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A geringonça criada por Milton Friedman

No dia 12 de março, David Stockman, que foi diretor do Office of Management and Budget (órgão que supervisiona a elaboração do orçamento federal americano) no primeiro mandato de Ronald Reagan, deu uma palestra no Mises Institute, no Alabama.  Eu estava na platéia.  Foi um discurso incitante, cheio de tiradas jocosas.  Lembrou-me do filme Patch Adams e a lista de eufemismos para "morte" que o personagem principal utilizava no quarto de hospital do sujeito com câncer terminal.  Toda a platéia riu bastante.

O discurso tinha quatro pontos principais.  Primeiro, o pacote de socorro criado pelo Tesouro americano em conjunto com o Federal Reserve (o banco central americano) em outubro de 2008 não era necessário para salvar os mercados financeiros.  Era necessário para salvar três ou quatro empresas financeiras que haviam adulterado seus registros contábeis e que, por isso, estavam sendo expostas pelo mercado — isto é, o valor de seus ativos estava sofrendo reduções.

Segundo, a crise foi uma decorrência da decisão do presidente Nixon, em 15 de agosto de 1971, de abolir o que restava do padrão-ouro criado pelo acordo de Bretton Woods de 1944 — isto é, a decisão de parar de redimir dólares em ouro de acordo com a demanda dos bancos centrais estrangeiros.  Nixon "fechou a janela por onde fugia o ouro".  Embora Stockman não tenha mencionado isso, nós, dinossauros defensores do padrão-ouro, nos lembramos perfeitamente: Nixon se recusou a exigir que o Federal Reserve parasse de inflacionar a base monetária dos EUA, algo que ele estava fazendo com o intuito de estimular a economia americana e tirá-la de uma recessão de dois anos.  Nixon admitiu publicamente que agora ele era um keynesiano, e o presidente do Fed, Arhur Burns, financiou essa transição.

Terceiro, a ideia por trás dessa decisão de fechar a janela do ouro foi aquilo que Stockman chamou de geringonça de Milton Friedman — uma reforma feita em duas etapas: deixar que o dólar flutuasse em relação a outras moedas e abolir os últimos vestígios do padrão-ouro.

Quarto, os asiáticos estão praticando economias mercantilistas.  Eles estão inflacionando suas bases monetárias a fim de comprar títulos da dívida americana.  O plano é fazer isso para impedir que suas moedas se apreciem em relação ao dólar, algo que reduziria suas exportações.  Eles não conseguirão manter esse programa por muito tempo, disse Stockman.  Os custos trabalhistas estão subindo.

O texto do seu discurso está aqui.

A Máquina Monetária do Dr. Friedman

Milton Friedman acreditava no livre mercado em quase todas as situações.  O problema era que, sempre que ele resolvia abordar aquela instituição coerciva e monopolista conhecida como governo, ele acabava criando soluções lógicas baseadas na ideia de que o governo poderia se tornar mais eficiente caso adotasse pseudo-arranjos de mercado. 

Ele inventou várias ideias para justificar a imposição do imposto de renda retido na fonte em 1943.  Este seria um imposto temporário, que seria aplicado apenas em caráter emergencial, para melhor financiar o esforço de guerra.  Pelo menos foi isso que foi dito ao público.  Ele acreditava que o governo poderia coletar um volume bem maior de receitas por meio do imposto retido na fonte.  Ele estava certo.  Tal arranjo tornou o governo mais eficiente do que nunca na tarefa de extrair a riqueza alheia.

Ele também promoveu a ideia dos vouchers educacionais, os quais seriam emitidos pelos governos locais e financiados via impostos extraídos do público.  Ele não levou em consideração o óbvio fato de que isso representaria o controle estatal sobre a educação privada.  Ele e eu debatemos esse assunto em 1993.

Acima de tudo, ele defendia a ideia de que guardar ouro nos cofres do governo como forma de lastrear a moeda era um desperdício.  O ouro estaria assim sendo inutilizado.  Da mesma forma, havia um desperdício de recursos para manter uma guarda armada cuidando desse ouro.  Logo, para tornar a política monetária mais eficiente, o Banco Central deveria aumentar a oferta monetária — ele nunca especificou qual M (M0, M1, M2, M3...) — de 2 a 5% ao ano.  Ele queria um papel-moeda fiduciário e de curso forçado controlado pelo banco central.

Os únicos críticos dessa proposta, os economistas seguidores da Escola Austríaca de economia, estavam no limbo dos debates acadêmicos.  Nós sabíamos que um governo eficiente é um governo perigoso.  Também sabíamos que um banco central que não tivesse de lidar com a ameaça de fuga de ouro de seus cofres como resposta às suas políticas de inflação monetária iria inflacionar muito mais do que inflacionaria em qualquer economia baseada em ouro.

Respondi a esses argumentos anti-ouro, os quais foram feitos pelo The Wall Street Journal, ainda em 1969.

Hans Sennholz também respondeu em várias outras ocasiões.  O mesmo fez Murray Rothbard.   Mas não fomos levados a sério.  Não fazíamos parte da corrente dominante do pensamento econômico.  Economistas acadêmicos há muito haviam abandonado qualquer apoio a um padrão-ouro genuíno (com moedas de ouro utilizadas nas transações).  Nem todos eles apoiavam a ideia de Friedman de ter um banco central comedido, cuja expansão monetária fosse restrita.  Com efeito, poucos apoiavam essa ideia.  Eles queriam flexibilidade.  Eles ainda querem.

Assim que Nixon aboliu o que restava do padrão-ouro, não havia mais retorno.  A base monetária cresceu, todos os vários Ms cresceram, os preços aumentaram, bolhas surgiram, inflaram e explodiram, e a dívida federal americana cresceu até seu atual e insustentável nível — insustentável a menos que seja paga com uma inflação monetária maciça seguida de hiperinflação de preços.

A abolição de uma moeda conversível em ouro era apenas parte da criação do Dr. Friedman.  A outra parte foi sua sugestão de taxas de câmbio flutuantes.  Essa parte merece uma consideração especial.

Taxas de Câmbio Monetárias

Suponha que haja duas moedas, A e B, ambas redimíveis em ouro sob demanda.  Suponha também que, pelo valor de livre mercado, 35 A valha uma onça de ouro e 70 B valham a mesma onça de ouro.  Nesse caso, ambas as moedas terão uma taxa de câmbio fixa entre si de 2 B por 1 A. Ninguém estabeleceu um controle de preços determinando isso.  Não foi necessário.  Eis o porquê.

Se o banco central do país A começar a imprimir dinheiro, a moeda A ficará desvalorizada — isto é, o preço de A irá cair.  O ouro passará a valer, por exemplo, 36 A no mercado paralelo.  Nesse ponto, ou mesmo antes, os especuladores começarão a comprar a moeda A e irão trocá-la por ouro a 35 unidades de A.  Ato contínuo, eles utilizarão esse ouro para comprar 36 A.  E então eles levarão 35 A até o Tesouro do país e exigirão uma onça de ouro, e embolsarão o A extra.  Com o tempo, eles vão acumular 35 A.  Nesse ponto, eles irão trocar 35 A por outra onça de ouro.

A cada transação, o ouro sairá do tesouro do país A.  Caso isso continue, ou o Tesouro ficará sem ouro ou ele irá interromper esse processo de redimir ouro a 35 A por onça.  Ele pode até abolir todas as restituições em ouro.

A moeda A irá se desvalorizar em relação à moeda B.  Afinal, você pode comprar uma onça de ouro a 70 B.  Qualquer um que tenha a ideia de comprar 35 A para então revender por 70 B, de modo a exigir ouro do Tesouro do país B, irá descobrir que todos os seus concorrentes também tiveram a mesma ideia.  O preço de B em relação a A irá subir — isto é, B se apreciará em relação a A.  Isso irá aniquilar a taxa de câmbio fixa entre A e B.  O câmbio fixo acabou porque o país A parou de restituir ouro ao valor de 35 A a onça.

Havia um câmbio fixo antes do banco central do país A começar a imprimir dinheiro para comprar títulos da dívida de seu governo.  A taxa de câmbio até então vigente não havia sido determinada por lei; ela havia sido determinada pelo livre mercado.  A conversibilidade de A em ouro a 35 A por onça, mais a conversibilidade de B em ouro a 70 B por onça, determinava a taxa de câmbio entre as duas moedas.

Isso não significava um controle de preços da moeda A em relação à moeda B.  Havia apenas um par de controle de preços: a moeda A e o ouro valendo 35 A a onça (determinado por lei nacional), e a moeda B e o ouro valendo 70 B a onça (determinado por lei nacional).  Tais valores foram determinados por lei.  A taxa de câmbio de uma moeda em relação ao ouro foi determinada pelo banco central de cada país.

Qualquer desvio dessa definição fixa causaria uma reação.  Se o preço do ouro fosse estabelecido em um valor alto demais em relação à moeda do país, o banco central deste país seria inundado de ouro: haveria uma abundância de ouro.  Se o preço do ouro fosse estabelecido em um valor baixo demais em relação à moeda do país, o banco central deste país sofreria uma fuga de ouro: haveria uma escassez de ouro.  Qualquer uma dessas duas condições forçaria o banco central a fazer mudanças: ou mudanças na política monetária ou mudanças na definição oficial da taxa de câmbio entre as moedas.

A taxa de câmbio fixa entre a moeda A e a moeda B era uma taxa de câmbio determinada pelo mercado.  Ela até então não havia se alterado porque cada país honrava seu respectivo contrato em relação à conversibilidade do ouro a um preço fixo.

O Fundo Monetário Internacional

O acordo de Bretton Woods feito em 1944 foi uma geringonça.  Foi uma "nova e aprimorada" geringonça cujo desenho original era o padrão ouro-câmbio, criado em 1922 na Conferência de Gênova.  Naquela conferência, os governos concordaram em estabelecer um "novo e aprimorado" padrão-ouro.  Ao invés de restabelecerem um padrão monetário com moedas de ouro totalmente conversíveis domesticamente, o que transferiria a autoridade monetária para os cidadãos, eles fizeram um acordo: ao invés de manterem ouro em seus bancos centrais, os países manteriam títulos da dívida emitidos pelos EUA e pela Grã-Bretanha, os quais renderiam juros.

A Grã-Bretanha retornou ao padrão-ouro em 1925, mas a uma taxa de câmbio vigente anterior à Primeira Guerra Mundial, como se não tivesse havido nenhuma inflação na quantidade de dinheiro em sua economia.  Ou seja, a taxa de câmbio da libra em relação ao ouro ficou artificialmente sobrevalorizada.  Essa foi a decisão de Churchill como ministro da fazenda.  Tal medida inevitavelmente forçaria a Grã-Bretanha ou a perder suas reservas de ouro ou a contrair sua oferta monetária.  O governo não queria nenhuma dessas opções.  Assim, Montagu Norman, presidente do Banco Central da Inglaterra, conseguiu persuadir seu amigo íntimo (muito íntimo) Benjamin Strong, presidente do Federal Reserve, a inflar a oferta monetária americana, de modo a evitar que houvesse uma corrida ao ouro do Banco Central da Inglaterra.  Strong fez isso até o dia de sua morte, em 1928.  O Fed então reverteu essa política já no final de 1928.  Ele parou de inflacionar a oferta monetária.  Isso estourou a bolha formada na bolsa de valores americana, levando ao crash de 1929.

O FMI criou um sistema de taxas de câmbio fixas.  Essas taxas não eram baseadas na conversibilidade em ouro.  Elas eram meros controles de preços.  O FMI fiscalizava o cumprimento dessa regra, mas não com grande eficiência.  De tempos em tempos, algum país desvalorizava sua moeda, isto é, se recusava a oferecer divisas estrangeiras à taxa de câmbio fixada.  O FMI não impunha sanções.  Assim, o sistema seguia cambaleante, de desvalorização em desvalorização.

Somente os EUA vendiam ouro a US$ 35 a onça para governos e bancos centrais.  Mas isso tornou-se insustentável em decorrência do grande aumento da oferta monetária ocorrida nos EUA.  O ouro estava saindo do país.  Após 1964, a França começou a exigir insistentemente a troca de seus dólares por ouro.  E o Federal Reserve continuou inflacionando.

A Geringonça de Milton Friedman

Friedman facilmente desmontou a ideia de taxas de câmbio fixas.  Taxas de câmbio fixas são uma forma de controle de preços.  Friedman era um economista bom o bastante para saber que controle de preços produz escassez.  A moeda artificialmente subvalorizada sai de circulação.  A moeda artificialmente sobrevalorizada torna-se abundante.  Ato contínuo, há uma corrida aos bancos centrais para que a moeda sobrevalorizada seja trocada por ouro.

Os compradores domésticos de bens estrangeiros (importadores) dizem ao banco central: "Venda-nos a moeda estrangeira artificialmente subvalorizada ao preço oficial".  Com isso, o banco central fica sem reservas internacionais.  O comércio estrangeiro entra em colapso.  E aí ocorre uma desvalorização da moeda nacional.  Os preços oficiais das moedas estrangeiras são elevados a novas taxas de câmbio fixas.

Foi fácil para Friedman mostrar como todo esse arranjo era ridículo.  "Apenas deixem as moedas flutuarem", disse ele.  "Deixe o livre mercado determinar o preço de cada uma delas".  Esse foi um bom conselho.  Controles de preços nunca funcionam como propagandeado.  Eles sempre produzem escassezes ou excedentes.

Porém, foi aí que Friedman recomendou sua política favorita: papel-moeda puro, sem nenhum lastro.  Ele disse que tal arranjo poderia ser gerenciado racionalmente por meio de uma regra fixa determinando uma previsível expansão da quantidade de dinheiro.  "Deleguem essa tarefa para o Banco Central.  Tudo dará certo se Banco Central não alterar indevidamente a taxa de crescimento da oferta monetária".

Nixon adotou essa geringonça criada por Friedman.  Primeiro, não mais haveria conversibilidade de moeda estrangeira em ouro.  Os dólares em posse de governos estrangeiros passariam a ser apenas aquilo que realmente são: papeis pintados, sem direito a serem trocados por ouro.

Durante pouco mais de dois anos, foi imposto um controle geral de preços sobre os bens americanos.  Tal controle de preços gerou escassez e uma desordem no comércio internacional.  O dólar só passou a flutuar oficialmente em dezembro de 1973.

Quando o controle de preços foi abolido, os preços dispararam.  Em 1975, o então presidente Gerald Ford criou o programa WIN: Whip Inflation Now (algo como Derrotemos a Inflação Agora).  A recessão de 1975 fez exatamente isso.  E então veio a pior inflação monetária ocorrida na história dos EUA em períodos de paz: 1976-80.  O preço do ouro e da prata disparou.

A geringonça de Friedman claramente não estava funcionando.  As taxas de câmbio flutuantes não eram o problema.  A abolição do padrão ouro-câmbio é que era o problema.

A geringonça de Friedman mergulhou todo o mundo em uma interminável sequência de inflação monetária, bolhas e recessões.

Stockman Comenta a Geringonça

Stockman culpa as taxas de câmbio flutuantes e a abolição do padrão-ouro.

Dificilmente pode-se negar que a abolição do padrão-ouro foi tão destrutiva para a disciplina fiscal quanto foi para a política monetária.  Sob o antigo regime de taxas de câmbio fixas e conversibilidade monetária, déficits fiscais sem lágrimas eram totalmente insustentáveis — não importava quais doutrinas econômicas fossem seguidas.

Naquela época, podia-se confiar que o mecanismo do dinheiro honesto iria sobrepujar as políticas ruins.  Assim, se os déficits orçamentários fossem monetizados pelo banco central, isso iria enfraquecer a moeda e provocar uma prejudicial fuga das reservas monetárias; e se os déficits fossem totalmente financiados com a poupança dos cidadãos, os juros inevitavelmente subiriam — o que desestimularia o investimento doméstico.

Foi uma análise precisa do que ocorreu.  Porém, a âncora do sistema não era o sistema de taxas de câmbio fixas, pois o FMI nunca teve a autoridade de zelar por sua aplicação.  A âncora era a promessa dos EUA de vender ouro a US$ 35 a onça.  Quando essa amarra foi cortada, e os EUA mantiveram todo o ouro consigo, o sistema monetário internacional ficou totalmente à deriva.  Hoje, essa âncora está armazenada nos cofres da sucursal do Federal Reserve de Nova York.

Nos bons e velhos tempos, observou Stockman, havia dor.  "Os políticos não precisavam ser profundamente versados na parábola de Bastiat sobre o que se vê e o que não se vê.  Os frutos amargos de todo e qualquer déficit orçamentário eram totalmente visíveis e imediatos."  Isso acabou em 1971.

Durante as quatro décadas desde que o padrão-ouro foi completamente abolido, as regras do jogo fiscal foram completamente adulteradas.  Mais especificamente, sob a geringonça dos papeis-moedas flutuantes criada pelo professor Friedman, os estrangeiros podem acumular papeis redimíveis em dólares ou trocá-los por outras moedas de papel.

Porém, jamais poderá haver um esvaziamento das reservas monetárias americanas, pois títulos redimíveis em dólares não são conversíveis em nada mais que não seja dólares, os quais podem ser criados infinitamente pelo Fed.  Essa máquina infernal de criar dinheiro de papel, por conseguinte, gerou numerosas e lamentáveis consequências, mas a pior delas está no fato de ter facilitado a ilimitada monetização da dívida do governo americano.

O governo americano hoje está incorrendo em um déficit de US$ 1,6 trilhão.  Nada pode ser feito politicamente para impedir isso.  Estamos todos em um trem desenfreado.  Os freios principais foram removidos em 1971.  O único freio que restou é aquele que pode ser aplicado apenas pelos justiceiros do mercado (investidores que vendem títulos de dívida como protesto contra políticas inflacionárias ou de má gestão das contas pública).  Porém, a efetividade destes foi reduzida, uma vez que hoje é o Fed o principal comprador dos títulos da dívida americana, junto com os bancos centrais asiáticos.  Stockman observou que "o quantitative easing 2 feito pelo Fed, que consiste na compra de títulos da dívida americana, está sendo feito em escala tão maciça, que ele está literalmente comprando títulos do Tesouro no mercado secundário quase que na mesma velocidade com que os títulos estão sendo emitidos".

Isso tudo seria culpa de Friedman?  Stockman, de certa forma, concede uma absolvição.

Em contraste, sob a geringonça inspirada pelo professor Friedman, os desequilíbrios da balança comercial nunca são corrigidos.  Eles apenas vão crescendo, crescendo e crescendo — até o dia em que se transformam em objeto de falatório estéril durante encontros meramente fotográficos organizados por uma sociedade chamada G-20.

Para sermos justos, o professor Friedman não previu um mundo com essa desenfreada flutuação cambial "suja".  Com efeito, seria necessária uma imaginação poderosa para prever, quatro décadas atrás, que a China iria acumular $3 trilhões em reservas estrangeiras ou mais de 50% do seu PIB, e então insistir por várias décadas para que ela não manipulasse sua taxa de câmbio!

Minha resposta: foi tudo culpa de Friedman, intelectualmente falando.  Quando um economista recomenda uma política, ele também está recomendando seus efeitos.  Friedman falhou ao não prever aquilo que os economistas da Escola Austríaca haviam previsto: a abolição do padrão-ouro resultaria em uma total expansão do papel-moeda, e na consequente manipulação das taxas de câmbio — a flutuação suja.  Em um mundo gerido por bancos centrais que possuem o monopólio da moeda concedido pelos governos, e que não estão sujeitos a redimirem suas moedas em ouro, flutuação cambial suja é o único resultado totalmente previsível.

Porém, justamente por termos repetidamente insistido nessa previsão, década após década, a corrente dominante do pensamento econômico nos marginalizou.

Conclusão

Milton Friedman sempre foi muito astuto.  Ele aconselhou os governos a se tornarem mais eficientes, e eles obedeceram.  Eles utilizaram seu conselho para expandir seu poder e expandir seu alcance até nossas carteiras.

Nós o alertamos.  Ele não quis ouvir.  Seus seguidores também não ouviram.  Hoje, eles estão em silêncio, apenas observando e se limitando a resmungar sobre déficits potencialmente excessivos e sobre uma inflação de preços potencialmente excessiva.  Mas, em geral, eles continuam aprovando a existência de bancos centrais, principalmente a existência do Fed e toda a sua obra.

Todo o problema está na concepção original de geringonça: (1) o controle monopolista do governo sobre a moeda e (2) o sistema de bancos centrais, como existe atualmente.  Nesse quesito, Friedman era um defensor do governo.

O problema nunca foi as taxas de câmbio flutuantes ou o colapso de Bretton Woods em 1971.  Esses foram resultados inevitáveis de Bretton Woods, como Henry Hazlitt já alertava insistentemente no final da década de 1940, fato esse que levou à sua demissão do The New York TimesVocê pode ler exatamente o que ele previu.

Tampouco o problema estava na Conferência de Gênova em 1922, a engenhoca criada para solucionar a inflação que havia surgido como resultado da suspensão da conversibilidade na segunda metade de 1914, quando estourou a Primeira Guerra Mundial.

O problema todo começou em 1914, quando a Primeira Guerra fez com que todos os países saíssem do padrão-ouro, gerando um maciço confisco do ouro que pertencia ao povo: primeiro pelos bancos comerciais; depois pelos bancos centrais.

A geringonça criada por Milton Friedman foi apenas mais uma malfadada tentativa de lidar com os resultados desse confisco original.  Foi apenas mais um exemplo de seu enfoque: "O governo estava certo em confiscar o ouro e abolir o padrão-ouro.  Foi uma maneira eficiente de lutar uma guerra, assim como impostos retidos na fonte são eficientes e assim como vouchers educacionais são eficientes."

Milton Friedman passou toda sua carreira defendendo a eficiência do livre mercado.  Porém, quando se tratava das grandes questões, ele confiava na eficiência e na boa vontade de políticos e burocratas.  "Confie na eficiência deles".

Como os austríacos sempre alertaram, o estado se torna mais eficiente apenas para tiranizar as pessoas com maior eficácia em termos de custo.

A geringonça criada por Milton Friedman deixou incontrolável a expansão do estado assistencialista e belicista: incontrolável por causa da tributação via impostos retidos na fonte e incontrolável por causa da abolição do padrão-ouro.

Se isso é eficiência, incluam-me fora dessa.

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autor

Gary North
, ex-membro adjunto do Mises Institute, é o autor de vários livros sobre economia, ética e história. Visite seu website

  • eduardo  22/03/2011 10:58
    até Milton Friedman aprendeu a lição, como se vê no video:

    www.youtube.com/watch?v=JL3FT0O4kYg

    (abolish the fed!)

    Leandro: o que você pensa sobre as variações na demanda por moeda em uma economia com 100% de reservas de ouro (ou qualquer outro lastro fixo), não é possível que numa economia livre se escolheria uma moeda lastreada por um índice (pode ser um índice bastante compreensivo) onde os bancos serviriam como uma espécie de buffer, ou hedge contra flutuações muito grandes de preço?
  • Leandro  22/03/2011 11:29
    Eduardo, em uma economia livre, qualquer coisa pode ser moeda (até vento), desde que voluntariamente escolhida pelas pessoas como o melhor meio de troca.

    Porém, caso houvesse de fato tal liberdade econômica, e cada um pudesse escolher a sua moeda, muito dificilmente alguma outra commodity superaria o ouro nesse quesito. Aliás, foi exatamente assim que ocorreu na história. Por toda a história humana, o ouro (e a prata) sempre foi escolhido naturalmente, sem qualquer imposição, para ser utilizado como meio de troca. As características que o levaram a ser sempre o escolhido são sua durabilidade, divisibilidade, facilidade de reconhecimento, portabilidade, escassez (dificuldade de ser produzido em excesso) e uma razão valor/peso que não é nem muito alta e nem muito baixa.

    Respondendo especificamente à sua pergunta, eu diria apenas que não tenho capacidade nenhuma para prever quais tipos de arranjos monetárias poderiam surgir. Esse arranjo que você citou pode muito bem vir a existir, é claro, mas sempre ficará a pergunta: ele é páreo para o ouro? É mais confiável que o ouro? É menos suscetível a manipulações que o ouro?

    As respostas são totalmente subjetivas, mas, hoje, minha resposta seria não. Mas é claro que posso estar errado.

    Grande abraço!
  • Tiago RC  22/03/2011 13:41
    Porém, caso houvesse de fato tal liberdade econômica, e cada um pudesse escolher a sua moeda, muito dificilmente alguma outra commodity superaria o ouro nesse quesito.

    Discordo disso.

    Mesmo ficando no mundo dos metais preciosos apenas, há outros que parecem ter mais vantagens que o ouro.
    Para transações cotidianas, usando a commodity bruta, o ouro está descartado devido a seu alto valor. A prata fica mais interessante.
    E para usar como lastro para contas bancárias e métodos de pagamento quaisquer, há metais mais preciosos que o ouro, que ocupam menos espaço e pesam menos por unidade de valor, como platina ou ródio, sendo portanto mais fáceis de se estocar/proteger/transportar.

    Mas o lance é que, em pleno século XXI, com toda a tecnologia que temos, não faz mais sentido continuar usando algo físico como dinheiro. Somos capazes de criar commodities 100% digitais, muito mais fáceis de se estocar/proteger/transferir. Por que continuar gastando recursos com cofres e caminhões blindados?
    As bitcoins são um exemplo desse tipo de moeda. Poderão surgir coisas ainda melhores, eventualmente.

    A propósito, não se esqueçam que, em teoria, tudo que é físico pode ser sintetizado, as técnicas de extração podem melhorar abruptamente, e novas (e grandes) reservas podem ser encontradas. Claro que na prática não é assim tão simples, mas enfim, o alumínio já foi mais caro que o ouro um dia.
  • Felix  22/03/2011 14:58
    Comodity digital?
    muito estranho...
  • Leninmarquisson  22/03/2011 16:55
    Até onde eu saiba hackear uma conta bancária ainda é mais fácil do que hackear uma mina de ouro.
  • Erick Skrabe  22/03/2011 20:56
    Tiago,

    Sua argumentação é muito boa. Tão boa, mas tão boa, que alguém já pensou nela. O Miltão inclusive.

    Vou fazer alguns comentários, mas nada do q está aqui é óbvio.


    "Mesmo ficando no mundo dos metais preciosos apenas, há outros que parecem ter mais vantagens que o ouro.
    Para transações cotidianas, usando a commodity bruta, o ouro está descartado devido a seu alto valor. A prata fica mais interessante."

    Tem algumas regrinhas para uma coisa ser dinheiro. Uma delas é justamente um alto valor unitário. 1Kg de ouro é muito dinheiro ? Ok, falemos em 100g. ou 1 g, ou 1/10 g, sempre é possível falar em porcentagens menores e menores.

    O contrário ? Bem, o Fed descobriu que não.

    Qto a prata, ela já foi usada. Alguns paises, como a Inglaterra tentaram inclusive um cambio duplo entre ouro e prata, mas foi um completo fracasso. Porque conforme o preço de um oscilava em relação ao outro, havia fuga de um e entrada do outro.

    Em teoria poderia ser prata, platina, etc, etc, etc. Mas o ouro foi a escolha natural porque é sempre bonito (ñ oxida) e justamente porque tem um valor maior (e um dos motivos é a escassez).


    "E para usar como lastro para contas bancárias e métodos de pagamento quaisquer, há metais mais preciosos que o ouro, que ocupam menos espaço e pesam menos por unidade de valor, como platina ou ródio, sendo portanto mais fáceis de se estocar/proteger/transportar."

    Bem, aqui vc propõe usar 2 lastros. Isso se mostrou catastrófico, mas o "Liberty Dolar" por exemplo usa mais de 1 lastro: ouro, prata e sei lá mais o que.


    "Mas o lance é que, em pleno século XXI, com toda a tecnologia que temos, não faz mais sentido continuar usando algo físico como dinheiro. Somos capazes de criar commodities 100% digitais, muito mais fáceis de se estocar/proteger/transferir. Por que continuar gastando recursos com cofres e caminhões blindados?"

    Opa, já usaram exatamente esse mesmo discurso, e isso antes da internet ! - porque se for 100% digital o governo vai fazer mais, exatamente do mesmo jeito que faz hoje. De todos os dólares (e Reais) q vão pro mercado, apenas uma pequena parte é física, a grande maioria é virtual. Essa parte física é chamado meio circulante, se ñ me engano o meio circulante do Brasil era R$ 30 bilhões, ñ sei se esse número está certo ou atualizado, mas pelo menos dá para ter uma idéia.


    "A propósito, não se esqueçam que, em teoria, tudo que é físico pode ser sintetizado, as técnicas de extração podem melhorar abruptamente, e novas (e grandes) reservas podem ser encontradas. Claro que na prática não é assim tão simples, mas enfim, o alumínio já foi mais caro que o ouro um dia."

    Ñ, ñ é tão simples. É o famoso "e se". Veja, a proposta ñ é usar ouro como dinheiro. É usar ouro como lastro. A vantagem é q a oferta de ouro é limitada. "SE" isso q vc diz acontecer, bem, o lastro seria abandonado e ou se busca um novo lastro ou cairíamos de volta onde estamos hj, lastreados "na produção".

    O caso específico do alumínio é q o grosso do custo está na produção. O q vc está pagando ñ é o minério, é a eletricidade.

    Mas olha... competir com as impressoras do Fed ñ é fácil...
  • Tiago RC  23/03/2011 05:33
    Opa, já usaram exatamente esse mesmo discurso, e isso antes da internet ! - porque se for 100% digital o governo vai fazer mais, exatamente do mesmo jeito que faz hoje.

    Não se a tecnologia o impedir, Erik. Leia sobre as bitcoins, são um exemplo. A sua base monetária está programada para seguir esse curso, e não há nada que governo algum possa fazer para mudar isso.
  • Tiago RC  23/03/2011 05:39
    Bem, aqui vc propõe usar 2 lastros.

    Não estava propondo aqueles metais, estava apenas dizendo que, mesmo no universo dos metais preciosos como moeda, há outros que parecem mais interessantes que o ouro.

    O que eu digo é que não há mais razão para usar algo físico.
  • Andre Luiz F. Paranhos  23/03/2011 19:39
    Tiago RC, os metais que você cita terem mais valor que o ouro não seriam usados como reserva metálica por um único motivo, esses materiais são demandados exclusivamente pela indústria na fabricação de algum bem, já o ouro tem sua demanda determinada unicamente pelo próprio valor que ele possui a centenas de anos para humanidade, pois ele é o único metal que pode ser convertido em qualquer moeda, bem, serviço, qualquer coisa e a qualquer momento (se eu pegar algumas gramas de ouro e for na padaria da esquina eu vendo para qualquer pessoa que estiver lá, o que não poderia ocorrer com uma pedaço platina, que só tem valor para a indústria, mas nenhum para pessoas comuns).

    A sua alegação de que um possível avanço tecnológico que possibilitaria a criação de ouro em laboratório desqualificaria o ouro como lastro universal e estável é outro argumento falso, pois o diamante já é sintetizado industrialmente com pureza similar ou maior que o diamante extraído da terra e nem por isso o valor dessa jóia sofreu alteração, pelo contrário, esse mineral como qualquer outro escasso tem valorização constante. Qual a mágica para que o diamante não perca o valor mesmo sendo sintetizado toneladas dele pela indústria? Não há mágica alguma, é apenas o mercado agindo, pois as pessoas demandam diamantes originados da terra como jóias e não os sintetizados e por isso que mesmo o diamante industrial seja idêntico ao diamante natural, seu valor e menor por não ser considerado uma jóia justamente por ser facilmente produzindo e não ter origem na natureza. Logo, por que seria diferente com o ouro natural, o minério mais valioso do planeta, não pelo seu valor de mercado, mas pelo valor universal que ele possui a milhões de anos para as pessoas.

    O Bitcoin só terá êxito como lastro, se o aceitarem como tal, eu mesmo não o aceito, e como milhões de pessoas (como a centenas de anos), prefiro o bom, velho e seguro ouro.
  • Tiago RC  24/03/2011 05:45
    Se não ser demandado pela indústria para outros usos é vantagem, então mais pontos para commodities 100% digitais, que não têm usos industriais. É a boa e velha especialização no uso de recursos. ;)

    E se um dia surgir algum processo de síntese capaz de criar ouro a baixo custo (não é simples, óbvio), isso com certeza faria tombar o valor do ouro, já que não é possível distinguir um metal sintético de um natural.
    Diamante não é commodity. Até onde eu sei, é possível distinguir diamante natural do sintético. Eles têm propriedades distintas. Na verdade, cada pedra de diamante tem propriedades distintas, por isso não é uma commodity.
  • Daniel  27/03/2011 13:33
    Leandro,

    Pegando a ponta deixada pelo Tiago, não seria interessante um artigo a respeito do e-gold e do liberty dollar?

    Os bitcoins são interessantes, mas não consigo os enxergar como meio de pagamento em massa no futuro, por não ser conversível em nada que não seja moeda fiduciária.

    Acho mais factível e interessante um sistema de pagamentos estilo o e-gold mas sediado em território mais liberal que os EUA em questões bancárias. E, claro, para se tornar "de massa" provavelmente surgiriam outros serviços semelhantes emitindo e trocando certificados de depósitos de ouro eletrônicos entre si.
  • Tiago RC  28/03/2011 09:14
    Por que você diz que não podem ser convertidas em nada além de moeda fiduciária? Você pode convertê-las no que você quiser, é uma moeda. Já tem gente vendendo/comprando metais preciosos por bitcoins por exemplo.

    Quanto a exemplos próximos ao e-gold, tem o Pecunix que se mantém vivo. Tem a mesma vulnerabilidade do e-gold: é centralizado. Mas está sediado no Panamá, se não me engano, por isso está vivo até hoje.
  • Daniel  29/03/2011 20:27
    Tiago,

    A precificação dos produtos e serviços em bitcoins seria sempre feita balizando-se pela moeda mais trocada por aquele ofertador de bens e serviços. Ou seja, mesmo que a transação seja bitcoin por bem/serviço diretamente, implicitamente ela foi trocada por uma moeda e essa moeda pelo bem, e inclusive um pequeno aumento do preço decorrente dos custos de transação geralmente ocorreria. A adoção de mais de uma moeda existe em vários lugares do mundo e tal efeito acontece. No caribe, por exemplo, a moeda de maior circulação é o dólar, e é o grande balizador de preços. Porém 99% dos estabelecimentos aceita euros, porém desvalorizado (a título de custo de transação - a maioria aceita 1:1, ou seja, é desvantajoso pagar com euro).

    A única maneira de evitar esse arranjo e do bitcoin se tornar a "primeira" moeda seria em casos de destruição completa da moeda (ex: países africanos que utilizam créditos de celular) ou no caso ultra-otimista de fim dos bancos centrais.

    Não sei se fui claro, mas essa é uma das desvantagens dos bitcoins pela ausência de valor intrínseco.

    Outra desvantagem é que 25% de toda a base monetária do sistema já foi gerada. Tem uma gigante concentração com os early adopters, que entesouraram uma grande quantidade de bitcoins e poderão gerar pesada desvalorização quando considerarem conveniente convertê-los em outras moedas ou bens/serviços.
  • Tiago RC  30/03/2011 05:57
    Olá Daniel,

    Bom, antes de mais nada, "valor intrínseco" é uma contradição lógica. Valor é subjetivo, é uma opinião das pessoas, logo não pode ser característica intrínseca ao item valorizado. The Fallacy of Intrinsic Value.

    Nada, portanto, tem valor intrínseco.

    Quanto a comerciantes terem que fazer conversões de uma moeda alternativa à moeda mais líquida do local, bom, isso depende obviamente do porte da moeda alternativa e de como o comerciante toca seus negócios. A "economia bitcoin" por ex. é bastante pequena (~5 milhões de dólares), mas mesmo hoje, se você tiver um site remunerado com bitcoins por ex., você já poderia usá-las, sem conversão alguma, para financiar o hosting do site. A medida que o volume de coisas ofertadas na moeda alternativa aumenta, aumenta também a facilidade para fazer todos seus negócios somente com essa moeda.

    Sobre as taxas extras, muitas vezes as taxas pagas para se usar paypal ou cartões de crédito superam mesmo as taxas de conversões BTCmoeda local. Lembre-se que trata-se de um mercado sem regulamentações, esses mercados de câmbio BTC.
    Eu acho que essa tecnologia representa um forte perigo a instituições como a Western Union por exemplo.

    Quanto aos early adopters estarem entesourando muitas moedas, pode ser, mas não vejo isso como um perigo à moeda em si, no máximo a alguém que esteja investindo muito nela. Isso também vale pro ouro, com todas as toneladas de ouro estocadas por bancos centrais mundo afora - e no caso dos bancos centrais, eles sequer seguem os incentivos de lucro/prejuízos, podendo tomar ações economicamente estúpidas. Mas isso tampouco deprecia a qualidade do ouro como moeda, na minha opinião.

    Finalmente, há um outro aspecto bastante interessante numa moeda digital descentralizada que até agora não foi levantado por aqui: o anonimato. Usar uma moeda centralizada como a Pecunix implica que ao menos a empresa que a controla sabe tudo o que você faz. E se uma empresa sabe, um governo pode saber. Com as bitcoins, tomadas as devidas precauções, ninguém sabe quanto você possui ou o que você faz com elas. Isso já rendeu uns resultados no mínimo interessantes. Pesquise por Silk Road por ex, caso ainda não conheça.

    Abraços,
    Tiago.
  • Fernando Ulrich  22/03/2011 16:11
    O Gary North escreve muito bem. E como postei no mural do meu FB, o seguinte trecho eh fundamental:\r
    \r
    "Minha resposta: foi tudo culpa de Friedman, intelectualmente falando. Quando um economista recomenda uma política, ele também está recomendando seus efeitos. Friedman falhou ao não prever aquilo que os economistas da Escola Austríaca haviam previsto: a abolição do padrão-ouro resultaria em uma total expansão do papel-moeda, e na consequente manipulação das taxas de câmbio - a flutuação suja. Em um mundo gerido por bancos centrais que possuem o monopólio da moeda concedido pelos governos, e que não estão sujeitos a redimirem suas moedas em ouro, flutuação cambial suja é o único resultado totalmente previsível."\r
    \r
    \r
    \r
  • mcmoraes  22/03/2011 17:32
    E ainda tem gente q sente falta do Miltao...
  • Caio Cesar  22/03/2011 21:10
    Eu sinto. Pelo menos alguém escutava suas argumentações de que "o governo não pode intervir no mercado". É muito bom ver e rever ele calando a boca de esquerditas e estadistas naquele programa, o "livres para escolher".
    Mas na verdade, só sinto falta disto. O resto, é melhor deixar abaixo do caixão mesmo. rs
  • Augusto  22/03/2011 21:36
    Eu sinto. Um dos mais eloquentes defensores do capitalismo na segunda metade do seculo. O programa e o livro "Livre para escolher" ainda vai influenciar muita gente.
  • Angelo T.  22/03/2011 22:21
  • Augusto  22/03/2011 22:55
    Voce provavelmente conhece a versao original da historia do lapis, de Leonard Read: www.mises.org.br/Article.aspx?id=810\r
    \r
    Mas fica ai a dica para outros leitores\r
    \r
    :-)
  • mcmoraes  23/03/2011 00:57
    Augusto, uma coisa é achar que o livro do cara ainda vai dar bons frutos. Outra coisa é ter gostado do programa do cara. Outra coisa ainda é dizer que sente falta dele. Quando alguém diz que senta falta do sr. Friedman, assumo que esse alguém considera corretas suas idéias (que outra razão pode haver para se sentir falta dele?). Como o Gary North mostrou (e Lew Rockwell também, no capítulo que trata de Mises vs. Mont Pelerin), o cara tinha várias idéias erradas a respeito de aspectos fundamentais do livre mercado. Concordo com você quando você diz que ele era eloquente (i.e. que ele tinha a capacidade de falar e exprimir-se com facilidade), mas daí? O cara usou sua eloquencia a favor da eficiência do governo em nome da economia de mercado. Para justificar saudosismo em relação ao sr. Friedman, algúem teria que, no mínimo, refutar o texto do Gary North, em especial o parágrafo apontado pelo Fernando Ulrich. Mises estava certo quando o chamou de socialista culposo.

    PS: eu também gosto da história do lápis, mas isso não significa que eu sinta saudades do cara. Pelo contrário, já foi tarde o arquiteto do arquiteto do imposto de renda retido na fonte.
  • Augusto  23/03/2011 10:25
    mcmoraes,\r
    \r
    Uma luta que se luta sozinho contra a sociedade pode dar uma boa história, mas é uma luta que dificilmente se vence. Friedman se enganou em pontos importantes? É bem possível. Mas mesmo entre os austríacos, a concordância nunca é integral. Mises discordava de Hayek, Hayek provavelmente discordava de Rothbard, Hoppe e Boehm-Bawerk provavelmente sairíam aos tapas: Boehm-Bawerk, considerado um dos fundadores da Escola Austríaca, com Carl Menger, foi ministro das finanças do Império Austríaco.\r
    \r
    Se você frequenta o site do Mises Institute americano, sabe que tem muita gente lá que também não gosta do Ron Paul, porque afinal de contas, como deputado, ele faz parte da máquina do estado e portanto, "joga no outro time".\r
    \r
    Você sabe também que o general Smedley Butler é frequentemente citado no blog do Rockwell. Embora ele próprio tenha confessado passar "most of my time being a high class muscle- man for Big Business, for Wall Street and for the Bankers", o livro dele ainda é um dos mais contundentes manifestos contra o intervencionismo.\r
    \r
    Aí você pode ter a atitude radical de simplesmente desprezar toda a contribuição teórica e política de Boehm-Bawerk, ou você pode aproveitar o que ele fez de bom, e criticar o que ele fez de ruim. Você pode desprezar o Ron Paul, apesar de ele tr contribuído mais que ninguém nos últimos anos para a popularização da ideia de liberdade. Você pode ou não recomendar o livro do general Butler para seus amigos e familiares. O mesmo vale para o Friedman e para tantos outros, inclusive brasileiros como o Roberto Campos - que apesar de liberal, foi ministro... do planejamento!
  • mcmoraes  23/03/2011 11:06
    Augusto, acredito que os autores que você citou sejam/foram capazes de defender seus pontos de vista com argumentos que possam ser enumerados e analisados por terceiros. O que eu peço aos saudosos do Friedman é o mesmo: justifiquem a sua saudade, explicando de que forma as boas idéias dele superaram as más idéias dele, expostas no texto do Gary North; ou, pelo menos, mostrem que o Gary North está errado.

  • Augusto  23/03/2011 11:53
    mcmoraes,\r
    \r
    Eu não sou apologista do Milton, não preciso defender as ideias dele para defender o meu argumento, que é bastante simples e com o qual o próprio Gary North concorda: Friedman foi um dos maiores e melhores defensores do livre mercado e da concorrência na segunda metade do século XX.\r
    \r
    Duvida? Veja a última linha do texto desse link que Gary North fornece (www.thefreemanonline.org/columns/friedman-and-north-on-vouchers/): "I learned all this from Capitalism and Freedom."\r
    \r
    Ou nesse texto, escrito por Gary North quando Friedman faleceu:\r
    \r
    "Over the years, I read his books and profited from them. He was a master at explaining why government-mandated price controls produce undesirable results. Price floors produce gluts. Price ceilings produce shortages."\r
    \r
    Sim, há razões para sentir falta de Friedman, a despeito de seus erros.
  • Augusto  23/03/2011 11:56
    Outra citação do mesmo texto onde North comenta o falecimento de Friedman,\r
    \r
    "Yet when it came time to educate the public, no one did it better than Milton Friedman, at least when his wife Rose was behind the scenes. Their 1980 PBS TV series, Free to Choose, was a masterful defense of the free market. It remains the clearest, most effective case for the free market ever seen on national television."\r
    \r
    \r
    Talvez estejamos falando de coisas diferentes, eu estou falando do Friedman defensor do mercado livre, do Friedman "político", por assim dizer, e você está tratando de pontos específicos da contribuição dele à ciência da economia.
  • Leandro  23/03/2011 12:04
    Friedman foi bom em todos os quesitos microeconômicos, mas fez grandes besteiras quando se tratava de questões monetárias.

    Citando a Lei de Rothbard, "as pessoas tendem a se especializar justamente naquilo em que são piores. Henry George, por exemplo, é ótimo em tudo, exceto em questões relativas à terra. Logo, ele passa 90% do tempo escrevendo sobre terra. Friedman é ótimo em tudo, exceto em questões monetárias. Logo, ele se concentra exclusivamente em assuntos monetários."

    E tem esse vídeo em que o Friedman abertamente elogia o Fed e diz que ele deveria ter socorrido os bancos após o crash de 1929. Ou seja, segundo Friedman, a Grande Depressão ocorreu porque o Fed fez pouco.

    www.youtube.com/watch?v=9V5OP-VmXgE

  • Augusto  23/03/2011 12:17
    Leandro,\r
    \r
    Por outro lado, que tal essa entrevista:\r
    \r
    "In a 2002 interview with Peter Jaworski (The Journal, Queen's University, March 15, 2002-Issue 37, Volume 129) Friedman said that ideally he would "prefer to abolish the federal reserve system altogether" rather than try to reform it, because it was a flawed system in the first place."\r
    \r
    (faltou a fonte original, não consegui localizar o texto no site da universidade)
  • Leandro  23/03/2011 12:23
    Sim, sim, é fato notável que no final de sua vida ele passou a defender a extinção do Fed. Antes tarde do que nunca. Só que ele não queria apenas a extinção do Fed: ele queria que ele fosse substituído por uma máquina que cuspisse dinheiro (ele nunca abandonou a crença no charme do papel-moeda fiduciário e de curso forçado) a uma taxa de 2% a 5% ao ano.

    Até aí tudo bem. Agora, o que o fazia crer que tal máquina jamais seria adulterada por políticos? Mais ainda: quem controlaria essa máquina? Perguntado sobre isso, ele desconversou e, mais tarde, admitiu que de fato sua ideia não fazia sentido.

    Morreu sem explicar o que realmente defendia. E com 94 anos.
  • mcmoraes  23/03/2011 12:22
    Eu não estou tratando de pontos específicos da contribuição dele à ciência da economia. Resumo minha opinião da seguinte forma: ele foi um grande homem, capaz de grandes erros e de grandes acertos; no entanto, seus erros superaram de longe seus acertos; portanto não há motivo racional para saudade.
  • Breno Almeida  23/03/2011 05:27
    Eu sinto dele e do Hayek.
  • Rodrigo  22/03/2011 16:43
    Acredito que o valor das coisas está na sua escassez. Commodities que podem ser criadas digitalmente não são escassas e tendem a ter seu valor reduzido. É o que acontece atualmente com o dinheiro de papel (inflação). O ouro tem seu valor exatamente pela sua quantidade limitada na natureza.
  • Tiago RC  23/03/2011 05:43
    Commodities que podem ser criadas digitalmente não são escassas e tendem a ter seu valor reduzido.

    A escassez de uma commodity digital pode ser garantida matematicamente. De novo, leiam: en.wikipedia.org/wiki/Bitcoin
  • Augusto  23/03/2011 10:32
    É só mudar o algoritmo, e voilà, criam-se mais moedas.\r
    \r
    O que garante a estabilidade da moeda não é a dificuldade de inflacionar sua oferta, mas a livre competição que permite aos comerciantes mudar de uma moeda para outra.\r
    \r
    Dê o monopólio ao Bitcoin (ou a outro sistema qualquer de moedas digitais) e em questão de horas vai aparecer alguém para fraudar o sistema. Dê o monopólio ao ouro e os alquimistas vão ressurgir para produzir ouro sintético. E assim por diante.\r
    \r
    A única defesa contra inflação é a liberdade de escolha.
  • Tiago RC  23/03/2011 12:40
    Não entendi o seu ponto... ninguém quer dar monopólio a nada.
    Mas não tem como "mudar o algoritmo e criar mais". Não tem como falsificar moedas. Se você mudar o algoritmo, não é mais o mesmo tipo de moeda que serão produzidas, são outra coisa. Um software feito para reconhecer bitcoins por ex. não reconheceria as moedas do outro algoritmo inflacionário.
  • Augusto  23/03/2011 13:01
    Thiago,\r
    \r
    Ate moedas de ouro podem ser adulteradas - voce tira uma lasca, faz ela mais fina ou menos, mistura com outros metais. Contas bancarias sao hackeadas o tempo todo. Eh um pouco de presuncao achar que seja impossivel adulterar uma moeda virtual - principalmente se ela for de curso forcado, porque ai nao ha moeda alternativa. E ha gente, mesmo entre os austriacos, que ve com bom olhos o uso de ouro como unico lastro - um monopolio do ouro. Entao, nao eh dificil imaginar alguem defendendo o monopolio de uma moeda digital em detrimento de outras.\r
    \r
    Mais importante que a commodity usada (ou que ela seja simplesmente digital), eh que elas sejam livremente conversives, a taxas determinadas pelo mercado. Assim, em caso de fraude, as pessoas poderiam migrar para outra moeda mais confiavel.\r
    \r
    Entenda, nao estou dizendo que a moeda digital seja ruim. Ela eh, como qualquer outra coisa, sujeita a fraude, manipulacao, inflacao. Estou apenas dizendo que qualquer que seja a moeda, as pessoas devem ser livres para mudar e adota routra moeda se assim acharem desejavel.
  • Tiago RC  23/03/2011 14:00
    Óbvio que não deve haver curso forçado - nenhum problema aqui.

    Mas não há possibilidade de criar uma "falsa bitcoin". Sério. Tenho a impressão que você não conhece muito bem a tecnologia, pois hackear uma conta bancária não permitiria a criação de mais moedas, no máximo permitiria roubar as moedas que estão ali. O mais próximo de falsificar moedas seria talvez contaminar o software que você usa para reconhecer as moedas e, sem você saber, fazer você aceitar moedas falsas. Mas qualquer um com o software correto as rejeitaria. Logo não pode ser comparado à inflação.

    Manipular a taxa de inflação "às escondidas" simplesmente não dá, quanto a isso você pode ficar tranqüilo.
  • Felix  23/03/2011 14:43
    Também acho que com o uso de chaves adequadas fica impossível falsificar,
    mas aí teri que ver como foi feita a construção do sistema
  • ArturReis  22/03/2011 17:03
    O governo americano já esta literalmente "carregado nas costas", a população mal-acustumada e a industria perdendo qualidade, e nenhuma agencia abaixou o rating dos EUA, isso é mais que uma piada, como diria Buffet "Se os mercados fossem eficientes eu não estaria rico".
  • André Luiz de F. Paranhos  27/03/2011 00:20
    Tiago RC, o seu argumento em relação a desqualificação do ouro como lastro continua inválida pois o exemplo do diamante refuta completamente sua preocupação em relação a possibilidade de sintetizar ou em larga escala, só você se recusa em reconhecer o fato que o mercado pode diferenciá-los (o ouro natural do sintético mesmo sendo idênticos) apenas para continuar a defender uma coisa que depende da aceitação natural das pessoas e não dos argumentos de um entusiasta. O BitCoin pode ser fraudado por um simples motivo, ele é apenas uma programação e programações podem ser reescritas por mais seguras que sejam.

    O padrão-ouro não é incompatível com sistemas eletrônicos de pagamento, haja vista que da mesma forma que cédulas de dinheiro podem ser lastreadas por depósitos metáticos, créditos eletrônicos também podem possuir um lastro físico.

    Eu li sobre o BitCoin e sei como funciona, a solução do programador é muito semelhante a solução dos governos para controlar a inflação, reduzir a oferta monetária trocando 1000 por 1 (exemplo de proporção), o famoso cortar zeros, no caso do BitCoin isso ocorreria com certa regularidade para corrigir o excesso de oferta de BitCoins. O problema dessa solução é que dependerá de uma ação para que os preços de tudo seja reduzido na mesma proporção para que não haja uma simples redução de BitCoins e conseqüentemente de poder aquisitivo do portador. Pela experiência que temos graças ao Plano Cruzado (que só funcionou alguns meses graças a uma lei que obrigava os reajustes dos preços pra baixo) o BitCoin tem tudo para não dar certo.


    Mesmo que todo o mundo aceitasse o BitCoin como uma moeda mundial, ele poderia causa ciclos econômicos, pois ele é inflacionário, pois o período de expansão de sua oferta geraria bolhas e a contração subseqüente (cortar simplesmente os zeros), mesmo com o reajuste dos preços, é trocar seis por meia dúzia, pois 1000 BitCoins se transformariam em 1, porém mantendo o poder aquisitivo de 1000, em suma, apenas se cortou zeros nos BitCoins e nos preços.

    Bitcoin é igualzinho ao Plano Cruzado, e é tão ineficiente quanto.
  • Tiago RC  28/03/2011 09:02
    Nossa, eu já vi críticas infundadas de gente que não conhece nem entende, mas Plano Cruzado? Cortar zeros? De onde você tirou isso?

    Um videozinho bem simples e amigável, quem sabe simplifica: www.youtube.com/watch?v=Um63OQz3bjo
  • Daniel  27/03/2011 17:00
    André,

    Não estou defendendo os bitcoins com unhas e dentes, mas acho que tu não entendeu como funciona.

    Não existe "corte de zeros", e sim emissão fixa no tempo, até o limite de 21 milhões de unidades totais. Isto é feito para criar escassez, e o valor de uma bitcoint já é próximo de 1 dólar, 4x mais do que tempos atrás. Esse valor - em relação a qualquer moeda - flutua livremente e existem vários mercados de troca e comerciantes que já as aceitam diretamente.

    E tal arranjo não pode ser modificado pois não existe autoridade central. A própria rede gera as moedas seguindo as regras pré-determinadas.
  • Emerson Luis, um Psicologo  20/11/2014 17:33

    Infelizmente, Friedman foi ouvido justo quando errou.

    * * *
  • Silvio  20/11/2014 20:10
    No Chile ele foi ouvido. Até na parte em que estava certo.


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