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Chávez joga a Venezuela em uma guerra por comida

Ainda no final de junho, os bispos venezuelanos alertavam para as inevitáveis consequências das medidas do presidente Hugo Chávez para comandar a distribuição de alimentos: tal medida colocaria em risco a oferta de comida para todos os cidadãos comuns da Venezuela.

Hoje, os líderes eclesiásticos dizem que o fracasso da PDVAL — uma estatal alimentícia subsidiária da estatal petrolífera PDVSA — em distribuir alimentos importados, os quais apodreceram todos nos portos, é "um pecado pelo qual os céus choram".

Recentemente, descobriu-se que milhares de toneladas de carne em putrefação estavam entre as 80.000 toneladas de alimentos que foram deixadas deteriorando no porto da cidade de Puerto Cabello.

Um trabalhador local disse que o forte mau cheiro nas docas indicava que a carne já estava ali apodrecendo há semanas.  Disse ele: "Fedia como 100 cachorros mortos."

O escândalo surge apenas algumas semanas depois de Chávez ter decretada uma "guerra econômica aos burgueses" donos de supermercados, fábricas, plantações de arroz e empresas distribuidoras de alimentos.

A "batalha por comida" coincidiu com uma grosseira desvalorização da moeda venezuelana — o bolívar — em janeiro, uma medida que serviu apenas para elevar maciçamente o custo das importações.

O resultado até agora tem sido uma catástrofe econômica no único país da América Latina que está em recessão.  O próprio Banco Central venezuelano confirma que a inflação já ultrapassou os 20% só nesse ano, e já é maior que 30% para o período de um ano.  Nesse mesmo período de tempo (um ano), o preço dos alimentos já subiu 41%.  O governo destacou soldados para invadir casas e confiscar alimentos estocados.  Longas filas regularmente se formam nas ruas à espera de mercadorias básicas.

Chávez não se assusta com seus fracassos.  Recentemente ele inaugurou — agora sob gerência estatal — uma cadeia de supermercados que seu governo havia expropriado de um grupo franco-colombiano.  Ele vangloria-se de que, sob sua gerência, essa nova rede estatal já opera a uma margem de lucro maior do que operava sob gerência privada.

O ex-pára-quedista, fã confesso de Robert Mugabe, o ditador do Zimbábue, e de Fidel Castro, o tirano comunista de Cuba, jactou-se de ter inaugurado uma nova era de supremacia socialista.  Disse ele:

O socialismo é necessariamente melhor que o capitalismo em tudo, e é isso que estamos provando.

Os frequentes desabastecimentos e escassezes derrubaram a popularidade de Chávez para 45%, como demonstrou uma rara pesquisa desse tipo feita ainda em março.  Três anos atrás, ela era de 70%.  "Já estou cansado dessa falta de alimentos!", protestou um consumidor que não conseguiu chegar a tempo para uma fila que se formava para adquirir açúcar.  "As pessoas ficam desesperadas e começam a se comportar como animais."

Com a incontida escalada das reclamações, cada vez mais violentas, Chávez resolveu atacar os últimos bastiões de oposição que ainda restam no país que ele comanda desde 1999.  Guillermo Zuloaga, proprietário da emissora televisiva Globovision, foi forçado a deixar o país em junho após ter sido acusado de ofender Chávez ao divulgar "informações falsas".

O regime de Caracas agora está ameaçando o bilionário Lorenzo Mendoza, dono da Empresas Polar, a última cadeia de supermercado capaz de rivalizar com o sistema estatal inspirado no modelo cubano.  A rede rejeitou as acusações de Chávez de estar lucrando com a estocagem de alimentos, dizendo que tais acusações são "absurdas e irracionais".

O ditador de 55 anos ameaça regularmente o senhor Mendoza em seu programa semanal de televisão, "Alô, Presidente".  "Mendoza, se você continuar fazendo besteiras, eu vou tomar a Polar de você, absolutamente todas as instalações", disse ele ainda em março.

O sofrimento dos venezuelanos não afetou a adoração que Chávez desfruta no exterior.  Além dos intelectuais de praxe, o ex-prefeito de Londres Ken Livingstone, o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad e o presidente boliviano Evo Morales comportam-se como genuínos chefes de torcida de Chávez em sua confrontação com o capitalismo.

Outro famoso admirador de Chávez é o cineasta americano Oliver Stone, que acaba de lançar "Ao Sul da Fronteira", documentário sobre a América Latina que nada mais é que uma verdadeira hagiografia de Chávez.


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autor

Damien McElroy
é correspondente de assuntos internacionais do jornal britânico The Telegraph.

  • Angelo Viacava  26/09/2010 10:30
    Quantos já não tiveram a chance de puxar um gatilho em frente a Chavez e não o fizeram por pura covardia? Todos querem acabar com o inço, mas ninguém que pegar na enxada. Aí fica difícil. Crápulas têm de ser tratados como tais, o resto é conversinha. É lindo ficar falando a respeito da liberdade e suas benesses, mas daí vem o pudor: não podemos nos igualar aos facínoras! A não iniciação de agressão. Todos, amigos e inimigos, sabem de tudo o que se passa na Venezuela, mas continuam inertes. E se os inimigos não tomarem providência, assistiremos a mais um capítulo da história dos ditadores ao redor do mundo que morreram de cansados no poder sem jamais terem sido incomodados. Ainda recebem asilo político em países amigos depois da aposentadoria, desfrutrando de toda a fortuna que amealharam durante seus mandatos. Davi não escreveu uma crônica desfavorável a Golias. Simplesmente deu-lhe um fundaço na testa. Tinha de ser feito e foi feito.
  • Angelo Noel  26/09/2010 14:43
    Sinceramente, não sei porque a CIA ainda não tomou providências a respeito deste cavalheiro.
    E é tão fácil...
  • Marcelo Werlang de Assis  26/09/2010 15:10
    "Such is the reality of the bureaucratic utopia." (Mises)\r
    \r
    Au revoir!\r
  • Getulio Malveira  27/09/2010 15:12
    Diz o ditado que "cada povo tem o governante que merece", o que significa que cada escravo tem em seu senhor tanta tirania quanto pode suportar. Se os venezuelanos são submissos e fracos o suficiente para suportar até mesmo o que um cão não suportaria, a falta de comida, então não importa retirar chaves, eles já são e sempre serão escravos. "Só da liberdade e vida é digno quem a cada dia conquista-las deve" (Goethe)
  • Marcelo  14/01/2011 17:12
    Chavez é um demônio.
  • w matos  14/03/2013 06:30
    Bom, queria entender sobre a tal redução da pobreza que tanto falam que houve no governo do Chávez...

    achadoseconomicos.blogosfera.uol.com.br/2013/03/06/sob-chavez-venezuela-reduziu-pobreza-enquanto-aumentou-divida/

    Alguém pode explicar?
  • Leandro  14/03/2013 07:22
    Não há nenhuma fonte confiável. Quem mensura a pobreza na Venezuela é a totalmente ideologizada CEPAL, e seus critérios são elásticos. Ademais, é muito difícil reduzir a pobreza em uma economia cuja inflação está em disparada e o empreendimento é tolhido.

    Se você tomar dinheiro do rico para dar ao pobre, você de fato reduz a pobreza deste pobre, mas tal medida é efêmera. O processo tem de se repetir continuamente. Só que confiscar continuamente a riqueza de uns para transferir a outros não gera enriquecimento geral. Você está apenas repartindo o bolo, com a desvantagem de que, por uma questão de incentivos, o bolo irá encolher (ninguém vai continuar produzindo riqueza se ele sabe que ela será confiscada).

    Meu palpite é que a economia como um todo empobreceu (esqueça as mensurações de PIB, aquilo ali metodologicamente não faz nenhum sentido), mas os mais pobres melhoraram um pouco simplesmente porque passaram a receber mais esmolas.
  • w matos  14/03/2013 07:40
    mas ali no link também diz que a inflação da venezuela diminuiu no período Chávez... :p
  • Leandro  14/03/2013 08:59
    A Venezuela teve dois picos de hiperinflação. Um na década de 1980 (muito menor do que no Brasil) e um na década de 1990. No período Chávez, a inflação (de estatísticas manipuladas, pois divulgadas pelo Banco Central chavista) foi menor que da década de 1980, mas maior que da década de 1970. E sempre acima dos 20%. Isso não é inflação normal.

    www.tradingeconomics.com/charts/venezuela-inflation-cpi.png?s=vnvpiyoy&d1=19730101&d2=20130331
  • Sérgio  14/03/2013 08:32
    Uma coisa devo discordar, Leandro. RIQUEZA NÃO É UM BOLO. que os esquerdistas dizem: "os ricos ficam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres". É por achar que riqueza é como um bolo, à qual se um pegar um pedaço maior, deixará os outros com pedaços meno. Riqueza não é como um bolo. Não é algo "pré criado". RIQUEZA SE PRODUZ. O problema é que se confiscar a riqueza dos ricos, os ricos realmente ficarão menos ricos ou ficarão pobres. Mas o pobres não deixarão de ser pobres, eles ficarão MAIS pobres ainda. Pois não há incentivo para trabalhar, poupar, abrir um negócio e acumular capital. Enfim, não há incentivos para gerar riquezas. Foi o que ocorreu na Venezuela de Chávez. Por isso os números de pobreza aumentaram (ao contrário do que a CEPAL esquerdistas diz).
  • Leandro  14/03/2013 09:05
    A riqueza pode sim, em termos metafóricos, ser vista como um bolo. Ela pode crescer, pode ficar estagnada, e pode diminuir. Se você adota políticas de redistribuição, no curto prazo o bolo estagna (os ricos empobrecem e os pobres melhoram de situação); no longo prazo, ele encolhe (ricos e pobres empobrecem, pelos motivos que você corretamente apontou). Não há controvérsia aí.
  • Sérgio  14/03/2013 08:07
    Precisa se informar um pouco mais sobre os indicadores econômicos e sociais da Venezuela. Segundo a ONU, durante a Era Chavista, o número e pessoas subnutridas na Venezuela aumentou de 16% em 1997 para 18% em 2003. Isso é redução de pobreza?

    Os numeros abaixo são estatísticas indicadas pelo próprio Governo Venezuelano, pelo INE (Instituto Nacional de Estatísticas) da Venezuela:

    Habitantes em Necessidades Não Satisfeitas:

    Hacinamiento Crítico (Super-povoadas em condições péssimas)
    1997: 629,183
    1998: 713,226
    1999: 745,712
    2000: 765,311
    2001: 737,382
    2002: 942,043
    2003: 950,592
    2004: 941,844
    2005: 867,366
    2006: 892,330

    Viviendas Inadecuadas
    1997: 222,857
    1998: 319,385
    1999: 294,599
    2000: 286,081
    2001: 283,553
    2002: 544,816
    2003: 541,120
    2004: 528,209
    2005: 495,463
    2006: 493,914

    A população vivendo em condições inadequadas, isto é, um pouco melhor que o "hacinamiento crítico", aumentaram em + de 121% de 1997 a 2006, pior de 1997 a 2002 que a elevação foi de 144%. Ou seja, na Era Chavista, aumentou a quantidade de pessoas morando em em habitações de risco e em condições ruins (hacinamiento crítico e Viviendas Inadecuadas). Isso é redução de pobreza?
  • w matos  14/03/2013 11:16
    Mas a população da Venezuela aumentou nesse período, então acredito que esses números estejam em um percentual parecido.

    Mas a minha dúvida ainda é com relação à inflação, eu não sou da área da economia, vou precisar de uma explicação mais detalhada...

    Vendo esse gráfico parece que, com o Chávez, a inflação diminuiu na Venezuela (apesar de ainda estar alta e parecer oscilar muito), isso não teria contribuído de alguma forma na "redução da pobreza"?

    E não entendi também sobre o PIB, porque o PIB venezuelano aumentou quase 5x de 2003 pra 2010, o bolo parece ter aumentado...
  • Leandro  14/03/2013 11:33
    O PIB per capita da Venezuela está hoje abaixo de onde estava na década de 1970. (Aumentou a partir de 2004 por causa do preço do petróleo, que começou a subir forte naquele ano)

    www.tradingeconomics.com/charts/venezuela-gdp-per-capita.png?s=vennygdppcapkd&d1=19600101&d2=20130331

    Quanto à inflação, ela se manteve entre 20 e 40% em uma época em que a inflação mundial variou entre 2 e 5%. Não entendo por que isso seria motivo de louvor. Se a inflação no governo anterior era ainda mais alta, então isso apenas mostra a qualidade dos caudilhos de lá.
  • Renato Souza  14/03/2013 12:23
    Note-se que a imprensa é muito mais controlada hoje pelo governo que antes de Chaves, e foi destruido qualquer resto de independência dos organismos que fazem essas estatísticas. Então, nem mesmo a afirmação de que a inflação, embora altíssima, é menor que com o governante anterior, pode ser aceita, é impossivel saber. O que dá para saber é que existem aqueles mecanismos típicos de ditaduras inflacionários, como controles de preços, ameaças a comerciantes e falta de produtos nas lojas e mercados. Esse lance de falta de produtos sempre vem acompanhado do "mercado negro" com preços mais altos. Issso indica que a economia está pior e a inflação de preços mais alta do que o governo venezuelano quer que saibamos. O aumento da quantidade de pessoas vivendo mal é outro indicar da pobreza do povo, que os governantes querem esconder.

    Mas bom estar da população não é só economia. Todos os índices de violência estouraram sob o governo Chaves. A liberdade foi para o ralo, e os empreendedores que não são amigos do governo são perseguidos.
  • Sérgio  14/03/2013 08:22
    Se querem saber a fonte dos número que eu coloquei, aqui está:

    www.ine.gov.ve/index.php?option=com_content&view=category&id=104&Itemid=45#

    clique em MÉTODO NECESIDADES BÁSICAS INSATISFECHAS (NBI)

    Depois clique em "Hogares pobres por necesidades básicas insatisfechas, 1eros semestres 1997-2011"

    E vai aparecer ests números:

    Hacinamiento crítico
    1997 - 629.183
    1998 - 713.226
    1999 - 745.712
    2000 - 765.311
    2001 - 737.382
    2002 - 942.043
    2003 - 950.592
    2004 - 941.844
    2005 - 867.366
    2006 - 892.330
    2007 - 830.090
    2008 - 777.961
    2009 - 762.875
    2010 - 764.488
    2011 - 705.692
  • Felix  14/03/2013 12:08
    e essa popularidade toda?
    como pode uma pessoa que criou essas condições no país ser tão popular, ganhar eleições seguidas? causar comoção? e provavelmente fazer o sucessor mesmo depois de morto?
    talvez o povo realmente tenha o governo que merece...
  • Fabio  17/03/2013 17:23
    Felix, na minha opinião, todo o programa de redistribuição de renda é visto com bons olhos para as classes mais pobres. Por que? Porque é uma renda que você recebe sem esforço. Você não gostaria de receber uma grana sem ter que trabalhar para isso? Além do que sempre existe a inveja de quem tem menos para com quem tem mais. E esses programas de redistribuição de renda parecem, para os beneficiados, como "justiça social". Com isso, políticos que adotam esta estratégia tornam-se muito populares em países em que a pobreza é dominante.

    Acho que vai demorar um bom tempo até que o povo tenha consciência que não existe almoço grátis. Toda essa "benesse" tem ou terá algum preço. Alguns sentem imediatamente outros sentirão mais tarde.

    Impostos, que são a fonte de receita para os programas sociais, deprimem a economia de um modo geral. Para o consumidor, os impostos pesam na conta. Para o empresário, desestimulam o investimento. Para o trabalhador, desestimula, em parte, a capacitação. Especializar para que? Para pagar mais impostos?
  • Típico Filósofo  04/09/2013 15:00
    Maduro: Apagão na Venezuela em jogo de Basquete foi ato da extrema direita.
    (E da CIA também)

    g1.globo.com/mundo/noticia/2013/09/apagao-na-venezuela-e-sabotagem-da-direita-diz-presidente-maduro.html

    A falta de papel higiênico, produtos de limpeza e comida também!
  • Emerson Luis, um Psicologo  28/07/2014 21:53

    Quanto mais profundo o socialismo (de qualquer versão), maior é a miséria.

    * * *


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