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A segunda morte de Osama Bin Laden
por Paul Craig Roberts, segunda-feira, 2 de maio de 2011

Se ontem fosse 1º de abril e não 2 de maio, a notícia de que Osama bin Laden havia sido morto durante um tiroteio no Paquistão e rapidamente "enterrado no mar" poderia ter sido facilmente descartada como mais um trote do dia da mentira.  No entanto, da maneira como a notícia vem sendo recebida, é realmente preciso aceitá-la como mais um evidência de que o governo americano possui uma crença ilimitada na ingenuidade de seus súditos.

Apenas pense.  Quais as chances de uma pessoa que sofria de doenças renais, que necessitava de diálise e que, mais ainda, sofria de diabetes e pressão baixa, ter sobrevivido dentro de esconderijos montanhosos por uma década?  Se Bin Laden era capaz de adquirir equipamentos para diálise e para os tratamentos médicos que sua saúde delicada exigia, será mesmo que a remessa de todo esse equipamento não poderia ser rastreada, apontando sua localização?  Por que demoraram dez anos para encontrá-lo?

Considere também as alegações, repetidas exaustivamente por uma mídia triunfalista que celebrava a morte de Bin Laden, de que "Bin Laden utilizou seus milhões para financiar campos de treinamento terrorista no Sudão, nas Filipinas e no Afeganistão, enviando 'guerreiros sagrados' para fomentar a revolução e lutar junto a forças fundamentalistas muçulmanas no Norte da África, na Chechênia, no Tajiquistão e na Bósnia."  São muitas atividades para apenas meros milhões financiarem.  Com tamanha competência administrativa, talvez os EUA devessem tê-lo nomeado diretor do Pentágono...

Porém, a questão principal é essa: como Bin Laden conseguia movimentar seu dinheiro?  Qual sistema bancário o estava ajudando?  O governo americano sempre consegue confiscar os ativos de pessoas e até mesmo de países inteiros, como ocorreu mais recentemente com a Líbia.  Por que não conseguiu fazer isso com Bin Laden?  Será que ele simplesmente andava carregando saquinhos com $100 milhões de dólares em moedas de ouro e enviava emissários para distribuir os pagamentos?  Era assim que ele financiava suas operações vastas e amplamente distribuídas pelo mundo?

A notícia de ontem exalava todo o odor característico dos eventos cuidadosamente ensaiados antes de serem encenados.  O cheiro forte estava impregnado nas notícias triunfalistas e carregadas de inebriantes exageros nacionalistas, com manifestantes balançando bandeiras e gritando "USA, USA".  Será que há algo mais por trás disso?

Os americanos estão tão encantados com a morte de Bin Laden que nem sequer pararam para pensar por que informações que teoricamente vinham sendo coletadas há anos demorariam tanto para finalmente descobrir que o alvo estava supostamente morando em uma construção de mais de um milhão de dólares, equipada com aparelhos de comunicação de última geração, e próxima à Academia Militar Paquistanesa!  Supostamente, o "criminoso mais procurado do mundo" não ficava entrando e saindo de esconderijos, movendo-se de um lugar para o outro em montanhas desoladas, mas, sim, estava abrigado em alojamentos luxuosos em plena luz do dia.  Ainda assim, não obstante sua óbvia localização, a CIA levou anos para encontrá-lo, após supostamente ter obtido informações da localização de Bin Laden por meio de prisioneiros mantidos em prisões secretas.  

Após o suposto cadáver ter sido jogado no mar para "respeitar as tradições islâmicas" -- lembre-se que, com Saddam Hussein, igualmente islâmico, não houve hesitação em mostrar fotos de seu corpo --, nada mais resta senão a palavra do governo americano, o qual mentiu sobre as armas de destruição em massa e sobre as conexões da al-Qaeda, sobre os reatores nucleares e a bomba atômica do Irã, e, de acordo com vários especialistas, sobre o 11 de setembro.  Devemos acreditar que repentinamente o governo passou a falar a verdade ao anunciar a morte de Bin Laden?  

Não há dúvidas de que o presidente Obama está desesperado por uma vitória.  Ele cometeu o erro básico, tipicamente tolo, de recomeçar a guerra no Afeganistão.  Após uma década de infindáveis batalhas, os EUA estão em um impasse, um genuíno beco sem saída.  Para muitos, a situação era de derrota.  As guerras dos regimes Bush/Obama arruinaram financeiramente os EUA, gerando déficits orçamentários monstruosos e um dólar em contínuo e permanente declínio.  E as eleições presidenciais já serão no ano que vem.

As várias mentiras e enganações criadas pelos últimos governos, como as tais "armas de destruição em massa", trouxeram terríveis consequências para os EUA e para o mundo.  Porém, nem todos os enganos são os mesmos.  Lembre-se: o único motivo apresentado para invadirem o Afeganistão era capturar Bin Laden.  Agora que o presidente Obama declarou que Bin Laden foi morto com dois tiros na cabeça -- disparados por forças especiais americanas operando em um país independente -- e enterrado no mar, não há mais motivos para que a ocupação do Afeganistão continue.

É possível que o acentuado declínio do dólar nos mercados internacionais tenha forçado o governo americano a fazer alguns reais cortes no orçamento, os quais só poderiam advir da interrupção de algumas de suas várias guerras sem fim.  Enquanto o dólar ainda não havia chegado a esse ponto insustentável, Osama Bin Laden, que muitos especialistas acreditavam já estar morto há anos, teve uma ótima serventia como o perfeito bicho-papão, sempre sendo invocado para manter a população em estado de permanente alerta e, com isso, garantir ótimos lucros para o complexo industrial-militar americano.


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