Explicando a recente disparada dos preços no Brasil
por , terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

versão para impressão


henrique-meirelles.jpgEconomistas seguidores da teoria keynesiana — a qual diz que aumentos da quantidade de dinheiro geram crescimento econômico sem, contudo, necessariamente gerar inflação — discordam que a atual onda de aumento de preços vivenciada pela economia brasileira, especialmente nos alimentos, esteja relacionada com a política monetária mais expansiva adotada pelo Banco Central brasileiro.

Para eles, o atual aumento nos preços dos alimentos — o qual é um fenômeno mundial, vale ressaltar — está relacionado a fatores climáticos, como condições meteorológicas ruins na Rússia e na Austrália, além de secas e enchentes (sim, ambas ao mesmo tempo) no Rio Grande do Sul.

Embora seja indiscutível que fatores climáticos afetem os preços dos alimentos, esses economistas precisam explicar por que então os preços de todas as commodities não alimentícias vêm sofrendo altas substanciais recentemente.  Mais ainda: como isso é possível em um mundo ainda em recessão.

Particularmente no Brasil, não foram só os alimentos que encareceram.  Estes encareceram de maneira mais sensível, é fato.  O feijão e a carne, por exemplo, nos últimos 12 meses encareceram mais de 50%.  Fatores climáticos realmente podem explicar essa disparada de preço.  Mas apenas os fatores climáticos não explicam tudo — afinal, os preços dos bens de consumo duráveis e não-duráveis e dos serviços também estão em forte ascensão. 

De acordo com dados da FGV e do IBGE, nos últimos 12 meses, hotéis e empregadas domésticas encareceram 12%.  Médico, 11%.  Dentista e cabeleireiro, 8%.  Custos relacionados à habitação subiram mais de 13%.  No geral, os serviços encareceram 7,89% no período de 12 meses encerrado em janeiro.  Passagens aéreas subiram 14%. 

Voltando ao setor de comidas e bebidas: restaurante, 11%.  Frango, 16%.  Leite, 18%.  Laranja, 31%.  Picanha, 42%.  Filé-mignon, 52%.  Feijão, 63%.

Já na construção civil, apenas em 2010 os custos gerais subiram quase 8%, sendo que os preços da mão-de-obra aumentaram mais de 10%. 

Por fim, em termos ainda mais notórios, o índice de preços por atacado — que mede os preços em diversos estágios do processo produtivo, principalmente os preços dos bens de capital (produtos industriais, máquinas e equipamentos) utilizados na indústria de transformação — apresentou um aumento de 14,18% de janeiro de 2010 a janeiro de 2011.

Vale ressaltar que foi apenas nos dois últimos meses de 2010 que a disparada dos alimentos se fez mais notória.  Logo, não faz sentido econômico dizer que médicos, dentistas, cabeleireiros, empregadas domésticas, hotéis, companhias aéreas e pecuaristas estão reajustando e acelerando seus preços em função dos custos do feijão e da carne.  Da mesma forma, não faz sentido econômico dizer que o cimento, os salários dos peões e os vergalhões encareceram por causa do frango.

Em termos estritamente econômicos, é preciso estar havendo um estímulo maior do que isso.  No caso, está havendo uma forte criação de dinheiro por parte do Banco Central e do sistema bancário de reservas fracionárias.  Sim, os preços dos alimentos aumentaram também por causa de fatores climáticos.  Mas tal aumento foi intensificado pelos efeitos estritamente monetários.  Foram também exclusivamente fatores monetários que provocaram elevações gerais nos preços dos bens e serviços da economia brasileira, como veremos a seguir.

Todos os detalhes essenciais da economia brasileira desde 2003 foram explicitados nesse artigo, inclusive o comportamento da economia durante a recessão de 2009.  Logo, não há necessidade de repetir os mesmos detalhes aqui.

No presente texto, vou me concentrar mais detidamente na evolução dos meios fiduciários desde outubro de 2008.  O que são meios fiduciários, a importância de sua mensuração e o porquê dessa data específica serão explicitados a seguir.

A criação de meios fiduciários — explicando o básico

Um aumento geral e contínuo nos preços dos bens e serviços de uma economia — incluindo-se aí o fenômeno da formação de bolhas (as mais conhecidas são aquelas que se formam na bolsa de valores e no mercado imobiliário) — é um fenômeno que só pode ser mantido se houver um processo de contínua expansão do crédito.  Isto é, se houver a criação e o subsequente empréstimo de dinheiro por meio do sistema bancário, o qual opera com a sanção e o apoio do Banco Central.

Expansão do crédito é um fenômeno que depende de dois conceitos relacionados à moeda: dinheiro padrão e meios fiduciários.  (Embora o que eu vá explicar abaixo seja extremamente básico para quem já é iniciado no assunto, vale a pena fazer o esforço de acompanhar o raciocínio).

O dinheiro padrão é o dinheiro físico propriamente dito: as cédulas e moedas metálicas, ambas as quais constituem o meio de pagamento final.  Isto é, elas não precisam ser trocadas por nenhum outro instrumento de pagamento; elas por si só já representam o pagamento final.

Além das cédulas e moedas metálicas, uma outra variável que também é considerada dinheiro padrão são os depósitos compulsórios que os bancos são obrigados a manter depositados junto ao Banco Central.  O compulsório representa uma porcentagem do total dos depósitos em conta-corrente que os bancos têm de manter como reservas à parte, e eles podem fazer isso tanto na forma de encaixes (dinheiro em seus cofres) quanto na forma de depósitos junto ao Banco Central.  Trata-se de um mecanismo de controle da expansão monetária.  (Caso não esteja familiarizado com o tema, leia mais detalhes aqui, na seção "O Compulsório").

Quanto menor for o porcentual do compulsório, maior será a quantidade de dinheiro que os bancos podem criar via empréstimos.  Os bancos criam dinheiro (eletronicamente) em uma quantia que é inversamente proporcional à taxa do compulsório.  No Brasil, o compulsório está atualmente em 45%, o que significa que os bancos podem criar dinheiro no valor de até 2,33 vezes o total de reservas compulsórias (1/0,45).  

Funciona assim: João deposita R$ 10.000 em sua conta-corrente no Banco A.  João pode até achar que esses R$ 10.000 ficarão ali parados, como um carro em um estacionamento pago, mas não ficarão.  Como o sistema bancário é de reservas fracionárias, os bancos mantêm como reservas apenas parte do dinheiro que neles foi depositado.  Assim, o Banco A vai guardar uma parte desse dinheiro (digamos, R$ 4.500) e emprestar o restante (R$ 5.500) para José.  José vai gastar esse dinheiro de alguma forma, e ele (o dinheiro) inevitavelmente acabará sendo depositado em outro banco, o Banco B.  O Banco B vai guardar uma parte desse dinheiro (digamos, R$ 2.475) e emprestar o restante (R$ 3.025) para Antônio, que adotará o mesmo procedimento de José, dando assim continuidade ao ciclo.  Ao mesmo tempo em que o dinheiro de João foi sendo "passado adiante", o próprio João continua tendo acesso integral a esse mesmo dinheiro (que é seu), seja emitindo cheques ou utilizando cartão de débito.  Dessa forma, os R$ 10.000 iniciais se multiplicaram.

Portanto, se um banco tiver R$ 10 bilhões de reais em depósitos em conta-corrente, ele será obrigado a manter R$ 4.500.000.000 (três bilhões e duzentos milhões) como reservas, tanto na forma de depósitos junto ao Banco Central quanto na forma de encaixes em seus cofres (a soma dos dois deve totalizar 45%).  Atualmente, os bancos ficam com 18% na forma de encaixes e 27% na forma de depósitos junto ao Banco Central.

Esses depósitos junto ao Banco Central estão na forma de moeda eletrônica, meros dígitos nos computadores do Banco Central.

E por que então esse dinheiro depositado junto ao Banco Central, que é eletrônico, é considerado também dinheiro padrão?  Porque os bancos, quando necessário, sempre podem requisitar ao Banco Central parte desse dinheiro "preso".  Nesse caso, o Banco Central, que tem o poder monopolista de imprimir moeda quando quiser, irá simplesmente imprimir (via Casa da Moeda) a quantia necessária e enviá-la (via carro-forte) ao banco demandante.  Este poderá utilizar esse dinheiro para colocar em seus cofres ou em seus caixas eletrônicos 24h.

Sendo assim, um banco ter R$ 2.700.000.000 (27% de dez bilhões) depositados junto ao Banco Central é o equivalente a ter essa mesma quantia em seus cofres.

Com isso, temos definido os componentes do dinheiro padrão: a soma das cédulas e moedas metálicas de fato criadas pelo Banco Central (que estão em posse tanto das pessoas e empresas quanto nos cofres dos bancos) mais os depósitos compulsórios eletrônicos que os bancos mantêm depositados junto ao Banco Central.  No jargão economicista, isso chama-se base monetária, e está totalmente sob controle direto do Banco Central.  É sobre a base monetária que todo o sistema bancário, coordenado e protegido pelo Banco Central, irá criar mais dinheiro eletrônico (via criação de contas-correntes), expandindo a quantidade total de dinheiro na economia.

Em outubro de 2008, a base monetária era de R$ 139,8 bilhões.  Em novembro de 2010, ela já estava em R$ 177,8 bilhões.  E na primeira quinzena de fevereiro, o valor já era de R$ 186,9 bilhões. (Ignorarei os meses de dezembro e janeiro porque são meses em que a oferta monetária aumenta temporariamente para acomodar as demandas por moeda geradas pelas festas de fim de ano, 13º e afins.)

A esmagadora fatia da base monetária é formada pela variável "cédulas e moedas metálicas" (inclusive as que estão nos cofres dos bancos), as quais subiram de R$ 99,7 bilhões em outubro de 2008 para R$ 133,1 bilhões em novembro de 2010, e depois para R$ 142,4 bilhões na primeira quinzena de fevereiro (compare esses valores com os valores totais da base monetária nas respectivas datas no parágrafo acima).

Já os depósitos compulsórios junto ao banco central formam, em conjunto com o dinheiro nos cofres dos bancos, as reservas bancárias.  Essas reservas são utilizadas para atender aos pedidos daqueles clientes que querem sacar dinheiro, bem como para fazer a compensação de cheques que estão em posse de outros bancos.  E é exatamente sobre essas reservas que o sistema bancário de reservas fracionárias cria dinheiro para fazer empréstimos.

Em outubro de 2008, as reservas bancárias eram de R$ 40,1 bilhões.  Em novembro de 2010, elas estavam em R$ 44,7 bilhões, voltando a cair para R$ 44,5 bilhões na primeira quinzena de fevereiro.

Esses números já denotam uma anomalia.  Normalmente, se a quantidade de dinheiro no sistema econômico aumenta — tanto em termos da base monetária como um todo quanto em termos das cédulas e moedas metálicas —, as reservas bancárias também aumentam na mesma proporção.  No entanto, ao passo que a quantidade de cédulas e moedas metálicas aumentou mais de 33% de outubro de 2008 a novembro de 2010 (tal aumento pula para mais de 42% quando se considera fevereiro), o aumento na quantidade de reservas bancárias foi de meros 11% nesse mesmo período.

Essa anomalia é consequência de um fato: em novembro de 2008, como resposta à crise financeira mundial e a consequente contração do crédito, o Banco Central brasileiro reduziu o valor do compulsório de 45% para 42%.  O percentual dos depósitos compulsórios em relação às contas correntes caiu de 35% para 26%, liberando um grande volume de dinheiro para os bancos emprestarem e sobre os quais, por meio do processo de reservas fracionárias, criarem mais dinheiro eletrônico.  O que nos leva aos meios fiduciários.

Meios fiduciários, para utilizar a definição técnica, são os depósitos bancários que podem ser utilizados como meios de pagamento e que não estão lastreados por dinheiro padrão, seja esse dinheiro alguma commodity como ouro ou simplesmente cédulas de papel-moeda.  Ou seja, trata-se da moeda escritural que não tem nenhuma reserva lastreando-a, pois foi criada do nada pelo sistema bancário.  Ou, para ficar no popular, é o dinheiro que você utiliza como pagamento via cheques ou cartão de débito, mas que não possui um correspondente valor em dinheiro físico dentro dos cofres dos bancos ou nos depósitos dos bancos junto ao Banco Central.  Repetindo: trata-se de um dinheiro sem lastro.

Grande parte da oferta monetária brasileira atual é formada por meios fiduciários na forma de depósitos em conta-corrente.  Todas as outras aplicações financeiras (sejam elas depósitos a prazo, renda fixa, curto prazo, multimercado, referenciado, ações etc.) são meros papeis que, para serem convertidos em dinheiro, precisam antes ser vendidos para algum agente obviamente disposto a comprá-los.  E este só irá fazê-lo se tiver dinheiro disponível em sua conta-corrente.  Portanto, os depósitos em conta-corrente definem, em última instância, a oferta monetária da economia brasileira.

A oferta monetária, portanto, é definida como as cédulas e moedas metálicas em poder do público mais "aqueles substitutos monetários que podem ser redimidos em dinheiro sob demanda e, por meio de cheques ou cartão de débito, funcionam como equivalentes ao dinheiro no mercado". 

Traduzindo para o popular, oferta monetária = cédulas e moedas metálicas em poder do público + os depósitos em conta-corrente.  Em economês, tal agregado é conhecido como M1.

Na primeira quinzena de fevereiro, o total da oferta monetária brasileira estava em R$ 265,99 bilhões.  Ao mesmo tempo, a base monetária estava em R$ 186,68 bilhões.  Correspondentemente, o total de meios fiduciários era igual à diferença entre ambos, a qual foi de R$ 79,3 bilhões.  Esse valor corresponde ao total de dinheiro eletrônico utilizável como pagamento via cheques ou cartão de débito, mas que não possui um correspondente valor em dinheiro físico dentro dos cofres dos bancos ou nos depósitos dos bancos junto ao Banco Central.  É um dinheiro sem lastro.

Todo o dinheiro que os bancos possuem para restituir os depósitos em conta-corrente são as suas reservas, que estavam, como dito, em R$ 44,5 bilhões em fevereiro.  Esses R$ 44,5 bilhões eram todo o dinheiro padrão disponível em suas reservas para lastrear um total de R$ 123,8 bilhões em depósitos em conta-corrente — isto é, depósitos igual à soma de R$ 44,5 bilhões + R$ 79,3 bilhões.  Em outras palavras, havia 100% de reservas lastreando R$ 44,5 bilhões e absolutamente nada para lastrear R$ 79,3 bilhões, que assim são classificados como meios fiduciários.

E para que estou fazendo essa matemática toda?  Simples.  Como explicou George Reisman em seu livro Capitalism, a quantidade de meios fiduciários em qualquer momento representa o acumulado total de toda a expansão de crédito ocorrida na oferta monetária do país até aquele momento.  Ela representa a soma de todos os empréstimos que o sistema bancário de reservas fracionárias fez baseando-se na criação de dinheiro sem qualquer lastro.

E o principal: a diferença entre a quantidade de meios fiduciários entre dois períodos de tempo representa exatamente a expansão do crédito ocorrida nesse intervalo.

Sendo assim, vejamos.

Em outubro de 2008, um mês antes de o Banco Central diminuir o compulsório, o total de meios fiduciários — diferença entre o M1 e a base monetária — era de R$ 56,1 bilhões.  Em novembro de 2010, os meios fiduciários já totalizavam R$ 75,4 bilhões.  E aumentaram para R$ 79,3 bilhões na primeira quinzena de fevereiro.

Portanto, a expansão do crédito ocorrida no período de outubro de 2008 a novembro de 2010, em decorrência tanto da redução do compulsório feita pelo Banco Central em novembro de 2008 quanto do aumento da base monetária e consequente aumento da expansão monetária via sistema bancário de reservas fracionárias, foi de 34,4% — algo em torno de 1,19% ao mês ou 15,25% por ano.

Se considerarmos o período até a primeira quinzena de fevereiro, então, o aumento total nos meios fiduciários (logo, na expansão do crédito) foi de 41,3% — algo em torno de 1,24% ao mês ou 15,94% por ano.  Em termos nominais, isso significa que o sistema bancário de reservas fracionárias criou R$ 828 milhões por mês ou R$ 27,62 milhões por dia.

O gráfico a seguir mostra a evolução dos meios fiduciários desde janeiro de 2002.  Vale observar a expansão ocorrida em 2007, seguida da estagnada de 2008, que culminou na recessão de 2009.  Observe também o efeito da redução no compulsório ocorrida em novembro de 2008.  Por fim, observe que, desde outubro de 2009, os meios fiduciários estão em expansão contínua. (Ignore os solavancos típicos dos meses de dezembro e janeiro).

Expansão dos meios fiduciários

meios1.png

Causas e efeitos

Mas o que, afinal, provocou essa expansão recente dos meios fiduciários (rivalizada apenas pela de 2007)?  É claro que a expansão monetária do Banco Central, em conjunto com sua política de redução do compulsório, teve um papel fundamental nisso tudo.  O sistema bancário de reservas fracionárias, por sua vez, se encarregou de ampliar os efeitos.  Mas houve um outro fato que auxiliou sobremaneira nesse aumento: a postura fiscal extremamente frouxa que vem sendo adotada pelo governo federal desde meados de 2009.

O gráfico a seguir mostra a dívida mobiliária do governo federal. Veja o salto que a dívida pública — total de títulos emitidos pelo Tesouro para financiar os gastos do governo — dá a partir de 2009, aumentando nada menos que R$ 600 bilhões em apenas 2 anos.

cewolf (1).png

Veja que, a partir de meados de 2009, o governo federal aumenta sobremaneira a quantidade de recursos que ele toma do setor bancário.  Nesse artigo, expliquei que um dos motivos dessa explosão foi a nova política corporativista do BNDES, que passou a conceder empréstimos subsidiados para grandes empresas utilizando dinheiro levantado pelo Tesouro junto aos bancos.  No artigo linkado, há os detalhes dessa operação.

Outro motivo desse aumento foram os sucessivos déficits orçamentários que o governo passou a apresentar, consequência do aumento pornográfico dos gastos.

O que importa aqui, no entanto, é entender que o fato de o governo federal aumentar a quantidade de dinheiro que ele pega emprestado junto aos bancos provoca uma expansão da oferta monetária — e, consequentemente, dos meios fiduciários.  Como?

Quando o governo federal pega empréstimos junto ao sistema bancário — por exemplo, emitindo títulos públicos —, ele está obviamente sugando dinheiro que poderia ir para investimentos produtivos e gastando-o em benefício de políticos e grupos favorecidos. 

Mas além de reduzir a quantidade de dinheiro disponível para empréstimos para o setor privado, essa postura do governo também faz com que a quantidade de dinheiro disponível para o mercado interbancário (aquele em que os bancos emprestam uns para os outros com o intuito de manter suas reservas compulsórias nos níveis estipulados pelo Banco Central) fique reduzida, pois agora há dinheiro sendo demandado de todos os lados.

Nesse cenário, caso o Banco Central nada fizesse, a tendência seria que a taxa de juros desse mercado interbancário subisse muito.  E a taxa de juros do mercado interbancário, como se sabe, nada mais é do que a SELIC.  Mas como o Banco Central trabalha com uma meta para a SELIC, ele não pode deixar que ela suba.  Consequentemente, ele tem de injetar dinheiro no mercado interbancário justamente para evitar que ela aumente muito.  E o dinheiro que o Banco Central injeta no sistema bancário vai direto para as reservas bancárias, reiniciando todo o processo acima descrito de expansão da oferta monetária via reservas fracionárias e consequente criação de meios fiduciários.

E assim chegamos a esse fenômeno atual: o governo, incorrendo em grandes déficits, está sugando cada vez mais dinheiro do setor bancário, o que pressiona a SELIC.  Consequentemente, o Banco Central tem de injetar cada vez mais dinheiro no sistema bancário apenas para impedir que a SELIC suba muito.  Se ele simplesmente reduzir a quantidade de injeções monetárias, a SELIC subirá além da meta.

É assim que, no atual sistema monetário, os déficits do governo são inflacionários.

E é esse arranjo que vem fazendo com que a base monetária, o volume de depósitos em conta-corrente, os meios fiduciários e o volume de crédito cresçam em níveis vertiginosos.

Consequências?

Como explica a teoria desenvolvida pela Escola Austríaca de economia, uma expansão dos meios fiduciários que provoque uma redução na taxa real de juros irá estimular investimentos em projetos de longo prazo, principalmente aqueles empreendimentos que fazem uso mais intenso de bens de capital, como produtos industriais, máquinas e equipamentos.  Consequentemente, os preços tanto da mão-de-obra quanto dos equipamentos utilizados nessas indústrias irão subir muito mais rapidamente que os preços de bens de consumo não-duráveis.

Um exemplo claro desse fenômeno, e já descrito aqui há quase um ano, é o da bolha imobiliária brasileira, com o contínuo aumento tanto do preço dos imóveis quanto dos custos dos empreendimentos imobiliários, dos materiais utilizados na construção civil e da mão-de-obra.

Outro exemplo claro pode ser visto no comportamento dos preços dos bens de capital (produtos industriais, máquinas e equipamentos) utilizados na indústria de transformação, os quais apresentaram, como informado no início desse artigo, um aumento acumulado de 14,18% de janeiro de 2010 a janeiro de 2011.  Veja o comportamento dos preços no gráfico abaixo:

cewolf (1).png














Observe que a expansão dos meios fiduciários gera um aumento contínuo e sustentado nos preços dos bens de capital a partir de meados de 2006, intensificando-se a partir de meados de 2007, bem de acordo com o gráfico dos meios fiduciários.  Esse crescimento atinge o ápice em setembro de 2008, quando a inevitável contração do crédito começa a derrubar os preços desses bens, fazendo inclusive com que eles apresentem deflação acumulada durante o primeiro semestre de 2009.  Como também explica a teoria dos ciclos econômicos da Escola Austríaca, quando há uma contração do crédito (isto é, redução abrupta no crescimento dos meios fiduciários), os preços desses setores são os que mais decrescem, podendo inclusive apresentar deflação. (Novamente, veja maiores detalhes dessa ocorrência na economia brasileira nesse artigo).

A partir de meados de 2009, com o forte crescimento dos meios fiduciários, os preços desses bens de capital não apenas voltam a subir, como também sua ascensão é vertiginosa, ainda mais rápida do que a ocorrida em 2006/2007.

E desta vez, ao contrário de 2007/2008, os preços tanto dos bens de consumo não-duráveis quanto dos serviços também vêm apresentando substantiva expansão.  Os preços dos alimentos, que subiriam de qualquer forma em decorrência dos fatores climáticos, foram intensificados pelas políticas monetárias expansionistas que estão ocorrendo em escala mundial.

Conclusão

Neste artigo, com a intenção de se evitar prolongamentos desnecessários, não foi discutido o efeito que políticas monetárias expansivas têm sobre a distribuição de renda e sobre o crescimento econômico.  Quanto a este último, sempre vale a pena ressaltar que, embora variações na oferta monetária não produzam impacto no crescimento agregado da economia, elas certamente afetam a maneira como os recursos da economia são alocados e distribuídos.  Mais ainda: elas determinam os tipos de bens que serão produzidos, bem como suas quantidades relativas.  Ou seja, as variações da oferta monetária determinam como será a estrutura produtiva da economia, mas não o nível da produção.  A única coisa que a inflação e o crédito fazem é provocar uma alteração na valoração de bens, serviços e salários, e uma consequente realocação de recursos. 

Os preços no Brasil — não só os dos alimentos — estão em alta.  A inflação dos últimos doze meses (fechada em janeiro) apontou aumento de 5,99% para o IPCA, 6,53% para o INPC, 7,41% para o IPC, 11,50% para o IGP-M, 14,18% para o IPA-M e 28,40% para o IPA dos produtos agrícolas.

Essa sopa de siglas é o de menos.  O que importa saber é que toda essa inflação de preços está ocorrendo em uma época em que o câmbio está em seu nível mais apreciado da história (o que significa que as importações nunca foram tão baratas).  Logo, toda a inflação de preços por que passamos tem três culpados bem definidos: o Banco Central, o Ministério da Fazenda e o sistema bancário de reservas fracionárias.


Leandro Roque é o editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.


48 comentários
48 comentários
JUAN RAFAEL 22/02/2011 08:34:49

O texto é bom, claro e elucidativo.\r
\r
Parabéns, Leandro.\r
\r
Juan Rafael

Responder
amauri 22/02/2011 08:54:58

Bom dia Leandro!
A inflação que a classe media e baixa sente no bolso (real) é maior que a inflação oficial dita pelo governo.
Logo no inicio do governo Dilma, a equipe econômica disse que iriam diminuir a divida publica para 30% do PIB (eles insistem que a divida publica é de 40% do PIB e não próximo de 70%. Qual a mágica que farão?
Quando FHC iniciou seu primeiro mandato a divida publica era de 26% aproximadamente do PIB e uma inflação alta. Quando terminou seu segundo mandato deixou uma divida publica perto dos 70% e uma inflação bem menor. Com os governos Lulla manteve praticamente a mesma relação divida-PIB e inflação. A magica será está? abs

Responder
Marcelo 22/02/2011 09:43:05

Leandro, só aproveitando esse post porque eu esqueci de te agradecer por analisar aquele link do Krugman. Valeu pela explicação!

Responder
Guilherme Rocha 22/02/2011 10:30:29

Olá, tudo bom?\r
\r
Gostei do texto, principalmente da parte explicativa da expansão dos meios fiduciários...\r
\r
Agora em resumo, afirmar, que a inflacão que vem aumentando ao longo dos anos, vem do câmbio apreciado, com culpados bem definidos discordo integralmente.\r
\r
As importacos se tornarem mais caras, significa que é bom momento para industrial nacional se desenvolver.\r
\r
A inflacão, pode ser um processo natural, acompahado de um crescimento e desenvolvimento econômico, sendo assim bom para Economia.\r
\r
Em todos ramos que estudei da economia, tanto em Macro, Micro, e FEB, é impossísivel existir um crescimento ecômico acentuado, como o Brasil teve em 2010 com um aumento considerável PIP, anulando assim a inflacão.\r
\r
A renda familiar aumentando acima da inflacao, tem um efeito positivo.

Responder
Leandro 22/02/2011 12:06:00

Guilherme, você entendeu exatamente o contrário no que concerne ao câmbio. O texto diz que a atual inflação de preços é ainda mais significativa porque vem ocorrendo exatamente num período de dólar extremamente barato, o que em tese favorece as importações e ajuda a conter a subida de preços.

Quanto a dizer que importações caras são algo bom pois faz com que a indústria nacional se desenvolva, cabe a você explicar por que e como exatamente um ente econômico protegido da concorrência vai querer se aprimorar. Por essa teoria, a Coreia do Norte deve possuir indústrias de ponta. Ou, para ser menos radical, as indústrias brasileiras da década de 1980 teriam de ser supimpas, principalmente a automotiva...

Quanto à inflação ser um processo natural (dádiva divina?) e ser bom para a economia, taí algo que não apenas não faz nenhum sentido econômico, como também é totalmente contra qualquer bom senso racional.

Afinal, como uma economia que está produzindo uma maior oferta de bens (economia em crescimento) pode gerar inflação de preços? Não deveria ser o contrário? Ademais, por que as coisas ficarem constantemente mais caras é bom para todo mundo?

Quando uma economia em "crescimento" apresenta alta generalizada de preços, pode saber que esse crescimento é falso. Procure estudar os efeitos que a variação da oferta monetária causam sobre a distribuição dos fatores de produção numa economia, bem como o problema com a maneira de se mensurar o PIB.

Dicas de leitura:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=759
www.mises.org.br/Article.aspx?id=145
www.mises.org.br/Article.aspx?id=843
www.mises.org.br/Article.aspx?id=837
www.mises.org.br/Article.aspx?id=297

Abraços!

Responder
Ricardo 13/05/2014 18:24:24

Olha essa posição está se espalhando de um forma muito burra.Realmente o cambio gera inflação porem a quantidade de inflação que ele gera não é tão devastador quanto se imaginava mesmo para um pais agrario-exportador quando se imaginava a um tempo atrás e o impacto da demanda sobre a inflação é maior do que os keynesianos falam. Então toma cuidado porque essas universidades publicas estão com uma cadeia de ensino totalmente estranha com a desculpa de que os alunos devem estudar mais economia política não acompanham o desenvolvimento da economia. Muitas vez brigando à tapas com resultados matemáticos realmente conclusivos.

Responder
Gustavo 22/02/2011 11:05:14

Leandro, pra ser ainda mais explícito me tire uma dúvida: essa "criação" de dinheiro pelo BC para manter a SELIC na meta é feita pela compra dos títulos do tesouro no mercado aberto, ou seja, o governo emite títulos para financiar o BNDES em uma ponta e ao mesmo tempo o BC vai comprando o excedente na outra, não é isso?

Responder
Leandro 22/02/2011 11:46:53

É exatamente isso, Gustavo.

E no final, claro, apresenta a conta pra você e sua família (enquanto Eike Batista e sua trupe, que se enriquecem por meio desse sistema, riem da sua cara).

Responder
Leonardo 22/02/2011 15:47:31

Meus parabéns, cada vez melhor os artigos do site!\r
e cada vez maior é a indignação e a vontade de mudar.\r
\r
abraços

Responder
Rhyan Fortuna 22/02/2011 16:00:36

Por que o M1 exclui as reservas bancárias?

Responder
Leandro 22/02/2011 18:29:04

Rhyan, por dois motivos:

1) o M1 lida apenas com aquele dinheiro que está prontamente disponível na economia e que pode ser utilizado imediatamente para trocas comerciais. As reservas bancárias, pelos motivos descritos, não se classificam dessa forma.

2) Evitar a contagem dupla que ocorreria caso o sistema fosse de 100% de reservas. Nesse caso, para cada $100 na sua conta-corrente haveria $100 no cofre do seu banco. Nesse cenário, seria claramente errado contar o dinheiro na sua corrente mais o dinheiro nos cofres. Seria obviamente dupla contagem.

No sistema de reservas fracionárias, como os bancos criam dinheiro em cima do seu depósito inicial, a quantidade de dinheiro aumenta e o total de dinheiro nas contas-correntes torna-se muito maior que o total de dinheiro nos cofres dos bancos. Por isso o M1 conta apenas o dinheiro nas contas-correntes: ele pega a maior das duas variáveis e inclui aquela fatia das contas-correntes que não são lastreadas por dinheiro nos cofres.

E fica tudo resolvido.

Responder
Angelo T. 22/02/2011 18:35:42

Rhyan, é para evitar contar duas vezes.\r
Lembre-se que no M1 estamos contando os depósito em conta-corrente.\r
Suponha que eu deposite uma nota de 10 reais no banco. Se o banco tiver reserva de 100%, estaríamos contando 10 reais do depósito em conta-corrente, mais os 10 reais de reservas do banco. Seriam 20.\r
\r
Lost in a Maze of Money Aggregates?\r

Responder
Caio 22/02/2011 16:38:37

Certa vez, um Keynesiano me falou que aumentos da oferta monetária gerados pelo multiplicador bancário eram 'auto-liquidativos', o que faz sentido, já que, pelo menos na teoria, esses empréstimos terão que ser pagos futuramente. Entretanto, olhando qualquer gráfico do M1, não existem grandes oscilações que indiquem uma liquidação desse dinheiro que foi criado pelos bancos. O que dá pra perceber é que há um aumento contínuo da quantidade de moeda na economia que apenas diminue em épocas de crise. Como explicar isso?

Responder
Leandro 22/02/2011 18:28:04

Caio, tecnicamente é sim correto dizer que as contas-correntes criadas para empréstimos são sim autoliquidativas, e pelo motivo que você corretamente apontou (esses empréstimos terão que ser pagos futuramente).

Entretanto, você raramente verá grandes quedas nos gráficos que mostram o total de contas-correntes simplesmente porque para cada conta sendo fechada há outra sendo criada. Para que houvesse essa queda, teria de estar havendo uma maciça retirada de depósitos bancários sem nenhuma concessão de empréstimos em contrapartida.

Na Grande Recessão americana ocorreu isso, e o M1 despencou entre 1929 e 1933. Aconteceu também durante a crise argentina de 2001.

Hoje, tal fenômeno é mais raro simplesmente porque as pessoas confiam que seus depósitos estão assegurados pelo governo -- logo, elas não se preocupam mais com corridas bancárias (o que é péssimo, pois estimula comportamentos ainda mais precipitados da parte dos bancos).

Por fim, só uma nota mais técnica: o gráfico do M1 não mostra apenas as contas-correntes, mas também as cédulas e moedas em poder do público. Logo, ele não é um bom indicativo para mensurar o comportamento das contas-correntes. Nesse caso, faça um gráfico específico para as contas-correntes.

Grande abraço!

Responder
anônimo 22/02/2011 16:50:47

Leandro,

Em primeiro lugar, parabéns pelo texto: claro e primorosamente técnico. Tenho especial apreço pelos textos publicados pelo IMB como aplicação da teoria austríaca à economia brasileira que constituem o diferencial do site, sem com isso minorar a importância das traduções.

Só me ficou uma dúvida: sendo os meios fiduciários a diferença entre o M1 e a base monetária, seria correto dizer que a expansão do crédito e a expansão da base monetária são fenômenos distintos, embora relacionados como no caso em estudo? Se assim, qual a relação entre eles?

Deixe-me ser mais específico: você afirma,inicialmente, citando Reisman que "a quantidade de meios fiduciários em qualquer momento representa o acumulado total de toda a expansão de crédito ocorrida na oferta monetária", mas um pouco a frente diz: "a expansão do crédito ocorrida no período de outubro de 2008 a novembro de 2009, em decorrência tanto da redução do compulsório [...] quanto do aumento da base monetária". Assim me parece que, embora não seja o caso atual, poderia haver expansão do crédito sem aumento da base monetária. Se isso é correto, uma expansão do crédito causada unicamente pela redução do compulsório poderia ser considerado um fenômeno inflacionário? Ela repercutiria sobre a inflação de preços?


Responder
Leandro 22/02/2011 18:30:14

Anônimo, muito agradecido pelo elogio.

É sim possível um sistema bancário de reservas fracionárias criar uma quantidade infinita de dinheiro mesmo com a base monetária sendo rigorosamente rígida.

Nesse caso, não apenas o compulsório seria zero, como também teria de haver uma enorme concentração bancária. Quanto menos bancos concorrentes, maior a chance de que aquele dinheiro eletrônico criado por um determinado banco acabe voltando para ele próprio, poupando-o da chateação de ter de fazer compensações bancárias e retirar dinheiro de suas reservas.

E sim, tal fenômeno é igualmente inflacionário, senão mais.

Um dos motivos de o compulsório ser alto no Brasil é justamente por causa de nossa enorme concentração bancária. Aqui são poucos os bancos que concorrem entre si. Na Suíça, por exemplo, o compulsório está na casa dos 2%, mas não há criação inflacionária de dinheiro porque 1) existem vários bancos concorrendo entre si e 2) o Banco Central suíço é conservador em sua política monetária, sempre mantendo sob controle a expansão da base monetária, dificultando assim estripulias do setor bancário.

Responder
anonymous 22/02/2011 17:35:12

A melhor parte dos artigos do Leandro são as respostas nos comentarios haha
Parabens cara

Responder
Angelo T. 22/02/2011 18:46:03

Eu diria que os artigos são excelentes e as respostas nos comentários igualmente excelentes. :-)\r
\r
Leandro para ministro da fazenda! hehehe :-P

Responder
Leandro 22/02/2011 18:48:41

Só se for de Liechtenstein... ;)

Responder
Daniel 22/02/2011 19:59:27

"Como explica a teoria desenvolvida pela Escola Austríaca de economia, uma expansão dos meios fiduciários que provoque uma redução na taxa real de juros irá estimular investimentos em projetos de longo prazo, principalmente aqueles empreendimentos que fazem uso mais intenso de bens de capital, como produtos industriais, máquinas e equipamentos."\r
\r
Não precisa necessariamente causar uma reducao na taxa real de juros para incentivar investimentos. A comparacao é com o contrafactual e nao com o passado. Alias parece que estamos mais ou menos nesse ponto, com juros subindo lentamente e politica monetária ainda expansionista, certo ?\r
\r
E Leandro, existe algum indicador divulgado on real-time para conhecer as compras e vendas no BC no mercado interbancário ? Se não me engano ja vi isso para outros países mas n sei se tem para o Brasil.\r
\r
Excelente artigo !\r
Abrs\r

Responder
Leandro 23/02/2011 06:35:53

Obrigado, Daniel.

Bom, que eu saiba, em tempo real, não. Há a tradicional página do BACEN com várias informações a respeito, porém com um atraso de pelo menos 12 dias.

www.bcb.gov.br/?INDECO

Abraços!

Responder
@negoailso 23/02/2011 01:37:41

no primeiro gráfico, os meses abril=junho representam um 'reajuste elástico' por conta de dezembro e janeiro, será?

Responder
Leandro 23/02/2011 06:54:48

@negoailso, normalmente esse reajuste já ocorre em fevereiro, mesmo. De março em diante, o BACEN se limita a comprar e vender títulos públicos de modo a manter a SELIC dentro da meta. Se você olhar o gráfico diário da variação da base monetária, não conseguirá distinguir nenhum padrão nele.

A partir do momento em que o BACEN estipula qual é a meta pra SELIC, ele perde o controle sobre como se dará o crescimento da base monetária. Tudo fica ao sabor da demanda por moeda do sistema bancário. O BACEN, no máximo, se limita a divulgar qual o intervalo pretendido de aumento na base monetário.

Por exemplo, atualmente, eis a previsão:

Programação monetária para o 1º trimestre/2011: R$156,3 bilhões - R$211,5 bilhões. (Ponto médio das previsões: 15,8% em 12 meses).

Traduzindo: ele não é capaz de precisar qual exatamente será a base monetária ao fim do trimestre. Como se pode ver pelos números, ela pode variar em nada menos que R$55 milhões. Em janeiro, por exemplo, ela havia aumentado 16,1% em relação a janeiro de 2010. A meta é fazer com que esse crescimento anual passe para 15,8%,


Lembrando sempre que a única variável sob controle direto do Banco Central é justamente a base monetária. Sobre as contas-correntes e, consequentemente, os meios fiduciários, o BACEN pode apenas, no máximo, exercer uma influência muito restrita. Ele certamente não pode controlar o quanto elas podem aumentar ou diminuir.

Responder
anônimo 23/02/2011 09:52:30

"Em outras palavras, havia 100% de reservas lastreando R$ 44,5 bilhões e absolutamente nada para lastrear R$ 79,3 bilhões, que assim são classificados como meios fiduciários."

Leandro, Só o Banco Itaú lucrou 13,3 bilhões em 2010.

Não é muita grana pra quem cria dinheiro do nada?

O Brasil deve receber (incorporar?), segundo a reportagem do Jornal Estado de Minas, cerca US$ 2 trilhões em investimentos entre este ano e 2014, divulgados ontem pelo BNDES. Como se explica essa expansão (dívida para o Estado), em conexão com a emissão fracionada (programação monetária)?

Responder
Leandro 23/02/2011 10:22:09

São justamente as reservas fracionárias -- capacidade de gerar dinheiro do nada, emprestá-lo e ainda cobrar juros -- que garantem os altos lucros do sistema bancário.

E é justamente por isso que eles tremem só de ouvir em 100% de reservas. Aliás, eles já acham péssimo só de ouvir falar em aumento do compulsório.

Logo no início do artigo específico sobre a economia brasileira, há um gráfico mostrando que o volume de crédito concedido na economia está em R$ 1,55 trilhão. Trata-se de dinheiro falso criado em cima de dinheiro falso, uma pirâmide que pode se esfacelar mediante qualquer corrida bancária.

Vale lembrar que, na atual crise americana, mais de 5 trilhões de dólares desapareceram literalmente -- claro, era tudo fictício; apenas dígitos no computador.

No caso específico brasileiro, temos atualmente R$ 186,7 bilhões de dinheiro padrão lastreando esse crédito total de R$ 1,55 trilhão. Ou seja, apenas 12% de todo o crédito existente no país é formado por dinheiro que realmente existe. O resto foi tudo criação em cima de dinheiro fictício.

Mas se considerarmos apenas as reservas bancárias -- base sobre a qual estão os empréstimos que foram gerando esses créditos --, temos R$ 44,5 bilhões lastreando R$ 1,55 trilhão.

Faça as contas e comprove como esse sistema se baseia num equilíbrio totalmente instável.

Responder
anônimo 23/02/2011 17:52:10


Leandro, muito obrigado pelos esclarecimentos. Não dá pra fazer as contas desse jeito.

A ciência econômica necessita, antes de tudo, do aprofundamento em princípios, mesmo que sejam fragmentários de qualquer conjunto doutrinário do desenvolvimento.

O Estado, por pagar a conta dos títulos públicos da moeda lastreada, responde, a titulo eminente das crises de crédito, ao dever de vitalidade da transferência garantida, de onde provém a sua dupla obrigação para o padrão das reservas de valor.

É preciso primeiramente compreender que não são os bancos que atingiram o segundo plano da base monetária, e sim quem indica o papel do sistema - a ciência ou o Estado. O dinheiro fracionário é o diverso do primeiro estado puro do desenvolvimento que se multiplica e faz o novo ciclo de moedas, em movimentos futuros de créditos da natureza auto-sustentada da economia.

Por que os libertários não fazem essa econometria do desenvolvimento, em favor da ciência?

Os créditos econométricos acabam sendo um meio importante para instituições neutras da "ação humana" financiar a propriedade privada; em face de se perceber que o poder aquisitivo gerou no tempo o devir fracionado, pelo deposito de uma realidade multiplicadora da produção passada para a futura. Ou seja: os dois planos, realidade progressiva e moeda do nada (abstração), representam uma criação - a considerar muito distinta da moeda virtual completar a adição da moeda física - para a concepção de uma nova produção.

Responder
Renan 23/02/2013 21:29:58

"Mas se considerarmos apenas as reservas bancárias -- base sobre a qual estão os empréstimos que foram gerando esses créditos --, temos R$ 44,5 bilhões lastreando R$ 1,55 trilhão."

Leandro, se o compulsório estava em 45%, como 44,5 bilhão podem multiplicar para 1,55 trilhão? Pelos meus cálculos, seria preciso um compulsório menor que 2,87%.

Outra coisa. Se o tal depósito junto ao banco central(no caso, 27%) é eletrônico e os bancos só precisam manter nos seus cofres uma porcentagem menor que 45% do dinheiro físico depositado(no caso, 18%), então a multiplicação pode ser de até 1/0,18 = 5,56. Correto?

Eu ainda não entendi este lance de multiplicar o que já foi multiplicado. Isto significa que, na prática, o compulsório é bem menor.

Responder
Leandro 23/02/2013 22:02:39

Esse compulsório de 44% se aplica apenas sobre depósitos em conta-corrente. Para depósitos em poupança e depósito a prazo o compulsório é bem menor. Justamente por isso, os bancos estão continuamente transferindo dinheiro que está na conta-corrente para a conta-poupança e para depósitos a prazo, o que libera mais reservas para novas expansões do crédito.

Só em 2012, por exemplo, o Banco Central fez várias alterações seguidas no compulsório, tanto dos depósitos à vista quanto dos depósitos em poupança e a prazo, o que levou os bancos a fazerem várias migrações de uma conta para outra. Eu mesmo fui vítima disso recentemente: tiraram meu dinheiro da poupança e jogaram para uma aplicação a prazo que rendia muito menos. Tudo por causa de alterações no compulsório. Se eu não acompanhasse meu saldo continuamente na internet, estaria até hoje perdendo dinheiro.

Por fim, há um artigo inteiro explicando detalhadamente essa questão de como os bancos operam para escapar desse compulsório (foi exatamente assim que eles fizeram durante a década de 1920 nos EUA, formando a bolha no mercado de ações):

O sistema bancário brasileiro e seus detalhes quase nunca mencionados

Responder
Daniel 23/02/2011 15:13:17

Obrigado Leandro.\r
Tenho outra dúvida : ao medir o tamanho de certa industria de um país, seria mais apropriado usar o "PIB" gerado por ela ou Receita Bruta ?\r
Suponha agricultura e servicos. A receita bruta de ambas é 100, mas a agricultura utiliza insumos(fertilizantes, maquinas,etc..) no valor de 80, logo seu "PIB" é 20. Ja servicos utilizam apenas 20 em insumos (papel, internet.etc..), com um "PIB" resultante de 80. \r
A importancia das duas é a mesma, pois se nao existissem o país seria 100 mais pobre. Mas o "PIB" dos servicos é 4 vezes maior \r
E entao, qual seria o melhor indicador para analisar um setor especifico ? \r
Desculpe o espaco inapropriado para mandar essa pergunta e eventuais erros conceituais, mas estou realmente confuso.\r
Att\r

Responder
Leandro 23/02/2011 15:58:17

Daniel, receita bruta não é um bom mensurador. Um setor protegido pelo governo, por exemplo, é extremamente ineficiente e possui uma alta receita bruta. Ademais, pode ser um setor de produção limitada e com pouca concorrência, o que garante preços altos e, logo, alta receita bruta.

Quanto ao seu exemplo específico, bom, em termos de eficiência, nesse seu exemplo o setor de serviços realmente é insuperável: produz quatro vezes mais do que "consome", sendo que o contrário ocorre com a agricultura.

Porém, o que realmente conta é a abundância dos bens produzidos, bem como a sua qualidade e necessidade. Comparar a produção da agricultura com a produção dos serviços me parece um tanto descabido -- antes de mais nada é preciso ver se a agricultura tem concorrência externa ou se ela é protegida, bem como os preços, a qualidade e a abundância de seus produtos. Ademais, muitos serviços não são tão essenciais quanto produtos agrícolas, por exemplo. Qualquer comparação seria meramente subjetiva.

Sendo assim, em termos puramente subjetivos, eu diria que o melhor mensurador é ver

1) quem produz mais com menos; e
2) qual o setor cujos produtos são mais importante para a economia em questão.

Não dá pra falar muito mais além disso.

Responder
Daniel 24/02/2011 14:46:34

E meu objetivo inicial é medir o tamanho da industria, nao sua eficiencia.\r
Talvez meu exemplo tenha sido um pouco equivocado. Pelo que entendi o PIB pelo lado da oferta é calculado pelo Valor Agregado Bruto, ou seja, [Receita - Custos diretos da producao] (nao inclui salario, aluguel, etc., apenas as matérias primas e servicos básicos utilizados na producao).\r
\r
Entao uma firma que tenha elevados gastos com salários e alugueis (P.Ex.servicos)apresentaria um maior "PIB" que uma firma produtora de bens finais com bens intermediarios em seu processo produtivo, embora ambas possam ter a mesma receita e mesmo lucro.\r
\r
\r
\r

Responder
Thyago 27/02/2011 14:58:10

Muito bom!

Responder
Felix 14/03/2011 14:07:54

Olá a todos,

Um amigo meu perguntou, e ainda não tenho argumentos para responder, se alguém puder me ajudar:

"Você sabe como funciona essa história de "imprimir" dinheiro ?

Como é que o governo injeta dinheiro na economia ?

Como o FED fez aquele plano de resgate de US$ 700 milhões. Ele vai lá, imprime na máquina de fazer dinheiro e faz o que com ele, empresta para os bancos, é isso ?

Ou ele (FED) imprime, compra títulos do governo americano, que empresta o dinheiro para os bancos ? É assim né ?

Aí quando o governo americano vai pagar os juros/títulos tira do dinheiro dos impostos e é por isso que é a população quem paga a conta. É isso ?

E a história que o FED "exporta" inflação ? Você entende isso ?"



Responder
Leandro 14/03/2011 15:14:47

Felix, no mundo atual, "imprimir dinheiro" é apenas uma metáfora para "criar dinheiro eletronicamente", que é como realmente os bancos centrais operam junto ao sistema bancário.

E sim, os bancos centrais compram títulos públicos que estão em posse dos bancos. É assim que se dá o aumento da base monetária. Como o BC cria dinheiro para pagar por esses títulos? Ele simplesmente aperta teclas no computador e adiciona zeros nas reservas dos bancos. Pronto! Está criado o dinheiro. Os títulos foram comprados.

Modéstia à parte, esse texto é o que melhor explica absolutamente todos esses detalhes:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=344

Responder
Eudes 24/03/2011 10:24:53

De acordo com nossa opinião, este portal estava devendo uma explicação adequada e completa acerca do recente aumento de preços no Brasil, um texto compatível com a excelente qualidade deste portal. Essa lacuna foi preenchida agora com esse artigo. O texto é, no mínimo, excelente.

Responder
ANDRE LUIS 17/11/2011 18:50:36

Olá Leandro

Num artigo anterior, pude entender que houve uma mudança na forma de obtenção de recursos por parte do governo. Antes enviava um projeto de lei ao congresso para que o BC imprimisse a quantia desejada, e invariavelmente era bem sucedido nisso. Hoje há o financiamento indireto por meio dos títulos públicos.

Entendi também que este arranjo é o real fator inflacionário de preços dos bens e serviços. Minha pergunta porém é com relação ao rendimento do dinheiro pago pelos bancos ao cidadão comum.

A meu ver, houve uma mudança com relação ao juros pago pelo dinheiro depositado nos bancos pelo cidadão comum. Antes das mudanças descritas no primeiro parágrafo, minha impressão era que os juros pagos pelos bancos acompanhavam mais de perto a subida dos preços dos bens e serviços. Teria este novo arranjo entre BC e os bancos, via títulos públicos, alterado também a relação entre o banco e seus depositantes, de modo a tornar possível uma espécie de "roubo institucional" dos rendimentos da população que empresta para os bancos?


Responder
Leandro 17/11/2011 19:20:49

Prezado Andre, creio que você esteja se referindo a este artigo.

Quanto aos juros pagos pelos bancos aos correntistas, eles sempre foram próximos ao valor da SELIC -- para aplicações em Fundo DI e renda fixa. Era assim inclusive na década de 1980, na época do famoso o "vou aplicar no over" -- o qual realmente protegia as pessoas contra a inflação. Mas a remuneração do over era a SELIC.

Hoje, até mesmo a poupança varia de acordo com alterações na SELIC (0,5% ao mês + TR). No entanto, houve uma alteração no cálculo da TR (determinada pela Fazenda) em 2007, e isso de fato prejudicou os poupadores. Talvez esteja vindo daí essa sua sensação.

Fora isso, eu não saberia lhe garantir se tal alteração no sistema bancário (ocorrida em 2000) alterou esse rendimento dos títulos públicos.

Abraço!

Responder
ANDRE LUIS 17/11/2011 20:45:35

Obrigado Leandro.

Te fiz esta pergunta porque tenho receio que os preços estejam subindo numa proporção bem maior do que a remuneração repassada aos correntistas dos bancos. Seria possível o governo agir de forma a divulgar indices de inflação oficiais menores do que a realidade do mercado, para com isso obter algum benefício, seja direta ou indiretamente? Desculpe te incomodar com perguntas que possam parecer tolas ou sem sentido. Sou apenas um curioso com pouco ou nenhum conhecimento na área, e que aprecia muito a sua boa vontade em nos tirar dúvidas. Um abraço.

Responder
Marc... 12/12/2011 11:59:35

Dá uma pesquisada no Google: argentina inflação governo real falso engana etc.

Só pesquisando argentina + inflação temos esse e mais outros na 1ª página:
ultimainstancia.uol.com.br/conteudo/noticias/53239/na+argentina+juiz+investiga+jornalistas+por+divulgarem+inflacao+maior+que+a+oficial.shtml

Responder
Observadordepirata 21/11/2011 12:20:25

Essa inflação medida pelo governo é o maior EMBUSTE de todos os tempos! Qualquer idiota vê que não bate.

Responder
Marcelo L. 23/03/2013 04:55:29

O índice ibovespa reflete com certa fidelidade o volume de dinheiro criado nos últimos anos? Se não, por que não, para onde está indo esse dinheiro?

Responder
Mauro 23/03/2013 09:22:02

Dinheiro é criado, mas também é destruído. Tal mecanismo foi explicado neste artigo:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1514

Quanto a ir para a Bovespa, tudo depende da expectativa da economia. O dinheiro pode ir pra BM&F também, que é o mercado de futuros. E o pode também não ir para o mercado de ações, mas sim para o financiamento de empreendimentos que nada têm a ver com bolsa, como a abertura de restaurantes, lojas de roupa, hotéis e afins.

E há também o fato de que, da mesma maneira que uma bolha imobiliária aumenta os preços das ações da imobiliárias, o estouro desa bolha também derruba fortemente os preços dessas ações, influindo no índice da Bovespa. Isso aconteceu em 2012.

Não há nada que garanta que dinheiro criado vá pra bolsa. E mesmo que vá, as próprias oscilações típicas de bolha impedem o aumento contínuo do índice.

Responder
Eduardo R., Rio 01/03/2014 23:58:47

"Não há solução simples para acabar com preços $urreais", por Edmar Bacha.

Responder
PDCL 29/09/2014 12:31:05

Se alguém souber onde encontrar um gráfico de evolução dos meios fiduciários comparando bancos estatais e privados me avise. Ok.

Responder
Rafael 10/11/2014 21:24:00

"Esses depósitos junto ao Banco Central estão na forma de moeda eletrônica, meros dígitos nos computadores do Banco Central"

Como assim são "puramente eletrônicos"? O banco não precisa manter essas reservas fisicamente para não emprestá-las e nem expandir a base monetária sobre isso?

Responder
Lucas 31/08/2015 03:35:38

A base monetária na economia americana foi expandida vertiginosamente, nos últimos anos, sem, no entanto, desencadear um processo inflacionário, tal como descrito na teoria austríaca. Some-se a isso que também é a economia que tem o melhor desempenho, hoje, em se tratando do primeiro mundo.

Qual a vossa explicação?

Responder
Leandro 31/08/2015 09:51:32

Explicado já inúmeras vezes neste site.

O Fed criou dinheiro e o repassou aos bancos, mas esse dinheiro nunca entrou na economia. Ele ficou parado nas "reservas em excesso" que os bancos voluntariamente mantêm depositados junto ao Fed.

E por que os bancos agiram assim?

Porque o Fed, em uma medida totalmente sem precedentes (uma medida que nunca foi abordada em nenhum manual de macroeconomia), passou a pagar juros sobre todo o dinheiro que os bancos voluntariamente mantêm depositados no Fed.

Antes, o Fed pagava juros apenas sobre os depósitos compulsórios dos bancos. Agora, ele paga juros sobre todo e qualquer dinheiro que os bancos voluntariamente depositam no Fed.

É por isso que a base monetária -- mais especificamente, o componente "reservas em excesso" -- explodiu, mas esse dinheiro não entrou na economia.

Pode conferir neste artigo:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1661

Vale ressaltar que, no atual arranjo financeiro, o Fed (bem como o Banco Central brasileiro) não injeta dinheiro diretamente na economia; ele injeta dinheiro apenas nos bancos, e os bancos é que decidem se irão despejar este dinheiro na economia (por meio da criação de crédito. Se os bancos não quiserem despejar este dinheiro na economia americana, não haverá nenhum risco de inflação de preços.

Por fim, sobre a inflação de preços no Brasil, recomendo estes dois artigos, bem mais recentes:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1854
www.mises.org.br/Article.aspx?id=2155

Responder
Lucas 31/08/2015 12:07:00

Leandro,

Muito obrigado pela resposta. Lerei os artigos.

Responder

Envie-nos seu comentário inteligente e educado:
  Nome
  Email   (também utilizado para o Avatar, crie o seu em www.gravatar.com)
  Website
Comentários serão exibidos após aprovação do moderador.







Multimídia   
  Podcast Mises Brasil
        por Bruno Garschagen - 06/01/2019
  Conferência de Escola Austríaca 2014
        por Diversos - 23/10/2014
  Fraude - Explicando a grande recessão
        por Equipe IMB - 31/10/2012
veja mais...



Instituto Ludwig von Mises Brasil



contato@mises.org.br      formulário de contato           Google+
Desenvolvido por Ativata Software