Biografia de Eugen von Böhm-Bawerk

"O trabalho não pode aumentar sua fatia em detrimento do capital"

Eugen von Böhm-Bawerk (nascido a 12 de fevereiro de 1851; morto em 1914) estava no lugar certo e na hora certa para poder contribuir de maneira considerável ao desenvolvimento da economia austríaca. Estudando na Universidade de Viena, ele tinha vinte anos quando o livro de Carl Menger, Princípios de Economia Política, foi publicado em 1871. Sua educação universitária formal havia sido em direito (sendo assim, ele não foi realmente um aluno de Menger), mas após ter terminado seu doutorado nessa área, em 1875, ele começou a se preparar, tanto em casa quanto no exterior, para lecionar economia na sua Áustria natal.

Um progresso paralelo do direito para a economia também caracterizou a carreira de seu colega (e, mais tarde, seu cunhado) Friedrich von Wieser, mais conhecido por seu livro Natural Value, publicado em 1893. A forte influência dos escritos de Menger sobre o pensamento de Böhm-Bawerk, simultaneamente ao seu relacionamento vitalício com Wieser, fez de Böhm-Bawerk um inato para expor e desenvolver a teoria austríaca. De acordo com Schumpeter (History of Economic Analysis, New York: Oxford University Press, 1954, p. 846), Böhm-Bawerk "era tão completamente o entusiástico discípulo de Menger, que é praticamente desnecessário procurar por outras influências sobre ele".

A carreira de Böhm-Bawerk como estudioso, no entanto, foi intermitente. A amplitude mais significativa de suas atividades estudiosas foram seus anos na Universidade de Innsbruck (1881-1889). Foi durante os anos 1880 que ele publicou dois dos três volumes de sua obra magna, Capital and Interest (Capital e Juro). Seus anos posteriores foram dominados por suas obrigações como Ministro das Finanças da Áustria, uma função que ele exerceu, de forma não contínua, por toda a década de 1890 e além - e pela qual ele é propriamente reverenciado tendo sua imagem estampada na nota de cem schillings austríaca. Após ter servido nessa lotação e ter assumido outras funções governamentais, ele voltou a lecionar em 1904. Com uma cátedra na Universidade de Viena, ele se tornou colega de Wieser, que já era sucessor do aposentado Menger. Dentre os alunos que passaram pela universidade durante a última década da carreira de Böhm-Bawerk (e da vida: ele morreu em 1914) incluem-se Joseph Schumpeter e Ludwig von Mises.

Em 1959, as mil e duzentas páginas de Capital e Juro foram traduzidas para o inglês por Hans Sennholz e George Huncke, e publicadas como volume único. Resenhando essa nova tradução, Mises descreveu essa "obra monumental" como sendo "a mais eminente contribuição para a moderna teoria econômica". Ele disse que ninguém poderia se considerar um economista a menos que estivesse perfeitamente familiarizado com as idéias esposadas por esse livro; e ele foi até mais longe ao sugerir - como somente Mises poderia - que nenhum cidadão que levasse suas funções cívicas a sério poderia exercer seu direito de votar até que ele tivesse lido Böhm-Bawerk!

O primeiro volume de Capital e Juro, intitulado History and Critique of Interest Theories (História e Crítica das Teorias do Juro), de 1884, é um levantamento exaustivo dos tratamentos alternativos dados ao fenômeno dos juros: teorias do uso, teorias da produtividade, teorias da abstinência, e muitas outras. O que é mais significativo nessa obra inicial é sua crítica devastadora da teoria da exploração, que era adotada por Karl Marx e seus precursores: os capitalistas não exploram os trabalhadores; eles na verdade fazem um favor para os trabalhadores — fornecendo-lhes renda bem antes que chegue a receita do produto que eles ajudaram a produzir. Mais de uma década depois, Böhm-Bawerk visitou novamente os assuntos levantados pelos socialistas. No seu livro Karl Marx and the Close of His System (Karl Marx e o Fechamento do Seu Sistema) estabeleceu que a questão de como a renda é distribuída entre os fatores de produção é fundamentalmente uma questão econômica, e não política. E a resposta austríaca refutou eficazmente a teoria do valor, assim como a chamada "lei de ferro dos salários".[1]

Outro livro de Böhm-Bawerk, Positive Theory of Capital (Teoria Positiva do Capital), de 1889, oferecido como o segundo volume de Capital e Juro, contém sua mais profunda e substancial contribuição para a nossa compreensão acerca dos processos de produção indiretos da economia e dos pagamentos de juros que eles acarretam. Mas esse volume oferece muito mais. Sua abordagem sobre "Valor e Preço" (livro II) se baseia em Princípios, de Menger, para apresentar uma versão inconfundivelmente austríaca do marginalismo. É aqui que encontramos a celebrada discussão feita por Böhm-Bawerk (pág. 143) sobre o fazendeiro pioneiro que se depara com decisões sobre a alocação de seus sacos de grãos entre variados usos - como alimentação básica para ele próprio, para suas galinhas e seus papagaios, e como um ingrediente para fazer conhaque. A essência do marginalismo austríaco é ilustrada através de sua estória sobre o que aconteceria se o fazendeiro sofresse a perda de um saco de grãos. Essa estória e outras variações dela, contada inúmeras vezes em livros-texto por várias décadas desde então, contrasta com as funções matemáticas de utilidade total, que são duplamente diferenciáveis (podem ser derivadas duas vezes), e que evoluíram do marginalismo de Stanley Jevons e das equações de equilíbrio geral típicas de Leon Walras.

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Apêndices para a terceira edição do segundo volume (1909-1912) apareceram como um terceiro volume independente em 1921, com o título de Further Essays on Capital and Interest (Ensaios adicionais sobre Capital e Juro). Nele, Böhm-Bawerk apresenta esclarecimentos, classificações e extensões para sua teoria e ainda responde aos seus críticos. Esses ensaios, altamente consistentes, também revelam muito sobre os métodos retóricos e doutos do seu autor. Böhm-Bawerk raciocina como um economista e argumenta como um advogado; suas observações mais críticas são direcionadas àqueles cujas teorias são mais intimamente parecidas com as dele. Por exemplo, a teoria de Gustav Cassel, na qual a taxa de juro faz com que a oferta e a demanda "esperem" até que se equilibrem, é rejeitada completamente. E apesar do fato de a escola austríaca ser conhecida por sua atenção às questões metodológicas, Böhm-Bawerk faz uma abordagem aberta e irrestrita. Schumpeter enuncia a máxima implícita: "Escreva pouco ou nada sobre método; em vez disso, trabalhe o mais ativamente possível com todos os métodos disponíveis".

A economia moderna se notabiliza por negligenciar o capital como sendo uma estrutura intertemporal de bens intermediários. A produção leva tempo, e o tempo que separa a formulação dos planos de produção - que são estágios de vários períodos - e a satisfação das demandas do consumidor é abreviado pelo capital. Esses aspectos da realidade econômica, quando sequer são mencionados nos livros-textos modernos, são apresentados como sendo "as questões espinhosas do capital", uma frase reveladora que indica um tratamento indelicado dispensado a esse crítico tema. Apesar de ser uma lacuna na economia mainstream, a economia austríaca desde seu início tem dado uma distinção especial à teoria do capital. Estando absolutamente ciente de todos os espinhos, Böhm-Bawerk erigiu sua carreira acadêmica em torno de dois objetivos: entender a relação entre capital e juros e expandir a teoria do valor para o contexto da alocação intertemporal.

No princípio de sua carreira, Böhm-Bawerk se ocupou de uma questão central que era muito discutida por seus contemporâneos e predecessores. "Há alguma justificativa para o pagamento de juros aos donos do capital?" A justificativa, em sua concepção, jaz em um simples fato da realidade: as pessoas valoram bens atuais mais favoravelmente do que bens futuros de mesma qualidade e quantidade. Bens futuros são comercializados com um desconto, ou alternativamente, bens presentes são comercializados com um ágio (um prêmio). O pagamento de juros é um reflexo direto dessa diferença de valor intertemporal. Esse juro, ou ágio, pago aos capitalistas permite que os trabalhadores recebam sua renda em espaços de tempo mais constantes do que de outra forma seria possível. Essa explicação de Böhm-Bawerk sobre a "teoria do ágio" e suas implicações para a "teoria da exploração" foram indubitavelmente suficientes para que ele ganhasse o reconhecimento dos historiadores do pensamento econômico. Mas com essa teoria ele quebrou barreiras e foi capaz de explorar com sucesso sua refutação da doutrina socialista, dando um novo discernimento ao sistema capitalista.

Sua Teoria Positiva culmina em um modelo macroeconômico de equilíbrio geral que serve para iluminar as questões clássicas sobre a acumulação do capital e sobre o progresso técnico, para resolver o problema neoclássico da existência e da determinação das taxas de juros, além de outras coisas. Ele combinou sua teoria do juro-ágio com a teoria marginal do valor, de Menger, para mostrar que: dado o valor salarial que o mercado estabelece, os empreendedores capitalistas que querem maximizar o lucro irão se engajar em atividades produtivas que não apenas empreguem a força de trabalho ao seu máximo, mas que também absorvam completamente os fundos de subsistência da economia (isto é, os fundos para empréstimos). Fazendo uso dos mais antigos e mais fundamentais insights austríacos e assumindo uma perspectiva economicamente ampla, Böhm-Bawerk fez um elo entre a estrutura intertemporal de produção e as preferências intertemporais dos trabalhadores e de outros assalariados. Quase que meio século antes de John Maynard Keynes fazer asserções contrárias e oferecê-las na sua Teoria Geral, a Teoria Positiva mostrou que o mercado para a mão-de-obra e o mercado para fundos de empréstimos - ou, mais amplamente, o mercado para a subsistência - poderiam simultaneamente achar seus respectivos equilíbrios.

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Temos, então, que Böhm-Bawerk era um macroeconomista - e bastante introspectivo. Os economistas clássicos, especialmente Ricardo, poderiam em retrospecto ser considerados macroeconomistas em uma era que é anterior à concepção moderna do termo. A própria palavra "macroeconomia", obviamente, é relativamente moderna. Paul Samuelson, que reorganizou o tema da economia seguindo uma base que faz distinções de primeira ordem entre microeconomia e macroeconomia, rastreia essa distinção até Ragnar Frisch e Jan Tinbergen, e data a estréia da palavra "macroeconomia" em uma obra de Erik Lindahl em 1939. Mas em seu ensaio de 1891 sobre "Os Economistas Austríacos", citado anteriormente, Böhm-Bawerk escreveu que "uma pessoa não pode se abster de estudar o microcosmo se ela quer entender corretamente o macrocosmo de uma economia desenvolvida". Inclusos nessa suavizada máxima metodológica estão o seu desejo de entender a macroeconomia e seu reconhecimento de que as bases da microeconomia são essenciais para uma macroeconomia viável - uma noção que, no mainstream, surgiu apenas em meados dos anos 1960.

Para ajudar na sua exposição da macroeconomia do capital e dos juros, Böhm-Bawerk introduziu sua figura da "mosca de um alvo" - um desenho de anéis concêntricos que tem o objetivo de representar a estrutura temporal da produção. A produção começa no centro da figura com o uso dos meios originais (terra e trabalho); o processo vai se emanando para fora com o passar do tempo; e o produto final emerge no anel mais afastado, que é onde a satisfação dos fins máximos do consumidor é atendida. Duas figuras de "mosca de alvo" que aparecem em duas páginas consecutivas são usadas para contrastar uma economia bem desenvolvida com uma menos desenvolvida. Essa representação idiossincrática pode ser vista como uma precursora da representação mais direta, feita por F. A. Hayek durante o período entre guerras, da estrutura triangular de meios-e-fins. O triângulo hayekiano captura a linearidade essencial - não que se esteja negando que haja não-linearidades significantes - da estrutura de produção. O triângulo, que é dividido ao longo do eixo do tempo em "estágios da produção", corresponde rigorosamente à figura da "mosca de alvo", que é dividida ao longo do raio em "classes de maturação".

bohmbawerk4.jpgApesar de ser estática em sua própria construção, a figura da "mosca de alvo", bem como o mais conhecido triângulo hayekiano, tem a finalidade de facilitar a análise das mudanças. Qual é a natureza das forças de mercado que governam a alocação de recursos entre os vários anéis? A análise formal de Böhm-Bawerk - e os gráficos simples com mais algumas ilustrações aritméticas já são o limite das formalidades - ajuda o leitor a entender a situação. Para Böhm-Bawerk, entretanto, "entender a situação" é apenas um prelúdio para "contar a história".

E a sua maneira de contar a história, sua análise informal da natureza do processo de mudança, é livre de representações estáticas. Para o caso do estado estacionário, os anéis concêntricos têm duas interpretações: (1) o processo de produção pode ser visto como se estivesse se movendo ao longo do tempo desde o primeiro insumo até o produto final e (2) as áreas dos anéis podem representar as quantidades de diferentes tipos de capital (bens em processamento) que existem em um ponto qualquer no tempo. Mas descrever o estado estacionário significa apenas estabelecer um ponto de partida para uma discussão maior sobre mudanças.

Böhm-Bawerk considerou brevemente a questão: "Qual o procedimento a ser seguido se desejarmos apenas preservar a quantidade de capital em sua dimensão anterior?" Sua resposta, dada prontamente, é seguida pela pergunta mais importante: "O que deve ser feito se tiver que haver um aumento no capital?" A resposta para essa questão chave, que é o que distingue a macroeconomia austríaca daquilo que viria a ser chamado de macroeconomia mainstream, envolve uma mudança na configuração dos anéis concêntricos. Vários tipos de mudanças são sugeridas, cada uma acarretando a idéia de que a poupança genuína só é atingida em detrimento do consumo e do capital nos anéis mais externos, e que a poupança torna possível a expansão do capital nos anéis mais internos. Böhm-Bawerk diz que em uma economia de mercado são os empreendedores que tornam possíveis tais mudanças estruturais e que seus esforços são guiados por mudanças nos preços relativos dos bens de capital nos vários anéis.

Formal ou informal, a mensagem é clara: uma expansão da estrutura do capital não deve ser vista como um aumento simultâneo e igualmente proporcional no capital em cada uma das classes de maturação; ela deve ser vista como uma realocação do capital entre as classes de maturação. Negligenciado por seus predecessores e grandemente ignorado pelo moderno mainstream, é este o mecanismo de mercado que mantém os planos de produção intertemporal da economia de acordo com as preferências intertemporais dos consumidores. O significado desse mecanismo de mercado era o ponto em questão no seu debate com John B. Clark, que defendia a tese de que uma vez que o capital estivesse adequado, a manutenção dele seria automática; e a produção e o consumo seriam, na verdade, simultâneos. Conquanto um leitor atual possa concluir que Böhm-Bawerk venceu o debate e que nos anos posteriores Hayek obteve vitória semelhante em seu debate contra Frank Knight, a evolução da macroeconomia mainstream reflete a crença implícita de que foram Clark e Knight os vencedores.

É fácil para os modernos economistas austríacos perceber que Böhm-Bawerk estava a apenas um passo de articular a teoria austríaca dos ciclos econômicos. Esse passo - que foi na verdade dado por Mises e Hayek - teria envolvido uma comparação das mudanças nas configurações dos anéis, procurando entender se essas mudanças eram induzidas por questões puramente preferenciais ou por questões puramente políticas. Uma mudança das preferências intertemporais no sentido de aumentar a poupança provoca uma realocação do capital entre os anéis de tal forma que a economia vivencia uma acumulação de capital e um crescimento sustentável; uma mudança nas condições do crédito que seja politicamente induzida, isto é, uma diminuição artificial das taxas de juros proporcionada pelo empréstimo de dinheiro recém criado (por um banco central que imprime dinheiro do nada), provoca más alocações do capital entre os anéis de tal forma que a economia sofre um crescimento insustentável e uma crise econômica.

O desenvolvimento da teoria nessa direção estava além das intenções de Böhm-Bawerk pelo simples motivo de que ele não se permitiria aventurar em teoria monetária. Sua postura perante esse assunto é revelada em suas cartas ao economista sueco Knut Wicksell, cujas idéias sobre a divergência entre a taxa de juros de mercado e a taxa natural se tornariam uma importante parte da teoria austríaca. Em 1907, ele escreveu: "Ainda não pensei bem e nem trabalhei na questão do dinheiro de maneira mais douta, portanto me sinto inseguro em relação a esse assunto". Em 1912: "Você sabe que eu realmente não me sinto competente para dissertar sobre a extremamente dificultosa teoria da moeda".

Também em 1912, referindo-se à Teoria da Moeda e do Crédito, na qual Mises articulou pela primeira vez a teoria austríaca dos ciclos econômicos, Böhm-Bawerk menciona para Wicksell "um livro sobre a teoria da moeda escrito por um jovem estudioso vienense, Dr. Von Mises. Mises é um aluno meu e do Prof. Wieser. Isso, entretanto, não significa que eu queira tomar responsabilidade por todos os seus posicionamentos. Apenas comecei a ler seu livro e ainda não estou familiarizado com seu conteúdo". E finalmente em 1913, um ano antes de sua morte, "Ainda não incluí em meus pensamentos a questão da teoria da moeda; portanto, ainda estou hesitante em emitir qualquer julgamento sobre as difíceis questões que tal assunto levanta".

Schumpeter lista cinco questões gerais que Böhm-Bawerk excluiu de sua agenda de pesquisa, uma das quais era a questão da moeda: Böhm-Bawerk defendia o "indestrutível núcleo da verdade" da teoria quantitativa, mas aceitava a idéia de que o dinheiro era um lubrificante, cuja única função é facilitar as trocas. Uma segunda questão que foi excluída - vendo-se em retrospecto, percebe-se que era um óbvio corolário da primeira - foi a teoria dos ciclos econômicos: Böhm-Bawerk considerava que as crises econômicas "não são fenômenos econômicos endógenos e nem uniformes, mas, sim, as conseqüências do que em princípio são distúrbios acidentais do processo econômico". (As outras três questões excluídas foram população, comércio internacional e teoria aplicada dos preços e da distribuição).

Podemos facilmente perdoar Böhm-Bawerk por esse pecado da omissão. Quando um pensador sagaz dá um grande salto adiante, não temos o direito de reclamar que o salto poderia ser ainda maior. Ao invés disso, devemos reconhecer que os sucessivos saltos dados por Mises, Hayek e outros fizeram com que o próprio salto dado por Böhm-Bawerk parecesse o maior de todos.

A literatura antiga e moderna sobre a economia de Böhm-Bawerk identificou muitos outros supostos pecados. Grande parte das críticas vem da própria escola austríaca: sua teoria era insuficientemente subjetivista. Sua defesa da teoria do juro-ágio se baseava desnecessariamente em considerações psicológicas. Sua avaliação do tempo de produção consistia em analisar o passado ao invés de fazer provisões para futuro. As críticas advindas de fora da escola austríaca advêm maciçamente de uma atenção desmedida dada às ilustrações aritméticas de Böhm-Bawerk e de tentativas de se reformular sua teoria de maneira a seguir a linguagem da teoria neoclássica formal. Suas conclusões sobre a relação entre a taxa de juros e o grau de percursos indiretos[2] no processo de produção ocorrem de maneira menos comum do que ele nos levaria a acreditar. A estrutura intertemporal do capital na economia não pode ser reduzida a um número único. A dependência do período médio de produção em relação às taxas de juros invalida muito da sua teoria. Felizmente, essas e muitas outras críticas deixam intactas as idéias essenciais que foram importantes para Böhm-Bawerk e para o desenvolvimento futuro da teoria austríaca.

Mesmo um economista substancial como Schumpeter chegou a afirmar que o juro é um fenômeno de desequilíbrio e fantasiou sobre um equilíbrio de longo prazo em que as forças de mercado derrubariam as taxas de juros para zero. John Maynard Keynes disse que os juros são um fenômeno puramente monetário. Frank Knight, seguindo John B. Clark, criando aquilo que Hayek chamaria de "mitologia do capital", disse que a produção e o consumo ocorrem simultaneamente, que o período de produção é irrelevante, e que as taxas de juros são totalmente determinadas por considerações tecnológicas. Essas e outras reviravoltas na visão do capital e do juro no século XX dão um significado agigantado à sabedoria duradoura de Eugen von Böhm-Bawerk.

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Bibliografia 

Böhm-Bawerk, Eugen von, "The Positive Theory of Capital and Its Critics," Quarterly Journal of Economics, vol. 9, (Janeiro), 1895, pp. 113-131. 

________. Karl Marx and the Close of His System. Traduzido por Alice McDonald. Londres: T. Fisher Unwin, 1898. Reimpresso em Karl Marx and the Close of His System. New York: Augustus M. Kelley, 1949. 

________. Capital and Interest (3 vols. Em um). South Holland, IL: Libertarian Press. Traduzido por George D. Huncke e Hans F. Sennholz. 1959. 

________. Capital and Interest, arquivo de texto com tradução de William Smart. 

________. Shorter Classics of Eugen von Böhm-Bawerk. South Holland, Ill., Libertarian Press, 1962 

Garrison, Roger W. "Austrian Capital Theory: the Early Controversies," History of Political Economy, suplemento do vol. 22, 1990, pp. 133-154. Publicado como Bruce J. Caldwell, ed., Carl Menger and his Legacy in Economics Durham, NC: Duke University Press, 1990. 

Hennings, Klaus H. "Böhm-Bawerk, Eugen von," em John Eatwell, Murray Milgate, e Peter Newman, eds., The New Palgrave: A Dictionary of Economics, 1987, pp. 254-259. 

________. The Austrian Theory of Value and Capital: Studies in the Life and work of Eugen von Böhm-Bawerk. Brookfield, VT: Edward Elgar, 1997. 

Kirzner, Israel. Essays on Capital and Interest: An Austrian Perspective. Brookfield, Vt., Edward Elgar, 1996 

Kuenne, Robert E. Eugen von Böhm-Bawerk (Columbia Essays on Great Economists, No. 2). New York: Columbia University Press, 1971. 

Mises, Ludwig von, "Capital and Interest: Eugen von Böhm-Bawerk and the Discriminating Reader," Freeman, vol. 9, no. 8 (Agosto) 1959, pp. 52-54. 

Schumpeter, Joseph A. Ten Great Economists. New York: Oxford University Press, 1951. 

________. History of Economic Analysis. New York: Oxford University Press, 1954. 

 

Notas

[1] Idéia marxista de que, sob o capitalismo, os salários são necessariamente mantidos no nível mais baixo possível, de modo a permitir apenas a subsistência do trabalhador, sua capacidade de trabalho e de reprodução, para gerar as crianças que formarão a próxima geração da classe trabalhadora. [N. do T.]

[2] Do termo em inglês "roundaboutness", ou "roundabout methods of production", é o termo usado para descrever o processo no qual os bens de capital são produzidos primeiramente. Só então, com a ajuda desses bens de capital, os bens de consumo desejados são produzidos. Em particular, Böhm-Bawerk dizia que era a demanda do consumidor que iria determinar o investimento de capital em qualquer indústria, e não necessariamente a oferta de poupança. [N. do T.]

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SOBRE O AUTOR

Roger W. Garrison
é professor de economia da Universidade de Auburn, Alabama e um scholar adjunto do Mises Institute. É autor do livro Time and Money: The Macroeconomics of Capital Structure (Routledge, 2001).

Tradução de Leandro Augusto Gomes Roque




"parece-me improvável ser coincidência os produtores do metal em questão [ouro] também terem abruptamente reduzido sobremaneira sua mineração e refino na década de 70 e de forma ainda mais intensa do que a supostamente levada a cabo pela OPEP [...]"

Exato! Este é o ponto. Quem afirma que o petróleo encareceu na década de 1970 por causa de uma suposta escassez de oferta tem também de explicar por que o ouro (e outras commodities) se encareceu ainda mais intensamente. Houve restrição na oferta de ouro?

Assim como não houve redução da oferta de ouro (cujo preço explodiu em dólar) também não houve redução da oferta de petróleo (cujo preço explodiu em dólar).

O problema, repito, nunca foi de oferta de commodities, mas sim de fraqueza das moedas -- recém desacopladas do ouro (pela primeira vez na história do mundo) e, logo, sem gozar de nenhuma confiança dos agentes econômicos.

Igualmente, por que o petróleo barateou (junto com o ouro) nas décadas de 1980 e 1990, quando a demanda por ele foi muito mais intensa do que na década de 1970? Por que ele encareceu em 2010 e 2011, em plena recessão mundial? E por que barateou em 2014 e 2015, quando as economias estavam mais fortes que em 2010 e 2011?

O dinheiro representa a metade de toda e qualquer transação econômica. Logo, quem ignora a questão da força da moeda está simplesmente ignorando metade de toda e qualquer transação econômica efetuada. Difícil fazer uma análise econômica sensata quando se ignora metade do que ocorre em uma transação econômica.

"ao menos em tese, não seria possível ocorrer uma elevação do índice "DXY" durante algum tempo simultaneamente a uma alta nas cotações em USD de algumas commodities, configurando uma situação de inflação de preços global generalizada onde a moeda america seria nesta hipótese "a garota menos feia do baile"

Sim, em tese seria possível. Só que, ainda assim, haveria um indicador que deixaria explícito o que está acontecendo: o preço do ouro.

Se o dólar estiver se fortalecendo em relação a todas as outras moedas, mas estiver sendo inflacionado (só que menos inflacionado que as outras moedas), o preço do ouro irá subir.

Mas este seu cenário só seria possível se todas as outras moedas estivessem sendo fortemente desvalorizadas. Enquanto houver franco suíço, iene e alemães na zona do euro, difícil isso acontecer.

Abraços.
Saudações, Leandro.

Teus comentários me remeteram a
uma recente troca de posts que tive no MI !
A propósito, uma análise da relação entre ouro e petróleo talvez pudesse reforçar nosso argumento em comum. Afinal, parece-me improvável ser coincidência os produtores do metal em questão também terem abruptamente reduzido sobremaneira sua mineração e refino na década de 70 e de forma ainda mais intensa do que a supostamente levada a cabo pela OPEP, caso a explicação p/ o fortalecimento do primeiro em relação ao segundo (i.e. cruede mais barato em Au) também se baseasse no suposto "choque de oferta" ao qual frequentemente se atribuem praticamente todos os episódios de encarecimento do petróleo em US$...

Sobre o "desafio": "Sigo no aguardo de um único exemplo prático de dólar forte e commodities caras. E de dólar fraco e commodities baratas, pergunto: ao menos em tese, não seria possível ocorrer uma elevação (ainda que improvável, inclusive na atual conjuntura) do índice "DXY" (dólar em relação às moedas mais líquidas do mundo) durante algum tempo simultaneamente a uma alta nas cotações em USD de algumas commodities, configurando uma situação de inflação de preços global generalizada onde a moeda america seria nesta hipótese "a garota menos feia do baile" (de ForEx) ?

Att.
Prezado Paulo, obrigado pelo comentário, o qual nada alterou a constatação: o preço das commodities é cotado em dólar; consequentemente, a força do dólar é crucial para determinar o preço das commodities. Impossível haver commodities caras com dólar forte. Impossível haver commodities baratas com dólar fraco.

Perceba que seus próprios exemplos comprovam isso: você diz que a produção americana de petróleo atingiu o pico em 1972, e dali em diante só caiu. Então, por essa lógica era para o preço do petróleo ter explodido nas década de 1980 e 1990. Não só a oferta americana era menor (segundo você próprio), como também várias economia ex-comunistas estavam adotando uma economia de mercado, implicando forte aumento da demanda por petróleo. Por que então o preço do barril não explodiu (ao contrário, caiu fortemente)?

Simples: porque de 1982 a 2004 foi um período de dólar mundialmente forte.

"Período 1973/74: É consenso da indústria mundial de petróleo que a subida abrupta dos preços em 1973/74 deveu-se ao embargo árabe realizado pela OPEP[...]"

Nada posso fazer quanto a esse "consenso", exceto dizer que ele é economicamente falacioso. O preço do barril (em dólares) subiu durante toda a década de 1970 (e não apenas no período 1973-74). O barril só começou a cair a partir de 1982, "coincidentemente" quando o dólar começou a se fortalecer.

Será que foi a OPEP quem encareceu o petróleo de 1972 a 1982? Se sim, por que então em 1982 ela reverteu o curso? Mais ainda: se ela é assim tão poderosa para determinar o preço do barril do petróleo, por que ela nada fez de 1982 a 2004, que foi quando o barril voltou a disparar ("coincidentemente", de novo, quando o dólar voltou a enfraquecer)?

E por que de 2004 a 2012 (dólar fraco) o petróleo disparou? E por que desabou de 2013 a meados de 2016 (dólar forte)? E por que voltou a subir agora (dólar enfraquecendo)?

Sigo no aguardo de um único exemplo prático de dólar forte e commodities caras. E de dólar fraco e commodities baratas.

Se alguém apresentar esse exemplo, toda a teoria econômica está refutada.
Boa tarde Bruno., tudo tranquilo?

Advogados de uma maneira geral tem duas frentes: ou são interlocutores mediante a resolução de conflitos, ou analistas para evitar conflitos. Basicamente são especialistas em detalhes jurídicos, sendo obrigatório o talento nato em retórica, para expor a parte de seu cliente de forma objetiva, lírica e eloquente na mediação, e muita disciplina acadêmica para assimilar todos os enlaces dos códigos a que se propõe atuar.

Sob a batuta do Estado, apenas formados em direito (e aqui no Brasil postulantes ao exame da OAB) podem representar pessoas e empresas nas demandas da Lei. Basicamente, 90% dos advogados no Brasil são decoradores de Lei, tendo parco saber jurídico para analisar de forma contundente demandas mais complexas.

Já em um país libertário, basta a pessoa ter um grande saber jurídico, oratória razoável e ser um bom jogador de xadrez que pode advogar tranquilamente, podendo também adquirir títulos e certificados mediante associações privadas, com o único propósito de destacar aqueles que realmente tem o que é necessário para ser advogado para quem quiser contrata-lo.

Quanto a sua questão, seja pelo monopólio do Estado ou em um país livre, o advogado não propriamente cria riqueza, mas impede que a mesma seja perdida por um descuido na assinatura de um contrato, ou mesmo a ruína causada por uma ex mulher gananciosa. Na assinatura de contratos é como uma companhia de seguros, pois ao analisar os detalhes mitiga os riscos apontando erros e pegadinhas. Por outro lado, se for atuar em uma demanda já existente, seria mais ou menos como o corpo de bombeiros, para apagar o incêndio o mais rápido possível, antes que o fogo consuma tudo.

Prezado Leandro

Aprecio muito seus artigos e comentários, postados aqui no Instituto Mises. Inclusive, suas respostas a indagações minhas sempre primaram pela cordialidade e análise ponderada. E, em relação ao seu comentário acima, não discordo quanto à correlação existente entre uma commoditie e a moeda em que ela é comercializada.

No entanto, se me permite, gostaria de discordar parcialmente do seus comentários acima sobre a causa e efeito nos preços dos mercados do petróleo, a partir do chamado Choque Nixon (1971). Entre outras medidas, ele cancelou unilateralmente a conversão do dólar em ouro. Baseei meus comentários em inúmeros autores, que usamos na indústria, não para fins políticos, mas para nosso negócio (tenho 38 anos de indústria do petróleo).

Para melhor acompanhar meus comentários, é interessante analisar os mesmos acompanhado de dois gráficos:

1) Preço do petróleo entre 1986 e 2015, fonte: BP Global:
www.bp.com/en/global/corporate/energy-economics/statistical-review-of-world-energy/oil/oil-prices.html

2) Produção e importação de óleo cru nos EUA: //en.wikipedia.org/wiki/Petroleum_in_the_United_States#/media/File:US_Crude_Oil_Production_and_Imports.svg

Vou colocar os eventos em ordem cronológica, com meus comentários após aspas de seus comentários, as vezes com ... :

SEU COMENTÁRIO: Igualmente, a acentuada e abrupta desvalorização do dólar na década de 1970 ... : não era o petróleo que estava ficando escasso; eram as moedas, recém-desacopladas do ouro, que perdiam poder de compra aceleradamente.

MEU COMENTÁRIO:
- A indústria do petróleo nunca correlacionou a culpa do aumento dos preços do petróleo na década de 1970 como sendo por causa de escassez do produto.

- Ano de 1972: A produção total Americana atinge o pico, próximo a uma média diária de nove milhões de barris por dia (bpd) e, a partir deste ponto, entra num declínio acentuado e contínuo, só interrompido em meados dos anos 2000, por conta do crescimento estratosférico da produção americana está ligado ao boom do "shale oil" americano (óleo de folhelho).

- Período 1973/74: É consenso da indústria mundial de petróleo que a subida abrupta dos preços em 1973/74 deveu-se ao embargo árabe realizado pela OPEP contra os países que apoiavam Israel na Guerra do Yom Kippur. Entre o início e o fim do embargo os preços tinham subido de US$ 3/barril (US$ 14 hoje) para US$ 12/barril (US$ 58 hoje).

SEU COMENTÁRIO: Tanto é que, nas décadas de 1980 e 90, o barril do petróleo despencou (dólar forte).

MEU COMENTÁRIO: Período 1985-1999:

- Em 1986 a Arábia Saudita resolveu recuperar sua participação no mercado global (market share) aumentando sua produção média diária de 3,8 milhões bpd em 1985 para mais que 10 milhões bpd em 1986. As reservas sauditas são tão grandes que ela sempre pôde se dar o luxo de "fechar ou abrir torneiras" para controlar demanda e oferta. Mas, atualmente isto está começando a ser modificado.

- 1988: Com o fim da Guerra Irã-Iraque, ambos voltaram a aumentar substancialmente a produção média diária.

SEU COMENTÁRIO: O boom das commodities (principalmente minério e petróleo) na década de 2000 foi "auxiliado" pelo enfraquecimento do dólar.

MEU COMENTÁRIO: Principais eventos para o aumento quase contínuo dos preços na década de 2000:

- Final dos anos 1990 e início dos anos 2000: Crescimento das economias Americana e Mundial.

- Pós 11/01/01 e invasão do Iraque: crescente preocupação quanto a estabilidade da produção do Oriente Médio.

- Segunda metade da década: Combinação de produção declinante mundial com o aumento acelerado e contínuo da demanda asiática pelo produto, especialmente China.

A causa da produção mundial declinante está relacionada à enorme expansão da produção OPEP na década anterior e que inibiu o investimento da indústria em exploração (pesquisa para descoberta de novas jazidas). Para quem não é da área, investimentos em exploração de petróleo tem retorno de médio a longo prazo.

SEU COMENTÁRIO: a recente queda a partir de 2012 (dólar forte).

MEU COMENTÁRIO: A partir de 2014 a queda dos preços está ligada a dois grandes eventos:

- Aumento substantivo da produção nos EUA e na Rússia, sendo que em 2015 a produção Americana atingiu o mais alto nível em mais de 100 anos, com os EUA voltando a serem os maiores produtores mundiais após mais de 50 anos (Figura a seguir)

- O crescimento estratosférico da produção americana está ligado ao boom do "shale oil" americano (óleo de folhelho), com o avanço tecnológico do fraturamento hidráulico (hydraulic fracturing, or fracking), ela começou a ser utilizada com progressivo sucesso em reservatórios não convencionais como o shale oil. Com isto, nunca os estoques americanos estiveram tão altos. E, aqui o básico da economia de Adam Smith: oferta maior que demanda gera queda nos preços.

Saudações, Paulo









Não, Xiba. Continua sendo pirâmide do mesmo jeito.

Essa questão da Previdência brasileira é um assunto bastante interessante pelo seguinte motivo: talvez seja a única área da economia que não está aberta a opiniões ideológicas.

Não importa se você é de esquerda ou de direita; liberal, libertário ou intervencionista. Também pouco importa se você acredita que a Previdência atual seja superavitária (como alguns acreditam). O que importa é que o modelo dela é insustentável. E é insustentável por uma questão puramente demográfica.

E contra a realidade demográfica não há nada que a ideologia possa fazer.

Comecemos pelo básico.

Ao contrário do que muitos ainda pensam, o dinheiro que você dá ao INSS não é investido em fundo no qual ele fica rendendo juros. Tal dinheiro é diretamente repassado a uma pessoa que está aposentada. Não se trata, portanto, de um sistema de capitalização, mas sim de um sistema de repartição: o trabalhador de hoje paga a aposentadoria de um aposentado para que, no futuro, quando esse trabalhador se aposentar, outro trabalhador que estiver entrando no mercado de trabalho pague sua aposentadoria.

Ou seja, não há investimento nenhum. Há apenas repasses de uma fatia da população para outra.

Por motivos óbvios, esse tipo de esquema só pode durar enquanto a fatia trabalhadora for muito maior que a fatia aposentada. Tão logo a quantidade de aposentados começar a crescer mais rapidamente que a fatia de trabalhadores, o esquema irá ruir.

Portanto, todo o arranjo depende inteiramente do comportamento demográfico da população. A qualidade da gestão do INSS é o de menos. Mesmo que a Previdência fosse gerida por anjos probos, sagazes e imaculados, ainda assim ela seria insustentável no longo prazo caso a demografia não cooperasse.

E, no Brasil, ela já não está cooperando. Segundo os dados do IBGE, em 2013, havia 5,5 pessoas com idade entra 20 e 59 anos para cada pessoa com mais de 60 anos. Em 2060, a se manter o ritmo projetado de crescimento demográfico, teremos 1,43 pessoa com idade entre 20 a 59 anos para cada pessoa com mais de 60 anos.

Ou seja, a menos que a idade mínima de aposentadoria seja continuamente elevada, não haverá nem sequer duas pessoas trabalhando e pagando INSS para sustentar um aposentado.

Aí fica a pergunta: como é que você soluciona isso? Qual seria uma política factível "de esquerda" ou "de direita" que possa sobrepujar a realidade demográfica e a contabilidade?

Havendo 10 trabalhadores sendo tributados para sustentar 1 aposentado, a situação deste aposentado será tranquila e ele viverá confortavelmente. Porém, havendo apenas 2 trabalhadores para sustentar 1 aposentado, a situação fica desesperadora. Ou esses 2 trabalhadores terão de ser tributados ainda mais pesadamente para sustentar o aposentado, ou o aposentado simplesmente receberá menos (bem menos) do que lhe foi prometido.

Portanto, para quem irá se aposentar daqui a várias décadas e quer receber tudo o que lhe foi prometido hoje pelo INSS, a mão-de-obra jovem do futuro terá de ser ou muito numerosa (uma impossibilidade biológica, por causa das atuais taxas de fecundidade) ou excessivamente tributada (algo que não é duradouro).

Eis o fato irrevogável: contra a demografia e a matemática, ninguém pode fazer nada.

A não ser mudar totalmente o sistema.

Uma proposta para uma reforma definitiva da Previdência

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Inacio Neto  26/10/2011 18:14
    Belo artigo.
  • Melanie Schwartz  21/05/2013 11:44
    Eu queria ter mais tempo para poder ler todas as obras desses admiráveis economistas a fundo.
    Excelente artigo.
  • Pedro Ivo  21/05/2013 12:22
    Tempo a gente arranja Srta. Schwartz. Não tem outro jeito: é levantar 1h mais cedo para ter 1h de leitura, e um livro de cada vez.

    Recomendo você comece pelo Ação, Tempo e Conhecimento: A Escola Austríaca de Economia do Ubiratan Iorio, porque os livros de Von Mises e von Böhn-Bawerk são muito densos (tentei começar por eles e não consegui avançar). O livro do Iorio fornece uma introdução ao assunto, digere os conceitos fundamentais e torna acessíveis as leituras dos grandes luminares. Fica como recomendação.

    Abraço cordial
  • Francisco Costa  07/06/2013 21:04
    Melhor mesmo é começar com Princípios da Economia Política, do Carl Menger. Esse livro vai te dar uma visão muito rica de economia.
  • Amarilio Adolfo da Silva de Souza  23/06/2013 23:19
    Belo artigo.
  • Emerson Luis, um Psicologo  01/10/2013 17:22
    Grande artigo!

    * * *
  • Gabriel  23/11/2015 02:11
    Boa noite. Estou lendo A teoria da exploração do Socialismo-comunismo, uma leitura tranquila até a seguinte parte:

    "Se forem necessários 1.000 dias de trabalho para se conseguir um
    produto bruto e 2.000 dias para seu ulterior processamento; se, por outro
    lado, forem deduzidos 40% do valor do produto em favor do proprietário,
    os produtores do produto bruto receberão, então, em forma
    de renda, o produto de 400 dias de trabalho, enquanto os industriais da
    manufatura receberão o equivalente a 800 dias. O montante de capital
    empregado em cada ramo da produção é irrevelante, para tal divisão: a
    renda, embora seja calculada sobre o capital, não se determina segundo
    ele, e sim segundo as quantidades de trabalho aplicadas.
    É exatamente o fato de o montante do capital empregado não
    ter influência efetiva sobre a massa da renda obtida num ramo da
    produção que dá origem à renda sobre terras. Isso ocorre da seguinte
    maneira: a renda, embora produto do trabalho, é considerada
    rendimento da riqueza, porque depende da posse de riquezas.
    Como, em relação à manufatura, só se empreguem bens de capital,
    e não terras, considera-se como rendimento de capital — ou ganho
    de capital — toda renda obtida especificamente da manufatura.
    Através dos cálculos costumeiros da relação entre o montante do
    rendimento e o montante do capital que originou esse rendimento,
    chega-se àquela determinada porcentagem de ganho, que pode ser
    obtida com o capital empregado na manufatura. Essa porcentagem
    de ganho, que, em função de conhecidas tendências da concorrência,
    será mais ou menos uniforme em todos os ramos, também servirá
    de base para o cálculo do ganho sobre o capital investido na produção bruta."

    Eu não consegui assimilar o que o Bawerk falou, muito menos como ele chegou nos números 400 e 800, então peço a ajuda das caridosas almas do site; dando um exemplo mais simples, pois esse raciocínio do Bawek foi muito complexo pra mim. Abraços.
  • Gabriel  23/11/2015 02:18
    Só complementando, pois esqueci de citar a página. Pag 52-53. Abraço
    www.mises.org.br/files/literature/A%20teoria%20da%20explora%C3%A7%C3%A3o%20do%20socialismo-comunismo%20-%20WEB.pdf
  • Túlio César Probst Pereira  25/08/2016 01:24
    Adorei o artigo do grande economista que, assim como Menger, era austríaco de nascimento e de linha de pensamento na economia. Porém, há um erro de tradução no título de sua obra, que pode até ter sido de menor importância dentre outras que escreveu, mas, no contexto e nos dias atuais, tanto no Brasil de Lula-Dilma-Temer quanto nos Estados Unidos de Obama, deveria ser JUSTAMENTE A OBRA MAIS IMPACTANTE DE TODAS: "KARL MARX AND THE CLOSING OF HIS SYSTEM". Você colocou entre parênteses "Karl Marx e o FIM de seu sistema", mas seria "Karl Marx e o FECHAMENTO de seu sistema", sendo essa tradução literal a correta. Quando se fala em fim, fala-se em extinção de algo que teria havido na prática (e o sistema marxista nem tinha sido experimentado ainda no século XIX, e sim somente em 1922), mas quando se fala em fechamento, seria no sentido de coesão da teoria em sua unidade em razão da sua coerência, de modo que Bohm Bawerk demonstrou que a teoria de Marx não se fechava por falta de coerência... Por quê?? Por causa da contradição da teoria do valor-trabalho nos volumes I e IV de "O capital: crítica da economia política". A obra essencial de refutação da teoria marxista foi muito pouco difundida pelo mundo e nunca teve uma tradução para o português. Quando me dou o luxo de ver a tradução do título desse livro no artigo pela primeira vez, vejo esse erro. CORRIJA A TRADUÇÃO!


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