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Ação, tempo e conhecimento: a Escola Austríaca de economia

I. Introdução

A tradição iniciada por Carl Menger em 1871 é um campo vasto e fascinante do conhecimento humano, que transcende a economia, porque se estende ao âmbito mais abrangente das ciências sociais, da filosofia e da cultura humanista. Não foi por acaso que Hayek afirmou que um economista que só enxerga dentro dos limites estritos da teoria econômica, por mais apurados que sejam seus conhecimentos técnicos, nunca será um economista completo. Não basta que ele domine o estado das artes em sua ciência: é preciso ir mais além, é preciso ser essencialmente um humanista. No entanto, mesmo sendo um campo muito amplo do conhecimento humano, a EA guarda uma simplicidade impressionante, que se explica pela lógica irrepreensível de suas proposições e postulados. É como dizia Mises: "good economics is basic economics"!

Os grandes economistas austríacos do século XX foram de uma coragem exemplar, porque, mesmo vivendo em uma época em que seus colegas faziam questão de se tornarem progressivamente especializados em áreas cada vez mais restritas da economia, não permitiram, em nenhum momento, que o modismo os fizesse abrir mão de serem generalistas, não no sentido pejorativo que essa palavra adquiriu, mas no de valorizarem a vasta cultura e o humanismo. Infelizmente, os economistas, desde o abandono da tradição humanista, ao mesmo tempo em que dominavam mais conhecimentos técnicos específicos, foram se tornando cada vez menos cultos, e hoje em dia é lamentável verificarmos que raros são aqueles realmente eruditos, no sentido de dominarem campos que ultrapassem os contidos nos manuais de microeconomia e de macroeconomia. Muitos, infelizmente, chegam a tratar com desdém as demais ciências sociais, porque, em sua maneira obnubilada de encarar o conhecimento — ensinada desde os cursos de graduação — estas não seriam "científicas".

Mas a verdade é que a infinidade de ações que caracterizam a economia do mundo real costuma ser muito diferente e muito mais complexa do que a que se encontra nos livros-textos. A EA não é "intuitiva": é lógica! E não se restringe à economia: estuda as relações desta com a epistemologia, a política, o direito, a história, a sociologia, a psicologia, a antropologia e a filosofia política. Aquele típico homo oeconomicus a que todos os estudantes da economia tradicional são apresentados no início das estruturas curriculares dos cursos de ciências econômicas em todo o mundo, simplesmente, não existe. É fruto da imaginação, é um fantasma, um espectro, sem qualquer relação com a realidade. Isso não significa que a teoria convencional deva ser descartada, nem que o homo oeconomicus seja um íncubo a ser esconjurado. Significa apenas que os aspectos humanistas da economia não podem ser postos de lado, como se não fossem importantes ou "científicos". Na verdade, o humanismo em economia é muito anterior a Menger: remonta a São Tomás de Aquino e, depois, aos autores da chamada Escolástica Tardia e prossegue com David Hume e Adam Smith e só foi "descartado" a partir do século XX, com o avanço das ideias positivistas. Tanto no dia a dia como no mundo da ciência, o que importa não é o homo oeconomicus e sim o homo agens.

II. A tríade básica ou núcleo fundamental

A EA tem como fundamentos uma tríade concomitante e complementar, formada pelos conceitos de ação humana, de tempo dinâmico e pela hipótese acerca dos limites ao nosso conhecimento. Esses três elementos formam o seu núcleo fundamental e se transmitem por meio de seus elementos de propagação para os diversos campos do conhecimento humano. Essa difusão tem implicações na filosofia política, na epistemologia e na economia. São por assim dizer a pedra angular do monumental edifício teórico que constitui a Escola Austríaca de Economia. Deles emanam os elementos de propagação e neles se assentam todos os componentes essenciais às deduções lógicas e às propostas teóricas.

(a) ação

Ação significa qualquer ato voluntário, qualquer escolha feita deliberadamente com vistas a se passar de um estado menos satisfatório para outro, considerado mais satisfatório no momento da escolha. A praxeologia é a ciência geral que se dedica ao estudo da ação humana, considerando todas as suas implicações formais. Ora, todos os atos econômicos, sem exceção, podem ser reduzidos a escolhas realizadas de acordo com o conceito seminal de ação humana. E a proposição básica, o primeiro axioma da praxeologia, é que o incentivo para qualquer ação é a insatisfação, uma vez que ninguém age a não ser que sinta alguma insatisfação e avalie que uma determinada ação venha a melhorar seu estado de satisfação, ou seja, aumentar seu conforto, sensação de alegria ou de realização, diminuindo, portanto, seu desconforto, frustração ou insatisfação. Este axioma é universal: onde quer que existam pessoas existirá ação assim definida. Portanto, a ciência econômica construída com base na praxeologia é, por corolário, universal. Não há teorias econômicas específicas ou particulares para cada país ou região, mas uma teoria econômica epistemologicamente correta, que é a que se monta peça por peça a partir da observação e do estudo sistemático da ação. Mises denominou o conceito de ação humana de axioma praxeológico número um, no sentido de que a partir dele podem-se deduzir as principais leis comportamentais que regem a economia.

(b) tempo

O segundo componente da tríade é o tempo, especialmente sua concepção dinâmica, ou tempo subjetivo, ou, ainda, tempo real, em que o tempo deixa de ser uma categoria estática que possa ser descrita por um simples eixo horizontal, para ser definido como um fluxo permanente de novas experiências, que não está no tempo, como na concepção estática ou newtoniana, mas que é o próprio o tempo. Quando consideramos o tempo dinâmico, estamos implicitamente aceitando o fato de que algo de novo sempre está acontecendo e assumindo suas três características: continuidade dinâmica, heterogeneidade e eficácia causal. Portanto, o tempo é, em si, um processo ou procedimento permanente de descobertas, como frisava Hayek. O tempo dinâmico real é irreversível e sua passagem acarreta uma evolução criativa, ou seja, implica alterações imprevisíveis. O conceito de tempo real é fundamental para que se possa entender a natureza da ação humana: agindo, os indivíduos acumulam continuamente novas experiências, o que gera novos conhecimentos, o que, por sua vez, os leva a alterarem frequentemente seus planos e ações.

(c) conhecimento

O terceiro elemento da tríade básica da EAE é o tratamento epistemológico do fato — indiscutível — de que o conhecimento humano contém sempre componentes de indeterminação e de imprevisibilidade, o que faz com que todas as ações humanas produzam efeitos involuntários e que não podem ser calculados a priori. Além disso, existem, para os austríacos, limites inescapáveis à capacidade da mente humana que a impedem de compreender integralmente a complexidade dos fenômenos sociais e econômicos. Os sistemas formais possuem certas regras de funcionamento e de conduta que não podem ser previamente determinadas. É como escreveu José Ortega y Gasset: "o olho não se vê a si mesmo". (Só no espelho)... Como não é possível quantificar todo o nosso conhecimento, a EA não analisa os mercados como estados de equilíbrio, mas como processos de descoberta e articulação de conhecimentos que, normalmente, na economia do mundo real, permanecem calados, silenciosos, escondidos, espalhados e desarticulados, à espera da inteligência humana subjetiva exatamente para despertá-los, exibi-los, organizá-los e articulá-los. Esta terceira hipótese nucléica da Escola Austríaca, para diversos estudiosos de epistemologia, é a mais importante. No entanto, preferimos considerá-la em pé de igualdade com as duas primeiras, por acreditarmos que assim procedendo fica mais fácil destacar as interações e a interdependência existentes entre as três.

Esse núcleo básico da EAE é tão importante que nos permite definir a economia como ação humana nos mercados ao longo do tempo sob condições de incerteza genuína.

III. Os elementos de propagação

(a) utilidade marginal

O primeiro elemento de propagação da Escola Austríaca não é exclusivo dela. Trata-se do conceito ou doutrina da utilidade marginal que, como se sabe, foi a resposta correta, encontrada isoladamente, no ano de 1871, por três economistas, à denominada questão do valor, que vinha desafiando todos os que se interessavam pela ciência econômica, desde São Tomás de Aquino, ainda no século XIII. Cerca de seiscentos anos depois da Suma, Carl Menger, Leon Walras e William Stanley Jevons, o primeiro em Viena, o segundo em Lausanne e o terceiro em Londres, perceberam que o valor de um bem ou serviço é determinado por sua utilidade marginal em cada momento do tempo, isto é, que o valor depende de uma combinação simultânea da utilidade com a escassez. Embora o conceito tenha sido introduzido na teoria econômica pelos três, cada um deles o trabalhou individualmente segundo sua própria convicção: Menger adotou uma postura subjetivista, enquanto Walras (o precursor da chamada escola de equilíbrio geral) e Marshall (o pai da escola de equilíbrio parcial) dispensaram-lhe tratamento matemático, já que o conceito de unidades marginais ou adicionais de bens e serviços encaixava-se perfeitamente no aparato do cálculo diferencial. Para os austríacos, o princípio da utilidade marginal, a ação, o tempo dinâmico e o subjetivismo são inseparáveis.

(b) subjetivismo

O subjetivismo da Escola Austríaca não se limita à teoria subjetiva do valor ou à percepção de que as teorias que lidam com o campo humano seriam pessoais e, portanto, não sujeitas a testes, mas refere-se a uma pressuposição básica: a de que o conteúdo da mente humana — e, portanto, os processos de tomadas de decisão que caracterizam nossas escolhas ou ações — não são determinados rigidamente por eventos externos. Assim, o subjetivismo enfatiza a criatividade e a autonomia das escolhas individuais e, por conta disso, subordina-se ao individualismo metodológico, à concepção de que os resultados do mercado podem ser explicados em termos dos atos de escolha individuais. Para os austríacos a teoria econômica deve considerar prioritariamente o emaranhado de fatores que explicam as escolhas e não limitar-se a simples interações entre variáveis objetivas. O subjetivismo, então, analisa a ação humana levando em conta que essa ação se dá sempre sob condições de incerteza genuína, não mensurável, e, também, que ela necessariamente acontece ao longo do tempo dinâmico. Quando um agente escolhe um curso de ação, os resultados de sua escolha vão depender dos cursos de ações executadas e a serem potencialmente executadas por outros indivíduos. Prevalecendo a autonomia nas decisões individuais, isto quer dizer que o futuro não apenas não é conhecido, mas que não pode ser conhecido e nem aprendido.

(c) ordens espontâneas

Ordens espontâneas são classes intermediárias de fenômenos que são específicos da ciência da ação humana ou Prxeologia. São, por assim dizer, instituições que se situam entre o instinto e a razão, resultantes da ação humana, mas não da execução de qualquer desígnio humano. Com efeito, para os pensadores da Grécia antiga, existiam dois tipos de fenômenos, correspondentes aos termos - introduzidos pelos sofistas do século V a. C. — physei, que significa "por natureza" e thesei, que significa "por decisão deliberada".  Para os austríacos, entretanto, essa dicotomia não é condizente com as ciências sociais. No dizer de Hayek, em The Counter-Revolution of Science: Studies on the Abuse of Reason (Collier-Macmillan, New York-London, 1964, p. 39): "alguma espécie de ordem aparece como resultado da ação individual, mas sem ser intencionada por qualquer indivíduo". Exemplos característicos dessas ordens são o sistema monetário, os mercados, as manifestações culturais e a linguagem. A economia do mundo real, desde que os homens descobriram que poderiam obter ganhos com o processo de trocas até os nossos dias é uma grande ordem espontânea, semelhante ao universo, em que há permanentemente forças em expansão e em contração, razão pela qual os austríacos costumam denominar a economia de mercado de cataláctica ou cataláxia.

IV. Filosofia política

A filosofia política da EA deve ser vista como uma tentativa de compreender e explicar a história e as instituições sociais à luz dos limites naturais ao conhecimento humano. Como escreveu o filósofo italiano Raimondo Cubeddu, professor em Pisa, "a história e as instituições sociais aparecem frequentemente como produtos das ações humanas individuais, voltadas para a consecução de fins subjetivos" (The Philosophy of the Austrian School, Routledge, London-New York, 1993, p. x do Prefácio). Menger, Mises, Hayek e outros austríacos não foram apenas economistas que mergulharam no mundo da política, ou sonhadores de um mundo melhor de cunho utópico, mas pensadores que elaboraram uma teoria do melhor regime baseada em uma concepção da ação humana e da natureza da sociedade. O início da chamada era moderna foi marcado pela emancipação da economia da ética e da política, ou seja, pela suposição de que a economia, diferentemente desses dois outros campos do conhecimento, teria o status de "ciência". Entretanto, nos dias atuais, as discussões sobre o melhor regime sempre aparecem entremeadas com as questões econômicas. Porém, quando os austríacos recusaram-se a aceitar a separação da economia da ética e da política, os acadêmicos, embevecidos pelo canto da sereia do positivismo, não pensavam assim. Quando os austríacos publicaram suas críticas ao socialismo, advertindo que sua adoção acabaria gerando o caos ou a tirania, precisamente porque jamais seria possível conciliar planejamento e liberdade, eram como que vozes solitárias clamando no deserto. Naquela primeira metade do século XX havia uma crença geral de que os perigos com do socialismo, apontados pelos austríacos, simplesmente, não existiam, que suas críticas tinham tão somente motivações de natureza ideológica e que embutiam uma visão errada dos mecanismos que proporcionam o crescimento das economias.

É espantoso que ainda hoje, depois do fracasso de todas as experiências socialistas, ainda haja predominância nas academias, em todo o mundo, de intelectuais que simpatizam com o socialismo. Há olhos que vão além da frase de Gasset, porque se recusam a enxergar. A filosofia política não é uma forma de ideologia e não pode ser reduzida a um mero conhecimento da história, nem representa uma simples expressão de uma "luta de classes". Ela é um desafio filosófico, guiado pela razão e pela experiência em busca do melhor regime político. Em suma, é o que a EA jamais deixou de sustentar.

(a) crítica aos sistemas mistos

Com base na antítese entre ordens espontâneas e ordens dirigidas Hayek faz uma distinção importante a cerca das normas do sistema político e institucional. As primeiras, do tipo nomos, são as que evolvem de maneira não deliberada, em que o sistema jurídico vai paulatinamente, em consonância com os usos, costumes e tradições, estabelecendo as garantias às liberdades individuais básicas para que os casos concretos de violação a essas liberdades sejam solucionados. Trata-se da common law. Essas normas devem servir de base ao direito, por serem regras gerais de justa conduta, aplicáveis a todos de modo igual e, ao fim e ao cabo, representam o fundamento para a proposição de que o poder do estado precisa e deve ser limitado. As regras do tipo thesis, em contrapartida, são deliberadas, planejadas no campo do direito positivo, para a obtenção de objetivos específicos de interesse do poder do estado e dos grupos que ocupam o poder ou que se beneficiam dele. Exemplos de normas desse segundo tipo são: a obrigatoriedade de se usar cintos de segurança dentro de um automóvel, os orçamentos públicos e as alíquotas de impostos. Por outro lado, às economias de mercado aplica-se o paradigma cosmos e às economias dirigidas ou planificadas o paradigma taxis. Direito e economia são, na concepção austríaca, inseparáveis e precisam ser complementares, quando se busca uma ordem social adequada. Portanto, cosmos-nomos representa uma ordem social em que prevalece a economia de mercado regida por normas de justa conduta que atendem à tradição da common law. Já uma ordem dirigida no direito e na economia pode ser sintetizada pelo paradigma thesis-taxis, que traduz uma economia dirigida pelo estado, que faz o seu intervencionismo ser suportado por comandos e ordens no campo jurídico.

Quaisquer formas intermediárias entre uma ordem espontânea e uma ordem dirigida são inviáveis, porque sofrem, por definição, de inconsistências lógicas internas fatais. Os sistemas mistos - economia de mercado sob comandos legais ou economias dirigidas sob a common law - são inviáveis por sua inconsistência interna, já que uma economia de mercado pressupõe ausência de ordens e controles, enquanto uma economia dirigida não admite as normas características da common law. Sendo assim, no longo prazo, essas formas mistas de organização jurídica e econômica, por serem contraditórias, não conseguem ser sustentadas e tendem a convergir para uma ordem dirigida ou totalitária do tipo thesis-taxis.

(b) evolução nas ciências sociais

As sociedades sempre foram ordens espontâneas, desde os primeiros agrupamentos tribais até a moderna civilização de nossos dias. Sendo assim, as sociedades evolvem não como resultado exclusivo da razão planejada, mas mediante processos de mutações permanentes, de processos evolutivos, que em nada se assemelham ao evolucionismo biológico  darwiniano. O evolucionismo em ciências sociais não é uma extensão do evolucionismo biológico darwiniano. A verdade é exatamente o oposto: foi Charles Darwin quem aplicou à biologia o conceito de evolução. A crença de que a teoria da evolução social consiste de "leis de evolução" é completamente equivocada, uma vez que não se pode falar em leis ou sequências definidas, às quais a evolução das instituições sociais deveria estar subordinada. Logo, não é possível estabelecer modelos de previsão das trajetórias futuras dos fenômenos sociais. Em outras palavras, a evolução das sociedades não segue um curso pré-determinado; é antes um processo de tentativas e erros e, fundamentalmente, de natureza cultural, ao não resultar nem do instinto e nem da razão.

(c) democracia e divisão de poderes

A democracia não pode ser vista como um fim em si, mas como simples meio de assegurar que os governantes eleitos exerçam o seu papel de governar por meio de normas gerais e não se valendo de decretos que expressam seus próprios desígnios. A democracia deve, por outro lado, conter mecanismos de prevenção contra os abusos da vontade da maioria parlamentar e impor limites à atuação do partido ou coligação que esteja eventualmente no poder.

A finalidade da democracia, para Hayek, é garantir uma verdadeira separação entre os três poderes tradicionais, algo que, apesar das boas intenções do estado constitucional moderno, nunca foi realizado, dado que, tradicionalmente, o poder de legislar e o poder de dirigir o governo - o legislativo e o executivo - sempre se misturaram nas assembléias legislativas e, com o passar do tempo, as instituições democráticas existentes foram se moldando às necessidades dos governos democráticos mais do que à de descobrir sistemas apropriados de regras gerais de justiça para atender ao interesse público. Assim, as atribuições de legislar têm passado cada vez mais para o âmbito do executivo, restando ao legislativo um papel meramente fiscalizador, servindo a democracia como simples vestimenta ou disfarce, embora indispensável para dar aparato de legalidade a eventuais arbitrariedades do executivo.  Este fato se constitui em uma inversão de valores e é reflexo da transformação da lei (nomos) em legislação (thesis), fazendo com que o compromisso com princípios e normas de conduta gerais fosse substituído por consensos a respeito de medidas particulares.

(d) contenção do poder

O grande desafio na organização de uma ordem social que assegure as liberdades individuais e o respeito às normas gerais de conduta é o de limitar efetivamente o poder. Liberdade, razão e estado são essenciais no processo de conformação da ordem nas sociedades, porque as duas primeiras são inseparáveis das normas de conduta e estas, por sua vez - mesmo que isto nos incomode -, são mais facilmente respeitadas por coerção implícita do que por acordos voluntários.  Hayek propôs duas assembléias, uma para cuidar das normas de conduta (nomos), e outra a quem caberia, exclusivamente, a legislação (thesis). A primeira deveria refletir uma representação de acordo com o peso eleitoral dos partidos políticos e a segunda funcionaria de maneira independente destes. Essas diferentes funções e composições atenderiam concomitantemente ao princípio da separação dos poderes e ao estado de direito, estabeleceriam de modo mais efetivo uma verdadeira primazia da lei sobre os indivíduos e impediriam os detentores do poder executivo de usar esse poder para atender aos interesses partidários ou pessoais, disfarçando-os com argumentos de "interesse público" ou de "justiça social". Adicionalmente, esse sistema bicameral impediria que a maioria parlamentar seguisse comportamentos discricionários, de acordo com as conveniências de cada momento político.

A filosofia política de Hayek está longe de ser um modelo abstrato, porque está baseada na evolução da common law inglesa, um sistema jurídico que, mediante a solução para casos concretos, foi ao longo do tempo e desde muitos séculos descobrindo as liberdades individuais. A evolução das instituições políticas limitativas dos poderes do Estado está assentada nessa mesma base. Na Inglaterra, o surgimento do poder legislativo não foi resultado de nenhuma concepção segundo a qual o direito deve ser deliberadamente "planejado" por uma assembléia colegiada, mas uma medida de caráter mais prático do que teórico para tentar limitar os poderes do rei. O fato de existirem duas câmaras, a dos lordes e a dos comuns, também se explica pelo mesmo princípio: enquanto aquela se incumbe de defender o direito, mesmo que não sancionado sob a forma de leis escritas, mas já existente na common law, a câmara dos comuns deve preocupar-se com as normas do tipo thesis que, na nomenclatura de Hayek, significa legislação e se diferencia do direito (nomos).  Ao legislativo, portanto, não compete elaborar o direito, mesmo porque este já existe na common law.

Com a forte influência de Rousseau, contudo, esse entendimento foi se degenerando, mas ele é claro ao exprimir que as liberdades individuais devem ser, na maior medida possível, autônomas em relação à vontade arbitrária dos poderes do Estado, sejam o executivo ou o legislativo. Ninguém, nem uma maioria, nem uma minoria, de acordo com a concepção de Hayek, deve possuir qualquer poder decisório sobre o direito, porque este deve basear-se nas liberdades individuais.

(e) crítica ao construtivismo

Muitas das controvérsias existentes no campo científico e, principalmente, no político, derivam das diferenças filosóficas básicas entre duas escolas gerais de pensamento. Como ressaltou Hayek, embora seja costumeiro referir-se a ambas como racionalismo, deve-se distinguir entre o racionalismo evolutivo (ou, na nomenclatura de Karl Popper, racionalismo crítico) e o racionalismo construtivista (ou ingênuo, no dizer de Popper).

O racionalismo cartesiano, ao ser transplantado para as ciências sociais, gerou a idéia de que a mente e a razão humanas seriam capazes, por si só, de permitir ao homem construir de novo a sociedade. Essa pretensão racionalista, que Hayek denominou de construtivismo ou de engenharia social, teve suas origens em Platão, fortaleceu-se com Descartes e encontrou seguimento em Hegel e Marx. Confrontado, com o racionalismo evolutivo característico do pensamento liberal, o racionalismo construtivista - fonte das utopias, do socialismo, do nazismo e do totalitarismo em geral - é ingênuo em suas crenças, extremamente arrogante em sua gnosiologia e perigoso em suas experimentações práticas nas sociedades modernas, como a história do século XX atesta. (Para compreender esse fenômeno, recomendamos a leitura da obra do filósofo alemão Eric Voegelin, especialmente Hitler e os Alemães).

A posição da EA - o racionalismo crítico ou evolutivo - baseia-se em uma visão de mundo extremamente mais realista em sua observação dos fatos, humilde em relação às limitações dos poderes da mente humana e cética no que diz respeito aos experimentos de engenharia social, um resultado natural da utopia racionalista cartesiana.

Em resumo, há limites claros ao conhecimento e esses limites impedem que as experiências construtivistas obtenham êxito. Isto não significa, evidentemente, que o corpo teórico da EA não seja constituído por um conjunto de proposições racionais, apenas que o tipo de racionalismo que utiliza é evolutivo ou crítico.

V. Epistemologia

A epistemologia ou estudo do conhecimento científico costuma dividir as ciências em factuais, quando se baseiam na observação e na experimentação; têm objetos reais de estudo e juízos geralmente sintéticos, isto é, em que o predicado não se verifica a partir da análise do sujeito (por exemplo, "o torcedor do Fluminense", pois não se pode, a partir da análise do conceito de "torcedor", inferir que ele tenha amor ao "Tricolor"); e formais, quando têm como objeto entes de razão; utilizam o método axiomático-dedutivo (que consiste em inferir uma série de teoremas a partir de alguns axiomas ou proposições não demonstrativas); e elaboram juízos analíticos de valor (que são aqueles em que o predicado se infere a partir da análise do sujeito, como, por exemplo, o predicado da oração "Deus é infinitamente sábio" se infere a partir da análise do conceito "Deus").

A economia, para a EA, é uma ciência factual-dedutiva, uma vez que, embora não estude entes de razão como fazem as ciências formais e também não empregue o método experimental, como fazem as ciências factuais, é, rigorosamente, uma ciência dedutiva, na medida em que suas leis não são derivadas do que foi observado em diversos casos, mas se inferem a partir de premissas gerais. A análise austríaca parte do exame das implicações formais da ação humana, considerada como a característica essencial de tudo o que é "econômico". Sobre essa base, que é estabelecida por axiomas, ela prossegue, deduzindo suas implicações lógicas, até construir os teoremas correspondentes, que são as leis econômicas.

A EA vê as leis econômicas como relações indicativas de causa e efeito, isto é, apenas como indicativas de tendências, sem exatidão matemática. Isto decorre do fato de que não existem, em economia, constantes, como existem na física. Sendo assim, as leis da física, não podendo ser deduzidas do nada, devem ser induzidas, mediante um processo de experimentos prévios, ao passo que, em economia, as medições realizadas não são mais que simples dados da história econômica, sem significado maior para a teoria econômica pura. Por essas razões é que os economistas da Escola Austríaca sempre sustentaram que o método experimental, utilizado corretamente por ciências como a física e a química, não pode ser utilizado pela economia, cuja metodologia deve necessariamente basear-se em procedimentos dedutivos.

(a) individualismo metodológico

O individualismo metodológico da EA remonta a Menger - que elaborou um tratado sobre a essência e os métodos das ciências sociais - e está associado ao seu conteúdo subjetivista que, ao lidar com o espírito individual e com as escolhas individuais, conduz naturalmente ao estudo do indivíduo. Assim, os resultados dos mercados devem ser explicados em termos dos atos individuais de escolha praticados nesses mercados. A economia deve tratar, antes de qualquer outra coisa, com pensamentos e avaliações individuais que antecedem e servem de base para as escolhas e não de inter-relações entre magnitudes objetivas. Esta compreensão do individualismo metodológico já embute, então, críticas aos excessos de quantificação e aos insights holistas (como a macroeconomia, por exemplo) e coletivistas.  

O objeto da economia, assim como o das chamadas ciências sociais deve ser prioritariamente o indivíduo, a pessoa humana em toda a sua dignidade e não um ente abstrato - a "sociedade" - que, embora possa ser considerada como o conjunto de todos os indivíduos que a compõem, não pensa, não fala, não vai às compras, não poupa e não investe. Quando muito, essas ações são feitas em seu nome, mas por pequenos grupos formados por indivíduos que ocupam de alguma forma o poder. A "sociedade" é, por assim dizer, uma abstração real, no sentido de que ela existe, mas não tem vida própria, porque não é mais do que um amontoado dos desejos, aspirações, escolhas, sucessos e frustrações, muitas vezes conflitantes, de milhões de indivíduos.

(b) modelos vs. fatos nas ciências sociais

Em Scientism and the Study of Society, Hayek pergunta o que são os fatos nas ciências sociais, frisando que estas não podem ser manejadas como objetos físicos tal como as ciências naturais o fazem, mas sim com conceitos que devem surgir da vontade das pessoas quando estão agindo. Isto significa que para a economia não interessa se uma determinada moeda é de cobre ou de ouro, nem se uma cédula emitida pelo Banco Central é verde ou azul, mas sim que a moeda é um meio de troca, ou seja, o que importa é como ela é utilizada nas ações humanas. A moeda, como conceito geral, não pode ser explicada sem que se refira a interações entre indivíduos.

O filósofo argentino Gabriel Zanotti, no artigo Hayek y la Filosofía Cristiana demonstra que a perspectiva gnosiológica de Hayek - ao defender quais são os fatos das ciências sociais e, ao mesmo tempo, o individualismo metodológico -  é nominalista e neokantiana, ou seja, relaciona o individualismo metodológico com o individualismo ontológico, para o qual somente existem indivíduos e as essências universalizadas em nossa mente não possuem fundamento real. Para Zanotti, "os conceitos gerais segundo os quais estudamos as interações individuais não se referem a uma essência realmente existente, mas a modelos gerais mentalmente formulados antes de qualquer observação, a que Hayek, por sua vez, relaciona com a limitação do conhecimento e com a ordem espontânea" (p. 60).

(c) características das ciências sociais

Uma das características mais fortes da epistemologia da EA é a idéia de que as ciências sociais precisam ser conduzidas com objetivos e métodos distintos daqueles utilizados pelas ciências naturais, porquanto não devem utilizar o método indutivo daquelas ciências, mas sim modelos gerais de análise das complexas interações sociais, que possam servir de base para a dedução de conclusões que têm, entretanto, pouca utilidade para prever com precisão os resultados de situações particulares. Esses resultados não podem ser verificados por meio de experimentos controlados, mas podem ser negados (falsificacionismo) pela observação dos fatos. Dessa forma, os austríacos rejeitam veementemente o método positivista nas ciências sociais e, portanto, na economia. Essas ciências não têm por que copiar os métodos das ciências naturais, nem os seus cientistas precisam sentir-se "inferiorizados" por isso, já que a questão central - que muitos economistas parecem ignorar - é que os seus métodos de estudo, suas características e seus objetivos são completamente diferentes daqueles das ciências naturais, tanto sob o ponto de vista ético quanto do antropológico.

(d) previsão em ciências sociais

Os economistas austríacos sempre foram céticos quanto à capacidade de previsão de "modelos de informação incompleta". O contexto geral das ciências sociais implicaria modelos de previsão sobre cada ordem espontânea a ser analisada. A limitação do conhecimento, no entanto, não é apenas um fenômeno existente do lado dos atores ou agentes, mas também no dos cientistas sociais encarregados da elaboração desses modelos. Ora, como esperar, então, que alguém que não tem conhecimento de todos os fatores relevantes em fenômenos tão complexos como os estudados pelas ciências sociais possa ter capacidade para prever a trajetória futura desses fenômenos? Trata-se, como observou Zanotti, do "indeterminismo intrínseco à conduta humana", como diria Popper, ou, simplesmente, do "livre arbítrio", como escreveria São Tomás de Aquino. A capacidade de previsão das ciências sociais é restrita a previsões gerais e jamais a previsões particulares e específicas. E a única possibilidade de testes empíricos é a pura observação de acontecimentos que, segundo o resultado geral da previsão, seriam impossíveis. Por isso, quando ainda não conhecia a EA e jornalistas ou alunos me perguntavam, por exemplo, qual seria a taxa de inflação em determinado mês ou ano, eu - treinado na macroeconomia e na econometria - sempre tinha um número "pronto" revelado "cientificamente" por algum modelo. Mas, desde que li Ação Humana e decidi estudar os economistas austríacos, minha resposta a esse tipo de pergunta passou a ser: a tendência da inflação é de alta (ou de queda, se for o caso), mas nem eu e nem ninguém tem capacidade para dizer de quanto será a alta (ou a queda). Ou, para resumir: não sei...

VI. Economia

A economia da EA, assim como a epistemologia e a filosofia política, também deriva da tríade básica - ação, tempo e conhecimento - e se propaga por meio dos conceitos de utilidade marginal, subjetivismo e ordens espontâneas, que são os seus elementos de propagação. Com base no núcleo seminal e nesses elementos propagadores, os economistas austríacos, desde os primórdios com Menger, erigiram uma obra extraordinariamente rica sob o ponto de vista científico, mas que funciona perfeitamente - evidentemente, naquilo que se pode chamar de "perfeição" em uma ciência social - quando tenta explicar o mundo real.

Vejamos resumidamente cada um dos seis campos da teoria econômica que consideramos essenciais para a compreensão do pensamento austríaco.

(a) processo de mercado

A EA não estuda, ao contrário da mainstream economics, mercados em estado de equilíbrio. Nem tampouco utiliza a famosa classificação dos mercados segundo as suas "formas" (concorrência perfeita, oligopólio, concorrência monopolista e monopólio). Ela trabalha com a hipótese de que os mercados são processos que tendem ao equilíbrio (porque os agentes são racionais e aprendem com os erros), mas que, em cada momento distinto do tempo dinâmico, não estão em suas "posições" de equilíbrio.

Para entender isto, basta mencionarmos os principais elementos da teoria. Em primeiro lugar, os mercados são movimentados pela ação humana de seus participantes, tanto no lado da demanda quanto no da oferta. Em segundo lugar, a ação humana se dá ao longo do tempo dinâmico, em que cada instante é uma oportunidade de aprendizado. Terceiro, as transações nos mercados se realizam sob condições de limitação e de dispersão do conhecimento. Quarto, os mercados são ordens espontâneas, sujeitando-se, portanto, a permanentes mutações. E quinto, a ação humana é subjetiva. Como esperar, então, que o mundo real possa apresentar mercados em "equilíbrio"? Este é um dos principais pontos da teoria austríaca. Os mercados são processos de erros e tentativas, um permanente procedimento de descobertas de novas oportunidades, com uma dinâmica que não dá espaço para o equilíbrio.

(b) função empresarial

A função empresarial é a capacidade individual subjetiva de perceber as possibilidades de ganhos existentes nos mercados. Portanto, ela nada mais é do que uma categoria de ação. Sendo assim, a ação humana pode ser considerada como um fenômeno empresarial, mais especificamente aquela que realça as capacidades perceptiva, criativa e de coordenação do agente. Como em qualquer ação humana, a ação empresarial acontece em ambiente de incerteza genuína, dadas as limitações de nosso conhecimento. Requer, por sua vez, criatividade e desprendimento, já que o futuro é incerto e uma ação empreendedora tanto pode dar bons resultados como maus resultados. A ação empresarial é um conjunto de escolhas ao longo do tempo em ambiente de incerteza e, como tal, implica em um conjunto de outras ações alternativas a que se deve forçosamente renunciar e chama-se de custo ao valor subjetivo dessas ações a que se renuncia.

Como os meios sempre são escassos face aos fins, os agentes buscam primeiro os fins aos quais dão maior valor e apenas depois os demais, relativamente menos importantes. Cada ação é motivada pela crença subjetiva de que os fins escolhidos possuem um valor maior do que o valor dos custos da escolha de uma ação e a diferença entre ambos é o lucro, o elemento que explica a ação. Toda ação embute um componente empresarial puro e criativo em sua essência, que não requer qualquer custo e que é exatamente o que permite aproximar o conceito de ação do conceito de função empresarial.

(c) debate sobre o cálculo econômico

Mises, ainda nos anos 20 do século passado, percebeu claramente que o sistema socialista impossibilita o cálculo econômico. Seu argumento era simples: o cálculo econômico requer que os planejadores conheçam os preços; estes, por sua vez, para que possam ser considerados como preços de fato (e não pseudo-preços) pressupõem a existência do processo de mercado, em que as ações de demandantes e ofertantes possam fluir normalmente; e os mercados, para que possam existir, requerem a propriedade privada. Ora, o socialismo não contempla a propriedade privada; portanto, não faz sentido falar em mercados em num sistema socialista; se não há mercados efetivos, não pode haver preços e, não havendo preços, o cálculo econômico torna-se impossível. Por essa razão, Mises afirmava categoricamente, em seu debate com os economistas socialistas, que o sistema que defendiam guiava-se às cegas e estava, portanto, fadado ao fracasso, pela desorganização social e econômica que embute. A história comprovou que Mises estava certo. Os órgãos centrais nesses sistemas são formados por pessoas sem o dom da onisciência, que não conhecem os conjuntos dispersos de informações individuais que se alteram e renovam ininterruptamente ao longo do tempo. Os planejadores nem conseguem saber qual o seu o grau de ignorância sobre as informações necessárias para promover o cálculo correto e a consequente coordenação. E quanto maior o grau de coerção imposto, menores são as possibilidades de realização dos planos, porque a maior repressão tende a aumentar a ausência de coordenação, provocando distorções nos mercados, que são progressivamente crescentes com o tempo.

(d) teoria monetária

Os pontos principais da EA a respeito da teoria monetária podem ser resumidos em cinco: o primeiro é que os efeitos das variações do estoque de moeda afetam desigualmente os preços relativos, a estrutura de capital, os padrões de produção da economia e alteram os níveis de emprego dos fatores de produção. Já em 1912, em sua obra monumental Teoria da Moeda e do Crédito, Mises chamava a atenção para o fato de que aumentos na oferta de moeda não produzem benefícios para a sociedade, porque eles não possuem capacidade de alterar os serviços de troca proporcionados pela moeda, apenas reduzem o poder de compra de cada unidade monetária. O segundo é que os ciclos econômicos são fenômenos que, embora se manifestem no chamado setor real da economia, têm causas exclusivamente monetárias. O terceiro é que a moeda, como qualquer outro bem, tem o seu valor decretado pelo princípio da utilidade marginal, como demonstrou Mises naquela obra, ao resolver o então denominado problema da circularidade austríaco, com o seu famoso teorema da regressão. O quarto é que a inflação deve ser definida não como um simples "aumento contínuo e generalizado de preços", uma vez que isso, na verdade, é a manifestação da inflação; a inflação é a queda permanente no poder de compra da moeda, provocada, em última instância, pela emissão de moeda e pela consequente diminuição de sua utilidade marginal. E o quinto e último ponto é que a moeda, vale dizer, o sistema monetário, é uma ordem espontânea, um fenômeno que passa permanentemente por evoluções que são resultantes da ação humana, mas não de qualquer planejamento.

(e) teoria do capital

A teoria do capital austríaca, sem dúvida, é um elemento que a diferencia de todas as demais, pelo simples fato de que estas não possuem algo que se possa denominar de teoria do capital. Quem mais contribuiu para a concepção austríaca do capital foi, sem dúvida, Böhm-Bawerk, que seguiu a tradição iniciada por Menger. Mises, Hayek e outros austríacos trabalharam fortemente para o seu desenvolvimento. Seu ponto central é o conceito de estrutura de capital ou estrutura de produção, que considera que um bem, desde que começa a ser produzido até ficar acabado na forma de um bem final, passa por várias etapas no processo produtivo. Esses diversos estágios correspondem à estrutura de capital da economia. Portanto, o capital não é homogêneo e muito menos constante, como os modelos macroeconômicos o consideram. Ele é essencialmente heterogêneo e varia com os demais fatores de produção ao longo do tempo. A heterogeneidade dos bens de capital e o fato de que as economias possuem estruturas de capital levam, entre outras hipóteses (como a do individualismo metodológico) os economistas austríacos à rejeição da análise macroeconômica.

(f) teoria dos ciclos econômicos

A ABCT (Austrian Business Cycles Theory) foi desenhada por Mises em seu tratado de 1912, posteriormente desenvolvida por Hayek nos anos 30 e depois aperfeiçoada por outros economistas da tradição de Menger, dos quais o mais criativo é o americano Roger Garrison. É, ao mesmo tempo, uma teoria da moeda, do capital e dos ciclos econômicos. Mostra como a emissão de moeda produz o efeito de diminuir a taxa de juros e, inicialmente, enganar os agentes - que, acreditando que se trata de maior poupança, embarcam em investimentos de maturação mais longa, alargando, assim, a estrutura de capital da economia. Posteriormente, quando esses agentes descobrem que na realidade não se tratava de poupança, mas de moeda "fantasiada" de poupança, a taxa de juros sobe e isso leva a um encolhimento da estrutura de produção, fenômeno que produz desemprego (e que ficou conhecido como efeito concertina ou efeito sanfona), que é maior nos setores mais afastados da produção de bens finais, que foram exatamente aqueles setores inicialmente beneficiados pela expansão monetária. Assim, a inflação - ou seja, aquela quantidade adicional de moeda que entrou na economia sem lastro - acabará provocando o desemprego de fatores de produção. Como disse Hayek, não há escolha entre comer demais (emitir moeda sem lastro real) e ter indigestão (recessão), porque ambas são inseparáveis, a primeira acarretando a segunda. Essa conclusão - de que o desemprego é a causa natural da inflação - mostra quão equivocadas são as análises keynesianas que ficaram conhecidas como a curva de Phillips, que postulavam a existência de um trade off ou dilema entre inflação e desemprego, de modo que, se algum governo desejasse combater a inflação, teria que aceitar uma taxa de desemprego de mão de obra maior ou, se quisesse reduzir o desemprego, seria forçado a aceitar uma taxa de inflação mais elevada. A crise que explodiu em setembro de 2008 é explicada perfeitamente pela EAE. E o fracasso das políticas keynesianas adotadas pelos governos do mundo inteiro só faz confirmar essa explicação.

VII. Conclusão

Ação, tempo e conhecimento: eis o universo fascinante da Escola Austríaca de Economia, sua pedra fundamental! Finalizo dizendo que, após duas décadas estudando a EAE, formei a firme convicção de que a pedra que os "construtores" da economia rejeitaram e continuam rejeitando é de fato a pedra angular e de que o dever dos economistas austríacos é o de tentar mostrar isto para o maior número de pessoas!  Para o próprio bem delas.


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autor

Ubiratan Jorge Iorio
é economista, Diretor Acadêmico do IMB e Professor Associado de Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).  Visite seu website.

  • augusto  23/04/2011 18:07
    Gostei muito esse artigo, mas fiquei com algumas duvidas:\r
    \r
    (a) qual a relacao entre economia e sociologia? Mises, Hayek, Mengel, e os demais, sempre se consideraram "economistas". Mises via a economia como um ramo da sociologia (ou da praxeologia?). Mas, na Escola Austriaca, o que faz alguem que se defina como "sociologo"? Qual o objeto de estudo especifico da sociologia, e como ele se relaciona com a economia?\r
    \r
    (b) Sobre a "critica ao construtivismo", nao entendi direito. Luckman e Berger, que desenvolveram o conceito de "construcionismo social", foram estudantes de Alfred Schutz, tambem austriaco, e estudante de Mises. Nao sei se se trata apenas de estabelecer uma diferenca entre "construcionismo" e "construtivismo", mas como o Schutz se identificava principalmente com a sociologia, eu gostaria de saber mais sobre o assunto - ver pergunta (a) acima.
  • Getulio Malveira  24/04/2011 17:44
    Muito bom artigo, embora sua densidade me deixe muitas dúvidas. A idéia mesma de uma ciência factual-dedutiva me parece um tanto quanto obscura. Como não concebo que a Física ou qualquer outra das "hard sciences" sejam "factuais" no sentido empiricista, não consigo ver nenhuma diferença epistemológica que justifique um critério de cientificidade diverso para as ciências naturais e sociais. De todo modo, a orientação racionalista-crítica me parece estar claramente expressa nos postulados da EA.\r
    \r
    Dúvidas e dilemas filosóficos de lado, parabéns ao IMB por publicar mais esta grande contribuição para pensamento brasileiro.
  • Filipe Celeti  25/04/2011 10:04
    Getúlio, física como "hard science" apenas em determinada visão. Kuhn considerava a física uma "simple science".
  • Getulio Malveira  25/04/2011 18:43
    Sem dúvida, Felipe. Uso o termo apenas por convenção. Ciência é ciência. Todos os epistemólogos (ao menos os racionalistas-críticos na boa tradição kantiana) estão de acordo.
  • mcmoraes  25/04/2011 19:44
    Caro Getúlio,

    Sou um apreciador de seus comentários aqui no IMB e também um não-iniciado em filosofia. Como tal, gostaria de lhe pedir um favor. Você poderia me indicar um ou mais livros que justifiquem Kant como um defensor da razão? Pergunto pois Ayn Rand defende que Kant foi supressor da razão. Se possível, você poderia me explicar de que forma Ayn Rand está errada? Sei que o assunto é extenso e que, por isso, seria difícil tratá-lo aqui, nesta seção de comentários. Logo, entenderei perfeitamente se você não puder me esclarecer. De qualquer forma, obrigado desde já.
  • Lutty  26/04/2011 00:11
    Desculpe-me por não esperar sua resposta Getúlio, mas gostaria de ajudar nosso colega.
    Leia o livro "Ideia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita" do Kant.
    Espero que goste e leia com calma.
  • Getulio Malveira  26/04/2011 18:15
    Caro mcmoraes, sou igualmente apreciador de suas intervenções bastante sensatas. \r
    \r
    Seria um pouco difícil responder sua pergunta porque não conheço essa crítica da Rand ao Kant, não sei em que termos ela foi colocada. Seria preciso analisar isso primeiro. Posso adiantar que Kant foi sem dúvida o maior dos filósofos ilumistas. A sugestão do Lutty é boa, mas sem dúvida o texto que melhor expressa a posição de Kant em relação à razão e ao racionalismo é um pequeno ensaio chamado "Was ist der Aufklärung" (que você pode encontrar traduzido como "o que é o esclarecimento", "o que são as luzes" ou "o que é o iluminismo").\r
    \r
    Há também que se considerar o seguinte: enquanto na "Crítica da razão pura" Kant tenta demonstrar que os princípios últimos de todo conhecimento humano científico são determinados pela estrutura da razão e que não se pode falar de "leis naturais" ou qualquer tipo de conhecimento abstraindo-se do sujeito humano que conhece, na Crítica da razão prática, ele tenta demonstrar do mesmo modo que existe uma lei aprioristica da ação moral inscrita na estrutura da razão e que portanto o agir moral não depende de religiões ou quaisquer formas de legislação exterior: cada indíviduo pode dar-se a própria lei moral.\r
    \r
    Tenho que dar uma olhada na crítica de Rand (se você puder me indicar a referência eu agradeceria), mas acho difícil sustentar que Kant não era racionalista inda menos que foi supressor da razão. \r
    \r
    abraço
  • mcmoraes  26/04/2011 20:45
    A minha referência é o livro Philosophy: Who Needs It?, que é uma coleção de artigos da Rand relacionados à filosofia. Ela ataca o Kant em diversos momentos do livro, mas acho que o mais relevante para essa discussão é o artigo Faith and Force: The Destroyers of the Modern World, que começa na página 79, tem aprox. umas 35 páginas e foi escrito em 1960. Sugiro a leitura completa, para a qual vou fazer um teaser curto.

    "... if you ask me to name the man most responsible for the present state of the world, ... I will name Immanuel Kant. He was the philosopher who saved the morality of altruism, and who knew that what it had to be saved from was reason.

    This is not a mere hypothesys. It is a known historical fact that Kant's interest and purpose ... was to save the morality of altruism, which could not survive without a mystic base... He did not, of course, announced himself as a mystic... He announced himself as a champion of reason, of "pure" reason.

    ... [but] He did not attacked reason [directly], he merely constructed such a version of what is reason that made mysticism look like plain, rational common sense by comparison. He did not deny the validity of reason, he merely claimed that reason is "limited", that it leads to impossible contradictions, that everything that we perceive is an illusion and that we can never perceive reality or "things as they are". He claimed, in effect, that the things we perceive are not real, because we perceived them...

    No, Kant did not destroy reason; he merely did as thorough a job of undercutting as anyone could ever do.

    If you trace the roots of all our current philosophies, such as Pragmatism, Logical Positivism, and all the rest of the neo-mystics who announce happily that you cannot prove that you exist, you will find that they all grew out of Kant..."


    Mais uma vez, obrigado pela atenção dispensada.
  • Cesar Ramos  27/04/2011 06:17
    Kant ninguém merece.
  • CR  27/04/2011 06:39
    Sobre a ordem espontânea: ela foi assinalada no meado do XVIII, por Spinoza. Isso não interessava ao Vaticano, e aos governos nacionais sobre os quais estendia seu manto sagrado. Spinoza foi excomungado, e Newton consagrado. Embora a humanidade exista pela ordem espontânea, a civilização não evolui por ela, infelizmente. Primeiro na ordem natural foi introjetada a ficção divina, uma vontade absurda porquanto quem é perfeito não é carente de nada; portanto, de nada sente vontade. E a outra turma mais revoltada fez valerem as armas, de Florença a Moscou, colocando o pessoal nos eixos, até as quedas do Eixo, e do Muro O apelo ao darwinismo é apenas um subtefúgio, hipocrisia ao sabor do diletante. Agora, apenas agora, neste ponto de redenção é que as gentes começam a se entender, ao desespero dos dois confederados.
    "a história e as instituições sociais aparecem frequentemente como produtos das ações humanas individuais, voltadas para a consecução de fins subjetivos"
    Instituições socialistas são derivadas dos interesses individuais, isto é, de seus gestores, à consecução de seus fins, de fato exclusivamente subjetivos, e por isso se valem de qualquer meio. Os fins justificam os meios. A economia mais ou menos marxista não pode ser ética nem política, muito menos econômica, e para completar, anti-científica, porque dialética, ao gáudio exclusivo da Nomenklatura. Pois se a matéria segundo a fórmula mais prosaica é apenas energia estática, o materialismo não tem, sequer, objeto. O ouro só é valorizado por sua cor, não pelo simples peso.
    Um pouco antes de jantar com a cicuta o mistagogo de todas as ciências decretou: o amor é filho de dois deuses: a carência e a astúcia. Pobre Sócrates, embalado na conversinha de Orfeu. Paupérrima civilização, que por ele erigiu a Babel, na crença de subir ao céu. Ninguém precisa instituir a humanidade. Ela existe per se. E por ordem espontânea, pois. Como tudo - exceto a política, graças ao pedófilo Sócrates, e seu astuto aprendiz.
    * * *
    O processo de desenvolvimento é dinâmico, por isso jamais pode ser estável, que quer dizer imutável.
    A crítica ao sistema misto é perfeita. O sistema misto é totalitarista não assumido. Seu colapso não descamba ao radical, mas é o ponto da redenção, tal qual vários episódios.
    * * *
    Urge que a economia seja científica, sim; mas para tanto, mister multidisciplinar. A ciência não é especialista. Ipso facto deixaria de ser verdadeira, dizia o categórico Ortega, sempre oportuno. A simbiose de Hayek com o Direito Natural, ou a common law como diz, é correta, mas nos dias atuais ela pode e deve ser mais ampla, geral e irrestrita. Ela encontra total respaldo em todos segmentos.

    Epistemologia estuda as relações dos fundamentos científicos, mercê dos gravíssimos erros cometidos por nossos ancestrais. E as conseqüências deste analfabetismo são muito mais perigosas em nossa época do que em qualquer outro período anterior. Foi isso que Popper se deu conta, ao perceber o alcance da Teoria da Relatividade.
    Na época de Mises acontecia a consagração do positivismo lógico,o absurdo que trouxe Hitler e Mussolini ao poder, e para nós restou Getúlio. Isso não tem nada de ciência, mas de técnica, apenas. Pura praxeologia. Popper apontou a facilidade como todo o milenar edifício platônico pode ser falseado apenas por um toque, mas nenhuma ciência perde o galardão apenas por hipótese de ser falseada. A Teoria da Relatividade demorou 15 anos para ser aceita pela comunidade científica, e agora beira um século para ser a common law perceber. Mises se opunha ao positivismo, não às ciências naturais, tampouco à hard, como vêem, na verdade a mais trivial, asseguro. A Economia não só pode como deve acompanhar o esteio da ciência, a qual contempla e consagra justamente o que a antiga ciencia newtoniana-cartesiana sempre escondeu. O princípio do átomo é sua incerteza, e por isso o exímio matemático Werner Heisenberg perdeu a corrida da bomba nuclear para o "filósofo" Niels Bohr. "Graças a Deus".
    A principal diferença entre a economia e um ecossistema é que a economia pode evoluir mais rapidamente do que o ecossistemas. Suas propriedades fundamentais são similares. Tudo funciona por ondas gravitacionais. . Buscando metáforas nas ciências físicas, que também são biológicas, a ciência econômica só tende a ganhar e evoluir, mudar, buscar novos territórios e crescer, perder a inocência. "De fato, existem diversas indicações de que a economia, como ciência, vem perdendo o rígido senso determinista e que o pensamento positivista vem se enfraquecendo, dando espaço para uma abordagem menos mecanicista, mais orgânica.." diz o conceituado Ilan Gleiser, economista brasileiro radicado no Eua.
    * * *
    Nem Locke, tampouco Montesquieu reservaram algum lugar aos partidos políticos na Democracia. Isso por certo foi invenção de Rousseau, haja visto o genuíno caráter platônico-dialético-cartesiano. Nenhum partido pode ser democrático. A razão é banal: eles são produtos de parte da nação. A maioria, isto é, a força, submete a minoria ao ditame que lhe aprouver. Partidos políticos podem e devem ser instrumento da democracia, mas ela é importante demais para ser entregue ao sabor dos diletantes político-partidários. Foi por este "gap" que fulguraram primeiro Napoleão, e depois seus clones Hitler & Mussolini. No Executivo até é tolerável, e perfeitamente compreensível que uma corporação assuma a responsabilidade por todo empreendimento que lhe compete gerir, mas uma assembléia composta por grupelhos é o exemplo flagrante da subversão oficializada do tripé constitucional. Aliás, a inovação de Montesquieu a rigor foi exagerada. O molde de Locke - dois poderes - era correto. Ainda que figure, o Judiciário, a rigor, nem é poder, posto que derivado do Legislatico, que lhe institui e regulamenta. E ele ainda depende do Executivo, que lhe oferece os generosos recursos orçamentários e forte armamento para a consecução de sua jurisprudência, que por sua vez geralmente expressa a vontade do patrão, por obviedade gravitacional.
    * * *
    Para finalizar este toque, ouso propor a inversão da ordem: Conhecimento, tempo, e ação, para não haver precipitação.
  • Getulio Malveira  27/04/2011 18:34
    Bem moraes, creio que Rand adota uma interpretação bastante corrente e, ao meu ver, bastante falsa do pensamento kantiano. Ela argumenta que kant :\r
    \r
    1)afirma que o conhecimento tem limites;\r
    \r
    2)que a razão leva a contradições insolúveis;\r
    \r
    3)que as coisas que percebemos são ilusões.\r
    \r
    As duas primeiras afirmações são corretas, mas a terceira é falsa. Kant jamais afirmou um aburdo desses. Ele afirma que a experiência tem uma forma racional e que essa forma não pode ser abstraída, ou seja, que o conhecimento humano é condicionado pela estrutura racional. Mas isso não significa que não haja conhecimento real ou que nossa percepção seja ilusória. Conhecemos os objetos tais como eles são, na medida em que são objetos de experiência racional (a única que podemos ter), mas não podemos saber o que restaria deles retirando-se as categorias formais com as quais os pensamos (espaço, tempo, causalidade, etc). Isso mereceria um desenvolvimento melhor mas não gostaria de dar a impressão que estou a tentar refutar compreensão da Rand. Creio que ela está equivocada, mas isso só você pode avaliar verificando essas questões no próprio Kant. Se você puder dar uma olhada no 2º prefácio da Crítca da razão pura acho que vai ser bastante esclarecedor. \r
    \r
    Um adendo: sem dúvida o postivismo lógico, o pragmatismo, para não falar do racionalismo crítico e de quase todas as correntes atuasi tem suas raízes em Kant. Agora, chamar a essas correntes epistemológicas de místicas, para não falar no próprio Kant, é um absurdo. Com todo respeito que tenho à Rand como pensadora política, penso que de epistemologia ela não entendia muito. \r
    \r
    abraço
  • mcmoraes  27/04/2011 19:25
    Getúlio disse: Com todo respeito que tenho à Rand como pensadora política, penso que de epistemologia ela não entendia muito.

    Essa me fez lembrar de uma peça teatral. Vou estudar esse tal de Kant e tirar minhas próprias conclusões.

  • Raphael Auto  24/08/2011 22:44
    Caro Mc, as dicas de livro da galera aqui podem ser boas, porém, eu acho mais indicável você ler Kant por Kant. Lê a crítica da razão pura, tem até no 4 shared pra baixar.
  • CR  25/04/2011 10:46
    Muito boa introdução, coadunada com Edgar Morin: "Tudo o que é humano é ao mesmo tempo psíquico, sociológico, econômico, histórico, demográfico. É importante que esses aspectos não sejam separados, mas concorram para uma visão 'poliocular'"
    Mas é incompleta.Antes de tudo, antes de conhecer a si mesmo é mais prudente sabermos por onde pisamos. Para podermos tirar os melhores proveitos, e refutar as inconveniências, temos obrigação de saber como age a natureza. Os primatas juravam que a Terra era o centro do universo, e depois que ele era regulado por forças, portanto tudo perfeitamente calculável. Afinal, que linguagem usaria o Grande Arquiteto do Universo? Daí o predominio positivista, de Platão a Newton, de Sócrates a Rousseau, Comte, Hegel, Darwin & o profeta Marx.
    O que eles jamais poderiam esperar é que algum cientista fosse rastrear seus apetrechos, e verificar que tudo eram apenas coincidencias, muitas das quais forjadas, fato que desmantelou completamente o embuste milenar.
    Neste instante, Mises buscava salvar pelo menos o ser humano da insanidade que havia tomado conta dos cérebros mais privilegiados, o que fez com extraordinária competência, sem dúvidas, e depois ainda apriomorado pela genialidade de Hayek. Infelizmente estava em curso a marcha suástica, de modo que a realidade foi ofuscada pela maciça publicidade nazi-fascista-darwinista-comunista.
    Mas a chave estava no quarto ao lado. E ainda está. Quem acabou sem dó nem piedade com aquela ciencia de empacotar massa não foi nenhum humanista, tampouco economista, mas os próprios matemáticos. levou a excomunhão. ² E assim as pessoas aos poucos foram se dando conta que a realidade não é aquela projetada na caverna dos morcegos. Sabe quem foi grande inspirador? Spinoza, vizinho de Locke na Holanda. O gajo humanista dizia coisas tão desconcertantes que acabou excomungado.
  • Miguel A. E. Corgosinho  25/04/2011 12:04
    "Logo, não é possível estabelecer modelos de previsão das trajetórias futuras dos fenômenos sociais."

    "Isto significa que para a economia não interessa se uma determinada moeda é de cobre ou de ouro, nem se uma cédula emitida pelo Banco Central é verde ou azul, mas sim que a moeda é um meio de troca, ou seja, o que importa é como ela é utilizada nas ações humanas. A moeda, como conceito geral, não pode ser explicada sem que se refira a interações entre indivíduos."

    Gostaria de propor uma moeda verdadeiramente de troca e não de um modelo de venda dela mesma para igual medida de produção do PIB.

    Ora, o tempo é uma ferramenta na qual podemos fixar os fenômenos sociais, porque pode levar os acontecimentos instáveis da ação humana para o futuro, com as qualidades das variáveis de mercado, em que estaríamos presentes nos fatores históricos repetitivos, sem precisarmos estar presentes.

    Diante desse número de aspectos, precisávamos apenas de um ponto de apoio para estabelecer a ação humana fora do próprio homem, a fim de constitui-lo na trajetória simultânea das obras no mundo real, em tempo espaço. A Internet solucionou essa ultima demanda técnica.

    O sistema em si visa o ponto de partida quanto a divisibilidade social, visto que foi projetada a plataforma de base dos limites originais, passada em revista com a concomitância dos fatores de produção; de modo que o controle futuro da ação humana, formatada monetariamente em software, não pertence a fração dos bancos.

    Devia parar por aqui, mas quando ensinada a teoria do domínio lógico das três partes do poder externo, que se isola segundo as articulações do real, atinge-se um circulo completo do próprio procedimento intelectual, unificado e reproduzido com o mesmo motivo do crescimento constante do valor do PIB - e se transporta para dentro da moeda o "valor" de ser da natureza, que se pode estender ao lugar de fidedignidade de todas as coisas em questão.

    Portanto, podemos dizer que o problema da previsibilidade econômica foi superado de acordo com a percepção direta e imediata da ação humana para um PIB, conforme resultado da lógica aplicada - como uma flecha que acerta o alvo.
  • CR  25/04/2011 15:44
    Sobre o tempo: Assim como não é o Sol que circunda a Terra, o tempo não passa. Nós é que passamos por eles - pelo Sol, e pelo tempo, isto é, pelo EspaçoTempo.
    Foi a tradição judaico-cristã que estabeleceu o tempo linear (irreversível) na cultura ocidental... O tempo irreversível influenciou profundamente o pensamento. Preparou a mente para a idéia de progresso, para o conceito de tempo profundo, para a surpreendente descoberta dos geólogos de que a evolução humana é apenas um episódio recente e curto na história da Terra. Preparou o caminho para a evolução de Darwin, que fala de nossa união com criaturas mais primitivas através dos tempos. Em resumo, o advento da idéia de tempo linear e da evolução intelectual desencadeada por essa idéia corroborou a ciência com a promessa de melhoria da vida na Terra.

    Sir Newton só aproveitou a carona, e com ela chegou a presidente do Banco Central da Inglaterra,, veja só!

    O espaço absoluto, em sua própria natureza, sem levar em conta qualquer coisa que lhe seja externa, permanece sempre inalterado e imóvel... O tempo absoluto, verdadeiro e matemático, de si mesmo e por sua própria natureza, flui uniformemente, sem depender de qualquer coisa externa. (Principia, II, art. 37)

    Lêdo engano, o mais crasso dos equívocos:

    O verdadeiro tempo (o que Bergson chama de 'duração') consiste propriamente na experiência vivencial da própria vida, e, por conseguinte, radicalmente intuitiva. Entretanto, para a maioria de nós, esse tempo verdadeiro foi inapelavelmente deslocado pelo ritmo do tempo marcado pelo relógio. Aquilo que constitui fundamentalmente o fluxo vital de experiência torna-se então um gabarito externo, arbitrariamente graduado, a que nossa existência é subordinada - e sentir o tempo de qualquer outra maneira torna-se 'místico ou louco'. Se a sensação do tempo pode ser assim coisificada, porque não haverá de ser tudo o mais? Por que não inventarmos máquinas que coisifiquem o pensamento, a criatividade, a tomada de decisões, o julgamento moral?
    ROSZAK, Theodore, A contracultura.:230

    Aé mesmo nosso ultrapositivista Pontes de Miranda ao cabo se obrigou a reconhecer:
    O princípio da relatividade deve ser mais geral ainda - devemos procurar a diferença de tempo nas realizações biológicas e sociais, - o tempo local das espécies e dos grupos humanos. Isto nos poderá explicar muitos fenômenos que resistem às explicações atuais. Mas para conseguir tais fórmulas muito terá que lutar o espírito humano contra os preconceitos que o rodeiam e contra as obscuridades da matéria que irá estudar.
    Não há flecha do tempo. Sua descontinuidade é manifesta nos instantes e nas diversidades vividas. O tempo vive sob o signo das diferenças: "Cada forma de vida inventa seu mundo (do micróbio à árvore, da abelha ao elefante, da ostra à ave migratória) e, com esse mundo, um espaço e um tempo específico." Cada indivíduo vive o tempo tempo, que lhe é peculiar. Mais uma vez a moderna ciência, neste caso a Teoria da Relatividade, demonstra ser totalmente compatível com qualquer teoria libertária. Por isso Fukuyama anunciou o fim da História, trocado pela proliferação de uma infinidade de histórias.
  • Cesar Ramos  26/04/2011 06:10
    Sobre a catálaxia: o óbvio ululante foi obliterado no berço. Ao mirar uma estrela cadente lá de dentro da caverna a parca imaginação do astuto secretário dos Trinta Tiranos ludibriou a Platéia com seu santo-de-pau-oco, os 30 tomaram Atenas, e e a civilização se veio embalada pela ficção. Nosso TriPulante Nietzsche levantou a saia do travesti: : "Em algum ponto perdido deste universo cujo clarão se estende a inúmeros sistemas solares, houve uma vez um astro sobre o qual animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o instante da maior mentira e da suprema arrogância da história universal." Para Platão, a ordem e a beleza que vemos no Cosmo resultava de uma intervenção racional, intencional e benigna do divino artesão, o "demiurgo" (gr. ??????????), que impôs uma ordem matemática a um caos preexistente e, assim, produziu um Universo divinamente organizado, a partir de um modelo eterno e imutável (Pl. Ti. 26a).
    Spinoza (Ética, Prop. XXVI, Apêndice,) curiosamente dono do prefixo Spin , que significa movimento atômico, denunciou o vil motivo da miragem produzida.
    "Não puderam (os homens), com efeito, tendo considerado as coisas (da natureza), como meios, supor que elas tivessem sido produzidas por elas mesmas, mas, tirando a sua conclusão dos meios que se acostumaram a obter, tiveram que persuadir-se de que existiam um ou mais diretores da Natureza, dotados de liberdade humana, que tivessem provido todas as necessidades deles e tivessem feito tudo para seu uso (dos homens). Não tendo jamais recebido (a) respeito do propósito destes seres informação alguma, tiveram também de julgar segundo o seu próprio, e assim admitiram que os deuses dirigem todas as coisas para uso dos homens, a fim de que esses se lhes liguem e para que sejam tidos por esses na maior honra. Do que resulta que todos, referindo-se ao seu próprio propósito, inventaram diversos meios de render culto a Deus, a fim de que fossem amados por ele acima de todos, e para que obtivessem que dirigisse a Natureza inteira em proveito de seu desejo cego e de sua avidez insaciável.
    O ávido florentino apenas mapeou a trilha por onde Leviathan estende seus tentáculos sobre todos nós:
    "Na verdade, jamais houve qualquer legislador que tenha outorgado a seu povo leis de carácter extraordinário sem apelar para a divindade, pois sem isso estas leis não seriam aceitas... O governante sábio sempre recorre aos deuses." (MAQUIAVEL, Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio. Brasília : Editora UnB, 1994: 58)
    Em nome de Deus os diabos ainda tomam conta do salão. Como sair da armadilha, uma vez que seu nó é envolto no total mistério, portanto praticamente insolúvel? Apenas retórica não basta. Nisso os sofistas eram imbatíveis, exímios esquiadores da dialética. Que palavras ou pensamentos poderiam suplantar a suprainteligência divina? Tampouco adiantava recorrer a matemática. Quem pode calcular melhor do que o Grande Arquiteto do Universo? Erasmo, Spinoza, Nietzsche, até o matemático Russell, e nossa ardorosa Escola Austríaca foram relegados ao ostracismo justamente pela pretensão. A mecânica de Newton prometia um poder de previsão vastíssimo, fazendo com que um instante fornecesse todas as informações possíveis sobre o passado e o futuro do Universo. Nietzsche morreu com a pecha de louco; e os sensatos, estenderam a ilusão. A Economia se restringiu à má temática; o Direito* foi remoldado, digo até entortado; a História, quanto muito, reduziu-se em parciais narraticas, capitulares; e pára entender o serpenteado platônico, tanta elucubração, mistificação & tragédia, a Psicologia e a Sociologia* tiveram que ser inventadas. "A ciência seria a única forma de moral, e religião possível. Descreve como os fatos ocorrem, transformando-os em leis a fim de poderem ser previstos." Pois então esta mesma diabólica trama que serviu para atrair o homem ao labirinto permite encaminhar sua "sortie" - basta apenas identificar o o fio que Ariadne nela impregnado:
    "O princípio da casualidade, antes considerado o fundamento incontestável de toda interpretação dos fenômenos naturais, revelou-se um referencial estreito demais para abarcar as regularidades singulares que regem os processos atômicos individuais." (BOHR, N., Física atômica e conhecimento humano: 30)
    "Se os seres humanos houvessem de inspirar-se nos exemplos da Natureza, fazendo deles normas de conduta, a anarquia, a independência, o individualismo e o princípio do menor esforço passariam a ser os ideais humanos. GARBEDIAN, H. A vida de Einstein: o criador do Universo: 161
  • anônimo  26/04/2011 10:56
    Obrigado pela refutação que peleja contra o nascimento da gênese da produção, cuja proposição entra no serviço de cargos dos economistas, embora você só entende o ardil da auto-imagem sobre o individuo para mantê-lo apagado em sua fracassada ciência.

    "Não há flecha do tempo. Sua descontinuidade é manifesta nos instantes e nas diversidades vividas. O tempo vive sob o signo das diferenças: "Cada forma de vida inventa seu mundo (do micróbio à árvore, da abelha ao elefante, da ostra à ave migratória) e, com esse mundo, um espaço e um tempo específico." Cada indivíduo vive o tempo tempo, que lhe é peculiar."

    Flecha que acerta o alvo (fora do sujeito e objeto): a rigor, a consciência externa (no network), é o meio da ação humana criadora da base monetária, sob a herança do tempo. Assim, em repouso, o valor é a referencia humana, externa, entre o ser e o ter: Disse Fichet: "Quando o homem tem a percepção imediata do objeto, este se torna uma posse da consciência."

    Sim claro, a intuição universal é uma consciência dada por Deus!

    Se o individuo inventa seu mundo como o micróbio à arvore, da abelha ao elefante etc., não precisa de tempo do tempo, basta o espaço especifico, que lhe é peculiar. Mas, se o individuo é um ser objetivo da economia ele, "manifesta nos instantes e nas diversidades vividas", a sociedade:

    "Diante desse número de aspectos, precisávamos apenas de um ponto de apoio para estabelecer a ação humana fora do próprio homem, a fim de constitui-lo na trajetória simultânea das obras no mundo real, em tempo espaço. A Internet solucionou essa ultima demanda técnica"

    Suponhamos que o dia 01/01/01 seja o ponto de apoio do começo absoluto da história (consciência) do mundo real; pois ele terá os princípios da ação humana. Desta data em diante, o sistema especifico da economia em network está lançado ao futuro, para atualizar as variações da cadeia produtiva, a cada dia; instruída com base econômica.

    O sistema volta-se para captar a continua oferta de valor da produção - como um espaço que navega as partes do tempo de espaços (passado, presente e futuro); a circularidade no espaço, a cada parte de tempo, designa a classe do serviço e a sua carga para a exteriorioridade de cada nação, em virtude de que a compreensão da realidade se faz pela reflexão da natureza das classes reais de tempos simultâneos, com a visão cósmica.

    Um novo milênio revestir-se-á sobre essa unidade de espaço, segundo a relatividade dos mercados internos; reduzidos ao denominador comum pelo padrão de valor da totalidade básica de tempo: A=A. E não há ato nenhum discrepante para o devir temporal absoluto, com o futuro do tesouro. Isto é: o ponto fixo passa a ter a direção do ciclo inicial da economia, em qualquer dia. A evolução monetária do trabalho e capital mantém a contemporaneidade verdadeira pelo valor externo a ela somada - e o serviço diz respeito ao lugar de espaços em competição, para todas as produções das nações; levando-se em conta a obra genuína do valor, teoricamente, do mundo real.

    Em seus prolegômenos à Filosofia da História, em 1838, Von Cieszkowski elaborava uma filosofia da "práxis" que tomava de empréstimo a Fichte a idéia-mestra de que a ação determinava o futuro opondo ao ser, isto é, ao mundo presente o ideal que ele deve realizar, isto é, o Dever Ser.

    * 32 - Esta serie cósmica não pode, por isso, ser nem maior nem menor do que o regressus empírico possível na qual o seu conceito descansa.

    Kant - pág. 19 : Se as instituições puras (espaço e tempo), e às formas do entendimento das quais a principal é a faculdade unificadora (8), acrescentarmos as idéias transcendentais (idéia da alma, idéia do mundo, idéia de Deus), temos o conjunto de formas apriorísticas sem as quais tais coisas, não poderiam ser pensadas. Essa a essência da critica da Razão pura.

    Pela doutrina-da-ciência está dada, como necessária, uma natureza a ser considerada, segundo o seu ser e suas determinações, como independente de nós - e as leis segundo as quais ela deve e tem necessariamente de ser observada. Mas com isso o juízo conserva a sua plena liberdade de em geral aplicar essas leis ou não; ou na multiplicidade das leis, assim como dos objetos...
  • CR  27/04/2011 06:54
    Não há distinção entre capital e trabalho. Esta é uma artimanha na tentativa de domínio, apenas, mero artifício tecido com as cuecas de Platão.
  • Miguel A. E. Corgosinho  27/04/2011 14:46
    A ciência econômica forma essa vasta massa de capital e trabalho, cujos membros aprendem as condições similares de dois campos hostis sem conseguir distinguir as relações múltiplas evoluídas ao serviço de conceitos recíprocos.

    Definição:

    "A evolução monetária do trabalho e capital mantém a contemporaneidade verdadeira pelo valor externo a ela somada - e o serviço diz respeito ao lugar de espaços em competição, para todas as produções das nações; levando-se em conta a obra genuína do valor, teoricamente, do mundo real."
  • Miguel A. E. Corgosinho  27/04/2011 17:47
    CR

    Vc aprendeu muita coisa dos profetas do retrocesso, mas purificou mal as facetas do poder e a abolição do elemento burocrático - preço.

    Não adianta tentar assegurar esse ponto de vista sobre influência de autores que te acodem a mente murcha, para dizer o malogro - do valor - sou pensador incontroverso do futuro, traçado para a ressonância filosófica dos povos que virão.

    A história é o juiz e executor.
  • all  28/04/2011 06:27
    Muito bem, Corgosinho. Voce poderia me indicar, então, algum profeta verdadeiro, algum autor que valha a pena seguir, em vez da sua própria sapiência, por certo socrática, por envolta em julgamentos?
  • void  28/04/2011 10:26
    Olá, César.

    Vou te deixar uma dica aqui: não perca seu tempo com o Corgosinho. Não passa de um troll.

    Abraços.
  • Miguel A. E. Corgosinho  28/04/2011 10:55
    All, Não conheço nenhum outro autor sustentando o quanto que implica substituir as relações pessoais por relações entre fatores de coisas, como forma de continuação que existe entre eles, com um valor do modo de produção inalienável; cuja equação dos sentidos, com o total da própria realidade inumana do mercado, podemos ver representados socialmente na potência da moeda.

    Meu pensamento regressa a concepção do homem como um ser que cria o seu representante neutro, pois sou o iniciador e controlador do processo sistemático da natureza externa, para o intermédio de eliminação de pensamentos primitivos: como o custo financeiro para o dinheiro sem qualidade definida de objetivação.

    Se vc seguir minha linha básica de raciocínio para a forma dos poderes naturais do Mundo Real, o "valor", o qual criei oposto a análise das causas e efeitos que pertence a tecnólogia da internet, e obviamente fundamentado no tempo espaço (história), terias a mesma noção prática não alienada de um termo que permitiu várias generalizações de dominio, pelos filósofos e economistas.
  • CR  28/04/2011 07:13
    Para mim a Escola Austríaca estriba uma Economia Quântica. Eis porque sua metafísica, (se é que pode-se chamar de meta um alvo multiplicado pelo número dos agentes) corrige a original platônico-cartesiana-newtoniana, ou kantiana-darwineana-comteana. Se tudo pode ser, nada deve ser. A ordem implicada, a cataláxia tem sua base no holomovimento, que é vasto, rico, e em um estado de fluxo infindável de envolvimento e desdobramento, cuja maioria das leis é vagamente conhecida, e que pode ser até incogniscível em sua totalidade. Logo, ela não pode ser apreendida como algo sólido, tangível, e estável aos nossos sentidos (ou aos nossos instrumentos). (BOHM, David, Totalidade e ordem implicada) E o que diz Hayek? "Os sinais de informação fornecidos pelo sistema de preços em condições econômicas competitivas não podem ser gerados por autoridades centrais." O sujeito (o consumidor) é quem confere dignidade ao objeto, atribuindo-lhe valor conforme o prazer, a satisfação, utilidade, ou seja lá o que for que lhe traz. Ele é valioso à medida que o desejamos, não pela carga de trabalho empregada. Não há decreto, nem estipulação capaz de condicionar um resultado. O propósito austríaco contempla, anda junto exatamente com o que inadvertidamente refuta: as ciências naturais.
    A partir das conclusões da mecânica quântica desenvolvida na primeira metade do século XX, uma equipe de físicos contemporâneos - liderados por Geoffrey Chew - construiu um modelo de interpretação física do universo chamado teoria bootstrap. Sua fundamentação principal encontra-se na mecânica matricial de Heisenberg. Nele o mundo é visto como uma teia dinâmica de relações configurada por hadríons, partículas de alta energia e caráter auto-gerativo, presentes em todo o universo. No modelo bootstrap não se admite a existência da partícula fundamental, mas sim que a ilusão de concretude e finitude da matéria nos é dada por limitações humanas em termos de percepção e de consciência, econheceu o III Congresso Internacional Latino-Americano de Semiótica, 1996.

    Ilya Prigogine ganhou Nobel 1977 provando o Efeito-Borboleta :
    "É lidando com a flutuação e a instabilidade do meio ambiente de forma criativa que os organismos auto-organizadores crescem e evoluem. Uma economia pode ser um sistema auto-organizador. A cultura de uma sociedade também."
    Talvez uma distinção que se possa admirar entre uma economia quântica, ou "austríaca", como arrisco, é que ela evolui mais rapidamente do que um ecossistema,

    As características distintivas da moderna economia:

    Descentralização** - O que acontece na economia é resultado
    da interação de muitos agentes atuando em paralelo. As ações
    de um agente em particular serão resultado de sua expectativa
    em relação ao que os outros agentes irão fazer. Os agentes
    antecipam e co-criam o mundo à sua volta.

    Ausência de um controlador central - Não há uma entidade global que controla as interações ou que tenha conhecimento da estrutura global do sistema. O controle é feito pelo processo de cooperação e competição entre os agentes e medido pela presença de instituições e regras.

    Organização hierárquica flexível - A economia tem vários níveis de organização e interação. Unidades em um certo nível - comportamentos, ações, estratégias, produtos - servem de base para a construção de unidades em níveis superiores. A organização global é mais do que hierárquica, com interações entre os diversos níveis se misturando e criando uma complexa rede de relacionamentos e canais de comunicação.

    Adaptação contínua - Comportamentos, ações, estratégias e produtos são revisados continuamente à medida que os agentes ganham experiência - o sistema está em constante adaptação. O elemento surpresa e a chance permitem que o sistema tenha muitas soluções e aproveite novas oportunidades. Eventualmente, uma destas soluções será a escolhida, mas não necessariamente será a melhor.

    Novidade perpétua - Nichos são continuamente criados por novos mercados, novas tecnologias, novos comportamentos e novas instituições. O próprio ato de se preencher um nicho já cria novos nichos. O resultado é um sistema onde sempre aparecem novidades. Inovações são desenvolvidas, levando a produtos mais avançados que, por sua vez, demandam mais inovações.

    Dinâmica fora do equilíbrio - Como novos nichos e novas possibilidades estão sempre sendo criados, a economia opera fora de uma situação de equilíbrio global, ou seja, sempre há espaço para melhora. Apesar de estar fora do equilíbrio, o sistema possui regras que limitam seu comportamento, evitando que este se torne caótico durante o processo de adaptação e evolução.

    Grato pela atenção.
  • Miguel A. E. Corgosinho  29/04/2011 11:44
    CR,

    "Se tudo pode ser, nada deve ser."

    O lema do deve ser nacional: Ser. Não Ser já é sua alienação.

    "Os sinais de informação fornecidos pelo sistema de preços em condições econômicas competitivas não podem ser gerados por autoridades centrais."

    Quem te disse isso ama os banqueiros e especuladores internacionais.

    Na economia existem dois mundos distintos: o primeiro, do valor da moeda (de custo zero) - é papel do estado fundamentar o estado do Estado. Ou a alienação surge, pois o país não tem que se endividar pelo preço do próprio desenvolvimento da riqueza nacional; e a moeda circulante deve ser de origem da base monetária de valor cambial (mudanças internas) - que não decorrem de custo inicial de representação social (déficit público), como se a riqueza ficasse para o estado.

    E o segundo mundo, das relações de trocas - vulgarmente consideradas a origem da moeda pelos agentes econômicos - estas estão no nível inferior de preços, na dependência relativamente a criação da moeda de valor - a partir de quando o estado repassa a unidade (união) produtiva mensurada em valor à moeda, para transformar-se em preços das mudanças materiais do mercado e, ao mesmo tempo, meio de desenvolvimento das atividades de medir novamente a produção.

    Quando o estado deixa de ser o poder, da primeira vez, o primeiro mundo, o devir do valor da produção, por outros mecanismos (investimento externo, reservas fracionárias etc) se apoderam do estado e começam a controlá-lo, com as moedas de valor por um preço de valor pirata: o Não Ser do Estado.

    Quanto ao resto do seu texto, me faça perguntas especificas, Ok.
  • Mujo  24/08/2011 20:22
    "Os sinais de informação fornecidos pelo sistema de preços em condições econômicas competitivas não podem ser gerados por autoridades centrais."

    Quem te disse isso ama os banqueiros e especuladores internacionais.


    pelo contrário amigo. a lógica diz exatamente o contrário. eu sei que lógica não é o seu forte, mas banqueiros e especuladores se apavoram com a idéia de livre mercado, sem autoridades centrais. pois estes são suas ferramentas para impedir a concorrência e garantir estes possam se arriscar muito mais do que fariam num ambiente sem garantias e proteções governamentais.
  • Emerson Luis, um Psicologo  30/11/2014 22:41

    Brilhante síntese!

    Apenas acrescentaria que a ação humana envolve administrar o dilema "recursos escassos versus demandas infindáveis": sempre queremos mais do que necessitamos e mais do que podemos obter, então temos que fazer escolhas que envolvem renúncias de alternativas.

    * * *
  • Anônimo  21/06/2017 03:09
    o tempo é um bem econômico?


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