O princípio da moeda forte

Em 1912, Ludwig von Mises escreveu,

"O princípio da moeda forte possui dois aspectos.  Ele é afirmativo ao aprovar a escolha feita pelo mercado de um meio de troca utilizado frequentemente e comumente.  Ele é negativo ao obstruir ao obstruir a propensão do governo em interferir no sistema monetário."[1]

E acrescentou:

"É impossível entendermos o significado da ideia de se ter um sistema monetário sólido sem antes compreendermos que tal sistema foi concebido como um instrumento para se proteger as liberdades civis contra as usurpações despóticas perpetradas pelos governos.  Em termos ideológicos, uma moeda sólida pertence à mesma classe das constituições políticas e das declarações de direitos."[2]

Os regimes monetários de hoje não possuem qualquer semelhança com o princípio misesiano da moeda forte.  A quantidade e a qualidade da moeda há muito deixaram de ser um fenômeno determinado pelo livre mercado; hoje, ambas são determinadas pelos bancos centrais controlados pelos governos.

Para evitar que os governos fizessem mau uso de seu poder coercivo nas questões monetárias, dois "arranjos institucionais" foram criados.

Primeiro, os bancos centrais se tornaram politicamente independentes para impedir que os políticos caíssem na tentação de fazer aquela inevitável permuta eleitoral: colher os benefícios resultantes de um crescimento econômico artificial de curto prazo induzido pela inflação monetária e, em troca, gerar os inevitáveis efeitos prejudiciais de médio e longo prazo resultantes dessa depreciação da moeda.

Segundo, aos bancos centrais foi atribuído - explícita ou implicitamente - o objetivo de manter a "estabilidade do nível de preços".  Isso porque a inflação de preços é amplamente vista como um malefício social; consequentemente, um "nível estável de preços" é considerado propício à melhoria do crescimento econômico e ao aumento do número de empregos.

Do ponto de vista da escola austríaca, os regimes monetários da atualidade - mesmo quando se considera todas as proteções contra a má gestão monetária dos governos - seriam incompatíveis com o princípio misesiano da moeda forte.  Em verdade, os austríacos consideram a ordem monetária atual uma séria ameaça à sociedade livre.

A ORIGEM DO DINHEIRO

O ponto de partida para a crítica dos austríacos está na origem econômica do dinheiro.  A experiência histórica mostra que o dinheiro, o meio de troca, originou-se livremente das forças de livre mercado.  As pessoas perceberam que, ao invés de praticarem trocas diretas (escambo), as trocas indiretas - isto é, trocar bens comercializáveis por um outro bem que não necessariamente seja demandado para consumo ou para produção, mas que apresente características propícias para ser utilizado como meio de troca - permitiam um maior padrão de vida.

Guiados pelo interesse próprio e pela percepção de que os bens que eram trocados diretamente possuíam diferentes graus de vendabilidade (possibilidade de ser comercializado), alguns agentes de mercado começaram a demandar bens específicos - não para si mesmos (para consumo ou produção), mas para utilizá-los como meio de troca.[3] Tal medida acarretou diversas vantagens.

Por exemplo, se o dinheiro é utilizado como meio de troca, então passa a não mais ser necessário haver uma "dupla coincidência de desejos" para que a troca seja possível.  Em uma economia de escambo, para que uma troca pudesse ser efetivada, o senhor A, que quer adquirir o bem ofertado pelo senhor B, teria de ter exatamente aquele bem que o senhor B aceitaria em troca.  Ou seja: A teria de demandar exatamente o bem oferecido por B, e B teria de demandar exatamente o bem que A está oferecendo em troca.

Ao aceitarem não somente aqueles bens que são diretamente utilizados para consumo e produção, mas também aqueles bens que possuem uma maior vendabilidade em relação aos bens que foram dados em troca, os indivíduos podem se beneficiar mais completamente das vantagens econômicas trazidas pela divisão do trabalho e pelo livre comércio.

Com cada vez mais pessoas utilizando um meio de troca em suas transações, surgiu um meio de troca universalmente utilizado: o dinheiro.  A experiência mostra que foi principalmente o ouro (e, em um grau menor, a prata) que se tornou o meio de troca internacionalmente aceito.  Nesse sentido, o dinheiro deve naturalmente surgir de uma commodity.

O DINHEIRO COMO UMA COMMODITY

Ao longo do tempo, os agentes de mercado preferiram utilizar a commodity mais comercializável em detrimento das menos comercializáveis: "haveria uma inevitável tendência de que os bens menos comercializáveis utilizados como meio de troca fossem, um por um, rejeitados até que, finalmente, apenas uma única commodity restasse, que seria então universalmente empregada como meio de troca; em uma palavra, dinheiro."[4]

É raciocinando sobre esse histórico, que Mises apresenta seu "teorema da regressão", o qual afirma que "nenhum bem pode ser empregado para a função de meio de troca sem que antes, logo no início de seu uso para esse propósito, já não tenha adquirido um valor de troca por conta de outros usos."[5]

Hoje, entretanto, o meio de troca universalmente aceito é o dinheiro de papel, com curso forçado, controlado pelo governo.  Ele não é lastreado por, ou relacionado a, uma commodity escassa e livremente escolhida pelo mercado.  Sendo assim, fica a pergunta: como um pedaço de papel emitido pelo governo e que não vale intrinsecamente nada adquiriu o status de dinheiro?

A IDEOLOGICAMENTE ENRAIZADA AVERSÃO À TAXA DE JUROS

A explicação pode ser encontrada na profunda e ideologicamente enraizada aversão das pessoas às taxas de juros.  Quanto menor a taxa de juros, segundo tal raciocínio, melhor será para a economia e para o emprego.  Uma oferta monetária monopolizada pelo governo - em contraste ao dinheiro gerado pelo livre mercado - oferece a possibilidade de ser a "opinião pública" quem irá ditar o nível desejado para as taxas de juros.

Tendo obtido o monopólio sobre a oferta monetária, o banco central controlado pelo governo poderá, de acordo com sua vontade e sempre que quiser, expandir o crédito e a oferta monetária em relação à demanda por ambos, desta forma diminuindo a taxa de juros - algo que não seria possível (em determinado grau) sob um regime monetário de livre mercado.

Dito isto, o desejo do público por taxas de juros baixas explica o fato de os governos terem tido êxito em romper a "âncora" imposta pelos "substitutos monetários" - definidos como títulos de papel lastreados por uma commodity (ouro), que era o dinheiro de fato -, desta forma tornando possível o estabelecimento de um papel-moeda sem qualquer lastro e controlado pelo governo.

Sob o padrão-ouro, o dinheiro "circulava" na forma de ouro (isto é, barras ou moedas de ouro padronizadas) e na de títulos que representavam uma determinada quantidade de ouro depositada nos bancos e que podia ser resgatada sob demanda.  Esses títulos - papel-moeda lastreado por ouro - surgiram simplesmente de uma livre escolha dos usuários de dinheiro, que queriam economizar nos custos de se armazenar e transacionar dinheiro.

Portar dinheiro na forma de ouro (moedas) e na de papel redimível em ouro aumentava a conveniência para os usuários de dinheiro.  Só pra constar, tal arranjo não alterava a oferta total de dinheiro; tampouco afetava a distribuição de renda e de riqueza entre os indivíduos de uma economia, ao contrário do que ocorre com o sistema monetário atual.  O papel, naquele arranjo, apenas representava um título incondicionalmente redimível em dinheiro (ouro), e redimível em qualquer momento.

Em muitos países, saídas ocasionais da paridade fixa entre o dinheiro de papel e o ouro já haviam ocorrido, porém esse elo foi definitivamente rompido a 15 de agosto de 1971, quando o presidente dos EUA Richard M. Nixon "fechou a janela do ouro", abolindo a obrigação que os EUA haviam assumido sob o Sistema de Bretton Woods de converter os dólares americanos em posse de autoridades monetárias estrangeiras em ouro a uma taxa fixa de US$35 a onça.  "Antes de 1971, todas as grandes moedas do mundo sempre estiveram ligadas, direta ou indiretamente, a uma commodity."[6]

Tendo seu elo a uma commodity rompido, um papel-moeda já estabelecido não necessariamente irá perder sua função monetária (imediatamente).  Mises escreveu,

"Antes de um bem econômico começar a funcionar como dinheiro, ele já deve possuir um valor de troca baseado em alguma outra causa que não a sua função monetária propriamente dita.  Porém, o dinheiro que já funciona como meio de troca pode permanecer valioso mesmo quando a fonte original de seu valor de troca já deixou de existir."[7]

Entretanto, a constatação importante é a de que o papel-moeda governamental pode ser estabelecido apenas por meio de um ato fraudulento da parte do governo.

A IMPOSSIBILIDADE DE UM PODER DE COMPRA ESTÁVEL

Os austríacos afirmam que a ação humana em uma sociedade livre é caracterizada por mudanças contínuas.  Em uma economia de mercado, as pessoas estão continuamente escolhendo entre várias alternativas.  Isso faz com que a valoração dos bens e serviços se altere constantemente.  Como consequência, tentar fazer com que haja uma absoluta estabilidade nos preços de itens comercializáveis é um empreendimento fútil.  E isso se aplica aos valores de troca de todos os tipos de bens e serviços, inclusive o dinheiro. 

O dinheiro está sujeito às ações e valorações das pessoas assim como todos os outros bens e serviços também estão.  Como resultado, o valor de troca subjetivo e objetivo do dinheiro flutua continuamente; e "estabilidade do valor de troca do dinheiro em relação a outros bens e serviços" é algo impossível de existir.

Por exemplo, para satisfazer um aumento na demanda por dinheiro - isto é, no desejo de se portar mais dinheiro -, as pessoas teriam de abrir mão de mais bens e serviços.  Uma maior oferta de bens em relação a uma dada oferta de dinheiro, por sua vez, iria diminuir o valor dos bens em relação ao dinheiro.  Como resultado, o valor de troca do dinheiro aumentaria.

Para entender melhor, considere um mercado no qual o dinheiro é ofertado e demandado em relação a um bem comercializável.  A oferta total de moeda determina a demanda pelo bem (quanto mais dinheiro, maior a demanda por bens), e a oferta total de bens determina a demanda por moeda (quanto mais bens, menor o preço de cada unidade, menos moeda é necessário para adquirir a mesma quantidade de bens).

Supondo uma dada oferta de bens (isto é, uma demanda constante por moeda), um aumento na demanda por bens (isto é, um aumento na oferta monetária) eleva o preço desses bens.  Como resultado, um aumento na oferta de dinheiro em relação à oferta de bens leva a uma perda de valor do meio de troca.

AUMENTAR A OFERTA MONETÁRIA É INFLAÇÃO

Do ponto de vista austríaco, qualquer alteração na oferta monetária irá influenciar o valor de troca do dinheiro, independente de ser uma moeda-commodity ou um papel-moeda sem lastro.  Peguemos, por exemplo, o regime do padrão-ouro, no qual a oferta monetária aumenta lentamente (por exemplo, por meio da mineração).  Esse dinheiro adicional é trocado por bens em certos setores da economia.  Com efeito, os primeiros usuários desse dinheiro recém-criado irão gastá-lo adquirindo bens e serviços a preços ainda inalterados.

Entretanto, à medida que esse dinheiro adicional vai chegando às outras pessoas, a utilidade marginal do dinheiro como um todo na economia vai declinando, ao passo que a utilidade marginal de bens e serviços não monetários aumenta.  Em uma tentativa de voltar ao equilíbrio, as pessoas oferecem mais dinheiro em troca de bens e serviços.  Os preços monetários aumentam, uma vez que cada unidade monetária agora irá comprar menos bens e serviços quando comparada à situação anterior ao aumento do estoque de moeda.

Com esse pano de fundo, torna-se óbvio por que Mises definiu a inflação como sendo um aumento na oferta monetária - e deflação, um declínio.  Dado que a inflação é, do ponto de vista austríaco, inerente a qualquer regime monetário, eles optam pela moeda de livre mercado, pois tal regime monetário é considerado muito menos propenso à inflação quando comparado à moeda controla monopolisticamente pelo governo.

A DEFINIÇÃO ATUAL DE INFLAÇÃO

Desnecessário dizer que a definição de Mises contrasta rematadamente à interpretação atual do termo:

"O que muitas pessoas hoje chamam de inflação ou deflação não mais é o grande aumento ou decréscimo na oferta monetária, mas sim suas inexoráveis consequências: a tendência generalizada de um aumento ou queda nos preços das mercadorias e nos salários."[8]

A economia convencional define inflação como o aumento persistente no nível de preços da economia.  Tal definição se baseia em um regime de índices criado por Irving Fisher (1867-1947).  Hoje, a estabilidade do nível de preços é tipicamente entendida como um nível de preços subindo por volta de 2%, anualmente.  Se a inflação permanece por volta desse nível, diz-se que as pessoas estão usufruindo uma "estabilidade de preços".

Entretanto, qualquer definição de inflação relacionada ao conceito do índice de Fisher é econômica e politicamente enganosa e errônea.  A verdade econômica é que mesmo um índice de preços (ao consumidor) inalterado pode muito bem vir acompanhado de uma perda no valor de troca da moeda.

CRISE GERADA PELO GOVERNO

Para mostrar isso, suponha, por exemplo, que a demanda por dinheiro aumente (as pessoas querem ter mais dinheiro em seus encaixes).  Tal fenômeno provocará uma queda nos preços dos bens, fazendo com que menos dinheiro seja necessário para se adquirir uma mesma quantidade de bens.  O valor de troca da unidade monetária aumentou.

Em uma tentativa de manter constante o valor de troca de uma unidade monetária em relação aos bens em questão, o banco central teria de aumentar o estoque de dinheiro.  Ao fazer isso, ele estaria aumentando a demanda por bens, cujo resultado seria fazer com que o valor de troca do dinheiro em relação aos bens em questão caísse, voltando ao patamar anterior.

Do ponto de vista da política monetária, cujo objetivo era manter a estabilidade do nível de preços, os usuários dessa moeda foram verdadeiramente privados de usufruir qualquer aumento no valor de troca do dinheiro, aumento esse que estaria relacionado à maior produtividade da economia (mais bens disponíveis).  Já os devedores, por outro lado, saíram ganhando: a ação do banco central impede que a renda nominal deles diminua - como ocorreria em uma situação de mercado livre e desimpedido.

Ademais, mudanças induzidas pelo governo no estoque de dinheiro afetam diferentes setores da economia, em diferentes graus e em momentos distintos.  Consequentemente, tal fenômeno pode acarretar distorções no mecanismo de preços relativos, o que estimula investimentos errôneos, oscilações cíclicas da economia, colapsos no mercado financeiro e perdas na renda e no emprego.  Não é necessário uma análise profunda para perceber que tais crises incitam o público a recorrer ao governo, implorando-o para solucionar os problemas que ele próprio cria.

Tipicamente, ações adicionais do governo, ao invés das forças de livre mercado, são vistas como uma solução para as adversidades econômicas, as quais foram causadas pela intervenção governamental no âmbito monetário.  O público clama por mais intervenções - quais sejam, menores taxas de juros, mais crédito e ainda mais criação de dinheiro -, afastando a economia cada vez mais do arranjo ideal que caracteriza uma sociedade livre, levando, no extremo, a uma completa destruição do valor da moeda ("hiperinflação").

A NECESSIDADE DE UMA MOEDA DE LIVRE MERCADO

A principal preocupação dos austríacos é que um regime monetário gerido pelo governo irá, no final, terminar em desastre econômico e político: a destruição da moeda e, com ela, da ordem social livre e voluntária.  É particularmente por causa desse cenário que eles defendem o fim do monopólio estatal da oferta monetária e um retorno à moeda de livre mercado.

Sob um regime monetário baseado em uma commodity livremente escolhida, como, por exemplo, o ouro, a oferta monetária tenderia a aumentar de maneira relativamente previsível e em quantidades relativamente pequenas ao longo do tempo - ao contrário dos aumentos arbitrários, aleatórios e frequentemente dramáticos que o governo promove na oferta de dinheiro de papel.

Isso pode soar paradoxal para a maioria dos economistas adeptos da linha convencional, mas, para os austríacos, é exatamente esse objetivo da estabilidade de preços que contribui enormemente para os ciclos econômicos.  O "regime de índices de inflação" provoca repetidas e fracassadas intervenções governamentais, as quais, cedo ou tarde, resultam em sérias crises econômicas e sociais.

Nos EUA, tanto a depressão da década de 1930 quanto a atual foram semeadas em período de grande estabilidade nos índices de preços, sendo o aumento da oferta monetária e do crédito camuflado pelo aumento na produtividade e pelo fato de todo esse dinheiro recém-criado ter sido desviado para a formação e alimentação de bolhas.

CONCLUSÃO

Tendo abandonado o princípio da moeda forte, os bancos centrais passaram a se concentrar na diminuição forçada das taxas de juros ao longo do tempo, por meio da forte expansão do crédito e da oferta monetária.  Isso, por sua vez, leva a uma constante inflação nos preços dos ativos, gerando bolhas e uma má alocação de recursos escassos, criando oscilações cíclicas na economia (períodos de expansão e recessão).

Para piorar as coisas, os bancos centrais permitem que o crescimento da oferta de crédito sistematicamente seja maior que o crescimento da renda, o que faz com que a razão dívida/PIB das economias esteja em constante crescimento.  Tal ocorrência é economicamente insustentável, ainda que possa continuar por algum tempo - pelo menos, enquanto os bancos centrais continuarem diminuindo e mantendo as taxas de juros em níveis baixos.

Entretanto, quando o fardo da dívida começar a incomodar, a "opinião pública" irá clamar pela desvalorização da moeda via inflação, um artifício infalível para livrar os devedores de suas obrigações.  Mises sabia por que abandonar o princípio da moeda forte seria tão problemático:

"Na opinião do público, mais inflação e mais expansão do crédito são os únicos remédios contra os malefícios trazidos justamente pela inflação e pela expansão do crédito."[9]

__________________________________________

Notas

[1] Mises, L. von (1912), The Theory of Money and Credit, Liberty Fund, Indianapolis, p. 454.

[2] Ibid, p. 455.

[3] See Hoppe, H-H. (1994), "How is Fiat Money Possible - or, The Devolution of Money and Credit," Review of Austrian Economics, 7, No. 2.

[4] Mises, L. von (1912), The Theory of Money and Credit, Liberty Fund, Indianapolis, pp. 32.

[5] Mises, L. von (1996), Ação Humana, 4th Edition, Fox & Wilkes, San Francisco, p. 410.

[6] Friedman, M. (1994), Money Mischief: Episodes in Monetary History, San Diego, New York, London, p. 15.

[7] Mises, L. von (1912), The Theory of Money and Credit, Liberty Fund, Indianapolis, p. 111.

[8] Mises, L. von (1996), Ação Humana, 4th Edition, Fox & Wilkes, San Francisco, p. 423.

[9] Ibid, pp. 576.

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SOBRE O AUTOR

Thorsten Polleit
é economista-chefe da empresa Degussa, especializada em metais precisos, e co-fundador da firma de investimentos Polleit & Riechert Investment Management LLP.  Ele é professor honorário da Frankfurt School of Finance & Management.



A questão é que Mises não defendeu a secessão até o nível do indivíduo. Os problemas de ordem técnica que ele via eram os mesmos problemas da própria anarquia. Esses problemas, segundo ele, "tornam necessário que uma região seja governada como uma unidade administrativa e que o direito de autodeterminação se restrinja à vontade da maioria dos habitantes de áreas de tamanho suficiente, para conformar unidades territoriais na administração de um país." (Liberalismo, p. 129) Por isso a secessão deva ser tal que forme uma unidade administrativa independente, com um conjunto de pessoas que realmente seja capaz de formar uma "sociedade", e que seja feita por meio de um plebiscito:

"O direito à autodeterminação, no que se refere à questão de filiação a um estado, significa o seguinte, portanto: quando os habitantes de um determinado território (seja uma simples vila, todo um distrito, ou uma série de distritos adjacentes) fizeram saber, por meio de um plebiscito livremente conduzido, que não mais desejam permanecer ligados ao estado a que pertenciam na época, mas desejam formar um estado independente ou ligar-se a algum outro estado, seus anseios devem ser respeitados e cumpridos." Ludwig von Mises, Liberalismo – Segundo a Tradição Clássica, p. 128

O problema da anarquia é basicamente o mesmo da secessão individual. Imagine que qualquer um possa se separar do Estado, quando quiser. Uma pessoa que quebra as regras da sociedade, um criminoso, pode facilmente pedir secessão e não se ver sujeito à punição. E essa é a mesma situação que acontece na anarquia. Por isso há a necessidade de um governo monopolista, para Mises, já que o poder de uso da força ficaria a cargo da comunidade como um todo, e nenhum indivíduo específico poderia se dizer na autoridade de matar, roubar, etc, sem que receba a punição necessária:

"A fim de estabelecer e preservar a cooperação social e a civilização são necessárias medidas para impedir que indivíduos antissociais cometam atos que poderiam desfazer tudo o que o homem realizou desde que saiu das cavernas. Para preservar um estado de coisas onde haja proteção do indivíduo contra a ilimitada tirania dos mais fortes e mais hábeis, é necessária uma instituição que reprima a atividade antissocial. A paz — ausência de luta permanente de todos contra todos — só pode ser alcançada pelo estabelecimento de um sistema no qual o poder de recorrer à ação violenta é monopolizado por um aparato social de compulsão e coerção, e a aplicação deste poder em qualquer caso individual é regulada por um conjunto de regras — as leis feitas pelo homem, distintas tanto das leis da natureza como das leis da praxeologia. O que caracteriza um sistema social é a existência desse aparato, comumente chamado de governo."

Ludwig von Mises, Ação Humana, capítulo XV, "Liberdade"

Em razão justamente disso ele nunca defendeu a secessão individual. Na citação mesmo que ele fala que "deveria ser assim", se fosse possível, ele rejeita. Mas, "se fosse possível...",da mesma forma com a anarquia, e ele achava ambos impossíveis. E lembrando que Mises não defendia as coisas por moral, mas sim por utilidade, e nem a anarquia, nem a secessão individual eram úteis para ele. Segundo ele:

"Tudo o que sirva para preservar a ordem social é moral; tudo o que venha em detrimento dela é imoral. Do mesmo modo, quando concluímos que uma instituição é benéfica à sociedade, ninguém pode objetar que a considera imoral. É possível haver divergência de opinião entre considerar-se socialmente benéfica ou prejudicial uma determinada instituição. Mas, uma vez julgada benéfica, ninguém pode mais argumentar que, por alguma razão inexplicável, deva ser considerada imoral."

Ludwig von Mises, Liberalismo – Segundo a Tradição Clássica, p. 62
"Comprar produtos britânicos está mais barato, por causa da desvalorização da libra, e o ftse subiu porque está mais barato comprar ações na bolsa de Londres."

Ué, por essa lógica, no Brasil de Dilma em que o real foi pra privada, era para o Ibovespa ter disparado e para as exportações terem bombado. Afinal, nossos produtos ficaram baratinhos.

No entanto, ocorreu o exato oposto. Bolsa e exportações desabaram.

Por outro lado, no período 2003 a 2011, em que o real se fortaleceu acentuadamente, o Ibovespa disparou, assim como as exportações. Pela sua lógica, era para acontecer o oposto.

Aliás, também segundo esse raciocínio, era para a bolsa americana ter desabado e suas exportações terem despencado desde 2011. Afinal, para todo o mundo, o dólar encareceu bastante desde lá. No entanto, aconteceu o exato oposto.

A pessoa dizer que a bolsa reflete o câmbio e não a saúde financeira das empresas e da economia é uma abissal ignorância econômica.

Para entender por que exportações e saúde das empresas andam de acordo com a força da moeda, ver estes artigos:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=2394
www.mises.org.br/Article.aspx?id=2378
www.mises.org.br/Article.aspx?id=2175

"Agora, bancos e empresas japonesas já estão pensando em tirar o time, os hate crimes aumentaram."

Então não tem lugar nenhum no mundo para onde elas irem. Em qualquer país há hate crimes.

"Como manter as multinacionais sem as mesmas vantagens? Como as universidades ficarão em recursos, uma vez que o dinheiro vem da UE?"

Você está terrivelmente desinformado. O Reino Unido é um pagador líquido para a União Européia: paga 136 milhões de libras por semana para a União Europeia. Repito: por semana.

Portanto, se a sua preocupação é com os "recursos das universidades", então aí sim é que você tem de ser um defensor do Brexit.
"Os interesses privados do livre mercado vão capturar o estado sempre, tenha ele o tamanho que for."

Belíssima contradição. Livre mercado, por definição, significa um mercado cuja entrada é livre. Não há impeditivos burocráticos, regulatórios e tarifários para os novos entrantes e, principalmente, não há privilégios estatais para os já estabelecidos.

Empresas capturarem o estado para impor barreiras à entrada de novos concorrentes e para garantirem privilégios a si próprias é o exato oposto de livre mercado. Isso é mercantilismo, protecionismo, cartorialismo e compadrio.

Seu começo já foi triunfal.

"Grandes grupos vão seguir sua trajetória de "sucesso" através de consolidações e aquisições, se tornando cada vez mais megacorporações mono ou oligopolistas, ditando as regras."

Se a entrada no mercado é livre, não há como existir oligopólios e monopólios.

Não é à toa que quem cria cartéis, oligopólios, monopólios e reservas de mercado, garantindo grandes concentrações financeiras, é e sempre foi exatamente o estado, seja por meio de regulamentações que impõem barreiras à entrada da concorrência no mercado (via agências reguladoras), seja por meio de subsídios a empresas favoritas, seja por meio do protecionismo via obstrução de importações, seja por meio de altos tributos que impedem que novas empresas surjam e cresçam.

Apenas olhe ao seu redor. Todos os cartéis, oligopólios e monopólios da atualidade se dão em setores altamente regulados pelo governo (setor bancário, aéreo, telefônico, elétrico, televisivo, TV a cabo, internet, postos de gasolina etc.).

Artigos para você sair desse auto-engano:

Brasil versus Romênia - até quando nosso mercado de internet continuará fechado pelo governo?

A diferença entre iniciativa privada e livre iniciativa - ou: você é pró-mercado ou pró-empresa?

Grandes empresas odeiam o livre mercado

Romaria de grandes empresários a Brasília - capitalismo de estado explicitado

E você ainda diz que é o estado quem vai impedir a concentração do mercado, aquela concentração que ele próprio cria e protege?

Por outro lado, não há e nem nunca houve monopólios no livre mercado. Empiria pura. Pode conferir aqui:

Monopólio e livre mercado - uma antítese

O mito do monopólio natural

"Temos ai, a título de exemplo de livre mercado, o Uber, que através de concorrência desleal leva prejuízo a setores regulados como os taxistas e escraviza motoristas, impondo jornadas de trabalho de até 12 horas."

Sensacional!

Primeiro você reclama das corporações que utilizam o estado para conseguir uma reserva de mercado e, com isso, manter oligopólios e monopólios. Aí, logo em seguida, derrama lágrimas porque uma corporação que utiliza o estado para conseguir uma reserva de mercado (os taxistas) está sendo quebrada pelo livre mercado!

Fazia tempo que eu não via alguém se auto-refutar de maneira tão pirotécnica quanto você.

"Esse papo furado de que o mercado regula tudo é para iludir os tolos e facilitar a vida das megacorporações."

Tipo, o megacartel dos taxistas desafiados pela Uber e pela Lyft? As grandes redes hoteleiras, que agora estão sofrendo com o AirBnB, que permite que qualquer dona de casa concorra com grandes corporações globais do setor hoteleiro? Os grandes bancos, que agora sofrem a concorrência das FinTechs e de sites como o "Descola Aí" e o "Banca Club"? As grandes redes varejistas, agora desafiadas pelo OpenBazaar?

É...

"Me parece que os "libertários" são os cães de guarda ideológicos delas."

Já a realidade mostra que são idiotas inconscientes como você os verdadeiros defensores dos monopólios e oligopólios concedidos pelo estado, via regulamentações, às grandes empresas.

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Carlos Alexandre  06/04/2010 18:51
    Leandro:\r
    \r
    Quando a demanda por dinheiro aumenta, que interesse o BC tem em manter constante a razão entre o valor de troca monetário e os bens e serviços? Se o aumento do valor de troca da unidade monetária aumentou, isso é benéfico para a sociedade; porque então o governo intervem para estragar tudo?\r
  • Leandro  06/04/2010 19:16
    Ótima pergunta, Carlos Alexandre.

    O problema todo está no fato de que os bancos centrais ou são keynesianos ou são chicaguistas. Ambas as escolas defendem a expansão monetária para evitar a "perigosa" deflação de preços (embora nunca ninguém tenha explicado por que o fato de os preços de laptops, câmeras, DVDs, celulares e computadores estarem sempre em queda ser algo ruim.)

    Sendo assim, como esse aumento da demanda por moeda gera uma deflação de preços, as autoridades monetárias acham por bem "acomodar" esse aumento da demanda expandindo a oferta de dinheiro. Como consequência, o nível de preços ficará inalterado e tudo parecerá lindo maravilhoso.

    O que não é discutido é o fato de que você foi privado de usufruir preços menores. Ao passo que determinado bem poderia estar mais barato hoje do que estava ontem, o BC acha que é melhor para todos que o preço dele fique inalterado. Repito: o que hoje podia estar mais barato, acaba ficando com o preço inalterado.

    Vale também lembrar que a Grande Depressão americana foi gestada exatamente em um período cuja alta produtividade da economia (algo inerentemente deflacionário) levou a políticas monetárias acomodatícias, as quais visavam manter inalterados os preços. Ao mesmo tempo, o dinheiro injetado acabou formando a bolha no mercado financeiro. Se você olhar o nível de preços da década de 20, verá que ele foi constante, não obstante o grande aumento na oferta monetária.

    Um artigo que explica muito bem esse fenômeno das políticas monetárias acomodatícias é este, cuja parte final irá ao ar na quinta-feira:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=606
  • Mauricio  09/08/2015 18:09
    Leandro, vc comentou: "O que não é discutido é o fato de que você foi privado de usufruir preços menores. Ao passo que determinado bem poderia estar mais barato hoje do que estava ontem, o BC acha que é melhor para todos que o preço dele fique inalterado. Repito: o que hoje podia estar mais barato, acaba ficando com o preço inalterado."

    Não entendo muito sobre economia, apenas gosto do tema. Por isso gostaria de entender pq atribuir exclusivamente ao BC tal política ("o BC acha que é melhor para todos que o preço dele fique inalterado")?
    Em verdade, a adoção dessa política (manutenção de valores em momentos deflacionários) não decorreria da pressão político-econômica exercida pelo Mercado?
    Parece-me uma visão reducionista do problema acreditar que as decisões econômicas tomadas pelos governos, em especial após a década de 50, sejam eminentemente políticas (sem considerar a pressão exercida pelos grandes conglomerados econômicos privados).
    Em outras palavras, o poder econômico privado não se importa com a economia (sob um ponto de vista global - e, em nosso sistema, não há como se exigir isso), importa-se apenas com a geração de seus próprios lucros (é aqui que de uma forma indireta a economia lhes interessa). É aqui que enxergo a visão reducionista, pois a interferência do Mercado (inclusive direta, participando da gestão econômica das nações segundo os próprios interesses particulares) é clara e me parece ao menos ingênuo o ponto de vista que desconsidera essa "autossabotagem" exercida pelo "Mercado Livre".
    Sob esse ponto de vista, para evitar a "autossabotagem", não seria melhor reduzir a participação do Mercado na Política, no sentido de se buscar uma "gestão neutra"?
    Gostaria de saber o ponto de vista dos colegas.
    Grato pela atenção.
    Respeitosamente.
  • Leandro  10/08/2015 14:42
    "Por isso gostaria de entender pq atribuir exclusivamente ao BC tal política"

    Porque, no atual arranjo monetário em que vivemos, é o BC quem detém o controle geral da expansão do crédito. Se o BC quiser, ele pode, literalmente de uma hora para outra, interromper a expansão da base monetária (que está totalmente sob seu controle) e, com isso, interromper todo o processo de expansão do crédito efetuado pelos bancos, consequentemente gerando uma deflação de preços.

    Ele não faz isso porque, dentre outras coisas, seu mandato é estipulado por políticos, e tal mandato impõe inflação continua de preços (nos países desenvolvidos, 2%; no Brasil, 4,5%).

    "Em verdade, a adoção dessa política não decorreria da pressão político-econômica exercida pelo Mercado?"

    Defina "Mercado".

    "Parece-me uma visão reducionista do problema acreditar que as decisões econômicas tomadas pelos governos, em especial após a década de 50, sejam eminentemente políticas (sem considerar a pressão exercida pelos grandes conglomerados econômicos privados)."

    Defina "eminentemente políticas".

    De resto, que haja empresários defendendo seus interesses, ora, isso nunca foi negado. Este mesmo site é pródigo em artigos criticando essa mentalidade protecionista do empresariado.

    Eis alguns exemplos:

    A diferença entre iniciativa privada e livre iniciativa - ou: você é pró-mercado ou pró-empresa?

    Os reais beneficiados por um capitalismo regulado

    Grandes empresas odeiam o livre mercado

    Gastos públicos, lucros privados

    Regulamentações brasileiras garantem a prosperidade dos vigaristas

    As parcerias público-privadas - a porta de entrada para o socialismo

    "É aqui que enxergo a visão reducionista, pois a interferência do Mercado (inclusive direta, participando da gestão econômica das nações segundo os próprios interesses particulares) é clara e me parece ao menos ingênuo o ponto de vista que desconsidera essa "autossabotagem" exercida pelo "Mercado Livre"."

    Desculpe-me a sinceridade, mas "ingênuo" é dizer que o conluio entre grandes empresários e políticos representa "mercado livre". Conluio entre empresários e políticos é o exato oposto de "mercado livre". Esse conchavo representa, isso sim, o exemplo supremo de corporativismo, protecionismo, privilégios, reservas de mercado e cartórios. Apenas leia os artigos linkados acima.

    Agora, se você quer blindar o governo da pressão destes empresários, então você é nosso aliado. Mas se você acha que é possível fazer isso mantendo esse estado que aí está, com seu tamanho atual, bastando para isso eleger "políticos certos", então você está iludido.
  • Thiago  07/04/2010 04:45
    Como seria bom se economia se resolvesse na canetada. Seria só os governos aumentarem os juros e pronto...toda a crise atual estaria resolvida.

    Será que os BCs não aumentam os juros porque são Keynesianos? Ou porque se o fizerem nesse momento o desemprego será generalizado? Nos EUA é guerra civil...

    Taxa de juro baixa é consequencia não causa. Excesso de oferta de capital. Valor ocioso na economia. Com pouco espaço para se reproduzir nesse momento. As taxas de juros caem. Se os BCs subirem na base da canetada nesse momento, não sobra pedra sobre pedra. As taxas de juros subirão quando a economia encontrar espaço para voltar a crescer. E não o contrario.

    Infelizmente economia é real, não depende de canetada. Culpar os governos pela crise é ingenuidade.
  • Leandro  07/04/2010 06:49
    Thiago, você confundiu um pouco.

    Juros refletem a escassez (ou abundância) de capital (poupança), e não sua ociosidade. Nesse momento, a economia americana está totalmente descapitalizada, pois o capital foi destruído em empreendimentos errôneos, estimulados pelos juros artificialmente baixos impostos pelo Fed na base da impressão de dinheiro.

    Os juros baixos eram artificiais justamente porque não havia poupança. Toda a bonança foi artificial, como o atual estado da economia americana revela.

    Sendo assim, o que a economia americana mais precisa nesse momento é de formação de capital (poupança), e juros artificialmente baixos estimulam o exato oposto: consumo de capital.

    Por isso a necessidade de juros mais altos.

    Se quiser um exemplo prático do que eu disse acima, basta estudar a depressão de 1920-1921

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=238
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=610
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=278
  • Thiago  07/04/2010 07:57
    Vou ler sim Leandro, com entusiasmo. Mas algumas coisas que você falou são problematicas. A economia (o lucro) americana é pago no credito desde a decada de 80. Isso acontece porque foi a unica forma de se garantir acesso ao que se produz ao mesmo tempo em que se paga o lucro do empresário. Aumentar as taxas de juros nesse momento leverá à total inadimplencia e um efeito cascata generalizado. E o pequeno capital com alguma capacidade ou espaço para investimento lá dentro será totalmente desistimulado.

    Taxa de juro é determinada pela ofertaxdemanda de capital. No momento há excesso de capital financeiro incapacitado de realizar investimentos produtivos com lucro lá dentro. Daí os investimentos nos emergentes, por exemplo. Se as taxas de juros forem aumentadas na base da canetada, não há lucro que pague os juros. Se paga juro com lucro, com lucro baixo um juro artificalmente alto quebra de vez a economia.

    As taxas de juros não estão artificialmente baixas, mas estão refletindo as baixas taxas de lucro lá dentro.

    Mas lerei, sim, os textos. Grato pela resposta Leandro.
  • Leandro  07/04/2010 09:48
    Só algumas considerações, Thiago:

    A economia (o lucro) americana é pago no credito desde a década de 80.

    Sim, mas o financiamento vem de fora. A poupança americana começou a cair justamente nessa época, embora tenha se acentuado a partir dos anos 2000, justamente quando o Fed mandou os juros para 1% (via impressão monetária).

    Aumentar as taxas de juros nesse momento leverá à total inadimplencia e um efeito cascata generalizado.

    Fará com que várias empresas insolventes quebrem. E é justamente disso que a economia precisa: limpar os investimentos errôneos e liberar mão-de-obra e capital para investimentos mais produtivos. Enquanto as empresas defuntas forem mantidas artificialmente, a economia não vai se recuperar. O melhor exemplo prático é o Japão, cuja manutenção de bancos zumbis paralisou a economia na década de 1990.

    E o pequeno capital com alguma capacidade ou espaço para investimento lá dentro será totalmente desestimulado.

    Não necessariamente. O aumento dos juros levará a uma genuína formação de poupança, justamente o que a economia americana precisa. Se o governo não tivesse feito nada e deixado os juros subirem, o processo de limpeza já teria ocorrido, já haveria poupança disponível e, logo, haveria estímulo à formação de capital - algo imprescindível para pequenas empresas.

    Taxa de juro é determinada pela oferta x demanda de capital. No momento há excesso de capital financeiro incapacitado de realizar investimentos produtivos com lucro lá dentro.

    Os investimentos produtivos não surgem justamente porque ainda não houve a limpeza da economia. Há muitas incertezas e o governo só colabora para agravá-las. Esse pequeno artigo do Mario Rizzo é excelente para explicar isso:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=294

    Se as taxas de juros forem aumentadas na base da canetada, não há lucro que pague os juros.

    Aí é que tá. O aumento dos juros não seria na canetada. Seria um processo natural de mercado. Os juros baixos é que vêm na canetada - ou melhor, na impressão de dinheiro, algo que, por si só, não cria capital.
  • Anonimo  20/10/2010 09:40
    Culpar o governo está longe de ter qualquer fundamento no mundo real, a não ser pela lúcida a observação de que os eleitos são em sua grande maioria controlados pelos banqueiros em praticamente todos os seus interesses políticos. Lembremos também que os BCs sao apenas disfarçados de orgaos governamentais, mas sua autonomia é praticamente total, e seus livros, inauditáveis. O que leva a crer que são todos controlados pelos interesses dos grandes bancos privados e grandes corporaçoes e que simplesmente agem em conluio com a máfia do FED e FMI em omitir todos os crimes e infraçoes constitucionais que levaram aos países da América Latina a se endividarem ao ponto de se tornarem completamente escravos. O mais gritante de tudo, eh o relatório final de nossa CPI da divida que saiu este ano e ninguem fala nada...como se naum existisse.

    Ali está tudo listado, todos os crimes cometidos pelos nossos ex-ditadores até a decada de 80 e toda a prevaricação que se seguiu, diante de toda essa ilegalidade, por parte dos outros governos que se passaram até o governo atual. Aponta tambem diversas renegociaçoes escandalosamente ilegais e inconstitucionais com clausulas de açoes (medidas de austeridade) coletivas ridiculamente desumanas e destruidoras da nossa estrutura social. Apurou-se tambem clara invervenção do FMI ao indicar de forma desequlibrada as instituições que seriam detentora dos contrados de refinanciamentos.

    Link: www.divida-auditoriacidada.org.br/config/DocumentoCPI.pdf/download

    Para terminar:
    "Na opinião do público, mais inflação e mais expansão do crédito são os únicos remédios contra os malefícios trazidos justamente pela inflação e pela expansão do crédito."[9]

    Isto está deveras e propositalmente brando demais. Eu vou de Ford...


    "It is well enough that people of the nation do not understand our banking and monetary system, for if they did, I believe there would be a revolution before tomorrow morning."
    Henry Ford

    "É bom o bastante que o povo da nação não entenda nosso sistema bancário e monetário, pois se o fizessem, acredito que haveria uma revolução antes do próximo amanhecer."
    Henry Ford

  • Emerson Luis, um Psicologo  20/05/2014 12:30

    Oscilação de preços é diferente de inflação de preços: uma é economia saudável, a outra, doentia.

    * * *


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