Menger, o Revolucionário

"Nunca viveram ao mesmo tempo", escreveu Ludwig von Mises, "mais que uma vintena de pessoas cuja contribuição à ciência econômica pudesse ser considerada essencial."[1] Um desses homens foi Carl Menger (1840-1921), Professor de Economia Política da Universidade de Viena e fundador da Escola Austríaca de Economia.

A obra pioneira de Menger, Grundsätze der Volkswirtschaftslehre [Princípios de Economia Política], publicada em 1871, não apenas introduziu o conceito de análise marginal, como também apresentou uma abordagem radicalmente nova sobre a análise econômica, análise essa que ainda forma o núcleo da teoria austríaca do valor e dos preços.

Ao contrário de seus contemporâneos William Stanley Jevons e Leon Walras, que independentemente desenvolveram conceitos de utilidade marginal durante os anos 1870, Menger preferiu uma abordagem que fosse dedutiva, teleológica, e, em um sentido fundamental, humanística. Conquanto Menger compartilhasse com seus contemporâneos a preferência pelo raciocínio abstrato, ele estava primordialmente interessado em explicar como funcionavam as ações de pessoas reais no mundo real, e não em criar representações artificiais e estilizadas da realidade.

Para Menger, a economia é o estudo das escolhas propositais dos seres humanos, a relação entre meios e fins. Ele começa seu tratado dizendo que "Todas as coisas estão sujeitas à lei da causa e efeito. Não existe exceção para esse grande princípio."[2] Jevons e Walras rejeitavam causa e efeito em favor de uma determinação simultânea - a idéia de que sistemas complexos podem ser modelados como sendo sistemas de equações simultâneas que acreditam que nenhuma variável pode "causar" uma outra variável. Essa se tornou a abordagem padrão da ciência econômica atual, e é aceita por quase todos os economistas, exceto os seguidores de Carl Menger.

Menger tentou explicar o sistema de preços como sendo o resultado de interações voluntárias e propositais entre compradores e vendedores, cada qual guiado por suas próprias e subjetivas avaliações sobre a capacidade de vários bens e serviços em satisfazer seus objetivos (o que hoje chamamos de utilidade marginal, um termo que foi posteriormente cunhado por Friedrich von Wieser). Assim, o comércio é o resultado de tentativas deliberadas das pessoas em melhorar seu bem-estar, e não de uma "propensão inata para mascatear, permutar ou trocar", como foi sugerido por Adam Smith.[3] As quantias exatas de bens comercializados - seus preços, em outras palavras - são determinadas pelos valores que os indivíduos atribuem às unidades marginais desses bens. Havendo um único vendedor e um único comprador, bens serão trocados desde que os participantes concordem consensualmente com um valor de troca que deixe ambos melhor do que estavam antes.

Em um mercado com muitos compradores e vendedores, o preço reflete as valorações do comprador menos propenso a comprar e do vendedor menos propenso a vender, situação esta que representa aquilo que Böhm-Bawerk chamaria de "pares marginais". Com cada transação sendo voluntária, então, os ganhos da troca são momentaneamente exauridos, independentemente da exata estrutura do mercado. A grande explicação geral dada por Menger sobre a formação de preços continua a formar o âmago da microeconomia austríaca.

A análise de Menger foi rotulada de "causal-realista", parcialmente para enfatizar a distinção entre a abordagem de Menger e aquela dos economistas neoclássicos. Além de seu enfoque em relações causais, a análise de Menger é realista no sentido não de que ele procurou desenvolver modelos formais de relações econômicas hipotéticas, mas no de explicar os preços que realmente são praticados diariamente nos mercados reais. Os economistas clássicos tinham explicado que os preços são o resultado do equilíbrio entre a oferta e a demanda, mas eles não apresentaram uma teoria satisfatória de como ocorre a valoração das coisas, de modo que fosse explicada a propensão dos compradores a pagar por bens e serviços.

Ao rejeitarem o subjetivismo que molda essa valoração, os economistas clássicos tendiam a tratar a demanda como algo relativamente trivial, e se concentraram em condições hipotéticas de "longo prazo", em que as características "objetivas" dos bens - e mais importante, seus custos de produção - iriam determinar seus preços. Os economistas clássicos também tendiam a agrupar fatores de produção em categorias mais amplas - terra, trabalho e capital -, o que fez com que eles fossem incapazes de explicar os preços de unidades discretas e heterogêneas desses fatores. Menger percebeu que os preços efetivos pagos por bens e serviços refletiam não algumas características objetivas e "intrínsecas" deles, mas sim a utilidade que compradores e vendedores, subjetivamente, percebiam em cada unidade discreta desses bens e serviços.

Princípios foi escrito com a intenção de ser um volume introdutório para uma obra de vários volumes. Infelizmente, esses outros volumes jamais foram escritos. Menger não desenvolveu explicitamente o conceito de custo de oportunidade, não expandiu suas análises para explicar os preços dos fatores de produção, e não desenvolveu a teoria do cálculo monetário. Esses avanços viriam depois, com seus alunos e discípulos Eugen von Böhm-Bawerk, Friedrich von Wieser, J. B. Clark, Philip Wicksteed, Frank A. Fetter, Herbert J. Davenport, Ludwig von Mises, e F. A. Hayek. Entretanto, muitas das idéias mais importantes estão implícitas nas análises de Menger.

Por exemplo, sua distinção entre bens de "ordens" mais altas e mais baixas, ao referir-se aos seus lugares na seqüência cronológica de produção, constitui o núcleo da teoria austríaca do capital, um de seus mais importantes e distintos elementos. De fato, Menger enfatiza a passagem do tempo em toda a sua análise, uma ênfase que ainda não foi adotada pela teoria econômica mainstream.

Enquanto muitos tratados econômicos contemporâneos são túrgidos e enfadonhos, o livro de Menger é notavelmente fácil de ler, mesmo hoje. Sua prosa é lúcida, sua análise é lógica e sistemática, e seus exemplos são claros e informativos. Princípios permanece uma excelente introdução ao raciocínio econômico e, para o especialista, a demonstração clássica dos princípios nucleares da Escola Austríaca.

Como Hayek escreveu no seu prefácio deste livro, a importância da Escola Austríaca "se deve inteiramente às fundações erguidas por este homem". No entanto, ao passo que Menger é universalmente reconhecido como o fundador da Escola Austríaca, seu enfoque causal-realista para a formação de preços não é sempre apreciado, mesmo dentro da atual economia austríaca.

Karen Vaughn, por exemplo, caracteriza a teoria dos preços de Menger como sendo essencialmente neoclássica, argumentando que a sua distinta contribuição austríaca está em "suas várias referências a problemas de conhecimento e ignorância, suas discussões sobre o aparecimento e a função das instituições, sobre a importância das articulações de processos de ajustamento, e em suas várias referências ao progresso da humanidade".[4] Essas questões, que atraíram considerável atenção durante o "renascimento austríaco" nos anos 1970, aparecem no livro de Menger Untersuchungen über die Methode der Socialwissenschaften und der politischen Oekonomie insbesondere [Investigações sobre o Método das Ciências Sociais com Especial Referência à Economia], de 1883.[5] No entanto, eles estão em grande parte ausentes em Princípios. O livro que fundou a Escola Austríaca foca-se na essência da valoração, das trocas e dos preços, e não no desequilíbrio, no conhecimento implícito e no subjetivismo radical.

Outra notável característica da contribuição de Menger é que ela apareceu em alemão, sendo que o enfoque dominante à época na comunidade acadêmica cujo idioma era o alemão era aquele defendido pela "mais jovem" escola historicista alemã, que abstinha-se de análises teóricas do todo em favor de estudos históricos indutivos e ideologizados. Os mais talentosos economistas teóricos, os clássicos ingleses como John Stuart Mill, eram praticamente desconhecidos dos escritores alemães.

Como Hayek observou, "Na Inglaterra, o progresso da teoria econômica apenas se estagnou. Na Alemanha, uma segunda geração de economistas históricos cresceu não apenas nunca tendo se familiarizado com o bem desenvolvido sistema teórico que já existia, como também tendo aprendido a considerar qualquer tipo de especulação teórica como sendo inútil, se não prejudicial". A abordagem de Menger - arrogantemente descartada pelo líder da escola historicista alemã, Gustav Schmoller, como sendo meramente "austríaca", daí a origem do rótulo - levou a um renascimento da economia teórica na Europa e, mais tarde, nos EUA.

Em resumo, os conceitos nucleares da economia austríaca contemporânea - ação humana, meios e fins, valor subjetivo, análise marginal, individualismo metodológico, estrutura temporal da produção, e assim por diante - junto com a teoria austríaca do valor e dos preços, que formam a alma da análise austríaca, tudo isso advém da obra pioneira de Menger. Como Joseph Salerno escreveu, "a economia austríaca é, sempre foi e para sempre permanecerá, a economia mengeriana."[6]

 


[1] Ludwig von Mises, Human Action: A Treatise on Economics (Scholar's Edition, Auburn, Alabama.: Mises Institute, 1998), p. 869.

[2] Esse volume, p. XX.

[3] Adam Smith, A Riqueza das Nações [1776], ed. R. H. Campbell, A. S. Skinner, e W. B. Toddd (Indianapolis: LibertyClassics, 1981), Livro I, p. 24.

[4] Karen I Vaughn, Austrian Economics in America: The Migration of a Tradition (Cambridge: Cambridge University Press, 1994), pp. 18-19.

[5] Carl Menger, Investigations into the Method of the Social Sciences, with Special Reference to Economics, ed. Louis Schneider, tradutor Francis J. Nock (New York: New York University Press, 1985).

[6] Joseph T. Salerno, "Carl Menger: The Founder of the Austrian School," em Randall G. Holcombe, ed., Fifteen Great Austrian Economists (Auburn, Alabama.: Mises Institute, 1999), PAGE.

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SOBRE O AUTOR

Peter G. Klein
leciona economia na University of Missouri. Esse texto é o seu prefácio para a nova edição de Princípios de Economia Política, publicado pelo Mises Institute (2007). Klein paticipa do blog do site Organizations and Markets.

Tradução de Leandro Augusto Gomes Roque



"parece-me improvável ser coincidência os produtores do metal em questão [ouro] também terem abruptamente reduzido sobremaneira sua mineração e refino na década de 70 e de forma ainda mais intensa do que a supostamente levada a cabo pela OPEP [...]"

Exato! Este é o ponto. Quem afirma que o petróleo encareceu na década de 1970 por causa de uma suposta escassez de oferta tem também de explicar por que o ouro (e outras commodities) se encareceu ainda mais intensamente. Houve restrição na oferta de ouro?

Assim como não houve redução da oferta de ouro (cujo preço explodiu em dólar) também não houve redução da oferta de petróleo (cujo preço explodiu em dólar).

O problema, repito, nunca foi de oferta de commodities, mas sim de fraqueza das moedas -- recém desacopladas do ouro (pela primeira vez na história do mundo) e, logo, sem gozar de nenhuma confiança dos agentes econômicos.

Igualmente, por que o petróleo barateou (junto com o ouro) nas décadas de 1980 e 1990, quando a demanda por ele foi muito mais intensa do que na década de 1970? Por que ele encareceu em 2010 e 2011, em plena recessão mundial? E por que barateou em 2014 e 2015, quando as economias estavam mais fortes que em 2010 e 2011?

O dinheiro representa a metade de toda e qualquer transação econômica. Logo, quem ignora a questão da força da moeda está simplesmente ignorando metade de toda e qualquer transação econômica efetuada. Difícil fazer uma análise econômica sensata quando se ignora metade do que ocorre em uma transação econômica.

"ao menos em tese, não seria possível ocorrer uma elevação do índice "DXY" durante algum tempo simultaneamente a uma alta nas cotações em USD de algumas commodities, configurando uma situação de inflação de preços global generalizada onde a moeda america seria nesta hipótese "a garota menos feia do baile"

Sim, em tese seria possível. Só que, ainda assim, haveria um indicador que deixaria explícito o que está acontecendo: o preço do ouro.

Se o dólar estiver se fortalecendo em relação a todas as outras moedas, mas estiver sendo inflacionado (só que menos inflacionado que as outras moedas), o preço do ouro irá subir.

Mas este seu cenário só seria possível se todas as outras moedas estivessem sendo fortemente desvalorizadas. Enquanto houver franco suíço, iene e alemães na zona do euro, difícil isso acontecer.

Abraços.
Saudações, Leandro.

Teus comentários me remeteram a
uma recente troca de posts que tive no MI !
A propósito, uma análise da relação entre ouro e petróleo talvez pudesse reforçar nosso argumento em comum. Afinal, parece-me improvável ser coincidência os produtores do metal em questão também terem abruptamente reduzido sobremaneira sua mineração e refino na década de 70 e de forma ainda mais intensa do que a supostamente levada a cabo pela OPEP, caso a explicação p/ o fortalecimento do primeiro em relação ao segundo (i.e. cruede mais barato em Au) também se baseasse no suposto "choque de oferta" ao qual frequentemente se atribuem praticamente todos os episódios de encarecimento do petróleo em US$...

Sobre o "desafio": "Sigo no aguardo de um único exemplo prático de dólar forte e commodities caras. E de dólar fraco e commodities baratas, pergunto: ao menos em tese, não seria possível ocorrer uma elevação (ainda que improvável, inclusive na atual conjuntura) do índice "DXY" (dólar em relação às moedas mais líquidas do mundo) durante algum tempo simultaneamente a uma alta nas cotações em USD de algumas commodities, configurando uma situação de inflação de preços global generalizada onde a moeda america seria nesta hipótese "a garota menos feia do baile" (de ForEx) ?

Att.
Prezado Paulo, obrigado pelo comentário, o qual nada alterou a constatação: o preço das commodities é cotado em dólar; consequentemente, a força do dólar é crucial para determinar o preço das commodities. Impossível haver commodities caras com dólar forte. Impossível haver commodities baratas com dólar fraco.

Perceba que seus próprios exemplos comprovam isso: você diz que a produção americana de petróleo atingiu o pico em 1972, e dali em diante só caiu. Então, por essa lógica era para o preço do petróleo ter explodido nas década de 1980 e 1990. Não só a oferta americana era menor (segundo você próprio), como também várias economia ex-comunistas estavam adotando uma economia de mercado, implicando forte aumento da demanda por petróleo. Por que então o preço do barril não explodiu (ao contrário, caiu fortemente)?

Simples: porque de 1982 a 2004 foi um período de dólar mundialmente forte.

"Período 1973/74: É consenso da indústria mundial de petróleo que a subida abrupta dos preços em 1973/74 deveu-se ao embargo árabe realizado pela OPEP[...]"

Nada posso fazer quanto a esse "consenso", exceto dizer que ele é economicamente falacioso. O preço do barril (em dólares) subiu durante toda a década de 1970 (e não apenas no período 1973-74). O barril só começou a cair a partir de 1982, "coincidentemente" quando o dólar começou a se fortalecer.

Será que foi a OPEP quem encareceu o petróleo de 1972 a 1982? Se sim, por que então em 1982 ela reverteu o curso? Mais ainda: se ela é assim tão poderosa para determinar o preço do barril do petróleo, por que ela nada fez de 1982 a 2004, que foi quando o barril voltou a disparar ("coincidentemente", de novo, quando o dólar voltou a enfraquecer)?

E por que de 2004 a 2012 (dólar fraco) o petróleo disparou? E por que desabou de 2013 a meados de 2016 (dólar forte)? E por que voltou a subir agora (dólar enfraquecendo)?

Sigo no aguardo de um único exemplo prático de dólar forte e commodities caras. E de dólar fraco e commodities baratas.

Se alguém apresentar esse exemplo, toda a teoria econômica está refutada.
Boa tarde Bruno., tudo tranquilo?

Advogados de uma maneira geral tem duas frentes: ou são interlocutores mediante a resolução de conflitos, ou analistas para evitar conflitos. Basicamente são especialistas em detalhes jurídicos, sendo obrigatório o talento nato em retórica, para expor a parte de seu cliente de forma objetiva, lírica e eloquente na mediação, e muita disciplina acadêmica para assimilar todos os enlaces dos códigos a que se propõe atuar.

Sob a batuta do Estado, apenas formados em direito (e aqui no Brasil postulantes ao exame da OAB) podem representar pessoas e empresas nas demandas da Lei. Basicamente, 90% dos advogados no Brasil são decoradores de Lei, tendo parco saber jurídico para analisar de forma contundente demandas mais complexas.

Já em um país libertário, basta a pessoa ter um grande saber jurídico, oratória razoável e ser um bom jogador de xadrez que pode advogar tranquilamente, podendo também adquirir títulos e certificados mediante associações privadas, com o único propósito de destacar aqueles que realmente tem o que é necessário para ser advogado para quem quiser contrata-lo.

Quanto a sua questão, seja pelo monopólio do Estado ou em um país livre, o advogado não propriamente cria riqueza, mas impede que a mesma seja perdida por um descuido na assinatura de um contrato, ou mesmo a ruína causada por uma ex mulher gananciosa. Na assinatura de contratos é como uma companhia de seguros, pois ao analisar os detalhes mitiga os riscos apontando erros e pegadinhas. Por outro lado, se for atuar em uma demanda já existente, seria mais ou menos como o corpo de bombeiros, para apagar o incêndio o mais rápido possível, antes que o fogo consuma tudo.

Prezado Leandro

Aprecio muito seus artigos e comentários, postados aqui no Instituto Mises. Inclusive, suas respostas a indagações minhas sempre primaram pela cordialidade e análise ponderada. E, em relação ao seu comentário acima, não discordo quanto à correlação existente entre uma commoditie e a moeda em que ela é comercializada.

No entanto, se me permite, gostaria de discordar parcialmente do seus comentários acima sobre a causa e efeito nos preços dos mercados do petróleo, a partir do chamado Choque Nixon (1971). Entre outras medidas, ele cancelou unilateralmente a conversão do dólar em ouro. Baseei meus comentários em inúmeros autores, que usamos na indústria, não para fins políticos, mas para nosso negócio (tenho 38 anos de indústria do petróleo).

Para melhor acompanhar meus comentários, é interessante analisar os mesmos acompanhado de dois gráficos:

1) Preço do petróleo entre 1986 e 2015, fonte: BP Global:
www.bp.com/en/global/corporate/energy-economics/statistical-review-of-world-energy/oil/oil-prices.html

2) Produção e importação de óleo cru nos EUA: //en.wikipedia.org/wiki/Petroleum_in_the_United_States#/media/File:US_Crude_Oil_Production_and_Imports.svg

Vou colocar os eventos em ordem cronológica, com meus comentários após aspas de seus comentários, as vezes com ... :

SEU COMENTÁRIO: Igualmente, a acentuada e abrupta desvalorização do dólar na década de 1970 ... : não era o petróleo que estava ficando escasso; eram as moedas, recém-desacopladas do ouro, que perdiam poder de compra aceleradamente.

MEU COMENTÁRIO:
- A indústria do petróleo nunca correlacionou a culpa do aumento dos preços do petróleo na década de 1970 como sendo por causa de escassez do produto.

- Ano de 1972: A produção total Americana atinge o pico, próximo a uma média diária de nove milhões de barris por dia (bpd) e, a partir deste ponto, entra num declínio acentuado e contínuo, só interrompido em meados dos anos 2000, por conta do crescimento estratosférico da produção americana está ligado ao boom do "shale oil" americano (óleo de folhelho).

- Período 1973/74: É consenso da indústria mundial de petróleo que a subida abrupta dos preços em 1973/74 deveu-se ao embargo árabe realizado pela OPEP contra os países que apoiavam Israel na Guerra do Yom Kippur. Entre o início e o fim do embargo os preços tinham subido de US$ 3/barril (US$ 14 hoje) para US$ 12/barril (US$ 58 hoje).

SEU COMENTÁRIO: Tanto é que, nas décadas de 1980 e 90, o barril do petróleo despencou (dólar forte).

MEU COMENTÁRIO: Período 1985-1999:

- Em 1986 a Arábia Saudita resolveu recuperar sua participação no mercado global (market share) aumentando sua produção média diária de 3,8 milhões bpd em 1985 para mais que 10 milhões bpd em 1986. As reservas sauditas são tão grandes que ela sempre pôde se dar o luxo de "fechar ou abrir torneiras" para controlar demanda e oferta. Mas, atualmente isto está começando a ser modificado.

- 1988: Com o fim da Guerra Irã-Iraque, ambos voltaram a aumentar substancialmente a produção média diária.

SEU COMENTÁRIO: O boom das commodities (principalmente minério e petróleo) na década de 2000 foi "auxiliado" pelo enfraquecimento do dólar.

MEU COMENTÁRIO: Principais eventos para o aumento quase contínuo dos preços na década de 2000:

- Final dos anos 1990 e início dos anos 2000: Crescimento das economias Americana e Mundial.

- Pós 11/01/01 e invasão do Iraque: crescente preocupação quanto a estabilidade da produção do Oriente Médio.

- Segunda metade da década: Combinação de produção declinante mundial com o aumento acelerado e contínuo da demanda asiática pelo produto, especialmente China.

A causa da produção mundial declinante está relacionada à enorme expansão da produção OPEP na década anterior e que inibiu o investimento da indústria em exploração (pesquisa para descoberta de novas jazidas). Para quem não é da área, investimentos em exploração de petróleo tem retorno de médio a longo prazo.

SEU COMENTÁRIO: a recente queda a partir de 2012 (dólar forte).

MEU COMENTÁRIO: A partir de 2014 a queda dos preços está ligada a dois grandes eventos:

- Aumento substantivo da produção nos EUA e na Rússia, sendo que em 2015 a produção Americana atingiu o mais alto nível em mais de 100 anos, com os EUA voltando a serem os maiores produtores mundiais após mais de 50 anos (Figura a seguir)

- O crescimento estratosférico da produção americana está ligado ao boom do "shale oil" americano (óleo de folhelho), com o avanço tecnológico do fraturamento hidráulico (hydraulic fracturing, or fracking), ela começou a ser utilizada com progressivo sucesso em reservatórios não convencionais como o shale oil. Com isto, nunca os estoques americanos estiveram tão altos. E, aqui o básico da economia de Adam Smith: oferta maior que demanda gera queda nos preços.

Saudações, Paulo









Não, Xiba. Continua sendo pirâmide do mesmo jeito.

Essa questão da Previdência brasileira é um assunto bastante interessante pelo seguinte motivo: talvez seja a única área da economia que não está aberta a opiniões ideológicas.

Não importa se você é de esquerda ou de direita; liberal, libertário ou intervencionista. Também pouco importa se você acredita que a Previdência atual seja superavitária (como alguns acreditam). O que importa é que o modelo dela é insustentável. E é insustentável por uma questão puramente demográfica.

E contra a realidade demográfica não há nada que a ideologia possa fazer.

Comecemos pelo básico.

Ao contrário do que muitos ainda pensam, o dinheiro que você dá ao INSS não é investido em fundo no qual ele fica rendendo juros. Tal dinheiro é diretamente repassado a uma pessoa que está aposentada. Não se trata, portanto, de um sistema de capitalização, mas sim de um sistema de repartição: o trabalhador de hoje paga a aposentadoria de um aposentado para que, no futuro, quando esse trabalhador se aposentar, outro trabalhador que estiver entrando no mercado de trabalho pague sua aposentadoria.

Ou seja, não há investimento nenhum. Há apenas repasses de uma fatia da população para outra.

Por motivos óbvios, esse tipo de esquema só pode durar enquanto a fatia trabalhadora for muito maior que a fatia aposentada. Tão logo a quantidade de aposentados começar a crescer mais rapidamente que a fatia de trabalhadores, o esquema irá ruir.

Portanto, todo o arranjo depende inteiramente do comportamento demográfico da população. A qualidade da gestão do INSS é o de menos. Mesmo que a Previdência fosse gerida por anjos probos, sagazes e imaculados, ainda assim ela seria insustentável no longo prazo caso a demografia não cooperasse.

E, no Brasil, ela já não está cooperando. Segundo os dados do IBGE, em 2013, havia 5,5 pessoas com idade entra 20 e 59 anos para cada pessoa com mais de 60 anos. Em 2060, a se manter o ritmo projetado de crescimento demográfico, teremos 1,43 pessoa com idade entre 20 a 59 anos para cada pessoa com mais de 60 anos.

Ou seja, a menos que a idade mínima de aposentadoria seja continuamente elevada, não haverá nem sequer duas pessoas trabalhando e pagando INSS para sustentar um aposentado.

Aí fica a pergunta: como é que você soluciona isso? Qual seria uma política factível "de esquerda" ou "de direita" que possa sobrepujar a realidade demográfica e a contabilidade?

Havendo 10 trabalhadores sendo tributados para sustentar 1 aposentado, a situação deste aposentado será tranquila e ele viverá confortavelmente. Porém, havendo apenas 2 trabalhadores para sustentar 1 aposentado, a situação fica desesperadora. Ou esses 2 trabalhadores terão de ser tributados ainda mais pesadamente para sustentar o aposentado, ou o aposentado simplesmente receberá menos (bem menos) do que lhe foi prometido.

Portanto, para quem irá se aposentar daqui a várias décadas e quer receber tudo o que lhe foi prometido hoje pelo INSS, a mão-de-obra jovem do futuro terá de ser ou muito numerosa (uma impossibilidade biológica, por causa das atuais taxas de fecundidade) ou excessivamente tributada (algo que não é duradouro).

Eis o fato irrevogável: contra a demografia e a matemática, ninguém pode fazer nada.

A não ser mudar totalmente o sistema.

Uma proposta para uma reforma definitiva da Previdência

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Luís Dietz  20/11/2010 15:53
    Olá, tenho uma duvida sobre Menger e creio que aqui seja o melhor local para perguntar. Desde ja aviso que eu posso estar com os meus conceitos errados, se for esse o caso peço que desconsiderem a pergunta e apontem os meus erros conceituais. Vamos a questão:

    Menger diferentemente de Jevons e Walras acreditava que a utilidade total era igual a multiplicação da utilidade marginal do último bem pelo numero de bens. Jevons e Walras acreditavam que a utilidade total é o somatório de todos as utilidades marginais. Para mim essa segunda opção parece muito mais razoável, visto que consigo chegar a alguns absurdos levando em consideração a idéia de Menger. Seria isso um erro na teoria de Menger?

    Deixe eu exemplificar. Suponha que você esta morrendo de sede e compra dois copos de limonada. O primeiro copo mata a sua sede e o segundo você bebe apenas por gostar de limonada. Suponhamos também que você confere ao segundo copo menos da metade da utilidade do primeiro. Sendo assim chegaríamos a conclusão que para Menger comprar um copo de limonada traz mais utilidade do que dois copos, o que me parece um contra censo.

    O mesmo pode acontecer com bens que são tão abundantes que atribuímos uma utilidade marginal tendendo a zero. A utilidade total desses bens tenderiam a zero???!!!!!!
  • Leandro  20/11/2010 16:02
    Prezado Luís, essa é uma definição errada de utilidade marginal. Menger nunca disse que a "utilidade total era igual a multiplicação da utilidade marginal do último bem pelo numero de bens".

    Tampouco o exemplo da água é um exemplo de utilidade marginal. O exemplo da água é um exemplo da "lei da saciação", algo que Mises teve muito cuidado em não confundir.

    Permita-me dar um exemplo que vai ajudar a entender a definição de utilidade marginal:

    Se um indivíduo possui 5 carros idênticos, os quais satisfazem completamente todos os seus desejos, então o valor de cada carro será determinado pela importância que esse indivíduo atribui ao quinto carro que ele possui (no sentido de que há um ranking de preferências pelos carros, e supondo que o quinto carro é o menos importante para ele). Assim, se ele por exemplo perder esse quinto carro, o valor de um carro aumentaria de acordo com a satisfação que ele agora tira do quarto carro no seu ranking de importância.

    Caso ele perdesse 4 carros, ficando com apenas um, o valor desse único carro restante aumentaria enormemente, e o indivíduo agora passaria a valorizá-lo de acordo com a importância que esse único carro tem para ele na satisfação de todos os seus afazeres diários.

    Por outro lado, caso ele ganhasse num sorteio 100 carros iguais -- um número que excede em muito a hipótese inicial de que 5 carros o satisfazem completamente --, então a utilidade marginal e o valor de cada carro agora seria de zero, pois a satisfação de todos os seus desejos automobilísticos não dependeria da posse de um centésimo carro -- aliás, não dependeria nem mesmo de um sexto carro.

    Portanto, o valor que um indivíduo atribui a uma unidade de uma determinada quantidade de bens é igual à importância que ele dá à satisfação da necessidade menos importante propiciada por essa unidade.

    Se você está com fome e tem várias cédulas de 5 reais, perder uma cédula não lhe fará diferença alguma. Por outro lado, se você, estando com a mesma fome de antes, porém tendo agora apenas uma cédula de 5 reais, perder essa cédula, isso pode significar a diferença entre comer e morrer de fome. Logo, sua utilidade marginal para a cédula de 5 reais é nula no primeiro caso e, no segundo caso, possui o valor de sua vida.


    Creio que agora deve ter ficado mais claro o real conceito de utilidade marginal explicado por Menger.
  • Luís Dietz  20/11/2010 20:28
    Ok Leandro, admito que foi infeliz a forma como expressei a idéia de Menger. Mas a minha duvida ainda persiste. O conceito de utilidade marginal basicamente não muda na abordagem dos 3 autores, mas a idéia de uma utilidade total sim.

    Usando o seu mesmo exemplo dos carros, dependendo de qual utilidade a pessoa atribua para cada carro subsequente (caso a utilidade diminua muito) poderemos chegar ao cumulo de admitir que este indivíduo consegue extrair utilidade da perda de um carro.

    E essa é a minha dúvida. Abordar a questão desta forma não leva a erros?
  • Leandro  20/11/2010 22:42
    Prezado Luís, não existe algo como soma de utilidades. Tampouco existe comparação de utilidades. Não existem operações matemáticas que possam ser feitas com utilidades. Utilidade seria uma espécie de graduação, um ranking totalmente subjetivo. E só.

    Você pode dizer, por exemplo, que gosta mais da sua atual namorada do que da antiga, ou que prefere um amigo a outro, mas jamais poderá quantificar tal preferência.

    Sobre a utilidade aumentar quando se perde algo, isso é sim possível, mas teria de ser uma situação muito específica. No exemplo dos carros, não consigo visualizar como uma perda poderia melhorar a utilidade do indivíduo. (Não confunda aumento da utilidade de cada carro com aumento da utilidade extraída pelo indivíduo).
  • Luis Dietz  21/11/2010 06:01
    Segundo o wikipédia:

    "A utilidade total de um bem cresce quando se consome maiores quantidades dele, mas seu incremento da utilidade marginal é cada vez menor."

    Segundo suas próprias palavras:

    "Se um indivíduo possui 5 carros idênticos, os quais satisfazem completamente todos os seus desejos, então o valor de cada carro será determinado pela importância que esse indivíduo atribui ao quinto carro que ele possui (no sentido de que há um ranking de preferências pelos carros, e supondo que o quinto carro é o menos importante para ele). Assim, se ele por exemplo perder esse quinto carro, o valor de um carro aumentaria de acordo com a satisfação que ele agora tira do quarto carro no seu ranking de importância."

    Você fez uma ótima definição de utilidade total, na verdade melhor que a do wikipédia.Você mesmo disse que a utilidade de cada carro será igual a utilidade marginal, logo existe algo que podemos chamar de utilidade que esses carros como um todo geram. Nesse exemplo se a utilidade marginal aumentar em mais de 25% com a perda de um carro, ja chegaremos ao absurdo de dizer que a perda de um carro seria bom para o individuo, pois aumentará sua utilidade total (além da marginal que sempre aumenta).

    Negar a existencia de uma utilidade total é como dizer que não existem uma manada de elefantes, mas sim 10 elefantes individuais agrupados.

    O que eu estou querendo mostrar é que talvez Menger extivesse errado ao fazer essa definição. Dizer que a utilidade de cada bem é igual a utilidade marginal daquele bem para mim é o erro que ele cometeu. Minha intenção aqui era confirmar se ele realmente havia dito isso, e segundo as suas palavras sim.
  • Luis Dietz  21/11/2010 09:43
    Lendo este artigo eu acho que consegui elucidar a minha duvida e entender porque eu não consiguia lhe compreender.

    Esta minha duvida veio após ler o livro de História do Pensamento Economico do Stanley Brue e ele considera utilidade de Menger, Walras e Jevons como a mesma coisa, por isso o erro que gera ao tentar se chegar a utilidade total na visão de Menger.

    Mas convenhamos que talvez fosse melhor criar outro termo para a utilidade usada por Menger. Prioridade seria melhor, afinal é uma lista de prioridades. Utilidade remete a valores (que lógicamente não são numéricos mas ainda assim são valores) enquanto o que você esta tentando me mostrar são prioridades (e por isso de não haver uma prioridade total). Dizer prioridade marginal seria muito melhor eu acho. São dois conceitos diferentes pelo o que eu entendi, não consigo entender o porque de se usar o mesmo termo para ambos.

    Se eu ainda estiver errado me corrija.

    Enfim, desculpe meu incomodo.
  • Luis Dietz  21/11/2010 13:47
    [a href="www.mises.org.br/Article.aspx?id=269"]Este artigo.[/a]
  • Daniel Marchi  22/04/2011 11:44
    A Biblioteca do IMB está cada vez melhor, mas faltam as obras de Carl Menger, fundador da Escola Austríaca. Fica a sugestão.
  • mcmoraes  10/08/2012 07:09
    ... até o final dos anos 80 (do sec. XIX), não havia a Escola Austríaca, havia apenas Carl Menger... (The Birth of the Austrian School)
  • Pedro  12/11/2012 20:30
    Quando será que a biblioteca do site irá disponibilizar as principais obras de Menger e de Böhm-Bawerk? Eu quero muito começar a estudar a Escola Austríaca do início, de seus fundadores, mas tenho alguns problemas com o inglês, seria muito bom se fossem disponibilizados os livros deles.

    Bom... fica a dica.
  • Herdeiro de Carl Menger  30/11/2012 09:58
    O livro do Carl menger tem aqui:
    www.libertarianismo.org/livros/pdepcm.pdf
  • Amarilio Adolfo da Silva de Souza  23/06/2013 22:47
    Interessante.
  • Emerson Luis, um Psicologo  04/09/2013 18:46
    Assim como o lápis é resultado do trabalho de muitas pessoas, as ideias também.

    * * *


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