador, essa é a única função das exportações: elas permitem que haja importações.  É exportando que se importa.  Ou, para utilizar um clichê já bem surrado, exportar é o que importa.

Quando se entende esse mecanismo básico, de fato torna-se um pouco mais compreensível a obsessão de economistas com as exportações.  Afinal, sem elas, não seria possível comprar nada de fora (na verdade, seria sim, como veremos mais abaixo). 

Entretanto, as coisas começam a ficar mais turvas quando vemos economistas totalmente obcecados com exportações e fanaticamente contrários às importações.  Qual seria o sentido de exportar sem importar?  Do ponto de vista do cidadão brasileiro, as exportações de soja, laranja e aço do país só lhe são boas porque trazem dólares que lhe permitem importar iPads, notebooks, livros, carros e várias outras coisas.  Fora isso, as exportações não lhe são nada vantajosas.  Ao contrário até: quanto mais um país exporta, menor será a oferta desses bens exportados no mercado nacional.  Quanto maior a exportação de soja, laranja, café e aço, menor será a oferta desses produtos para os brasileiros, o que significa que seus preços no mercado interno serão maiores do que poderiam ser caso não fossem exportados.  De modo geral, sempre que a balança comercial apresenta um superávit recorde, isso significa que o cidadão brasileiro foi privado de uma maior oferta de bens, tanto aqueles produzidos nacionalmente e que foram exportados, quanto aqueles produzidos no estrangeiro e que não puderam ser importados por restrições governamentais.

Logo, a política governamental de estimular exportações e restringir importações só pode ser vista como sadismo governamental, um ato de criminosa privação da população.

"Ora, mas por que então os governos fazem isso?"

Há algumas explicações.  Em primeiro lugar, como o setor exportador possui um lobby muito bem organizado, e como o governo precisa de dólares para compor suas reservas internacionais e para intervir no mercado de câmbio, não é preciso ser um grande cientista político para imaginar que ambos (governo e exportadores) trabalharão em profunda simbiose.  Um precisa da ajuda do outro.  Por outro lado, os importadores são difusos e não possuem um lobby organizado (para dizer a verdade, eu nem sei se há algum lobby de importadores).  Adicionalmente, importação significa saída de dólares.  E saída de dólares significa governo perdendo capacidade de fazer política cambial para ajudar o setor exportador.  De novo: não é necessário diploma acadêmico para perceber que importar vai contra interesses tanto do governo quanto do setor exportador. 

Na década de 1980, no auge da crise da dívida externa, o governo praticamente baniu as importações e estimulou ao máximo as exportações justamente para acumular dólares e com isso poder pagar os juros dessa dívida.  Quando a coisa apertava e os dólares escasseavam, os ministros iam à TV em rede nacional anunciar uma moratória.  Dilson Funaro era especialmente ótimo nesse papel.

Já no início do Plano Real, as importações foram mais flexibilizadas, pois eram utilizadas para controlar a inflação de preços.  E como a saída de dólares via importações acabou sendo muita, a balança comercial tornou-se deficitária logo em 1995 (a última vez que isso havia ocorrido tinha sido em 1980).  Isso obrigou o governo a elevar os juros para atrair dólares especulativos, de modo a garantir essa oferta de dólares para as importações.  Ou seja: os dólares passaram a sair via balança comercial e passaram a entrar via investimentos em títulos do governo, no mercado financeiro e em investimentos diretos.  (Em terminologia contábil, diz-se que esses dólares estão entrando na conta capital e financeira).

Com a adoção do câmbio flutuante, em 1999, o déficit na balança comercial começou a se reduzir, de modo que, desde 2001, o Brasil vem apresentando seguidos superávits comerciais.  Da mesma forma, os dólares que entram na conta capital e financeira seguiram aumentando.  Essa dupla combinação de entrada de dólares — tanto via balança comercial quanto na conta capital e financeira — ajudou a aumentar sobremaneira as reservas internacionais do país (dólares que o Banco Central compra), que atualmente estão em US$ 353 bilhões.  É o alto valor dessas reservas que faz com que um país passe sem grandes sobressaltos por crises internacionais.  E isso é fácil de entender.

Quando há uma crise financeira internacional, a primeira reação dos investidores internacionais é fugir para ativos considerados seguros (historicamente, o dólar, os títulos do Tesouro americano e o ouro).  Para fazer isso, eles têm de vender a moeda na qual estão investidos e adquirir dólares.  No Brasil, o investidor em apuros vai vender reais em troca de dólares e sair daqui.  Quanto menor for a quantidade de dólares nas reservas internacionais, menor será a chance de esse investidor conseguir se desfazer dos títulos brasileiros que possui e adquirir dólares.  Por outro lado, quanto maior for a quantidade de dólares nas reservas internacionais, mais seguro estará esse investidor de que poderá restituir reais por dólares a qualquer momento.

Nas décadas de 1980 e 1990, o valor dessas reservas internacionais era baixo.  Isso fazia com que, a qualquer sinal de crise, os investidores retirassem seus dólares aplicados no Brasil.  Isso ocorreu mais recentemente nas crises asiáticas de 1997, na crise de Rússia em 1998 e no risco Lula em 2002.  A partir daí, as reservas começaram a subir e hoje estão em nível recorde.  Inclusive, se todo o valor atual do M1 (papel-moeda em poder do público + depósitos em conta-corrente) for convertido em dólares, faltam reais e sobram dólares.  Se todos os correntistas brasileiros trocassem hoje seus reais por dólares, ainda sobrariam dólares — o que significa que um investidor estrangeiro não tem motivo para retirar correndo seus investimentos do Brasil caso haja uma forte crise financeira mundial, simplesmente porque é impossível faltar dólares.  Por isso o bom desempenho do Brasil nos últimos solavancos.

Eis aí, portanto, o real motivo do estímulo às exportações e do desincentivo às importações: o dinheiro adquirido via exportações, ao contrário de investimentos e aplicações estrangeiras, não é um dinheiro especulativo, que pode sair a qualquer momento.  É um dinheiro que fica — desde que o Banco Central o compre, é claro.  E é isso que ele vem fazendo: comprando dólares para aumentar suas reservas internacionais, algo bom para se apresentar durante crises financeiras mundiais.

Então isso é bom?

Uma análise simplista da situação acima dirá que o governo está absolutamente correto ao agir assim.  Afinal, mais vale sacrificar algumas importações e com isso manter o país afastado de redemoinhos financeiros a liberar tudo, perder dólares e passar por uma forte crise cambial.  Dado que o dinheiro que entra na conta capital e financeira é um dinheiro que pode sair a qualquer momento — e dado que nunca é prudente um governo sair confiscando investimentos estrangeiros para evitar uma fuga de dólares —, então o certo é realmente evitar que os dólares saiam via importações.  Logo, estão corretos os economistas que louvam as exportações e condenam as importações.  Um superávit da balança comercial é tudo!

Bom, é claro que tal raciocínio carece de lógica econômica.  E o exemplo a seguir ajudará a ilustrar o problema por trás desse raciocínio tacanho.

Imagine um pequeno e pobre país isolado no meio do Pacífico, com uma economia baseada predominantemente na pesca e na agricultura de subsistência.  Um belo dia, uma excursão de geólogos descobre vastas reservas de petróleo nesse país.  Imediatamente após essa descoberta, os investimentos estrangeiros começam a afluir em massa para esse lugar.

Como o país até então não possuía uma infraestrutura avançada, esse investimento estrangeiro terá de construir basicamente tudo: poços petrolíferos, refinarias e oleodutos.  Terá também de construir estradas para escoar a produção, bem como um porto, onde embarcar o produto.  Para fazer todas essas construções, toneladas de equipamentos e materiais de construção terão de ser levados a esse país, bem como quantidades substanciais de bens consumo para prover os trabalhadores dessas construções.  Todos esses materiais, todos esses bens, constituem importações.  Mais ainda: eles representam a contrapartida física de todo o dinheiro que está entrando na conta capital e financeira.  O aumento do investimento estrangeiro possibilitou um aumento das importações.

A pergunta é: teria como esse país evitar um déficit na balança comercial?  Ou, como gostam de dizer economistas tarados por exportações, teria como esse país evitar uma balança comercial "desfavorável"?  Nem se ele exportasse todos os peixes, verduras, cocos e vacas que seus habitantes possuem.  E o principal: ele não teve de exportar absolutamente nada para pagar por essas importações — o petróleo só começará a jorrar daqui a vários anos, quando tudo isso estiver construído e operante.  Logo, essa balança comercial deficitária ("desfavorável", segundo economistas) e todo o investimento estrangeiro que a gerou representaram na verdade um desenvolvimento econômico extremamente favorável para a economia local.  Difícil imaginar algo mais favorável do que esse arranjo.

Porém, um economista desenvolvimentista olharia para os números e lamentaria o déficit na balança comercial.  "Puxa, se ao menos vacas, peixes e cocos estivessem sendo mandados para fora para atenuar esse déficit comercial...".  O genuíno desenvolvimentista realmente acredita que os habitantes desse país estariam em melhor situação caso abrissem mão de suas vacas, peixes e cocos, mandando-os para o estrangeiro e, em troca, alimentando-se, não sei, talvez de capim.  O que importa é a balança comercial.  Quanto menor o déficit, melhor.

Já um economista um pouco mais sensato reconheceria que o atual arranjo econômico desse país realmente é benéfico para sua população; ele reconheceria que investimentos estrangeiros produtivos necessariamente geram déficits na balança comercial, pois investimentos precisam da importação de bens de capital — se não precisassem da importação de bens de capital, então poderiam ser realizados por nativos.   Investimentos estrangeiros e o déficit na balança comercial que eles geram representam acumulação de capital para o país em questão.

Infelizmente, no Brasil atual, boa parte dos investimentos estrangeiros vai para títulos públicos — o que significa que eles vêm para cá apenas para financiar os déficits orçamentários do governo.  Porém, mesmo isso tem um lado positivo: estrangeiros financiarem parte do déficit do governo brasileiro significa que o setor privado nacional não precisa financiar esse déficit integralmente, o que significa que sobra mais recursos para serem canalizados para investimentos produtivos.  É claro que o ideal seria que os déficits orçamentários fossem eliminados.  Nesse caso, todo o capital estrangeiro seria necessariamente direcionado para o investimento produtivo no país, aumentando a riqueza nacional.  O investimento estrangeiro e as importações que ele gera ampliariam a poupança e a acumulação de capital dos cidadãos brasileiros.  Todos nós ficaríamos mais ricos.

A questão do câmbio

Embora reconheça todos os benefícios do cenário acima, um economista convencional diria que deixar a economia dependente do influxo de capital estrangeiro é muito arriscado, pois ele pode fugir a qualquer momento, provocando instabilidade na cotação do câmbio.  E isso é ruim tanto para exportadores quanto para importadores, pois eles passam a trabalhar em um cenário de grande incerteza, dedicando grande parte do seu tempo a especular qual será a futura taxa de câmbio, se o dólar vai encarecer ou baratear.  Logo, seria preferível garantir a entrada de dólares via exportações do que majoritariamente por investimentos estrangeiros.

Também há vários erros nessa abordagem.

O principal — e também o mais comum dos erros, proferido abundantemente pela mídia e pelos economistas convencionais — é essa noção de que o que determina o câmbio de um país é o volume de dólares que entra e sai dele.  Logo, segundo esse raciocínio, se houver uma fuga repentina ou uma entrada maciça de capital estrangeiro, e caso isso não se reverta, o câmbio ficará permanentemente alterado.

A preocupação maior sempre é com a "fuga de dólares".  Segundo a teoria que esses economistas seguem, uma fuga de dólares depreciaria a taxa de câmbio (o dólar ficaria mais caro em relação ao real).  Esse fenômeno estimularia contínuas conversões de reais em dólares, pois os investidores ficariam receosos de ter prejuízos ao converter seus reais cada vez mais desvalorizados em dólares.  Por exemplo, se o dólar pula dos R$ 1,60 atual para R$ 1,80, o investidor que se atrasar para converter seus reais em dólares para sair do país terá grandes perdas.  Esse temor levará a contínuas conversões, o que gerará uma progressiva desvalorização cambial, jogando o câmbio para, digamos, muito acima dos R$ 2.  Logo, segundo essa teoria, a fuga de dólares gera um processo que se autoalimenta, deixando o dólar cada vez mais caro.  Consequentemente, as importações encareceriam sobremaneira, e a inflação de preços destruiria a economia.

O erro fundamental dessa teoria advém do fato de que ela ignora quase que completamente a função do dinheiro em conter processos prolongados de depreciação cambial.  Como Ludwig von Mises demonstrou ainda em 1912, em sua obre The Theory of Money and Credit, o determinante fundamental da taxa de câmbio entre duas moedas é o poder de compra relativo de cada uma delas.  Colocando de outra forma, o que determina a taxa de câmbio entre duas moedas independentes é a paridade do poder de compra entre elas.  O equilíbrio de longo prazo — ou a taxa de câmbio "final" entre duas moedas — sempre será exatamente igual à razão entre o poder de compra das duas moedas. 

Isso significa que, por exemplo, se houver uma redução do poder de compra do real em relação ao dólar — porque o Banco Central brasileiro está inflacionando mais que o Fed —, o dólar ficará mais caro em termos de reais exatamente nessa mesma proporção, independentemente da maneira como os preços da economia irão se alterar durante esse processo de depreciação (a inflação de preços sempre se dá de maneira desigual e não neutra; os preços dos bens e serviços de alguns setores se alteram mais rapidamente e com maior intensidade do que os de outros setores).

Logo, se o preço de um mesmo produto é de US$ 600 nos EUA e de R$ 960 no Brasil, então a taxa de câmbio entre as duas moedas será levada a R$1,60/US$.  A essa taxa, um brasileiro vai pagar o mesmo valor por esse produto, seja ele comprado aqui no Brasil ou nos EUA.  Se o Banco Central brasileiro inflacionar a quantidade de reais na economia, tudo o mais constante, esse excesso de reais irá aumentar a demanda por esse bem e por outros bens no mercado nacional, elevando os preços gerais e reduzindo o poder de compra do real.  Como resultado, a essa mesma taxa de câmbio, será mais barato comprar esse bem em questão, assim como outros bens, nos EUA e não no Brasil.  Ato contínuo, a demanda por dólares irá aumentar em relação à demanda por reais, fazendo com que o real permanentemente se deprecie — perca valor — em relação ao dólar e a todas as outras moedas estrangeiras que não foram inflacionadas.  Esse processo irá continuar até uma nova taxa de câmbio ser atingida.

Por outro lado, caso não haja uma alteração do poder de compra do real em relação às moedas estrangeiras, a teoria da paridade do poder de compra implica que qualquer mudança que ocorra na taxa de câmbio será estritamente temporária e autorreversível. 

Nesse sentido, se a razão de preços em reais e em dólares para um dado bem for diferente da taxa de câmbio vigente entre as duas moedas, então o equilíbrio ainda não foi atingido, o que significa que há oportunidades de lucro para um especulador: basta ele vender esse bem em troca da moeda que estiver sobrevalorizada e utilizar essa receita de venda para comprar a moeda subvalorizada.  Ato contínuo, ele utiliza essa moeda subvalorizada para recomprar esse bem.  Essas operações — tecnicamente chamadas de "arbitragem" — fazem com que a taxa de câmbio e a razão do poder de compra entre as duas moedas sejam levadas à sua relação correta.

Por exemplo, suponhamos que o mesmo bem A esteja custando R$ 2 ou US$ 1.  E suponha que a taxa de câmbio vigente seja R$ 1 = US$ 1.  Nesse caso, a julgar pelos preços de A, nota-se que o poder de compra do real é menor que o do dólar.  Porém, pela taxa de câmbio, o poder de compra de ambos são iguais.  Logo, comparando-se os preços com a taxa de câmbio, vemos que o real está sobrevalorizado e o dólar está subvalorizado.  O real está sobrevalorizado porque seu poder de compra, que é menor que o do dólar, está igual ao do dólar quando se analisa a taxa de câmbio.  Assim, claramente o câmbio está errado.  Um especulador esperto irá vender A em troca de reais (irá obter R$ 2) e, em seguida, irá trocar R$ 2 por US$ 2 (pois a taxa de câmbio é de 1:1).  Ato contínuo, irá recomprar esse bem por US$ 1, embolsando o dólar extra.  Essa contínua troca de reais por dólares encarecerá o dólar em relação ao real, finalmente levando a taxa de câmbio para seu valor correto, de R$ 2 por dólar.

Uma vez entendido esse conceito básico, porém fundamental, torna-se possível entender por que é errada a teoria de que o que determina o câmbio é o volume de dólares que entra ou sai do país.  Da mesma maneira, isso explica por que está errada a teoria de que uma súbita fuga de dólares irá gerar uma deterioração progressiva da taxa cambial.  Assim, abordando diretamente o temor desses economistas: se os investidores estrangeiros repentinamente ficarem desconfiados da solvência dos brasileiros e começarem a retirar seus dólares do país, num primeiro momento isso de fato geraria uma enorme procura por dólares e um excesso de oferta de reais, o que temporariamente jogaria a taxa de câmbio nas alturas.  Entretanto, tão logo essa transferência estiver completada, e desde que o Banco Central não aumenta a quantidade de moeda na economia, as forças de mercado irão rapidamente levar a taxa de câmbio para seu equilíbrio de longo prazo, restaurando a paridade do poder de compra entre o real e o dólar.

Daí a importância de o governo não intervir no mercado de câmbio, não proibir especulações e não colocar barreiras às importações.  Quanto mais livre for o mercado, mais rapidamente ocorrerá o processo de arbitragem e mais rapidamente o câmbio voltará ao valor correto.  Quanto mais obstáculos o governo colocar nesse mercado, mais lento será esse processo de reajuste, e mais a economia sofrerá com seu câmbio fora do lugar.

Lições cambiais

Tendo entendido todos esses detalhes, pode-se compreender por que é desnecessário se preocupar com déficits comerciais ou mesmo com "fuga de dólares".  Uma fuga de dólares poderá de fato causar um aumento de juros no país, mas não fará com que, por si só, gere uma progressiva depreciação cambial.  A única medida governamental capaz de gerar uma progressiva depreciação cambial é uma contínua inflação da quantidade de dinheiro na economia, pois isso fará com que a moeda nacional perca poder de compra em relação às moedas estrangeiras.

Isso também explica por que medidas como controle de capitais ou tributação sobre a entrada de dólares (como as recentemente instituídas pelo governo brasileiro) não geram efeito de longo prazo sobre o câmbio.  Tais medidas servem apenas para diminuir a entrada de capital estrangeiro na economia, o que prejudica seriamente os investimentos estrangeiros e, por conseguinte, todos aqueles benefícios listados no início deste artigo.  É realmente difícil imaginar uma "medida cambial" mais asinina do que o controle de capitais.

A redução do influxo de dólares causada, por exemplo, por um aumento do IOF sobre operações de câmbio irá, no máximo, exercer um efeito de curto prazo na taxa de câmbio, por uma simples questão momentânea de oferta e demanda.  No longo prazo, no entanto, o que vai determinar o câmbio é o poder de compra das moedas — isto é, o quanto cada uma delas esta sendo inflacionada por seus respectivos bancos centrais.  

Da mesma forma, ao contrário do que alega Guido Mantega, não é verdade que, não fossem essas medidas de controle cambial, o dólar hoje estaria muito mais barato (ele alega que estaria a R$ 1,40). Não.  Ele estaria aproximadamente com o mesmo valor que possui hoje.  Quem realmente impediu a desvalorização do dólar foi o Banco Central brasileiro, que nos últimos dois anos expandiu voluptuosamente a quantidade de dinheiro na economia brasileira, reduzindo o poder de compra do real (a inflação de preços acumulada em 12 meses beira os 7%, a maior desde maio de 2005).  Caso o Banco Central tivesse inflacionado menos, aí sim a taxa de câmbio hoje estaria mais apreciada (o dólar estaria mais barato). 

O que vai determinar o câmbio brasileiro no longo prazo é a inflação monetária praticada pelos bancos centrais mundiais.

Reservas internacionais e balança comercial

Por fim, tendo explicado isso tudo, falta agora apenas explicar como um país poderia viver bem, sem sobressaltos, caso não tivesse um setor exportador robusto (com o qual adquirir dólares) e caso não tivesse volumosas reservas internacionais (para acalmar investidores em fuga).

E isso seria relativamente simples.  Ele teria de fazer "apenas" duas coisas: adotar uma política monetária não inflacionista e adotar o respeito absoluto à propriedade privada, assegurando aos investidores estrangeiros a total liberdade de investimentos e a total segurança para seus investimentos, além do total direito à repatriação de lucros.

Caso um país — por exemplo, o Brasil — adotasse uma política monetária não inflacionista, seu câmbio se apreciaria continuamente.  Esse ambiente de moeda estável, com crescente apreciação cambial, é extremamente atrativo para investimentos estrangeiros.  Imagine, por exemplo, que US$ 100 sejam investidos no Brasil quando o câmbio está a R$1,50.  Ao chegar aqui, 100 dólares viram R$ 150.  A uma taxa de lucro de, suponhamos, 10%, R$ 150 viram R$ 165.  Como durante esse período o real foi se apreciando continuamente em relação ao dólar — por causa da política monetária não inflacionista —, suponha que, na hora de repatriar os lucros, o dólar esteja custando R$ 1,30.  Sendo assim, R$ 165 viram US$ 127.  Portanto, 100 dólares viraram 127 dólares, o que dá uma taxa de lucro real de 27%, muito maior do que os 10% iniciais.

Ou seja, o investidor ganha duplamente.  Essa contínua apreciação cambial, em conjunto com a garantia de respeito à propriedade privada e aos contratos, tornaria o país excepcionalmente atraente para investidores internacionais e asseguraria o fluxo de investimentos estrangeiros, o que consequentemente garantiria as importações necessárias para o país.  O país teria divisas estrangeiras sem a necessidade de ter de ficar acumulando reservas.  O país não precisaria acumular grandes reservas internacionais porque os investidores não teriam o que temer.  Um grande volume de reservas internacionais é necessário apenas para países que operam com âncora cambial ou países que não possuem estabilidade macroeconômica.

(Ademais, o que ocorrerá aos 353 bilhões de dólares que o Brasil acumulou como reservas internacionais na eventualidade de o dólar virar pó?)

Mesmo na eventualidade de uma fuga de dólares, a política não inflacionária do país, aliada à liberdade de seu mercado de câmbio, garantiria a pronta estabilização cambial.  Inevitavelmente os investimentos estrangeiros voltariam.

Ou seja, um país pode perfeitamente obter as divisas estrangeiras de que necessita sem precisar para isso ter grandes indústrias exportadoras.  Nesse cenário, tais indústrias poderiam perfeitamente se voltar para a demanda nacional.  E se não houver demanda por seus produtos, seja no mercado nacional, seja no estrangeiro, então é porque ninguém os quer.  E não faria sentido insistir nisso, subsidiando tais indústrias.

Conclusão

O que determina o câmbio é a paridade do poder de compra entre as moedas.  O que vem mantendo a nossa taxa de câmbio quase que inalterada em relação ao dólar é o fato de a paridade do poder de compra entre o real e o dólar estar se mantendo a mesma, em decorrência das políticas monetárias adotadas pelos respectivos bancos centrais do Brasil e dos EUA.  Não tem nada a ver com as medidas manteguísticas — as quais, com efeito, seviram apenas para atrapalhar o mercado e prejudicar investimentos.

O atual nível das reservas internacionais brasileiras de fato ajuda o país a se sair relativamente bem durante uma crise financeira mundial, mas o custo de mantê-las é muito alto.  Seria muito mais eficaz economicamente o país adotar uma política monetária não inflacionária.  O nível de poupança, de investimentos, de acumulação de capital e, como consequência, de enriquecimento seria enorme.  Nossos leitores já sabem como funcionaria uma economia em que a oferta monetária fosse constante.  Com esse adendo aqui apresentado sobre o setor externo, a integração da teoria fica mais completa.

Não se deixe enganar por economistas e jornalistas que esperneiam contra déficits na balança comercial e contra o "perigo" das importações.  Quase sempre estão a soldo de interesses mercantilistas.


11 votos

autor

Leandro Roque
é editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.

  • Angelo T.  25/08/2011 09:25
    Bom texto, Leandro!
  • josiberto  25/08/2011 09:35
    Muito bom o artigo!
    Não tem muito a ver a pergunta com o texto mas gostaria que alguém do site pudesse me explicar o que são M1,M2 e M3. sou totalmente leigo neste assunto é gostaria de entender.
  • Leandro  25/08/2011 13:20
    Josiberto,

    M1, M2, M3 e M4 são tecnicamente chamados de "agregados monetários" e representam mensurações do que vem a ser dinheiro.

    Antes de todos esses, é preciso saber o que é base monetária.

    Base monetária e M1 foram bem explicitados neste artigo. Recomendo bastante a leitura, pelo menos de sua parte inicial.

    Após entender o que é base monetária e M1, você pode partir para M2, M3 e M4.

    Faço aqui o resumo:

    BM = papel-moeda emitido (todas as cédulas e moedas metálicas impressas e cunhadas pela casa da moeda) + reservas bancárias (depósitos compulsórios que os bancos mantém junto ao Banco Central).

    M1 = papel-moeda em poder do público + depósitos em conta-corrente (depósitos do setor privado; depósitos dos governos federal, estaduais e municipais; depósitos de empresas federais, estaduais e municipais; depósitos de instituições financeiras não sujeitas a recolhimento compulsório; depósitos de domiciliados no exterior; cheques de viagem; cheques marcados; cheques-salário; saldos credores em contas de empréstimo e financiamento e obrigações por prestação de serviço de pagamento.)

    M2 = M1 + depósitos em poupança + depósitos a prazo + depósitos de reaplicação automática + letras de câmbio + letras imobiliárias + letras Hipotecárias.

    M3 = M2 + quotas de fundos de investimentos + operações compromissadas registradas no Selic

    M4 = M3 + títulos federais (inclui títulos do Banco Central do Brasil e do Tesouro Nacional em poder do público) + títulos estaduais e municipais em poder do público.


    De início, parece bastante confuso. Mas você deve se preocupar apenas com a BM e o M1.

    Grande abraço!

  • josiberto  25/08/2011 17:18
    Muito obrigado! vou ler atentamente.
  • WFA  25/08/2011 11:19
    Caro Leandro, bastante interessante seu texto, eu acompanho sempre os artigos postados pelo IMB. Eu sou economicamente leigo e estou aprendendo um pouco com vocês. Como leigo eu pergunto. Mas se o câmbio continuar baixando e dizem que assim vai ser, como poderão sobreviver as empresas que dependem fortemente de exportação?\r
    Essa liberdade toda de mercado com a livre entrada de produtos importados não prejudica a industria nacional? O que se vê nos EUA hoje é que é um país que importa tudo , não fabrica nada e sua economia anda mancando, a taxa de desemprego só cresce e todo mundo sente falta da época dos produtos made in usa com grande qualidade. Qual é o futuro então? Se o governo não reduzir impostos e dimuir a carga tributária sobre produtos e salários, o dólar continuar caindo, vamos ver muitas empresas fechando por falta de competitividade e cada vez menos manufatura e mais importações assim como acontece nos EUA? Mas um país que não tem produção pode sobreviver? Porque sem produção há menos empregos e sem emprego as pessoas não podem comprar, correto?\r
  • Leandro  25/08/2011 13:59
    Mas se o câmbio continuar baixando e dizem que assim vai ser, como poderão sobreviver as empresas que dependem fortemente de exportação?

    Se seus produtos perderem mercado no exterior, não há nenhuma lei econômica dizendo que eles não podem ser vendidos no mercado interno. Assim como uma empresa qualquer não pode partir do princípio de que seus produtos serão demandados para sempre ou de que terão um mercado eternamente cativo, empresas exportadoras também não podem partir do princípio de que seus produtos serão demandados eternamente no mercado internacional.

    Se após melhorar a qualidade e cortar custos, ainda assim suas mercadorias não mais estiverem sendo demandadas no exterior, paciência. Os consumidores de lá acharam um substituto. Hora de alterar o foco. Isso é lei de mercado e não pode ser revertida com discursos.

    Essa liberdade toda de mercado com a livre entrada de produtos importados não prejudica a indústria nacional?

    Isso já foi extensivamente discutido aqui e aqui. Se as pessoas voluntariamente optam por produtos importados, você não pode utilizar o chicote para forçá-las a comprar produtos nacionais. Na melhor das hipóteses, isso apenas aumentaria a ineficiência da indústria nacional, que agora agiria sob proteção. Você cartelizaria e privilegiaria todo um setor, em detrimento de todo o resto da economia.

    O que se vê nos EUA hoje é que é um país que importa tudo , não fabrica nada e sua economia anda mancando, a taxa de desemprego só cresce e todo mundo sente falta da época dos produtos made in usa com grande qualidade.

    Isso não é bem verdade, como mostra esse gráfico. Embora o emprego na indústria americana tenha se reduzido, a produção industrial do país (que é o que realmente importa para a economia) seguiu crescendo. Isso chama-se aumento de produtividade.

    Ademais, vale lembrar que os EUA sofrem o "problema" de deterem a moeda internacional de troca. Se a sua moeda é utilizada globalmente como meio de troca internacional, você está na posição de poder apenas imprimir dinheiro e mandá-lo para o exterior em troca de bens e serviços. Pra que ter base industrial se você pode apenas imprimir dinheiro e sair comprando tudo? O banco central americano imprimia dólares e os mandava para o exterior, e em troca esses países devolviam aos EUA produtos de todos os tipos. A coisa aparentemente funcionava. Os dólares enviados ao exterior voltavam na forma de investimento em títulos do governo americano, e o ciclo se reiniciava -- algo que mais parecia um moto-perpétuo. É claro que isso teria de erodir a base industrial americana. Afinal, não fazia sentido o país produzir coisas se ele podia adquiri-las do exterior muito mais facilmente.

    Ademais, outros fatores também tiveram grande peso nessa erosão: sindicatos agressivos que exigiam privilégios crescentes, aumento das regulamentações governamentais, carga tributária crescente, plantas e equipamentos envelhecidos, a cultura do bigger is better -- que gerava desperdício e não estimulava a conservação e a disciplina --, e um descaso para com a qualidade e o design de seus produtos -- que foi onde os japoneses fizeram a festa.

    Sempre lembrando que o objetivo de uma economia não é gerar empregos. Empregos são apenas a consequência de uma economia forte. Empregos são o sinal da saúde de uma economia, assim como um alto nível de energia pode ser um indicativo de um corpo saudável. O objetivo de uma economia saudável é a produtividade. Os empregos são a conseqüência positiva da produtividade.

    Qual é o futuro então? Se o governo não reduzir impostos e dimuir a carga tributária sobre produtos e salários, o dólar continuar caindo, vamos ver muitas empresas fechando por falta de competitividade e cada vez menos manufatura e mais importações assim como acontece nos EUA?

    Só pra esclarecer que impostos e carga tributária sobre produtos e salários não têm nada a ver com o câmbio; não exercem influência nenhuma sobre ele.

    Ademais, quais empresas brasileiras correm o risco de fechar por "excesso de importação"? Duvido que sejam indústrias de ponta. E duvido que sua mão-de-obra não possa ser perfeitamente remanejada para outras indústrias. Preocupar-se com indústria de sapatos é como preocupar-se com a indústria de velas após a invenção da lâmpada. Por maior que seja a concorrência, ela ainda mantém seu nicho. Apenas terá de se contentar com menos vendas. De novo, ninguém tem um direito natural a uma reserva de mercado. Isso é mentalidade de funcionário público.

    Mas um país que não tem produção pode sobreviver?

    Perfeitamente, desde que, é óbvio, siga as políticas prescritas no texto. Esse é que é o problema.

    Grande abraço!
  • WFA  25/08/2011 22:55
    Muito obrigado por esclarecer todas as minhas dúvidas.\r
    gde abraço.
  • Marcos  28/08/2011 02:08
    "Se seus produtos perderem mercado no exterior, não há nenhuma lei econômica dizendo que eles não podem ser vendidos no mercado interno. Assim como uma empresa qualquer não pode partir do princípio de que seus produtos serão demandados para sempre ou de que terão um mercado eternamente cativo, empresas exportadoras também não podem partir do princípio de que seus produtos serão demandados eternamente no mercado internacional.

    Se após melhorar a qualidade e cortar custos, ainda assim suas mercadorias não mais estiverem sendo demandadas no exterior, paciência. Os consumidores de lá acharam um substituto. Hora de alterar o foco. Isso é lei de mercado e não pode ser revertida com discursos."

    Essa eu não entendi bem. Tudo bem perder a competição no exterior. Mas se a moeda do país valorizar demais os consumidores do mercado interno também não vão trocar o produto nacional pelo importado, fazendo a empresa perder espaço também neste? Afinal, o importado seria bem mais barato que o similar nacional. Isso não causaria falência e crise econômica? Por mais que uma empresa seja competitiva e inovadora, seria extremamente complicado competir com rivais que possuem custos cada vez mais baixos por questões cambiais.

    Se este raciocínio estiver correto, também será ruim para os estrangeiros investirem no país, já que seria muito mais vantajoso simplesmente investir em outro país de moeda mais desvalorizada e vender para o primeiro a preços menores. Como evitar isso?


    Também pensei na questão dos lucros vindos da atuação das transnacionais do país no exterior. Estes lucros também seriam uma fonte de dólares para o país. Como eles entrariam neste arranjo?
  • Leandro  28/08/2011 21:42
    Prezado Marcos, permita-me tentar esclarecer melhor a sua dúvida.

    Você diz que:

    "Mas se a moeda do país valorizar demais os consumidores do mercado interno também não vão trocar o produto nacional pelo importado, fazendo a empresa perder espaço também neste? Afinal, o importado seria bem mais barato que o similar nacional"

    Depende bastante. Se o produto vendido no exterior for um substituto perfeito do produto vendido aqui dentro, e se o custo total final de importação for mais baixo do que comprar aqui dentro, e se a qualidade for superior, então é resposta é definitivamente sim. E ainda bem. Se tal atitude revela uma escolha voluntária dos consumidores, então é porque a indústria nacional deixou de ser competitiva nesses quesitos essenciais. Logo, a melhor coisa a ser feita economicamente é que ela libere recursos e mão-de-obra para outros setores.

    Essa é a lei das vantagens comparativas, de David Ricardo. Cada país deve se especializar no que é bom e então fazerem comércio entre si.

    "Isso não causaria falência e crise econômica? Por mais que uma empresa seja competitiva e inovadora, seria extremamente complicado competir com rivais que possuem custos cada vez mais baixos por questões cambiais."

    Aqui você parte do princípio -- muito provavelmente em decorrência das seguidas propagandas negativas regurgitadas pela imprensa diariamente -- que a "questão cambial" é algo artificialmente manipulado, dando a entender que um país que tem uma moeda forte, com alto poder de compra, está condenado a "falências e crises econômicas" porque está com o "câmbio fora do lugar".

    Mas por que ele estaria condenado? Nunca se esqueça de duas coisas:

    1) A demanda sempre e em todo lugar será algo infinito.
    2) A oferta de bens e serviços sempre e em todo lugar será por definição escassa.

    Logo, não é por falta de demanda (interna) e excesso de oferta (externa) que a economia nacional entrará em colapso. Sempre haverá serviços a serem feitos; sempre haverá demandas a serem cumpridas.

    A oferta de bens estrangeiros apenas ajudará a satisfazer parte dessa demanda, algo sempre bem-vindo. A mão-de-obra dessa fatia da indústria nacional que deixou de ser párea para a concorrência estrangeira sempre poderá ser realocada para outros setores. E de novo: é totalmente irreal imaginar que toda a demanda interna poderá ser perfeitamente substituída por todos os bens produzidos externamente. Isso não ocorre nem mesmo nas economias mais abertas do mundo (Hong Kong, Cingapura, Suíça, Dinamarca, Nova Zelândia), as quais apresentam baixo desemprego.

    Por fim, vale lembrar um mito: nos EUA, dizem que os produtos chineses estão desempregando os americanos. Pois sabe qual a fatia do consumo dos americanos vai para produtos chineses? Apenas 2,7%. Isso mesmo. De tudo que os americanos gastam em consumo pessoal, apenas 2,7% disso vai para produtos chineses. Aqui no Brasil o valor certamente é muito menor. E os chineses estão destruindo empregos americanos?

    "Se este raciocínio estiver correto, também será ruim para os estrangeiros investirem no país, já que seria muito mais vantajoso simplesmente investir em outro país de moeda mais desvalorizada e vender para o primeiro a preços menores. Como evitar isso?"

    Aqui você incorre em dois erros:

    1) Imaginar que a única coisa que define decisões de investimentos é o preço final dos produtos. Segundo tal raciocínio, é melhor construir fora e importar a construir aqui dentro e vender diretamente para os consumidores. Por quê?

    2) Ademais, você novamente parte do princípio de que a demanda é algo finito, a oferta é infinita e que não há empregos em nenhum outro lugar que não seja nas indústrias -- de novo, parte do princípio que absolutamente todos os produtos demandados não apenas já são fabricados fora, como também podem ser importados a custo zero. Isso pode ser verdade para um calçado chinês. Mas e para produtos de alto valor agregado?

    É impossível crer que o país não possua vantagem comparativa em nada; é impossível crer que não há nada em que ele possa se especializar para produzir e exportar.

    Lembre-se que um país com moeda forte é um país em que as pessoas gastam menos consumindo mais. Logo, tem-se um mercado interno extremamente forte, com uma população com alto poder aquisitivo. Sobra renda para ser consumida em outras áreas. Não querer investir nesse país, seja na indústria de serviços, seja na indústria de produtos de alto valor agregado, é querer deixar de lucrar.

    Por isso, vale insistir: o problema não é câmbio (câmbio é solução). O problema são as regulamentações burocráticas que encarecem o valor final da mão-de-obra (com encargos sociais e trabalhistas) em conjunto com uma baixa acumulação de capital (o que impede um aumento da produtividade, o que compensaria em parte esses custos trabalhistas).

    "Também pensei na questão dos lucros vindos da atuação das transnacionais do país no exterior. Estes lucros também seriam uma fonte de dólares para o país. Como eles entrariam neste arranjo?"

    Não altera nada. Dólares que vêm para cá têm de ser trocados por reais. Se, por exemplo, houver uma remessa diária extremamente volumosa, isso obviamente irá alterar o câmbio no curto prazo (questão de oferta e demanda). Mas no longo prazo o que vai definir é o poder de compra das moedas -- se, por exemplo, o Banco Central comprar dólares imprimindo reais, aí o câmbio se desvalorizará no longo prazo (supondo-se, é claro, que o Fed imprima menos que o BC).
  • Marcos  29/08/2011 00:12
    Obrigado, Leandro. Ficou bem mais claro.

    Não tinha visto aquele outro artigo sobre trabalho e emprego. É impressionante como as idéias simplistas nos dominam sem que nem percebamos. Nunca tinha parado para pensar sobre as consequências da nossa permanente escassez de bens e serviços.
  • Rafhael  29/08/2011 15:20
    Ola\r
    \r
    você realmente acredita que um pais que não produz nada possa sobreviver desde que siga as recomendações do texto?\r
    \r
    E como é que você vai convencer os investimentos estrangeiros ir para alguma destino sem a menor possibilidade de retorno? \r
    \r
    Investimentos vão em geral para lugares onde eles sentem que existe indicativos de potencial retorno.\r
    \r
    Empresas ativas e competitivas o suficiente para participar no mercado internacional não são indicativos de que o pais tem alguma competencia necessária para atrair tais investimentos?\r
    \r
    "o único benefício trazido pelas exportações é justamente as importações; a única função de se exportar é que, com isso, pode-se importar"\r
    \r
    Na minha opinião além de atrair dolares... exportações expões nossos empresários a diferentes tipos de mercados, forçando a capacitação das empresas para que possam competir no exterior. Geralmente essa capacitação também é aplicada na produção de bens vendidos no mercado nacional beneficiando o consumidor local. Exportações também aumentam ganhos de escala pois quando as empresas produzem mais podem ter melhores negociações na aquisição de materia prima. Por fim exportações atraem investidores estrangeiros que podem ver no Brasil uma opção viavel para se estabelecer e usar o pais como plataforma para exportar para outros paises. Isso tudo significa... gerar mais empregos, renda, oferta de melhores produtos... e por ai vai.\r
    \r
    "a política governamental de estimular exportações e restringir importações só pode ser vista como sadismo governamental, um ato de criminosa privação da população."\r
    \r
    Particularmente não vejo o governo fazendo GRANDES esforços para barrar as importações... pra onde olho só vejo produtos chineses... então não sei onde está o sadismo.\r
    \r
    "o setor exportador possui um lobby muito bem organizado, e como o governo precisa de dólares para compor suas reservas internacionais e para intervir no mercado de câmbio, não é preciso ser um grande cientista político para imaginar que ambos (governo e exportadores) trabalharão em profunda simbiose"\r
    \r
    Talves estivesse melhor escrito se dissesse... as 10 maiores empresas exportadoras do brasil tem um lobby muito bem organizado... pois a exportação dessas 10 maiores empresas mais as exportações agrícolas é o que salva nossa balança comercial... as pobres pequenas e medias empresas estão se virando sozinhas para se posicionar no mercado internacional. E o governo precisa de dolares para intervir no cambio? Qualé... se o governo estivesse realmente intervindo em alguma coisa o cambio não estava a 1,60.\r
    \r
    Particularmente discorco que basta ter uma boa política monetária para manter as contas do pais em ordem. Se fosse tão facil assim todos os paises estariam fazendo isso e não teriamos crises. Ou... se todos fizessem isso.. talvez ninguem estivesse produzindo nada, e só esperando um fluxo positivos de investimentos e ai todos os paises estivessem falidos.\r
    \r
    Essa é só minha opinião... sem muita fundamentação científica ou economica.
  • Leandro  29/08/2011 22:18
    Muitas confusões, Rafhael. Boa parte do que você fala já foi por mim comentada em resposta a outros leitores aqui. Peço que tenha a bondade de ler. Vou tentar explicitar apenas os mal entendidos que você aborda aqui.

    "você realmente acredita que um pais que não produz nada possa sobreviver desde que siga as recomendações do texto?"

    Ora, é claro que não! Impossível uma economia que não produz nada sobreviver. E em momento algum o texto afirma ser possível tal despautério, muito menos chega ao ponto de recomendar isto. Para mais detalhes sobre oferta e demanda, favor ler meu diálogo com o leitor Marcos, aqui mesmo nesta seção.

    "E como é que você vai convencer os investimentos estrangeiros ir para alguma destino sem a menor possibilidade de retorno?"

    Isso também é impossível, e eu jamais defenderia coisa tão asinina. Investimentos só são feitos objetivando bons retornos. E quanto mais alta for a renda da população, quanto mais forte for sua moeda, quanto mais seguro for o ambiente de investimentos, e quanto mais claras forem as leis, melhor. Sem isso, não há grandes chances.

    "Empresas ativas e competitivas o suficiente para participar no mercado internacional não são indicativos de que o pais tem alguma competencia necessária para atrair tais investimentos?"

    Não necessariamente. A América Latina historicamente sempre foi exímia exportadora de bananas, flores e afins. Sem concorrência mundial. Ademais, é perfeitamente possível empresas serem competitivas no mercado internacional obtendo subsídios do governo de seu país, como a Airbus, a Boeing e a Lockheed Martin.

    Competência mesmo está em concorrer livremente (sem protecionismo e subsídios) contra importados.

    "Na minha opinião além de atrair dolares... exportações expões nossos empresários a diferentes tipos de mercados, forçando a capacitação das empresas para que possam competir no exterior."

    Repito o que digo acima. Isso não necessariamente é verdade. Vai depender do ambiente concorrencial. E o mesmo é válido para empresas nacionais que atendem exclusivamente ao mercado interno e que têm de concorrer com produtos importados. Essas também têm que se capacitar e melhorar seus produtos. Por que defender apenas um lado?

    Você está totalmente afetado pelo preconceito contra importações e pelo viés pró-exportações, sem nenhum motivo.

    Apenas enfatizo que, ao contrário do que você está dando a entender, eu não estou pedindo a abolição das exportações. Isso seria tolice. Estou apenas explicando que não procede essa tara por exportações e esse inconcusso temor por importações.

    "Particularmente não vejo o governo fazendo GRANDES esforços para barrar as importações... pra onde olho só vejo produtos chineses... então não sei onde está o sadismo."

    Você encontra bugigangas chinesas. Agora, tenta importar produtos tecnológicos ou de alto valor agregado. Ou mesmo itens de luxo, como perfumes e cosméticos. A carga tributária chega a ser de mais de 100% do preço. Para automóveis, está em 35%. Imagina então quando o governo começar a fazer "grandes" esforços para barrar as importações...

    "a exportação dessas 10 maiores empresas mais as exportações agrícolas é o que salva nossa balança comercial"

    Como assim "salvar a balança comercial"? Para quê? Não leu o texto? Por que você não se preocupa com a balança comercial entre a Bahia e o Ceará?

    "E o governo precisa de dolares para intervir no cambio? Qualé... se o governo estivesse realmente intervindo em alguma coisa o cambio não estava a 1,60."

    De novo, não leu o texto. A única coisa que o governo poderia ter feito para deixar o dólar acima de R$ 1,60 seria fazer com que o Banco Central inflacionasse ainda mais a oferta monetária, em ritmo maior que o Fed. Como a inflação de preços já está em 7% ao ano, ele não poderia fazer isso.

    Não há nenhuma outra medida que pudesse ter sido tomada para deixar o dólar permanentemente acima de R$ 1,60. Peço encarecidamente que você realmente leia o texto antes de falar coisas que já foram abordadas nele.

    Por fim, os dólares comprados pelo BC só poderão influir no câmbio justamente para, no curto prazo, baratear ainda mais o dólar, algo que você é contra (quando há uma saída de capitais e o câmbio sobe, o BC vende dólares justamente para aumentar a oferta e reduzir essa pressão sobre o câmbio. Porém, tal medida só tem efeito no curto prazo, como explicado.)

    "Particularmente discorco que basta ter uma boa política monetária para manter as contas do pais em ordem."

    Eu também. Jamais disse tal bobagem.

    "Se fosse tão facil assim todos os paises estariam fazendo isso e não teriamos crises."

    Países desvalorizam seus câmbios (imprimindo dinheiro) justamente porque estão munidos dessa mesma crença sua: exportações são ótimas e importações são péssimas. Se há crises, é porque eles seguem suas ideias.

    "Ou... se todos fizessem isso.. talvez ninguem estivesse produzindo nada, e só esperando um fluxo positivos de investimentos e ai todos os paises estivessem falidos."

    Como assim ninguém iria produzir nada? Em que circunstância? O ser humano deixou de visar ao lucro? Nem Karl Marx conseguiu conceber isso. Aliás, a crítica dela era justamente oposta: todos os problemas do mundo estavam no fato de o ser humano estar sempre querendo produzir, pois visava ao lucro (e à mais-valia).

    "Essa é só minha opinião... sem muita fundamentação científica ou economica."

    Exato.

    Grande abraço!
  • Bruno  25/08/2011 15:27
    Porque o câmbio não está sujeito a lei da oferta e demanda?
  • Leandro  25/08/2011 15:58
    Bruno, o câmbio está sim sujeito à lei da oferta e da demanda. Só que a lei da oferta e da demanda influi no câmbio no curto prazo, exatamente de acordo com mecanismo descrito no texto. Uma súbita entrada ou uma súbita retirada de dólares obviamente afeta o câmbio no momento; porém, no longo prazo, é a paridade do poder de compra quem determina o câmbio, pelo processo de arbitragem descrito.

    Ademais, se fosse apenas a oferta e a demanda de moeda o que determinasse o câmbio, então o dólar seria hoje a moeda mais desvalorizada do mundo, pois sua oferta supera a de qualquer outra. No entanto, há moedas cuja oferta é muito menor que o dólar -- por exemplo, a moeda do Chile ou da Colômbia -- e que, mesmo assim, valem menos que o dólar.

    Ou você pode comparar a quantidade de reais com a quantidade de francos suíços e ver que o câmbio dos dois nem se aproxima da relação que há entre a quantidade de moeda de ambos.

    Ou você ainda pode comparar o câmbio entre o real e a moeda de Botsuana, o Pula. Quantos brasileiros demandam Pulas diariamente? Devem ser muito poucos. No entanto, 1 Pula custa R$ 0,23, relativamente caro para um moeda pouco demandada -- muito mais caro que o peso uruguaio, que custa R$ 0,08, e que o peso mexicano, que custa R% 0,13.
  • Rhyan  25/08/2011 16:47
    O que fazer com as atuais reservas internacionais?

    Não entendo quando dizem que o BC brasileiro está inflacionando demais a moeda. Está falando do M0 ou do M1? Não percebo esse crescimento vendo o site do BC.

    Obrigado!
  • Leandro  25/08/2011 17:01
    O Banco Central controla apenas a base monetária. Quando ele compra títulos que estão em posse dos bancos, ele cria reservas bancárias -- isto é, ele aumenta a quantidade de dinheiro em posse dos bancos. Daí pra frente, os bancos, por meio do processo de reservas fracionárias, irão criar novos empréstimos (depósitos em conta-corrente), expandindo o crédito, o que aumenta o M1.

    Porém, como você corretamente notou, desde março deste ano o BC vem reduzindo o ritmo da expansão da base monetária (após a forte expansão de 2010). Consequentemente, o ritmo da expansão do M1, principalmente dos depósitos em conta-corrente está bastante contido. Veja o gráfico deste artigo, que mostra que a expansão anual ficou abaixo dos 5% em junho (e seguiu caindo em julho).

    Caso continue nesse ritmo, é bastante possível que haja uma recessão talvez já no quarto trimestre.

    Quanto às reservas internacionais, tudo vai depender do futuro do dólar. O melhor seria deixá-las quietas, por ora. Mas o Banco Central segue desnecessariamente comprando.

    Grande abraço!
  • amauri  25/08/2011 16:53
    Boa tarde Leandro!
    A divida publica sobe todo ano, certo? E as reservas internacionais também, certo?
    Posso concluir que o aumento da divida ajuda o aumento das reservas?
    abraços
  • Leandro  25/08/2011 17:25
    Tecnicamente sim, Amauri, mas algumas nuanças.

    Normalmente, o Banco Central cria reais e compra dólares. Ato contínuo, ele vende títulos públicos (ele não os emite; quem emite é o Tesouro. O BC detinha esses títulos em decorrência de expansões monetárias anteriores) justamente para retirar da economia esses reais que ele criou (processo esse chamado tecnicamente de "esterilização"). Ao fazer isso, a dívida pública em poder do público aumenta.

    Tecnicamente, a dívida pública total não aumentou, pois o BC não emitiu nenhum título público; ele apenas vendeu alguns que estavam em sua posse. Porém, sabemos que o BC trabalha em conjunto com o Tesouro (Ministério da Fazenda), que é quem emite os títulos e que é quem tem grande interesse em manipulações cambiais. Logo, a sequência que realmente ocorre é essa:

    1) O Tesouro emite títulos e capta reais. Os reais serão gastos pelo governo para financiar seu déficit orçamentário e os títulos ficam em posse dos bancos.

    2) O BC cria reais e compra esses títulos em posse dos bancos. Bancos ficam com mais dinheiro em suas reservas e o BC fica com mais títulos públicos em sua carteira.

    3) BC cria reais e compra dólares.

    4) BC vende títulos os títulos públicos e recolhe os reais criados na operação 3.


    Ou seja, de 1 a 4 houve aumento na dívida total do governo. Mas se olharmos apenas as etapas 3 e 4, a dívida total se manteve, mas a dívida em poder do público aumentou.

    (Sempre lembrando que os títulos públicos em posse do BC também recolhem juros, mas não são contabilizados na dívida total do governo.)

    Portanto, uma afirmação mais correta seria dizer que, em consequência do aumento da dívida, há um aumento da compra de dólares pelo BC.

    Abraços!
  • Getulio Malveira  25/08/2011 20:02
    Excelente o texto, Leandro. Confesso que precisei de um pouco de fôlego para terminar dessa vez. Minhas dúvidas:

    1) Você disse que o câmbio é determinado pela paridade do poder de compra. Assim, posso pensar que a comparação entre o preço de um bem em um país e do mesmo bem em outro país me fornece a taxa de câmbio entre as duas moedas. Mas pergunto: ao inflacionar a moeda e elevar a tributação um determinado Estado não distorce o preço relativo desse bem, alterando a taxa de câmbio que vigoraria caso a comparação fosse feita entre dois mercados livres?

    2) A adoção do padrão-ouro seria capaz de impedir que os governos intereferissem na taxa de câmbio?

    3) Por fim, uma dúvida que não tem a ver tanto com o câmbio mas com o comercio internacional: a escola austríaca reconhece como válida a teoria das vantagens comparativas?

    Desde já muito agradeço!
  • Leandro  25/08/2011 20:48
    Prezado Getulio, como assim precisou de fôlego? Meus textos são oxigênio puro... tô brincando, é claro. Fico muito agradecido pelo tempo que dedicou ao meu trabalho. O custo de oportunidade para lê-lo pode ter sido alto -- você certamente abriu mão de outras coisas mais prazerosas para fazê-lo --, mas a vantagem comparativa em relação àquilo de que você abriu mão certamente compensou.

    Ok, tô brincando de novo. Foi só pra descontrair.

    Vamos lá.

    1) É aquilo que falei no sexto parágrafo da seção "A questão do câmbio": se o Banco Central inflacionar e isso provocar uma redução do poder de compra do real em relação ao dólar - porque o Banco Central brasileiro está inflacionando mais que o Fed -, o dólar ficará mais caro em termos de reais exatamente na mesma proporção dessa desvalorização, independentemente da maneira como os preços da economia irão se alterar durante esse processo de depreciação.

    Como você corretamente apontou, a inflação monetária faz com que os preços de todos os bens da economia sejam alterados de maneira desigual e não neutra; os preços dos bens e serviços de alguns setores se alteram mais rapidamente e com maior intensidade do que os de outros setores. Mas, no final do processo, por causa do mecanismo de arbitragem, a taxa de câmbio sempre tenderá em direção ao poder de compra relativo das duas moedas.

    Portanto, é claro que, ao compararmos dois estados, se apenas um inflacionar, este estará alterando a taxa de câmbio que vigoraria caso nenhum dos dois inflacionasse. Se nenhum inflacionasse, a taxa de câmbio seria, suponhamos, de 1:1. Se um inflaciona, sua moeda perde poder de compra e, no final, a taxa será de, suponhamos, 2:1.

    Impostos não afetam o poder de compra da moeda, de modo que eles não podem afetar a taxa de câmbio de longo prazo.

    2) Tudo depende de qual padrão-ouro será adotado. Um padrão-ouro clássico, que existiu até 1913, mantinha um câmbio nominalmente fixo entre os países simplesmente porque as moedas eram meras nominações de um determinado peso de ouro (um dólar valia 1/20 onças de ouro, uma libra esterlina valia 1/4 onças de ouro, de modo que o câmbio entre ambas era fixo em 5:1).

    Porém, o câmbio era fixo apenas de maneira nominal, pois os bancos, via reservas fracionárias, podiam expandir a oferta monetária, criando meios fiduciários e assim alterando o real poder de compra das moedas. Mas como o câmbio era fixo, o processo de arbitragem se dava via perdas de reservas em ouro. Por exemplo, suponhamos que os EUA expandissem mais a moeda do que os britânicos. Os preços internos nos EUA iriam aumentar. Isso faria com que fosse mais vantajoso importar produtos da Inglaterra. Ao fazer tais importações, ouro saia dos EUA e ia para a Inglaterra. Tal processo, uma vez terminado, rearranjaria os preços entre os dois países. Mais ouro na Inglaterra elevaria os preços na Inglaterra. Menos ouro nos EUA reduziria os preços nos EUA. Assim, os preços relativos entre os dois países voltavam a ficar alinhados ao valor nominal do câmbio -- até que houvesse um novo processo expansionário.

    Nesse modelo descrito, o câmbio nominal sempre foi o mesmo, mas o câmbio real -- o que leva em contra os preços entre os dois países -- foi alterado pela expansão monetária. E voltou ao equilíbrio após o término do processo descrito.

    Aí fica ao seu critério definir se isso pode ser visto como intervenção do governo no câmbio ou não -- afinal, os governos, ao protegerem o setor bancário, permitem que estes expandam a moeda, alterando os preços relativos e influenciando o câmbio real.

    Em minha opinião, apenas um padrão-ouro puro -- aquele que em que há 100% de reservas bancárias, em que a oferta monetária se dá exclusivamente de acordo com as forças de mercado, e em que os governos não protegem o setor bancário -- impede realmente que haja espaços para interferências governamentais.

    3) Perfeitamente. Eu pelo menos não conheço nenhum autor que discorde desse conceito ricardiano.

    Grande abraço e mantenha o fôlego!
  • Getulio Malveira  25/08/2011 21:15
    Muito obrigado pelas respostas, Leandro, foram muito esclarecedoras, como sempre. Não se preocupe, guardo sempre uma parte do meu fôlego intelectual diário para ler os artigos do IMB.

    Grande abraço
  • Robson Cota  27/08/2011 00:04
    O que eu não consigo entender é por que os impostos não afetam o poder de compra da moeda. Você usou essa informação pra afirmar que qualquer ação do governo é inócua pra impedir que o mercado ajuste o câmbio para se conformar com o poder de compra das moedas. Mas como o aumento do IOF não afeta o poder de compra?

    E mesmo que não afetasse, essa ação do governo pelo menos atrasa bastante os ajustes de mercado, né?
  • Leandro  27/08/2011 00:34
    Robson, apenas para deixar claro, o governo pode sim perfeitamente alterar o câmbio: basta inflacionar a moeda -- ou, inversamente, reduzir seu ritmo de expansão.

    Quanto aos impostos, eles reduzem a propensão a consumir, mas eles não representam uma adulteração do valor da moeda. Por exemplo, imagine um produto que custa $100 e o governo vai lá e institui um IPI de 15%. O produto agora custa $115. Sim, para os consumidores, ele encareceu, mas a moeda em si não foi adulterada; seu poder de compra não foi modificado. O que houve foi que o governo institui uma espécie de sobretaxa na transação entre você e o vendedor. Caso o governo retire esse imposto, o produto pode perfeitamente voltar a valer $100, mostrando assim que o poder de compra da moeda não foi alterado. Ademais, e tão importante quanto, os preços dos outros produtos que não foram taxados se mantêm o mesmo, o que demonstra que a moeda não perdeu poder de compra.

    O mesmo não ocorreria se, ao invés dos 15% de imposto, o governo aumentasse a oferta monetária em, digamos, 15%. Essa inflação monetária aumentaria o preço não só desse bem em questão, como também de todos os outros bens em 15% (vamos supor aqui, para simplicidade de raciocínio, que o aumento da oferta monetária gera um aumento idêntico no preço do bem em questão), e não teria como isso ser revogado pelo governo -- a menos, é claro, que a oferta de produtos aumentasse no dobro da velocidade do aumento da oferta monetária, restituindo assim o poder de compra de antes.

    No caso específico do IOF, o que ele faz, em teoria, é reduzir a propensão de investidores a colocarem seus dólares aqui (eu disse "em teoria" porque, conversando com gente da área, foi-me garantido que é perfeitamente possível dar um "by-pass" nessa tributação, e de modo legal; mas isso é outro assunto). Porém, essa redução de fluxo de dólares não altera o câmbio de longo prazo, como explicado -- obviamente, o que vai alterar o câmbio são as variações na oferta monetária.

    Quanto à sua última pergunta, de novo, em teoria sim, essa ação do governo atrasa os ajustes de mercado. Porém, se os investidores de fato conseguirem dar esse by-pass, pode até ser que nem atrase tanto assim. Mas isso já é especulação pura de minha parte, e não quero me estender muito nesse ponto porque aí já não há mais teoria.

    Grande abraço!
  • Thyago  25/08/2011 21:27
    Ontem eu li também o capítulo sobre tarifas no livro do Hazlitt, complementa o texto acima...

    Muito bom e pertinente no cenário atual, por sinal...

    Vix hehe
  • Bruno A  25/08/2011 22:17
    Então pela a sua tese da paridade do poder de compra definir o preço, então o famoso Índice Big Mac é um bom indicador para saber se moedas estão supervalorizadas?
  • Leandro  25/08/2011 22:46
    É um índice interessante. Não é perfeito, pois o preço do bem em questão varia muito por causa dos custos trabalhistas de cada local (algo que não está diretamente relacionado ao poder de compra da moeda).

    Também não é bom por se tratar de um bem "non tradable" -- isto é, um bem que não pode ser exportado e importado (você não importa um Big Mac da China, por exemplo). Não se trata de um bem negociado no mercado internacional.

    Em minha opinião, o índice Big Mac funciona melhor como indicador do custo de vida.

    Mas, fora isso, é um bom quebra-galho. Curiosamente, uma edição recente da The Economist mostrou que o real estava sobrevalorizado, o que significa que o dólar deveria estar muito mais caro do que está hoje. Isso está em contradição com Guido Mantega, que fala que o dólar estaria ainda mais barato não fossem suas pirotecnias no mercado de câmbio.

    Eu acho que o atual valor do dólar (que está variando entre R$ 1,55 e R$ 1,65 há uns dois anos) é o correto, e não vejo como o dólar poderia estar mais caro do que isso.

    Abraços!
  • Absolut  25/08/2011 23:01
    Em minha opinião, o índice Big Mac funciona melhor como indicador do custo de vida

    Neste caso, você se refere especificamente ao custo da alimentação, certo?
  • Leandro  25/08/2011 23:06
    Não só, Absolut. Em termos gerais, os preços médios dos produtos devem ser menores em países mais pobres em relação a países mais ricos porque, via de regra, os custos trabalhistas são menores em países mais pobres.

    Por exemplo, o Índice Big Mac apontou que, considerando-se o câmbio, o Big Mac era 44% mais barato na China do que nos EUA. Isso sugeriria que o Yuan estaria maciçamente subvalorizado em relação ao dólar. Porém, quando fizeram o ajuste desses números levando-se em conta o PIB per capita, descobriu-se que o Yuan estava na verdade praticamente pari passu com o dólar -- o que, aliás, não poderia ser diferente, dado que a China praticamente utiliza o dólar como âncora cambial.

    Ademais, a própria The Economist deixa claro que esse seu índice é mais para fazer "comparações divertidas" do que para prever qualquer coisa.
  • Leandro  01/09/2011 14:09
    Saldo da balança comercial cresce 70% em 2011


    A balança acumula saldo positivo de US$ 19,959 bilhões nos oito meses desse ano - alta de 70,8% sobre mesmo período de 2010.

    As exportações no acumulado de janeiro a agosto somaram US$ 166,713 bilhões, com média diária de US$ 992,3 milhões, alta de 31,4% ante janeiro a agosto do ano passado. As importações totalizam no ano US$ 146,754 bilhões, com média diária de US$ 873,5 milhões, o que representa um aumento de 27,4% ante o mesmo período do ano passado.

    economia.estadao.com.br/noticias/economia,saldo-da-balanca-comercial-cresce-70-em-2011,82474,0.htm

    Ou seja, exportações crescem mais que as importações.

    E ainda temos de aguentar "economistas" dizendo que o câmbio está 'artificialmente valorizado', que as importações estão "fora de controle", que a indústria nacional está sendo dizimada por esse "surto" de importação descontrolada e que a balança comercial está perigosamente perto de um déficit.

    Se o câmbio está artificialmente valorizado, como as exportações aumentam 31% estando o mundo em recessão?
  • Rafhael  04/09/2011 20:23
    Ola Leandro

    Os dados apresentados na matéria por si só não explicam a situação do cambio atualmente. É sim um indicador a se tomar em contar, mas acredito que a situação da economia mundial e desvalorização de algumas moedas de referencia podem também estar impactando.

    Sobre a questão da industria, não é possivel inferir nada pelo artigo, pois não ha nenhum indicativo da contribuição de cada setor da economia sobre a porcentagem das exportações.

    Se a maior parte estiver vinculada as exportações de commodities agricolas, que beneficio a industria estaria levando nessa?

    Att
    Rafhael
  • Leandro  04/09/2011 22:17
    Então lascou tudo, Rafhael. Antes, a preocupação era não ter déficits na balança comercial. Depois, passou a ser manter os superávits. Agora, pelo visto, só isso já não basta mais. Além de apresentar superávits, é preciso também ter diversidade na pauta de exportação, com a presença de inúmeros bens industriais...

    Ora, faço-lhe a pergunta: quando foi que o Brasil se destacou pela exportação de bens industriais de alto valor agregado? Desde Dom João VI, só exportamos commodities agrícolas e minerais. Mesmo em 2003, com o dólar a R$ 3,60, não saímos das bananas, laranjas, soja e minério de ferro. Temos apenas a Embraer exportando produtos tecnológicos e olhe lá (e, ao que me consta, a Embraer não sofre a concorrência de importados).

    No mais, o pessoal ainda não entendeu que os estrangeiros simplesmente não querem comprar nossos produtos industriais, independentemente de câmbio. E aí? Vamos colocar uma arma na cabeça deles, obrigando-os a comprar da gente? Isso é que é eficiência.

    Por fim, digo apenas isso: "Não querem comprar nada de nós? Ainda bem. Mais sobra pra gente".

    Abraços!
  • Leandro  14/09/2011 22:52
    A entrada de dólares no Brasil superou a saída em US$ 8,1 bilhões, segundo dados do Banco Central até a última sexta-feira (9). Este já é o quarto mês com maior volume de recursos no ano.

    De um lado, estão os exportadores, que aproveitam a alta da moeda para trazer recursos ao país. Somente pelo comércio exterior, entraram US$ 4,3 bilhões no mês.

    Em relação às operações financeiras, que registram o movimento de dólares para investimentos e também remessas, o saldo está positivo em mais US$ 3,8 bilhões.

    Os números do BC mostram que não houve saída significativa de recursos em nenhum dia do mês por conta da piora na crise externa.

    No ano, entraram no país US$ 67,9 bilhões, 179% a mais que o registrado em todo o ano passado.
    www1.folha.uol.com.br/poder/975095-entrada-de-dolares-no-pais-chega-a-us-81-bilhoes-em-setembro.shtml



    Ou seja, dólares entrando a rodo e, mesmo assim, o câmbio segue se desvalorizando (subiu de R$1,60 pra R$1,72). Aqueles que acreditam que a taxa de câmbio é determinada pelo fluxo de dólares, ou pela balança comercial ou pelo balanço de pagamentos, ficam totalmente perdidos com essa informação aparentemente contraditória.

    Já aqueles que sabem que o câmbio é determinado pelo poder de compra das moedas, e que estão acompanhando a progressão da inflação de preços no Brasil, entendem perfeitamente o que está acontecendo com o câmbio.
  • Maurício Goncalves  14/09/2011 23:11
    Olá, Leandro,

    Já que vc levantou a bola, vc pode elaborar um pouco mais sobre o que mudou nos últimos tempos com relação ao poder de compra das moedas para que o dólar esteja se desvalorizando?

    Abraços

    Maurício
  • Leandro  14/09/2011 23:21
    Maurício, a inflação de preços no Brasil, nos últimos doze meses, está acumulada em 7,23%. O IPCA de junho e julho apresentou taxas baixas, 0,15% e 0,16%, respectivamente. Porém, em agosto, pulou pra 0,37%.

    A previsão é que esse ano ficará acima de 6,5%. E para o ano que vem, o próprio Banco Central admite que ficará acima de 5,5%.

    Enquanto isso, nos EUA, a inflação de preços de agosto ficou em 0%.

    Nesse cenário, não tem como o real não se desvalorizar perante o dólar.

    É claro que tudo pode mudar já no mês que vem, pois as expectativas inflacionárias podem ser revertidas. O intuito aqui, no entanto, é ressaltar que fluxo de divisas ou saldos no balanço de pagamentos não influenciam diretamente a taxa de câmbio -- afinal, pela teoria dos outros, com essa entrada maciça de dólares era para o câmbio ter se apreciado em relação a agosto.

    Grande abraço!
  • Mauricio Goncalves  14/09/2011 23:36
    Obrigado, Leandro, como sempre, muito perspicaz!

    O Mendonção deve tá olhando o dólar e não tá entendendo nada... hehehe

    Abração!
  • Rhyan  19/09/2011 20:26
    Poderia usar toda a reserva para pagar dívidas públicas?
  • Leandro  19/09/2011 22:11
    Não, pois as reservas teriam de ser trocadas por reais. E o M1 total é de meros 2,5 bilhões de reais, ao passo que a dívida total é de 2,3 trilhões de reais.

    Para mais detalhes sobre isso, gentileza ver a minha resposta ao leitor Rene na seção de discussão deste artigo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1108

    Abraços.
  • Rhyan  19/09/2011 22:39
    Não toda a dívida, mas pelo menos toda dívida externa e um pouco da interna.
  • Rhyan  19/09/2011 22:45
    M1 não é 250 bi?
  • Leandro  19/09/2011 23:02
    Sim, sim, 250 bilhões. Desculpe o erro.
  • gilmar  22/05/2012 17:37
    o dólar esta a R$2,00 atualmente.e o BC do brasil está em contração monetária esse ano.Significa que no longo prazo o dólar vai cair bastante,a uns R$1,50 mais ou menos?
  • Leandro  22/05/2012 18:17
    Não necessariamente. Parodiando Júlio César, não basta ter uma política monetária sólida; ela tem de parecer sólida.

    Se você tem um governo que fala explicitamente que quer desvalorizar a moeda, se você tem uma inflação de preços que vem dando sinais de revigoramento, se você tem um Banco Central que até há duas semanas vinha fazendo dois leilões diários de compra de dólar para desvalorizar o câmbio, e se você tem um Ministro da Fazenda completamente tresloucado e ignaro, então não há absolutamente nenhum motivo para os investidores estrangeiros confiarem na solidez da moeda.

    Os idiotas do governo caíram na besteira de sair divulgando que iriam enfraquecer o real, achando que isso seria algo que não traria maiores consequências. Aí bastou um ligeiro agravamento da crise grega para os especuladores já começaram a testar realmente até que ponto o BACEN está disposto a, agora, evitar uma grande desvalorização do real. O governo brincou com fogo.
  • Raphael  20/08/2012 21:20
    Mas Leandro, vc não mencionou que o real somente se desvaloriza se houver inflação interna? Então como os especuladores poderiam provocar uma desvalorização do real?
  • Leandro  20/08/2012 21:51
    Eles não podem "provocar" algo do nada. Eles podem acelerar a ocorrência de algo inevitável. Como? Por meio de especulações baixistas, como as vendas a descoberto (short selling). É isso que especuladores fazem: descobrem bens que estão sobreprecificados ou subprecificados e aceleram, respectivamente, sua desvalorização ou valorização. Foram os especuladores que derrubaram várias moedas asiáticas sobrevalorizadas em 1997, foram especuladores que aceleraram o fim do câmbio semi-fixo no Brasil em 1998 e, mais recentemente, foram eles que aniquilaram os bancos de investimento americanos que estavam com sobre-exposição de títulos hipotecários podres.

    Falando especificamente sobre a atual situação do Brasil, desde o final de março, o BC voltou a expandir a oferta monetária (algo que só se tornou cristalino agora, com os números mais recentes). Veja o primeiro gráfico:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1347

    Os especuladores, obviamente, se adiantaram e acertaram o timing. O câmbio se desvalorizou abruptamente. É a função deles.
  • Lucas Amaro  23/09/2012 10:13
    Leandro, na década de 80, a dívida externa era composta, majoritariamente, por déficits causados por gastos públicos ou privados? Além de sua provável boa resposta, que leitura complementar você recomendaria a respeito?
  • Leandro  23/09/2012 11:14
    A dívida era majoritariamente do setor público e teve duas origens:

    1) O endividamento do estado nas décadas de 1950, 60 e 70 para fazer suas obras estatais faraônicas (com capital estrangeiro);

    2) Os empréstimos baratos feitos pelos americanos durante a década de 1970 em decorrência da alta liquidez gerada pelo aumento da oferta de dólares no mundo. Com o fim do que restava do padrão-ouro em 1971, o Fed tornou-se livre para imprimir dólares a rodo. Estes dólares tinham de ir para algum lugar para obter retornos maiores do que os obtidos nos EUA. Vieram para os políticos da América Latina, que alegremente os aceitaram.

    Com a pancada nos juros dada por Paul Volcker em 1980-82, todos os países com altas dívidas externas quebraram. O serviço da dívida tornou-se alto demais.

    Literatura brasileira falando sobre isso, em detalhes, eu desconheço. Você encontrará muitas obras ideológicas falando que a causa do nosso empobrecimento durante a década de 1980 era a dívida externa, mas não encontrará nenhuma obra analisando as reais causas desta dívida externa, como a questão do fim do padrão-ouro.

    Grande abraço!
  • jose ferraz  14/11/2012 16:55
    Caro Leandro.

    Acabo de receber uma autentica lição de economia ao ler o seu artigo!

    Gostava de lhe fazer uma pergunta... De que maneira o mercado FOREX influencia as taxas de cambio?

    Este mercado especulativo entre divisas é verdadeiro? realmente as operações de compra venda realizadas nesse mercado afectam as taxas de cambio? De que maneira?

    Muito obrigado!
  • Leandro  14/11/2012 23:59
    Obrigado, José.

    Sobre o FOREX, é exatamente dali que saem as cotações das moedas. Trata-se do maior mercado do mundo. Os principais players são os grandes bancos, que participam do FOREX por meio do famoso mercado interbancário global. É neste mercado que as cotações das moedas são definidas (com spreads mínimos) e é nele que há a transferência de dólares (ou euros, ienes, libras, francos suíços) de um banco para outro (tanto para concretizar as transações internacionais de seus clientes quanto para empréstimos interbancários).
  • Andre Canine  20/02/2013 21:06
    Tenho algumas dúvidas:

    No caso dos EUA, os déficts comerciais podem ser considerados ruins porque demonstram um abuso da vantagem de ter a moeda internacional de troca?

    Aumento da produtividade e importações ajudam a evitar uma disparada de preços decorrente de inflação monetária?
  • Leandro  20/02/2013 22:43
    Este arranjo é uma delícia para os americanos. Eles não precisam trabalhar para adquirir bens estrangeiros. Eles podem simplesmente imprimir a moeda (que goza o privilegio de ser a moeda internacional de troca) e adquirir bens estrangeiros.

    Os estrangeiros que vendem para os americanos é que são os otários. Eles vendem bens para os EUA e em troca recebem dígitos eletrônicos, os quais seus respectivos bancos centrais utilizarão para comprar títulos da dívida americana. Ou seja, os estrangeiros mandam bens para os EUA e não recebem nada em troca (apenas quem está no setor exportador se beneficia. Veja este artigo.

    Quanto à segunda pergunta, a resposta é sim.
  • anônimo  20/02/2013 23:12
    No dia que resolverem parar de usar o dólar pra isso, será que eles vão lá e invadem?
  • Leandro  20/02/2013 23:32
    Mas isso já ocorreu. Muammar al-Gaddafi queria criar uma moeda de ouro para seu país, o dinar dourado. Tão logo ele aventou essa ideia, foram lá, mataram o sujeito e colocaram gangues fundamentalistas no poder. Os EUA adoram fundamentalistas no poder porque isso lhes serve de pretexto para contínuas intervenções belicistas no Oriente Médio. Por isso eles derrubam regimes não-fundamentalistas, como o de Saddam no Iraque, o de Mubarak no Egito, o do próprio Gaddafi e agora o de Assad na Síria.

    P.S.: curiosamente, a única ordem que Gaddafi aceitou dos EUA foi a de eliminar suas armas de destruição em massa. Imediatamente depois, invadiram o país e o mataram. Outros ditadores devem ter aprendido a lição.
  • Blah  07/06/2013 10:46
    O curioso é que se você diz uma coisa dessas alguns acham que você está defendendo o Gaddafi. E depois os ingênuos são os libertários...
  • Amanda Lopes  07/06/2013 01:54
    Adorei esse artigo... Tudo o que eu precisava para a minha pesquisa. Sou totalmente leiga em economia, mas com suas explicações eu conseguir entender uma boa parte de como funciona a balança comercial do nosso país. Obrigada.
  • anônimo  15/01/2014 09:27
    Muito bom o artigo! Sei que o texto é antigo, mas não custa arriscar uma pergunta, hehe... Então, Leandro, minha dúvida é com relação a este parágrafo:

    "Há algumas explicações. Em primeiro lugar, como o setor exportador possui um lobby muito bem organizado, e como o governo precisa de dólares para compor suas reservas internacionais e para intervir no mercado de câmbio, não é preciso ser um grande cientista político para imaginar que ambos (governo e exportadores) trabalharão em profunda simbiose. Um precisa da ajuda do outro. Por outro lado, os importadores são difusos e não possuem um lobby organizado (para dizer a verdade, eu nem sei se há algum lobby de importadores). Adicionalmente, importação significa saída de dólares. E saída de dólares significa governo perdendo capacidade de fazer política cambial para ajudar o setor exportador. De novo: não é necessário diploma acadêmico para perceber que importar vai contra interesses tanto do governo quanto do setor exportador."

    Não seria o contrário? Não seria do interesse dos exportadores que mais gente importasse? Afinal, assim, com mais pessoas demandando dólares para fazer compras no estrangeiro, o valor dessa moeda aumentaria, tornando mais baratas as exportações. Mais dólares sendo enviados para fora do país não beneficiaria o setor exportador?

    Espero que responda. Abraços!
  • Leandro  15/01/2014 12:52
    Exportadores também vendem no mercado interno o excedente de seus produtos. Sendo assim, se as importações forem liberadas, este excedente não encontrará mercado consumidor aqui dentro, pois os brasileiros irão preferir comprar produtos importados, que tendem a ser de qualidade mais alta.

    Ademais, como explicado no artigo, o saldo da balança comercial não é determinante para a cotação do câmbio, de modo que um aumento das importações não necessariamente traria uma desvalorização cambial positiva para os exportadores.

    E, mesmo que isso de fato ocorresse, é preciso contrabalançar este efeito positivo (para os exportadores) com o efeito negativo (para os exportadores) mencionado acima. Ou seja, será que a ínfima possibilidade de uma ínfima desvalorização cambial compensa o risco de se perder mercado consumidor interno em decorrência das importações?

    Por fim, vale recorrer à empiria: se este seu raciocínio fosse válido, a FIESP e a CNI seriam inflexíveis defensoras das importações. A realidade, no entanto, é justamente oposta: ambas são protecionistas inflexíveis e defensoras contumazes das desvalorizações cambiais.

    Grande abraço!
  • Sarah Farias  11/03/2014 10:59
    Adorei o artigo...
    Gostaria de saber quais literaturas de fácil compreensão você indica.

    Abraços
  • Anônimo1  21/04/2014 18:11
    Não compreendi muito bem a seguinte parte:
    "'...bem A esteja custando R$ 2 ou US$ 1. E suponha que a taxa de câmbio vigente seja R$ 1 = US$ 1....". Como isso é possível? Alguém poderia me explicar? Grato.
  • Cristiane Portella  18/05/2014 19:45
    Olá Leandro, tudo bem...

    É possível vc me explicar resumidamente, qual a relação da balança comercial com as taxas de juros?

    Agradecida :)

    Cristiane Portella
  • Leandro  21/05/2014 19:28
    Em tese, um aumento da taxa de juros atrai capital estrangeiro, o que valoriza o câmbio e reduz as exportações. Da mesma maneira, um aumento dos juros faz com que aqueles dólares que seriam utilizados por estrangeiros para importar bens brasileiros sejam, em vez disso, utilizados para comprar títulos do governo, o que também reduziria o saldo da balança comercial.

    Mas todas essas relações sao tênues e nem sempre são observadas na prática. Por exemplo, em 2003, a SELIC pulou de 18 para 26,5%, e o saldo da balança comercial aumentou.
  • Henrique  21/05/2014 18:39
    Leandro, me esclareça uma dúvida aqui neste trecho, por favor:


    "Caso um país — por exemplo, o Brasil — adotasse uma política monetária não inflacionista, seu câmbio se apreciaria continuamente."


    Em um outro artigo (ou comentário, não lembro), você aponta que apenas uma política monetária não-inflacionária não é suficiente para promover uma consistente valorização do câmbio, uma vez que esse valor depende também da demanda da moeda nacional no exterior.

    Neste artigo, você parece garantir que isso ocorrerá. Com base em quê?

    ---

    Uma outra dúvida: na equação do PIB:

    PIB = C + I (bens de consumo + bens de capital) + G (gastos inúteis do governo) + E (exportações) - M (Importações)

    Onde entram os investimentos externos? Pelo que compreendi, ele se distribui entre I e G, pendendo mais para G, é correto?

    ---

    Voltando no assunto exportação x importação, supondo que o cenário que apontei no início do comentário se concretize, não é correto afirmar que a valorização da moeda nacional irá disponibilizar bens de capital importados a um custo baixo, diminuindo os custos de produção, permitindo um preço competitivo no exterior mesmo com um câmbio valorizado?

    Se isso for correto, seria possível criar um desenvolvimento sem precedentes sem precisar investir quantias absurdas em inovação tecnológica, apenas pegando carona nas tecnologia desenvolvidas no exterior...

    Claro que só a tecnologia em si não traria tanta economia de custos, seria necessário saber empregá-la de maneira eficiente, usando-a de forma criativa para um corte de custos consistente.

    Mas ainda assim, estaríamos deixando os custos de P&D para os demais países e importando a tecnologia de forma extremamente barata.
  • Leandro  21/05/2014 19:47
    Investimento é sempre I, independente de qual seja a origem do capital. Agora, se o dinheiro estrangeiro está sendo aplicado em títulos do governo para financiar os gastos do governo, isso não é investimento.

    Sobre o câmbio, são três os fatores que determinam suas oscilações:

    1) O primeiro é a inflação monetária e sua inevitável consequência, que é a inflação de preços. A taxa de câmbio é, no longo prazo, definida pelo poder de compra da moeda.

    2) Além da inflação monetária, a taxa de câmbio de curto prazo também é afetada pelo crescimento da economia. Quanto maior o crescimento da economia, maior a demanda por moeda nacional — logo, mais apreciada tende a ser a moeda.  Isso explica a valorização cambial que inevitavelmente ocorre quando o PIB está crescendo.  

    3) A confiança no governo e no futuro da economia. Quando uma economia ainda em desenvolvimento adota uma taxa de câmbio flutuante, sua moeda estará diariamente sujeita aos humores dos especuladores, dos investidores internacionais e de todos os traders que atuam no mercado financeiro. Se eles perderem a confiança no governo, a taxa de câmbio poderá se desvalorizar acentuadamente, e permanecer assim por um bom tempo.

    O artigo acima, e isso foi deixado claro, trabalha com um cenário em que governos e instituições são decentes e confiáveis -- até porque, se não fossem, as reformas citadas ao longo do artigo nem sequer ocorreriam.
  • Kleber  22/10/2014 23:49
    Caro LEandro,
    Achei até interessante seu texto, porém, na parte que vc diz que um investidor aplica USS 100,00, com uma previsão de 10% de lucro, ou seja, receberia um montante de USS 110,00, e, magicamente, com uma depreciação cambial, o investidor receberá USS 127,00, é meio estranho. Concordo que ficará muito mais interessante pro investidor Porém, quem pagará essa diferença de USS 17,00? Ai que esta meu caro. O investidor sabe que nao existe magica, e ficará com muito mais receio de viver aplicando seu dinheiro, por medo de calote. É como aparecer um cara, te pedir R$ 100,00 emprestado, te garantindo que vai devolver R$ 127,00, sendo, que, e você sabe que, aplicando esse valor em qualquer outro lugar, você nao receberá mais que 10% de correção, ou lucro, ou o nome que desejar. Você irá emprestar, ou ficará desconfiado?...Não foge a regra.E quanto a importar mais do que exportar. Se for tão interessante importar, não haveria exportador, ou seja, vc não conseguiria importar de nenhum lugar.E se vc, me apontar algum país de primeiro mundo, que vive numa estabilidade economica, vivendo de deficit na balança, me aponte por favor.
  • Leandro  23/10/2014 01:12
    "na parte que vc diz que um investidor aplica USS 100,00, com uma previsão de 10% de lucro, ou seja, receberia um montante de USS 110,00, e, magicamente, com uma depreciação cambial, o investidor receberá USS 127,00, é meio estranho. Concordo que ficará muito mais interessante pro investidor Porém, quem pagará essa diferença de USS 17,00? Ai que esta meu caro. O investidor sabe que nao existe magica, e ficará com muito mais receio de viver aplicando seu dinheiro, por medo de calote."

    Você claramente não só não entendeu o que foi dito, como ainda inverteu conceitos.

    Em primeiro lugar, não se trata de depreciação cambial, mas sim de apreciação cambial (o dólar fica mais barato em relação ao real).

    Em segundo lugar, não entendi o que você quis dizer com "quem pagará essa diferença de US$17?". Ora, o real se apreciou em relação ao dólar, o que significa que, ao trocar reais por dólares, as pessoas estão dispostas a dar mais dólares por real.

    Isso não implica que "alguém está pagando a diferença" e nem muito menos qualquer tipo de "mágica". Significa apenas que as pessoas estão dispostas a dar mais dólares em troca da mesma quantidade de real -- ou, o que dá no mesmo, dar a mesma quantidade de dólares em troca de menos reais.

    A mesmíssima coisa acontece, por exemplo, quando um celular ou um laptop ficam mais baratos: os vendedores se tornam dispostas a trocar esses produtos por menos reais. Isso por acaso seria alguma "mágica"?

    Por fim, eis o trecho completo (aponte-me o erro, por gentileza):

    "Caso um país -- por exemplo, o Brasil -- adotasse uma política monetária não inflacionista, seu câmbio se apreciaria continuamente. Esse ambiente de moeda estável, com crescente apreciação cambial, é extremamente atrativo para investimentos estrangeiros.
    Imagine, por exemplo, que US$ 100 sejam investidos no Brasil quando o câmbio está a R$1,50. Ao chegar aqui, 100 dólares viram R$ 150. A uma taxa de lucro de, suponhamos, 10%, R$ 150 viram R$ 165. Como durante esse período o real foi se apreciando continuamente em relação ao dólar -- por causa da política monetária não inflacionista --, suponha que, na hora de repatriar os lucros, o dólar esteja custando R$ 1,30. Sendo assim, R$ 165 viram US$ 127. Portanto, 100 dólares viraram 127 dólares, o que dá uma taxa de lucro real de 27%, muito maior do que os 10% iniciais."

    "E quanto a importar mais do que exportar. Se for tão interessante importar, não haveria exportador, ou seja, vc não conseguiria importar de nenhum lugar."

    Nonsense total. Ninguém importa por "ser interessante do que exportar". A pessoa importa simplesmente porque outra pessoa produz algo melhor e/ou mais barato. Dado que é impossível você ser bom e eficiente em absolutamente tudo o que você produz, haverá várias coisas que você terá de importar.
    Isso se chama teoria das vantagens comparativas.

    "E se vc, me apontar algum país de primeiro mundo, que vive numa estabilidade economica, vivendo de deficit na balança, me aponte por favor."

    Estabilidade econômica com déficit na balança comercial? Pois não:

    Hong Kong, EUA, Inglaterra, Áustria (desde 1953), França, Suíça (até 1992), Canadá (desde 2008), Israel (desde 1959).

    E menção honrosa à Espanha, que desde a década de 1950 não sabe o que é superávit comercial, e é bem mais rica que o Brasil em termos per capita.

    Ou vai me dizer que esses países acima não possuem estabilidade econômica?

    Caso ainda tenha mais alguma dúvida, não hesite em entrar em contato novamente.

    Grande abraço!
  • anônimo  23/10/2014 19:39
    Prezado Leandro

    Isso aqui, que eu li em outro artigo "Mas mesmo para esses mercantilistas, uma política de desvalorização cambial não geraria resultados tão agradáveis no curto e longo prazo. No curto prazo, como já dito, há um incentivo para que o câmbio volte ao seu nível original, o que levaria a política a necessitar de doses cada vez maiores e consistentes de compra de moeda estrangeira, o que por sua vez geraria inflação ou déficits cada vez maiores. Consequentemente, mais importante que os próprios déficits ou a inflação "no momento", os agentes econômicos criariam expectativas de inflação futura (seja por causa do déficit ou da emissão direta de moeda), o que agiria exatamente no sentido oposto da desvalorização. Se a moeda local desvaloriza 10% e a inflação esperada sobe em 10%, o efeito final esperado para um comprador estrangeiro é zero (ele conseguiria comprar 10% a mais de moeda local - por causa da desvalorização -, mas o preço em moeda local também exigirá 10% a mais de moeda local para obter o mesmo bem). Essas expectativas incorporadas pelos agentes econômicos acabariam até mesmo com qualquer efeito futuro de curto prazo benéfico no saldo da balança comercial, tão apreciado pelos mercantilistas."

    Não entra em contradição com isso
    "Tendo entendido todos esses detalhes, pode-se compreender por que é desnecessário se preocupar com déficits comerciais ou mesmo com "fuga de dólares". Uma fuga de dólares poderá de fato causar um aumento de juros no país, mas não fará com que, por si só, gere uma progressiva depreciação cambial. A única medida governamental capaz de gerar uma progressiva depreciação cambial é uma contínua inflação da quantidade de dinheiro na economia, pois isso fará com que a moeda nacional perca poder de compra em relação às moedas estrangeiras."
  • rafael  06/11/2014 04:25
    Se o brasil determina que a conversão do real para o dólar ta 1:3 e os EUA determinam que está 1:1, como fica o câmbio?
  • Leandro  06/11/2014 14:10
    E por que os EUA atrelariam o dólar ao real?!

    Se realmente houvesse um presidente maluco nos EUA a ponto de fazer isso, haveria uma fuga imediata do dólar para qualquer outra moeda minimamente mais sensata.
  • Rafael  06/11/2014 14:44
    Entendi. E se um país X adota o cambio fixo pra uma moeda e o outro adota o cambio flutuante pra moeda do país X? Como seria definida a cotação?
  • Leandro  06/11/2014 15:25
    Seria definida pelo valor do câmbio fixo.

    Para entender isso, utilize a razão e a lógica.

    Por exemplo, hoje o dólar está a R$2,50. Imagine que o BC diga que, a partir de agora, este valor estará permanentemente fixo, de modo que ele, o BC, se dispõe a comprar e vender dólares rigorosamente a este valor. O que aconteceria?

    Se você quisesse vender 1 dólar por um valor maior do que R$2,50, você não conseguiria. O comprador iria preferir simplesmente ir ao Banco Central e trocar R$2,50 por 1 dólar. Ninguém iria comprar dólares de você por um preço mais do que R$2,50.

    Ou seja, tal artifício é totalmente eficaz em realmente fixar a taxa de câmbio.

    A partir do momento em que uma agência com poder de criar dinheiro do nada (o BC) estipula o valor pelo qual irá comprar ou vender um determinado bem (dólares), este preço passa a estar travado. Não tem como você vender esse bem por um valor maior do que o estipulado pelo BC, e não tem como você comprar por um valor menor.

    Se o BC se dispõe a pagar R$2,50 pelo dólar, não tem como você comprar dólares por R$2,49 (pois quem tem dólares irá preferir vendê-lo ao BC por R$2,50), e não tem como você vender dólares a R$2,51 (pois o comprador preferirá comprar do BC por R$2,50).

    Mas tal mecanismo só é realmente possível se houver um Currency Board.
  • anônimo  25/12/2014 00:25
    Mas uma coisa eu não consigo entender. Por que em lugares como a argentina, por exemplo, existe mercado paralelo de cambio?
  • Leandro  26/12/2014 10:52
    Porque o governo segura o câmbio em um valor completamente irrealista, o que gera escassez de oferta de dólares.

    Por exemplo, imagine que o governo brasileiro decrete que, hoje, 1 real vale 1 dólar. Dado que o dólar está valendo R$2,70, será meio difícil você encontrar algum otário disposto a vender 1 dólar por 1 real.

    Sendo assim, você só encontrará dólares no mercado paralelo.
  • Luis  27/07/2015 06:35
    O que é atrelar uma moeda a outra? Quais as consequências (vantagens e desvantagens)?
  • Guilherme  27/07/2015 14:21
    Explicado em detalhes aqui:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1601
  • gabriel  06/11/2014 15:52
    Sua frase é contra logica, é como dizer q 1+1=3. Mas como gosto de fazer exercicio de imaginaçao vamos levar esse cenario as ultimas consequencias.

    Se 2 paises utilizassem essa taxa de cambio diferenciada o que teriamos é uma arbitragem realizada ad infinitum. A arbitragem faria com que se chegasse a um preço comum a ambos. Como ambos permaneceriam com essa taxa nessa imaginacao absurda, a unica maneira de honrar o cambio fixo seria criar mais moeda. Nesse caso os 2 paises estariam em uma inflaçao absurda, infinita ja que se poderia ficar no ciclo reais-dolar-reais sempre incrementando a sua quantia. No extremo as 2 economias quebrariam, tao logo o custo de criar mais moedas seja superior ao valor da mesma, o q iria acontecer rapidamente.
  • Roberto Wagner  29/04/2015 19:32
    Que belo artigo. Esclarecedor. Parabens.
  • cleidiane  26/05/2015 17:10
    Não sobre esse assunto, mas não deixa de está ligado, quero fazer os seguintes questionamentos: O que você Leandro acha que aconteceria com o Brasil caso nosso país adotasse uma outra moeda em sua economia, substituindo o Real pelo Dólar? Você acha que nosso país realmente conquistou a estabilidade econômica após a implementação do Plano Real? Por quê?
  • Leandro  26/05/2015 18:00
    1) Não é necessário, atualmente, trocar o real pelo dólar. O real ainda é perfeitamente salvável. Mas é necessário ancorá-lo a outra moeda ou, melhor ainda, a uma commodity.

    O que aconteceria? Explicado em detalhes aqui:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2055

    2) Sobre o Plano Real, foi bem feito. Porém, olhando com o benefício da retrospectiva, havia outro arranjo muito melhor:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1294 (sobre o Plano Real)

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1601 (sobre o que poderia ter sido feito)
  • cleidiane  27/05/2015 13:57
    Agradeço as observações!
  • Jarzembowski  28/05/2015 12:00
    "Por exemplo, se o dólar pula dos R$ 1,60 atual"
    Dólar R$ 1,60. Escorreu uma lágrima aqui.
  • Renan Paiva  19/06/2015 17:44
    qual a importancia da balança comercial superavitaria ou favoravél para os países ?
  • Roberto  19/06/2015 18:16
    Nenhuma. Aliás, eu pessoalmente só vejo desvantagem. Superávit comercial significa que bens produzidos no país foram mandados pra fora, o que significa que a oferta interna desses bens diminuiu.

    Se há mais carne de porco, boi e frango sendo mandadas pra fora, haverá menos aqui dentro pra eu consumir. Os preços subirão e eu comerei menos. Meu padrão de vida caiu.

    Ao mesmo tempo, superávit comercial significa que estamos comprando menos do que mandamos para fora. A oferta geral de bens e serviços aqui dentro diminuiu. Nosso padrão de vida caiu.

    Nunca entendi por que a esquerda é tão fanática com aumentar exportação. Na prática, isso significa que os pobres terão menos produtos ao seu dispor. E os preços dos produtos remanescente serão mais altos. O padrão de vida deles caiu.
  • Rodrigo  05/02/2019 16:22
    -" Superávit comercial significa que bens produzidos no país foram mandados pra fora, o que significa que a oferta interna desses bens diminuiu."

    Não necessariamente. Se o mercado interno para esses bens já esta saturado, o lucro espremido ou capacidade de produção ociosa, sem margem para novos investimentos, não há problemas. Seguindo a teoria de David Ricardo das vantagens comparativas, se você faz muito bem, em grande quantidade e barato, voce detem a vantagem. Também está ignorando os ganhos com a economia de escala e escopo.



    -"Se há mais carne de porco, boi e frango sendo mandadas pra fora, haverá menos aqui dentro pra eu consumir. Os preços subirão e eu comerei menos. Meu padrão de vida caiu."

    Se os produtores Agropecuários exportam, é porque existe uma demanda de países com dinheiro pra pagar o preço. Essa venda está compensando para eles. E o governo pode e deve abrir alíquotas para importação para equilibrar os preços. Livre mercado.



    -"Ao mesmo tempo, superávit comercial significa que estamos comprando menos do que mandamos para fora. A oferta geral de bens e serviços aqui dentro diminuiu. Nosso padrão de vida caiu."

    Não significa nada disso. Superávit não significa diminuir a oferta geral de bens e serviços. Novamente estamos exportando onde existe demanda compensatória ($$$), e se, o determinado item incorrer em preços distorcidos no mercado interno, importações estarão aí para corrigir. Quando você recebe seu salário e consegue poupar, isso pode significar que você foi pão duro e se absteve nesse mês, como também pode ser que você trabalhou mais, melhorou seus produtos e serviços, ganhou mais e poupou.



    -"Nunca entendi por que a esquerda é tão fanática com aumentar exportação. Na prática, isso significa que os pobres terão menos produtos ao seu dispor. E os preços dos produtos remanescente serão mais altos. O padrão de vida deles caiu."

    Novamente não significa nada disso. Não levou em conta a própria concorrência no mercado interno entre os produtos/produtores e nem o tipo de produto e nível de economia de escala na produção. Também existem as alíquotas alfandegárias dos países compradores. Se há a exportação é porque realmente compensa vender mesmo sofrendo taxação, caso contrario ficaria apenas no mercado interno mesmo. A necessidade de outras nações e o poder de compra delas nos colocam em xeque-mate e é assim mesmo, por isso o desenvolvimento é fundamental, para exportarmos coisas com alta economia de escala e escopo e de alto valor agregado
  • Amante da Lógica  05/02/2019 19:15
    "Não necessariamente. Se o mercado interno para esses bens já esta saturado, o lucro espremido ou capacidade de produção ociosa, sem margem para novos investimentos, não há problemas."

    Mesmo para estes casos bastante exclusivos e atípicos que você citou, e que raramente ocorrem, seu raciocínio, embora correto, não anula o que foi dito: sim, superávit comercial significa que bens produzidos no país foram mandados pra fora, o que significa que a oferta interna desses bens diminuiu.

    Isso nem é economia, mas física. Dado que a produção de todo e qualquer bem é finita, então, por definição, se uma parte é mandada para fora, a parte que restou aqui dentro será necessariamente menor.

    Se você refutar esta frase, então você refutou a física básica.

    "Seguindo a teoria de David Ricardo das vantagens comparativas, se você faz muito bem, em grande quantidade e barato, voce detem a vantagem. Também está ignorando os ganhos com a economia de escala e escopo."

    Isto em nada refuta a tautologia de que, se você produz e manda uma parte para fora, a parte que restou aqui dentro será menor.

    "Se os produtores Agropecuários exportam, é porque existe uma demanda de países com dinheiro pra pagar o preço. Essa venda está compensando para eles. E o governo pode e deve abrir alíquotas para importação para equilibrar os preços. Livre mercado."

    Esta sua frase, que não está errada, em nada refuta o trecho que ela pretendeu refutar. Você comparou laranjas com maçãs.

    "Superávit não significa diminuir a oferta geral de bens e serviços."

    Sim, significa. Um superávit comercial significa que estamos comprando menos do que mandamos para fora. Questão de contabilidade básica.

    E a consequência disso é que, por causa do que já foi discutido acima, estamos mandando mais para fora do que trazendo para dentro. Logo, a oferta geral de bens aqui dentro diminuiu.

    "Novamente estamos exportando onde existe demanda compensatória ($$$), e se, o determinado item incorrer em preços distorcidos no mercado interno, importações estarão aí para corrigir."

    De novo, pela terceira vez, esta sua frase em nada refuta o trecho que ela se propôs a atacar. Você continua comparando laranjas com maçãs.

    Com efeito, observe que você, inadvertidamente, até concorda com o texto. Quando você diz que "importações estarão aí para corrigir", você reconhece que houve um desabastecimento interno, o qual necessita de importações para ser reequilibrado. Mas, ora, se exportações necessitam ser equilibradas com importações, então é porque você próprio também reconhece que exportações, por si sós, causam desabastecimento externo.

    E causam mesmo, é claro. Parabéns por também reconhecer isso.

    "Quando você recebe seu salário e consegue poupar, isso pode significar que você foi pão duro e se absteve nesse mês, como também pode ser que você trabalhou mais, melhorou seus produtos e serviços, ganhou mais e poupou."

    Pela quarta vez, absolutamente nada a ver com o trecho que se propôs a refutar.

    "Não levou em conta a própria concorrência no mercado interno entre os produtos/produtores e nem o tipo de produto e nível de economia de escala na produção."

    Aqui você novamente se contradiz. Renegou o que acabou de admitir acima (que exportações precisam ser contrabalançadas com importações), e voltou a afirmar que exportações não afetam a oferta interna, pois esta pode ser compensada com a produção interna.

    Ora, a produção interna não é o ponto. Está-se discutindo balança comercial. Se exporta-se mais do que importa, então, por definição, a oferta interna torna-se menor do que seria caso não houvesse esse superávit comercial. Ponto. Isso nem é economia, mas física. É uma tautologia tão básica, que é até constrangedor discutir. Mas, felizmente, você também reconhece isso, quando abertamente afirmou, lá em cima, que "importações estarão aí para corrigir".

    Como o resto de suas considerações são apenas repetições e pasteurizações de tudo o que você disse quatro vezes acima, que nada têm a ver com o ponto em debate, creio ser desnecessárias rebatê-las pela quinta vez.


    P.S.: minha família mexe com suinocultura. Boa parte do que produzimos (aproximadamente 40%) mandamos para fora, pois preferimos receber moeda forte. Se você quer acreditar que eu mandar 40% do que produzo para a China dá no mesmo que eu desovar tudo aqui dentro do Brasil, e que ambos os arranjos são a mesmíssima coisa e geram os mesmos efeitos no mercado nacional em termos de preço e oferta, então, lamento dizer, mas você não tem muita ideia do que está falando.
  • Pedro  04/03/2016 00:41
    Leandro , ótimo texto cara , muito bem escrito, Parabéns.
  • Guilherme  16/05/2016 21:57
    Leandro, que literatura indicas para entender melhor comércio exterior, balança de pagamentos, comercial etc, se possível sob a ótica austríaca?

    Obrigado
  • Leandro  16/05/2016 22:47
    Duas boas introduções seriam essas:

    mises.org/library/monetary-approach-balance-payments

    mises.org/library/causes-economic-crisis-and-other-essays-and-after-great-depression/html/p/405

    No Brasil, os textos do Mario Henrique Simonsen são bons, mas com algum cuidado, pois de vez em quando surgem alguns escorregões mercantilistas.
  • Guilherme  17/05/2016 01:41
    Obrigado Leandro! Essa é uma das "áreas" da teoria econômica na qual sinto mais dificuldade pois, como é de praxe, os livros textos são bastante enviesados.

    Abraço!
  • Thayara Silva  14/09/2016 04:11
    Boa noite
    Acabei de ler seu texto, foi muito brando e claro.
    Sou estudante de Adm, queria que me ajudasse em uma atividade supervisionadoa da matéria em questão.
    ?Apresente a teoria econômica pertinente a política cambial de aumento de diminuição da alíquota de importação e exportação em relação ao comportamento das empresas importadoras e exportadoras de bens e serviços diante da flutuação dos preços.
    No que puder exclarecer para mim essa questão. Ficarei muito agradecida.
  • Heron Almeid  07/07/2017 13:55
    Porque a balança comercial é tão comentada na imprensa em geral?
  • Realista  07/07/2017 15:11
    Você quer a resposta verdadeira? Para criar manchetes espetaculosas. E também por falta de assunto.

    Mas a culpa não é exatamente da imprensa, pois ela apenas repete tudo o que os economistas convencionais lhe repassam.

    Por que economistas são histéricos em relação à balança comercial?

  • Andre  07/07/2017 15:20
    Herança cultural do fetiche dos governos militares por saldos positivos na tal balança. Países emergentes minimamente sérios fazem alarde no saldo de produtos em que focam sua produção.
  • Anônimo  15/02/2018 19:32
    Leandro, a própria balança de pagamentos pode voltar com a taxa de câmbio caso essa seja desvalorizada? Acho que esse exemplo não foi citado no texto, pois ao meu ver é diferente de arbitragem.

    Supondo que um país acumule déficits na balança comercial, e seu cambio se desvalorize (de uma maneira ínfima e curta como você argumentou no texto). A tendencia das exportações é aumentar então, já que os nossos produtos ficaram mais baratos la fora...isso por si só faria com que mais dólares entrassem na economia, e com isso, o cambio volta a aproximar de seu valor anterior.

    Este raciocínio também é correto?
  • Leandro  15/02/2018 19:58
    "Supondo que um país acumule déficits na balança comercial, e seu cambio se desvalorize"

    O problema é que não existe essa relação. No longo prazo, o que define o câmbio é a paridade do poder de compra das moedas, e isso nada tem a ver com balança comercial e pagamentos. Logo, no longo prazo, balança comercial e de pagamentos nada terá a ver com o câmbio.

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2402

    "A tendencia das exportações é aumentar então, já que os nossos produtos ficaram mais baratos la fora..."

    Também não existe essa relação. Aliás, ela é ao contrário: desvalorização cambial, ao contrário do que dizem os "especialistas", reduz as exportações.

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2378

    www.mises.org.br/BlogPost.aspx?id=2277
  • Anônimo  15/02/2018 20:11
    Mas a desvalorização cambial que eu me referi, seria a curto prazo. Se um BC inflacionar a quantidade de moeda em uma economia, o cambio ficaria destruido a longo prazo como vc disse. O próprio texto diz que a curto prazo tem uma desvalorização que rapidamente é corrigida. A minha pergunta é se uma maior entrada de dólares na economia faz com que a desvalorização seja corrigida de uma maneira mais rápida.
  • Emerson Luis  11/06/2018 15:36

    Pode não existir lobby pró importações,
    mas existe lobby contra.

    * * *
  • Davi  02/08/2018 08:28
    Como Mises em 1911 dizia que no longo prazo a taxa de câmbio é determinada pela paridade do poder de compra da moeda, sendo que o modelo Geary-Khamis surgiu na década de 1970? O modelo também não seria incoerente com a praxeologia?
  • Breno  02/08/2018 14:43
    "Como Mises em 1911 dizia que no longo prazo a taxa de câmbio é determinada pela paridade do poder de compra da moeda, sendo que o modelo Geary-Khamis surgiu na década de 1970?"

    Não entendi. Pra começar, o dólar Geary-Khamis nada tem a ver com a teoria de Mises. Em segundo lugar, ainda que Geary-Khamis tivesse a ver com a teoria de Mises, por que esta não poderia ter surgido antes daquela? Apenas comprovaria a genialidade do austríaco.

    "O modelo também não seria incoerente com a praxeologia?"

    Entendi menos ainda.
  • Davi  02/08/2018 15:00
    Acabei me confundindo na pergunta. Pensei que a PPC tinha surgido na década de 1970 junto com o dólar Geary-Khamis, por isso fiquei na dúvida...mas pesquisando bem, vi que na verdade que a primeira evidência do PPC surgiu no século XVI na Escola de Salamanca.


Envie-nos seu comentário inteligente e educado:
Nome
Email
Comentário
Comentários serão exibidos após aprovação do moderador.