Mises e a família
por , terça-feira, 22 de dezembro de 2009

família.jpgO escritor, poeta e filósofo G.K. Chesterton dizia que a família era uma instituição anarquista.  Com isso, ele queria dizer que não é necessário nenhum decreto do estado para que ela venha a existir.  Sua existência flui naturalmente de realidades constantes na natureza do homem, sua forma sendo aperfeiçoada pelo desenvolvimento de normas sexuais e pelo avanço da civilização.

Essa observação é consistente com a brilhante discussão sobre a família feita por Ludwig von Mises em sua magistral obra Socialism, publicada em 1922.  Por que Mises abordou a família e o casamento em livro de economia que refutava o socialismo?  Ele entendeu - ao contrário de muitos economistas de hoje - que os oponentes da sociedade livre e voluntária têm um projeto amplo que geralmente começa com um ataque a essa instituição que é a mais crucial de qualquer sociedade.

"Propostas para transformar as relações entre os sexos há muito vêm de mãos dadas com planos para a socialização dos meios de produção", observa Mises.  "O casamento deve desaparecer junto com a propriedade privada...  O socialismo promete não apenas o bem-estar - riqueza para todos -, mas também a felicidade universal no amor."

Mises observou que o livro de August Bebel (alemão fundador do Partido da Social Democracia Alemã) Woman Under Socialism, um canto de glória ao amor livre publicado em 1892, foi o tratado esquerdista mais lido de sua época.  Esse elo entre socialismo e promiscuidade tinha uma proposta tática.  Se você não acreditasse no engodo de uma terra prometida onde a prosperidade surgiria magicamente, então você ao menos podia ter a esperança de que haveria uma libertação da maturidade e da responsabilidade sexual.

Os socialistas propunham um mundo no qual não haveria impedimentos sociais ao ilimitado prazer pessoal, com a família e a monogamia sendo os primeiros obstáculos a serem derrubados.  Esse plano funcionaria?  Sem chance, disse Mises: o programa socialista para o amor livre é tão impossível quanto o programa para a economia.  Ambos vão contra as restrições inerentes ao mundo real.

A família, assim como a estrutura da economia de mercado, não é um produto de políticas; é um produto da associação voluntária, tornada necessária por realidades biológicas e sociais.  O capitalismo reforçou o casamento e a família porque é um arranjo que depende do consentimento e do voluntarismo em todas as relações sociais.

Assim, tanto a família quanto o capitalismo compartilham as mesmas fundações institucionais e éticas.  Ao tentar abolir essas fundações, os socialistas iriam substituir uma sociedade baseada nos contratos por uma baseada na violência.  O resultado seria o total colapso social.

Quando os social-democratas Sidney e Beatrice Webb viajaram para a União Soviética, uma década após o lançamento do livro de Mises, eles relataram uma realidade diferente.  Eles encontraram mulheres liberadas do jugo da família e do casamento, vivendo vidas felizes e realizadas.  Era uma fantasia tão grande - na realidade, uma fantasia sangrenta - quanto suas alegações de que a sociedade soviética estava se tornando a mais próspera da história.

Atualmente, nenhum intelectual mentalmente são defende o total socialismo econômico; mas uma versão diluída do programa socialista para a família é a força-motriz de várias das políticas sociais mais afamadas mundo afora.  Essa agenda anda de mãos dadas com a restrição da economia de mercado em outras áreas.

Não é coincidência alguma que a ascensão do amor livre tenha acompanhado a ascensão e o completo desenvolvimento do estado assistencialista.  A ideia da emancipação da necessidade de trabalhar (e de poupar e de investir) e da emancipação de nossa natureza sexual tem origem em um mesmo impulso ideológico: superar as realidades estabelecidas da natureza.  Como resultado, a família sofreu - exatamente como Mises previu que aconteceria.

Embora os defensores da família e os proponentes do capitalismo devessem estar unidos em um único programa político visando a esmagar o estado intervencionista, eles tipicamente não estão.  Os defensores da família, mesmo os conservadores, frequentemente condenam o capitalismo financeiro como uma força alienadora, e defendem políticas irrefletidas como tarifas, monopólios sindicais e programas de renda mínima para pessoas casadas.

Ao mesmo tempo, os adeptos da livre iniciativa demonstram pouco interesse em relação às genuínas preocupações dos defensores da família.  E ambos não parecem interessados nos ataques radicais à liberdade e à família que políticas governamentais como leis do trabalho infantil, escola pública, seguridade social, altos impostos e medicina socializada representam.  Na visão de Mises, essa cisão é deletéria.

"Não é nenhum acidente que a proposta de se tratar homens e mulheres como sendo radicalmente iguais, de ter o estado regulando as relações sexuais, de colocar crianças em creches públicas e garantir que filhos e pais permaneçam quase que desconhecidos uns para os outros tenha se originado com Platão", que em nada se importava com a liberdade.

Também não é nenhum acidente que essas mesmas propostas hoje em dia sejam defendidas por pessoas que não têm a mínima consideração pela família e pelas leis econômicas.

Lew Rockwell 

é o presidente do Ludwig von Mises Institute, em Auburn, Alabama, editor do website LewRockwell.com, e autor dos livros Speaking of Liberty e The Left, the Right, and the State.

Tradução de Leandro Augusto Gomes Roque

tags:  Capitalismo  socialismo  moralidade  individualismo  voluntarismo  sexismo  
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12 comentários

12 comentários

José
A restrição intolerável de 1 familia por individuo é um exemplo de obstrução estatal nas votades privadas. Se o Estado fosse a favor das familias, ele permitiria a poligamia, e cada homem ou mulher poderia ter quantas familias desejasse, como um modo de multiplicar sua felicidade
Publicado em 22/12/2009 13:37:30
CR
Exceto em caso de estupro, em qualquer regime se nasce por amor, o qual necessariamente é livre. O ato, como diz o texto, é voluntário, obviamente. O que a instituição da família busca preservar é a integralidade do exercício, que pressupõe a face da responsabilidade. O totalitarismo não lhe exige, e nem poderia, porque se subroga no direito de tutela na mais tenra idade, conforme os cânones espartanos.
Publicado em 22/12/2009 14:28:36
José
a famiia deve ser abençoada pelos pais, pela a igreja e pela a comunidade, e não deve sofrer nenhuma limitação estatal. Atualmente o Estado impede que a familia cresca, ao proibir a poligamia. A familia é uma célula social, pedra da moral e da decência, e que deve ser incentivada a crescer e incorporar novos membros. Eu queria que no futuro a família tivesse um sentido maior que o atual e que os outros pudessem ser convidados a fazer parte da família, se ele for amado pelos demais. Imagine uma criança poder ter 2, 3 ou quantas mães ela pudesse? se isso não é o paraíso?
Publicado em 22/12/2009 15:28:55
Felipe
Já que estão tocando no assunto: só eu acho uma hipocrisia os gays quererem se casar na Igreja igual os casais heteros? Digo, o casamento tradicional é essencialmente católico, e a religião católica é contra os gays de qualquer forma. A partir do momento que alguem se diz gay, ele automaticamente se exclue da religião católica e não pode mais exigir os mesmos direitos. Se dizer cristão e gay ao mesmo tempo é hipocrisia. Só pra constar: sou ateu, então não estou aqui pra defender o catolicismo.
Publicado em 22/12/2009 16:54:09
Leandro
O catolicismo ou qualquer outra religião são de adesão totalmente voluntária (pelo menos no Brasil). Entretanto, não tem problema algum um gay seguir os preceitos católicos ou protestantes. O que não dá é ele exigir que os mesmos sacramentos (no caso, o matrimônio) lhe sejam aplicados, quando é da própria fundação da religião que isso não aconteça.

Porém, obviamente os burocratas já entraram em ação para tentar alterar isso. No Brasil o que vemos hoje são leis e movimentos politicamente corretos que tentam subjugar as religiões aos desígnios políticos. Por exemplo, quando Geraldo Alckmin era governador de São Paulo, ele instituiu uma lei que proibia um padre de expulsar um travesti de uma igreja. Aliás, hoje o padre sequer pode chamar a atenção de algum casal homossexual que se comporte libidinosamente durante uma missa, pois os políticos consideram isso uma manifestação odiosa de preconceito.

Assim, se você estiver com sua família numa igreja e dois bigodudos começaram a se lamber na frente das crianças, você estará errado se protestar - e no futuro próximo poderá ir em cana por crime de homofobia.

Ou seja: não só o estado passou a determinar como as religiões devem agir, mas também passou a desrespeitar a propriedade privada delas - o padre perdeu a autonomia dentro da igreja.
Publicado em 22/12/2009 17:37:54
José
Bom, no caso do casamento gay, devemos refletir se os casais gays desejam mesmo casarem-se na igreja, ou se eles apenas querem vivênciar a fantasia de se sentir uma "noiva no altar", hehe
Mas no fundo eu não considero uma decisão racional do catolicismo recusar o casamento gay nas suas dependências. Pois dessa forma incentiva as pessoas a procurarem outras Igrejas, o que agrava a perda de fiéis e ainda leva ao crescimento de outras religiões concorrentes
Publicado em 22/12/2009 17:47:50
R.L.
Como toda a união estável entre duas pessoas, o casamento gay emana de um cálculo econômico racional entre ambos os individuos. A paixão, o amor, esse sim surge por seus meios espontâneos, mas a união consciente entre casais do mesmo sexo, depende da vontade de ambos e da identificação de incentivos econômicos que leve-os a unirem-se. A união homo-afetiva está respaldada pelos princípios da escola austríaca, que mais uma vez demonstra adiantar-se ao pensamento estabelecido, incluindo aí o tradicionalismo da igreja
Publicado em 22/12/2009 23:11:15
Cristiano
Excelente artigo, parabéns. Não perceber o ataque que as "politicas publicas" significam às familas é, talvez, a maior cegueira da modernidade.
Publicado em 23/12/2009 11:13:42
Daniel M.
Marx, Engels e a família

"Abolição da família! Até os mais radicais ficam indignados diante desse desígnio infame dos comunistas. Sobre que fundamento repousa a família atual, a família burguesa? No capital, no ganho individual. A família, na sua plenitude, só existe para a burguesia, mas encontra seu complemento na supressão forçada da família para o proletário e na prostituição pública. A família burguesa desvanece-se naturalmente com o desvanecer de seu complemento e uma e outra desaparecerão com o desaparecimento do capital. Acusai-nos de querer abolir a exploração das crianças por seu próprios pais? Confessamos este crime. Dizeis também que destruímos os vínculos mais íntimos, substituindo a educação doméstica pela educação social."

Extraído do "Manifesto do Partido Comunista", Parte 2 - Proletários e Comunistas
Publicado em 14/5/2010 18:52:07
Daniel M., citando Lixo disse: "... substituindo a educação doméstica pela educação social."

Educação social? www.youtube.com/watch?v=M_bvT-DGcWw
Publicado em 14/5/2010 19:10:12
Filipe Rangel Celeti
A citação do Marx e Engels caiu como uma luva para a minha tese de mestrado...


obrigado por mostrar o texto que eles confessam o crime de invasão à escolha dos individuos.
Publicado em 15/5/2010 08:23:42
Daniel M.
Se o pessoal do IMB me permite, gostaria de fazer uma sugestão. O "Manifesto do Partido Comunista" é um daqueles livretos que quase todo mundo tem, mas pouquíssimos leram. Seria muito interessante fazer uma análise daquele texto à luz do pensamento liberal. Veremos que, na surdina, em muitos pontos já vivemos o cenário sonhado por K.M.
Publicado em 16/5/2010 11:29:07

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