Se você gosta da natureza, privatize-a
por , quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

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tetonfenceframe.jpgRevistas que versam sobre a natureza são um deleite. As fotos que enfeitam as publicações sobre conservação normalmente são magníficas. Entretanto, é difícil ignorar o analfabetismo econômico ou a propaganda socialista que é esposada em muitos de seus irrefletidos artigos, e é ainda mais difícil ignorar a força com a qual os estatistas clamam pela expropriação governamental dos recursos com o intuito de atingir seus objetivos. Nesse artigo, mostrarei por que isso é eticamente incorreto e economicamente ineficiente.

Primeiro, o mais importante: não sou contra a natureza ou a preservação dela, obviamente. O que oponho é o uso do estado — o agente da agressão institucionalizada — para fomentar a agenda do movimento pró-conservação. É imperativo fazer uma distinção entre liberdade e estatismo. Enquanto que a liberdade envolve propriedade, prosperidade e liberdade de trocas, o estatismo envolve roubo, pilhagem e pobreza.

As opiniões dos legisladores, quando são codificadas e escritas em certos documentos "oficiais", se tornam leis. Essas leis são financiadas pelo assalto estatal à população e são normalmente reforçadas por ameaças de multa, de prisão e, em última instância, de morte. Portanto, quando falamos de opções voluntárias, definitivamente não estamos falando de decretos governamentais.

Intervenção Governamental

Sempre que há uma troca voluntária de bens, aqueles que estão participando dela acreditam ex ante que estarão melhor após a troca do que estariam se não a tivessem feito; eles esperam se beneficiar da troca, pois caso contrário não haveria motivos para fazê-la. Se A está comprando maçãs de B por $1, então A necessariamente acredita que as maçãs valem mais do que a moeda. Algo similar ocorre com B, que acredita ser o valor da moeda maior do que o valor das maçãs. Assim, uma troca livre e voluntária é uma dupla desigualdade.

Sob intervenção governamental, no entanto, a relação entre esses bens trocáveis não é mais como descrita acima. Ao invés de termos dois lados decidindo livremente trocar seus bens baseando-se em suas necessidades e fazendo cálculos através do sistema de preços, temos o governo estabelecendo os termos, unilateralmente. Ele vai alocar os recursos de acordo com o clima político, negligenciando as necessidades de todos ao propor e estabelecer esquemas únicos que devem ser aplicados de maneira unilateral sobre todos. Ao invés de os dois lados da negociação estarem melhor após a troca, temos que um lado fica melhor (geralmente políticos ou lobistas) às custas do outro.

O que é que tudo isso tem a ver com a natureza? Muito. Estamos vivendo parcialmente sob um socialismo ambiental. O governo se arrogou a si próprio a responsabilidade de cuidar de algumas áreas de terra que ele declarou serem importantes. E simplesmente por dizerem que são importantes (através do decreto de alguma lei), grupos de políticos alegam ser os proprietários de direito tanto de terras que não têm dono como de terras que já têm dono. Vamos analisar cada um desses cenários.

No primeiro caso, o governo alega ter se apropriado de recursos aos quais ninguém havia anteriormente reclamado a posse. Até esse ponto, a maioria diria que se trata de algo legítimo. Isto é, como não havia nenhum proprietário, e, portanto, nada a se reclamar, então o governo pode sim alegar a posse da terra em questão. Conquanto não seja o propósito desse artigo adentrar na questão de se o governo pode ou não ser tratado como um proprietário legítimo, é suficiente dizer que em muitos (e talvez na maioria dos) casos, o estado simplesmente declarou por decreto ser ele o proprietário da terra em questão e pronto. E não se tratava de lotes cedidos pelo governo sendo retomados, bem como sequer havia qualquer ligação entre os agentes governamentais e a terra reivindicada.

O segundo caso é muito mais fácil. Se há um dono legítimo da propriedade — terra, nesse caso — e o estado decide que tem mais direito sobre essa terra ("domínio eminente" ou desapropriação — o poder do governo de desapropriar uma propriedade privada para uso público), então trata-se de um roubo, simples e direto. O estado invalida reivindicações anteriores (e melhores) sobre a posse da terra e toma-a para si. Sob essa aquisição hostil, o proprietário ou é expulso ou tem seus direitos de propriedade (o direito de controlar) diminuídos.

Em ambos os casos, a formação de parques e reservas ambientais — estaduais e nacionais — deve, em algum momento, usar de agressão. Isso seria verdade mesmo se uma determinada reserva particular fosse voluntariamente entregue ao estado, pois, desse ponto em diante, sua manutenção e administração vai requerer um novo ataque à sociedade através de uma adicional taxação. Assim, propriedades estatais devem ser imediatamente devolvidas aos seus proprietários de direito.

O estado não pode ser o proprietário legítimo de terras (ou ter qualquer outro tipo de propriedade). Não importa se tal propriedade se tornou estatal através da compra, decreto, conquista, domínio eminente, ou retomada de lotes que foram cedidos — todos esses métodos envolvem a violação de direitos quando eles são feitos em nome do estado.

A natureza sob o socialismo

Florestas, parques e reservas naturais em geral, quando estão sob o controle do estado, se tornam entidades socialistas. As mesmas análises econômicas usadas para determinar as conseqüências do socialismo podem ser aplicadas para as reservas nacionais, isto é: sem um mercado, simplesmente não há uma maneira de determinar se os recursos direcionados para as reservas nacionais estão sendo alocados eficientemente. Como Mises demonstrou, o cálculo econômico sob o socialismo é impossível.

Quanto se deveria cobrar das pessoas que entram em um parque, por exemplo? Elas deveriam sequer pagar? Quantas famílias ou carros deveriam ser permitidos por temporada? Ou eles deveriam sequer ser permitidos? Todas essas são questões críticas que acabam sendo respondidas politicamente. É claro, existem muitas agências públicas e privadas que fazem estudos e sugerem decisões a serem tomadas, mas, no final, suas recomendações podem ser ignoradas pelos tiranos no poder. E mesmo que eles seguissem-nas, será que isso corrigiria alguma imperfeição? A resposta requer um pouco de entendimento econômico.

Uma reserva natural, por exemplo, é um bem que poderia ter usos alternativos, como um condomínio residencial. E isso será determinado pelo preço que as pessoas estariam dispostas a pagar por aquela reserva ou por outras reservas similarmente precificadas. O proprietário sabe quais ofertas podem ser feitas para sua reserva e ele pode aceitar tais ofertas comparando os benefícios que ele recebe hoje (taxas mais a satisfação psicológica de ser o dono e gerente da reserva) em relação àqueles que ele receberia ao vendê-la.

Mas enquanto o estado for o dono de todos esses ativos, e não quiser vendê-los, ninguém poderá se tornar ciente de potenciais usos alternativos; e mesmo se esses usos fossem conhecidos, o estado, ao manter essas propriedades (não as vendendo), está perpetuando uma estrutura de produção insensata. E ao manter essas reservas naturais através da tributação, o estado está amortizando um bem de capital que, de outra maneira, poderia ser lucrativo.

Um problema comum e atual com os parques nacionais é que eles estão se tornando continuamente mais abarrotados. Observe que esse problema não é tão extremo ou tão comum onde há propriedade privada e mercados em operação. Normalmente, supermercados abrem novas filas quando uma fila já está longa. Se há um aumento na demanda, eles abrem sucursais em outros locais. O mesmo ocorre com cada bem e serviço oferecidos no mercado por empreendedores concorrentes. É raro achar negócios extremamente ineficientes. Eles simplesmente não sobrevivem se os clientes não gostarem da qualidade dos serviços oferecidos. Ademais, mesmo se um negócio de alguma maneira permanecesse ineficiente (talvez sobrevivendo pelo gasto de capital) comparado aos seus concorrentes, não haveria nenhuma obrigação em patrociná-lo; poder-se-ia simplesmente recusar seus serviços. O mesmo não acontece com parques e reservas controlados pelo estado, onde a taxação é praticamente inevitável e é arriscado tentar escapar dela.

Eis a seguir apenas algumas idéias de como o mercado poderia lidar com a questão da lotação dos parques e reservas naturais: poder-se-ia, talvez, banir famílias e permitir apenas exploradores qualificados; ou talvez os proprietários estabeleceriam listas de espera ou filas prioritárias. Não é difícil imaginar que seriam cobradas taxas diferenciadas dependendo das atividades que os fregueses quisessem fazer enquanto estivessem visitando a reserva, ou do número de dias que ficassem por lá. Para as áreas mais frágeis, talvez o preço devesse ser maior do que o normal. Ou talvez o acesso pudesse ser gratuito, desde que certas regras fossem obedecidas. Incentivos privados, como comunidades de conservação da terra e contratos de longo prazo, poderiam ser usados para estabelecer normas tanto para zeladores como para visitantes.

Sabemos que muitas dessas propostas, se aplicadas em uma propriedade sob controle governamental, representariam um suicídio político simplesmente porque há a noção de que tais espaços devem estar sempre disponíveis a todos. Isso também pode ser verdade para os parques e reservas particulares, mas nesse caso a situação seria balanceada não por sanções políticas, mas pela ameaça de uma perda de valor do ativo. Se o proprietário fixar políticas que não agradem os clientes em potencial, o dano causado irá reduzir o valor da sua terra. Destarte, ele terá todo o interesse em satisfazer eficientemente os desejos dos clientes.

Devemos também enfatizar que o valor monetário não é o único fator em uma análise empreendedorial. Dedicação, prestígio e exclusividade também participam do jogo. Se é sabido que um proprietário não está sendo cuidadoso com sua propriedade, o valor de sua terra irá diminuir e todo esforço e dinheiro investidos estarão perdidos. Uma boa reputação tem um grande peso no estabelecimento de um indivíduo como um ambientalista profissional.

Desestatização da natureza

Existem várias objeções comuns que surgem sempre que a questão da privatização é levantada.

(A) Se permitirmos a privatização dos parques e reservas nacionais, como se pode garantir que eles continuarão a existir ou que eles sequer estarão disponíveis?

No mercado (ou, da mesma maneira, sob domínio governamental), não existe nada garantido. Em uma economia de mercado, existe a tendência de se igualar a oferta à demanda. Empreendedores descobrem desejos não atendidos, fornecem-nos e lucram em cima dessa lacuna. A única "garantia" de que haverá maçãs no longo prazo é que as pessoas ainda estarão demandando maçãs. À medida que os desejos forem mudando, empreendedores irão descobrir outras oportunidades e maneiras de satisfazer esses novos desejos.

Para aqueles que dizem que o mercado não pode garantir nada, o mesmo se aplica ao estado. Nesse caso, não há quaisquer garantias também. Pelo menos no livre mercado sabemos que se as pessoas valorizam suficientemente os parques, as reservas e as florestas, a busca por lucro por parte dos proprietários e empreendedores será direcionada à satisfação dessa meta. E como é que isso pode ser "garantido" pelo estado? Esperando que os ecologistas estejam no poder? Se fosse assim, teríamos que ter carpinteiros no poder se quiséssemos ter cadeiras; e para que tivéssemos computadores, analistas de sistemas e programadores teriam que chefiar o estado também. Como se vê, essa linha de raciocínio é ilógica.

Ademais, nunca devemos sucumbir ao desafio socialista de "como X funcionará sob um livre mercado?" É tentador tentar responder a essa pergunta. E parte do problema é que, se não há um mercado, então ninguém realmente foi capaz de tentar. Além disso, na ausência do socialismo, haveria competição para satisfazer as demandas não atendidas. Existiria uma multidão de pessoas para resolver problemas. As coisas passariam a ser reais, ao invés de simples teorizações acadêmicas. Se a produção de sapatos fosse feita nos moldes socialistas, estaríamos curiosos para saber como eles seriam produzidos, quem iria produzi-los e como eles seriam distribuídos. Quanto eles iriam custar? Quais as cores e tamanhos que seriam feitos? A proteção da natureza não é um serviço diferente. Ao invés de perguntar quem iria fazer tal serviço (no futuro), a pergunta correta é: por que é o estado que deve fazer isso (agora)?

Finalmente, há milhares de modelos de parque e reservas naturais que já são privados - desde country clubs até praias, passando por campos de golfe. A questão atual é qual o modelo que deve prevalecer. As respostas abundam; todo mundo tem uma idéia. E qual deveria ser seguida? Por quê? No livre mercado, essas questões são solucionadas pelos direitos de propriedade — quem quer que seja o dono, decide. Isso não prejudica ninguém, pois a propriedade foi obtida sem que ela tivesse sido tomada de alguém, e, alem do mais, em muitos casos o proprietário irá tentar lucrar escolhendo o plano que mais beneficie o consumidor.

Apesar de os governos ao redor do mundo controlarem grandes extensões de terra, há numerosos exemplos de atuais parques e reservas naturais particulares. Essas iniciativas deveriam servir como modelo de como a natureza pode ser preservada mais eficientemente e sem a necessidade de tributação.

(B) Não irão os proprietários danificar a terra, os animais, as plantas e outros recursos?

O raciocínio por detrás desse tipo de pergunta parece nunca se esvair. A premissa é que os proprietários são descuidados e abusivos, que eles não têm uma perspectiva de longo prazo para sua propriedade, e que são orientados exclusivamente para o presente. Se isso fosse correto, significaria que os proprietários estão apenas à procura de oportunidades de lucro imediato, de maneira que possam explorar seus recursos o mais rápido possível. Assim, ficaríamos sem nada e todo o planeta seria destruído. Felizmente, as coisas não são assim.

As pessoas valorizam, e muito, suas propriedades. Quando foi a última vez que vimos alguém queimar sua casa imediatamente após comprá-la? Por acaso as pessoas compram um carro já pensando em destruí-lo? Apenas os malucos, que são a completa exceção. Os proprietários, particularmente aqueles envolvidos com imóveis e com grandes projetos como esses em discussão, precisam investir recursos se quiserem obter alguma propriedade, como a terra. Além dessa enorme quantia de dinheiro gasta na aquisição, eles têm que contratar trabalhadores e administradores para cuidar da propriedade. Os proprietários valorizam não apenas o uso presente, mas também o uso futuro. Se eles forem negligentes com suas terras, seu valor futuro sofrerá um impacto.

Ainda duvidoso? Um artigo recente mostra que houve um aumento de 54% da conservação por parte das reservas naturais privadas desde 2000:

Na bifurcação do Rio Gila, no Novo México, a truta Gila, que está em extinção, está recebendo ajuda de proprietários de terras adjacentes que estão deixando de desenvolver 48.000 acres em várias comunidades de conservação de terras (land trusts). Essas áreas não serão usadas para qualquer tipo de expansão, justamente para assim protegerem as trutas e o seu habitat.

Ao mesmo tempo, nas margens de Chesapeake Bay, 206 propriedades que totalizam mais de 38.000 acres de um frágil estuário que serve de habitat para pássaros migratórios e para a vida marinha, como o esturjão do nariz pequeno, pararam de se expandir. Land trusts e a transferência de direitos de conservação foram utilizados como métodos legítimos para se atingir tal objetivo.

Tudo isso faz parte de um novo boom de conservação de terras privadas na qual os proprietários de terras voluntariamente abrem mão de seus direitos de desenvolver suas próprias terras — geralmente em troca de isenção tributária, mas também para salvar paisagens maltratadas que eles adoram.

Terras privadas separadas com o único intuito da conservação de espécies cresceram 54 por cento, de 24 milhões de acres para 37 milhões de acres — uma área maior que a região da Nova Inglaterra — entre 2000 e 2005, de acordo com um estudo recente da Land Tust Alliance, uma associação de instituições que trabalham conjuntamente — e que têm sua base em Washington — e que formam grupos locais, estaduais e nacionais para a conservação de terras.

Grupos nacionais como a The Nature Conservancy foram de extrema importância para estimular essa preservação. Mas os maiores estimuladores desse crescimento foram os land trusts (comunidades de conservação) locais e estaduais, cujas áreas protegidas dobraram de 6 milhões de acres em 2000 para 11,9 milhões de acres. Enquanto isso, a taxa à qual essas associações estavam poupando a terra triplicou para 1,2 milhões de acres por ano entre 2000 e 2005.

"As pessoas não estão sentadas esperando que um burocrata de Washington resolva o problema de algumas alamedas em seus próprios quintais — elas estão formando land trusts", diz Rand Wentworth, o presidente da aliança.

Esse é apenas um exemplo de como as pessoas estão gastando dinheiro para proteger as coisas que elas valorizam. Imagina quanto mais poderia ser feito sem tributação.

No final, se as pessoas valorizam muito suas visitas aos parques e às reservas naturais, elas estão dispostas a pagar por isso. Os benefícios de se ter acesso aos parques e reservas devem ser grandes, e assim se daria a capitalização destes.

(C) Não podemos permitir que animais tenham dono e que sejam comercializados como se fossem propriedade!

O problema é justamente a ausência de direitos de propriedade; o valor de espécies em extinção é efetivamente zero. O estado reivindicou o direito de ser o proprietário de certos animais e, assim, baniu seu comércio. Não existe um mercado para o urso polar ou para a águia americana. E mesmo que as pessoas valorizem esses animais devido à sua relativa escassez, não há uma maneira legítima de mostrar a demanda por esses animais no mercado. Imagine, por outro lado, se houvesse um mercado para espécies em extinção. Imediatamente, haveria incentivos para protegê-los. Poderia haver, apenas para citar um exemplo, um mercado saudável para a captura segura de animais de forma que eles pudessem ser devolvidos ao seu habitat natural ou mesmo a um zoológico.

O crente na proteção animal socialista poderia, nesse momento, alegar que sob o cenário de livre mercado nada iria impedir que as pessoas matassem animais que não tivessem donos ou que não fossem protegidos pelo governo. Essa seria uma afirmação verdadeira. Entretanto, em um livre mercado (e, em geral, em uma sociedade mais livre) considerar-se-ia invasão entrar na propriedade de alguém sem o consentimento dessa pessoa. Além disso, não há nada hoje que impeça alguém de matar espécies em extinção. Existem inúmeras leis contra homicídio e roubo, e no entanto eles continuam ocorrendo. Mas em um mercado de animais as pessoas em geral saberiam — assim como elas sabem que jóias, ouro e carros clássicos impõem um preço alto — que certas espécies valem muito mais dinheiro do que outras. Não é desarrazoado acreditar que elas iriam preferir proteger (talvez em troca de uma recompensa) aqueles animais do que ser totalmente indiferentes.

Há um notável exemplo do mercado em ação. No Quênia, grupos de conservação e as Nações Unidas pressionaram o governo para proibir o comércio de marfim. Após a proibição, entretanto, o número de elefantes continuou diminuindo devido às caças ilegais (que são difíceis e caras de se controlar). No Zimbábue e em Botswana, sendo em ambos permitida a caça de elefantes, o número de elefantes tem crescido a 5% ao ano. Durante os anos 1980, a população de elefantes quenianos caiu de 65 para 19 mil, ao passo que no Zimbábue a população cresceu de 30 para 40 mil.

Por que é que, mesmo que a gente coma milhões de frangos por dia, não estamos sofrendo de escassez desse produto? Porque eles têm valor e é de grande interesse dos produtores manter a população de frangos ao nível da demanda. É improvável que haja uma "crise de escassez de frangos".

(D) Estamos ficando sem terras! O que nos restará para proteger?FederalLandMap.jpg

Este mapa é interessante. Ele mostra a quantidade de terras apropriadas e expropriadas pelo governo federal americano. Vastas extensões de terras, particularmente o oeste das Rochosas, e grande parte do Alaska e de Nevada, estão sendo centralmente controladas por burocratas de Washington. Junte a isso os vários parques e florestas, locais e estaduais, e o cenário se torna claro. As mesmas pessoas que provocam guerras, que inflacionam nossa moeda, que tapam buracos, que regulam nossas vidas, que impõem restrições de comércio — essas são as mesmas pessoas que supostamente cuidam da natureza. Essa caricatura precisa ser desmascarada e liquidada imediatamente.

A privatização de terras do governo em todo o mundo abriria oportunidades consideráveis para um enorme número de exploradores, cientistas, conservacionistas, organizações comunitárias e empreendedores.

Conclusão

A mais instigante oposição à privatização apóia-se em questões como: quem fica com a terra? Como pode a privatização, se feita pelo estado, ser conduzida de maneira justa? Essas são inquietações válidas; dado que o estado opera dentro de meios políticos, qualquer iniciativa de privatização vai provavelmente favorecer organizações que tenham vínculos com o governo.

privateproperty2.jpgEsse problema aparentemente intransponível é em si o produto do controle governamental dos recursos, e não uma falha do mercado ou dos empreendedores em geral. Talvez não haja um método que seja o melhor para devolver a propriedade aos seus donos de direito.[1] Entretanto, esteja certo de que quanto menos estado tivermos, melhor será para a liberdade. Portanto, qualquer iniciativa (tal como secessão, descentralização, desregulamentação, ou abolição) que nos leve para perto da meta — e ao objetivo de desestatizar a natureza — é uma boa iniciativa.

O caso que acabei de apresentar é um razoavelmente simples: a abolição de parques, florestas e reservas ambientais governamentais. Somente com um livre mercado é possível ter uma política sensata que estimule os necessários mecanismos de lucros e prejuízos — que é o que molda o cálculo econômico empreendedorial. Se amamos a natureza e queremos preservá-la, é necessário haver genuínos direitos de propriedades.

Belos recursos naturais são uma bênção. Não podemos permitir que o estado trate deles com desdém, empregando métodos ineficientes e antiéticos. A proteção da natureza não pode ser deixada para o socialismo. Não compete ao estado cuidar de plantas e animais. Aliás, não compete ao estado fazer absolutamente nada.



Nota

[1] De fato, há algumas dificuldades em como uma propriedade em particular deve ser desestatizada. Conquanto complexas, essas questões representam meramente um problema logístico e técnico, e não um problema econômico ou ético. Muitos autores, como Rothbard e Hoppe (veja seu "On Socialism and Desocialization" do livro "Democracy: The God That Failed") já propuseram diretrizes sobre como desestatizar propriedades controladas pelo estado. Organizações ambientalistas pró-livre mercado, como a PERC e The Commons também oferecem um bom número de artigos e livros sobre como salvar a natureza através dos direitos de propriedade.

Manuel Lora é um produtor de multimídia da Cornell University.

Tradução de Leandro Augusto Gomes Roque



69 comentários
69 comentários
Bruno Lopes 20/01/2011 20:45:58

Sou libertário, mas ainda não estou convencido que o livre mercado funcionaria de maneira satisfatória para preservar o meio ambiente. Nem estou dizendo que a solução estatal é satisfatória, mas, honestamente, vejo muitissímas brechas, algumas me parecem incorrigíveis, na solução anarco-capitalista. Pede-se muito para acreditar que tudo dará certo, e foi exatamente isso que me afastou da tara por controle estatal.\r
\r
O lado positivo do libertarianismo é que ele coloca a propriedade (liberdade) acima de tudo, e isso cria um sistema de confronto de interesses que tem potencial para equilibrar tudo da forma mais justa possível, o problema é que o meio-ambiente, em muitos aspectos, foge dessa lógica inerente a tudo, porque o que chamamos de meio-ambiente não é propriedade. Mas só por isso seria aceitável que petroleiros despejassem seus dejetos em qualquer lugar não-tomado? Esse é só um exemplo, bem comum e factível, poderia citar muitos outros.\r
\r
E por favor não me falem de tort laws, conheço-as. Me refiro mais à cenários onde o cálculo de prejuízo é praticamente impossível.\r
\r
Para mim o meio-ambiente é uma pedra no nosso sapato. E uma das razões pelas quais eu não sou anarco-capitalista.

Responder
Fernando Chiocca 20/01/2011 21:56:15

Nào tem brecha alguma Bruno, acho que você que está deixando de considerar que a primeira propriedade é a auto-propriedade, a propriedade sobre o próprio corpo, ou seja, defender a propriedade é, acima de tudo defender a vida das pessoas e o que as afeta diretamente de ataques de terceiros.

Sobre o despejo de petróleo numa área sem dono, se ela não afetar a propriedade de outros, e daí? Seria até bom para a vida marinha:


Petróleo de vazamento entra na alimentação de espécies marinhas


Não há risco no consumo desses animais, porém, diz cientista

Patrick Semansky/Associated Press

Caranguejo coberto de óleo em área próxima ao vazamento de petróleo, na costa dos EUA

DA ASSOCIATED PRESS

Cientistas dizem ter rastreado pela primeira vez a rápida incorporação de alguns elementos não tóxicos do vazamento da plataforma da BP, no Golfo do México, à dieta dos plânctons.
Ao virar alimento para esses micro-organismos, que são a base da cadeia alimentar da vida marinha, os resíduos do vazamento se espalharam por diversos animais.
Como os plânctons são realmente muito pequenos, os cientistas decidiram mapear as substâncias através de um indicador simples de controlar: a proporção dos diferentes tipos de carbono em micróbios e plânctons próximos à mancha de óleo do vazamento.
Essa proporção importante aumentou 20%, mostrando a presença de petróleo na cadeia alimentar.
Apesar disso, o líder da pesquisa publicada na "Environmental Research Letters", William Graham, do Laboratório de Vida Marinha de Dauphin Island (EUA), disse não haver indícios de que plânctons, peixes que deles se alimentam ou pessoas que comem frutos do mar estejam em risco.
Segundo ele, trata-se apenas de um marcador biológico que mostra o percurso do carbono derivado do vazamento na cadeia alimentar.


Não há brechas, se pesquisar mais vai poder constatar isso. Pode começar por
aqui

Depois pode citar "os muitos outros exemplos" que você tem.

Responder
Silvio 27/09/2011 00:48:39

Supondo que realmente exista o famoso "aquecimento global" causado pelos gases de efeito estufa, supondo que vivamos numa sociedade sem estado e portanto sem regulamentações. Como o planeta sobreviveria a esse "aquecimento global" sabendo que esse processo ocasionaria um aumento no custo dos bens e portanto diminuiria o lucros das empresas?

Responder
Fernando Chiocca 27/09/2011 01:04:09

Planeta sobreviver?? De que está falando? O Planeta não tem vida e vai estar ai por bilhões de anos, seja lá o que a poerinha na superfície dele chamada humanidade fizer.

E o que ficará mais caro se essa estupidez engana trouxa chamada aquecimento global fosse verdade? Na realidade, são as açoes para combater o que nao existe que deixam e querem deixar bem mais as coisas mais caras.. E se o mundo esquentasse, isso traria muitas vantagens, como, por exemplo, para a produção de alimentos.

Responder
Rhyan 27/09/2011 01:09:18

Óbvio que existe Aquecimento Global e é óbvio que ele vai causar danos. A solução será, como sempre, o livre mercado para reduzir danos.

Responder
anônimo 20/01/2011 21:05:52

"Defendo algo de cujo funcionamento não estou convencido"...?

Responder
anônimo 25/01/2011 23:29:14

Parece que o Instituto Mises não prega a liberdade para todos, hehe.

Os animais ficam aonde nesta historia?

Responder
Fernando Chiocca 26/01/2011 00:10:06

Alguns animais são bem vindos no meu estomago. hehehe

Os "direitos" dos animais

Responder
vioid 26/01/2011 00:17:24

Você na sua casa.

Responder
vioid 26/01/2011 00:19:18

A menos que não seja sua vontade, claro. :P

Responder
Andre Luis 26/01/2011 02:43:17

A vaca não foi extinta, ainda, por ser útil. Idem o cavalo (apesas das motos e do fim das carruagens) e uma série de outros animais. Agora o tatu, não muito apreciado nem criado com fins comerciais, está indo para a glória. A ararinha azul sei-lá-de-onde já virou história... Pena que um capitalista imundo não resolveu explora-lá comercialmente, talvez a tivesse protegido, coisa que o estado não fez - nem nunca fará.

Responder
Silvio 27/09/2011 00:44:37

Quer dizer que tudo que não tenha valor econômico vai ser extinto com o tempo?

Responder
Fernando Chiocca 27/09/2011 14:57:21

Deus te ouça. Quem dera que pernilongos fossem extintos.

Responder
Augusto 27/09/2011 06:49:43

uma vez eu disse isso para uma ambientalista: se comessemos carne de papagaio, nao faltaria papagaio no mundo. ninguem fica surpreso de saber que nunca mais conversamos.

Responder
void 26/01/2011 01:02:05

Direito animal: images.orkut.com/orkut/photos/OgAAAHnOeSAQvS8Pc77cio7T1DkOHuntFYDNRgfw3bTfHpM5kVj4anXnBUPBZe8NjTIz7bcDEiQKBpVl2KjDudj2bfgAm1T1UPNufTIjvn-mFKT7CGfkYTaIb52f.jpg

Responder
Andre Luis 26/01/2011 02:53:52

Quando o governo estabelece regulamentos para proteger a natureza, em verdade a está expropriando, tornando-a bens públicos. Daí porque um fazendeiro, se mata uma onça que lhe está matando as ovelhas - que produzem leite e carne para animais racionais - passa a ser caçado pelo Ibama, MP e sabe-se lá mais quem.

Ao tornar pública a natureza, o estado apropria-se a riqueza representada por esses animais, pois se avoca, por meio de licenças, a permitir sua captura caça criação em cativeiro etc.

Pior que isto é que, pós 89, os comunas perceberam que poderiam se utilizar da onde verde para reimplantar uma agenda comuna. Afinal, proteger o meio ambiente de empresários gananciosos é assegurar os direitos das futuras geraçoes.

Mas os defensores da igualdade e da mais valia se esquecem que futuras geraçoes, algo em torno de 150 milhoes de pessoas (suspeito que bem mais, fui economico por preguiça de achar referência exata as 03am), foram eliminadas da existência nos gulags siberianos, chineses, cambojanos etc.

Enfim, os famigerados e nocivos capitalistas já demonstram que são mais capazes e hábeis que o Big Brother para proteger o meio ambiente que, afinal, contém parte do insumo de sua produção. Contudo, o estado, que tende a maximização, apoiados pelos novos comunas (os verdes), não se rendem a realidade.

Pelos verdes mais ortodoxos, o padrão de vida ideal seria vivermos na idade da pedra, feito ianomamis, com uma expectativa de vida de 40 anos. Às favas. O meu ao ponto, garçon.

Responder
mcmoraes 19/03/2011 16:47:34

Eu sempre desconfiei que a cerveja ia salvar o mundo ;)
Rob Harmon: How the market can keep streams flowing

Responder
zard 17/11/2011 18:32:28

E o ar? E a água? Seriam privatizados também? Como seria a administração do ar pelo proprietário :p?
E mesmo que vocês queiram ignorar o aquecimento global chamando de farsa (sendo que existem centenas de estudos que provam o efeito estufa), não é só esse o problema.A água é finita e a simples poluição do ar prejudica as vias respiratórias e pode causar problemas gravíssimos.

Responder
Luis Almeida 17/11/2011 18:40:00

A água é finita? Sim, claro que é. Ela é escassa? De jeito nenhum. Algo que ocupa ¾ da terra e literalmente cai do ar não tem a mínima chance de acabar durante o próximo milênio.

Já o aquecimento global realmente existiu. Há 120.000 anos. Naquela época, hipopótamos viviam nos rios Reno e Tâmisa, e a Europa tinha uma espécie de "aparência africana".

Dali em diante, quando as temperaturas começaram a cair, as geleiras se moveram continuamente na direção sul, e o nível do mar na Europa diminuiu em mais de 100 metros. Os rios Tâmisa e Elba se tornaram afluentes do Reno, antes de este passar a correr até o Mar do Norte e dali para o Atlântico. Quando este período terminou, muito abruptamente, há aproximadamente 12.000 anos, as geleiras rapidamente retornaram e o nível do mar subiu, não apenas milímetros por ano, mas sim muito rapidamente, quase que como um dilúvio. Em um curto espaço de tempo, a Inglaterra e a Irlanda, que até então eram ligadas ao continente europeu, se tornaram ilhas. Foi assim que o Mar Báltico e grande parte do atual Mar do Norte surgiram.

Do mesmo modo, grande parte do que hoje é o Golfo Pérsico passou a existir apenas naquela época.

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1037#Parte1


Ou seja, quando a Europa voltar a ter uma aparência africana, aí sim a gente pode pensar em aquecimento global.

Responder
anônimo 17/11/2011 18:44:26

Zard, o fluxo de água num rio é constante, certo? Logo, pelo sua ironia, o rio que passa em frente a uma propriedade não seria do dono da casa. Portanto, uma indústria estaria livre para poluí-lo. Correto? Sabemos que não.

Para o ar, funcionaria o mesmo princípio. Primeiro, qualquer um teria todo o direito de modificar o ar sobre sua propriedade como quisesse, desde que essa poluição não se espalhasse para o ar alheio. Bom, mas isso seria uma impossibilidade por causa do fluxo de ar. Logo, teria de haver uma maneira de impedir que essas emissões chegassem ao ar alheio. E isso é problema para engenheiros. É lógico que o mercado criaria o aparato específico: pode-se, por exemplo, coletar as emissões em grandes recipientes ou simplesmente criar maneiras de converter as emissões em vapor d'água, o que aliviaria o problema.

Haveria sem dúvida alguma maneira de impedir o agravamento da poluição. E sabemos que, se houver demanda e incentivo, haverá solução. E o fato é que as emissões seriam significativamente reduzidas em um livre mercado, onde os indivíduos que emitem poluentes estariam sujeitos a ação judicial. A solução de livre mercado é baseada no cálculo racional; a solução estatal é baseada na permissão da poluição para aqueles com boas conexões políticas. Qual é a que queremos?

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Henrique Mareze 18/09/2012 11:38:32

A última frase é a melhor hehehe...

Responder
JoaoB 01/01/2013 22:19:41

Ainda nao entendi..considero me libertario mas esta dificil ver como presevar as florestas como propriedade privada...o seus donos nao queimariam tudo para transfromar em pasto e depois em plantacao de soja? Ate pq um pasto com animais vale muito mais do que um matagal, certo?

A tese de que e possivel a floresta em pe valer mais do que "deitada" ainda precisa ser demonstrada, ou nao?
Onde esta o erro no meu raciocinio??

Procurei artgos no site von Mises e nao achei algo ilustrativo

Joao


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Jonathan Madurkas 02/01/2013 02:30:32

Isso não faz sentido. Para começar, não é em qualquer terreno que você pode plantar soja frutiferamente. Tampouco um terreno queimado e desmatado seria propenso ao plantio de soja.

Seria muito mais negócio o proprietário arrendar sua terra para a exploração de madeireiras. Lembre-se que o incentivo para se conservar é uma característica inerente à estrutura de incentivos criada pelo mercado. O mesmo é válido para o incentivo de se preservar todas as coisas de valor. A responsabilidade pelos danos à propriedade alheia tem de ser arcado pelo indivíduo que causou o estrago. Propriedade comunal do ambiente, como existe hoje, não é a solução.

Dado que as florestas, por exemplo, não são geridas privadamente, a meta de se conseguir uma administração racional e "verde" sempre será enganosa. Somente quando uma terra tem dono é que este possui vários incentivos para cuidar muito bem dela. Sua preocupação é com a produtividade de longo prazo. Assim, caso ele decida, por exemplo, arrendá-la para uma madeireira, ele vai permitir a derrubada de um número limitado de árvores, pois não apenas terá de replantar todas as que ceifou, como também terá de deixar um número suficiente para a safra do próximo ano.

No entanto, mesmo que a preferência pelo plantio de soja fosse definitiva, tal ato seria meramente uma preferência demonstrada pelo proprietário do terreno, a qual lhe agregaria valor econômico. Sendo assim, caberia a você explicar por que a floresta em pé, sem nenhum uso, valeria mais do que ela "deitada", quando sua finalidade econômica foi claramente demonstrada.

Por fim, nada impediria que grupos "verdes e ecologicamente conscientes" comprassem várias florestas e impedissem que as mesmas fossem tocadas. Garanto que dinheiro para isso é o que não falta (as ONGs verdes e seus movimentos são dos mais bem financiados do mundo).

Responder
Gustavo BNG 02/01/2013 03:05:48

o seus donos nao queimariam tudo para transfromar em pasto e depois em plantacao de soja?

É possível, sim. Mas por que os proprietários deveriam ser obrigados (legalmente) a manter a floresta em pé?

Responder
Tiago RC 02/01/2013 21:09:20

A tese de que e possivel a floresta em pe valer mais do que "deitada" ainda precisa ser demonstrada, ou nao?

Depende. Muitas pessoas gostam de áreas verdes. Florestas também podem ter outras utilidades (exploração da madeira, espaços para caça esportiva, parques, turismo etc).

Mas é fato que, no longo prazo, uma selva gigantesca como a Amazônia provavelmente não continuaria enorme do jeito que é hoje. Não faz sentido aquele espaço colossal não ser usado pra nada. Uma boa parte da Amazônia ainda será tombada, e isso por si só não é algo ruim. É algo que pode beneficiar a humanidade. Veja a Mata Atlântica por ex. Mais de 80% se não me engano já caiu, mas o que resta continua sendo suficiente pra todas as atividades que mencionei acima (por ex., eu curto eco-turismo, tipo cachoeiras, cavernas etc, e quando vivia em SP não precisava viajar pra muito longe para encontrar lugares legais). E mais importante: as pessoas que vivem nesse espaço antes ocupado pela mata atlântica estão em geral muito melhor de vida do que as que vivem na amazônia.

Responder
Charles 24/01/2013 16:57:18

essa é a única idéia do anarco-capitalismo que não me desceu...

eu moro em santa catarina, em camboriú... aqui perto existe um hotel chamado itapema plaza...

esse hotel ''privatizou'' uma praia só pra ele e impede o acesso de moradores da própria cidade, a praia é só para os clientes do hotel...

isso poderia ocorrer naturalmente no anarco-capitalismo... já ocorre hoje em dia, acho que no anarco-capitalismo ocorreria muito mais!

Responder
anônimo 24/01/2013 17:02:22

E como está o estado de conservação da praia?

Responder
Charles 25/01/2013 21:02:11

óbvio que é boa... mas de que adianta a praia ser boa se pra ter acesso a ela eu serei obrigado a pagar uma diária de um hotel as vezes mesmo morando na própria cidade litorânea(algo sem nexo)...

claro que eu penso que no anarco-capitalismo, não seriam todas as praias privatizadas desta maneira (assim como na democracia), mas isso iria virar moda!

imagina quantos donos de hotéis, condomínios fechados, construtoras, não iriam querer se apossar da praia e dar acesso apenas aos clientes ou moradores (nos casos de hotéis ou condomínios fechados)?

é óbvio que no anarco-capitalismo não teria o estado para proteger o tal hotel!
mas mesmo assim se eu e um grupo de pessoas que se indignam ao ver uma praia restrita a clientes de um hotel (caríssimo por sinal) resolverem atacar esse hotel gerando assim uma espécie de guerra?

de acordo com a justiça anarco-capitalista os donos de hoteis ou condomínios fechados (que no caso não quer dar acesso á praia nem para os moradores do local) estariam corretos em fazer o que quiser com a sua propriedade!

Responder
Marcio 25/01/2013 23:59:15

Não há absolutamente nada de errado aí. A praia em frente ao hotel não tinha dono e nem nunca teve dono. Você não construiu aquela praia ali com seus impostos. Seus impostos nunca foram coletados para ir para a "manutenção" daquela praia. Aquele trecho da praia nunca teve dono. Aquele trecho nunca foi sua. Você nunca teve algo como um "direito" de ir a um determinado ponto específico da praia.

A praia sofreu aquilo que pode ser chamado de "apropriação original" pelo hotel. Ou, no popular, um usucapião. O hotel assumiu o controle de uma ínfima fração de toda a praia e está cuidando dela. E, como você mesmo disse, cuida muito bem.

Você continua podendo ir para as outras partes da praia, menos para aquela ínfima fração que agora é do hotel. O que você quer é almoço grátis.

Responder
anônimo 26/01/2013 13:24:35

não cara! eu não quero almoço grátis... agora todas as pessoas que querem ir a uma praia que seja mais calma, sem orla grande e afastada gratuitamente quer almoço grátis? quer dizer então que nesse seu pensamento, você não poderia entrar em nenhum ambiente natural sem ter que desembolsar uma grana?

existem praias afastadas como a praia grossa em itapema (nessa cidade já virou moda privatizar praias afastadas) que estão querendo construir um condomínio fechado e não liberar mais o acesso a pessoas de fora do condomínio...

eu já fui muitas vezes nessa praia, é uma praia linda por sinal, praticamente intocada, sem nenhum comércio na volta, e é desse tipo de praia que eu gosto! porém daqui uns anos meu acesso a ela vai estar bloqueado e os únicos que irão usufruiu dela serão os novos moradores do local...

eu entendi o que o outro cara falou sobre ficar mais barato as praias com a concorrencia... mas e quanto a um condominio fechado? como fica? o condomínio fechado não pensa em lucrar com a praia (a não ser é claro vendendo imóveis a um custo elevadíssimo)... eu não quero comprar (e nem posso) uma casa em um condomínio de luxo só para poder ter acesso a uma praia que eu gosto de ir...


essa visão de limitar o acesso das pessoas a um ambiente natural como a praia, é um ato de extremo egoísmo e ganância...

posso concordar com quase todas as outras idéias anarco-capitalistas, mas isso não me cheirou bem...

Responder
Erick V. 26/01/2013 02:41:54

Para quem disse que concorda com as ideias anarcocapitalistas, não dá pra entender o que exatamente você viu de errado com essa questão. Afinal, não é porque você gosta da praia que ela deixa de ser um bem econômico como qualquer outro, passível de ser apropriado por quem quer que a ele misture seu trabalho.

Em um sistema anarcocapitalista, provavelmente ocorreria exatamente isso que você descreveu – donos de hotéis e condomínios se apossando de trechos praianos e limitando o ingresso a hóspedes, moradores e a quem mais pagasse. Ótimo: como você mesmo deve ter percebido, tais trechos seriam muito mais bem conservados nesse arranjo. Mesmo a cobrança de um ingresso não seria algo lá muito incômodo: praia é algo que tem de monte por aí, e a livre concorrência acabaria rapidinho com qualquer "preço abusivo". E sempre haveria a possibilidade de alguém se apropriar de uma praia, liberar completamente o acesso ao público e procurar lucrar de outras formas que não a cobrança de ingressos (bares, aluguel de itens como barracas ou pranchas, etc.). Essa é a beleza do livre mercado.

Aliás, seu comentário deixa de considerar que atualmente existem praias belíssimas cujo acesso é completamente bloqueado pelo estado, sob a bizarra desculpa de que se trata de uma "reserva", "parque" ou coisa do gênero. E, entre pagar a diária de um resort e a propina de um funça, eu prefiro a primeira opção.

Por fim, e fazendo um adendo de que me esqueci no meu comentário anterior (que pela configuração do site deve estar abaixo deste aqui): uma questão interessante é saber como exatamente os proprietários desse resort conseguiram "isolar" o acesso à praia em questão – a qual, por força de lei é considerada um bem público inalienável e blábláblá. Em se tratando de uma região densamente povoada de um país onde o estado controla tudo, com certeza não foi por apropriação original. A coisa tem cara de favorecimento político...

Responder
Erick V. 24/01/2013 17:29:11

Ótima iniciativa, com certeza é um exemplo a ser seguido. Se o tal hotel realmente se preocupa com os lucros, com certeza fornece a seus hóspedes uma praia sem carros de som, sem vendedores chatos de sorvete e água de coco, sem lixo e sem merda de cachorro. Valeu pela dica, estava precisando mesmo de algum lugar para curtir o carnaval...

Só é uma pena que, pelo que eu me lembre (posso estar errado, faz uns 3 anos que não desço para o litoral de SC), Itapema não seja um primor de saneamento básico, e tenha muito esgoto sendo jogado na praia. Isso com certeza prejudica um pouco a estadia nesse resort. Mas aí a culpa é do estado, da estatal CASAN e da concessão monopolística desse serviço...

Responder
anônimo 26/01/2013 08:43:07

Quem foi que disse que a praia na frente do hotel não tinha dono?
Provavelmente muita gente andava por ali e 'misturava seu trabalho' com ela bem antes do dono do hotel chegar lá e construir o hotel
Não sei de onde vcs tiraram que num mundo ancap a praia ia ser dele

Responder
Ricardo 26/01/2013 10:34:13

Se alguém já havia misturado seu trabalho à praia local, cadê o resultado? Cadê as construções? Apenas chegar ali e dizer "cheguei primeiro, é meu!" não é misturar seu trabalho ao local. Tem de haver resultados tangíveis para se declarar um terreno sem dono sua propriedade.

Responder
anônimo 26/01/2013 11:53:04

Ah tem é? Quem foi que disse? O problema do 'misturar com trabalho' é justamente esse, um conceito vago e impreciso.
Robinson Crusoé pode ter usado a praia dele pra pescar, pra tirar côcos, pra amarrar seu barco na pedra...tudo isso o dono do hotel pode chegar e falar que ele não fez nada

Responder
anônimo 26/01/2013 11:59:11

Já venho a esse site há muito tempo, nunca vi essa história de que 'misturar com trabalho' TEM que ser algo que altere o visual daquilo. Então se eu acho um diamante, e não quero mudar ele em nada, ele não é meu? BS.

Responder
Ricardo 26/01/2013 12:26:42

Não é "alterar o visual". É ter produzido algo naquele ambiente. Você chegar a um terreno baldio e dizer "é meu!", mas não ter feito nada nele, não ter produzido nada, não ter genuinamente "misturado seu trabalho àquela terra" não lhe garante direito de propriedade algum sobre aquele terreno baldio.

No entanto, pelo bem da discussão, suponhamos que tal medida -- a do chegar primeiro -- de fato fosse definidora dos direitos de propriedade. Sendo assim, pergunto: quem se apropriou daquela praia? Pelo que entendo, quem mais trabalhou aquele pedaço de areia foi justamente o hotel (suas pessoas) em frente a ele.

Responder
anônimo 26/01/2013 14:57:46

'não é alterar o visual, é ter produzido algo naquele ambiente'

Não mudou nada. Um pescador que usava a praia para deixar o barco dele lá estava produzindo algo usando aquela terra.
E na analogia com achar um diamante, se eu acho e não 'produzo nada' com ele, então ele não é meu?

Responder
Ali Baba 26/01/2013 12:14:31

é óbvio que no anarco-capitalismo não teria o estado para proteger o tal hotel!
mas mesmo assim se eu e um grupo de pessoas que se indignam ao ver uma praia restrita a clientes de um hotel (caríssimo por sinal) resolverem atacar esse hotel gerando assim uma espécie de guerra?


Parece que você está preocupado que, em uma sociedade ancap, diversos hotéis simplesmente se apropriassem de toda a faixa litorânea e combrassem um valor absurdo para que as pessoas tivessem acesso a ela.

Antes de prosseguir, pense na impraticalidade disso... É muito pouco provável que toda a faixa litorânea seja tomada. Mas não precisamos falar dessa impraticalidade aqui... vamos apenas presumir que de fato não exista um grão de areia não-privatizada na faixa litorânea brasileira.

A concorrência entre os diversos donos de hotéis pela clientela provavelmente faria o preço de todos baixar. É bem provável que o tal hotel que você citou cobre muito caro por que ele é exclusivo. Só ele (e uma meia dúzia como ele) podem oferecer uma praia privada, sem carros de som, sem vendodores ambulantes e sem cocô de cachorro. Então, o hotel está, na realidade, se beneficiando do status quo. Se ele tivesse concorrência, seu preço não seria tão caro.

Se toda a faixa litorânea fosse coberta por empreendimentos privados como hotéis, restaurantes, bares, danceterias, clubes, o mais provável é que o acesso a faixa litorânea fosse franqueada como parte do acesso aos serviços daquele empreendimento e fosse, de fato, gratuíta (uma vez que a concorrência a tornou bem menos escassa). Na prática, muitos empreendimentos, como forma de atrair clientes, poderiam oferecer acesso a sua faixa de praia privativa de graça, sem exigir o consumo de seus serviços, apenas pela oportunidade de ofertá-los aos que estiverem tomando banho-de-sol. Pense em vendedores ambulantes e retire toda a chatice dos mesmos, afinal de contas os vendedores atuais têm o direito de te importunar pq a praia é pública, ao passo que os vendedores de tais empreendimentos não querem te importunar de forma que você vá embora e escolha o concorrente.

Além disso, pela oportunidade de ofertar serviços aos clientes, é provável que os empreendimentos mantivessem as praias impecáveis, do contrário seus clientes iriam para a concorrência. Isso vai ainda mais longe: uma petroleira que derramar óleo na praia de algum empreendedor vai, com certeza, enfrentar um grande processo e pagar muitos milhões a título de compensação a esse empreendedor (e certamente pensar duas vezes antes de deixar algo assim acontecer novamente), ao contrário das risíveis e muitas vezes nem cobradas multas que o estado leva a cabo atualmente (afinal de contas, as petroleiras são amigas do estado - e a Petrobrás então, é propriedade do estado, certo?).

Se você começa a pensar tentando deixar de lado toda a tralha estadista a qual estamos acostumados e que faz parte da formação forçada a que fomos submetidos durante a maior parte da nossa vida... realmente pensar do zero... vai ver que o status quo é provavelmente o pior arranjo possível para o litoral.

Realmente se livrando desses preconceitos pró-estado, você vai perceber que a propriedade privada é um arranjo muito melhor para todos. Afinal, se você mencionou o tal hotel e principalmente, mencionou que o mesmo é caríssimo, é por que, no fundo, se o preço do tal não fosse tão caro, você preferiria estar nele e não na praia pública. Adivinhe: a propriedade privada do litoral pode trazer o preço do tal hotel para valores que todos nós possamos pagar por virtude da concorrência! Já estou até com vontade de dar um mergulho! Você não?

Responder
Renato Souza 26/01/2013 12:36:49

Não vejo o menor sentido em privatizar algo que é de uso geral. Um bem que é usado livremente pelas pessoas que vivem numa determinanda região, e sobre o qual ninguém reinvindica a propriedade, ser simplesmente apropriado por alguém, sem que os que o utilizavam tenham direito nenhum, isso não me parece justo.

Como não sou ancap, sinto-me bastante livre para fazer críticas ao que certos ancaps dizem.

Responder
Ali Baba 26/01/2013 14:44:52

@Renato Souza,

Não vejo o menor sentido em privatizar algo que é de uso geral. Um bem que é usado livremente pelas pessoas que vivem numa determinanda região, e sobre o qual ninguém reinvindica a propriedade, ser simplesmente apropriado por alguém, sem que os que o utilizavam tenham direito nenhum, isso não me parece justo.

Nem é isso que estava em discussão. Mas já que você tocou no assunto, vamos lá...

Em uma sociedade ancap baseada no princípio da não-agressão e da lei natural (redundância, podemos chamar isso simplesmente de sociedade ancap), um empreendimento só tem direito a uma propriedade (por exemplo, uma faixa litorânea) a que misturar o seu trabalho. Se outras pessoas estão misturando o seu trabalho a mesma área (por exemplo, vendedores ambulantes versus um hotel), surge um conflito de propriedade, a ser arbitrado pelos juízes privados em comum acordo com ambas as partes.

Os juízes privados escolhidos de comum acordo e agindo conforme a lei natural vão perceber que ambas as partes têm direitos de propriedade sobre aquela faixa litorânea, uma vez que ambas misturam o seu trabalho a ela, e acordos de compensações podem ser negociados. O hotel pode pagar uma idenização aos vendedores ambulantes, por exemplo, ou pode ser requerido que o hotel os contrate.

Agora, você, que é um mero visitante da área litorânea e não mistura o seu trabalho a ela não tem direito algum a seu uso. Você pode requerer o uso da área e ser cobrado uma compensação financeira por isso (uma taxa para frequentar a praia). Aí entra toda a discussão de antes que, se isso fosse universal e todas as faixas litorâneas fossem privadas, o mais provável é que essa taxa desaparecesse.

Como você não é ancap, pode estar se sentindo ultrajado por ser cobrado uma compensação financeira para a utilização da praia. Mas pense no status quo: você é cobrado pela utilização da praia pública de qualquer forma (a menos que seja um sonegador de impostos). Você acha que a praia pública fica limpa pela mera imposição das mãos ou pelo desejo mágico e o estalar de dedos? A prefeitura paga pelos serviços de limpeza da praia e você paga impostos a prefeitura, logo você já paga uma taxa pela utilização da praia, só que com outro nome. Mas pior que isso, você paga essa taxa mesmo quando não utiliza a praia! Não seria mais lógico simplesmente pagar uma compensação financeira para o dono privado da praia toda vez que a utilizar do que pagar impostos para o dono público da praia mesmo quando você não a utiliza?

(Percebeu que eu usei as expressões "dono privado" e "dono público"? Isso por que não existe praia sem dono... o estado é o dono das praias no Brasil por força de lei... Então não existe esse negócio de terra sem-dono de uso coletivo. Ser ancap significa preferir que a propriedade esteja nas mãos de pessoas e empresas, e não nas mãos do Leviatã do estado).

O único arranjo possível para frequentar a praia gratuitamente é o modelo ancap que mencionei antes. No status quo, você está pagando, embora se esforce para não saber disso. (E em uma pequena digressão da nossa discussão: dá quase para sentir as vibrações de anos de doutrinação estadista no seu comentário... por favor, não se ofenda... apenas abra um pouco a sua mente e tente livrar-se desses grilhões. Eu sei... eu já estive preso a eles).

Responder
Renato Souza 26/01/2013 16:24:01

Ali Baba

Busco conhecer o direito natural de várias fórmas. Entre elas, busco entender como diferentes sociedades, particularmente aquelas menos influenciadas pelas ideologia modernas, entendiam os direitos.

Primeiro, quanto à limpeza da praia. Áreas urbanas tem esse problema. A maior parte da extensão litonânea não é limpa por ninguém, nem precisa disso. Nocaso de prais muito frequentadas, particularmente as mais urbanas, poderiam ser comparadas às ruas, e a discutirei dentro desse critério.

Pensemos numa sociedade tribal, num lugar onde não exista um estado central controlando tudo. Como as pessoas entendem a "propriedade"? Em primeiro lugar, o local da tribo, e as áreas selvagens à sua volta, são considerados territórios da tribo, como se fossem um condomínio de todos os seus membros. Há rixas e desconfianças entre as tribos, simplesmente pelo fato da produção de alimentos ser um fator limitante para o crescimento natural da população. Há disputas de territórios. Uma pessoa que esteja num território de outra tribo será considerado um extrangeiro. Algumas tribos deixarão passagem franca a pessoas que não pareçam uma ameaça. Outras discretamente acompanharão os estrangeiros, para ter certeza de que vão embora logo. Algumas poucas simplesmente matarão qualquer extrangeiro que adentre seus territórios, e normalmene serão consideradas por outras tribos como excessivamente violentas. Havia mais de uma tribo aqui no Brasil que eram conhecidas por isso.

Embora hava a "propriedade comum" (o equivalente ao nosso condomínio), há normalmente propriedade particular dentro desse condomínio. A cabana, oca ou tenda de um homem não deve ser violada. O fato de ser uma tribo nômade ou sedentária não muda isso. Se for uma tribo semi-nômade, quando eles desmontam suas moradias, o terreno onde estava a moradia de um certo homem deixa de ser o local inviolável de sua residência e torna-se novamente terra comum da tribo. Se for uma tribo inteiramente nômade, torna-se terra livre, e não será considerado ofensa se mais tarde a moradia de outra pessoa, membro de outra tribo, estiver lá. Os apetrecho de uma pessoanão podem ser tomados sem sua permissão. Se na área considerada da tribo, houver um riacho, e um homem sozinho montar uma armadilha para peixes lá, essa armadilha será considerada propriedade dele, e outra pessoa que pegue esses peixes será ladrão. Se as pessoas montaram armadilhas juntos, elas são propriedade de todos, e todos coletarão os peixes juntos. Roças que forem plantadas em conjunto, são bens da tribo. Roças que forem plantadas por uma pessoa, são propriedade dela, e outro que colher lá é ladrão. Quando tribos são sedentárias normalmente a terra é dividida entre as famílias, e cada um tem permanentemente a sua terra. Mas o território da tribo continua sendo entendido como um condomínio. Estrangeiros podem ser expulsos de lá pelo conjunto da tribo, ou por um seu representante que todos entendam ter autoridade para tal. Mesmo as áreas que não são propriedade particular de ninguém, são propriedade comum da tribo, e a prova é que todos julgam justo expulsar, não só de alguma propriedade particular, mas das áreas comuns, um extrangeiro considerado perigoso, inconveniente, ou indesejado. Então essas áreas comuns não são entendidas como áreas de ninguém, mas como áreas condominiais. É exatamente como num condomínio moderno, onde um estranho que esteja nas áreas comuns pode ser expulso por alguém que tenha poder delegado pelos condôminos para isso.

Numa aldeia sedentária, as ruas e praças eram consideradas áreas comuns. Não eram de ninguém em particular, mas eram de todos. Não era de um extrangeiro, e ele só podia estar lá como visitante. Isto não implicava em impostos, porque naquele nível social elas não demandavam manutenção. As únicas funções do chefe eram coordenar a defesa (ou delegar esse poder a outro mais capaz) e ser provedor monopolístico da justiça. Não era um chefe de estado no sentido pleno, mas era um governante, e isso antes da existência de qualquer ideologia, ou estrutura parasitária de poder.

As cidades são desenvolvimento das aldeias. A maior aglomeração e as necessidedade de segurança exigem alguma obra de infraestrutura e sua manutenção, mas suponho que inicialmente essas eram providas por trabalho comum dos seus habitantes. Há um que eu conheço de descrição sobrevivente dessa fase, que é o Livro dos Juizes, que conforme o próprio texto, foi compilado alguns séculos depois, mas cujas características literárias mostram que foi compilado a partir de relatos da própria época, descrevendo instituições, formas de falar, formas de viver e formas de governo que são muito anteriores ao momento de sua compilação. Pois bem, esse livro mostra governos autônomos em cada cidade, mas não mostra a existência de impostos, nem funcionários públicos.

Alguém dirá que os governos atuais não são simples administradores de condomínio, supridores de justiça e organizadores de defesa. É verdade, mas o surgimento das estruturas que chamamos de aldeias, vilas e cidades originou-se desse sentimento e entendimento humano de propriedade comum. O fato dos estados posteriores terem traído a confiança dos cidadãos, e se hipertrofiado, e ampliado injustamente o escopo original das suas antigas atribuições nos governos tribais, não muda o fato de que essa é sua origem, e que sua origem vem do sentimento e entendimento naturais dos homens. Uma traição posterior não pode mudar o passado, que reflete como as pessoas entendem as estruturas urbanas, e esse entendimento é originário daquele estado natural, da justiça natural, não das ideologias posteriores que a distorceram. Uma traição posterior não pode mudar o senso natural de justiça e de propriedade das pessoas, que se reflete nessas origens históricas

Esse entendimento da história e da justiça natural tem conseqüências práticas, mas não tenho tempo agora. Adianto apenas que isso não quer dizer que não possam haver administradores particulares de ruas e outros espaços comuns, mas o como chegar a isso é bem diferente do entendimento dos ancaps.

Responder
Ali Baba 26/01/2013 17:29:47

@Renato Souza,

Desculpe, mas talvez estejamos falando de duas coisas diferentes e talvez precise definir algumas coisas.

Direito Natural, no sentido em que empreguei acima, quer dizer "direito a vida e ao fruto do seu trabalho". Não tem absolutamente nada a ver com sociedades primitivas ou o quer que seja. Se você entende por Direito Natural outra coisa (como parece que sim), me desculpe a confusão... sempre que eu tiver escrito Direito Natural, substitua por um termo que signifique "direito a vida e ao fruto do seu trabalho"...

Veja que esse é o ponto central do anarco-capitalismo. Esqueça os experimentos históricos e como as coisas eram de forma primitiva. Comece pensando em uma sociedade de indivíduos com "direito a vida e ao fruto de seu trabalho" em que toda e qualquer relação é regida por contratos voluntários. Desse princípio surge todo o resto:

(1) Direito a não sofrer agressão ou coerção deriva do direito a vida
(2) Direito a propriedade privada deriva do direito ao fruto do seu trabalho
etc
etc
etc

Me desculpe a confusão. Não deveria ter utilizado "Direito Natural" sem tê-lo definido em uma conversa com alguém que ainda não é ancap.

Quanto a seus argumentos sobe tribos e sociedades primitivas... essa é uma confusão frequente de alguém que não é ancap. Os ancaps não defendem uma volta a uma sociedade primitiva ou tribal. Às vezes as pessoas que ainda não são ancaps ouvem coisas como "Direito Natural" e pensam automaticamente em pajés, tribos, agressão a desconhecidos, isolacionismo, etc... Isso também mostra uma tendência a achar que o estado é algo mais moderno (e portanto melhor) e que qualquer coisa que funcione sem um governo é algo primitivo e caótico. Como eu escrevi antes: abra sua mente. Comece com o "direito a vida e ao fruto do seu trabalho" e com o voluntarismo e derive uma sociedade a partir daí.

Quanto a propriedade comum, em que isso é semelhante a um condomínio? (Aqui os termos se confundem um pouco, por propriedade comum estou presumindo o Commons - veja en.wikipedia.org/wiki/Tragedy_of_the_commons - e não propriedade coletiva, que é o equivalente a um condomínio) Na propriedade comum, nínguem é dono, exatamente como a tribo ou nenhum de seus indivíduos é dono da floresta. Nas sociedades modernas, isso não existe: sempre existe um dono e se ele não é uma pessoa ou uma empresa, é o estado. No condomínio, as pessoas são de fato e de direito donas de uma propriedade de forma compartilhada e acordos voluntários sobre a disposição dessa propriedade são firmados de forma a beneficiar seus condôminos. Bem diferente.

Como eu escrevi, os ancaps não desejam uma volta a tribos nomades, tribos fixas, vilas, aldeias ou o que for. E também não acham que o estadismo seja a evolução natural da situação anterior da humanidade. O estadismo é, antes de mais nada, a tomada de controle das sociedades primitivas (ou anteriores) pelos "espertinhos". Continuar com o arranjo de estado e trocar as pessoas por outras mais bondosas simplesmente recomeça o ciclo e torna essas pessoas corruptas e "espertinhas". Abolir o estado e construir uma sociedade baseada no "direito a vida e ao fruto do seu trabalho" e no voluntarismo é a saída proposta pelos ancaps.

Uma coisa que as pessoas que ainda não são ancaps não entende é que o estado vai sempre ter sua natureza corrompida. Sempre. Por que os incentivos econômicos estão posicionados de forma errada no estadismo: eles levam as pessoas que integram o estado a se corromper. Simplesmente há um incentivo muito forte a isso e o sujeito tem de ser um exemplo de moralidade para que não seja corrompido uma vez dentro do estado. A saída ancap é uma maneira de colocar os incentivos econômicos nos seus devidos lugares.

Esse entendimento da história e da justiça natural tem conseqüências práticas, mas não tenho tempo agora. Adianto apenas que isso não quer dizer que não possam haver administradores particulares de ruas e outros espaços comuns, mas o como chegar a isso é bem diferente do entendimento dos ancaps.

Entender de história não tem nada a ver com a questão. História é opinião. Estou falando de algo objetivo e prático: não precisamos de mais de 10 mil leis (como temos no Brasil), precisamos de uma só: "direito a vida e ao fruto do seu trabalho". Não precisamos de magistrados pagos pelos impostos, podemos ter juízes particulares resolvendo os conflitos baseado apenas naquela uma única lei.

Justiça Natural é algo que precisa ser definido e você a mencionou somente agora. Não é nenhum conceito que eu conheça e, sem dúvida, não tem nada a ver com o "direito a vida e ao fruto do seu trabalho".

Qual o seu entendimento de como chegar a administradores particulares de ruas? Em que ela é diferente de como os ancaps vêem a questão?

Responder
Renato Souza 27/01/2013 15:33:54

Ali Babá

Jamais imaginei que os ancaps querem voltar às sociedades tribais. Nem afirmei que o Direito Natural seja o direito conforme excercido por tribos primitivas.

Direto Natural é um conceito que existe muito antes do anarco-capitalismo. A sua definição do direito natural é, na verdade, para todas as outras pessoas, vista como uma particularidade do pensamento ancap. O direito natural pressupõe que as pessoas tem dentro de si critérios de justiça, e são também caspazeso pensamento lógico, e que há algo de comum entre os homens, quanto a esses critérios de justiça internos, e que há uma lógica nesses critérioss internos. Uma evidência da existência do direito natural é a existência de muitos traços em comum na percepção de justiça das pessoas, ultrapassando amplamente as fronteiras das sociedades, das culturas e das ideologias. O argumento seria esse: "O fenômeno que é geral, não deve ser explicado por causa peculiares". Então, o direito natural se expressaria nas características mais gerais, no tempo e no espaço, e as ideologias se expressariam nas características mais peculiares das sociedades. Algo não tem de ser univeral, apenas geral, para poder ser explicada como inato ao homem, porque numa sociedade específica, o sentimento ou percepção inatos podem ter sido ofuscados pela ideologia domianante.

A minha longa digressão quanto ao entendimento da justiça em sociedades primitivas, nada teve a ver com eu supostamente achar que direito natural é o direito em tribos primitivas, ou achar que os ancaps querem uma sociedade primitiva. O que fiz foi tentar obter uma imagem mais ampla da percepção humana de justiça. Ao buscar exemplos em tribos primitivas (e tentar obter uma imagem geral do que era a percepção em muitos povos diferentes) busquei apenas "limpar" a imagem dessa percepção de ideologias estatais posteriores (porque sei que debatedores ancaps muitas vezes atribuem as percepções das pessoas à influência da propaganda estatal, o que muitas vezes é verdade, mas muitas vezes não).

No caso em foco, os pontos que procurei provar foram:

1. A percepção de justiça do ser humano engloba os conceitos de propriedade particular e de propriedade coletiva.

2. As pessoas percebem os bens de uso comum como propriedades coletivas do grupo, e foi essa a origem das vilas e cidades, muito antes que houvesse o estado moderno.

Uma das conseqüencias disso é que essas áreas comuns não podem ser simplesmente apropriadas por qualquer um. Já ví discussões aqui em que ancaps defendiam a apropriação de ruas e praças por particulares, e isso é um absurdo. Não houvesse um governo centralizado, se vivessemos no mesmo tipo de sociedade que existia antes do estado moderno, essas áreas seriam propriedade comuns dos cidadãos. Se existem três níveis de governo, que cobram de mim muito mais do que seria justo, para manutenção dessas áreas, isso REFORÇA e não diminui meus direitos de propriedade (em comum com os outros habitantes da cidade) sobre essas áreas.

Agora, imagine que um ancap se candidate a prefeito e vença a eleição, e convença a maior parte da população de que a ingerência do governo deve diminuir, e que parte das áreas comuns da cidade devem ser privatizadas, e em CONTRAPARTIDA, deve ser ABATIDO dos impostos dos cidadãos o gasto correspondente à manutençao daquelas áreas. Esta seria uma solução perfeitamente justa, porque respeitaria a propriedade comum dos habitantes da cidade. Fazendo um cálculo, os cidadãos concordam que será vantajoso, e votam favoravelmente. Por exemplo, pode haver privatização de parques, cujos novos proprietários se comprometerão a deixar seu acesso livre àqueles a quem já era franqueado (qualquer um), mas poderão construir uma certa área de comércio dentro, e se comprometerão a manter esses parques, podendo ser cobrada multas estipuladas em contrato em caso de descumprimento. O que acontecerá? O custos da manutenção e segurança dos parques sairá das costas da prefeitura (meus impostos). Áreas residenciais da cidade podem ser transformadas em condomínios. Podem , por exemplo, serem vendidas aos seus habitantes, e nesse caso a prefeitura teria de se comprometer a descontar dos impostos desses habitantes o custo de manutenção e daquelas áreas. Ou poderiam ser simplesmente entregues, aos moradores. Escolas e postos de saúde entrariam no acordo. Os moradores de cada condomínio poderiam decidir livremente manter as escolas e postos de saúde, e quaisquer outros equipamentos urbanos como propriedades condominiais, ou poderiam vende-los a particulares. Poderiam também entregá-los para administração privada. Deveria haver correspondente diminuição de impostos municipais, e essa diminuição poderia ser tão grande que seria maior que o total de impostos recolhidos pelo município. Nesse caso, o município devolveria aos habitantes uma parcela dos repasses estaduais e federais (fundos de participação de municípios, e outros).

Note que, do ponto de vista do direito natural (como entendido historicamente) essa solução é muito mais justa que a simples tomada de áreas comuns por particulares. Além de justa, essa solução é factível e bastante pacífica. Se a prefeitura mantiver sob sua posse as avenidas, garantindo o livre transito de qualquer um, haverá muito menos oposição, porque o acesso a qualquer condomínio da cidade não passará por outro condomínio, e as pessoas se sentirão seguras de aceitar essa solução. Ao mesmo tempo os custos de manutenção, segurança, ensino, saúde, e melhorias cairá drasticamente. Seria uma cidade "quase privada", mas a solução teria muito menos oposição e receio do que uma cidade totalmente privatizada.

Finalmente, ao assumir as responsabilidades pelos equipamentos urbanos, os habitantes terão consciência da hipertofia estatal, e ficarão grandemente atentos ao princiio da subsidiaridade, se sentindo cada vez menos dependentes do governo federal. No limite, o pais pode vir a se tornar uma simples associação livre de entes federados.

Resumindo:
1. A existência de áreas comuns precede historicamente a existência do estado moderno, funda-se no direito natural, e portanto a existência do estado moderno não desfaz os direitos dos habitantes a essas áreas comuns.
2. É perfeitamente possivel diminuir muito o escopo das atribuições estatais, sem gerar conflitos extremos, nem fazer rápidas mudanças institucionais.

Responder
Ali Baba 28/01/2013 10:23:54

@Renato Souza,

1. A existência de áreas comuns precede historicamente a existência do estado moderno, funda-se no direito natural, e portanto a existência do estado moderno não desfaz os direitos dos habitantes a essas áreas comuns.
2. É perfeitamente possivel diminuir muito o escopo das atribuições estatais, sem gerar conflitos extremos, nem fazer rápidas mudanças institucionais.


Para encurtar a discussão podemos concordar em discordar, ok?

Em primeiro lugar, talvez eu estivesse empregando "Direito Natural" com um significado errado. Não mais me referirei a ele da forma como vinha fazendo e agradeço a você por ter me apontado a inconsistência em meus argumentos.

Agora, eu não concordo que áreas de uso comum precisam ser mantidas como propriedade coletiva. No entanto eu acho que em certos casos onde isso fizesse sentido, arranjos podem ser feitos para continuar a propriedade coletiva pré-existente. Dado que não estamos começando uma sociedade do zero, pode ser uma maneira de transicionar... Como eu escrevi antes em resposta ao Charles, não finjo que sei o que aconteceria em uma sociedade ancap, mas acho que, simplesmente, dada a liberdade necessária as coisas convergeriam para arranjos estáveis e esse pode ser um deles.

Você tem uma visão minarquista (que não é incomum para os libertários, mesmo Mises, aparentemente, era minarquista). Eu sou simpático a termos um estado mínimo e por muitos anos eu pensei assim. Naquela época meu sonho era um estado com recursos limitados a um valor bem baixo do PIB (por exemplo 6%) que tivesse que se virar nas áreas mais básicas e estruturantes sem nunca aumentar a sua receita percentual. Eu acreditava que tal estado naturalmente elegeria as prioridades dados os recursos escassos e deixaria o resto da sociedade tomar conta dos demais serviços.

Com o tempo fui mudando para o ancap e a completa abolição do estado por perceber que o minarquismo não é um arranjo estável. O estado tem a tendência inequívoca de crescer. O esquema que eu considerava ideal funcionaria muito bem se tivéssemos muitos anos bons, sem tragédias, epidemias e conflitos. Mas na realidade essas coisas acontecem de forma imprevisível e as pessoas simplesmente se voltam a um "poder maior" nesses momentos. Essas duas coisas (tendência do estado a crescer e incentivo das pessoas a se voltar para ele em grandes comoções) levam a repetição do status quo. É só vermos historicamente como os estados começaram pequenos e foram crescendo lentamente em períodos calmos e rapidamente em períodos turbulentos.

Por perceber isso que acredito que a unica solução é o ancap e embora seja simpático ao minarquismo, ele simplesmente exige demais autocontrole do ser humano para que não se transforme de volta no status quo.

Responder
Renato Souza 31/01/2013 02:11:59

Ali Babá

Eu não disse que as áreas de uso comum PRECISAM ser mantidas como propriedade coletiva. Eu disse que elas SÃO propriedade coletiva. Seriam normalmente propriedade coletiva num sistema de governo tribal, ou em qualquer sistema de governo descentralizado, ou nos sistemas conhecidos ao longo da história. Então, o fato de existir um estado centralizado que cobra impostos para mante-las não muda o fato de que elas SÃO propriedade coletiva.

Agora, se os habitantes de uma determinada região resolverem privatizar algumas ou todas as áreas coletivas, sem que haja destruição dos direitos de passagem deles, é claro que eles deveriam poder fazer isso. Mas arrisco dizer que o sentimento da maioria das pessoas provavelmente será contra isso.

Então a solução de criar condomínios é muito boa, porque retira atribuições dos três níveis de poderes, de forma que as pessoas assumem mais responsabilidades pelo seu próprio bairro, ao mesmo tempo que ficam livres de parte da interferêcnia estatal.

Responder
Charles 26/01/2013 20:46:19

acho que ninguém rebateu meu argumento dos condomínios fechados... então perguntarei de novo...

e se todas as praias mais afastadas (aquelas que nao tem sequer nenhum comércio em sua orla) se transformar em condomínios fechados com acesso limitados a moradores que tenham que comprar terras caríssimas e o acesso a praia seja permitido apenas para quem é dono de um terreno ou casa nesse condomínio fechado?

e se a mesma coisa ocorrer com parques que hoje o estado diz ser ''reservas naturais''?

tudo bem que o estado já privatizou varias praias por aí afora, mas no anarco-capitalismo isto viraria rotina...

o meu medo não é de pagar uma taxa para utilizar uma praia bem cuidada... nesse ponto eu entendi bem...

só que acho que as praias que forem cobradas taxas para seu uso, serão praias muito frequentadas e terão muitos comércios na sua volta...

já uma praia deserta, ficaria limitada a empresários ricos e clientes ricos (como no caso dos condomínios fechados)...

ou seja, NINGUÉM além de quem mora nesses condomínios fechados litorâneos poderá nem sequer passar pela praia...

cobrar taxa é uma coisa, limitar o acesso é outra...

Responder
Thames 26/01/2013 22:22:06

Não, você sequer entendeu o mais básico do básico. Se você está pensando em anarcocapitalismo, então não faz nenhum sentido essa ideia de "estado privatizar". A desestatização dar-se-á segundo normas muito claras.

www.mises.org.br/Article.aspx?id=973

Responder
anônimo 27/01/2013 05:54:17

não sei se o comentário foi para mim, eu já estudei bastante sobre o anarco-capitalismo, sobre anarco-primitivismo, anarco-sindicalismo, socialismo, liberalismo, etc... sei bem diferenciar as coisas (se é que o comentário foi pra mim, se não foi, descosidere o comentário)...

no caso do estado privatizar as praias, eu disse no sentido de conceber a ela a praia como uma propriedade privada, dando a empresa compradora dos direitos e terras daquele pedaço de praia...

acho que você está querendo mudar o foco da discussão, não respondeu as minhas indagações...

eu lerei o artigo mais tarde, mas já lhe adianto que sei bastante sobre anarco-capitalismo, e que você não precisa usar regras burocráticas para querer mudar o foco da discussão... isso parece coisa de político burocrático!

se você não tem argumentos, por favor, não apele para a burocracia!!

esse lance das praias SIM É UMA FALHA DO ANARCO-CAPITALISMO mas mesmo assim o anarco-capitalismo ainda é o melhor sistema pra mim mesmo com essa pequena falha... viveriamos muito bem sem praias desertas para podermos ir a qualquer momento, mas sem pagar impostos...

eu sou ancap sim, mas não posso ser cego e pensar que o ancap é sistema perfeito sem nenhuma falha!

todo sistema tem suas falhas! mas o anarco capitalismo pra mim é o menos pior de todos!

Responder
Bruno 27/01/2013 17:21:54

Charles,

e daí? Só porque o terreno de alguém dá acesso ao mar, você acha que tem direito de invadir? Seus comentários é que não tem o menor nexo.

Responder
charles 27/01/2013 20:37:47

eu só acho que certas terras não deveriam ter donos (falando de uma sociedade anarco capitalista, já ue o estado é o atual dono das praias, mas numa sociedade ancap nao existiria o estado)...

eu acho que o meio ambiente não deveria ter nenhum dono... sou dessa opinião! não sou socialista, porque o socialista quer que o estado seja dono de tudo... o comunista também... eu queria que as praias desertas exemplo, não acontecesse esse tipo de coisa que limita o acesso... apenas isso!

Responder
Ali Baba 27/01/2013 20:23:09

@Charles, anonimo,

Como vc escreveu, o ancap nao eh perfeito. No entanto, ao entregar para o Mercado a regulacao das relacoes voluntarias e nao agressivas, ele incorpora o melhor sistema de autocorrecao concebido pelo homem.

Nao vou fingir q sei o q aconteceria em uma sociedade ancap pq isso dependeria largamente das pessoas e como elas se comportariam. Por isso, sempre q escrevi anteriormente falei em probabilidades, em o q eu acredito q seria mais provavel de acontecer tomando o "direito a vida e aos frutos do seu trabalho" e o principio da nao-agressao como pontos de partida.

Agora, qto a sua questao de o que impede, em uma sociedade ancap, q pessoas extremamente ricas tomem para si pedacos do litoral q hj estao desertos para beneficio proprio? A resposta eh nada.

Nao haveria nenhum regulamento ou forca policial coerciva para impedir isso. E desde que tomada de forma nao agressiva (por exemplo, atraves de compensacoes financeiras) e empregado seu trabalho na praia, qualquer pessoa pode fazer isso. A questao eh pq isso eh visto por vc (e diversas outras pessoas) como um problema do ancap?

Em primeiro lugar, estamos falando de lugares desertos hoje em dia... logo nao hah ninguem sendo prejudicado em detrimento do (agora) dono do lugar. Vc pode argumentar q o lugar era pico de surfistas, por exemplo. Entao, pq nenhum surfista se estabeleceu para tomar posse e manter o lugar um pico? Nao seria o primeiro lugar perdido pelos surfistas... e eles poderiam simplesmente se mudar para um pico mais simpatico a sua presenca.

Em segundo lugar, como eu havia escrito anteriormente, eh provavelmente impraticavel que todo o litoral seja privativo. Mas se fosse, eh pouco provavel q seus donos abrissem mao de explora-lo comercialmente em troca do proprio lazer por muito tempo... simplesmente nao faria sentido do ponto de vista economico.

Em terceiro lugar, como que o status quo eh melhor? Atualmente pessoas extremamente ricas constroem casas e privatizam praias, e ateh ilhas, de facto, se nao de direito. Muitas vezes de forma ilegal, mas de outras vezes contando com as vistas grossas do estado.

Enfim, isso que vc (e varios outros) entendem como uma falha do ancap eh, IMHO, uma de suas melhores caracteristicas: o Mercado eh o melhor sistema de correcao de erros e nao deve ser temido, mas exaltado.

Responder
Charles 28/01/2013 15:56:08

Acho que você está certo Ali Baba... o mercado tem mais poder para mudar uma situação do que o estado (já que o estado só pensa no intere$$e próprio)...

é como eu falei anteriormente... todo sistema tem suas falhas, mas o ancap é o que tem menos falhas e o mais suscetível a dar certo!

Responder
Luiz Padilha 30/01/2013 10:00:46

Charles... o mercado também só pensa no interesse próprio (ou intere$$e próprio como vc escreveu). A diferença é que no caso do mercado, nós queremos isso e no caso do estado, nao. Essa é uma virtude muito importante: no arranjo do mercado, os interesses próprios estão orientados de modo a beneficiar todos; no arranjo do estado, os interesses próprios estão orientados de modo a prejudicar todos (exceto quem habita o estado). Dado que a natureza humana é de perseguir os próprios interesses, o arranjo do mercado é o que tem a melhor probabilidade de dar certo.

Responder
Alexandre 07/03/2014 21:44:39

"No Quênia, grupos de conservação e as Nações Unidas pressionaram o governo para proibir o comércio de marfim. Após a proibição, entretanto, o número de elefantes continuou diminuindo devido às caças ilegais (que são difíceis e caras de se controlar). No Zimbábue e em Botswana, sendo em ambos permitida a caça de elefantes, o número de elefantes tem crescido a 5% ao ano. Durante os anos 1980, a população de elefantes quenianos caiu de 65 para 19 mil, ao passo que no Zimbábue a população cresceu de 30 para 40 mil."

Com argumento semelhante é possível defender a escravidão. Quantos pobres morrem, em conflitos ou de fome, pois ninguém é dono deles? Quantos morreriam se eles fossem escravos e seus donos, mais ricos e com mais recursos, tivessem interesse em protegê-los, alimentando e fornecendo segurança?

Responder
Altamir 07/03/2014 22:50:20

Gozado. Nenhum libertário jamais defendeu escravidão, pois se trata de um ataque direto aos três diretos naturais: vida, liberdade e propriedade (principalmente a do próprio corpo), nem sequer sob este argumento de que seria bom para os incapazes.

Mas você -- para tentar "refutar" os fatos apresentados pelo artigo -- logo partiu para essa comparação esdrúxula.

A única coisa que posso fazer é sinceramente parabenizá-lo pela sua coragem. Na atual predominância do politicamente correto, não é qualquer um que tem a coragem de vir a público e comparar seres humanos a elefantes, e dizer que são a mesma coisa.

Responder
Alexandre 07/03/2014 23:21:45

Três direitos naturais para quem e por que tal pessoa teria esses direitos naturais?

Eu não tentei refutar os fatos apresentados pelo artigo. Apenas ampliei a defesa da mercantilização dos animais não-humanos, como razão para a preservação da vida, para humanos pobres.

Finalmente, um ser humano, de forma geral, não se diferencia de um elefante, enquanto sujeito moral, ou para entender melhor, sujeito passivo da ética. Se é politicamente incorreto, não me importo nem um pouco. Mas te desafio argumentar uma característica que seja relevante para um ser humano, de forma geral, não sofrer que um elefante não a tenha.

Responder
Professor 07/03/2014 23:42:39

Vejo que você desconhece completamente a filosofia de Aristóteles e de São Tomás de Aquino. Isso o desqualifica para discutir filosofia.

Direito natural é um direito que todos nós como seres humanos usufruímos pela simples virtude de sermos humanos. Você, como ser humano, tem o direito de que não tirem a sua vida, não espoliem a sua propriedade justamente adquirida, e não restrinjam a sua liberdade. Obviamente, esses mesmos direitos negativos se aplicam a todo e qualquer indivíduo.

Animais, obviamente, não têm esses mesmos direitos. Se tivessem, absolutamente nenhum deles poderia ser morto, nem mesmo uma barata.

O homem tem direitos por causa de sua natureza: sua capacidade individual de escolha consciente, sua necessidade de usar sua mente e sua energia para adotar objetivos e valores, para decifrar o mundo, para buscar seus fins para sobreviver e prosperar, sua capacidade e necessidade de se comunicar e interagir com outros seres humanos e de participar da divisão do trabalho.

Em suma, o homem é um animal racional e social. Nenhum outro animal ou ser possui esta habilidade de raciocinar, de fazer escolhas conscientes, de transformar seu ambiente a fim de prosperar, ou de colaborar conscientemente com a sociedade e na divisão do trabalho.

Entendido isso, é possível verificar o conceito de uma ética de espécie ao se contemplar as atividades das outras espécies na natureza. Chamar a atenção para o fato de que os animais não respeitam os "direitos" dos outros animais não é apenas uma brincadeira; é a condição do mundo, e de todas as espécies naturais, que eles vivam de se alimentar de outras espécies. A sobrevivência entre as espécies é uma questão de dentes e garras.

Seria um absurdo dizer que o lobo é "mau" porque ele apenas existe por devorar e "agredir" ovelhas, galinhas etc. O lobo não é um ser mau que "agride" outras espécies; ele está simplesmente seguindo a lei natural de sua própria sobrevivência.

É similar para o homem. É tão absurdo dizer que os homens "agridem" vacas e lobos quanto dizer que os lobos "agridem" ovelhas. Além disso, se um lobo ataca um homem e o homem o mata, seria um absurdo dizer que o lobo era um "agressor malévolo" ou que o lobo devia ser "punido" por seu "crime". E, todavia, estas seriam as implicações de se estender uma ética de direitos naturais aos animais. Qualquer conceito de direitos, de criminalidade, de agressão, só pode se aplicar a ações de um homem ou grupo de homens contra outros seres humanos.

Se quiser se informar por completo, leia os 4 primeiros capítulos deste livro:

www.mises.org.br/Ebook.aspx?id=12

Responder
Alexandre 08/03/2014 00:09:04

Há uma diferença significante entre conhecer e concordar plenamente. Ainda mais quando se observa que Aristóteles defendia a escravidão e Tomás de Aquino defendia a reprodução humana sem coito no séc. I. AC. Ainda, fico triste em ter que responder alguém que começa com uma falácia tão gritante como argumento de autoridade no início do post, mas vamos lá...

"O homem tem direitos por causa de sua natureza: sua capacidade individual de escolha consciente" = todos os mamíferos e aves;
"sua necessidade de usar sua mente e sua energia para adotar objetivos" = todos os mamíferos e aves, retirei a palavra valor, pois dependendo do seu uso, nem todos os humanos seriam capazes;
"para buscar seus fins para sobreviver e prosperar" = todo ser vivo tem essa necessidade e esse objetivo;
"sua capacidade e necessidade de se comunicar e interagir com outros seres humanos e de participar da divisão do trabalho" = todos os animais que vivem em grupos, até as abelhas.

Quanto malabarismo argumentativo! Os motivos para ser portador de determinados direitos não se relacionam com os mesmos. Sobre as baratas, elas não possuem consciência da sua existência, qual seria o problema em pisar nelas?

O final da tua mensagem confunde o agente moral com o sujeito moral. Distinção importante considerando que seres humanos incapazes possuem direito a vida e a dignidade, porém não são responsáveis juridicamente pelos seus atos. Tanto assim o é que para condenar qualquer pessoa é necessário verificar sua capacidade, ou da próxima vez que chegar perto de um bebê e ele pegar seus óculos irá registrar um boletim de ocorrência por tentativa de furto?

Todo o teu post é motivo de riso, obrigado pela participação.

Responder
Magno 08/03/2014 00:30:18

Prezado Alexandre, eu não sabia que animais respeitam os "direitos" dos outros animais. Também não sabia que eles não matam seus semelhantes para se alimentar deles (eles devem viver de vento). Também não sabia que eles são punidos ao matarem seus semelhantes. Também não sabia que eles têm livre arbítrio e utilizam a razão. Também não sabia que eles utilizam a mente (e não o instinto) em suas ações.

Também não sabia que -- a julgar pela sua lógica -- há um tribunal comandado por animais que punem os criminosos da espécie que matam seus semelhantes. Gostaria muito de presenciar o julgamento de um leão que devorou um leopardo. Ou o julgamento de uma cobra que comeu um boi.

Acho que você não percebeu que, em tudo isso, você é o alívio cômico daqui. Obrigado por nos proporcionar este momento. (E fiquei impressionado por você ter lido quatro capítulos de livro em 5 minutos...)


P.S.: Uma dica: da próxima vez que recorrer ao recurso de selecionar trechos para comentar, certifique-se de que você não irá deixar de fora trechos cruciais, como os 4 últimos parágrafos do Professor. Comentar apenas trechos introdutórios, e que de modo algum são conclusivos para o raciocínio, mostra não apenas o seu despreparo, como também sua desonestidade intelectual. Por outro lado, garante muito divertimento à sua custa...

Responder
Alexandre 08/03/2014 05:38:43

Magno, quase um caso de esquizofrenia.Estrutura do texto do professor:Primeiro parágrafo, argumento de autoridade;Segundo ao quarto parágrafo seria uma síntese dos direitos naturais e o motivo deles se aplicarem só aos humanos (achei necessário copiar cada motivo, para mostrar que eles podem também se aplicar a outros animais além dos humanos, mas não foi a única parte que eu respondi, eu respondi integralmente o post do "professor");Quinto ao sexto parágrafo o professor confunde aquele que deve agir moralmente com aqueles que sofrem essas ações, que foi apontado na minha mensagem original e também foi respondido na segunda mensagem: "O final da tua mensagem confunde o agente moral com o sujeito moral.Distinção importante considerando que seres humanos incapazes possuem direito a vida e a dignidade, porém não são responsáveis juridicamente pelos seus atos.Tanto assim o é que para condenar qualquer pessoa é necessário verificar sua capacidade, ou da próxima vez que chegar perto de um bebê e ele pegar seus óculos irá registrar um boletim de ocorrência por tentativa de furto?"Gostei da dica do professor, interesso em ler alguma coisa do Rothbard, provavelmente vou gostar, aprender e concordar com muitas partes do livro, como discordar de outras partes.Mas não havia necessidade de eu ler um livro para responder o professor só pelo fato dele ter recomendado.Do contrário, vá ler toda a literatura russa no original antes de me responder!Infelizmente teu post não foi motivo de riso, só de pena.Até mais e leia com mais atenção na próxima vez.

Responder
K 08/03/2014 23:40:35

Inteligentíssimos comentários, caro Alexandre! Nunca mais olharei uma barata com os mesmos olhos. Realmente, é risível que alguns deste sítio defendam que o ser humano, enquando sujeito moral, seja distinto de um elefante, um minhocoçu, ou qualquer outro animal. Especismo puro! Não esperaria diferente dos fascistas neoliberais reacionários daqui. Como todo esquerdista iluminado sabe, o ser humano não é mais nem menos que um animal, e indo um pouco além, a vida de um ser humano não vale mais que a de, digamos, uma abelha ou uma barata. Conhecimento básico que nossos saudosos camaradas soviéticos usaram tão bem... salve Stálin!
Também gostaria de destacar que seu ponto quanto à escravidão é genial, mas é bom deixar claro que, como sabemos, apenas quando os sapientíssimos socialistas são os mestres é que ser escravo vale a pena (e como vale!).


Vida longa aos elefantes! Hasta la victoria! Forte abraço!

Responder
Alexandre 10/03/2014 05:28:06

Ótima forma de defesa K, ironia, imaginar qual a minha posição política, atacar essa posição imaginária e não usar um argumento racional.
Só pelo motivo de eu não concordar com toda a cartilha política escrita e guardada que está do lado da sua cama, infelizmente, para ti, isso não me torna o teu antagonista perfeito.

Se tivesse lido os meus posts, talvez reparasse o que postei sobre baratas: "Sobre as baratas, elas não possuem consciência da sua existência, qual seria o problema em pisar nelas?"

Ainda, sobre escravidão, apenas ressaltei que se aquele argumento do artigo estivesse certo, ele deveria se aplicar extensivamente, para não perder a coerência, mas para isso ele validaria a escravidão. Por sinal, todo o artigo partiu de uma visão utilitarista: "se permitir a caça como atração comercial, mais animais voltados para a caça existirão".

Por fim, eu jamais comentaria num site onde eu discordo de tudo que é escrito, como seria o seu antagonista perfeito adorador de Stalin. Eu não acredito na possibilidade de existir sociedades libertárias, mas certamente estaríamos melhores se vivêssemos em sociedades liberais. Por exemplo, não consigo sequer imaginar um sistema penal que não fosse necessariamente obrigatório para todos.

Sobre animais, eu admito fazer parte de uma minoria, mas pelo menos não vejo incoerências, a única possível que li foi apontada por Joel Pinheiro nesse artigo: "www.adhominem.com.br/2013/05/consideracoes-sobre-o-veganismo.html"
Porém, para ser incoerente eu deveria acreditar que é obrigação de todos os homens agir para diminuir o sofrimento de uma criança "sem considerar se ele é causado por homens ou se vem de alguma causa não-humana". Entretanto, observando a minha posição liberal, eu acho que o homem só deve obrigatoriamente intervir quando o sofrimento é causado por outro ser humano capaz e responsável por seus atos. Ainda, vale ressaltar novamente que eu não defendo a posição vegana jainista que até um bicho-da-seda, abelha ou camarão não devam sofrer, reafirmo, insetos ou crustáceos não possuem consciência, logo, não há sofrimento.

No mais, treine melhor seus argumentos, invés de utilizar de ironia pueril, tente ser mais racional e honrar a sua denominação como animal inteligente, do contrário, o que irá te diferenciar de qualquer outro primata? ;-)

Responder
Juno 11/03/2014 13:08:19

Uma fundamentação excelente dos direitos naturais é feita por Hoppe, partindo da teoria discursiva de Habermas.

Responder
Renato Souza 11/03/2014 03:16:35

Continuando

Sobre a existência da ética, e portanto de direitos, a primeira coisa a se notar é que ética não é um dado da natureza física, algo que se possa medir. Nas leis da natureza, não existe bem nem mal, certo nem errado. Também não pode ser resultado simples da lógica. A lógica, no máximo, pode dizer o que a ética não pode ser, mesmo assim partindo de certos pressupostos, mas não pode dizer o que é. O ser humano tem a noção de direitos, de certo e de errado, dentro de si. Ele demonstra isso quando sente indignação ou contentamento com coisas que estão além dos seus interesses pessoais. A percepção de direitos funda-se na subjetividade humana. A religião, como interprete da dimensão espiritual do homem, reflete a ética, a justiça, não esse atual direito positivo, mas o direito como percebido naturalmente pelo homem, reflete também a ética, os mitos a refletem, os prosadores, poetas, filósofos, e também o pensamento comum do homem comum.

A história do homem (suas leis, mitos, religiões, prosa) mostra os animais como portadores de direitos? Não, não mostra. Seria até estranho que mostrasse, pois o homem tem sido basicamente um caçador ou criador de animais para abate, por muitos e muitos milênios. Seria estranho que um ser que vive de matar todo tipo de animais, julgasse que tais animais tem direitos com os que ele sente apropriados para si mesmo. Os animais são tão desprovidos de direito, que o ser humano tem considerado lícito matar um animal jovem e saudável para alimentar mesmo uma pessoa velha ou até à beira da morte. Para alimentar mesmo aqueles que tem vegetais em tal quantidade e variedade que poderiam prescindir de alimentação animal. Alguém dirá que o ser humano sente, muitas vezes pena dos animais, e evita faze-los sofre inutilmente. Mas sentir pena é diferente de percebe-los como portadores de direitos. O ser humano muitas vezes sente certo grau de indiferença quanto ao sofrimento de certas pessoas, mas mesmo assim percebe tais pessoas como portadoras de direitos. Alguém dirá que o ser humano sente afeição por animais. Mas não é a afeição a geradora de direitos. Ele sente afeição por certo animal, e evita mata-lo, e o protege, mas se sentirá indiferente à morte de outro animal tão inteligente quanto o primeiro. O ser humano percebe como portadores de direitos, pessoas pelas quais não sente afeição, pessoas que mal conhece, ou não conhece. Alguém dirá que alguns povos proíbem a morte de animais. Em primeiro lugar, isso é exceção e não regra. Em segundo lugar, a grande maioria das pessoas que vivem sob a interdição de morte de animais são de religião hindu. Ora, tal religião entende que as almas transmigam, inclusive entre pessoas e animais. Então, de certa forma, essas pessoas "humanizaram" os animais. É natural que dentro de uma visão de mundo assim, elas percebam os animais como portadores de direitos, porque eles primeiro foram vistos, como portadores de almas humanas. Alguém citará que há muitos momentos da história, grupos de pessoas foram considerados sem direitos, podendo ser mortos livremente. Mas note-se que previamente a esses momentos, ou durante eles, surgiram discursos que passaram a descrever tais pessoas como inferiores, não humanos, semi-humanos, ou como rezes, peças, animais, monstros, demônios. Para não perceber direitos em outros seres humanos, as pessoas tiveram de "desumaniza-los".

Quer se julgue que os direitos tem uma existência real ou não, é certo que eles são percebidos interiormente, espiritualmente até. E é certo que o ser humano demonstra não perceber os animais por si mesmos, como portadores de direitos. Dignos até, em muitos casos, de afeição, pena, ou respeito, mas não como portadores de direitos.

Responder
Alexandre 11/03/2014 08:05:56

Igualmente acho que ignorar conhecimento já produzido acaba fazendo com que a discussão se torne débil. Porém, a maioria dos pensadores antigos discutiram muitas vezes partindo de premissas que futuramente a ciência apontaria como falsas. Obviamente sempre se pode discutir os resultados científicos, mas, da mesma forma que você apontou, simplesmente ignorar esses resultados fará com que a discussão se torne débil e um lado apenas ficará repetindo ideias baseadas em premissas falsas, só porque era uma ideia de um pensador clássico. E o mais interessante é que ambos os pensadores defendiam, de certo modo a escravidão, um como algo natural e útil e outro apenas como útil. Acho importante ressaltar isso, eis que foram, talvez, os melhores pensadores da história ocidental, mas nem por isso tudo que foi falado por eles é verdade, não é?

O que apresentou sobre a ética transmite a mensagem que o ser humano é algo quase alheio a natureza, que de alguma forma ele consegue transcender a sua natureza como animal, primata. Para um religioso, faria isso para ficar mais perto do seu criador, esse mesmo criador que o faz pensar moralmente, tomar atitudes boas com outros seres humanos e todo ideal cristão por trás disso. Bem, o propósito da mensagem é louvável, mas, e se, assim como há uma racionalidade primitiva entre animais (geralmente, quanto mais próximos da nossa espécie, mais complexo fica esse raciocínio) também houver um pensamento moral primitivo entre alguns animais?

www.ted.com/talks/frans_de_waal_do_animals_have_morals
(o argumento de que tais comportamentos apresentados por Frans de Waal são na realidade para preservação da espécie conforme o animal em questão, também se aplica aos humanos, ainda mais quando se limita a moral só a espécie humana. E, quando se observa animais cuidando de espécies diferentes, acaba tornando a "moral humana" mais fraca do que a desses animais).


Infelizmente, isso vai de encontro com o pensamento cristão que a moral se origina a partir de Javé, e sem ele não há moral, tudo é permitido. Lembrando, a bíblia não condena a escravidão, na realidade, até legitima a prática.

Ainda, talvez a sua resposta esteja baseada em Kant, onde para ele só há motivo para agir dentro de parâmetros éticos quando o outro tiver valor intrínseco e não poder ser usado como um fim, em outras palavras, ter dignidade, e essa se justificava pela racionalidade, seres livres com capacidade para tomar as suas próprias decisões. Mas, novamente, há o problema de se verificar muitos animais portando uma racionalidade superior quando comparados a certos humanos.
Por qual motivo é importante na hora de agir eticamente medir se o outro também for capaz de agir eticamente e movido pela razão e intelectualidade superior de um humano? Não é mais significativo se importar se o outro é capaz de sofrer? Quando eu afirmo se importar, é de um modo racional, através da observação da reação do outro ser com outros seres e diante de situações que causariam sofrimento no observador.

Por fim, faz um apelo à antiguidade, já que sempre foi assim, é a melhor forma de agir. Mas demonstrou o erro no próprio post. Quando alguém não quer se importar com o sofrimento dos outros, desqualifica esses, afirmam que não possuem alma, consciência ou inteligência para justificar, por exemplo, a escravidão. Para esse fenômeno denominou desumanizar, uso um tanto impróprio, eis que quando um humano morre ele não se transforma em outra espécie, mas perde a inteligência, a consciência e, conforme a literatura religiosa que tenho acesso, a alma. Apesar do uso mais informal, seria mais próprio a expressão coisificar, que é exatamente o que você faz com animais que não sejam humanos e argumenta de forma um tanto inocente, para falar o mínimo: "já que os animais são tratados como coisas pela maioria das pessoas e sempre foi desse jeito, eles não são nada além de coisas".

No mais, gostei da sua resposta, foi educado e apresentou argumentos.

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Renato Souza 12/03/2014 04:09:06

Alexandre

Você enganou-se supondo que o meu argumento era o da antigüidade, como havia se enganado sobre o argumento do Professor. Vamos novamente... Kant na verdade apenas redescobriu algo que era conhecido há muitos séculos: A razão não produz de si conhecimentos sem o concurso de premissas anteriores. Os gregos já sabiam que a lógica só pode fazer seu trabalho quando a dialética já o começou. No caso específico da ética e dos direitos, a lógica só pode trabalhar sobre algo prévio que é necessariamente a percepção humana, interna, da ética e dos direitos. Você equivocadamente considera os animais como portadores de uma moral. Isso seria o equivalente a supor que as abelhas sabem engenharia. Sabemos que as abelhas (como muitíssimos outros animais) agem de acordo com o que consideraríamos boa engenharia, mas nem por isso supomos que esses animais pratiquem análise estrutural. Devemos ter muito cuidado em não extrapolar demais a nossa experiência para o reino animal. Sobre animais superiores mais inteligentes, temos a percepção de que eles tem sentimentos e temos experiências que nos indicam alguma forma de raciocínio concreto. Não há nenhuma indicação de que haja alguma sensação de dever moral nos animais, e quando eles agem de forma que consideraríamos moral, é muito mais razoável supor que esse comportamento advenha de um misto de instinto, experiência, sentimentos e raciocínio concreto.

Não consegui entender como você chegou a supor que o meu argumento se baseava na antiguidade. Meu argumento se baseia na fonte de conhecimento sobre a moral. Pode-se aceitar fontes externas ao homem também (complementarmente à fonte interna), mas nesse caso, isso só pode ser discutido de forma útil dentro de cada cosmovisão. Um ateu, um cristão, um budista, um xintoísta, um espírita e um nova-era, terão visões diferentes sobre as fontes originais da moralidade e sua existência real ou não, e os argumentos usados por uns poderão não ser aceitos pelos outros. Ora, a fonte de conhecimento moral interna ao homem pode ser debatida, dentro de certos limites, mesmo por pessoas com cosmovisões diferentes. Por isso me centrei no conhecimento de como o homem percebe os direitos.

Você também afirmou que aqueles que querem negar os direitos dos outros seres humanos os veem como coisas e não como animais. Em alguns casos até é verdade, mas aparentemente isso foi bem mais raro. Defensores da escravidão frequentemente viam os escravos como seres viventes inferiores, na verdade como intermediários entre humanos e animais. Alguns defensores da escravidão viam os escravos como eternas crianças, e justificam a escravidão como uma espécie de "tutela".

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Renato Souza 11/03/2014 01:53:49

Alexandre

Em primeiro lugar, o Professor não usou o argumento da autoridade. Ele apenas afirmou, e é verdadeiro, que para um debate profundo é necessário conhecimento sobre o histórico da questão. A capacidade individual do ser humano é limitada, e sobre qualquer questão filosófica importante, uma enorme quantidade de pensamento já foi produzida. Se cada geração entrar na discussão sem nenhum (ou com pouquíssimo) conhecimento do histórico do debate, repetirá infinitamente os mesmos debates do passado (freqüentemente ficando aquém das conclusões do passado), ignorando uma enorme quantidade de conhecimento já produzido. Mesmo os melhores pensadores, em vez de produzir conhecimento novo, perderá tempo reinventando a roda.

Continuo...

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