As raízes escolásticas da Escola Austríaca e o problema com Adam Smith
por , quinta-feira, 20 de maio de 2010

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Juan de Mariana
Apesar de existir acordo generalizado quanto ao fato de a Escola Austríaca ter nascido em 1871, com a publicação do livro de Carl Menger (1840-1921) intitulado Princípios de Economia Política, na realidade, o principal mérito deste autor consistiu em ter sabido recolher e impulsionar uma tradição do pensamento de origem católica e européia continental que se pode fazer remontar até ao nascimento do pensamento filosófico na Grécia e, de forma ainda mais intensa, até à tradição de pensamento jurídico, filosófico e político da Roma clássica. 

Efetivamente, na Roma clássica descobriu-se que o direito é basicamente consuetudinário e que as instituições jurídicas (assim como as linguísticas e as econômicas) surgem como resultado de um longo processo evolutivo, incorporando um enorme volume de informação e conhecimentos que supera, e muito, a capacidade mental de qualquer governante, por mais sábio e bem intencionado que ele possa ser. 

Assim, sabemos graças a Cícero (De republica, II, 1-2), a forma como, para Catão: "o motivo pelo qual o nosso sistema político foi superior ao de todos os outros países é este: os sistemas políticos dos países restantes foram criados introduzindo leis e instituições de acordo com o parecer pessoal de indivíduos específicos, tais como Minos em Creta e Licurgo em Esparta. De forma diferente, a nossa república romana não se deve à criação pessoal de um homem, mas de muitos.  Não foi fundada durante a vida de um indivíduo particular, mas sim durante uma sucessão de séculos e gerações.  Porque nunca houve no mundo um homem com inteligência suficiente para tudo prever, e porque mesmo se pudéssemos concentrar todos os cérebros na cabeça de um mesmo homem, lhe seria impossível considerar tudo ao mesmo tempo sem ter acumulado a experiência que deriva da prática ao longo de um largo período da história"

O núcleo desta ideia essencial constituirá o ponto fulcral do argumento de Ludwig von Mises sobre a impossibilidade teórica da planificação socialista, e será conservado e reforçado na Idade Média graças ao humanismo cristão e à filosofia tomista do direito natural, concebido como um corpo ético prévio e superior ao poder de cada governo terreno.  Pedro Juan de Olivi, São Bernardino de Sena e Santo António de Florença, entre outros, teorizaram sobre o papel protagonista que a capacidade empresarial e criativa do ser humano tem como impulsionadora da economia de mercado e da civilização.  No entanto, o testemunho principal desta linha de pensamento foi recolhido, divulgado e aperfeiçoado pelo conjunto de grandes teóricos constituído pelos escolásticos do Século de Ouro espanhol os quais, sem qualquer dúvida, deverão ser considerados como os principais precursores da Escola Austríaca de Economia. 

Os escolásticos do Século de Ouro espanhol como precursores da Escola Austríaca

Para Friedrich A. Hayek, os princípios teóricos da economia de mercado, assim como os elementos básicos do liberalismo econômico, não foram concebidos, como geralmente se acredita, pelos calvinistas e protestantes escoceses, sendo que, pelo contrário, são o resultado do esforço doutrinário empreendido pelos dominicanos e jesuítas membros da Escola de Salamanca durante o Século de Ouro espanhol.  Hayek chegou mesmo ao extremo de citar dois dos nossos escolásticos, Luís de Molina e Juan de Lugo, no seu discurso de aceitação do Prêmio Nobel da Economia em 1974.  Este economista austríaco começou a convencer-se da origem católica e espanhola da análise econômica austríaca a partir dos anos de 1950, graças à influência do professor italiano Bruno Leoni.  Leoni convenceu Hayek de que as raízes da concepção dinâmica e subjetivista da economia eram de origem continental e de que, portanto, deveriam ser procuradas na Europa mediterrânica e na tradição grega, romana e tomista, mais do que na tradição dos filósofos escoceses do século XVIII.  Além disso, Hayek teve a sorte de, durante esses anos, ter uma das suas melhores alunas, Marjorie Grice-Hutchinson, que se especializara em latim e literatura espanhola, levando a cabo, sob a orientação de Hayek, um trabalho de investigação sobre as contribuições dos escolásticos espanhóis no âmbito da economia, trabalho esse que, com o tempo, se converteu num pequeno clássico.

Quem foram estes precursores intelectuais da moderna Escola Austríaca de Economia?  A maioria deles foram dominicanos e jesuítas, professores de moral e teologia em universidades que, como a de Salamanca e a de Coimbra, constituíram os focos mais importantes do pensamento durante o Século de Ouro espanhol.  Analisaremos em seguida, de forma sintética, quais foram as suas principais contribuições para o que mais tarde seriam os elementos básicos da análise econômica austríaca.

Talvez devamos começar fazendo menção a Diego de Covarrubias y Leyva.  Covarrubias (1512-1577), filho de um famoso arquiteto, chegou a bispo da cidade de Segóvia (em cuja catedral se encontra enterrado), sendo durante vários anos ministro do rei Filipe II.  Em 1555, Covarrubias expôs melhor do que ninguém até então a essência da teoria subjetiva do valor, em torno da qual gira todo o enquadramento da análise econômica da Escola Austríaca, ao afirmar que "o valor de uma coisa não depende da sua natureza objetiva, mas, antes, da estimação subjetiva dos homens, mesmo que tal estimação seja insensata"; aludindo para ilustrar a sua tese ao fato de que "nas Índias o trigo vale mais do que na Espanha porque ali os homens o estimam mais, e isso apesar de a natureza do trigo ser a mesma em ambos os lugares". 

Covarrubias escreveu também um estudo sobre a evolução histórica da diminuição do poder aquisitivo do maravedí, antecipando muitas das conclusões teóricas sobre a teoria quantitativa da moeda que posteriormente seriam expostas por Martín de Azpilcueta e Juan de Mariana, entre outros.  O estudo de Covarrubias incorpora um grande volume de dados estatísticos sobre a evolução dos preços no século precedente àquele em que viveu, e foi publicado em latim com o título de Veterum collatio numismatum.  Esta obra de Covarrubias é muito significativa, não apenas por ter sido citada de maneira laudatória em séculos posteriores pelos italianos Davanzati e Galiani, mas sobretudo por ser um dos livros citados por Carl Menger nos seus Princípios de Economia Política.

A tradição subjetivista iniciada por Covarrubias é continuada por outro notável escolástico, Luis Saravia de La Calle, que é o primeiro a tornar clara a verdadeira relação que existe entre preços e custos no mercado, no sentido de que, em todas as situações, são os custos que tendem a seguir os preços e não o contrário, antecipando-se assim na refutação dos erros da teoria objetiva do valor que seria posteriormente desenvolvida pelos teóricos da escola clássica anglo-saxônica, e que viria a se converter no fundamento da teoria da exploração de Karl Marx e dos seus sucessores socialistas. 

Assim, Saravia de la Calle, na sua obra Instrucción de mercaderes, publicada em castelhano em Medina del Campo em 1544, escreveu que "os que medem o preço justo de uma coisa segundo o trabalho, custos e riscos em que incorre quem produz a mercadoria cometem um grave erro; porque o preço justo nasce da abundância ou falta de mercadorias, de empresários e de moeda, e não dos custos, trabalhos e riscos".

Além disso, todo o livro de Saravia de la Calle está centrado na função do empresário, que ele denomina "mercader", seguindo assim a já mencionada tradição escolástica sobre o papel dinamizador do empresário que remonta a Pedro João de Olivi, Santo António de Florença e, principalmente, São Bernardino de Sena.

Outra notável contribuição dos nossos escolásticos foi a introdução do conceito dinâmico de concorrência (em latim, concurrentium), entendida como o processo empresarial de rivalidade que move o mercado e impulsiona o desenvolvimento da sociedade.  Esta ideia, que haverá de converter-se no coração da teoria do mercado da Escola Austríaca, contrasta radicalmente com os modelos de equilíbrio de concorrência perfeita, monopolística e de monopólio analisados pelos neoclássicos, e levou também os escolásticos a concluir que os preços do modelo de equilíbrio (que eles denominaram "preços matemáticos"), que os teóricos neoclássicos socialistas pretenderam utilizar para justificar o intervencionismo e a planificação do mercado, nunca poderiam chegar a ser conhecidos.  Assim, Raymond de Roover atribui a Luis de Molina o conceito dinâmico de concorrência entendida como "o processo de rivalidade entre compradores que tende a elevar o preço", e que nada tem a ver com o modelo estático de "concorrência perfeita" que, no século XX, os denominados "teóricos do socialismo de mercado" ingenuamente acreditaram poder ser simulado num regime sem propriedade privada.  Apesar disso, é Jerónimo Castillo de Bovadilla quem melhor expõe esta concepção dinâmica da livre concorrência entre empresários no seu livro Política para corregidores, publicado em Salamanca em 1585, onde ele afirma que a característica mais positiva da concorrência é conseguir "emular" o concorrente.  Castillo de Bovadilla enuncia ainda a seguinte lei econômica, base da defesa do mercado por parte de todo o economista austríaco: "os preços dos produtos baixarão com a abundância, emulação e concorrência de vendedores".

Quanto à impossibilidade de os governantes ou os analistas chegarem a conhecer os preços de equilíbrio e os demais dados de que necessitam para intervir no mercado ou para elaborar os seus modelos, destacam-se as contribuições dos cardeais jesuítas espanhóis Juan de Lugo e Juan de Salas.  O primeiro, Juan de Lugo (1583-1660), questionando-se sobre a determinação do preço de equilíbrio, já em 1643 havia concluído que depende de uma tão grande quantidade de circunstâncias específicas que apenas Deus o pode conhecer ("pretium iustum mathematicum licet soli Deo notum").  O segundo, Juan de Salas, em 1617, referindo-se à possibilidade de que um governante possa chegar a conhecer a informação específica que dinamicamente se cria, descobre e usa no mercado, afirma que "quas exate comprehendere et ponderare Dei est non hominum", ou seja, que apenas Deus, e não os homens, pode compreender e ponderar exatamente toda a informação e o conhecimento que são usados no processo de mercado pelos agentes econômicos com todas as suas circunstâncias particulares de tempo e de espaço (Salas, 1617: 4, nº 6, 9).  Como veremos, tanto Juan de Lugo como Juan de Salas antecipam, em mais de três séculos, as mais refinadas contribuições dos mais destacados pensadores austríacos (especialmente Mises e Hayek).

Outro dos elementos essenciais do que depois se converterá na análise econômica da Escola Austríaca é o princípio da preferência temporal, segundo o qual, tudo o resto constante, os bens presentes são sempre mais valorizados do que os bens futuros.  Esta doutrina foi redescoberta por Martín de Azpilcurta (o famoso doutor Navarro) em 1556, que por sua vez a tomou de um dos melhores discípulos de São Tomás de Aquino, Giles de Lessines que, já em 1285, havia afirmado que "os bens futuros não são tão valorizados como os mesmos bens disponíveis de imediato, nem têm a mesma utilidade para os seus proprietários.  Por esta razão, o seu valor de acordo com a justiça há de ser mais reduzido".

Os efeitos distorcivos da inflação, entendida como toda a política estatal de crescimento da oferta monetária, foram também estudados analiticamente pelos escolásticos.  Neste âmbito, destaca-se o trabalho do padre Juan de Mariana intitulado De monetae mutatione, traduzido para castelhano posteriormente pelo autor com o título de Tratado y discurso sobre la moneda de vellón que al presente se labra en castilla y de algunos desórdenes y abusos (Mariana, 1987).  Neste livro, publicado pela primeira vez em 1605, Mariana critica a política seguida pelos governantes da sua época de baixar de forma deliberada o valor da moeda, embora não utilize o termo "inflação", desconhecido na época, explica a forma como os efeitos da mesma são o incremento dos preços e a desorganização geral da economia real. 

Mariana critica também a política de estabelecimento de preços máximos para lutar contra os efeitos da inflação, política que ele considera não só incapaz de produzir efeitos positivos, mas também altamente danosa para o processo produtivo.  Melhora-se assim a análise muito mais simplista, por ser exclusivamente macroeconômica, efetuada anteriormente por Martín de Azpilcueta em 1556, e antes dele por Copérnico no seu livro Monetae cudendae ratio, onde foi exposta pela primeira vez a típica versão, muito simplificada e mecanicista, da teoria quantitativa da moeda hoje tão divulgada.  São também importantes as contribuições dos nossos escolásticos para a teoria bancária. 

Assim, por exemplo, é claríssima a crítica do Doutor Saravia de la Calle ao exercício do sistema bancário com reserva fracionária, no sentido de que a utilização em benefício próprio mediante concessão de empréstimos a terceiros, de dinheiro que é depositado à vista nos bancos é ilegítima e implica um pecado grave, doutrina que coincide plenamente com a que foi estabelecida pelos autores clássicos do direito romano, e que surge naturalmente da própria essência, causa e natureza jurídica do contrato de depósito irregular de dinheiro. 

Também Martín de Azpilcueta e Tomás de Mercado desenvolveram uma análise rigorosa e muito exigente sobre a atividade bancária que, embora não chegue aos níveis críticos de Saravia de la Calle, inclui um excelente tratamento das exigências que a justiça impõe que se observem no contrato de depósito bancário de dinheiro.  Uns e outros, portanto, exigem implicitamente que a atividade bancária se exerça com um coeficiente de caixa de cem por cento, proposta esta que haverá de converter-se num dos elementos fundamentais da análise austríaca relativa à teoria do crédito e dos ciclos econômicos. 

Menos rigorosa e, portanto, mais compreensiva com o exercício do sistema bancário de reserva fracionária, é a análise de Luis de Molina e Juan de Lugo, ainda que, de acordo com Dempsey, se estes autores tivessem conhecido detalhadamente o funcionamento e as implicações teóricas do sistema bancário com reserva fracionária, tal como os mesmos foram desenvolvidos por Mises, Hayek e o resto dos teóricos da Escola Austríaca, o processo de expansão do crédito e inflação fiduciária originado pelo sistema bancário com reserva fracionária teria sido considerado, pelos próprios Molina, Lesio e Lugo como um vasto e ilegítimo processo de usura institucional

Interessa, não obstante, ressaltar como Luis de Molina foi o primeiro teórico a salientar que os depósitos e o dinheiro bancário em geral, que ele denomina em latim chirographis pecuniarum, é parte integrante, da mesma forma que o dinheiro em espécie, da oferta monetária.  De fato, Molina expressou em 1597, muito antes de Pennington em 1826, a ideia essencial de que o volume total de transações monetárias que se efetua numa feira não poderia ser pago com a quantidade de dinheiro metálico que na mesma muda de mãos, se não fosse pela utilização do dinheiro que os bancos geram através do registro dos seus depósitos e da emissão de cheques sobre os mesmos por parte dos depositantes.  De tal forma que, como resultado da atividade financeira dos bancos, se cria a partir do nada uma nova quantidade de dinheiro sob a forma de depósitos que é utilizada nas transações. 

Finalmente, o padre Juan de Mariana escreveu outro livro intitulado Discurso sobre las enfermedades de La compañia, publicado com caráter póstumo em 1625.  Neste livro, Mariana realiza uma análise puramente austríaca relativa à impossibilidade de um governo poder organizar a sociedade civil com base em ordens coercivas, e isto devido à falta de informação.  De fato, é impossível ao Estado obter a informação de que necessita para dar um conteúdo coordenador às suas ordens, pelo que a sua intervenção tende a criar desordem e caos.  Assim, Mariana, referindo-se ao governo, disse que "é um grande desatino que o cego queira guiar aquele que vê", frisando que os governantes "não conhecem as pessoas, nem os fatos, pelo menos, com todas as circunstâncias que os envolvem, de que depende uma decisão acertada.  É forçoso que se caia em muitos e graves erros, e que isso cause descontentamento às pessoas e as leve a menosprezar um governo tão cego"; conclui Mariana que "é louco o poder e o mando", e que quando "as leis são muitas e em demasia, como não se podem preservar todas, nem sequer saber, a todas se perde o respeito".

Em suma, os escolásticos espanhóis do nosso Século de Ouro foram já capazes de articular o que depois viriam a ser os princípios mais importantes da Escola Austríaca de Economia e, em concreto, os seguintes: primeiro, a teoria subjetiva do valor (Diego de Covarrubias y Leyva); segundo, a descoberta da relação correta que existe entre os preços e os custos (Luis Saravia de la Calle); terceiro, a natureza dinâmica do mercado e a impossibilidade de alcançar o modelo de equilíbrio (Juan de Lugo e Juan de Salas); quarto, o conceito dinâmico de concorrência entendida como um processo de rivalidade entre os vendedores (Castillo de Bovadilla e Luis de Molina), quinto, a redescoberta do princípio da preferência temporal (Martín de Azpilcueta); sexto, o efeito profundamente distorcivo que a inflação tem sobre a economia real (Juan de Mariana, Diego de Covarrubias e Martín de Azpilcueta); sétimo, a análise crítica do sistema bancário exercido com reserva fracionária (Luis Saravia de la Calle e Martín de Azpilcueta); oitavo, a descoberta de que os depósitos bancários são parte da oferta monetária (Luis de Molina e Juan de Lugo); nono, a impossibilidade de organizar a sociedade através de ordens compulsivas, por falta da informação necessária para dar um conteúdo coordenador às mesmas (Juan de Mariana), e décimo, a tradição liberal de que toda a intervenção injustificada no mercado constitui uma violação do direito natural (Juan de Mariana).

Existem, portanto, razões fundadas para concluir que a concepção subjetivista e dinâmica do mercado, ainda que tenha sido retomada e definitivamente impulsionada por Menger em 1871, teve início na Espanha.  A tradição do pensamento econômico da Escola Austríaca tem, pois, a sua origem intelectual na Espanha e mais concretamente numa escola, a de Salamanca, que, da mesma forma que a moderna Escola Austríaca, e em profundo contraste com o paradigma neoclássico, se caracteriza sobretudo pelo grande realismo e rigor dos seus pressupostos analíticos.

A decadência da tradição escolástica e a influência negativa de Adam Smith

Para compreender a influência dos escolásticos espanhóis sobre o posterior desenvolvimento da Escola Austríaca de Economia é preciso recordar, antes de tudo, que no século XVI, o imperador e rei de Espanha Carlos V enviou o seu irmão Fernando I para ser rei da Áustria.  "Áustria" significa, etimologicamente, "parte este do Império", Império que nessa altura compreendia praticamente a totalidade da Europa continental, com a única exceção importante da França, que permanecia isolada e rodeada por forças espanholas.  É assim fácil compreender a origem da influência intelectual dos escolásticos espanhóis sobre a Escola Austríaca, e que não foi uma simples coincidência ou um mero capricho da história, mas que foi o produto de íntimas relações históricas, políticas e culturais que se desenvolveram entre a Espanha e a Áustria a partir do século XVI.  Estas relações haveriam de manter-se durante vários séculos e nas mesmas também teve um papel importantíssimo a Itália, como ponte cultural através da qual fluíram as relações intelectuais entre ambos os extremos do Império (Espanha e Áustria).  Por tudo isto, existem importantes argumentos para defender a tese de que, pelo menos nas suas origens, a Escola Austríaca é, em última instância, uma escola de tradição espanhola. 

De fato, pode-se afirmar que o principal mérito de Carl Menger consistiu em redescobrir e impulsionar esta tradição católica continental de origem espanhola que, praticamente, estava esquecida e havia caído em decadência como consequência, por um lado, do triunfo da reforma protestante e da lenda negra contra tudo o que fosse espanhol e, por outro lado e, sobretudo, devido à muito negativa influência que as teorias de Adam Smith e do resto dos seus seguidores da Escola Clássica da Economia tiveram na história do pensamento econômico.  Com efeito, como indica Murray N. Rothbard, Adam Smith abandonou as contribuições anteriores centradas na teoria subjetiva do valor, a função empresarial e o interesse em explicar os preços que se verificam no mercado real, substituindo a todas pela teoria do valor trabalho, sobre a qual Marx construirá, como conclusão natural, toda a teoria socialista da exploração. 

Além disso, Adam Smith concentra-se preferencialmente na explicação do "preço natural" de equilíbrio no longo prazo, um modelo de equilíbrio em que a função empresarial prima pela sua ausência e se supõe que toda a informação necessária já está disponível, o que virá depois a ser utilizado pelos teóricos neoclássicos do equilíbrio para criticar supostas "falhas de mercado" e para justificar o socialismo e a intervenção do estado sobre a economia e a sociedade civil. 

Por outro lado, Adam Smith impregnou a ciência econômica de calvinismo, por exemplo, ao apoiar a proibição da usura e ao distinguir entre ocupações "produtivas" e "improdutivas".  Finalmente, Adam Smith rompeu com o laissez-faire radical dos seus antecessores jusnaturalistas do continente (espanhóis, franceses e italianos) introduzindo na história do pensamento um "liberalismo" muito tíbio e tão empestado de exceções e relativizações que muitos teóricos "social-democratas" de hoje poderiam inclusivamente aceitar.

A influência negativa que, do ponto de vista da Escola Austríaca, teve o pensamento da escola clássica anglo-saxônica sobre a Ciência Econômica acentua-se com os sucessores de Adam Smith e, em especial, com Jeremy Bentham, que inoculou o bacilo do mais estreito utilitarismo na nossa disciplina, impulsionando com ele o desenvolvimento de toda uma análise pseudocientífica de custos e benefícios (que se acredita que possam ser conhecidos), e o surgimento de toda uma tradição de "engenheiros sociais" que pretendem moldar a sociedade à sua vontade utilizando o poder coercivo do estado. 

Na Inglaterra, Stuart Mill culmina esta tendência com o seu abandono do laissez-faire e as suas numerosas concessões ao socialismo, e na França, o triunfo do racionalismo construtivista de origem cartesiana explica o domínio dos intervencionistas da École Polytechnique e do socialismo cientifista de Saint-Simon e Comte.  Afortunadamente, e apesar do obscurecedor imperialismo intelectual que os teóricos da escola clássica anglo-saxônica exerceram sobre a evolução da nossa disciplina, a tradição continental de origem católica impulsionada pelos nossos escolásticos do Século de Ouro espanhol nunca foi totalmente esquecida.  Assim, esta corrente doutrinal influenciou dois notáveis economistas, um irlandês, Cantillon, e outro francês, Turgot, que podem em grande medida ser considerados os verdadeiros fundadores da Ciência Econômica. 

De fato, Cantillon, por volta do ano de 1730, escreve o seu Ensaio sobre a natureza do comércio em geral, que, segundo Jevons, é o primeiro tratado sistemático de economia.  Neste livro, Cantillon realça a figura do empresário como motor do processo de mercado e explica ainda que o aumento da quantidade de dinheiro não afeta de imediato o nível geral de preços, uma vez que o seu impacto na economia real se dá por etapas, ou seja, sucessivamente e através de um processo que inevitavelmente afeta e distorce os preços relativos que surgem no mercado.  Trata-se do famoso efeito Cantillon, logo copiado por Hume, e que foi depois retomado por Mises e Hayek na sua análise sobre a teoria do capital e dos ciclos.

Posteriormente, o marquês D'Argenson em 1751 e, sobretudo, Turgot, muito antes que Adam Smith, já haviam articulado perfeitamente o caráter disperso do conhecimento incorporado nas instituições sociais entendidas como ordens espontâneas, e cuja análise se haveria de converter num dos elementos essenciais do programa de investigação hayekiano.  Assim, Turgot, no seu Elogio de Gournay, já em 1759, concluiu que "não é preciso provar que cada indivíduo é o único que pode julgar com conhecimento de causa o uso mais vantajoso das suas terras e do seu esforço.  Somente ele possui o conhecimento específico sem o qual até o homem mais sábio se encontraria às cegas.  Aprende com os seus intentos repetidos, com os seus êxitos e com os seus fracassos, e assim vai adquirindo um sentido especial para os negócios que é muito mais engenhoso do que o conhecimento teórico que pode ser adquirido por um observador indiferente, porque é impelido pela necessidade".  Refere-se igualmente Turgot, e neste aspecto segue o padre Juan de Mariana, à "completa impossibilidade de dirigir através de regras rígidas e de um controlo contínuo a multiplicidade de transações que, além de nunca poderem chegar a ser plenamente conhecidas devido à sua imensidade, também dependem continuamente de uma multiplicidade de circunstâncias em constante mudança que não podem controlar-se nem sequer prever-se". 

Mesmo na Espanha, e durante a longa decadência dos séculos XVIII e XIX, a tradição dos nossos escolásticos não desapareceu completamente, e isto apesar do enorme complexo de inferioridade face ao universo intelectual anglo-saxônico típico daquela época.  Prova disso é que outro autor espanhol de tradição católica foi capaz de resolver o paradoxo do valor e de enunciar com toda a clareza a lei da utilidade marginal vinte e sete anos antes de Carl Menger publicar os seus Princípios de Economia Política.  Trata-se do catalão Jaime Balmes (1810-1848), que durante a sua curta vida se tornou o mais importante filósofo tomista na Espanha do seu tempo.  Assim, em 1844, publicou um artigo intitulado "Verdadeira ideia do valor ou reflexões sobre a origem, natureza e variedade dos preços", em que ele não só resolveu o paradoxo do valor, como também expôs com toda a clareza a lei da utilidade marginal. 

Balmes questiona-se "Como é que uma pedra preciosa vale mais do que um pedaço de pão, do que um cômodo vestido, e talvez até do que uma saudável e grata vivenda?"; e responde: "não é difícil explicá-lo; sendo o valor de uma coisa a sua utilidade, ou aptidão para satisfazer as nossas necessidades, quanto mais precisa for para a satisfação delas maior será o seu valor; deve-se considerar também que se o número de meios aumenta, diminui a necessidade de cada um deles em particular, porque podendo-se escolher entre muitos, nenhum é indispensável.  Aqui está por que razão há uma dependência necessária entre o aumento e diminuição do valor e a escassez e abundância de uma coisa.  Um pedaço de pão tem pouco valor, mas é porque tem relação necessária com a satisfação das nossas necessidades, porque há muita abundância de pão.  Porém, diminuam a sua abundância, e o seu valor rapidamente crescerá, até atingir um nível qualquer, fenômeno que se verifica em tempo de escassez, e que se torna mais palpável em todos os gêneros durante as calamidades da guerra numa praça acossada por um muito prolongado assédio". 

Desta forma, Balmes foi capaz de fechar o círculo da tradição continental e deixá-lo preparado para que a mesma fosse completada, aperfeiçoada e impulsionada, poucas décadas depois, por Carl Menger, e pelo resto dos seus discípulos da Escola Austríaca de Economia.

 

Tradução de André Azevedo Alves

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Esse artigo foi extraído do capítulo 3 do livro A Escola Austríaca, disponível em nossa biblioteca virtual.



Jesús Huerta de Soto , professor de economia da Universidade Rey Juan Carlos, em Madri, é o principal economista austríaco da Espanha. Autor, tradutor, editor e professor, ele também é um dos mais ativos embaixadores do capitalismo libertário ao redor do mundo. Ele é o autor de A Escola Austríaca: Mercado e Criatividade Empresarial, Socialismo, cálculo econômico e função empresarial e da monumental obra Moeda, Crédito Bancário e Ciclos Econômicos.


tags:  Metodologia  sistema de preços  processo de mercado  Adam Smith  reservas fracionárias  
23 comentários
23 comentários
Fernando Chiocca 20/05/2010 13:02:38

Adam Smith, O Pai do Comunismo Marxista.

Responder
CR 20/05/2010 22:24:20

O professor Jesus merece todo o respeito, mas este trabalho, impressionante, merece uma crítica de igual extensão. Tantas heresias, perdõe-me,tentarei desfazê-las de modo pontual. E nem se trata de opinião. Conservo todas as provas dos meus argumentos.
1)O Império Romano não foi feito por um, mas suas leis, naturalmente imperiais, foram se somando, até tomar o corpo ideológico hoje presente em nosso Direito Positivo. Portanto, nada tinha de consensual, mas impositivo, e por isso a derrocada.
2)O inventor da religião católica e mesmo do cristianismo, por tê-lo não só anunciado, como projetado a estória do Calvário, chama-se ARISTOCLES. Este fulano tomou a alcunha de Platão quando sentou praça junto ao Tirano de Siracusa, ponto por onde ingressou a elevada legislação espartana, há 3 séculos do Império Romano.
3)Este mesmo secretário é o responsável direto pelas formulações fascistas, nazistas socialistas, marxistas e comunistas, sendo que os infantes, tanto quanto em Esparta, deveriam ser entregues ao adestramento do Estado.
4) Este infeliz de fato ficou submerso na Idade das Trevas, mas quando se foi também o Bizantino, ele retornou à Itália, precisamente a Florença, ao gáudio do comando cristão - leia-se Maquiavel, Cesar Borgia, Sodorini e os Medices.
5)Foram essas belas lições que a Espanha transportou ao Novo Mundo para aniquilá-lo.
6) Quando foi fazer o mesmo com sua colonia inglesa, rigorosamente deu com os burros n'água: a Invencível Armada retornou em frangalhos.
Não vou mais me estender. Tenho mais o que fazer. Antes contudo, lavro minha surpresa com a cruxificação logo de Adam Smith. Maior absurdo jamais tinha lido. Adam Smith completa John Locke no aspecto material, e ambos projetos são pautados pela baliza que seria consagrada na Fisica Quântica e na Relatividade! Em outras palavras, aTeoria da Relatividade foi aplicada a partir de 1688, e consubstanciada no século posterior, mas como se tratava de ciências humanas, portanto não suscetível deprova matemática, mas apenas do tempo para confirma-la ou rechaçá-la, teve que aguardar suas provas, as quais vieram em profusão - pela física, sim, ms yambém pela pujante trajetória dos anglo-saxões.
E essa, então, de cunhá-lo como "pai do marxismo"
7) A Revolução Gloriosa foi a responsável pelo implemento liberal e o resgate do direito natural. O fenomeno so foi possivel porque cortou o vínculo com os sanguessugas romanos, botando a correr os traíras - leia-se Jaime II.
8_ A questão de Deus, por completo estranha à nossa vida, deveria ser banida de qualquer apreciação que se ponha científica.
Fico por aqui. tenho mais o que fazer. É muito fanatismo religioso, desprovido de qualquer espírito científico.


Responder
Absolut 24/04/2012 21:41:22

O inventor da religião católica e mesmo do cristianismo, por tê-lo não só anunciado, como projetado a estória do Calvário, chama-se ARISTOCLES. Este fulano tomou a alcunha de Platão quando sentou praça junto ao Tirano de Siracusa, ponto por onde ingressou a elevada legislação espartana, há 3 séculos do Império Romano.

?!
Dorgas, manolo...?

Responder
Fernando dos Santos Lopes 21/05/2010 00:52:07

É por esse tipo de postura preconceituosa de alguns economistas que se dizem seguidores de MENGER que o magnífico trabalho deste magnífico autor tem sido relegado ao esquecimento pela comunidade científica. \r
Dizer que a distinção elaborada por SMITH entre atividade produtiva e improdutiva tinha objetivo calvinista é de provocar risos em qualquer um que já tenha estudado a obra do filósofo escocês.\r
Pior que isso, só a mistura entre ciência e religião que, com toda certeza, estava totalmente fora dos objetivos dos dois grandes autores mencionados.\r
A teoria do valor de MENGER nada tem a ver com tradições católicas, protestantes ou seja lá o que for. \r
Trata-se simplesmente de uma teoria científica e filosófica que consiste na afirmação de que "valor é tudo aquilo que pode ser colocado em nexo causal com a satisfação de uma necessidade humana", ou seja, é determinado parcialmente de forma subjetiva.\r
Isso não quer dizer que MENGER ignorava a importância dos aspectos objetivos para a determinação do valor, o que qualquer um que já tenha lido seus princípios de economia política sabe. \r
Que saudade do rigor filosófico de Mises!!\r
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Responder
Mujo 21/05/2010 02:02:19

esse livro acabou de entrar na minha lista de leituras obrigatórias!
fantástico!

[]'s

Responder
Leandro 21/05/2010 03:24:43

Como tem havido um certo espanto sobre o que foi dito sobre Adam Smith, recomendamos fortemente os seguintes textos:

Catolicismo, protestantismo e capitalismo
www.mises.org.br/Article.aspx?id=107

O mito Adam Smith
www.mises.org.br/Article.aspx?id=434

Responder
Fernando Ulrich 21/05/2010 10:58:20

Caro CR,

Com relação ao seu primeiro ponto, o Jesus Huerta se refere a Roma clássica, e não ao império Romano. Assim como afirma Hayek, o que o Jesus quer dizer é que o direito não é uma criação deliberada de sábios governantes, mas sim se descobre e se aperfeiçoa através do processo de tentativa e erro, ou seja, das experiências, práticas e costumes de todos os indívidueos que atuam em um mercado. Com certeza ele concordaria com você que a derrocada do Império se deu por suas leis impositivas, expecialmente no âmbito económico. Ou seja, intervenção estatal. Inclusive Jesus cita Cícero, o qual como sabemos viveu antes do Império Romano.

No seu ponto 8, quando fala sobre Deus, presumo que você se refere a citação de Juan de Lugo. Ora, aqui não é nenhuma tentativa de inserir Deus em explicações científicas, é meramente uma forma de dizer, ilustrar um conceito, o qual os preços são definidos pelas interações de milhões e milhões de indivíduos e que o conhecimento de cada um é disperso, privativo, subjetivo e muitas vezes nem articulável, que somente Deus poderia saber. Substitua "Deus" por "um ser superhumano omnisciente" e talvez essa ilustração não pareça tão estranha.

Não estou de acordo em cunhar Adam Smith como pai do marxismo, mas é inegável que Marx se baseou nas falácias de Adam Smith sobre a teoría do valor-trabalho.

Porém, muito de Adam Smith é sim um mito, e para isso sugiro a leitura do artigo de Rothbard.

Atcs.

Fernando Ulrich

Responder
Joel Pinheiro 21/05/2010 12:21:35

Adoro ler sobre as contribuições dos escolásticos.

Contudo, é uma pena que o artigo retome o pior lado da história do pensamento econômico de Rothbard (que, malgrado esse defeito, é uma obra-prima): a polêmica e o pendor inconoclasta.

Não, Adam Smith não foi um proto-socialista; mesmo os franceses, como JB Say, fortemente influenciado pela tradição continental (Turgot, por exemplo), admirava muito Adam Smith. Ou seja, mesmo para as duas "facções" (católicos continentais e protestantes anglo-saxões) não estava nada clara essa distinção.

Adam Smith foi sim um gênio da economia, uniu muitas descobertas num pensamento relativamente sistemático (não no esquema sistema dedutivo a priori, mas na boa tradição do pensamento empirista inglês de se estar aberto à experiência), e foi uma das grandes forças por trás do pensamento liberal. Teve suas falhas, claro, como todos. Mas não foi uma fraude ou um mito.

A proibição à usura não é "calvinista". Os católicos (Tomás de Aquino, Giles de Lessines, a maioria dos escolásticos) condenaram a usura por muito tempo, e o fato é que Calvino, pessoalmente, foi até liberal nesse ponto (diferente de Lutero). Smith não queria proibir os juros, apenas limitá-los. Errado, ok, mas são coisas muito diferentes, e certamente não tem nada a ver com calvinismo; vejam o que Pascal, do lado católico, escrevia sobre os juros. Sobre a história dos juros no pensamento econômico católico, recomendo o clássico do americano John T. Noonan, Scholastic analysis of usury.

Sim, o pensamento católico tem um passado rico de autores relativamente liberais para sua época (alguns até para os dias de hoje, mas a maioria não). Mas ironicamente, o tipo de liberalismo radical e anarco-capitalismo em geral defendido pelos austríacos de hoje, baseado nos direitos naturais, é muito mais uma herança lockeana (e portanto passando pelo iluminismo britânico) do que da tradição de lei natural continental.

No mais, coisas ótimas no artigo, mas esse tom polêmico e divisivo não será nada benéfico nem para a historiografia do pensamento econômico e nem para o movimento liberal no Brasil.

Responder
Antonio 26/05/2014 15:43:50

Certa vez li em um comentário que a Igreja condenava a usura na Idade Média pois não havia inflação de preços. Alguém sabe algo a respeito?
Com o advento da inflação, não houve implicações morais, a não ser em casos de juros abusivos.

Responder
Fernando Ulrich 21/05/2010 15:14:40

Joel,

Rothbard não é a verdade absoluta, porém acho imprescindível ver a história do pensamento econômico revisada sob a ótica da Escola Austríaca. Acho que Rothbard inclusive exagera em alguns pontos, entretanto a história é contada através do filtro subjetivo de cada historiador.

Infelizmente, ainda prevalece a noção de que o estudo da economia começou com Adam Smith, e isso está longe de ser verdade.

Adam Smith talvez tenha sido sim o primeiro a sistematizar todo o estudo da Ciência Econômica.

Mas infelizmente pecou em conceitos cruciais (como a teoria do valor) retrocedendo o pensamento econômico, em questões que inclusive já estavam bastante solidificadas. Foi um retrocesso até mesmo com relação aos seus trabalhos anteriores.

Adam Smith foi o pai da Ciência Econômica? Na minha opinião e na de muitos austríacos, definitivamente não.

O tom polêmico acredito que seja inevitável no mundo econômico mainstream em que vivemos. Polêmico ou não, como estudiosos da ciência econômica devemos buscar a verdade científica, independente de que essa possa ser controversa.

Dito isso, é primordial que as contribuições de Adam Smith (e de qualquer outro pensador/filósofo de economia) sejam devidamente analizadas e refutadas ou reforçaadas.

Atcs.

Fernando Ulrich

Responder
CR 21/05/2010 16:46:18

Feliz e agredecido este insurgente por lograr tão abalizados apoios.
Fernando, permita-me ir um pouco além na ousadia. Expressões emotivas distorcem a realidade pela paixão. Ao tratarmos de ciências, mesmo que humanas, temos que cultivar a frieza do cirurgião. Para ele não há sonho, nem romantismo. Viver pode não ser preciso, mas o cirurgião tem que ser preciso. Assim é que se exagerar no corte pode causar uma sangria, muits vezes estancável, claro, mas sempre desnecessária. Coitado do mais famoso formulador de Economia.
Adam Smith foi um precursor britânico que teve importantes relações pessoais, escreveu várias obras, entre as quais destaco Teoria dos Sentimentos Morais,além da Riqueza das Nações. Portanto, é uma figura real, e não mito. Jesus Cristo, ao contrário, jamais escreveu algo, nem se sabe o paradeiro de seus restos mortais. Suas vestes foram consideradas falsificadas, e lista um rol de amizades e testemunhas desprovidas de sobrenomes. Ofereço-lhe, pois, o mito.
E também porque tratamos de ciência, temos que guardar a prudência de não inserirmos pelo meio, veladamente ou não, as crendices das quais somos envoltos. Não vem ao caso para nenhuma ciência a existência ou não de Deus. Para o cientista, sim, pode haver, mas o trabalho não é a si próprio dirigido; portanto, suas concepções tem obrigação de virem embasadas em sustentações racionais, no mínimo, sob pena de serem de plano desconsideradas. Não podemos mais perder tempo com meras especulações, ainda mais esta, que durante 2500 anos só apresenta resultados negativos. A alternativa do ser humano oniciente também é de lascar, desculpe. Posso usar a letra que eu determinar, no instante que eu quiser, e não há nem haverá jamais um supercomputador capaz de adivinhar qual vou escolher!
O princípio da incerteza é inerente à natureza!

Responder
Fernando Ulrich 21/05/2010 20:54:14

Caro CR,

Insurgente? Bom, vou deixar a ironia de lado e focar nos argumentos.

1) Não sei por que Jesus Cristo entrou na discussão, portanto não vejo razão para debater isto.

2) É claro que Adam Smith foi uma figura real, ninguém está sequer tentando refutar isto. Apenas a sua devida contribuição à economia é que está sendo questionada, daí o mito a que Rothbard se refere.

3)"E também porque tratamos de ciência, temos que guardar a prudência de não inserirmos pelo meio, veladamente ou não, as crendices das quais somos envoltos." Este argumento não se aplicaria ao próprio calvinista Smith? Sua teorias do valor-trabalho, da "limitação da usura", do trabalho produtivo e improdutivo não seriam todas influências de suas crendices?

4)Insisto que Juan de Lugo quando menciona Deus, quer simplesmente ilustrar um argumento, e não sustentá-lo pela existência deste.

5) A alternativa foi ruim? Use qualquer uma. Até mesmo a sua de um supercomputador teria o mesmo efeito.

6)O princípio da incerteza está implícito no argumento de Juan de Lugo.

7)Os escolásticos espanhóis, assim como Menger e Mises, basaram sim suas concepções em sustentações racionais, independente de serem católicos, judeus ou ateus.

8)"Não podemos mais perder tempo com meras especulações, ainda mais esta, que durante 2500 anos só apresenta resultados negativos." Desculpe a ignorância, mas não entendo o que você quer dizer com isso. A especulação seria a existência ou não de Deus? E quais seriam os resultados negativos? Sob o ponto de vista de quem?

Responder
Cristiano 21/05/2010 22:02:29

Bohm-Bawerk deixa claro as origens Smithanas e Ricardianas do socialismo na teoria de valor totalmente equivocada de ambos.
Rodbertus e Marx seguem as consequências lógicas (com atropelos que se diga) que a teoria de valor trabalho desemboca.

Responder
mcmoraes 22/05/2010 09:28:16

Apenas para tentar contribuir com essa boa discussão, aqui vai a opinião de Mises a respeito de Smith.

Responder
Cesar Ramos 22/05/2010 10:18:14

Grato pela atenção a mim dirigida, cumpriu-me ler o ataque do insígne professor Rothbard às concepções de Smith. São numerosos os flancos expostos a contra-ataque. O alvo geopolitico cataliza os argumentos, mas tanto ele como seus vetores são desprovidos de razões cientificas. A luta da Rainha Elizabeth não tem fim?
Primeiro, a questão do capital. Para a maciça maioria, quem o detém tem o poder. Esta lamentável e circunstancial prerrogativa é que arrebatou o interesse de nazistas e comunistas, tanto quanto naquela Esparta se pensava que a concentração da força bruta garantisse o poder. Pertos da suas verdades, mas distantes da realidade.
A evidência platônica ficou mais saliente quando se descobriu o Sol como regente do Universo, curiosamente da mesma cor do ouro, e da bandeira do Vaticano. Sua massa é que lhe garantiria hegemonia por atração quase teológica - teleológica.
"No começo do século XVII, os matemáticos e astrônomos jesuítas do Collegio Romano eram reconhecidos entre as mais altas autoridades científicas." (FORTI, A., cit. MAYOR: 36)
Isso não significa reverência aos religiosos, mas apenas pontua o monopólio do conhecimento. A tentativa de quebra levado à cabo pelo protestantismo continha o mesmo motivo que ele condenava - a divisão da arrecadação, e nunca a razão de arrecadar. Afinal, que dúvida mereceria um ticket no ônibus espacial de Jesus Cristo? Então a questão passou ser esta - se o Vaticano deveria manter o garrote, ou se os povos poderiam eles mesmos promoverem o marketing do turismo post-mortem. Elizabeth precedeu a Vitória.
A concepção do Sol no centro do Universo causou maiores danos do que a ignorância que suplantou. Esta foi a maior razão do cartesiano Leviathan. Locke foi o primeiro a promover o eclipse. E Smith, o segundo. O Iluminismo veio para substitur o Sol. Efetuado o corte com o poder central, os homens puderam inovar, mas na mesma ilusão materialista, escorregaram pela promissora esteira mecanicista. Agora entendiam melhor o que Platão quis dizer quando veiculou a notícia de que o Demiúrgo impusera a ordem no caos. Agora os incautos supunham que o Grande Arquiteto só podia ser o maior matemático. As coincidências foram trazendo a certeza, fazendo-lhes olvidar da advertência primordial da dupla britânica de que era o trabalho, e não a presença hegemônica da maior matéria, o constituinte da própria matéria. Adam Smith acendeu o estopim da Revolução Industrial, quando queria formular uma revolução no modo de pensar - uma revolução de conhecimento, este sim, o maior capital, e não meramente uma troca de instrumento coercitivo ao exercício de poder. Pois hoje em dia, novamente são os próprios beneficidados com o monopólio que se obrigam a reconhecer:
"O terceiro princípio vital para a política do amanhã visa a quebrar o bloqueio decisório e colocar as decisões no lugar a que pertencem. Isso, que não é simplesmente um remanejamento de líderes, e o antídoto para a paralisia política. É o que chamamos de 'divisão de decisão'." (CHARDIN, Teilhard, cit. FERGUNSON, N.: 48)
Há século apregoava o socialista BERTRAND RUSSELL (Ideais Políticos: 10):
"Não um único ideal para todos os homens, mas um ideal diferente para cada homem é o que deve ser alcançado, se possível."
Isto não é ideológico, muito menos expressa o avesso teológico à incerteza, mas apenas um modo oferecer uma chance aos ideais, cada qual com seu diferente matiz, no fito de compor uma aquarela que conforte nossa rápida passagem.
Insisto em tres pontos:
Platão ofereceu a locomotiva de Sócrates, a qual corria sob trilhos voltados ao além, ao suicidio. Desnorteados foram engatando os vagões, e a humanidade embarcou em massa, cantarolante, feliz por ter a morte sob a cobertura de seguro de viagem.
Locke & Smith efetuaram um corte epistemológico, mas a Revolução Francesa, e principalmente Napoleão trataram de reatá-lo para submeter os pacatos alemães, e inflingir terror aos russos. Eis a consequencia: fascismo, nazismo e duas grandes guerras mundiais. Não precisava. Um pouco antes Einstein demonstrara que era a ética, e não a dialética o método escolhido pelo Universo. A gravidade é mais sutil e menos egoísta - não é produto de força, de atração alguma, sequer eletromagnética, mas cortesia do espaço. Mas quem seria este Einstein? "Esse judeu-alemão metido a comunista, e borrado de tinta", como dizia Keynes. Quem poderia dar crédito a um descabelado cientista maluco, ainda mais frente a elegância impecável do Lord vigarista? Quem poderia entender que do nada surgisse a matéria, se nada havia antes da matéria? Só Deus para explicar. E lá vem se mantendo um ocidente periclitante, mergulhado no ceticismo científico, aliás, nem isso, posto tudo provado, mas nesta ignorância então,levada ao extremo pela paixão teológica, a garantidora da paz eterna. O curioso é a insensatez ter logrado seu ápice na própria Austria, não na casa de Hitler, tampouco entre os lúcidos economistas, mas no endereço da Sociedade Ernst Mach. Nesta festa da ilusão o anfitrião e o colega Wilhelm Oswald ( cits. Coveney, P. e Highfield, R., a Flecha do Tempo: 57) garantiam:
"Não pode haver significado nas declarações referentes a uma suposta teoria atômica, já que não temos meios de verificar diretamente a existência de átomos e moléculas."
Hitler e Stalin foram por eles. Felizmente.
"O Círculo de Viena que se empenhou em encontrar respostas... O conjunto das suas reflexões, que ficou na história com o nome de 'positivismo lógico', saldou-se num tremendo fracasso." (António José de Barros Veloso, À cerca da pós-modernidade)




Responder
mcmoraes 22/05/2010 20:52:42

César Ramos, por favor, permita-me expressar minha franca e potencialmente irrelevante opinião: alguns (e apenas alguns) de seus comentários me trazem à memória a lembrança da existência do SCIgen, um software de geração aleatória de artigos científicos, desenvolvido pelo MIT.

Responder
Cesar Ramos 22/05/2010 22:26:57

Meu caro MCM Moraes, ,
Cobrir-me com uma referência deste quilate só me enobrece, conquanto sinaliza a certeza do rumo. Fico grato por tão gentil registro.

Responder
anônimo 23/05/2010 06:25:32

mcmoraes,

Obrigado pela contribuição. Compartilho da mesma opinião.

Responder
Adriano Diego Klein 23/05/2010 21:50:32

Esta Birra com os classicos é engraçada.

Na propria Riqueza das nações SMITH fala que as mercadorias apresentam DOIS VALORES, o valor medido em trabalho e o valor pessoal dada as pessoas (seguindo oferta e demanda) logo após dando o exemplo da agua e do diamante.

Ele fala que a Primeiro é importante porque é o valor de fabricação, calculo economico, praticamente gera a microeconomia(neoclassica) com os capitulos seguintes sobre os fatores que formam os preços da mercadoria.

O segundo valor, altamente sujetivo, segundo o autor é importante pois mostra o potencial preço deste e é a verdade avaliação usada.

"Mas, mesmo que o trabalho seja a medida real do valor de troca de todas as mercadorias, não é por ele que seu valor é usualmente avaliado."

Quem tem empresa, ou participou de um planejamento estratégico, sabe que os fatores de produção, etc citados por Smith (todos eles sendo conversiveis em trabalho/tempo) são importantes para calculos economicos.

A religião do RO RO autriaco as vezes é completamente estupida a outras linhas de pensamento.

Hayek e Mises, por outro lado, se mostraram bem mais complacentes com Smith. Hayek, por exemplo, no caminho da Servidão se diz seguidor de Smith. Claro Hayek é socialista como Smith :P

Por ultimo saliento que um autor não deve ser comparado com os aspectos atuais (Mises sempre defendia isso também) e sim pelo pensamento da Epoca.

Desmerecer um Autor tão bom. Sugiro fortemente a Leitura de "Teoria dos Sentimentos Morais" dele.

Agora Porque Ricardo depois de velho pirou e deturbou tudo e um barbudo feio terminou o serviço, dai é outra historia...

abraço

Responder
Fernando Ulrich 24/05/2010 06:47:41

Ufa, que bom que temos um comentário não gerado pelo SCIgen.

Por isso que disse acima que acho que Rothbard exagera nas suas críticas a Smith, entretanto, com o conhecimento que já possuímos hoje em dia, temos que saber identificar onde este autor se equivocou e onde ele acertou.

Responder
Fernando Chiocca 24/05/2010 12:14:34

Pelos comentários dá pra ter uma ideia de quão forte é o mito Adam Smith.
As pessoas acham que devem defender o nome dele de qualquer ataque, pois defendê-lo é defender o capitalismo, a liberdade e até a ciência econômica! O nome de Smith, associado diretamente ao termo "Capitalismo" é algo péssimo e as pessoas com maior conhecimento precisam trabalhar em prol dessa desassociação direta.
Nos outros comentários foi mostrado, e tb linkado, que os grandes nomes da EA trabalharam nesse sentido.
Bohm-Bawerk destacou as falhas de Smith e suas consequencias.
Mises deixou claro que a leitura de Smith servia para um conhecimento da Economia política da época, e quem quisesse realmente conhecer algo sobre teoria economica, deveria beber em outras fontes.
E finalmente Rothbard veio para demolir completamente o mito de Smith.

Smith foi um pensador menor, que pouco ou nada acrescentou a teoria economica, ao passo que contribuiu imensamente para a dominação da teoria economica falaciosa que hoje toma conta do mainstream, e que seus erros acabaram alimentando o que de pior existe no mundo, o socialismo.

ps: o comentário do moraes sobre o SCIgen foi o melhor que já vi, hehehee

Responder
CR 24/05/2010 19:42:59

Prezado Fernando,
Não vejo nenhum economista considerar o óbvio, trazido pela mater, de onde derivam as demais academias. Se E=mc2, e parece que é, o materialismo não tem, sequer, objeto. É difícil entender isso, ainda mais porque os olhos não vêem a energia, mas apenas sua expressão. Mas basta um controle remoto para se aferir que é a informação levada pelo acionamento do botão que emite a luz ao receptor, a energia que não se vê, o trabalho alocado ao objeto que lhe emprestará valor. Como o DNA.
Isso não significa obrigação de pagar de acordo com o trabalho, porquanto quem estipula o preço é o comprador, na medida de seu interesse. Se não, não sai negócio. Teorias de valor, para mim, são inóquas, e nem vem ao caso. São como a sociologia que usa um termo que depende de sócio, mas que desconhece o objeto de sua dedicação, só percebendo, pela grande distância, a massa cinzenta, homogênea, na qual o individuo é reduzido a número por denominador comum, portanto, comunista.
Por outro lado parece haver um forte ranço contra o socialismo. Engraçado como platonicos semre requerem adversidades para se afirmarem. Maldita dialética. E como seria uma anarco sei-lá-o que? Qual liame manteria uma sociedade onde seus membros sejam livres para fazer o que quiser? Pois o liame vem pelos contratos, pelas parcerias, pela ética, não por dialética, pela natural divisão do trabalho, onde a participação de cada indivíduo é compatível com seu interesse, com seu trabalho de maior ou menor valor, mas sem implicar conceitos de justiça. O individuo é livre para agir, portanto, não pode ser coagido por nenhuma espada. Isto se chama sociedade natural e livremente organizada, portanto. sem aderir a nenhum contrato chamado social, porquanto não pode haver nem liberdade, tampouco a iniciativa individual no meio da manada. Isto configura o famigerado socialismo, jamais praticado, talvez o ponto mais distante do comunismo, mais ainda do que o próprio capitalismo, porque ambos glorificam a matéria, e o socialismo vê a complementariedade entre a energia e a matéria, entre o corpo e a alma, entre o capital e o trabalho. Informação tem o in na frente, que significa inserir conteúdo à matéria, antes dela se formar.As empresas que descobriram essa novidade lavrada em 1927 por Niels Bohr, deslancham na velocidade da luz. As outras, os países, e a maioria dos acadêmicos claudicam na velocidade usada na Estação da Luz, de São Paulo.

Responder
Emerson Luis, um Psicologo 03/06/2014 14:10:47


A genuína ciência econômica é resultado dos esforços acumulados de muitos pensadores.

* * *

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