Herbert Hoover e George W. Bush: intervencionistas que amplificaram recessões (1ª Parte)

Introdução

A regra mais básica de qualquer política econômica é permitir que os preços se ajustem às condições de mercado.  Isso permite que a Lei de Say funcione e produz aquilo que Frédéric Bastiat chamou de 'harmonia econômica'.

Ademais, mercados desimpedidos minimizam distorções e distúrbios introduzidos por forças externas.  Ainda mais importante, o sistema de preços, quando funcionando sem empecilhos, minimiza o impacto dos ciclos econômicos sobre a economia.  O artigo a seguir examina dois episódios econômicos históricos em que políticas intervencionistas transformaram recessões (a fase corretiva dos ciclos econômicos) em depressões.[1]

O primeiro episódio ocorreu na Grande Depressão americana durante as administrações de Herbert Hoover e Franklin Roosevelt.  O segundo episódio é a atual crise econômica dos EUA, que começou durante o governo de George W. Bush e foi continuada pelo governo Obama.[2]

As políticas intervencionistas de Hoover centraram-se no mercado de trabalho com o objetivo de manter altos os salários e o número de empregos.  As políticas intervencionistas de Bush centraram-se nos mercados de capital com o objetivo de manter os mercados financeiros funcionando.  Embora tanto Hoover quanto Bush tenham a reputação de serem a favor de um governo limitado, os fatos mostram que ambos adotaram políticas intervencionistas sem precedentes para combater crises econômicas.  Em ambos os casos eles fracassaram, ao mesmo tempo em que prepararam o terreno para aumentos subsequentes no tamanho e no alcance das intervenções governamentais.

Além de corrigir esses mal entendidos históricos, será argumentado que foram justamente as políticas intervencionistas adotadas durante essas crises que transformaram recessões em depressões.  Essas políticas criaram as condições necessárias para uma depressão principalmente porque elas tiveram o efeito de solapar o funcionamento de importantes áreas do sistema de preços.

Essa é a tese apresentada por Rothbard (1963) sobre como uma contração na economia se transformou em uma Grande Depressão.  Essencialmente, Rothbard utiliza a teoria austríaca dos ciclos econômicos para construir um ciclo de expansão, contração e recuperação.  Ato contínuo, ele aplica a teoria austríaca do intervencionismo para explicar por que a economia, além de não se recuperar, fica imersa em uma depressão contínua.  Essa abordagem pode ser aplicada à atual crise americana para fornecer uma melhor compreensão dos atuais eventos.

Hoover, o Intervencionista

Hoover alegava ser um defensor do governo limitado e do liberalismo ao estilo europeu.  Suas medidas, porém, antes e depois do crash da bolsa de valores em 1929, sugerem outra realidade.  Antes de se tornar presidente, Hoover passou vários anos como funcionário do governo defendendo políticas intervencionistas.  Após se tornar presidente, Hoover tomou abrangentes e inéditas medidas para atacar o crash.  Suas políticas intervencionistas foram suficientes pra transformar uma típica e corriqueira recessão na Grande Depressão.  Suas medidas foram "limitadas" somente no sentido de que ele não queria que todas as suas políticas se tornassem características permanentes do governo.  Adicionalmente, na época de Hoover, o governo federal americano ainda não era completamente dotado das instituições e poderes que ele viria a ter mais tarde, no período pós-New Deal.

Entretanto, o mito de que Hoover era um conservador que não intervinha em nada — e que, por isso, permitiu que a crise se transformasse em uma depressão — permanece mais forte do que nunca.  Não edição de setembro de 2008 do periódico American Economic Review, o artigo "Grandes Expectativas e o Fim da Grande Depressão", do economista Gauti Eggertsson, explicitamente associa Hoover a uma adesão ao padrão-ouro, a orçamentos equilibrados e a um governo limitado.  O prêmio Nobel Paul Krugman, o influente colunista de economia do The New York Times, também concorda com esse mito criado a respeito de Hoover.

Entretanto, mesmo os fatos mais básicos já são suficientes para desmentir esse mito.  Por exemplo, os gastos federais aumentaram quase 50% ao longo dos três anos posteriores ao crash (durante um período de intensa deflação de preços).  Durante esse mesmo período, o orçamento federal saiu de um pequeno superávit e foi para um déficit de aproximadamente 4% do PIB.  Enquanto isso, o Banco Central americano (o Federal Reserve) reduziu a taxa básica de juros de 6 para 1,5% — até então o menor nível da história americana.

A fim de termos uma perspectiva adequada acerca de Hoover, vale lembrar que ele havia anteriormente servido no Comitê de Planejamento de Guerra durante a Primeira Guerra Mundial e, mais tarde, concordou em ser o secretário de comércio do presidente Warren G. Harding com a promessa de que teria "liberdade de ação sobre toda a política econômica".  É também revelador o fato de que, como resultado de seu incansável e frenético trabalho em todas as escalas do governo federal, ele foi subsequentemente apelidado de "Secretário do Comércio e Subsecretário de Todo o Resto".[3]

Baseando-se no mandato de Hoover como presidente, Franklin Roosevelt classificou o governo Hoover como "o mais imprudente e extravagante que já existiu em tempos de paz, baseando-se no histórico das estatísticas de qualquer período e de qualquer lugar".[4] O biógrafo de Hoover, Harris Warren (1959, p.vii), alega que o intervencionismo de Hoover foi tão significante que ele deveria ser creditado como o verdadeiro arquiteto do New Deal:

Ninguém, ao que me consta, fez justiça à administração Hoover. ... O resultado é um retrato distorcido daquilo que alguns historiadores estão chamando de "a era de Roosevelt".  Projetado contra os habituais relatos tendenciosos e sobejamente injustos a respeito da presidência de Hoover, o New Deal assume um brilho artificial e irreal.  Esquecido é o fato de que tudo o que Hoover fez foi, na realidade, uma preparação para os próximos passos, os quais acabaram sendo conhecidos coletivamente como o New Deal.

Até recentemente, a ciência econômica vinha sofrendo com o mito de que Hoover era um dogmático proponente do laissez-faire econômico.  Felizmente, trabalhos recentes feitos por economistas da linha convencional finalmente parecem estar fazendo algum progresso no sentido de derrubar esse mito e confirmar a tese de Rothbard.

Lee Ohanian (2009) desenvolveu uma teoria das "falhas do mercado de trabalho" para explicar a Grande Depressão.  Entretanto, o mercado de trabalho "falhou" por causa de Hoover.  Mais especificamente, a falha foi causada pelo programa industrial de Hoover e suas famosas reuniões na Casa Branca, nas quais ele advertia os empregadores a não cortarem salários e a utilizarem esquemas de partilha da mão-de-obra, estimulando a partilha das mesmas funções entre os funcionários de uma mesma empresa, quando na verdade o emprego precisava ser reduzido.  Ohanian conclui que as políticas de Hoover causaram a Grande Depressão e que a recessão foi três vezes pior — no mínimo — do que teria sido caso tais políticas não tivessem sido adotadas.[5]

Vedder e Gallaway (1993, p. 146) também demonstraram em grandes detalhes a validade da tese rothbardiana sobre Hoover.  Eles retratam Hoover como o originador do New Deal, o presidente cujas políticas de salário alto transformaram uma correção em uma depressão.

Na realidade, Roosevelt simplesmente continuou e expandiu a doutrina dos salários altos primeiramente articulada por Hoover.  Longe de ser o ousado novo reformista que veio para salvar a nação do laissez-faire adotado por um presidente reacionário, Roosevelt foi um presidente que habilmente e carismaticamente expandiu o legado deixado por seu progressista, embora desinteressante, antecessor.  Ele foi auxiliado nessa tarefa pela emergente respeitabilidade usufruída pela teoria do subconsumo (o consumo insuficiente, também chamado de keynesianismo) na comunidade intelectual.

O primeiro ponto acerca da tese de Rothbard é que foi o secretário do Tesouro de Hoover, Andrew Mellon (um remanescente de administrações republicanas anteriores), quem defendia o liquidacionismo (permitir que as falências ocorressem sem intervenções).  Mellon queria permitir que ocorresse o mesmo tipo de liquidação financeira que ocorreu durante a depressão de 1920-1921, o que permitiu que aquela depressão terminasse rapidamente.

Hoover compreendeu que as recomendações de Mellon eram as mesmas políticas que haviam sido seguidas por presidentes anteriores, e ele resolutamente se opôs a tal abordagem.  Hoover havia defendido políticas do mesmo estilo do New Deal durante a depressão de 1920-1921, mas a economia se recuperou rapidamente sob a política de laissez-faire liquidacionista implementada pelo presidente Harding.

Hoover acreditava que, se ele pudesse estimular a economia com gastos governamentais, proteger empregos e impedir que os salários caíssem, ele poderia impedir um grande colapso econômico.  Ao longo do seu mandato, Hoover faria qualquer coisa que fosse politicamente exequível a fim de alcançar seus propósitos.  Surpreendentemente, mesmo após mais de três anos de excruciantes consequências econômicas originadas por suas políticas, Hoover sentia-se totalmente justificado em suas ações.

Os últimos três anos foram de incomparável calamidade econômica.  Foram anos de sofrimentos e privações em uma escala maior do que todas já vivenciadas pelo povo americano desde o fim da Guerra Civil...

Dois caminhos estavam abertos.  Poderíamos não ter feito nada.  Essa opção nos levaria à ruína.  Ao invés disso, enfrentamos a situação com propostas à iniciativa privada e ao Congresso, apresentando o mais gigantesco programa de contra-ataque econômico já ocorrido na história da República.  Colocamo-lo em ação.  (Hoover's Papers, Vol. 2, pp. 247, 249)

A bolsa de valores começou a derreter no dia 24 de outubro de 1929.  Quando a crise veio, Hoover imediatamente implementou suas "propostas à iniciativa privada e ao Congresso, apresentando o mais gigantesco programa de contra-ataque econômico já ocorrido na história da República."

No dia 19 de novembro ele se encontrou com os presidentes das ferrovias, dos quais extraiu a promessa de que as suas empresas iriam expandir obras e gastos.  Dois dias depois, Hoover também recebeu a promessa de proeminentes industriais de que estes iriam expandir investimentos, manter salários e reduzir a semana de trabalho, para evitar demissões.  No mesmo dia, líderes sindicais deram seu apoio às propostas de Hoover, sendo que no dia seguinte os empreiteiros também concordaram em não reduzir os salários.  No dia 27 de novembro, foi a vez dos representantes de empresas de utilidade pública concordarem em também expandir suas obras e manter os salários no mesmo nível.

O governo federal americano começou a intervir na agricultura por volta do começo do século XX, e Hoover promoveu tal intervenção quando era membro do governo Harding.  Como presidente, ele concedeu subsídios e criou e estimulou cartéis de agricultores.  Por exemplo, dois dias após o crash da bolsa de valores, sua agência de estimação, o Conselho Federal de Agricultura, anunciou US$ 150 milhões em empréstimos a juros baixos para cooperativas de trigo e US$10 milhões para criar um cartel de cooperativas de cereais.  Com o passar do tempo, mais dinheiro foi sendo despejado nesses programas e mais safras foram incorporadas a essa política; porém, naturalmente, esses subsídios apenas estimularam mais produção e, consequentemente, preços mais baixos — e não mais altos, como era a intenção.  No final, os preços agrícolas despencaram e todos esses programas governamentais deram um prejuízo de milhões de dólares.

Em 1929, quando assumiu a Casa Branca, Hoover já vinha promovendo políticas ao estilo do New Deal por mais de uma década.  Sua teoria era: manter tanto os salários quanto os preços no mais alto valor possível, e estimular a economia com grandes obras públicas (e privadas) com o intuito de protegê-la da depressão e da deflação.  Ele incorretamente imaginava que salários altos eram a causa da prosperidade, quando na verdade é a prosperidade que gera salários mais altos.  Hoover era como um médico tratando os sintomas de uma doença, mas conseguindo apenas piorar a doença.  Durante todo esse período, Hoover sempre pressionou por mais gastos com obras públicas tanto em nível federal quanto estadual.

Em 1930, Hoover promulgou a Tarifa Smoot-Hawley, que elevou a níveis recordes as tarifas de importação para mais de 20.000 bens.  Além disso, ele decretou também outras medidas que visavam a atenuar a taxa de desemprego, como proibir a imigração, aumentar as deportações e até mesmo fazer propaganda para desestimular as pessoas a entrarem no mercado de trabalho.  Pode-se argumentar que é injusto incluir a tarifa Smoot-Hawley como parte do New Deal ou como política progressista, mas ela é incluída aqui porque, assim como outras políticas do gênero, ela foi criada para "proteger" a mão-de-obra e manter os salários elevados.  Para completar, houve ainda mais dinheiro alocado para programas de obras públicas com o intuito de "estimular" a economia em 1930.

Ao longo do restante de seu mandato como presidente, Hoover atuou vigorosamente para aumentar os gastos em obras públicas e para manter salários e preços em níveis altos.  Com efeito, os salários reais, ao final do seu mandato, estavam maiores do que quando ele começou assumiu a presidência em 1929 (não obstante o fato de que a taxa de desemprego subiu para níveis recordes; Vedder e Gallaway p. 84).  Ele também atuou para alterar as leis de falência em favor dos devedores, para criar as agências Reconstruction Finance Corporation (para conceder empréstimos a bancos, ferrovias, caixas hipotecárias e outros negócios) e Home Loan Bank (para conceder financiamentos subsidiados para pequenas empresas e empreendimentos rurais e agrícolas), e uma variedade de outras medidas progressistas para estimular os empréstimos feitos pelo governo e para aliviar o aprofundamento da crise econômica.  Hoover e o Banco Central defendiam políticas inflacionárias, mas somente na medida em que elas não ameaçassem a viabilidade do padrão-ouro.

Rothbard (1963) demonstrou que a amplamente difundida noção de que Hoover era um discípulo do laissez-faire é claramente absurda.  Ele mostrou que os esforços de Hoover para proteger a mão-de-obra e manter os salários artificialmente elevados foram a causa do desastre econômico, e que, em última instância, suas políticas foram responsáveis por transformar a recessão de 1929-1930 na Grande Depressão.

Bush, o intervencionista

O presidente George W. Bush alega ser um defensor do governo limitado, embora seu modelo seja Ronald Reagan e não o liberalismo europeu.  Ele foi presidente durante o estouro de duas bolhas.

Durante o primeiro estouro (das empresas pontocom), em 2001, Bush inicialmente recorreu a medidas keynesianas que não funcionaram.  Porém, cortes de impostos ocorridos em 2003 de fato aceleraram o ritmo da recuperação.  A segunda bolha — agora a imobiliária — estourou perto do final do seu segundo mandato, e ele tomou medidas dramáticas e sem precedentes para salvar a economia.  Se a teoria austríaca dos ciclos econômicos e do intervencionismo está correta, então Bush pode ter preparado o terreno para a Segunda Grande Depressão americana.

Contrariamente à tradição, foi demonstrado que Hoover já era um intervencionista de longa data muito antes de ele se tornar presidente.  O que dizer sobre George W. Bush?  Era ele um defensor do laissez-faire que se transformou em keynesiano tão logo a crise econômica irrompeu?

Quando George W. Bush concorreu à presidência em 2000, nenhum dos principais candidatos possuía programas atraentes e, francamente, minha principal preocupação estava no fato de que nenhum dos candidatos era inteligente e um deles de fato seria eleito presidente.

Durante a campanha, recebi um e-mail de um grupo chamado "Economistas por Bush".  O e-mail continha uma carta que havia sido assinada por vários e importantes economistas pró-mercado.  O e-mail pedia meu endosso à campanha de Bush e a suas políticas relacionadas à Previdência Social, ao imposto de renda, à educação, aos gastos do governo e ao comércio internacional.  A plataforma econômica de Bush basicamente clamava por modificações na maneira como o governo deveria administrar tudo, com a simples promessa de que a administração seria melhor e mais eficiente.

Estudando essas promessas políticas, pensei sobre as duas possíveis ideologias de George Bush: a velha ideologia da família Bush, de inflação e guerra, e a ideologia adotada por George, de conservadorismo evangélico.  No final, decidi que ambas as ideologias levariam o país a uma economia ruim.  Suas promessas simplesmente não eram boas o bastante.  Decidi então aproveitar a oportunidade para mandar um e-mail em resposta, oferecendo a esses economistas um memorando de minha própria autoria.

Nessa minha resposta, rejeitei a ideia de endossar o plano econômico de Bush.  Por exemplo, o plano clamava pelo "fortalecimento" e pelo "salvamento" da Previdência Social.  Qualquer análise lógica comprova que a Previdência tornou-se uma instituição insustentável e perigosa, a qual mesmo seus críticos vêm preservando ao longo dos últimos 75 anos.  Escrevi dizendo que qualquer política racional deveria ter o objetivo de eliminar a Previdência Social "o mais humanamente rápido possível".

Já a parte da carta que falava sobre o orçamento clamava por um congelamento dos gastos do governo, redirecionando verbas para as forças armadas e quitando a dívida nacional.  Em resposta, observei que os mecanismos que Bush pretendia utilizar para manter os gastos sob controle não funcionariam e que "o país já gasta bastante com defesa nacional, a menos que vocês tenham em mente envolver os EUA em ainda mais conflitos internacionais, além dos que ocorreram na antiga Iugoslávia, no Iraque, na Somália etc."

Não é preciso muito esforço para demonstrar que George W. Bush não foi um conservador pró-governo limitado durante seu mandato presidencial.  Por exemplo, os gastos federais anuais cresceram mais de US$ 1,1 trilhão durante seu exercício do cargo.  Mesmo em porcentagem do PIB, os gastos federais aumentaram de 18,5% em 2001 para 21% em 2008.  Este passou a ser o maior valor desde 1994, eliminando todo o progresso que havia sido feito durante os anos Clinton.  Ao invés de manter os gastos do governo sob controle, Bush expandiu-os enormemente em todas as áreas. 

Bush também — e isso de maneira famosa — transformou um orçamento federal maciçamente superavitário em um monstruosamente deficitário.  Ajustando-se o déficit/superávit do orçamento federal pela inflação, e então comparando os números ao PIB, descobre-se que Bush chegou à presidência com um superávit real de 1,3% do PIB e saiu deixando um déficit real de 3,2% do PIB.

Durante toda a minha vida, raramente houve algum superávit no orçamento do governo federal.  Isso mudou no final da década de 1990, quando a bolha das empresas de internet possibilitou um grande e inesperado aumento da arrecadação do governo federal (via impostos sobre ganhos de capital).  O governo federal, por conseguinte, apresentou superávits orçamentários em 1998, 1999 e 2000.  O legado econômico de Bush, portanto, é o retorno aos amplos e crescentes déficits orçamentários da geração de seu pai.  Ao invés de "continuar quitando a dívida nacional", os americanos agora têm de continuar empurrando déficits anuais de um trilhão de dólares para serem pagos num futuro próximo.

A resposta do governo Bush à crise começou com a típica redução de juros feita pelo Banco Central americano, o Fed.  Em meados de dezembro de 2007, o Fed anunciou a primeira de várias e inéditas medidas com a criação dos Term Auction Facility (leilões para injeção de liquidez), cuja função seria a de leiloar dinheiro para instituições financeiras recebendo em troca uma variedade de colaterais como garantia, sem que os tomadores desses empréstimos tivessem de ser identificados.  O Fed também estabeleceu arranjos monetários recíprocos com o Banco Central Europeu e com o Banco Central suíço.

Em meados de fevereiro de 2008, o presidente Bush criou o Decreto do Estímulo Econômico de 2008, o qual fornecia US$150 bilhões em restituição de impostos.  Em meados de março, o Fed anunciou a Term Securities Lending Facility (Linha de Empréstimo de Ativos a Termo), o qual poderia emprestar até US$ 200 bilhões em títulos do Tesouro para instituições financeiras problemáticas em troca dos ativos podres destas.

O governo também anunciou o Primary Dealer Credit Facility (programa de crédito para os dealers primários) e o Fed arquitetou uma subsidiada aquisição do Bear Stearns pelo JP Morgan.  O governo primeiro tentou reforçar financeiramente as agências para-estatais Fannie Mae e Freddie Mac em julho, porém essas duas entidades patrocinadas pelo governo tiveram de ser socorridas e encampadas em setembro.

A tomada da seguradora AIG seria o passo seguinte, junto com a garantia dada pelo governo aos fundos mútuos do mercado monetário.  Em outubro, Bush aprovou o Troubled Asset Relief Program (TARP — Programa de Alívio para Ativos Problemáticos), um programa que destinou US$ 700 bilhões de socorro ao sistema financeiro, e também aumentou o seguro federal sobre depósitos bancários para US$ 250.000.  Finalmente, o Tesouro comprou US$ 125 bilhões em ações preferenciais de nove grandes bancos americanos.

Este foi apenas um resumo geral do esforço do governo Bush para combater a crise durante o último ano de seu mandato.  A maioria dos programas mencionados acima sofreu várias ampliações e expansões, além de, é claro, ter havido várias outras intervenções, como os pacotes de socorro para as montadoras americanas e as expansões das linhas de crédito estrangeiro e das operações de troca cambial (swaps).

A maior parte das medidas do governo veio do Banco Central americano, o Fed, que estava sob o comando de uma pessoa nomeada por Bush, Ben Bernanke, e do Tesouro, que também estava sob o comando de uma pessoa nomeada por Bush, o ex-presidente do Goldman Sachs Hank Paulson.

Com tudo isso, seria lógico dizer que o presidente Bush é um intervencionista estatizante e que sua administração atacou a correção econômica com um abrangente e em muitos casos inaudito intervencionismo.  A única grande diferença entre Bush e Hoover é que, enquanto Hoover tinha como objetivo principal preservar salários e empregos, Bush fez da preservação dos mercados financeiros sua maior prioridade.

Na parte final deste artigo, falaremos sobre como o intervencionismo transforma uma crise em depressão.

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Notas

[1] Não há uma definição oficial para o que seria uma depressão econômica, e o termo depressão atualmente refere-se a uma recessão severa.  Já foi sugerido que critérios como um declínio de pelo menos 10% no PIB, uma taxa de desemprego de 10% ou maior, ou uma recessão que dure dois anos ou mais sejam utilizados para especificar uma recessão.

[2] Embora não seja oficialmente uma "grande" depressão, a atual crise econômica é reconhecida como a mais significativa crise econômica americana desde a Grande Depressão.

[3] De acordo com a Herbert Hoover Presidential Library and Museum (14/10/2009).

[4] Como citado em Folsom, 2009, p. 40

[5] Ohanian também faz parte da dupla Cole e Ohanian (2004) que mostrou que as políticas do New Deal de Roosevelt não apenas não tiraram os EUA da Grande Depressão, como, pior ainda, foram a causa primária de seu prolongamento.  Utilizando um modelo similar de falha do mercado de trabalho, eles mostraram que as políticas de Roosevelt aumentaram os salários reais significativamente acima dos níveis que prevaleceriam no livre mercado, reduzindo assim o emprego e a produção.  É claro que tal argumento já foi feito inúmeras vezes antes — por Couch e Shughart (1998), por exemplo —, mas essa foi a primeira vez que ele foi apresentado por economistas da linha convencional em um grande jornal acadêmico.

Referências

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SOBRE O AUTOR

Mark Thornton
um membro residente sênior do Ludwig von Mises Institute, em Auburn, Alabama, e é o editor da seção de críticas literárias do Quarterly Journal of Austrian Economics. Ele é o co-autor do livro Tariffs, Blockades, and Inflation: The Economics of the Civil War e editor de The Quotable Mises e The Bastiat Collection.



A meu ver, essa "desregulamentação" estatal sobre a terceirização não passa de uma intervenção, de feição "liberal", que não implicará nos efeitos desejados e previstos.

Basicamente, pelo que eu entendi, a intenção do governo é gerar mais empregos que de fato paguem salários realmente vinculados à riqueza produzida pelo empregado. Com isso, busca se mover a economia, através de poupanças, maior capital do empregador para investimento e consumo real dos empregados. Desse modo, o Estado pode arrecadar mais, pois, na análise de Smith que é complementanda pelo autor do artigo, a especialização (terceirização) gera riqueza e prosperidade. Fugindo, portanto, do ideal keynesiano de que quanto maior o consumo de quem produz maior o progresso, negligenciando a possível artificialidade dessa troca.

Minha objeção consiste em afirmar que a regulamentação do modo que foi feita não é benéfica para o Estado, logo, como tudo no Brasil, querendo ou não, está ligado à esse ente, não torna se benéfica ao indivíduo.

Primeiro, pelo fato de que, as empresas que contratam outras empresas terceirizadas podem ter um elo empregatício direito com os empregados dessa última. Nessa perspectiva, caso uma terceirizada, receba os repasses do contratante, porém não esteja pagando os benéfícios/ salários dos seus empregados em dia, sob alegações diversas, iniciará se um processo judicial entre a empresa contratada e o contrante para solucionar esse caso, haja vista que é do interesse do terceirizado receber o que lhe é devido. Consequentemente, o tempo depreendido, os custos humanos e financeiros são extremamente onerosos para a empresa contratante, de modo que, sua produtividade e poder de concorrencia no mercado é reduzida. Ou seja, a continuidade do desrespeito aos contratos firmados e a morosidade da Justiça, práticas comuns no país, muitas vezes, anulam a ação estatal que visa gerar mais empregos e melhorar a produtividade das empresas. O que afeta principalmente os empreeendedores com um capital menor e que operam em mercados menos regulados. Logo, busca se intervir para corrigir um problema, sendo que o corolário dessa nova intervenção é exaurido por uma ação feita anteriormente

Outro ponto pouco abordado por vocês é que as terceirizações beneficiam também os empresários oriundos de reservas de mercado. Logo, uma ação estatal que, a posteriori privilegia os amigos dos políticos, não pode implicar nas consequências previstas a priori. Isso porque, a possibilidade contratação de terceirizados a partir de salários menores do que de fato seriam em um contexto natural/equilibrado torna se muito mais viável para os corporativistias, pelo simples fato de que seus acordos com agências e orgãos públicos influenciam também nas decisões judiciárias que envolvem a sua empresa e a empresa terceirizada. Desse modo, o megaempresário contrata a empresa terceirizada e estabelece um acordo onde há um repasse menor da grande empresa para a terceirizada e, na sequência, apenas uma parte muito pequena, não correspondente ao valor gerado, desse repasse para a empresa terceirizada é convertida em salários para os terceirizados, onde a empresa terceirizada acaba lucrando mais, ao ter menos gastos. Portanto, um terceirizado que trabalha para uma empresas monopolística (no sentido austríaco) possui maiores chances de ser ludibriado e não lhe resta muitas opções de mudança de nicho, haja vista que infelizmente inúmeros setores do mercado brasileiro sofrem regulação e intervenção constante do governo.

No mais, ótimo artigo.
Gustavo, os Dinamarqueses podem usufruir desse tipo de assistencialismo, justamente porque o mercado deles é produtivo.

O mercado deles é produtivo como consequência da LIBERDADE DO MESMO, como o próprio artigo aponta.

Lá não existe salario mínimo, o imposto sobre o consumo é baixo, assim como o imposto sob pessoa jurídica.
No máximo, o imposto de renda é alto, mas eles tem uma moeda forte e estável, um lugar livre pra se empreender e contratar alguém(não existe nem salário minimo lá!).

Defender o modelo Dinamarques na situação Brasileira demonstra toda a ignorância básica em economia, nosso mercado fechado produz pouco pra aguentar um estado desse tamanho. Ainda sim, o estado da Dinamarca é menor que o Brasileiro, nunca ouvi falar sobre lá ter quase 40 ministérios, nunca ouvi falar lá sobre a existência de Agencias Reguladoras em todos os setores do Mercado, nunca ouvi falar lá sobre a existência de centenas de estatais!

E mais, a crise Sueca dos anos 80 justamente explica isso, o Welfare explodindo nessa época acabou ''sufocando'' o mercado, deixando-os em uma crise enorme de déficits astronomicos.
Qual foi a solução?

Austeridade e Livre-Mercado, na década de 90 a suécia voltou a crescer fortemente, uma reforma radical de corte de gastos e liberdade de mercado, no fim das década de 80 e começo da 90, permitiu que a Suécia saísse da crise causada pelo Welfare.

Mas por fim, você acha justo tirar o dinheiro das pessoas a força pra sustentar tudo isso para os que não querem trabalhar?

Antes de qualquer boa consequência, analise a ética e a moral.
É como querer defender o homicídio, dizendo que isso amenizara a escassez na terra no futuro. Não interessa, homicídio de inocentes é errado, é irrelevante as boas ou ruins consequências que o crime pode trazer.

E mais, Noruega já esta retirando dinheiro do seu fundo, mais uma vez veremos mais uma crise em alguns escandinavos, o peso do estado não dura muito, por mais produtivo que um mercado seja. É economicamente impossível, a empiria da ciência economica prova isso!

O texto apenas demonstra que o sistema capitalista, ainda mais a forma liberal, é totalmente ineficiente.

Senão vejamos,

1: hoje já não é proibido nenhuma empresa ter seus laboratórios e certificados de qualidade internos ou externos, inclusive no Brasil existe a certificação "Certified Humane Brasil é o representante na América do Sul da Humane Farm Animal Care (HFAC), a principal organização internacional sem fins lucrativos de certificação voltada para a melhoria da vida das criações animais na produção de alimentos, do nascimento até o abate"; (não necessita liberalismo para isso), inclusive a Korin agropecuária é certificada por essa empresa, entre tantas outras.

2: Não é proibido nenhuma instituição avaliar a qualidade dos produtos e denunciar caso seja de péssima abaixo do esperado; (não necessita liberalismo para isso também)

3: No liberalismo estas mesmas instituições que avaliariam a qualidade ou emitiriam certificados poderiam ser construídas justamente para os objetivos do bloco gigante de algum ramo, como por exemplo carne, tendo esse poder eles também teriam o poder de patrocinar jornais e revistas para desmentir qualquer empresa de certificados privados concorrente e pronto, num mundo globalizado quem não aparece não é visto. O lucro dos grandes blocos estaria garantido... num capitalismo sem regulação estatal quem iria impedir isso? Da mesma forma que a "Certificadora" do grande grupo poderia difamar as carnes de um grupo concorrente.

claro, se não existissem grupos, talvez até funcionaria, porém pq não criar grupos para ter maior vulto de recursos para maior propaganda e maior lucro? Justamente. Apenas prova objetivo maior - lucro - é o motor para irregularidades, seja de agente público ou privado.

aguardando respostas...

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Heber  19/01/2011 12:25
    Outro fato histórico importante a ser notado: da mesma forma que Roosevelt continuou e até piorou as medidas de Hoover, Obama também está piorando e ampliando as medidas de Bush.Parece que a incoerência não escolhe partido!
  • Gilmar Rodrigues  19/01/2011 13:09
    Nossa da para fazer até um pequeno paralelo com FHC e Lula e o que pode esperar o Brasil no futuro, onde foram parar os liberais dos EUA?
  • InA¡cio Neto  20/01/2011 15:36
    Ótimo artigo.
  • Arthur Portella  06/05/2011 17:57
    Anos de lavagem cerebral pelos marxistas nas universidades, tudo financiado pela Kgb, olhe Berkeley, Harvard, as mais prestigiosas universidades se tornaram redutos de petistas letrados.
  • patricio  22/05/2014 01:19
    Seguindo este raciocínio tempos difíceis aparecerão na economia Brasileira
  • Emerson Luis, um Psicologo  06/09/2014 14:31

    É impressionante como os EUA continuam sendo um país rico mesmo após todas essas décadas de intervencionismo. Como seria se tivesse mantido o liberalismo do século 19?

    * * *


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