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O início do fim da bolha imobiliária?

Notícias vindas de várias cidades do país — embora venham com mais intensidade da cidade de São Paulo — indicam que a bolha imobiliária brasileira pode estar começando a desinflar.

Uma recente reportagem do Valor Econômico, de 8 de julho, informa:

Embora ainda não haja nenhum indicador oficial que confirme ou aponte queda nas contratações, para muitas empresas, a crise da escassez de mão de obra dá claros indícios de arrefecimento. Uma resposta à desaceleração do setor imobiliário no segundo trimestre de 2011.

(...) "A euforia acabou e, inclusive, alguns desses profissionais contratados a peso de ouro já estão sendo liberados", completa um executivo do setor.

"O quadro está revertendo e, em algumas obras, os funcionários estão sendo dispensados, o que não acontecia antes.", afirma Adalberto Bueno Netto, sócio da Bueno Netto, empresa que incorpora e constrói obras próprias e para terceiros.

Na avaliação de um diretor de uma companhia aberta, a situação já foi mais crítica. "As contratações voltaram à normalidade", diz. "A velocidade de vendas no segundo trimestre caiu sim, está mais difícil vender imóveis caros em regiões nobres", admite.

O excelente blog Observador do Mercado vem compilando notícias a respeito, dentre as quais chamo a atenção para as seguintes:

Venda de imóveis novos recua 34% em São Paulo no ano

As vendas de imóveis novos residenciais na capital paulista registraram queda de 34,3% nos primeiros cinco meses do ano ante igual período em 2010, somando 8.964 unidades comercializadas, de acordo com a pesquisa do Secovi (Sindicato da Habitação) de São Paulo divulgada nesta quarta-feira.

 

Venda de imóveis usados em SP cai pelo 2º mês consecutivo

A venda de imóveis usados na capital paulista voltou a cair em maio, de acordo com levantamento divulgado nesta quinta-feira pelo Creci-SP (Conselho Regional de Corretores de Imóveis do Estado de São Paulo). Foi a segunda queda consecutiva na comparação mensal.

Segundo a pesquisa, feita com 476 imobiliárias, o índice de vendas foi de 0,5221 em abril para 0,4937 no mês seguinte.

A locação de imóveis residenciais na cidade também teve queda, de 3,31% em maio ante abril, acumulando três meses de baixa.

 

Faturamento do varejo de material de construção cai 30%

O faturamento do comércio varejista da região metropolitana de São Paulo registrou queda de 3,8% em comparação a maio de 2010, segundo pesquisa divulgada nesta quinta-feira, 14, pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomercio). (...)

A queda no faturamento do comércio varejista em maio ante o mesmo mês de 2010 foi puxada por um recuo forte no desempenho de quatro setores: lojas de material de construção (-29,4%), eletrodomésticos e eletroeletrônicos (-22,6%), móveis e decorações (-19,3) e lojas de departamento (-11,7%).

Ainda é cedo para prognósticos, porém uma análise da evolução da oferta monetária da economia brasileira fornece um bom indicador sobre o que está ocorrendo. 

Analisemos, por exemplo, o crescimento anual dos depósitos em conta-corrente, que são a principal medida do dinheiro líquido da economia.  Por que escolher os depósitos em conta-corrente?  Porque é sobre o volume das contas-correntes que se baseiam todas as formas de crédito do sistema financeiro de uma economia.  Todas as outras aplicações financeiras — sejam elas renda fixa, curto prazo, multimercado, referenciado, ações, depósito a prazo[1] etc. — são meros papeis que, para serem convertidos em dinheiro, precisam antes ser vendidos para algum agente obviamente disposto a comprá-los.  E este só irá fazê-lo se tiver dinheiro disponível em sua conta corrente. 

Dito isto, o gráfico a seguir mostra a variação percentual ocorrida no volume dos depósitos em conta-corrente em relação ao mesmo mês do ano anterior — por exemplo, em fevereiro de 2008, o volume de contas-correntes era 20% maior que em fevereiro de 2007; em agosto de 2008, era 5% maior do que em agosto de 2007, e por aí vai.  Ele dá uma boa idéia sobre se está havendo uma aceleração, uma desaceleração ou uma retração na expansão destes depósitos:

VCC.png

Observe que a forte desaceleração ocorrida em 2008, chegando a haver uma contração anual nos meses de novembro e dezembro de 2008, bem como janeiro de 2009, contribuiu para a recessão observada naqueles dois trimestres (4º trimestre de 2008 e 1º trimestre de 2009).  A partir de junho de 2009 recomeça a expansão creditícia, que atinge o ápice nos meses de agosto e setembro de 2010.

A parti dali, começa a haver uma nova desaceleração na taxa de expansão.  Em junho agora, os depósitos em conta-corrente estavam apenas 4,38% maiores em relação a junho de 2010.

Um exemplo prático da influência dessa desaceleração da expansão do crédito sobre a economia pode ser verificado no setor de bens de capital (produtos industriais, máquinas e equipamentos utilizados na indústria de transformação).  Quando há uma expansão do crédito e os juros diminuem, há um incentivo ao empreendimento de investimentos de longo prazo (como construção de imóveis).  Tais investimentos demandam o uso maciço de bens de capital.  Sendo assim, este setor é um dos primeiros a ser afetado por variações na oferta monetária. 

A variação dos preços no setor de bens de capital anda praticamente pari passu com a variação da oferta monetária.

Eis o gráfico do comportamento dos preços dos bens de capital:

cewolf (1).png

A forte desaceleração da expansão da oferta monetária vem provocando um aumento dos juros para os empréstimos tanto para pessoas físicas quanto para pessoas jurídicas.  Esse aumento dos juros, ao que tudo indica, está arrefecendo o desejo de se iniciar novos empreendimentos, algo que, por sua vez, está reduzindo a demanda por novos bens de capital — e isso fez com que o IPA (Índice de Preços ao Produtor Amplo) apresentasse deflação de preços em maio e junho.

Essa desaceleração da expansão da oferta monetária, e seu concomitante encarecimento do crédito, está tirando a sustentação da bolha imobiliária, bem como da até então vigorosa expansão econômica brasileira.

Tendência

Caso esta tendência continue, isto é, caso o Banco Central continue deixando que o crédito encareça e a oferta monetária se expanda a taxas cada vez menores (relembrando, a taxa de expansão anual dos depósitos em conta-corrente caiu de 19% para 4,4% em nove meses), é possível que haja uma recessão durante algum trimestre vindouro, talvez no último trimestre deste ano ou no primeiro trimestre de 2012.

Entretanto, e isso deve ser muito enfatizado, tudo vai depender de como o Banco Central vai continuar se comportando.  Caso ele, já no próximo mês, reverta a atual postura, nitidamente contracionista, e adote uma mais expansionista, tanto a desaceleração econômica quanto a desinflação da bolha imobiliária podem ser revertidas — porém, ao custo de uma inflação de preços acima do teto da meta.



[1] Depósitos a prazo, assim como todas as outras opções ali citadas, por si só, não expandem a oferta monetária.  Porém, esse dinheiro, quando gasto pelo tomador de empréstimo, cai na conta-corrente de outra pessoa, o que, por causa do sistema bancário de reservas fracionárias, dá continuidade ao processo de expansão monetária.  Ademais, o indivíduo que possui um depósito a prazo sempre tem a opção de resgatá-lo antes do seu prazo de maturação (pagando uma multa, é claro).  Ao fazer isso, o banco terá de vender esse papel para outro comprador a fim de que este forneça o dinheiro necessário para que o banco restitua o indivíduo que está sacando seu depósito a prazo.  E isso vai depender das contas-correntes.



autor

Leandro Roque
é editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.

  • anônimo  17/07/2011 17:32
    Aqui em São Paulo os preços já começaram a cair, mas muito timidamente.
  • juliano  03/08/2011 13:27
    os negócios imobiliários aqui em Balneário Camboriú/SC também estâo bem parados... e os valores estão baixando bastante...
  • Zeh  18/07/2011 00:48
    Hora de vender os imóveis e aplicar em coisa mais sólidas?
  • André Poffo  18/07/2011 20:34
    Com o perdão do trocadilho, o que pode ser mais sólido que imóveis, neste momento?
  • Joao  19/07/2011 07:41
    É preciso um pouco de cuidado com imóveis agora. O excesso de dinheiro jorrando para a construção civil leva ao encarecimento de casa, apartamentos, etc. Regiões que antes eram tranquilas e por isso mais caras ficaram infernais, e o valor dos imóveis chega a cair porque ninguém mais aguenta o barulho.

    Há algumas coisas que me preocupam nesse oba-oba imobiliário:
    * Em algumas cidades, o aumento do valor médio dos imóveis é tão grande nas regiões centrais que o cidadão comum - que não vê seu salário acompanhando essa valorização - é obrigado a procurar regiões cada vez mais distantes e cada vez piores para morar.
    * Não há mão de obra para tudo isso. Quem conhece alguém que trabalha em empreiteiras e afins pode confirmar isso. Obras estão atrasando porque falta gente qualificada para concluir as obras. E aí, o que acontece? Ora, a mão de obra fica mais cara. Quem se ferra novamente? O cidadão comum, que está com seu salário achatado há anos e começa a ter dificuldades para contratar um pedreiro para fazer uma pequena reforma em sua casa.
    * Os materiais de construção ficam mais caros para o cidadão comum, já que a maior parte vai para grandes empreiteiras, que fazem construções sobre construções, tudo com subsídios e, consequentemente, com dinheiro público.

    O futuro é preocupante.
  • Leandro  19/07/2011 08:40
    Prezado João, você fez um resumo perfeito de uma das etapas do ciclo econômico.
    A expansão do crédito faz com que o dinheiro vá majoritariamente para um determinado setor da economia (no caso brasileiro, para o setor imobiliário).
    Consequentemente, recursos econômicos -- maquinário, matérias-primas, metais e mão-de-obra -- começam a ser desviados para esse setor.

    Enquanto os juros se mantiverem baixos, isto é, enquanto estiver havendo essa expansão do dinheiro e do crédito, esse cenário irá se manter. Consequentemente, há um aumento do emprego no setor que recebe esses investimentos adicionais.

    Porém, como essa redução nos juros não foi causada por um aumento na poupança (isto é, pela abstenção do consumo), mas sim pela simples manipulação dos juros feita pelo Banco Central, não houve uma liberação de recursos de um setor para ser utilizado em outro setor.

    Traduzindo: mais dinheiro na economia aumentou a demanda por mão-de-obra e por recursos na construção civil, mas ao mesmo tempo o setor de serviços e o de comércio continuou precisando de mão-de-obra e de recursos, pois não houve aumento na poupança (abstenção de consumo). Assim, começa a haver um "cabo-de-guerra" por mão-de-obra e por recursos. Ao mesmo tempo em que uma construtora passa a demandar mais engenheiros, arquitetos, mestres-de-obras, corretores, vendedores, relações públicas etc., o setor de serviços e o comércio continuam demandando com a mesma intensidade esses profissionais, pois as pessoas não estão poupando, o que significa que o consumo segue aquecido em todos os setores -- a redução dos juros, como dito, não veio da poupança, mas sim da criação de dinheiro pelo Banco Central.

    Houvesse poupança genuína, a mão-de-obra e os recursos de um setor seriam liberados para outro setor. Como não há poupança, esses fatores de produção começam a ser disputados via aumentos salariais e de preços.

    Enquanto estiver havendo essa expansão do dinheiro e do crédito, mas os preços continuarem contidos, os números positivos da economia irão durar. A demanda por bens e serviços irá continuar em alta. Os estoques das empresas serão prontamente vendidos. Apartamentos continuarão sendo vendidos na planta. Novos empreendimentos continuarão sendo iniciados. Carros zero continuarão sendo vendidos aceleradamente. Novos restaurantes e novas lojas continuarão sendo abertos. Os preços e os lucros continuarão subindo. Trabalhadores continuarão encontrando empregos a salários nominais cada vez maiores.

    O único detalhe chato de tudo isso é que tal expansão não pode durar.

    Em algum momento, essa expansão monetária começará a provocar um aumento generalizado nos preços, como já vem acontecendo no Brasil. Haverá uma reversão na política monetária e o boom chegará ao fim. A intensidade da recessão que virá a seguir vai depender exatamente da intensidade do boom que a precedeu, bem como do quanto o governo atrapalhará.
  • Marcel  20/07/2011 17:01
    Concordo João,\r
    \r
    O futuro é preocupante. Hoje moro em Teresina, capital do Piauí. Por aqui o que se vê é uma especulação imobiliária que acaba prejudicando o cidadão que realmente quer comprar uma casa, terreno ou apartamento para morar. Os preços estão totalmente fora da realidade. É surreal imóveis dobrarem/tripicarem/quadruplicarem o valor em 5 anos. Acho que se considerarmos o gráfico da bolha imobiliária, por aqui estamos na fase da desilusão, onde corretores e proprietários elevam o preço dos imóveis baseado no mercado que consideram estar "aquecido" e acreditam que vale o preço que pedem. Muitas pessoas estão comprando imóveis nesses preços absurdos imaginando que no futuro valorizarão mais ainda, inclusive se apertando financeiramente, destinando boa parte de suas rendas para arcar com prestações altas e prazos logos de financiamentos. Na minha opnião existe sim essa "bolha", que vai estourar quando o bolso do consumidor não conseguir acompanhar as altas prestações dos financiamentos. Haverá uma grande quantidade de imóveis prontos a venda sem demanda suficiente para comprar e os preços dos imóveis cairão.
  • amauri  18/07/2011 07:44
    Bom dia Leandro!
    Os olhos estão para os EUA. O aumento do teto da divida pode melhorar realmente as coisas por lá?
    abs7hg38
  • Leandro  18/07/2011 07:52
    De modo algum, Amauri. Aumentar o teto da dívida significa que o governo poderá incorrer em mais déficits e, consequentemente, mais inflação monetária. Quanto mais déficits e mais inflação monetária, maiores os gastos do governo. Quanto maiores os gastos do governo, mais recursos ele toma da iniciativa privada, menos recursos sobram para ser utilizados em investimentos produtivos e mais pobre fica a sociedade -- algo já ocorrendo explicitamente com os EUA.
  • Luciano  18/07/2011 10:30
    Caro Leandro\r
    \r
    Esta tendência pode ser extendida à Ibovespa? Acessei o gráfico do Ibovespa no mesmo período dos gráficos apresentados por você neste texto e observei a grande semelhança entre eles. \r
    \r
    Luciano
  • Leandro  18/07/2011 14:02
    Caro Luciano, em minha opinião, sim. Sem a criação de novo dinheiro para ser injetado na bolsa, não tem como esta apresentar uma alta generalizada e sustentada -- daí o Ibovespa estar patinando durante todo este ano.

    Abraços!
  • Djalma  18/07/2011 11:36
    Aumentar o teto da dívida aumentará o problema mais ainda! Esses "fanáticos keynesianos" não têm limites para as sua loucuras!
  • João  18/07/2011 11:46
    Aumentar o teto da dívida resolve os problemas assim como:
    - Aumentar o limite do cartão de crédito resolve os problemas de quem não está conseguindo nem sequer realizar o pagamento mínimo da fatura
    - Aumentar o limite do cheque especial resolve os problemas de quem não está conseguindo pagar as contas com o salário que está recebendo
    - Realizar um empréstimo resolve os problemas de quem precisa para cobrir outro já realizado.
  • Arnaldo  18/07/2011 13:11
    Muito esclarecedor o artigo.Parabéns.
  • Túlio  19/07/2011 08:47
    Outro ótimo artigo.\r
    Parabéns
  • amauri  19/07/2011 10:29
    bom dia Leandro!
    O governo americano fez uma proposta de reduzir 83% dos gastos e aumentar 17% os impostos. Voce sabe dizer, aproximadamente, quanto o governo gasta e quando ele recolhe de impostos? abs
  • Leandro  19/07/2011 10:46
    Amauri, certamente esta notícia está errada. Nunca que o governo vai cortar os gastos em 83%. Isso seria um sonho quase que anarcocapitalista.

    Quanto às suas perguntas, são fáceis:

    O governo americano gastou 3,8 trilhões em 2010 e arrecadou 2,4 trilhões (déficit de 1,4 trilhão).

    Confira o gráfico:

    research.stlouisfed.org/fredgraph.png?g=1bt

    Abraços!
  • Joao  19/07/2011 12:08
    Os planos de contenção de gastos nos EUA são fantasiosos. Os democratas não querem aceitar nenhum tipo de corte, porque, para eles, isso seria uma tragédia. Afinal, sem os gastos do governo, o desemprego vai subir, começará uma escalada de preços e o cidadão americano ficará meses sem emprego! Ei, espere, isso já está acontecendo enquanto o governo gasta dinheiro.
    Os Republicanos querem planos de cortes de gastos nos próximos anos, nas próximas décadas. A coisa é mais ou menos assim: "Olha, a gente vai ter que aumentar o teto da dívida para gastar mais agora, mas prometemos, mais uma vez, que no futuro nós iremos cortar gastos!". Ou seja, querem adiar o problema para o futuro porque, no futuro, entra outro presidente, e este poderá simplesmente ignorar o que foi prometido antes.
  • Roberto Chiocca  19/07/2011 11:27
    Leandro, nunca tinha visto este gráfico, ele certamente tem relação com o fim do "padrão ouro", pois até 1970 as linhas andam mais proximas, seria legal fazer esta correlação.
  • Leandro  19/07/2011 11:33
    Bom, de minha parte já fiz isso. Aqui:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=687

    Infelizmente não tive à época o lampejo de colocar ambas as variáveis no mesmo gráfico.
  • amauri  19/07/2011 15:14
    Boa tarde Leandro!
    Li a pouco um comentarista dizer que o governo americano cortando subsídios aumenta a arrecadação. Está errado, não está? Acho que isto diminui a despesa. O corte do subsidio aumentara o peço final ao consumidor, se a demanda continuar aí sim aumenta a receita por causa dos impostos. É isso.abs
  • Rafael Hotz  19/07/2011 21:34
    Leandro, estou fazendo uma análise do setor para o Clube de Vienna e também estou chegando a conclusão que não só a bolha imobiliária, mas o ciclo econômico inteiro está virando no Brasil. Porém, os dados mais recentes do Secovi-SP apontam que as vendas de imóveis subiram em abril e maio. Particularmente eu acho que essa bolha vai demorar um pouco pra estourar, principalmente porque eu acho que vai ter QE2 no Reino Unido, na Zona Euro e QE3 nos EUA.

    Por fim, você citou os depósitos a prazo como não sendo oferta monetária. Na minha análise eu tentei plagiar Salerno, Shostak e outros e tentei calcular a Oferta Monetária Austríaca para o Brasil. E nela eu incluí sim depósitos a prazo, porque os bancos costumam oferecer resgate instantâneo e sem desconto sobre a aplicação (excluído o tempo para que a operação seja processada). A decisão de resgate "at par" tende a ser unilateral em favor do cliente. Mesmo que não seja assim para todos os depósitos a prazo (em alguns há prazo de carência), não há como separar os montantes, sendo prudente incluir o agregado. Ainda sim, meus dados (próximos ao M2) também mostram que o ritmo de crescimento da ofera monetária está muito baixo.
  • Leandro  20/07/2011 08:23
    Prezado Rafael, as notícias de abril e maio realmente são essas. Porém, relatos de junho e julho, tanto da imprensa quanto do boca a boca, já mostram uma reversão de tendência.

    Quanto à oferta monetária, dá uma boa discussão. Antes de tudo, é preciso levar em conta que lá nos EUA há esse debate acirrado sobre a definição de dinheiro simplesmente porque, ao longo do tempo, várias modalidades de "depósitos à vista" foram sendo criados, isto é, várias aplicações bancárias passaram a ser redimidas instantaneamente pelo seu valor nominal, como se fossem contas-correntes. Existem cadernetas de poupanças em bancos comerciais e em bancos específicos para poupança (credit unions & thrifts) que funcionam ambas como contas-correntes, no sentido de que você pode fazer pagamentos emitindo cheques contra elas.

    Eu particularmente sou contra a inclusão de depósitos a prazo como determinante expressivo da oferta monetária. Como você bem disse, "alguns bancos costumam oferecer resgate instantâneo e sem desconto sobre a aplicação [...] A decisão de resgate "at par" tende a ser unilateral em favor do cliente."

    Correto, mas veja que esta é praticamente a mesma definição dos Money Market Mutual Funds nos EUA. Lá, os MMMFs são aplicações bancárias contra as quais você pode emitir cheques e que são resgatáveis ao valor de face, sem multas e sem atraso. Entretanto, os MMMFs nada mais são do que papeis aplicados em um portfólio de alta liquidez (investimentos de curto prazo) que precisam ser vendidos em troca de dinheiro; dinheiro este que, aí sim, virá para a pessoa que está sacando. Ou seja, não representam dinheiro líquido prontamente disponível, como é o caso de depósitos em conta-corrente.

    Penso que os depósitos a prazo no Brasil funcionam da mesma forma. Para o sujeito resgatar dinheiro da conta a prazo dele, o banco precisa vender papeis para outra pessoa. E é o dinheiro desta pessoa que virá para você. Isso significa que depósitos a prazo, per se, não alteram a oferta monetária.

    Porém, podemos ir ainda mais longe: por que não incluir os depósitos de poupança? Afinal, quase todos os bancos hoje oferecem a conta-poupança, que nada mais são do que depósitos em conta-corrente que oferecem o mesmo rendimento da poupança. Isso significa que os bancos pegam a conta-corrente do sujeito e aplicam na poupança. Quais as consequências disso?

    Farei aqui uma digressão (tente não perder a linha de raciocínio).

    Outro dia estava conversando com um dono de restaurante e fiquei surpreso quando ele me disse que os pagamentos em cartão de débito demoram de dois a três dias para cair na conta dele. Quando o pagamento é realizado numa sexta-feira à noite, só costuma cair na conta dele numa quarta-feira de manhã.

    Ao saber disso, fui conversar com um conhecido que trabalha no setor bancário. Foi aí que me caiu a ficha: os bancos diariamente transferem um significativo volume do dinheiro que está parado na conta-corrente das pessoas e das empresas para outras aplicações de curto prazo em benefício deles próprios. Às vezes fazem isso para "burlar" o compulsório (pois, ao retirar dinheiro das contas-correntes, o dinheiro que deve ficar preso no compulsório é necessariamente menor), e às vezes fazem isso para obter rendimentos extras. É por isso que mesmo esse dinheiro que teoricamente está na conta-corrente (e que, por isso, deveria estar prontamente disponível) não está prontamente disponível.

    Tendo isso em mente, fica mais claro o porquê de, nas planilhas do Banco Central, o valor total que eles mostram para as contas-correntes ser relativamente baixo e precisamente cíclico: os valores começam altos no início do mês, vão caindo até mais ou menos o dia 25, e dali voltam a disparar de novo. Eles começam altos no início do mês em decorrência de este ser um período de grande movimentação (pagamentos de salários e transferências salariais), o que significa que o setor precisa ter muita liquidez para cumprir esses pagamentos. Passado este período, o valor vai caindo justamente porque os bancos voltam a transferir este dinheiro para outras aplicações. À medida que o final do mês vai chegando, os bancos começam a resgatar suas aplicações e voltam com o dinheiro para as contas-correntes de seus clientes, pois sabem que final de mês/início de outro mês é um período de grande movimentação de contas por causa de pagamentos de salários. E assim recomeça o ciclo.

    O que estou querendo dizer com isso tudo? Que, no final, tanto aplicações em poupança quanto depósitos a prazo dependem, em última instância, do valor das contas-correntes. São estas que definem toda a liquidez do sistema; são estas que determinam o resgate das outras aplicações.


    Por fim, caso toda esta minha ladainha teórica não tenha lhe convencido, faça uma planilha com as variáveis "depósitos de poupança" e "títulos privados" (dentre eles, depósitos a prazo).

    Você perceberá que os "depósitos de poupança" variam absolutamente no mesmo ritmo das contas-correntes (e nem poderia ser diferente, dado o que foi explicado acima). Já os depósitos a prazo são bastante erráticos: pela evolução deles, você seria levado a crer que 2007 foi um ano bastante recessivo (após crescer continuamente desde 2004, eles estagnam em meados de 2006 e ficam parados durante todo o ano de 2007), e que 2008 foi um ano sem precedentes em termos de crescimento. A única conclusão possível de ser tirada dos gráficos é a de que os depósitos a prazo aumentam de acordo com a perspectiva de aumento da SELIC.

    Mas o fato é que eles não criam moeda. E, embora aparentem ser líquidos ("alguns bancos costumam oferecer resgate instantâneo e sem desconto sobre a aplicação [...] A decisão de resgate "at par" tende a ser unilateral em favor do cliente."), o fato é que os bancos precisam vender papeis para terceiros para que você possa resgatar seu dinheiro aplicado num depósito a prazo.

    Puxa, isso quase que dá um artigo.

    Grande abraço!
  • Rafael Hotz  20/07/2011 21:17
    Leandro, você tem toda a razão quando diz que os depósitos em poupança e à prazo dependem bastante dos depósitos à vista, sua explicação foi clara e interessante.

    Mas o que vale é a tal da subjetividade do agente, hehe.

    Me explico.

    Se o banco contratualmente me garante que vai depositar na conta corrente meu CDB no momento que eu desejar (excluindo o prazo técnico de processamento da operação), sem dedução alguma sobre a aplicação, esse montante nada mais é que um saldo em conta corrente, da minha perspectiva. Mesmo que o CDB se pareça um contrato de empréstimo, o próprio banco criou essa aberração contratual que o torna um depósito à vista de facto. E teoricamente o governo validaria o contrato.

    Além de PMPP, depósitos à prazo e à vista eu coloquei os depósitos em poupança e a conta do Tesouro como oferta monetária. Se vocês quiserem eu peço pro Jonas Fagá liberação para publicar aqui também o artigo que eu fiz para montar esse indicador, acho que daria uma discussão legal.

    No mais, eu considero minhas aplicações em CDB como depósitos em conta corrente. Mesmo sendo a parte fraca da barganha.
  • Leandro  20/07/2011 22:02
    Mas é aquilo que falei a respeito dos Money Markets Mutual Funds, Rafael. Aparentemente, funciona da mesma forma. Para você transferir seu CDB para sua conta-corrente, o banco tem de vender um papel para outro aplicador (daí o prazo técnico para o processamento da operação). Ao final da operação, a oferta monetária não foi alterada -- houve apenas transferência de dinheiro de uma conta-corrente para outra.

    É por esse mesmo motivo que o Joe Salerno também exclui os small time deposits de sua conta para a oferta monetária, mesmo que eles sejam redimidos ao par e instantaneamente.

    Se me pressionassem, eu diria que um bom método de mensuração da variação da oferta monetária seria analisar a variação das reservas bancárias. Entretanto, tal método só seria bom enquanto o compulsório se mantivesse inalterado. Qualquer variação no compulsório (como feita pelo Banco Central em novembro de 2008) manda tudo pro vinagre.

    É por isso que me atenho às contas-correntes, que ficam como a second best option.

    Grande abraço!
  • Rafael Hotz  21/07/2011 16:42
    Exato Leandro, o banco tem que vender o papel (ou algum outro ativo de sua carteira) ou contrair um empréstimo para obter o cash e transferir na minha conta corrente. Mas a questão é que o banco contratualmente assume esse risco e assim acaba me ofertando um substituto monetário, não um título de dívida (contrato de empréstimo).

    Se ele não assumisse esse risco e não garantisse contratualmente a redenção imediata "at par" (como faz com quotas em fundos de investimentos), aí acho que os depósitos à prazo não seriam substitutos monetários.

    Se não me engano o Shostak diferencia sua TMS 1 e 2 com base nesse critério dos time deposits.

    Mas, enfim, é um assunto espinhoso mesmo.
  • Leandro  21/07/2011 17:42
    Rafael, não é minha intenção dissuadi-lo de nada, e talvez eu não esteja sendo enfático o suficiente. Por isso vou tentar ser explícito: ao contabilizar depósitos a prazo junto a depósitos em conta-corrente, você está fazendo dupla contagem. Você está contando o mesmo dinheiro duas vezes.

    Vou até ser repetitivo agora:

    Você não usa seus CDBs (que é o que você está incluindo na sua contabilidade) para comprar bens. Você utiliza dinheiro, o qual por sua vez foi obtido com a venda de seus CDBs. Contabilizar tanto o dinheiro quanto os CDBs é dupla contagem.

    Ao sacar um depósito a prazo, o banco vende um papel para Fulano. Fulano compra esse papel tirando dinheiro da conta-corrente dele. Esse dinheiro vai parar na sua conta-corrente. A oferta monetária, portanto, não foi alterada. E esse é o ponto que deve ser enfatizado: depósitos a prazo, per se, não alteram a oferta monetária. Seja para saques ou para depósitos.

    O dinheiro que saiu de Fulano e foi para a sua conta já está contabilizado nos depósitos em conta-corrente. Fulano precisou apenas ser convencido a ceder o dinheiro ao banco em troca dos seus CDBs; e o banco simplesmente repassou o dinheiro da conta de Fulano para a sua conta.

    Você quer incluir DUAS vezes o mesmo dinheiro na sua contabilidade:

    1) o dinheiro que está no bolso do Fulano em t-1 segundo -- dinheiro que será usado para comprar em t0 um título (CDB) detido pelo banco.

    2) o dinheiro que você receberá do banco.

    É o mesmo dinheiro. Ele só está no bolso de uma pessoa de cada vez - não pode ser contabilizado duas vezes.


    Lembre-se: você não paga um almoço com títulos de renda fixa; você paga com dinheiro. Isso significa que você tem de transformar seus títulos em dinheiro. Se cartão de débito incide sobre sua conta-corrente, e não sobre seus depósitos a prazo. Não interessa quais sejam seus títulos e o quão líquidos eles aparentem ser: se você tem de transformá-los em dinheiro, então eles não são dinheiro. Isso vale para CDBs, Fundos DI, Renda Fixa, Ações, letras de câmbio, letras imobiliárias etc.

    A minha sugestão é: não inclua depósitos a prazo em seu cálculo da oferta monetária. É incrível, mas a nossa contabilidade monetária é muito melhor e mais bem organizada que a americana. O M1, pelo menos até o momento, relata exatamente a liquidez total da economia.

    Grande abraço!
  • Giovanni  29/07/2011 19:51
    O negócio do Shostak é com as contas de poupança, que apesar de não exercerem o direito, legalmente podem demorar até não-sei-quantos dias para entregar o dinheiro ao cliente. Daí ele as exclui da Austrian Money Supply dele. E ao mesmo tempo adiciona os MMFs, por eles terem liquidez imediata. Ele ignora qualquer referência à QUANTIDADE de moeda e só leva em conta a subjetividade do agente.

    A TMS é diferente, ela foi feita para medir a QUANTIDADE. São agregados diferentes e não-concorrentes.

    Uma cópia simples da TMS do Salerno está porcamente montada aqui: inflacao.org/

    Já o agregado que o Rafael construiu (e por cujo artigo eu espero ansiosamente poder ler, mas não posso pagar uma fortuna para o Clube de Vienna) está mais para uma cópia da AMS do Shostak.
  • Rafael Hotz  21/07/2011 20:23
    Sim Leandro, é dupla contagem mesmo, e propositalmente. Não estou preocupado com a questão de haver os meios de pagamentos físicas (mesmo que eletrônico) suficientes para fechar a contabilidade. Estou preocupado com os efeitos dos arranjos contratuais e institucionais sobre a subjetividade dos agentes.

    E sabemos que essa ilusão da liquidez afeta os agentes na hora do liquidity crunch. Por isso acho importante incluir esses agregados na medida. No mais, o M1 também é uma boa.

    Abraços e valeu pela paciência.
  • Djalma  22/07/2011 08:02
    Na minha opinião, o cenário do setor imobiliário não é tão bom assim, os preços estão muito elevados.Houve uma queda substancial de compra de imóveis novos em São Paulo. A notícia abaixo relata o fato.\r
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    SP registra queda na venda de imóveis novos\r
    Entre janeiro e maio, foram negociadas 8,9 mil unidades, quase 33% a menos do que em 2010\r
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    O Secovi (Sindicato da Habitação) de São Paulo divulgou, nesta quarta-feira, os dados referentes à venda de novos imóveis residenciais na maior cidade do país em maio. Com a negociação de 2.380 unidades, houve crescimento de 2,6% sobre abril (2.319 operações) e de 22,3% sobre o quinto mês do ano passado, quando foram vendidos menos de dois mil imóveis. No entanto, a soma dos cinco primeiros meses do ano não trouxe bons resultados.\r
    \r
    Entre 1º de janeiro e 31 de maio, foram negociadas, em São Paulo, 8.964 unidades, o que representa uma queda de 34% sobre o mesmo período de 2010. Na região metropolitana, que é composta por 39 cidades, foram vendidos 19.252 imóveis, 32,9% a menos do que no ano passado. Apenas em maio, foram lançadas, na capital, 3.663 moradias, 72% acima do registrado em abril.\r
    \r
    jovempan.uol.com.br/noticias/economia/2011/07/sp-registra-queda-na-venda-de-imoveis-novos.html\r
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  • José Carlos  03/08/2011 14:49
    Leandro,

    poderia disponibilizar a fonte dos dados?

    Obrigado.
  • Leandro  03/08/2011 15:04
    Os dados estão todos disponíveis no site do Banco Central, na seção Séries Temporais, mas não há um link direto pra cada um deles, de modo que você tem de aprender a navegar no site.

    Eis o link principal:

    www4.bcb.gov.br/pec/series/port/aviso.asp

    Aí você clica em Sistema "Gerenciador de Séries Temporais (SGS)", o que te levará uma subseção, para a qual não há links diretos.

    Ali haverá uma multiplicidade de subitens, com inúmeras variáveis. Clique em Indicadores Monetários e depois em Agregados Monetários e depois em Meios de Pagamentos. Aí você obeterá as informações aqui apresentadas sobre os depósitos em conta-corrente (escolha Depósitos à vista (média nos dias úteis do mês)).

    Para ver a variação de preços, clique em Atividade Econômica, depois Preços e depois Índices Gerais de Preços e Seus Componentes e depois Índice de preços ao produtor amplo (IPA).

    De início parece confuso e de fato exige paciência. Mas, com o tempo, você vai pegando jeito com o site.

    Grande abraço.
  • Carlos Araujo  25/04/2012 16:55
    Notícia importante:
    br.noticias.yahoo.com/caixa-amplia-ofensiva-e-corta-juro-para-casa-162244486--finance.html
  • Marconi  04/05/2012 09:28
    Com essa medida tomada ontem, de punir a poupança, os recursos disponíveis para o mercado imobiliário podem secar?

    Segundo a reportagem
    g1.globo.com/economia/noticia/2012/05/mudanca-na-poupanca-pode-reduzir-credito-imobiliario-dizem-consultores.html

    65% dos recursos da poupança vão para o mercado imobiliário. Alguém sabe quanto dinheiro isso representa e, principalmente, quanto já está comprometido?

    Agora em 2012 e 2013, a oferta de imóveis vai explodir. O pessoal pensa que imóvel é investimento, mas imóvel é um bem como outro qualquer. Só que ele demora a ficar pronto e, uma vez pronto, demora a "perder". Vai ter casa barata pra todo mundo! :-D
  • Pedro Ivo  24/07/2012 04:21
    noticia do Correio Brasiliense (versão impressa) de domingo 22-07-2012 mostra [1]construtoras com apartamentos encalhados no DF e [2] dando até 20% de desconto em imóveis novos; [3] reduções entre 50% e 75% dos lançamentos previstos p/ 2012 e [4] desejo de desencalhar os estoques de 2012 para só voltar aos lançamentos em 2013; [5] Agência Fitch baixando a classificação de risco das construtoras brasileiras com ações em bolsa, devido aos estoques não desovados, endividamento e exposiçãoo ; [6]lançamentos de imóveis no DF que até 2011 eram negociados em até 90 dias agora levam 180; [7] preços de imóveis no DF ainda apresentam, na média, em 2012, avanço no preço nominal de 4% à 4,5%; [8] quem comprou para investir, contando com valorização, no máximo vai conseguir o investimento de volta (logo, risco de muita gente pondo a venda o imóvel que foi comprado para investir: o que somado a imóveis em estoque das construtoras será o início do estouro da bolha imobiliária no DF); [9] especialistas do IPEA dizendo que o momento é de quem deseja comprar para habitar, não para investir (conclusão: preços não tem + espaço para avançar).

    Detalhe: e tudo isto apesar das tentativas do governo para reflacionar a economia, via juros baixos e + crédito.

    Admirável mundo (ou será gado) novo!
  • Pedro Ivo  18/08/2012 17:17
    Preços de Belo Horizonte habitação caem pelo segundo mês consecutivo

    POSTADO EM 13 DE AGOSTO DE 2012 · 21 COMENTÁRIOS

    A bolha imobiliária de Belo Horizonte (quinta maior cidade do Brasil) foi oficialmente estourou. Após o boom observado nos últimos anos, o preço médio dos imóveis na cidade caiu pelo segundo mês consecutivo, segundo o índice de FIPE. A queda de preço para o mês de julho foi de 1,2%. Em junho, ele já havia caído 0,4%.

    veja aqui
  • Pedro Ivo  02/09/2012 18:07
    Professor da FGV faz uma correlação entre preços dos imóveis e Copa de 2014

    "Brazil's housing prices to meltdown after 2014 World Cup," says FGV professor

    eis um resuma da notícia:

    "Os preços dos imóveis devem experimentar uma desvalorização severa após a Copa do Mundo de 2014, disse que a economia da FGV, o professor Samy Dana. Ele estima que os preços de muitas propriedades nas 12 cidades-sede podem despencar até 50% após o evento, especialmente em São Paulo.

    A demanda por imóveis de fato existe, mas Dana argumenta que os níveis de preços atuais parecem infundados. "Por alguma razão os brasileiros acreditam que todo nosso país de infraestrutura, saúde e problemas de segurança será resolvido nos próximos dois anos, o que, teoricamente, deveria justificar preços mais altos", diz o professor.

    E não é apenas a ilusão de que deve puxar os preços para baixo. Como hipotecas foram emitidas mais intensidade entre 2009 e 2010, o ano da Copa do Mundo pode marcar um período de grande inadimplência. Edifícios começaram a ser entregues, novos projetos de lei aparecerão, e o consumidor vai começar a dar calote em sua dívida. Isso provocaria uma onda de venda de imóveis reduzindo preços. Por isso o setor imobiliário não é um bom investimento neste momento. Quem está comprando para vender, vai perder dinheiro depois da Copa do Mundo

    Como o proprietário não quer perder dinheiro no negócio, num primeiro momento, relutará em reduzir o preço pedido. Mas o problema que os compradores não estão dispostos a pagar mais. Em outras palavras, haverá um momento em que simplesmente nenhuma oferta estará ocorrendo. O primeiro sinal é não diminuir o preço, mas o volume cada vez menor de negócios. A correção de preços é um processo que demora mais para começar, mas quanto mais pessoas querem vender, e havendi menos compradores, os preços vão cair naturalmente."

    Não acho que faça muito sentido. Os preços dos imóveis foram inflados por subsídios ao setor de construção e ao crédito para adquirir imóveis. Esta explicação de que o brasileiro acredita que o Brasil vai melhorar em 2 anos e está investindo com base nesta expectativa é infundada, senso comum, academicista, petulante, estúpida e se baseia num nexo de causalidade que brota do umbigo deste Sr..

    Os preços já começaram a cair 2 anos antes da previsão desta criatura. Dia 24-07-2012 eu até postei um resumo do que o Correio Braziliense noticiou a respeito. No Brasil inteiro os preços pararam de subir como foi até 2011. As correções de 2012 devem ser suficientes só para corrigir alguma inflação, se corrigirem. Em Belo Horizonte também já há estagnação e recuo.

    É espantosa a quantia de paralelos, correlações e causalidades infundadas na academia e imprensa brasileira!!!!!!!
  • Pedro Ivo  19/09/2012 05:04
    Venho compartilhar mais esta notícia sobre a bolha brasileira com os colegas. Ele foi publicada em inglês. Lambona e rocambolicamente a traduzo com meu inglês macarrônico. Não a coloquei inteira pois vai junto o link.

    Particularmente, partilhamos eu e outros leitores nosso pasmo frente a postura preguiçosa/fanfarrona de figurinhas da mídia de massa em tentar desvalidar a bolha com seus argumentos infantilizados e desonestos. O autor desta reportegem tem opiniões, a meu ver, ponderadas e pertinentes a este respeito.

    Ai vai!



    Uma breve história do mercado imobiliário brasileiro e porque a bolha pode ter começado a estourar em março passado

    Bolha imobiliária do Brasil é o centro de conversas em bares, restaurantes e barbearias.

    Apesar do fato de que muitos brasileiros estão conscientemente informadas sobre o assunto, a maioria esmagadora da população não está. E isso ocorre não apenas por causa de ignorância, mas também por causa da desinformação massiva, que é constantemente transmitida por meios de comunicação. Brasileiros "especialistas" como o economista Ricardo Amorim (apelidado de "Índice de Cimento Guy") ou Luis Carlos Mendonça de Barros ("Mendonção", um protagonista do escândalo da privatização Telecom), juram por suas mães que não há bolha imobiliária e nunca vai existir em nosso país. E estes são apenas dois exemplares. A mídia inteira do Brasil cerra fileiras contra uma bolha imobiliária. Obviamente, nenhuma notícia nela.

    Mas o que é uma bolha imobiliária? O "rebanho" diz que é quando o crédito habitacional total para indivíduos alcança taxas muito altas em relação ao PIB do país. Por isso, dizem, não há bolha porque a relação hipotecas / PIB do Brasil é de apenas 5%. Mas este conceito é uma falácia - que ajuda o "rebanho" para justificar os preços elevados.

    A verdadeira definição de uma bolha é quando os preços dos imóveis aumentaram mais do que (dissociaram-se) do crescimento dos salários de renda, alimentada por governos e banqueiros empurrando e motivando esta mesma população para continuar a comprar. E os burocratas fazem-no via qualquer redução das taxas de juros ou aumento das condições de financiamento (basta comparar os atuais 35 anos contra o padrão de 15 anos em 2004). Basta olhar como os nossos preços de imóveis dobraram ou triplicaram em um 4 ou 5 anos e você terá uma ideia do que uma bolha realmente significa.

    Abaixo transcrevo alguns números que explicam a formação da bolha brasileira. Aqueles que se opõem a esses dados, por favor, façam o favor e destruir banco de dados do Banco Central. Os dados abaixo representam o valor financiado (por bancos públicos e privados brasileiros) para todas as unidades habitacionais.

    MM / AA / Total Unidades / Crédito Total / valor unitário médio

    Junho/12 - 408.522 - R$ 69,780,000,000.00 - R$ 170,810.00

    junho/11 - 452.761 - R$ 66,320,000,000.00 - R$ 146,484.00

    junho/10 - 353.313 - R$ - R 43,380,000,000.00 R$ 119,939.00

    Junho/09 - 289.351 - R$ 29,830,000,000.00 - R$ 103,092.00

    junho/08 - 240.418 - R$ 23,397,000,000.00 - R$ 97,322.00

    junho/07 - 140.820 - R$ 11,770,000,000.00 - R$ 83,588.00

    junho/06 - 85.212 - R$ 6,680,000,000.00 - R$ 78,392.00

    Junho/05 - 50.760 - R$ 3,637,000,000.00 - R$ 71,650.00

    junho/04 - 48.434 - R$ 2,615,000,000.00 - R$ 53,990.00

    junho/03 - 31.220 - R$ 1,792,000,000.00 - R$ 57,399.00

    June/02 - 29.897 - R$ 1.731.000,000,00 - R$ 57,898.00

    Junho/01 - 38.977 - R$ 1,955,000,000.00 - R$ 50,157.00

    Desde 2009, tanto os empréstimos totais quanto o valor unitário médio tornou-se "contaminado" pela inserção das propriedades que fazem parte do programa de baixa renda "Minha Casa Minha Vida" (MCMV). Em 2008, o valor unitário médio foi de R$ 97.322, e não incluem as casas MCMV. A partir de 2009 até março de 2010, com o financiamento de 160.000 casas de baixa renda (com valores não superiores a R $ 60.000,00), que faziam parte do projeto MCMV, pode-se inferir que as casas não-MCMV financiadas no Brasil entre julho de 2009 e junho de 2010 foram financiadas com base em super alta valorização (em ordem para obter o preço unitário médio superior ao do ano anterior).
  • Pedro Ivo  23/09/2012 08:47
    Os economistas do IPEA: "bolha de propriedades do Brasil vai estourar quando as taxas de juros subirem" e "é tudo culpa do governo"


    {A bolha que o Brasil vive está cada vez mais difícil de esconder (ao menos de pessoas alfabetizadas e que se dão ao trabalho de procurar informações fora da imprensa de vulgarização). Veja, Isto É, Época, Exame, Isto É negócios, Época negócios – imprensa cuja única preocupação é contar 'boas histórias' – ou serão estórias – e se manter aliada ao estado, um gran anunciante – não divulga as informações que vou citar aqui. Preferem citar as falácias do Ricardo Amorim e congêneres, pessoas que não tem compromisso com a verdade; mas em dizer coisas que não alertem o público contra os erros de seus anunciantes, que não vivem de servir ao público no mercado, mas de disfarçar seus equívocos, e repassar seus custos ao público. Como um trouxa que comprou uma falsificação de Picasso, e se cala na esperança de passá-la adiante, imprensa e seus anunciantes (além do estado) mascaram a situação econômica para induzir o público a erros que os salvem de seus prejuízos. Que de um órgão do estado – o IPEA no caso –, que deveria dar-lhe salvaguarda intelectual, venha uma critica tão devastadora e desmascaradora, é um sopro de vento fresco numa tumba. Que eles alem disso hajam citado a escola austríaca como referencia teórica que melhor explica processos de bolha, chega a nos dar um pequeno luxo: a esperança. E que hajam usado modelos neoclássicos em seus estudos de modo coerente e bem fundado (i. é, como arcabouço contábil para analisar dados; sem substituir bem fundada lógica – praxeologia – por estatísticas interpretadas tolamente; e como aquilo que econometria de fato é, "história econômica recente") nos mostra que ainda há gente honesta na academia (honestidade para além de vãs 'boas intenções', e sim como coerência férrea: entendimento de que somente pela compreensão verdadeira da realidade pode-se agir sobre a mesma). Por esta razão segue abaixo a noticia, que traduzi do inglês, e pode ser checada no original no sítio Brazilian Bubble. Seguem também os links para ler-se o artigo dos economistas do IPEA. Bom inicio de semana a todos, e boa leitura.}


    Os economistas do IPEA: "bolha de propriedades do Brasil vai estourar quando as taxas de juros subirem" e "é tudo culpa do governo"


    Um estudo realizado por dois economistas do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), órgão do governo brasileiro (acredite ou não), sugere que há "provas concretas da existência de uma bolha imobiliária no Brasil", que pode estourar com um potencial aumento nas taxas de juros.

    Segundo os autores, Mario Jorge Mendonça e Adolfo Sachsida, os altos preços de casas, terrenos e apartamentos nos últimos anos resultam de valores irreais e insustentáveis. Eles estimam que os preços, entre janeiro de 2008 e fevereiro 2012, aumentaram 165% no Rio de Janeiro e 132% em São Paulo, em comparação com uma taxa de inflação de 25% no período.

    Aqui está como eles definem o seu estudo: "Este artigo verifica a ocorrência de uma bolha imobiliária na economia brasileira. No geral, nossos resultados sugerem a existência de uma bolha no setor imobiliário da economia. A Escola Austríaca de Economia fornece uma explicação sólida para este fenômeno [viva nóis!!!!!!!], reforçadas por meio de técnicas estatísticas, sugerindo que o governo federal equivocou-se na política fiscal e monetária, principais responsáveis pela criação deste problema".

    Eis a conclusão final (o estudo completo para download abaixo): "Este estudo empregou várias metodologias, tanto microeconômicas como macroeconômicas para verificar a possibilidade de uma bolha no mercado imobiliário brasileiro. No geral, os resultados apontam para a existência concreta de uma bolha imobiliária no Brasil.

    Objetivamente, nosso estudo fornece uma base teórica sólida para explicar por que o governo federal, por meio de suas políticas fiscais e de estímulo de crédito, é o principal responsável pelo surgimento desta bolha. A insistência do governo em estimular ainda mais o mercado imobiliário já aquecido só vai fazer o resultado ainda pior.

    Também se deve notar que a maioria dos contratos de hipotecas no Brasil é feito com taxa de juros flutuante. Além disso, como resultado dos estudos econométricos sugerem, o mercado de habitação é sensível e responde negativamente a aumentos nas taxas de juros. Em outras palavras, o aumento nas taxas de juros pode trazer problemas significativos para o mercado imobiliário. Por uma questão de fato, isto é precisamente o que causou a implosão da bolha imobiliária dos EUA em 2007-2008. É claro que as atuais políticas fiscal e monetária implementadas pelo governo brasileiro são inflacionárias. Tais políticas conduzirão inevitavelmente à inflação e ao aumento do custo de vida no Brasil. Taxas de juros globais estão em níveis mínimos recordes, o que significa que, mais cedo ou mais tarde, subirão. Quando acontecer, o Brasil também será obrigado a aumentar a sua taxa de juros doméstica. Só então, os verdadeiros custos associados com os impostos correntes e políticas monetárias expansionistas implementadas pelo governo brasileiro aparecerão.

    Naturalmente, ninguém acredita que a crise no mercado imobiliário brasileiro vai ter efeitos catastróficos, como foi o caso nos EUA e alguns países europeus, porque a oferta de crédito no Brasil ainda é restrita. No entanto, os efeitos da explosão da bolha não serão desprezáveis. Quando o governo brasileiro aumentar as taxas de juros, haverá efeito direto sobre o mercado imobiliário. Em seguida, será a vez do Brasil para lidar com uma crise criada exclusivamente pela má gestão das políticas monetária e fiscal do governo brasileiro. Não foi o mercado quem criou a crise, mas o próprio governo brasileiro.

    Finalmente, quando um desastre ocorrer, o governo vai procurar o culpado. Ele vai culpar a todos, exceto à sua falta de responsabilidade fiscal e monetária. O Brasil deveria ter tomado seu bom momento na economia mundial para fazer os ajustes necessários que o país necessita. No entanto, o tempo está passando e a oportunidade está sendo desperdiçada. Quando a crise surgir, o governo vai dar uma resposta errada, muito provavelmente aumentando gastos ainda mais, pela criação de uma política fiscal mais expansionista, e facilitando o crédito ainda mais. E essas medidas farão da crise ainda mais duradoura e profunda.

    Quando várias pessoas estão erradas por um longo tempo e em magnitude significativa, há um preço que precisa ser pago. A interferência do governo só prolonga e aumenta este custo. Não corrige o erro: só transfere os custos do setor, que cometeu o erro, para o resto da economia. A "bolha" no mercado imobiliário brasileiro está sendo criada e sustentada pelo governo. Quando "explodir", o governo vai propor uma correção, de forma errada, a uma crise que ele próprio criou".


    Estudo completo (em Português), aqui.
  • Eduardo Bellani  21/10/2013 22:11
    Alguém viu essa notícia?

    Ela me lembrou o skyscraper index.

  • Pedro Ivo  24/10/2013 12:03
    Não tem nada a ver com economia esta situação. "6" é o n° da morte e do mau agouro na numerologia zoorastriana, e "7" é vitória e prosperidade. Logo, se tivessem construído um hotel 7 estrelas, ao invés de 6, seria um sucesso.

    É o que dá não olhar para os astros.


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