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Deflação pode ser uma coisa boa?

Atualmente existe quase um consenso entre os banqueiros centrais de que a deflação deve ser evitada a todo custo.

No entanto, quando um indivíduo aleatoriamente escolhido é perguntado se prefere os preços mais altos ou mais baixos para as coisas que compra, certamente responderá que os preços baixos são preferíveis.

Então, como é que deflação de preços não é um objetivo proclamado da política monetária?  Por que as autoridades monetárias anunciam "metas de inflação" em vez de oferecerem a opção em favor de preços mais baixos?  Por que não temos uma deflação de preços, mas quase permanentemente temos inflação dos preços?

Deflação bondosa

Quando falamos de uma queda geral do nível de preços, por questão de clareza, devemos chamar isso de "deflação de preços" e não apenas "deflação".  Inflação e deflação como termos devem ser limitados ao estoque de dinheiro.  Nessa perspectiva, estabilidade monetária significaria um estoque monetário mais ou menos constante.  Essa constância do estoque monetário aconteceu quando a grande parte do mundo estava no padrão-ouro durante a grande parte do século XIX até o começo da I Guerra Mundial, em 1914.

Esse mesmo período era também a fase quando Europa, América do Norte e várias outras partes do mundo experimentavam a sua decolagem no caminho do crescimento econômico.  Esse período se caracterizou por uma queda prolongada dos preços.  Essa deflação bondosa não veio abruptamente, mas aconteceu lentamente e com moderação.  Essa deflação de preços foi impulsionada pelo avanço passo a passo do progresso tecnológico.  Dado um estoque de dinheiro relativamente constante, os bens e serviços se tornavam cada vez mais baratos e, mesmo sem um aumento da taxa de salário nominal, os trabalhadores se tornaram mais prósperos por causa da subida dos salários reais.  Podemos, de fato, chamar esse período o período da "deflação bondosa".

Uma forma de deflação bondosa acontece ainda hoje, mas somente em certos setores da economia.  O regime da política monetária moderna do inflacionismo faz com que a deflação bondosa esteja bem limitada e somente aconteça, hoje em dia, em setores específicos da economia como, principalmente, certas áreas de tecnologia.

Assim, surgem a perguntas: por que não há mais setores com deflação bondosa?  Por que não experimentamos em grande estilo os benefícios da redução do nível de preços e, assim, um aumento do nosso poder de compra?  Por que estamos sofrendo uma contínua erosão do poder de compra do nosso dinheiro?

Senhoriagem

A resposta a essas perguntas na verdade é relativamente fácil de encontrar.  O fato de que vivemos em um mundo inflacionário é porque os governos se beneficiam comodamente da inflação.  Ou seja, o governo é o ator principal que pode se beneficiar de um aumento constante da oferta de moeda porque é o criador principal da moeda.  O governo tem soberania sobre a moeda e são os bancos centrais que controlam a origem da expansão monetária e, como tal, o governo está na fonte para ganhar o que os economistas chamam de senhoriagem — receitas oriundas da própria expansão monetária.

Os governos com suas agências monetárias e junto com seus aliados no setor financeiro têm medo da deflação de preços.  Já com um estoque monetário relativamente constante, eles perdem o privilégio da senhoriagem.  Isso significa que o governo perderia uma importante fonte de receitas fiscais — um tipo de tributo que é largamente oculto para a pessoa que paga.  Assim, outra definição de senhoriagem seria imposto inflacionário, um imposto secreto que, pior ainda, tem um grande impacto sobre a distribuição da riqueza de baixo para acima.

A meta declarada da política monetária de hoje é a política de "metas de inflação", a mais recente moda na longa série dos muitos modismos dos bancos centrais do mundo.

Oficialmente implantada para promover uma inflação baixa, a política de metas de inflação é, na verdade, acarinhada pelos governos e bancos centrais porque promete garantir um fluxo contínuo de imposto inflacionário.  Os governos sabem que deflação de preços como também inflação excessiva ou, ainda pior, a hiperinflação, provocariam a eliminação da senhoriagem.

O que é praticamente esquecido nos dias de hoje é que a política monetária de metas de inflação não é algo novo.  Na verdade, a política de metas de inflação foi praticada pelo banco central americano durante os anos 1920, levando diretamente à Grande Depressão dos anos 30 do século passado.

Concentrando-se na estabilidade do "nível de preços", as autoridades monetárias americanas se sentiam plenamente convencidas de que sua política monetária estava no caminho certo porque o índice de preços durante dos anos 1920 ficou bastante estável e a taxa de inflação ficou baixa.  As autoridades monetárias do banco central americano não se davam conta de que a existência de um nível de preço estável não garante evitar a inflação monetária, ou seja, uma expansão do estoque de moeda.

A armadilha da inflação controlada

A política monetária de "metas de inflação" funcionou.  O banco central dos Estados Unidos, fundado em 1913, conseguiu manter um nível de preços bastante estável durante os anos 1920.  Mas essa política liderou a economia americana e a grande parte do resto do mundo no caminho para a Grande Depressão.  O que aconteceu?

Ao se concentrar exclusivamente no "nível de preços" — um conceito que foi promovido entusiasticamente pelo influente economista Irving Fisher (1867-1947) apesar das críticas maciças dos economistas e notavelmente dos economistas da Escola Austríaca —, o banco central dos EUA não levou em conta o enorme progresso tecnológico que estava acontecendo nos anos 1920.

No passado, sob o regime do padrão-ouro, com um estoque de moeda relativamente constante, o nível de preços teria caído.  Isso teria exercido pressões sobre a taxa real de juros e a sua subida teria restringido a expansão do crédito.  Mas concentrando-se no "nível de preços", como Fisher ensinou, as autoridades monetárias se sentiam livres para deixar a massa monetária crescer.  Isto foi possível porque no começo dos anos 1920, o regime de padrão-ouro original foi substituído pelo sistema de padrão ouro-câmbio.

Ao manter a taxa de juros muito baixa e deixar a quantidade de dinheiro crescer muito fortemente, o banco central dos EUA fez a economia americana se expandir muito.  As autoridades monetárias não conseguiam ver o desastre iminente, porque, seguindo o modelo de Irving Fisher de política monetária, tinham apenas que se preocupar com o "nível de preços", e enquanto esse "nível de preços" se mantivesse relativamente estável, eles sentiam que não havia necessidade de preocupação.

Com essa política monetária, o banco central americano produziu um mega boom econômico.  Este boom gigante entrou na história conhecido como os "Loucos Anos Vinte".  A bolha acabou com o advento da Grande Depressão.

Deflação ruinosa

Ao impedir que "a deflação bondosa" seguisse seu caminho natural, os banqueiros centrais provocavam uma aparente "deflação ruinosa".  Uma deflação ruinosa não é causada pelo movimento lento da difusão do progresso tecnológico, mas acontece de forma abrupta e desastrosa com um colapso do sistema monetário e financeiro.  Quando isso acontece e o nível de preços cai abruptamente, as taxas de juros reais saltam e paralisam a vida econômica.  Esse tipo de deflação vem junto com uma contração econômica.  Esse tipo de deflação — ruinosa — tem uma origem artificial nas atuações do banco central junto ao setor financeiro e deve ser bem diferenciada da deflação bondosa que vem do setor real da economia como consequência do progresso tecnológico confinado por um estoque monetário estável.

Quando uma "deflação bondosa" acontece, não há colapso da massa monetária, mas uma redução dos preços sem contração da atividade econômica.  Na deflação ruinosa, pelo contrário, temos uma contração abrupta da massa monetária junto à queda do nível de preços e uma contração econômica.  Essa contração da massa monetária nasce como resultado de uma expansão prévia da própria massa monetária instigada pelos bancos centrais.

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Como uma economia cresceria com uma oferta monetária constante 

Notícias deflacionárias (e interessantíssimas) sobre o Japão


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autor

Antony Mueller
é doutor pela Universidade de Erlangen-Nuremberg, Alemanha (FAU) e, desde 2008, professor de economia na Universidade Federal de Sergipe (UFS), onde ele atua também no Centro de Economia Aplicada. Antony Mueller é fundador do The Continental Economics Institute (CEI) e mantém em português os blogs Economia Nova e Sociologia econômica




  • Mohamed Attcka Todomundo  13/06/2011 10:27
    o 1º lugar em que encontrei uma interpretação da inflação como algo positivo foi no livro "Os Magnatas", de Charles Morris (L&PM POCKET) [recomendo. p/ quem gosta de história economica, interpretada pelo prisma dos avanços técnicos, é um ótimo livro]. mas uma interpretação teoreticamente coerente, que explique bem este fenomeno, e o desmistifique, só encontrei aqui no sitio-do-Ludovico (Afinal, Ludwig, para os intimos lusofonos, é Ludovico).

    Graças aos céus eu não passei pela lavagem cerebral dum bacharelado em economia. do contrário, ainda acharia que inflação é algo bom.
  • mcmoraes  13/06/2011 13:28
    "...o governo está na fonte para ganhar o que os economistas chamam de senhoriagem - receitas oriundas da própria expansão monetária..."

    Caramba, esse termo "senhoriagem" é realmente usado nas salas de aula? Os alunos aceitam isso na boa?
  • Leandro  13/06/2011 13:36
    mcmoraes, não apenas é utilizado, como também está em todos os manuais de macroeconomia, embora neles normalmente o significado dado seja mais pomposo, mais "científico" e, por isso mesmo, mais tecnicamente palatável.

    Aliás, aproveitando a deixa, vale lembrar que pouca gente hoje, mesmo as pessoas mais instruídas, sabe realmente como funciona o sistema bancário, que os bancos podem criar dinheiro do nada e que nossa moeda é um simples papel sem valor algum. Muita gente acha que "há algo por trás" das cédulas, dando-lhes algum lastro.

    Como certa vez disse Henry Ford, "Se as pessoas compreendessem o nosso sistema monetário e bancário, teríamos uma revolução amanhã de manhã".
  • Justiça  14/06/2011 13:03
    O que fazer diante de uma deflação ruinosa?
  • Leandro  14/06/2011 15:05
    Justiça, primeiramente, vale lembrar que a deflação ruinosa é causada unicamente pelo Banco Central e pelo sistema bancário de reservas fracionários, que expande os meios fiduciários na época do boom econômico e, quando vem recessão, os contrai.

    Falando mais especificamente, o dinheiro que "some" da economia é um dinheiro que não existia fisicamente. Era um dinheiro fictício (eletrônico) criado pelo processo de reservas fracionárias. Quando operam com reservas fracionárias, os bancos criam dinheiro do nada, colocando em circulação mais dinheiro do que de fato existe em suas reservas - no caso, criam mais dinheiro do que a quantia originalmente depositada pelos correntistas.

    Nesse cenário, quando os bancos passam a exigir a quitação de empréstimos pendentes, várias contas-correntes que foram criadas para esses empréstimos sejam encerradas. Porém, como a quantidade de dinheiro (eletrônico) nas contas-correntes é maior do que a quantidade de dinheiro físico que os bancos possuem em suas reservas, muitos correntistas ficam sem receber de volta o dinheiro que haviam depositado. Logo, a quantidade total de dinheiro na economia é reduzida. O dinheiro literalmente some.

    Em outras palavras, como o sistema bancário trabalha com reservas fracionárias, tal medida inevitavelmente gera um processo deflacionário, pois se está requisitando a devolução de um dinheiro que foi criado do nada -- um dinheiro cuja criação expandiu a oferta monetária e cuja extinção contrai a oferta monetária.

    Entendido isso, uma vez que a economia entra em um processo de deflação ruinosa, a solução economicamente sólida e sensata é permitir que preços e salários se reajustem à nova realidade.

    O artigo a seguir explica de maneira completa o que se deve fazer em tal situação:
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=946

    Abraços!
  • Carlos  16/06/2011 22:53
    Gostaria de mais detalhes técnicos de como funciona a "senhoriagem".
    Ele ocorre no momento da compra de títulos do tesouro?

    Obrigado.
  • Leandro  17/06/2011 19:14
    Carlos, o termo senhoriagem tem origem ainda na época em que o dinheiro era exclusivamente formado por moedas metálicas. Quando um indivíduo levava um metal precioso para ser fundido e transformado em moeda, o fundidor retinha parte do metal fundido e enviava para o soberano da região, como impostos.

    A senhoriagem, por definição, é essa receita tributária gerada pela diferença entre o valor de face da moeda cunhada e o custo incorrido na produção dessa moeda.

    No atual arranjo de moedas de papel, a coisa é ligeiramente mais complexa. Acompanhe:

    O Banco Central cria dinheiro (de papel ou eletronicamente) e o utiliza para adquirir títulos públicos em posse dos bancos. O dinheiro custou Y para ser fabricado (o custo é realmente ínfimo para dinheiro físico; se for eletrônico, então, é quase nulo) e o título comprado rende Z de juros (normalmente, rende a taxa SELIC).

    A senhoriagem vai ser a diferença entre Z e Y. Esse ganho de senhoriagem vai durar até o dinheiro em questão ser novamente devolvido ao Banco Cental -- por exemplo, quando ele vende o título público em sua posse em troca desse dinheiro.

    Parte do lucro obtido pelo Banco Central nessa operação é remetido para o Tesouro. Ou seja, o Tesouro lucrou com essa criação de dinheiro do Banco Central.

    Há também uma outra forma de definir senhoriagem: o Banco Central, ao imprimir dinheiro, aumenta a quantidade de dinheiro circulando na economia. Mais dinheiro na economia, maior a quantidade de impostos coletados. Assim, mais dinheiro criado, mais receita de impostos.

    A imprensa recorrentemente noticia que "a Receita Federal bateu recorde de arrecadação para o mês X. Arrecadou bilhões a mais do que havia arrecadado no mesmo mês do ano passado". Óbvio. A quantidade de dinheiro na economia aumentou nesses 12 meses; consequentemente, a arrecadação também vai aumentar -- a menos que o país esteja em recessão; aí sim tem chance de a arrecadação cair.
  • Carlos  17/06/2011 22:26
    Ok ficou bem claro.

    Apenas com relação aos dois últimos parágrafos, esse dinheiro tem valor "simbólico" não é?
    Quero dizer, se a economia encolhe e a moeda se desvaloriza, o valor desta quantida em poder do tesouro diminiu também, certo?
  • Leandro  19/06/2011 18:23
    Carlos, no caso, em decorrência dessa inflação monetária, a moeda de fato se desvaloriza, mas a desvalorização atinge pessoas diferentes e em momentos diferentes.

    As primeiras pessoas a receberem esse dinheiro recém-criado (geralmente o governo e pessoas e empresas com conexões com o governo) se beneficiam, pois seu poder de compra aumentou -- elas estão com mais dinheiro e os preços ainda não foram alterados.

    À medida que esse dinheiro vai circulando pela economia, os preços vão subindo, de modo que os últimos a receberem esse dinheiro (sempre os mais pobres) o receberão quando todos os preços já tiverem subido -- ou seja, houve uma redistribuição de renda às avessas, dos mais pobres para os mais ricos.

    Veja detalhes sobre esse processo aqui.

    Portanto, não é exatamente correto dizer que esse dinheiro a mais que o governo arrecada em decorrência da expansão monetária é um dinheiro "simbólico" e "sem valor". Tudo vai depender do tempo decorrido entre a criação desse dinheiro e o momento em que o governo o recebe via impostos -- se o tempo decorrido for pequeno, o governo realmente aumenta sua arrecadação em termos reais.

    Grande abraço!
  • Carlos  19/06/2011 20:11
    Obrigado Leandro. Ficou bem claro!

    Abraço.
  • André Caregnato  07/12/2014 16:02
    "As autoridades monetárias do banco central americano não se davam conta de que a existência de um nível de preço estável não garante evitar a inflação monetária, ou seja, uma expansão do estoque de moeda."

    - Mas como isso é possível uma vez que existe a "lei da oferda e da demanda"?
  • Caravaggio  07/12/2014 18:00
    Se a oferta de bens e serviços está aumentando rapidamente, estará havendo uma pressão baixista nos preços. Sendo assim, um aumento da oferta monetária irá impedir essa queda nos preços e manter a inflação de preços perto de zero.

    Foi isso o que ocorreu durante a década de 1920 nos EUA.
  • Emerson Luis  07/01/2015 10:31

    Seria como se os médicos tivessem "metas de doença" e aplicassem uma dose não-mortal, mas danosa de cianureto regularmente em cada pessoa.

    Que bom seria se as metas fossem de deflação! Ou melhor, se não houvesse metas e deixassem o mercado em paz. Mas o pressuposto é que uma "pequena inflação", além de benéfica, é inevitável.

    * * *
  • Karlos Gomes  07/08/2016 18:37
    DEFLAÇÃO É SEMPRE BOA PARA A ECONOMIA


    04/08/2016 - Frank Shostak

    Para a maioria dos especialistas, a deflação, que eles definem como uma queda geral de preços dos bens e serviços, é uma má notícia, uma vez que gera expectativas de novas quedas dos preços.

    Como resultado, a deflação detém os consumidores que postergam suas compras de bens no presente e esperam comprar esses bens a preços menores no futuro. Isso enfraquece o fluxo global de despesas e, por sua vez, enfraquece a economia.

    Assim, tais especialistas sustentam que as políticas que combatem a deflação também irão combater a recessão.

    Se a deflação leva a uma contração econômica, então as políticas que revertam a deflação devem ser boas para a economia.

    Reverter a deflação implicaria a introdução de políticas que apóiam os aumentos gerais dos preços dos bens, ou seja, inflação. Isso significa que a inflação poderia realmente ser um agente do crescimento econômico.

    De acordo com a maioria dos especialistas, um pouco de inflação pode realmente ser uma coisa boa. Na visão deles uma inflação de 2% não é prejudicial para o crescimento econômico, mas 10% de inflação poderia ser ruim. (De fato, a meta de inflação do FED – o banco central americano - é de 2%.)

    Assim, nós podemos concluir que a uma taxa de inflação de 10%, é provável que os consumidores formarão expectativas de aumento da inflação.

    Segundo o pensamento popular, em resposta a uma elevada taxa de inflação, os consumidores irão acelerar seus gastos com bens no presente, o que deve impulsionar o crescimento econômico.

    Então, por que uma taxa de inflação de 10% ou mais é considerada por especialistas como sendo uma coisa ruim?

    Claramente há um problema com as definições populares de inflação e deflação.

    Inflação não é essencialmente um aumento de preços

    A inflação não é aumento geral dos preços em si, mas um aumento na oferta de moeda. Como regra, o aumento na oferta de moeda leva a um movimento de aumento geral dos preços. Esse, no entanto, não é sempre o caso.

    O preço de um bem é a quantidade de dinheiro pedida por uma unidade ele. Para uma quantidade constante de dinheiro e uma quantidade crescente de bens, os preços realmente irão cair.

    Os preços também irão cair quando a taxa de aumento da oferta de bens excede a taxa de aumento da oferta de moeda. Por exemplo, se a oferta de moeda aumenta em 5% e a quantidade de bens aumenta em 10%, os preços cairão 5%, ceteris paribus.

    Uma queda nos preços nesse exemplo não pode esconder o fato de que temos uma inflação de 5% por conta do aumento na oferta de dinheiro.

    Aumento de preços não são o problema da inflação

    A razão pela qual a inflação é ruim não é por causa dos aumentos de preços, em si, mas por causa dos danos que a inflação inflige ao processo de formação de riqueza. Aqui está o porquê.

    O papel principal do dinheiro é cumprir a função de meio de troca. Dinheiro nos permite trocar algo que nós temos por algo que nós queremos.

    Antes de uma troca acontecer, um indivíduo deve ter algo útil que ele possa trocar por dinheiro. Uma vez que ele obtém o dinheiro, ele pode, então, trocá-lo por um bem ou bens que ele quiser. Observe que por meio do dinheiro nós temos uma troca de alguma coisa por algo.

    Mas agora considere uma situação em que o dinheiro é criado a partir do "ar" - isso é precisamente o que o falsificador faz. Esse tipo de dinheiro define a troca de nada por algo. O falsificador troca o dinheiro impresso bens sem produzir nada de útil.

    O falsificador leva um conjunto de bens reais sem fazer qualquer contribuição por eles.

    O efeito econômico do dinheiro que foi criado a partir do nada é exatamente o mesmo que o do dinheiro falso – isso empobrece os geradores de riqueza.

    O dinheiro criado a partir do nada desvia riqueza real para os detentores de dinheiro novo. Como resultado, menos riqueza real é deixada para financiar atividades geradoras de riqueza.

    Isso, por sua vez, leva a um enfraquecimento do crescimento econômico. Lembre-se que apenas as atividades geradoras de riqueza podem gerar riqueza e, consequentemente, fazer uma economia crescer.

    Note que, como um resultado do aumento na oferta de dinheiro, temos mais dinheiro por unidade de bens, e, portanto, preços mais elevados. O que importa, no entanto, não é subida de preços em si, mas o aumento na oferta de dinheiro que leva a troca de nada por algo ou "o efeito falsificador".

    A troca de nada por alguma coisa, como nós vimos, enfraquece o processo de formação de riqueza real. Portanto, qualquer coisa que promova o aumento na oferta de dinheiro só pode tornar as coisas muito piores. Assim, enquanto a inflação é um aumento na oferta de moeda, a deflação é uma queda na oferta de moeda.

    Vimos que os aumentos na oferta monetária, ou seja, a inflação, dá origem a várias atividades não produtivas, o que também podemos chamar de "atividades bolha".

    Políticas de dinheiro fácil desviam recursos para atividades não produtivas

    Pelo fato de essas atividades não poderem ficar de pé por si (elas requerem o desvio de riqueza dos geradores de riqueza), o aumento das atividades bolha, por conta do aumento na oferta de moeda, enfraquece a capacidade geradores de riqueza de gerar riqueza.

    Consequentemente, as políticas monetárias frouxas, destinadas a combater a queda dos preços (isto é, lutar contra a deflação), não fazem mais do que apoiar atividades não produtivas. Tais políticas podem produzir a ilusão de sucesso, desde que existam geradores de riqueza suficientes para financiar atividades não produtivas.

    Por exemplo, em uma empresa com 10 departamentos, dos quais 8 departamentos estão lucrando e os outros 2 estão dando prejuízos. Um CEO responsável irá fechar ou reestruturar os 2 departamentos que geram perdas. Não fazer isso irá desviar o financiamento dos geradores de riqueza para os departamentos deficitários, enfraquecendo assim os alicerces de toda a empresa. Sem a remoção, ou reestruturação, dos departamentos deficitários, há o risco de que toda a empresa poderia, eventualmente, ir à bancarrota.

    A partir desse simples exemplo, podemos deduzir que uma vez que a porcentagem de atividades geradoras de riqueza cai acentuadamente, não haverá riqueza suficiente para sustentar uma expansão da atividade econômica. A economia então cairá numa recessão prolongada. Sob essas condições, quanto mais o banco central tenta corrigir os sintomas, piores ficarão as coisas.

    Uma vez que, entretanto, as atividades não produtivas estão desimpedidas de ir à falência e as fontes de aumento na oferta de dinheiro são fechadas, pode-se esperar, em seguida, uma genuína expansão da riqueza real. Com a expansão da riqueza real para um estoque constante de dinheiro, teremos uma queda nos preços. Observe que se os preços caem por conta da liquidação das atividades não produtivas ou por conta de expansão da riqueza real, é sempre uma boa notícia. No primeiro caso, indica que mais financiamento está agora disponível para a geração de riqueza, enquanto que no segundo caso, mais riqueza está realmente sendo gerada.

    A maior ameaça para a economia, portanto, não é a deflação, mas as políticas destinadas a combatê-la.

    https://mises.org/blog/deflation-always-good-economy
  • Luis Filipe  25/08/2016 17:36
    Uma dúvida que sempre tive com relação a deflação de preços é com relação a capacidade de investimento de longo prazo num cenário onde os preços caem progressivamente. Afinal, por que fazer investimentos produtivos ou até consumir hoje se os preços cairão amanhã? Isso não atravancaria o crescimento?
  • Mendes  25/08/2016 18:07
    Ué, mas já e assim no setor tecnológico. Os preços de câmeras, notebooks, smartphones, televisões etc. só caem. E ainda assim as empresas desses ramos só lucram.

    O segredo está na produtividade.

    Aliás, num cenário de deflação geral de preços, seria ainda mais fácil ter lucros, pois, ao contrário de hoje, os custos de produção também estariam caindo.

    E, com a correta adoção de economias de escala e métodos produtivos mais eficientes, os custos cairiam ainda mais que os preços, garantindo altos lucros.

    De resto, sobre comprar hoje em vez de esperar 5 anos, isso é explicado pela preferência temporal: as pessoas preferem algo hoje a esse mesmo algo daqui a alguns anos.

    Mais ainda: se as pessoas sabem que daqui a alguns anos tudo estará mais barato, então aí mesmo é que elas irão consumir mais hoje. Se o dinheiro valerá ainda mais amanhã, então o consumo presente se torna menos arriscado e mais interessante.

    Em tempo: um cenário de deflação de preços anual era a norma no mundo, especialmente nos EUA, entre 1865 e 1913 (ano da criação do Fed). Foi também nesse época que o país mais cresceu em termos anuais.
  • Gustavo  09/09/2016 03:12
    Leandro,

    Um famoso economista estava falando sobre deflação e juros negativos numa entrevista. Ele disse o seguinte (vou parafraseá-lo): "os juros praticados em muitos países da Europa está negativo, por causa da deflação de preços. No caso, os consumidores estariam postergando o consumo, pois haveria a expectativa de que hoje um produto vale mais do que valerá amanhã. Com a intenção de combater isso, os BCs colocam as taxas a juros negativos, diminuindo o poder de compra da moeda dos indivíduos ao longo do tempo, e isso faz com que os consumidores se sintam estimulados a comprar hoje, com um poder de compra maior do que amanhã."

    Minha pergunta é: isso que ele disse faz algum sentido? A deflação "bondosa" descrita no texto não surtiria esse mesmo tipo de expectativa nos consumidores, consequentemente atrasando o ato de consumir dos indivíduos?

    PS: O site ficou incrível. Parabéns ao IMB.
  • Leandro  09/09/2016 04:06
    "No caso, os consumidores estariam postergando o consumo, pois haveria a expectativa de que hoje um produto vale mais do que valerá amanhã."

    Por essa lógica, absolutamente ninguém jamais compraria produtos tecnológicos. Nos países desenvolvidos (e até mesmo no Brasil), câmeras fotográficas, notebooks, celulares, televisores caem de preço ano após ano.

    E ainda assim, são cada vez mais vendidos.

    Existe uma coisa no mundo real chamada de "preferência temporal". Tudo o mais constante, você prefere ter um bem hoje a ter esse mesmo bem daqui a um ano. E com um detalhe importante: se você sabe que, no ano que vem, seu dinheiro comprará ainda mais coisas -- exatamente por causa da deflação de preços --, então aí sim é que você vai se sentir ainda mais impelido a consumir hoje.

    "Com a intenção de combater isso, os BCs colocam as taxas a juros negativos, diminuindo o poder de compra da moeda dos indivíduos ao longo do tempo"

    Só que a imposição de uma taxa de juros negativa gerou o efeito oposto: causou uma contração no crédito e uma deflação monetária. Os caras são tão ignaros que nem mesmo este efeito perceberam ou previram.

    Explicado em detalhes neste artigo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2497

    "e isso faz com que os consumidores se sintam estimulados a comprar hoje, com um poder de compra maior do que amanhã."

    Exceto que isso não aconteceu.

    E outra coisa: o problema não é e nem nunca foi demanda. Demandar, todo mundo demanda. Ao acordar e sair da cama você já está demandando (alimentos, energia elétrica, água, gasolina para o carro etc.). Demandar é fácil. Produzir é que são outros quinhentos. O simples fato de haver demanda não garante produção. O nó europeu está na oferta, e isso só é corrigido com desburocratização e desregulamentação.

    Só que keynesianos são tarados com "estimular a demanda", pois acham que a demanda automaticamente e miraculosamente gera oferta.

    "isso que ele disse faz algum sentido?"

    Nenhum.

    Abraços.
  • Gustavo  09/09/2016 16:22
    "Por essa lógica, absolutamente ninguém jamais compraria produtos tecnológicos. Nos países desenvolvidos (e até mesmo no Brasil), câmeras fotográficas, notebooks, celulares, televisores caem de preço ano após ano."

    Em relação à esse argumento, esse economista disse mais ou menos o seguinte: itens tecnológicos possuem uma obsolescência rápida, a inovação tecnológica nesse setor é a mais rápida do mundo, sendo assim, é de se esperar que a deflação não cause estragos no mercado.

    Todavia, outros bens como imóveis, commodities e alimentos por exemplo, não possuem esse avanço da técnica. Um imóvel construído hoje -- tudo o mais constante -- não tem porque valer menos ano que vem, pois não existe avanço tecnológico nesse setor. O mesmo acontece com o ferro ou com a laranja.

    Segundo ele, para esses produtos, a deflação é anti-natural pois não existem laranjas obsoletas, ou ferro obsoleto. A lógica da deflação benéfica não funcionaria para toda a economia. Daí surge a necessidade de buscar um nível geral de preços equilibrado.

  • Leandro  09/09/2016 17:05
    "Em relação à esse argumento, esse economista disse mais ou menos o seguinte: itens tecnológicos possuem uma obsolescência rápida,"

    O que, por essa lógica apresentada, simplesmente estimularia ainda mais uma postergação do consumo.
    Ou seja, no setor tecnológico há dois fatores que, por esse tese anti-deflacionista, postergariam o consumo: queda de preços e certeza da melhoria na qualidade.

    E, ainda assim, as pessoas seguem comprando hoje, mesmo sabendo que amanha tudo estará mais barato e com melhor qualidade.

    "a inovação tecnológica nesse setor é a mais rápida do mundo, sendo assim, é de se esperar que a deflação não cause estragos no mercado."

    A deflação não causa estragos por causa do aumento de produtividade, dos ganhos de escala e do contínuo corte de custos. Os preços caem, mas os custos também. E a eficiência e os ganhos de escala aumentam. Essa é a essência do capitalismo: cortes de custos e de ineficiências para alcançar maior produtividade e consequência mais lucros.

    "Todavia, outros bens como imóveis, commodities e alimentos por exemplo, não possuem esse avanço da técnica. Um imóvel construído hoje -- tudo o mais constante -- não tem porque valer menos ano que vem, pois não existe avanço tecnológico nesse setor. O mesmo acontece com o ferro ou com a laranja."

    A compra imobiliária se dá majoritariamente por motivos especulativos. As pessoas ainda vêem imóveis como um investimento e não como um bem de consumo. Elas compram imóveis para alugar ou, ainda que seja para morar, visando a uma futura revenda.

    Laranjas as pessoas compram para comer. É preferência temporal pura. Preferem uma laranja hoje a uma laranja ano que vem. E ferro é um insumo usado na produção. Não dá para você deixar para ano que vem a compra de uma matéria-prima a ser utilizada em seu processo produtivo.

    "Segundo ele, para esses produtos, a deflação é anti-natural pois não existem laranjas obsoletas, ou ferro obsoleto. A lógica da deflação benéfica não funcionaria para toda a economia. Daí surge a necessidade de buscar um nível geral de preços equilibrado."

    'Buscar nível geral de preços equilibrado' é sinônimo de 'quero planejar a economia de acordo com meus caprichos'. Onde isso deu certo?

    É por isso que esse pessoal tem tanta dificuldade de entender que um arranjo que eles não aceitam -- preços em queda é algo essencialmente anti-keynesiano -- pode funcionar.


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