Juros, preferência temporal e ciclos econômicos

O que você prefere: ter uma televisão LCD agora ou só daqui a cinco anos?  Um laptop hoje ou só daqui a sete anos?  Uma barra de ouro agora ou daqui a uma década?  Caso você saiba dirigir e goste da liberdade de viajar segundo seu próprio horário, você preferiria ter um carro hoje ou só daqui a dez anos, e ficar andando de ônibus até lá?

Embora as respostas para as perguntas acima pareçam muito óbvias, sua implicação para toda a teoria econômica é incomparável.  Trata-se da manifestação de um princípio básico da ação humana: o homem prefere o usufruto de um bem no presente ao usufruto desse mesmo bem no futuro.  Esse é conceito da preferência temporal.

É esse fenômeno natural que explica por que os bens presentes possuem um valor maior, um prêmio, em relação aos bens futuros - e é esse fenômeno que fornece a origem e a justificativa para o pagamento de juros.

O fenômeno da preferência temporal, que é observável em inúmeros aspectos da vida humana, é na verdade uma simples questão de bom senso: o homem prefere uma dada quantia de um bem no presente à mesma quantia desse bem no futuro.  Mais ainda: somente uma maior quantia desse bem no futuro pode persuadir o homem a abrir mão desse bem no presente.

Afinal, as pessoas não tratam uma dada quantia de um bem no presente e a mesma quantia desse mesmo bem daqui a alguns anos como sendo o mesmo bem.  Por exemplo, mesmo que não houvesse inflação, as pessoas não consideram 100 reais hoje e 100 reais daqui a dez anos como sendo o mesmo bem.  Do ponto de vista econômico, são dois bens diferentes.

Qualquer um que se recuse a reconhecer o fenômeno da preferência temporal está absolutamente incapacitado para entender fenômenos econômicos básicos.  Por exemplo, uma indústria pode aumentar sua produtividade e a qualidade de seus produtos caso ela adote um processo de produção mais longo, mais metódico e, consequentemente, mais demorado.  Se a preferência temporal não existisse, todas as indústrias poderiam optar por esse procedimento, preferindo o processo de produção que gerasse a maior quantidade de produtos sem se preocupar com quanto tempo isso iria levar.  O fato de as indústrias nem sempre procederem assim é um exemplo da preferência temporal em ação.  Como explicou Mises, é a preferência temporal que

"explica por que métodos de produção menos demorados são escolhidos, não obstante o fato de que métodos mais demorados gerariam um maior produto por unidade de insumo".

Outro exemplo prático da preferência temporal em ação, e do qual poucas pessoas se dão conta, é o preço de um pedaço de terra.  Se a preferência temporal não existisse, o preço de qualquer pedaço de terra produtivo seria infinito.  Por quê?  Porque se não levássemos em conta a existência da preferência temporal, esse pedaço de terra teria de ter hoje o mesmo valor que teria no futuro, após ter produzido várias colheitas.  Assim, o preço da terra hoje teria de ser igual à soma de toda a sua produção durante todo o período futuro até o fim dos tempos.  Assim, se fosse estimado que um determinado pedaço de terra pode gerar uma produção de 100.000 reais por ano, alguém que fosse comprar essa terra teria de pagar um valor equivalente a 100.000 multiplicado pelo tanto de anos que ele estimasse que faltaria para o mundo acabar a partir do momento da sua compra.  O fato de ninguém precificar as coisas dessa forma indica a existência de preferência temporal.

Aplicações

Tendo entendido a inevitabilidade da preferência temporal, o fenômeno dos juros fica mais claro.  Como um bem futuro tem menos valor pra você do que esse mesmo bem no presente, você só irá aceitar abrir mão desse bem no presente caso lhe seja prometida uma quantia maior desse mesmo bem no futuro.

Por exemplo, suponha que você é o único habitante de uma pequena cidade a ter um laptop, o qual você usa diariamente.  Eis que surge um empreendedor local e lhe pede emprestado esse laptop por, digamos, três anos, para que ele possa utilizá-lo como capital para fazer algum investimento.  Você só vai aceitar abrir mão do seu laptop por três anos caso esse empreendedor lhe prometa pagar, após esse período de três anos, um valor que seja maior do que o valor presente do seu laptop.  O mais natural é que você exija, além da devolução do laptop, o pagamento de um valor adicional (se ele vai pagar em dinheiro ou qualquer outro bem que você queira é o de menos).  O fato é que você quer ser recompensado por ter de abrir mão do seu laptop no presente.

Agora, suponha que você tenha dois laptops e esse empreendedor lhe peça emprestado apenas um.  Nesse cenário, é provável que a recompensa que você cobre por esse empréstimo seja menor que no primeiro caso - afinal, você tem um laptop sobressalente, e não vai ficar de todo desprovido de seu capital.  Ou seja, como havia uma maior abundância de capital (laptop) a ser emprestado, o preço cobrado pelo empréstimo de uma unidade foi menor.  O custo de se abrir mão dessa segunda unidade é menor do que no primeiro caso.  Consequentemente, quanto maior for seu capital disponível para ser emprestado, menor o valor que você exigirá por abrir mão de cada unidade.

Expandindo esse exemplo para a economia de toda a cidade, fica mais fácil perceber como a preferência temporal coordena os juros e como isso se reflete no processo de crescimento econômico.  Por exemplo, imagine que os habitantes da cidade são indivíduos poupadores - isto é, são indivíduos que consomem muito pouco.  O fato de eles consumirem pouco significa que eles estão mais voltados para o futuro.  Logo, a preferência temporal deles é menor.  Eles não são tão ávidos para desfrutar bens no presente.  Estão dispostos a algum sacrifício (poupança sempre é sacrifício) para adiar o usufruto desses bens.

Justamente por consumirem pouco, por terem uma preferência temporal baixa, eles permitem que haja mais bens disponíveis para ser emprestados e aplicados em processos de investimento.  Uma preferência temporal baixa gera uma maior abundância de bens livres para ser emprestados.

Assim, suponhamos que uma grande empresa dessa cidade queira iniciar um grande empreendimento - por exemplo, a construção de um shopping.  Para fazer esse investimento, a empresa vai precisar de uma grande disponibilidade de capital: desde cimento, argamassa e tijolo até tratores, escavadeiras, caminhões, maquinário pesado etc.  Quanto maior for a poupança das pessoas desta cidade, isto é, quanto menos elas tiverem consumido, maior será a disponibilidade desses elementos (afinal, aquilo que não é consumido é poupado).  E quanto maior essa disponibilidade, menor o preço cobrado pelo uso de cada unidade deles.  Logo, a baixa preferência temporal das pessoas dessa cidade gerou uma maior poupança - isto é, mais capital disponível para empréstimo -, o que fez com que fossem menores os juros exigidos por cada unidade de capital.

Nesse cenário - observe que ainda não estamos lidando com dinheiro - a poupança disponível é genuína.  A empresa que vai fazer o empreendimento sabe com antecedência qual a real quantidade de capital disponível para ela utilizar em sua obra, bem como quanto terá de pagar pelo uso desse capital.  O cenário observado é o cenário real; não houve manipulações.  A quantidade de capital disponível (poupado) é aquela realmente observada.  Assim, a empresa estará apta a calcular corretamente quanto capital está disponível para ser usado e quanto irá gastar para adquiri-lo.  Caso esteja dentro do orçamento, a obra será empreendida sem sustos e, ao ser finalizada, haverá consumidores aptos para consumir os bens gerados por ela, pois pouparam para isso.

Agora imagine que essa cidade, contrariamente ao exemplo anterior, seja povoada por pessoas com alta preferência temporal - ou seja, voltadas para o presente.  São pessoas consumistas, avessas à poupança.  Querem o máximo possível para hoje.  Nesse caso, o capital disponível foi quase todo exaurido (quase todos os tijolos e cimentos já foram usados, os tratores e as escavadeiras estão gastos, os caminhões estão dilapidados, há poucos laptops disponíveis para rodar os programas de cálculo estrutural etc.).  É óbvio que, nesse cenário, não há capital disponível para sustentar um investimento vultoso como a construção de um shopping.  A empresa que fosse fazer tal empreendimento rapidamente seria demovida da ideia ao ver a escassez de capital disponível.  Essa escassez de capital - consequência natural da alta preferência temporal das pessoas - se traduziria em um alto preço (juros) cobrado pelo uso do pouco capital que ainda resta, pois a empresa estaria disputando o uso desse escasso capital com os moradores consumistas, que cobram um preço muito alto para deixar de usá-los.

Em ambos os casos, a introdução do dinheiro em nada muda o raciocínio.  O fato de as pessoas terem baixa preferência temporal, como no primeiro caso, se traduz em mais dinheiro disponível para empréstimo.  O fato de haver mais dinheiro disponível para empréstimo é consequência de ter havido pouco consumo.  Logo, há uma relação direta entre a quantidade de dinheiro poupada (disponível para empréstimos) e quantidade de bens disponíveis no mercado.  Portanto, nesse caso, a empresa que quer construir o shopping não precisa ir a campo para pesquisar qual a real disponibilidade de bens capital (ferramentas) para sua obra - tudo o que ela precisa fazer é ver qual a taxa de juros monetários cobrada para empréstimos.  Essa taxa de juros será um retrato fiel da real disponibilidade de poupança (bens de capital).

O mesmo é válido para o segundo caso.  A alta preferência temporal das pessoas resulta em mais consumo e menos dinheiro disponível na poupança, o que consequentemente significa menos bens de capital disponíveis para serem utilizados em investimentos.  Por haver menos dinheiro na poupança, os juros cobrados para empréstimos serão altos, sinalizando a inviabilidade do investimento.

Ambos os cenários relatados acima mostram como os juros funcionariam num ambiente de genuíno livre mercado, onde não há manipulações monetárias, não há criação de dinheiro e não há manipulação de juros por parte de alguma autoridade governamental.  Os juros monetários vigentes na economia representariam fielmente a real disponibilidade de bens de capital que podem ser utilizados em investimentos.  Da mesma forma, os juros também sinalizariam o poder de consumo da população: uma baixa taxa de juros estaria indicando que as pessoas têm dinheiro poupado e, consequentemente, poderão consumir mais no futuro (o que tornam viáveis investimentos de longo prazo).  Uma alta taxa de juros estaria indicando que as pessoas não têm dinheiro poupado e, consequentemente, não poderão consumir muito no futuro (o que inviabilizaria os investimentos de longo prazo.  Afinal, quem iria consumi-los?).

Assim, em um livre mercado, a taxa de juros - que é formada pela preferência temporal das pessoas - coordena automaticamente a alocação de recursos na economia.  Não haveria como haver investimentos errôneos simplesmente porque estes seriam caros demais para ser iniciados.  Um investimento de longo prazo só seria empreendido se os juros vigentes indicassem haver uma possibilidade de lucros futuros.

Como explicou Rothbard,

"Em um mercado livre e desimpedido, a taxa de juros é determinada puramente pelas preferências temporais de todos os indivíduos que compõem a economia de mercado. A essência de um contrato de empréstimo é que um "bem presente" (dinheiro que pode ser usado no momento) está sendo trocado por um "bem futuro" (um título de dívida que só poderá ser utilizado em um dado momento futuro).  Como as pessoas sempre preferem ter o dinheiro agora ao invés da perspectiva de receber a mesma quantia em algum momento futuro, o bem presente sempre exige um prêmio no mercado em relação ao bem futuro.  Este prêmio é a taxa de juros, e seu valor irá variar de acordo com o grau em que as pessoas preferem o presente em relação ao futuro, ou seja, o grau de suas preferências temporais."

Como atrapalhar tudo

Insatisfeitos com a baixa taxa de poupança da população do segundo exemplo, os políticos locais criam uma entidade poderosa o suficiente para fazer parecer com que haja mais capital disponível para o empreendimento do que realmente há. 

Essa entidade, que vamos chamar aqui de banco central, é dotada do monopólio da criação de moeda, sendo que ela pode alterar toda quantidade de dinheiro da economia a bel-prazer.

Assim, para evitar que a empresa que quer construir o shopping desista da ideia por causa da escassez de poupança (e dos juros altos, que é a consequência natural), o banco central imprime dinheiro e o injeta no sistema bancário.  Essa maior oferta de dinheiro irá fazer com que o preço dele (os juros) caia.

Consequentemente, animada com essa queda nos juros, a empresa agora passa a achar que vale a pena fazer a construção do shopping - afinal, o investimento ficou barato e certamente trará lucros futuros.  As obras começam.

Mas há aí um severo desequilíbrio econômico: a preferência temporal dos habitantes continua alta e eles continuam consumindo muito no presente - logo, há menos bens de capital do que os juros fazem supor e, de quebra, a empresa terá de disputar com a população consumista esses bens de capital.

No início do processo, a sensação é de prosperidade.  A empresa está contratando, empregando gente, pagando salários e consumido bens de capital.  Os fornecedores ficam animados, pois veem um aumento das encomendas e de sua renda.  O crescimento econômico parece sustentável.

Com o passar do tempo, os desequilíbrios vão ficando evidentes.  A escassez de bens de capital começa a ficar aparente.  Os preços deles sobem.  Essa subida de preços faz com que a empresa tenha de obter mais empréstimos para continuar adquirindo esses bens de capital.  Com isso, os juros sobre os empréstimos sobem.  O empreendimento vai ficando cada vez mais inesperadamente caro.  Os bens de capital estão cada vez mais escassos.  A espiral escassez de bens/aumento dos juros vai se tornando mais intensa.  Até que a empresa desiste e interrompe o investimento.  Os trabalhadores são demitidos e os fornecedores são dispensados.  A aparente prosperidade econômica revelou-se insustentável.  Capital e mão-de-obra foram desviados para um investimento que não deveria estar ocorrendo.  O aumento do desemprego é inevitável.  Instala-se a recessão, que é o período de se corrigir esse desequilíbrio.

A fonte do problema é que a empresa iniciou um investimento voltado para o longo prazo na crença de que havia capital suficiente para finalizá-lo.  Os juros artificialmente baixos levaram-na a crer que havia poupança disponível tanto para financiar as obras quanto para permitir que os consumidores futuramente pudessem consumir o produto final.  Mas não havia nem uma coisa nem outra.

Tudo que havia era mais papel-moeda na economia.  Mas aumentar o dinheiro na economia não faz com que surjam mais bens de capital para se fazer os investimentos.  O aumento do volume de dinheiro apenas faz com que os juros monetários caiam sem que tenha havido um simultâneo aumento na poupança.  O desequilíbrio econômico passa a ser inevitável.

Não tivesse havido essa manipulação monetária, não teria por que se iniciar tal investimento.

Finalizando

Como vimos, os juros são fenômenos naturalmente oriundos da preferência temporal dos indivíduos.  Em um genuíno livre mercado, os juros sinalizam a quantidade de poupança genuinamente disponível.  Por 'poupança' entenda a quantidade de bens que não foram consumidos e que, portanto, estão disponíveis para serem utilizados em investimentos.  Mesmo em uma economia monetária os juros continuam sendo oriundos da preferência temporal das pessoas.  Quanto maior a poupança, maior a disponibilidade de bens e menor os juros monetários.  A quantidade de dinheiro poupada passa a ser um reflexo da abundância de bens.  A existência do dinheiro facilita em muito a questão da contabilidade - ao invés de ir a campo pesquisar quantos bens existem no mercado, basta olhar a taxa de juros vigente.

Quando uma entidade como o banco central é criada, os juros passam a ser manipulados.  Não há mais um livre mercado na oferta de poupança e os juros monetários não mais são determinados pela preferência temporal das pessoas.  A manipulação dos juros por um banco central nada mais é do que um controle de preços, gerando escassez de capital da mesma forma que o controle do preço do arroz faz com que esse produto suma das prateleiras.  Os ciclos econômicos tornam-se recorrentes.

Por fim, apenas uma consideração técnica adicional: no nosso atual arranjo econômico, no qual transacionamos com dinheiro e há incertezas futuras, embora a preferência temporal sozinha não determine os juros de mercado (juros de mercado são os juros bancários e não a taxa SELIC), ela é um ponto de partida.  Segundo Hayek, a preferência temporal determina o quanto as pessoas irão poupar, mas não determina a taxa de juros de mercado.  Além da preferência temporal, coisas como produtividade marginal, risco, oferta monetária, demanda por dinheiro, demanda por empréstimos etc., todas elas têm um papel determinante na formação dos juros de mercado.

Mas se a taxa básica da economia, que é a taxa SELIC, é manipulada pelo banco central, as chances de as taxas de juros de mercado refletirem adequadamente a disponibilidade de capital é praticamente nula.  Daí a recorrência dos ciclos econômicos.

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Para ver uma ilustração animada de todo esse processo, assista a essa insubstituível apresentação de PowerPoint (em português).

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SOBRE O AUTOR

Leandro Roque
é o editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.


Sempre tive uma dúvida com relação ao desenvolvimento econômico da Alemanha durante o século XIX, visto que existem teorias que citam o denominado "método de industrialização prussiano", que era baseado no protecionismo econômico, subsídios para as indústrias e formação de grandes cartéis empresariais. Conforme leituras anteriores, a Alemanha anterior à unificação enfrentou um período de liberdade econômica entre 1820-1870, sendo que no ano da reunificação (1871) o tamanho de sua economia ultrapassava a França e perdia apenas para o Reino Unido e os Estados Unidos da América. Contudo, a partir da ascensão do II Reich e do intervencionismo estatal promovido por Otto von Bismarck, a economia alemã foi perdendo as características liberais e a centralização indústrias em oligopólios e protecionismo passou a comandar a política econômica do Império Alemão. Além disso, muitos economistas "requentam" as teorias de Friedrich List para defender o suposto método de industrialização prussiano, que fora herdeiro do período de grande liberdade econômica anterior à centralização de Bismarck e Guilherme I. Eu estaria certo em afirmar que o crescimento econômico da Alemanha no século XIX se deve mais ao período liberal (1820-1870) do que ao período intervencionista (1871-1919) do II Reich e que a Alemanha teria crescido muito mais economicamente se não entrasse na aventura imperialista na África a partir de 1883, preservando as características liberais de outrora?
Em primeiro lugar, em qualquer empresa que tenha como seu maior acionista o Tesouro nacional, a rede de incentivos funciona de maneiras um tanto distintas. Eventuais maus negócios e seus subsequentes prejuízos ou descapitalizações serão prontamente cobertos pela viúva — ou seja, por nós, pagadores de impostos, ainda que de modos rocambolescos e indiretos.

Mais: uma empresa ser gerida pelo governo significa que ela opera sem precisar se sujeitar ao mecanismo de lucros e prejuízos.

Todos os déficits operacionais serão cobertos pelo Tesouro, que vai utilizar o dinheiro confiscado via impostos dos desafortunados cidadãos. Uma estatal não precisa de incentivos, pois não sofre concorrência financeira — seus fundos, oriundos do Tesouro, em tese são infinitos.

Por que se esforçar para ser eficiente se você sabe que, se algo der errado, o Tesouro irá fazer aportes?

Uma empresa que não é gerida privadamente, que não está sujeita a uma concorrência direta, nunca terá de enfrentar riscos genuínos e nunca terá de lidar com a possibilidade de prejuízos reais. Logo, é como se ela operasse fora do mercado, em uma dimensão paralela.

O interesse do consumidor — e até mesmo de seus acionistas, caso a estatal tenha capital aberto — é a última variável a ser considerada.

Como mostram os esquemas de propinas em licitações, estatais não operam de acordo com os sinais de preços emitidos pelo mercado. Elas não operam segundo a lógica do sistema de lucros e prejuízos. Se uma empresa genuinamente privada se dispusesse a pagar um preço mais alto que o de mercado para contratar empreiteiras para fazer obras, seu capital (patrimônio líquido) seria destruído, seus acionistas se desfariam de suas ações, o valor de mercado da empresa despencaria e, na melhor das hipóteses, ela teria de ser vendida para outros controladores "a preço de banana".

Assim como o governo não é capaz de saber se deve construir a estrada A ou a estrada B, ou se deve "investir" em uma estrada ou em uma escola, ele também não sabe se deve produzir mais eletricidade, ou se deve prospectar mais petróleo, ou se deve alterar seu serviço de entrega de cartas. (Por isso, os Correios estão pedindo um aporte de R$ 6 bilhões ao Tesouro Nacional).

Com efeito, não há como o governo saber o quanto deve gastar em todas as suas atividades em que está envolvido. Simplesmente não há maneira racional de o governo alocar fundos ou mesmo decidir o quanto ele deve ter.

O sistema de lucros e prejuízos serve como guia crítico para direcionar o fluxo de recursos produtivos. Tal guia não existe para o governo, que não possui uma maneira racional de decidir o quanto de dinheiro ele deve gastar, seja no total ou em algum setor em específico.

Por não ter uma racionalidade, uma preocupação com lucros e prejuízos, as estatais sempre acabam seguindo os caprichos do governo do momento, cujos políticos do partido estão em seu comando. Consequentemente, estatais sempre estarão sob os auspícios de uma gente cujo horizonte temporal é de no máximo quatro anos, e inevitavelmente se transformarão em fábricas de desperdício, ineficiência, confusão e ressentimento.
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ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Mauro Ricardo  16/12/2009 16:53
    Muito bom! Obrigado pelo didatismo e clareza. Aos poucos esse quebra-cabeça de juros, poupança e capital (que eu sempre tive dificuldade) vai se fechando.
  • Petrucchio  17/12/2009 03:21
    Leandro Roque faz um trabalho excelente disseminando o verdadeiro conhecimento científico.
    A praxeologia para Escola Austríaca é um Ás de espadas.
  • Carlos Alexandre  17/12/2009 14:02
    Este foi o melhor artigo sobre a crise que eu vi!Leandro Roque deve ser um ótimo professor!
  • Luciano Lobo  17/12/2009 14:16
    Parabéns Leandro pelo excelente trabalho, com lógica e bom senso podemos compreender por que as atuais políticas econômicas intervencionistas se tornam desastrosas e consequentemente os politicos tenham que usar um bode expiatório (o "livre mercado").
  • Leandro  17/12/2009 16:33
    Prezados, agradeço muito todos os encômios. Mas, Carlos, não: não sou professor. E acho que nem quero. Abraços!
  • Edson  17/12/2009 23:05
    Permita-me colocar uma dúvida: como ficaria essa análise incluindo economia aberta e câmbio. Haveria a possibilidade de tanto governo, como setor privado, usarem o estoque de capital e poupança de outros países. Ou melhor, nem seria uma possibilidade, pois é quase obrigatório recorrer as importações pois elas são um meio de transmissão do progresso técnico
  • Tiago RC  18/12/2009 08:54
    Também tenho uma dúvida muito semelhante a do Edson... pode a inflação monetária de um governo criar uma bolha em outro país? (eventualmente um país que atraia mais os investidores do país onde o governo infla). Ou o câmbio flexível eliminaria esse risco?
    \n
    \nE, de fato, esse artigo está muito bom. Explica muito claramente como deveriam ser os juros. Parabéns!
  • Rodrigo Loureiro  18/12/2009 10:47
    O trecho do texto:
    "No início do processo, a sensação é de prosperidade. A empresa está contratando, empregando gente, pagando salários e consumido bens de capital. Os fornecedores ficam animados, pois veem um aumento das encomendas e de sua renda. O crescimento econômico parece sustentável.

    Com o passar do tempo, os desequilíbrios vão ficando evidentes. A escassez de bens de capital começa a ficar aparente. Os preços deles sobem. Essa subida de preços faz com que a empresa tenha de obter mais empréstimos para continuar adquirindo-os. Com isso, os juros sobre os empréstimos sobem. O empreendimento vai ficando cada vez mais inesperadamente caro. Os bens de capital estão cada vez mais escassos. A espiral escassez de bens/aumento dos juros vai se tornando mais intensa. Até que a empresa desiste e interrompe o investimento. Os trabalhadores são demitidos e os fornecedores são dispensados. A aparente prosperidade econômica revelou-se insustentável. Capital e mão-de-obra foram desviados para um investimento que não deveria estar ocorrendo. O aumento do desemprego é inevitável. Instala-se a recessão, que é o período de se corrigir esse desequilíbrio.

    A fonte do problema é que a empresa iniciou um investimento voltado para o longo prazo na crença de que havia capital suficiente para finalizá-lo. Os juros artificialmente baixos levaram-na a crer que havia poupança disponível tanto para financiar as obras quanto para permitir que os consumidores futuramente pudessem consumir o produto final. Mas não havia nem uma coisa nem outra."

    explica exatamente o que aconteceu em Dubai. Duabai é um exemplo perfeito para corroborar a teoria dos ciclos econômicos. Quanta areia e trabalho não foi desperdiçada lá?

    O artigo é excelente. Parabéns!
  • Leandro  18/12/2009 11:41
    Edson,

    Bom, em primeiro lugar, poupança externa pode ser interpretada de duas maneiras, ambas equivalentes: 1) dinheiro que os estrangeiros pouparam e nos enviaram; e (2) produtos que os estrangeiros pouparam e, consequentemente, nos permitiram comprar.

    Portanto, em uma economia aberta e com câmbio, a coisa em nada muda. Para um país poder importar poupança, ele precisa pagar por ela. Como ele paga? Com a própria poupança - no caso, os produtos que a população local se absteve de comprar (poupança) são enviados para o exterior em troca dessa importação.

    Os EUA, por serem o único país com o privilégio de ter a moeda internacional de troca, podem simplesmente imprimir dinheiro e trocá-lo por produtos estrangeiros. Mais detalhes sobre isso e outras questões cambiais podem ser vistas aqui: (http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=419)

    Thiago,

    Quando um país infla sua oferta monetária e exporta essa inflação, o banco central dos países que recebem esse dinheiro tem duas opções: ou deixa a moeda estrangeira entrar livremente e apreciar a moeda local (uma opção política que desagrada o setor exportador), ou compra essas divisas e expande a base monetária (o que faz com que os juros caiam). Os governos normalmente escolhem essa segunda opção, o que pode sim criar bolhas.

    Um câmbio puramente flexível poderia eliminar essas bolhas, mas desagradaria o poderoso setor exportador. Por isso, câmbio flexível puro é ficção.

    Rodrigo,

    Obrigado. Nesse fim de semana estaremos publicando um artigo completo sobre Dubai.
  • Ricardo Cruz  18/12/2009 20:38
    Concordo com os demais. Esse artigo é excelente! Tanto didaticamente como logicamente.
  • Sr.   23/12/2009 19:54
    Senhores Libertários\n\nVamos o sair do sonho e discutir a realidade:\n\nComo, e por que meios, essa escola pretende extinguir o Estado?\n\nProcurem não pareçer muito socialistas na resposnta\n
  • CR  23/12/2009 21:49
    O Estado merece ser dispensado por Justa-Causa:\nA superioridade dos sistemas auto-organizadores é ilustrada pelos sistemas biológicos, em que produtos complexos são formados com uma precisão, uma eficiência, uma velocidade sem iguais." (BIEBRACHER, C., NICOLIS, G.; SCHUSTER; Self Organizations in the Physico-Chemical and Life Sciences; Relatório EUR 16546, European Commission, 1995; cit. PRIGOGINE, I.,: 75)
  • André  05/01/2010 12:53
    De primeira não havia entendido muito bem, mas agora está na ponta da língua.
    Leandro merece o Prêmio Nobel de Ciências econômicas
  • Crisvovam  06/01/2010 13:45
    Todos que cremos na economia de mercado, devemos publica-la o dia inteiro e todo dia e em todos os lugares\n\n
  • Inacreditável  14/01/2010 22:14
    Bela tentativa para justificar a cobrança dos juros bancários.\n\nSupondo-se uma situação onde a taxa de juros seja absurda, nós chegaríamos ao ponto onde a preferência temporal não poderá ser mais satisfeita. O que isso alteraria na premissa incial? Nada. Nós estaríamos nos parágrafos iniciais deste artigo.\n\nPortanto, a cobrança de juros só serve para onerar o não-trabalho, para os possuidores do grande capital manterem o controle sobre uma economia com grave hemorragia. É só observar a quantidade de capital produtivo nos dias de hoje em comparação ao volume das "aplicações financeiras" dos "livres mercados"...\n\nChegará em breve NOVAMENTE a época quando a humanidade se libertará da escravidão dos juros.\n\nA hora está chegando, a hora da Luta contra as Altas Finanças.
  • Leandro  14/01/2010 22:31
    Discurso economicamente prosaico. Em um genuíno livre mercado - que é o cenário apresentado no artigo -, se as preferências temporais fossem tão altas ao ponto de elevar os juros a uma "taxa absurda", essa "taxa absurda" inevitavelmente atrairia mais poupança (tanto interna quanto externa), e essa maior oferta de poupança faria com que as taxas caíssem.

    Portanto, em um livre mercado, taxas de juros extremamente altas - além de provocarem o benéfico efeito de compatibilizar o nível da poupança com os reais recursos disponíveis - não teriam como se manter em nível alto por muito tempo.

    Mas como no cenário atual temos bancos centrais manipulando os juros, sem quaisquer considerações por leis econômicas, então as chances de estar havendo um descasamento entre o nível real de poupança e as taxas de juros praticadas são de fato enormes - e é essa intervenção que você deveria atacar.
  • Inacreditável  15/01/2010 09:50
    Voltemos agora à realidade dos fatos.\n\nPode ser que - na teoria econômica ortodoxa - uma alta taxa de juros atraia mais poupança, porém, a prática mostra que certas "aplicações" especulativas "roubam" esses recursos da poupança tradicional.\n\nMas mesmo que isso fosse corrigido, nada justifica a escravização do povo pelo juros. O Brasil e todas as outras grandes nações pagam trilhões todos os anos somente a título de juros para refinanciar suas dívidas internas. É uma sangria dos recursos públicos e das forças produtivas da nação. Imaginem quanto de imposto poderíamo abaixar caso fosse repensado o sistema econômico baseado nos juros bancários. \n\nAlém disso, a prática atual perpetua no poder certas dinastias financeiras, ao contrário da saudável alternânica deste poder por parte das grandes indústrias através de suas respectivas descobertas.\n\nLeiam o artigo \n\nO governo mundial de facto da atualidade \n\nno link:\n\nhttp://www.inacreditavel.com.br/novo/mostrar_artigo.asp?id=588
  • Capitalista  09/04/2013 22:20
    Se a poupança rendesse 20% ao mês, como em um cenário de juros altíssimos, quem não investiria na poupança? Consequentemente, a taxa logo cairia a um nível estável, onde as retiradas e depósitos fossem quase iguais.

    Simples, lógico e direto. Inadmissível sua falta de conhecimento. Jogue no Google Lei da Oferta e da Procura e talvez você entenda melhor como se regula os preços e taxas de juros em uma economia livre.
  • Tiago RC  15/01/2010 10:34
    Inacreditáveis são as confusões que você está fazendo.

    \nA sociedade brasileira é espoliada em bilhões anualmente para pagar juros que uma instituição em particular (governo) assumiu. Isso por si só é desonesto, assumir dívida e obrigar outros a pagarem. Óbvio que uma coisa tão desonesta e violenta vai gerar péssimos efeitos e desperdício de riqueza.

    \nMas daí a concluir que os juros em si são um problema? Os juros são algo perfeitamente natural - e necessário - pra o funcionamento da economia, como esse artigo demonstra. Não dá pra simplesmente "acabar" com os juros, é impraticável. O que tem que acabar é o controle estatal sobre os juros, assim como a possibilidade do governo de se endividar. É isso que beneficia tanto os grandes lobistas, que podem usar a poupança alheia sem autorização.
  • Roberto Chiocca  15/01/2010 11:34
    Sem juros não existe empréstimo, simples assim.\nInacreditável que existam pessoas que não pensem nem por um segundo nas coisas que dizem.
  • Inacreditável  15/01/2010 12:40
    Caríssimos,\n\npara o povo, é irrelevante se ele paga 8, 15 ou 20% de juros ao ano.\n\nO que ele analisa é somente se as mensalidades passam ou não no orçamento.\n\nOs juros são a remuneração do não-trabalho.\n\nÉ preciso repensar a economia. Sei que é difícil, pois as mentes foram condicionadas ao longo das décadas por esta obviedade.\n\nMas vale o esforço.
  • Tiago RC  15/01/2010 14:31
    haha, inacreditável, comece você a emprestar tua grana a juros 0.
    Tenho certeza que muita gente vai gostar.\nCada uma...

    \nVocê é contra aluguel também? Quem tem mais do que uma casa tem que ceder as outras pra quem quiser morar lá a custo zero?
  • Maurício  01/05/2010 20:11
    olá, Leandro,\r
    \r
    Numa de suas repostas vc postou isso:\r
    \r
    Um câmbio puramente flexível poderia eliminar essas bolhas...\r
    \r
    Vc poderia explicar com detalhes como isso funcionaria?\r
    \r
    Abraços
  • Leandro  02/05/2010 02:59
    Prezado Maurício,

    Acho que está havendo uma pequena confusão. O que eu disse é que mesmo um câmbio puramente flexível não pode impedir o fenômeno da inflação simples.

    Está nos comentários desse artigo, e é exatamente o último comentário:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=651
  • Tiago RC  03/05/2010 06:08
    Leandro,

    Acho que o Maurício se referia à resposta que você deu a mim, dizendo que um câmbio flexível poderia evitar a "exportação" de uma bolha.
    Eu confesso que ainda tenho um pouco de dúvida sobre como...
    Se um país expande sua base monetária para abaixar os juros, e as pessoas pegam empréstimos nesse país para emprestar em outro com taxas "naturais" (e maiores), isso não vai derrubar a taxa de juros no país destino? Um câmbio flexível faria a moeda do país destino se valorizar em relação a do país expansionista, o que é ainda mais um incentivo para os investidores continuarem a prática - além dos juros mais altos, lucram com a alta da moeda estrangeira...
    Isso não transferiria a bolha para o outro país no final das contas?

    Abraços,
    Tiago.
  • Leandro  03/05/2010 07:40
    Tiago, aí a abordagem é diferente. Se a dúvida do Maurício era essa também, então permitam-me reformular o que disse.

    Veja bem: se um país expande sua base monetária para diminuir os juros, e as pessoas pegam empréstimos nesse país para emprestar para outro país com taxas maiores, isso somente irá derrubar a taxa de juros no país destino caso o Banco Central imprima dinheiro para comprar essas divisas. Porém, caso o BC opte por não intervir, o que vai acontecer é que o câmbio desse país vai ficar apreciado.

    É verdade que tal apreciação cambial irá continuar estimulando os investidores externos a investir aqui, principalmente comprando títulos públicos. Porém, enquanto o BC se eximir de criar dinheiro para comprar essas divisas, não há motivos para os juros caírem (tudo o mais constante, obviamente).

    Agora, é óbvio que não é isso que ocorre na realidade. O BC sempre intervém para comprar divisas. E, na maioria dos casos, ele imprime dinheiro para fazer essa compra - o que provoca, sim, uma queda nos juros.

    Aliás, foi exatamente isso o que aconteceu no Brasil antes da crise, como explicitado aqui: www.mises.org.br/Article.aspx?id=249

    Portanto, a bolha é transferida de um país para outro apenas se o BC do país-destino intervir no mercado de câmbio, criando moeda para comprar essas divisas. Como é isso que ocorre na prática, então é um fato que as bolhas são exportadas.

    Por outro lado, um sistema de câmbio flutuante puro (algo fictício no mundo de hoje), poderia sim impedir a formação de bolhas originadas de fora. Acho que realmente era a isso que o Maurício se referia.
  • Maurício  03/05/2010 10:58
    Olá, Leandro, era a isso que eu me referia mesmo.\r
    \r
    Mas deixe eu explorar um pouco mais os seus conhecimentos:\r
    \r
    1) Num cenário de câmbio flutuante puro (sem expansão da base monetária), vc poderia descrever ( as etapas ) como funciona o mecanismo de entrada e saída de dólares do país?\r
    \r
    2) O país não estaria sujeito a uma bolha independente do cambio ser flutuante caso país fosse inundado por "fiat money" e subitamente esse dinheiro desaparecesse? \r
    Esse dinheiro criado do nada (dólares) pode ir para o consumo, investimento, bolsa de valores etc. Este montante de dólares envia sinalizações para o mercado interno de que há oportunidade de ganhos redirecionando reais para determinados setores criando uma bolha. No momento que esse dinheiro desaparecesse a estrutura de capital não é recomposta provocando o estouro da bolha?\r
    \r
    Abraços,\r
    \r
    Maurício
  • Leandro  03/05/2010 12:54
    Maurício,

    1) Seria como é hoje. Os dólares entram no país na conta do exportador, que tem de convertê-los em reais. Os reais ficam com o exportador e os dólares ficam na carteira do banco com quem o exportador negociou a conversão de dólares em reais.

    Nas importações, ocorre o inverso. O importador tem de trocar reais por dólares e enviá-los para o exterior. O banco de quem ele compra os dólares fica com seus reais, e o dólar vai pra fora.

    2) Supondo-se que o câmbio seja flutuante puro, esse cenário ocorreria apenas caso a moeda estrangeira - por exemplo, o dólar - pudesse ser utilizada livremente aqui. Como ela não pode, seu efeito é apenas sobre o câmbio. Repito: como não está havendo criação de moeda (está havendo apenas entrada de uma moeda estrangeira que não pode ser usada aqui dentro) e nem queda nos juros (tudo o mais constante), não há motivos para haver bolhas.

    A menos que essa entrada de dólares provocasse, por um algum motivo, um redirecionamento maciço de reais para uma área muito específica da economia. Aí seria o equivalente aos royalties de petróleo do Rio de Janeiro (pode causar bolhas, mas não ciclos econômicos). Mas tal hipótese é tão improvável quanto a existência de um câmbio flutuante puro.

    Sendo assim, só pra deixar claro: no mundo real, não há câmbio flutuante puro, o que significa que uma entrada maciça de dólares acaba gerando expansão da base monetária (o BC imprime reais para comprar o dólar) e queda de juros.

    O BC também pode vender títulos e utilizar o dinheiro arrecadado para comprar os dólares, mas se fizesse isso em grande escala causaria um aumento dos juros e da dívida.

    Portanto, sim, no mundo real a entrada de dólares pode provocar bolhas - bolhas essas que seriam improváveis num ambiente de câmbio flutuante puro.
  • Zéh  03/05/2010 13:09
    Digamos que o governo extinguisse hoje o Bacen e parasse de tentar controlar a economia. Deixando que os bancos criem suas moedas como desejarem e concorram entre sí pela melhor moeda. O risco de começarmos a usar dolares não seria enorme? O que nos colocaria a mercê do FED!\r
    Acredito que nós que entendemos um pouco de ciclos economicos, inflação, poupança... não iriamos usa-lo, pelo menos não em larga escala ou como unica moeda ou principal moeda, usariamos mais sabiamente. Eu só usaria se realmente precisasse, por exemplo. Porém a economia no geral não ficaria dependente do FED e vulneravel por suas ações de política monetária?
  • Leandro  03/05/2010 13:26
    Não necessariamente, Zéh. Nesse cenário, você teria a completa liberdade de escolher com qual moeda quer transacionar. A partir do momento que o dólar começasse a se desvalorizar -- característica que precede os ciclos econômicos -- as pessoas passariam a utilizar outras moedas mais fortes.

    O fenômeno dos ciclos economômicos e da inflação ocorre justamente porque não há a opção de se utilizar outras moedas -- você fica à mercê daquele monopólio monetário.

    Além do mais, muitas outras qualidades dum sistema de moedas concorrenciais iriam beneficiar a sociedade. Por exemplo, duas escolas de pensamento econômico discordam sobre o uso do sistema bancário de reservas fracionárias. Em um mercado de moedas concorrenciais, essa discórdia não precisa de uma resolução. Aqueles que estão confortáveis com as reservas fracionárias podem fazer depósitos ou utilizar o dinheiro emitido por instituições que façam uso de reservas fracionárias. Os que não gostam, poderiam utilizar a moeda daquelas instituições que praticam reservas de 100%.

    Enfim, dizer que uma maior opção de moedas seria mais perigoso que o atual arranjo monopolizado pelo governo é o mesmo que dizer que a existência de uma grande diversidade de marcas de carro é mais perigoso do que se houvesse apenas uma marca, com tudo padronizado.
  • Maurício  03/05/2010 14:44
    Olá, Leandro,\r
    \r
    Obrigado pelas respostas. Só mais alguns pontos para exercitar:\r
    \r
    1) Qual o destino dos dólares que ficam na carteira do banco? Eles tem de ir obrigatoriamente para o BC e este pode fazer alguma outra coisa com os dólares além de comprar títulos da dívida americana?\r
    \r
    Vc pode indicar uma literatura que fale um pouco sobre este assunto no Brasil?\r
    \r
    No cenário de câmbio flutuante puro vc está considerando que a moeda é totalmente conversível?\r
    \r
    2) Ainda considerando um cenário em que o país mantenha a base monetária constante e que o Fed imprima dinheiro e baixe a taxa de juros artificialmente.\r
    \r
    O fato de termos inúmeras multinacionais no país e elas terem acesso a dívida barata em dólares fazendo com que o custo de capital da empresa caia e consequente viabilizando investimentos que outrora não seriam aprovados a taxas naturais de mercado não faria com que se criassem bolhas (não ciclos econômicos) em determinados setores também?\r
    \r
    Se tivessemos membros da autoridade monetária que conhecessem a teoria austríaca e estes soubessem que estes dólares não são dólares "bons" e que poderiam ocasionar os efeitos num cenário hipotético (e extremo) do item 2 do meu primeiro comentário (que vc considerou equivalente aos royalties do Rio) e este que mencionei agora no item 2.\r
    A atitude de intervir no mercado cambial para impedir a entrada destes dólares, neste caso não seria uma intervenção "boa"?\r
    \r
    Abraços\r
    \r
  • Leandro  03/05/2010 17:52
    Maurício,

    1) Qual o destino dos dólares que ficam na carteira do banco? Eles tem de ir obrigatoriamente para o BC e este pode fazer alguma outra coisa com os dólares além de comprar títulos da dívida americana?

    Os dólares ficam nas carteiras dos bancos (e em suas casas de câmbio), que podem fazer o que quiser com eles. Os bancos não são obrigados a dar alguma destinação especial a eles.

    Vc pode indicar uma literatura que fale um pouco sobre este assunto no Brasil?

    Ih, especificamente sobre isso não conheço, não. Você aprende mais conversando com quem é da área bancária.

    No cenário de câmbio flutuante puro vc está considerando que a moeda é totalmente conversível?

    Não. Totalmente conversível significa que ela também pode ser usada como moeda corrente, o que não é o caso.

    2) Ainda considerando um cenário em que o país mantenha a base monetária constante e que o Fed imprima dinheiro e baixe a taxa de juros artificialmente.

    O fato de termos inúmeras multinacionais no país e elas terem acesso a dívida barata em dólares fazendo com que o custo de capital da empresa caia e consequente viabilizando investimentos que outrora não seriam aprovados a taxas naturais de mercado não faria com que se criassem bolhas (não ciclos econômicos) em determinados setores também?


    Nesse caso, as multinacionais trocariam dólares por reais, apreciando o câmbio. Poderia haver bolhas apenas se várias multinacionais voltassem seus investimentos para a mesma área, algo um tanto implausível. Assim, por exemplo, se todas se dedicassem à construção de shoppings centers, é provável que ocorressem aumentos nos preços de matérias-primas como cimento, aço e vergalhão, além de uma elevação salarial dos trabalhadores da construção civil.

    Sim, é possível, mas o investimento teria de ser vultoso.

    Se tivessemos membros da autoridade monetária que conhecessem a teoria austríaca e estes soubessem que estes dólares não são dólares "bons" e que poderiam ocasionar os efeitos num cenário hipotético (e extremo) do item 2 do meu primeiro comentário (que vc considerou equivalente aos royalties do Rio) e este que mencionei agora no item 2.
    A atitude de intervir no mercado cambial para impedir a entrada destes dólares, neste caso não seria uma intervenção "boa"?


    Não vejo por quê. Essa intervenção geraria expansão na base monetária, diminuindo juros e, aí sim, propiciando ciclos econômicos. No outro caso, quando não há intervenção, tem-se no máximo o fenômeno da inflação simples - fenômeno pontual e muito menos danoso que ciclos econômicos.
  • Maurício  03/05/2010 18:09
    Olá, Leandro,\r
    \r
    Desculpe-me se estou sendo chato.\r
    \r
    Essa intervenção geraria expansão na base monetária, diminuindo juros e, aí sim, propiciando ciclos econômicos. No outro caso, quando não há intervenção, tem-se no máximo o fenômeno da inflação simples - fenômeno pontual e muito menos danoso que ciclos econômicos.\r
    \r
    O governo pode, como vc mesmo disse, emitir dívida o q aumentaria a taxa de juros interna. Neste caso não seria melhor que uma inflação simples?\r
    \r
    Abraços\r
    \r
  • Leandro  03/05/2010 18:17
    Seria meio que enxugar gelo, Maurício. Esse aumento dos juros atrairia mais dólares e reiniciaria todo o ciclo.

    Ademais, essa opção do aumento dos juros é politicamente impopular, além de desvirtuar a política monetária já pré-estabelecida.
  • Maurício  03/05/2010 18:20
    É verdade, vc tem razão.\r
    \r
    Valeu\r
    \r
    Abraços
  • Caio Augusto  06/05/2010 03:17
    Não tem Lew Rockwell, não tem Tom Woods, não tem Joseph Salerno, nem mesmo Ron Paul. Os melhores artigos, os mais elucidativos, são os do Leandro. Parabéns por mais esse artigo, Leandro.

    Abs!!
  • Thames  06/05/2010 16:04
    Concordo com o Caio, e considero esse artigo talvez o mais importante do site. Mostra de maniera bem clara e didática como os ciclos econômicos ocorrem e como poderiam ser evitados.

    Infelizmente pouca gente dá atenção a essencial questão da manipulção da moeda.
  • Leandro  07/05/2010 07:31
    Prezados Caio e Thames, muito agradecido pelas gentis palavras, bastante exageradas, obviamente.

    Mas confesso que esse é um dos meus artigos favoritos. Acho que ele ajuda a esclarecer bem por que as manipulações monetárias não têm como deixar todos mais ricos. Elas apenas enriquecem alguns em detrimento de vários outros, além de toda a destruição de capital que ela provoca - afinal, grande parte do capital que foi direcionado para investimentos errôneos é exaurido, sendo impossível sua recuperação e reaproveitamento. E poucos entendem isso.

    Grande abraço!
  • Luiz  18/05/2010 16:32
    Olá, Leandro.

    Sei que minha pergunta esta fora do escopo da questão. É possível um pais como nosso pagar toda sua divida interna, extinguir a contração de futuras dividas e ter superávit através somente de um imposto digamos justo?
  • Leandro  18/05/2010 19:08
    Luiz,

    Possível é. Plausível, não. A dívida interna bruta está em 64% do PIB (algo como R$ 2,011 trilhões) - um estrondoso aumento quando se considera que ela era de 56,4% ainda em 2008.

    Como você paga esse valor num prazo humanamente suportável? Você poderia vender todos os ativos do governo e, ainda assim, creio que o valor não seria atingido.
    Voltar a arrecadação tributária para o pagamento da mesma também seria possível, mas não plausível. Teria de haver corte de gastos em vários setores, e isso é constitucionalmente proibido.

    Ademais, há também um fator moral em jogo. Quando o governo contrai dívidas, ele toma o dinheiro de terceiros para pagá-la. Ou seja, o governo não compromete os seus ativos, mas sim os ativos dos contribuintes, estando o credor ciente de que o principal e os juros serão pagos através do confisco involuntário da propriedade privada. Ora, por que tem de ser assim? É como se eu me endividasse para comprar um carro e prometesse à concessionária que pagaria a dívida, mas com o seu dinheiro. É algo moralmente aceitável duas partes incorrerem num acordo que será saldado com o confisco do dinheiro de terceiros?

    É por isso que há aqueles que dizem que o calote dessa dívida não seria absolutamente nada errado. Afinal, quem comprou títulos do governo deveria estar ciente de que tanto ele quanto o governo são cúmplices na violação, que ocorrerá no futuro, dos direitos de propriedade de terceiros, algo que dificilmente deve ser considerado como contrato.

    Ademais, se a compra de títulos da dívida é de fato considerada um investimento (como todos consideram), então ela também tem de estar sob o risco de não dar retorno, como qualquer investimento.

    De fato, o ideal seria a proibição de toda e qualquer contração de dívida futura, obrigando o governo a se financiar somente via impostos. O simples fato de não haver mais títulos da dívida do governo à venda faria com que a poupança fosse destinada ao financiamento de atividades mais produtivas, ao invés de desperdiçada com o sustento da burocracia - que é exatamente o que ocorre hoje.

    Esse arranjo é mais propício em um sistema de padrão-ouro - embora, obviamente, possa ocorrer também no atual sistema de dinheiro de papel-pintado.
  • Andre Fernandes  22/09/2015 14:17
    Leandro,

    Ressucitando um pouco esse artigo! Estava lendo um texto no spotniks esses dias e na seção de comentários fizeram a seguinte afirmação:

    ""ENTÃO SEMPRE TEREMOS DÍVIDA? Não necessariamente. O governo pode reduzir a dívida."

    Sim, NECESSARIAMENTE sempre teremos dívida. Ela nunca pode ser paga ou não existirá moeda circulante.

    O MÁXIMO que governos podem fazer é reduzi-la somente ao ponto em que ela é usada para criação da moeda. Esse montante sempre terá tendencia crescente e exponencial."

    A primeira frase é retirada diretamente do texto do site e a segunda e a terceira são a conclusão da pessoa que comentou.

    Segue o link: spotniks.com/sabe-aquele-papo-de-que-45-dos-seus-impostos-sao-usados-para-pagar-a-divida-entao-e-mentira/

    A dúvida é simples. Isso faz algum sentido?

    Atualmente nossa dívida interna gira em torno de R$ 2,4 tri, certo? Vamos supor que todos os ativos do governo cobrissem a dívida atual e o governo vendesse todos e pagasse até o último centavo.
    A partir daí assumimos uma redução drástica no custo do estado que fosse coberto inteiramente pela arrecadação. Qual a impossibilidade deste cenário (teoricamente, já que na prática não vejo governo nenhum buscar isso)? O que aconteceria não seria apenas o congelamento da oferta monetária já que atualmente o BC só pode imprimir dinheiro para compra de títulos da dívida?

    Outra dúvida é: parte destes ativos teriam, necessariamente, que ser vendidos para investidores estrangeiros, ou não? Existe dinheiro físico na nossa economia para a aquisição de todos estes bens?

    Estou viajando?

    Abraços
  • Novededos  19/04/2016 19:21
    "O simples fato de não haver mais títulos da dívida do governo à venda faria com que a poupança fosse destinada ao financiamento de atividades mais produtivas, ao invés de desperdiçada com o sustento da burocracia - que é exatamente o que ocorre hoje".

    Não é 100% correto este aforismo. Um funcionário publico altamente remunerado, em virtude de ser um beneficiado da burocracia estatal, abre uma empresa com capital vultoso e ajuda a aumentar o bem estar da sociedade, empresa esta rentável, sem nada de capital desperdiçado. Conclusão: endividamento publico foi benéfico, pois a poupança de terceiros foi usada, via endividamento publico, para pagar o burocrata e este usou o recurso para investir e aumentar o bem estar da população. Desculpe por ser esnobe.
  • Juliano Camargo  19/05/2010 12:42
    Realmente a maneira mais rápida de acabar com a dívida pública é através de um calote total, mas com uma sequência absolutamente catastrófica de eventos seguindo, como o colapso do sistema bancário, pensionistas sem poder receber suas pensões, grupos de pressão em guerra civil nas ruas, a ascenção de novos movimentos políticos. É o que vimos na Argentina e na Rússia. Toda esta volatilidade e destruição acarreta custos extras. E o que sai deste caos não há como saber.

    A Argentina hoje ainda tem uma dívida no mesmo nível da brasileira, enquanto a Rússia hoje é praticamente debt-free, uma posição bastante invejável no cenário atual.

    Como efeito colateral, os mercados não vão emprestar a juros baixos para estes países caloteiros durante décadas.

    Mas há uma maneira muito mais ordenada de acabar com a dívida pública. É necessário que o governo mostre austeridade em períodos de crescimento prolongado. Isto faz o denominador (PIB) aumentar, reduzindo a razão dívida/PIB. Aí qualquer receita maior do que o esperado pode ser usada para progressivamente abater a dívida.

    Da mesma maneira que o jogo político contingencia entradas futuras para gastos, também poderia se comprometer a uma redução anual da dívida. Mas a tentação para o político oportunista vai ser grande: para um país com baixo endividamento o mercado vai oferecer taxas cada vez melhores. É preciso mudar esta idéia encrustrada a décadas no mainstream econômico de que a dívida pública seja algo natural ou desejável.
  • João José Jamil  30/08/2011 10:39
    Ref. para este comentário: [www.reocities.com/projetoperiferia2/secC2.htm#secc27]\r
    \r
    Me diga o seguinte: Por quê, numa decisão de não fazer nada (i.e. não consumir), uma pessoa (juntamente com seus ou suas herdeiras) pode receber para sempre uma recompensa divorciada de qualquer atividade produtiva ?????? \r
    \r
    Mesmo que as pessoas efetivamete trabalhem (criando mercadorias), apenas serão recompensadas através de um ato de abstenção???? \r
    \r
    Ora, dificilmente isto pode ser considerado um sistema justo!!! \r
    \r
    Conforme David Schweickart declarou, "O capitalismo recompensa alguns indivíduos perpetuamente. Ora, se isto pode ser justificado pelo critério da contribuição, qualquer pessoa pode argumentar que algumas contribuições tem um caráter eterno". [Against Capitalism, p.17]. \r
    \r
    Além do mais, aquele ou aquela que recebe o juro pode passar o benefício dessa sua decisão única para sua família após ele ou ela morrer, o que debilita ainda mais a teoria da "abstinencia". \r
    \r
    Em virtude dessa debilidade da teoria da "abstinencia" e da "espera" Bohm-Bawark apresentou a teoria da "preferencia de tempo" (onde a mais valia é gerada pela troca de bens atuais por bens futuros, como, em sua hipótese, bens futuros valem menos que bens atuais surge uma "preferencia de tempo"). \r
    \r
    A psicologia dos indivíduos é condicionada pela situação social onde se encontram! Nada pode ser mais certo!\r
    \r
    Atitudes como "abstenção" ou "espera" são muito fáceis de ser executadas quando se é rico!\r
    Algumas "preferencias de tempo" são também determinadas pela posição social. Se alguém tem dinheiro mais que suficiente para suas necessidades do dia-a-dia, essa pessoa pode mais facilmente "descontar" o futuro (por exemplo, o produto futuro que surge com o labor dos trabalhadores se valorizará mais que seus correntes salários simplesmente porque sem seus salários não haveria futuro para os trabalhadores). E se alguma "preferencia de tempo" é dependente de fatores sociais (tais como acesso a recursos, classe social, etc.), então o juro não pode estar baseado em nenhuma avaliação subjetiva, uma vez que não existe o fator independencia. Em outras palavras, poupar não expressa "preferencia de tempo", ela simplesmente expressa aumento da desigualdade.\r
    \r
    Mesmo se ignorassemos o problema da influencia das desigualdades na "preferencia de tempo" subjetiva dos indivíduos, mesmo assim essa teoria não justificaria a existencia do juro. Isto é devidamente explicado pelo destacado economista Joan Robinson nestes termos: \r
    \r
    "A noção de que seres humanos descontam no futuro certamente parece ter correspondecia com a experiência subjetiva de alguém, mas a conclusão extraída disso é um non sense, mesmo que as pessoas tenham suficiente senso para desejar a capacidade de exercitar o poder de consumo tanto quanto sua sorte o permita, e muitas pessoas possuem renda mais alta no presente do que esperam possuir no futuro (rendimentos de salário retrocederão e os empresários parecem estar melhor agora do que esperam estar no futuro, etc.). Muitos olham ao longo de suas próprias existencias e desejam proporcionar poder de consumo para seus herdeiros. Assim, um grande número de pessoas [...] procura ávidamente por um veículo seguro onde possam angariar poder aquisitivo no futuro [...] É impossível dizer que preço seria pago muma situação onde existe um mercado para o presente versus um mercado para um futuro poder aquisitivo. Insensível a qualquer influência exceto o desejo de indivíduos determinando o padrão de tempo de seu consumo. É como um mercado rendendo uma taxa negativa de desconto...\r
    \r
    "A taxa de juros normalmente é positiva por algumas diferentes razões. O atual poder de consumo é até certo ponto valioso porque, sob as regras do jogo capitalista, ele permite aos proprietários [...] empregar trabalho e garantir produção que renderá um excedente de entradas sobre os custos. Em uma economia em que a taxa de lucro é presumida como positiva, a taxa de juros é positiva [portanto] o presente valor do poder aquisitivo excede seu valor futuro na mesma amplitude. [...] Não existe nada que possa ser feito como a subjetiva taxa de desconto do futuro da preocupação idividual. . . " [The Accumulation of Capital, p. 395]\r
    \r
    Assim, juro nada tem a ver com "preferencia de tempo" e tudo a ver com desigualdades associadas ao sistema capitalista. Com efeito, a teoria da "preferencia de tempo" assume aquilo que tenta provar. O juro é positivo simplesmente porque o capitalista pode se apropriar da mais valia dos trabalhadores, por causa disso o dinheiro corrente é mais valioso que o dinheiro futuro. Na verdade, no incerto mundo do futuro o dinheiro pode ter sua própria recompensa (por exemplo, os trabalhadores desempregados no futuro podem valorizar mais a mesma quantidade de dinheiro que valorizam no presente). Apenas o fato de prover autoridade para alocar recursos e explorar trabalho assalariado é que torna o dinheiro valioso agora. Em outras palavras, o capitalista não oferta "tempo" (como a teoria do "valor do tempo" argumenta), ele provê autoridade/poder. \r
    \r
    Será que alguem que poupa merece uma recompensa pela poupança? Em simples palavras, absolutamente não. Por que? Porque o ato de poupar produz tanto quanto adquirir uma mercadoria, ou seja, nada. Evidentemente a recompensa por adquirir uma mercadoria é a própria mercadoria. Análogamente, a recompensa por poupar não é o juro mas a própria poupança -- a habilidade de consumir ao longo do tempo.\r
  • João CYM  13/09/2012 13:51
    João José Jamil e Inacreditável,

    Repetindo o Inacreditável:
    "Caríssimos, para o povo, é irrelevante se ele paga 8, 15 ou 20% de juros ao ano. O que ele analisa é somente se as mensalidades passam ou não no orçamento. Os juros são a remuneração do não-trabalho. É preciso repensar a economia. Sei que é difícil, pois as mentes foram condicionadas ao longo das décadas por esta obviedade. Mas vale o esforço."

    Repetindo o que o João falou:
    "Me diga o seguinte: Por quê, numa decisão de não fazer nada (i.e. não consumir), uma pessoa (juntamente com seus ou suas herdeiras) pode receber para sempre uma recompensa divorciada de qualquer atividade produtiva ??????

    Mesmo que as pessoas efetivamete trabalhem (criando mercadorias), apenas serão recompensadas através de um ato de abstenção????

    Ora, dificilmente isto pode ser considerado um sistema justo!!!"

    Vocês estão associando o ato de poupar à ato de não fazer nada.

    Um trabalhador brasileiro que mora de aluguel e guarda seu suado dinheiro para no futuro comprar uma casa própria está fazendo o quê? Poupando! Neste caso, com um fim específico - comprar a casa.

    Porém, vamos supor que ele pegue o dinheiro que poupou (com muito trabalho) para emprestar para alguém ao invés de comprar a casa. Quer dizer que é justo essa pessoa ter trabalhado tanto e continuar pagando aluguel quando poderia ter sua casa própria para emprestar o dinheiro que juntou a custo zero para outra pessoa?

    Prosseguindo, a segunda poderia, por exemplo, utilizar o dinheiro para comprar uma máquina de costura para fazer roupas e obter lucro com o dinheiro da primeira, coisa que não seria possível sem o esforço da mesma. Seria justo não recompensar a primeira pelo esforço de juntar o dinheiro e não poder usufruí-lo ao comprar a própria casa, tendo que continuar a viver de aluguel, enquanto a outra obtém lucros com o empréstimo?
  • Neto  13/09/2012 15:33
    'Me diga o seguinte: Por quê, numa decisão de não fazer nada (i.e. não consumir),'

    Você começa misturando alhos com bugalhos; não fazer nada PROS OUTROS é uma coisa, não consumir é outra, é óbvio que se o cara não consome seu bem ele vai ser 'recompensado' pelo bem que continua existindo.
  • Paulo  18/08/2012 23:26
    "Agora imagine que essa cidade, contrariamente ao exemplo anterior, seja povoada por pessoas com alta preferência temporal - ou seja, voltadas para o presente. São pessoas consumistas, avessas à poupança. Querem o máximo possível para hoje. Nesse caso, o capital disponível foi quase todo exaurido (quase todos os tijolos e cimentos já foram usados, os tratores e as escavadeiras estão gastos, os caminhões estão dilapidados, há poucos laptops disponíveis para rodar os programas de cálculo estrutural etc.). É óbvio que, nesse cenário, não há capital disponível para sustentar um investimento vultoso como a construção de um shopping. A empresa que fosse fazer tal empreendimento rapidamente seria demovida da ideia ao ver a escassez de capital disponível. Essa escassez de capital - consequência natural da alta preferência temporal das pessoas - se traduziria em um alto preço (juros) cobrado pelo uso do pouco capital que ainda resta, pois a empresa estaria disputando o uso desse escasso capital com os moradores consumistas, que cobram um preço muito alto para deixar de usá-los."
    - Só tem um porém. Se este dono de shopping tiver poupança suficiente para investir num lugar sem precisa recorrer a empréstimo. Ele não poderia investir nesta cidade??? Aliás, se UM só habitante desta cidade, com uma mente empreendedora e inovador, trabalhou e poupou, juntou dinheiro com o seu trabalho, ele não pode aplicar o seu capital (poupança) em um negócio (digamos, um restaurante) e acumular capital? Tu tá generalizando, Leandro. Seria como dizer todo o mundo desta cidade X é perdulário...
  • Renan  26/01/2013 23:30
    Leandro, se uma baixa preferência temporal em um ambiente onde o estado não interfira no crédito e na base monetária necessariamente implicará em uma baixa taxa de juros? Não pode acontecer de a baixa preferência temporal não se converter em baixas taxas de juros, pelo menos no curto prazo?

    Se boa parte da população, depois de muito tempo com uma preferência temporal bem alta e acumulando dívidas atrás de dívidas para bancar o consumo, se esta parte da população resolver diminuir drasticamente o consumo para pagar as dívidas sem que a outra parcela da população mude o seu nível de consumo, a preferência temporal da população terá diminuído bastante, não? Olha que loucura: Se estas dívidas teverem sido tamanhas que tenham esgotado a poupança dos credores, e se estas dívidas forem quitadas em várias parcelas pequenas, caso os devedores se mostrem com dificuldades financeiras, o fluxo de dinheiro dos devedores para os credores seria baixo no curto prazo, de tal modo que a quantidade de dinheiro na poupança dos credores(os únicos em condição manter dinheiro em poupança) seria baixa no curto prazo e aumentaria devagar. Estou certo? Se isto acontecer, durante um bom tempo não teríamos uma situação de baixa preferência temporal e altas taxas de juros? Pois, se agora todos estão poupando bastante, a preferência temporal é baixa. Mas, como no curto prazo poucos tem dinheiro aplicado em poupança, e este dinheiro é pouco, os bancos tem pouca oferta para crédito, resultando em altas taxas de juros. Estou certo? Se as parcelas forem divididas em 60 X, por exemplo, o dinheiro disponível no banco para empréstimos terá 5 anos para chegar a oferta condizente com a preferência temporal da sociedade. Ou seja, a taxa de juros terá um longo prazo de 5 anos para descer para o nível condizente com a preferência temporal. Ou seja, um endividamento pode provocar atrasos no principal sinal que o mercado dá para os investidores, ao passo que os recursos podem estar disponíveis em menos tempo para investir.

    Faz sentido esta ideia?

    Eu tenho um dúvida que me impede de entender satisfatoriamente a TACE. É sobre este lance de o aumento artificial do crédito e da base monetária reduzir artificialmente a taxa de juros. Isto é bem intuitivo, mas eu não sei conciliar esta premissa com a explicação da taxa bruta de juros = taxa natural de juros + premio de risco pela atividade empresarial + expectativa de inflação. É como se tivesse duas explicações para a taxa bruta de juros, uma que vale para o mercado sem interferência, e outra para o mercado manipulado. Ou seja, a fórmula acima só vale para o mercado não manipulado? Pois eu não consigo ver qual das três variáveis a expansão monetária e a expansão do crédito alteram.

    Grato pela ajuda.
  • Lucio  19/04/2013 13:00
    Leandro,

    poderia me ajudar com uma resposta para essa pessoa? Ela simplesmente nega o fenômeno da preferência temporal, e diz que não haveria capitalismo caso isso ocorresse..

    "A ficção de que o homem prefere ter agora que no futuro é um axioma que só serve pra justificar positivamente o sistema de produção; não tem sequer um fundo de verdade aí. Aliás, o capitalismo se baseia sempre em valor futuro. O capital, como sendo riqueza que se valoriza, tem maior valor quando promete maior valorização. Se todos preferissem "ter agora do que no futuro", não existiria capitalismo, pois não exigiria emprego de capital (também não explica o sucesso de previdência privada entre tantas outras coisas...)"

    O que você diria sobre isso?
    Obrigado.
  • Leandro  19/04/2013 13:12
    Ele desconhece completamente o papel dos juros, que é justamente o que faz com que as pessoas abram mão de algo no presente visando a este mesmo algo no futuro, só que a um valor maior. Marxistas nunca entenderam isso.

    Este, aliás, é o mesmo raciocínio por trás do fato de existir salários. Leia o início deste artigo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=979
  • Lucio  19/04/2013 13:28
    Obrigado, Leandro. Lerei o artigo indicado.

    Veja o que ele disse na sequência:

    Toda riqueza é produzida pelo trabalho, portanto o trabalho produz a sustentação de toda a instituição econômica. A lógica do sistema capitalista é realmente "lucro, prejuízo e propriedade privada", mas isso numa visão inicial e mais do que atrasada; uma visão realmente crítica percebe que a lógica do capitalismo é a valorização da riqueza e num sistema que tenha somente essa programação simples, tudo é feito para a potencialização desse propósito (demissões, dano ambiental, assassinato, roubo, defasagem programada). A regulação dessas inconveniências políticas é necessariamente regulada por uma vontade exógena a esse sistema: o direito. Quer dizer, se demissões ocorrem e salários são diminuídos para que o peso da tributação não seja sofrido no lucro (caso essa seja, e realmente é a intenção), é porque a administração desse sistema é imperfeita na medida que não atinge sua finalidade técnico-política. Isso, alias, leva ao próximo ponto...

    =)

    Abraços e obrigado novamente.
  • Bernardo  29/04/2013 19:45
    Parabéns também por este texto, Leandro.
    Você pode não ser ou querer ser professor, mas tenho aprendido mais do que nunca sobre economia lendo seus artigos.
    Espero que todos os elogios e pedidos façam-no, um dia, mudar de opinião. Se não conseguirem, duvido que sua "preferência temporal" por tempo livre/trabalho atual resista a uma proposta satisfatória.
    Na verdade, acho que o artigo é tão antigo que você já deve ter mudado de ideia.
    Vamos à dúvida:
    "Com o passar do tempo, os desequilíbrios vão ficando evidentes. A escassez de bens de capital começa a ficar aparente. Os preços deles sobem. Essa subida de preços faz com que a empresa tenha de obter mais empréstimos para continuar adquirindo esses bens de capital. Com isso, os juros sobre os empréstimos sobem."
    Vejo isso no atual cenário brasileiro, mas não sei explicar o porquê plenamente. Com o aquecimento econômico gerado pela redução fictícia de juros, as empresas de bens de capital também passam a produzir mais. Toda a economia da cidade é puxada pelo shopping center. As pessoas consomem muito, mas a produção também aumentou muito. Por que os bens de capital ficam escassos?
    Além disso, apesar de consumirem muito, com a expansão econômica, até os gastadores conseguem ter uma sobra. Ou seja, se antes gastavam 99% do que ganhavam, agora ganham mais e conseguem poupar 10%.
    Por que, então, o desequilíbrio chega? E eu sei que ele chega, como chegou em 29 e em 2007/8. E parece estar chegando ao Brasil agora também...
    Obrigado pelo espaço e parabéns novamente.
  • Leandro  29/04/2013 20:09
    Caríssimo Bernardo,

    "Vejo isso no atual cenário brasileiro, mas não sei explicar o porquê plenamente. Com o aquecimento econômico gerado pela redução fictícia de juros, as empresas de bens de capital também passam a produzir mais."

    Elas passam a produzir mais, é verdade; porém, como vivemos em um mundo de escassez, os recursos não são abundantes. Logo, aquele aço que está sendo demandado para construir máquinas também está sendo demandado para fabricar automóveis, geladeiras e outros bens de consumo. Os mesmos engenheiros de controle e automação que estão sendo cobiçados pela indústria tecnológica também estão sendo demandados por fabricantes de elevadores, cuja demanda agora está mais alta por causa dos vários prédios em construção. A mão-de-obra que está sendo disputada pela indústria e pelo setor da construção civil também está sendo cobiçada pelo setor de serviços e de comércio, dado que agora as pessoas estão demandando mais e consumindo mais.

    Em suma, preços e salários aumentam.

    "Toda a economia da cidade é puxada pelo shopping center. As pessoas consomem muito, mas a produção também aumentou muito. Por que os bens de capital ficam escassos?"

    "Escassos", neste caso, significa mais caro. É claro que máquinas e equipamentos continuarão sendo produzidos. Porém, como explicado acima, seus custos de fabricação -- e, consequentemente, seus preços -- ficarão maiores. Isso é uma consequência direta do fato de que vivemos em um mundo de escassez. Se vivêssemos na abundância, não haveria aumento de preços. Aliás, nem sequer haveria preços. Tudo estaria sobrando.

    "Além disso, apesar de consumirem muito, com a expansão econômica, até os gastadores conseguem ter uma sobra. Ou seja, se antes gastavam 99% do que ganhavam, agora ganham mais e conseguem poupar 10%. Por que, então, o desequilíbrio chega?"

    Ganham nominalmente mais; porém, como os preços também estão subindo, este ganho não é real. Com a subida dos preços, chegará um momento em que, justamente por causa dessa alta dos preços, o crédito será restringido (os bancos subirão os juros; caso contrário, os empréstimos quitados terão um poder de compra menor do que o esperado quando o empréstimo foi concedido).

    Consequentemente, a expansão da oferta monetária será reduzida e a renda se estagnará. Porém, como os preços ainda continuarão subindo (a restrição do crédito não leva a uma imediata estagnação dos preços), haverá uma redução nos gastos -- afinal, uma combinação entre renda estagnada e preços subindo gera uma redução nos gastos. Aí todo o equilíbrio é rompido.

    Há vários artigos sobre isso no site; porém, se for para escolher alguns, eu sugeriria estes três, nessa ordem. Após ter lido todos, não pode restar mais nenhuma dúvida quanto a este mecanismo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1538 (teoria)

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1514 (prática)

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1347 (prática)

    Grande abraço e muito obrigado pelos imerecidos elogios.
  • Bernardo  29/04/2013 20:35
    Comentário particular:
    Imerecido por quê, cara? Não precisa ser modesto, pô! O mínimo que podemos fazer é parabenizá-lo!
    Pena você não ser professor (ainda não é mesmo, né?). Seria uma honra (e mataria minha curiosidade) ter a oportunidade de conhecê-lo e ter uma aula com você.
    Alguma coisa precisa ser feita, Leandro. Li o artigo convocando a direita a se unir e, pelos comentários, vi que a natureza humana realmente dificulta muito, mas precisamos tentar de alguma forma, apesar de achar que "conservadores" sempre defenderão um Estado para restringir liberdades individuais...
    Li também um comentário bem antigo do Rodrigo Constantino (um cara que também admiro muito) a um texto seu sobre o BC e fiquei impressionado como o foco foi criticar um ponto específico e não avaliar e valorizar a ideia central do texto. Vaidades...
    Esse é o problema! É necessário abrir um pouco mão delas e se unir em torno da ideia comum, esquecendo um pouco eventuais discordâncias.
    Grande abraço.
  • Leandro  30/04/2013 01:14
    Estimado Bernardo, caso a opção por uma exposição minha seja realmente séria e definitiva, já há um instrumento que pode saciar este seu desejo masoquista. É só ver os três vídeos abaixo. Não diga que eu não alertei...

    www.youtube.com/watch?v=yNTEGeIWGbQ
    www.youtube.com/watch?v=ZkeyVVEoxME
    www.youtube.com/watch?v=N6ac6rAJcWs

    Abração!
  • Bernardo  01/05/2013 10:31
    Hahahahahha. Não sei onde vc mora, mas eu estou no Brasil, Leandro. Por aqui, masoquismo é meio de sobrevivência. Temos até um slogan lindo, não sei se já o ouviu aí da Áustria: "sou brasileiro e não desisto nunca". Por mais sofrimento e dor por que tenhamos que passar.
    Para desenvolver ainda mais o meu, vou guardar os vídeos para sábado à noite.
  • Leandro  01/05/2013 17:28
    A Áustria é um país sensacional. De longe, é o mais bonito da Europa. E também um dos mais agradáveis. Mas não moro lá, não. No entanto, achei engraçado ter passado essa impressão. Grande abraço!
  • Sérgio  05/05/2013 04:54
    Prezado Leandro.

    Realmente a Áustria é um país interessante. Aliás, não apenas o país como a sua história. Fico imaginando se os Habsburgos e o Jan III Sobieski tivessem a mentalidade dos libertários modernos, quando no século XVI e XVII, aqueles bravos guerreiros derrotaram os turcos que atacavam Viena...
  • Stefan Carrao Pinto  03/05/2013 16:52
    Leandro

    "Esse dinheiro vai diretamente para os bancos comerciais (caso os títulos estejam em posse de outra entidade qualquer, o dinheiro vai para essa entidade, que acabará depositando-o em sua conta bancária, fazendo com que o destino final do dinheiro também seja os bancos comerciais). Da mesma forma que o preço de um bem qualquer tende a diminuir quando sua oferta aumenta, o influxo de dinheiro recém-criado causa uma diminuição nas taxas de juros, uma vez que os bancos tiveram um aumento nos seus fundos disponíveis para empréstimos." ("1920 - a última depressão na qual um governo não se intrometeu foi também a mais rápida")

    "Quando o Banco Central cria dinheiro eletronicamente e utiliza esse dinheiro criado do nada para comprar títulos públicos que estão em posse do sistema bancário, as reservas bancárias aumentam. Este aumento nas reservas bancárias tende a gerar uma diminuição na taxa de juros que os bancos cobram entre si no mercado interbancário. Ou seja, tende a gerar uma diminuição na SELIC. Afinal, com mais dinheiro nas reservas, menos bancos se veem na necessidade de pedir dinheiro emprestado no interbancário, e mais bancos se veem com reservas acima do nível estipulado pelo Banco Central. Ato contínuo, os bancos podem agora criar mais empréstimos para indivíduos e empresas.
    [...]
    Tendo entendido esse mecanismo, algumas extrapolações se tornam mais claras. Por exemplo, se a economia estiver indo bem e os bancos estiverem otimistas, eles concederão mais empréstimos (tanto para o setor privado quanto para o governo). Isso, por si só, fará com que os juros do interbancário, a SELIC, subam — afinal, como estão concedendo muitos empréstimos, os bancos continuamente terão de recorrer ao mercado interbancário para manter suas reservas naquele nível estipulado pelo Banco Central." ("Sobre a atual inflação de preços no Brasil e o problema da SELIC")

    Lendo estes trechos, eu me lembro de que o falecido vice do Lula, José Alencar, vivia reclamando dos juros altos, cobrando do Bacen o recuo das taxas de juros - da Selic, pelo que eu entendia.

    Você pode me explicar a relação (que me parece ser de proporcionalidade inversa) entre as taxas de juros bancários e da Selic, se essa relação é relevante, e a pertinência das reclamações do vice – que, como industrial, era tomador de empréstimos – de pedir a baixa da Selic?
    Abraço
  • Leandro  04/05/2013 19:09
    José Alencar queria que a SELIC baixasse não porque ele entendesse de sistema bancária, mas sim unicamente porque ele imaginava que uma redução da SELIC faria com que os bancos saíssem concedendo empréstimos a rodo e a juros baixíssimos. É óbvio que isso nunca aconteceria, pois banqueiros não são imbecis.

    Prova disso está acontecendo neste exato momento: os juros cobrados pelos bancos sobre seus empréstimos estão no menor nível da história, mas não é qualquer pé-de-chinelo que consegue um empréstimo no banco. Há uma regra: quanto menores os juros cobrados, maiores são as exigências que os bancos impõem para conceder empréstimos.

    Óbvio: já que eles estão cobrando menos, a solução é garantir que tudo será quitado.

    Quando os juros são maiores, os bancos podem se dar ao luxo de aguentar alguns calotes. Já quando os juros são baixos, tudo o que foi emprestado tem de ser quitado.

    Obs: a relação entre a SELIC e os juros cobrados pelos bancos não apresenta "proporcionalidade inversa". Quando a SELIC cai, os juros bancários tendem a cair. E quando a SELIC sobe, os juros bancários certamente subirão.

    A questão, como foi dito, é que uma queda da SELIC pode, de um lado, gerar reduções nos juros bancários, mas, de outro, certamente levará os bancos a elevar suas exigências para conceder empréstimos.

    Abraço!
  • Stefan Carrao Pinto  04/05/2013 22:49
    Ok, Leandro.
    É porque eu me guiei pela via inversa, ou seja, dos efeitos dos juros bancários sobre a Selic, e não dos efeitos desta sobre aqueles, de olho no último parágrafo que transcrevi, que me sugeriu que, diminuída a Selic, e com as reservas aumentadas, os bancos (quando otimistas) concedem mais empréstimos – o que me pareceu ensejar a BAIXA dos juros bancários –, recorrendo, a partir de então, ao interbancário e, consequentemente, AUMENTANDO a Selic.
    Esta minha visão está errada?
    Muito obrigado pela atenção dispensada – e pela paciência.
  • Leandro  05/05/2013 00:32
    Quando os bancos ficam otimistas e concedem mais empréstimos a pessoas e empresas, o mercado interbancário fica aquecido. Isso gera uma alta dos juros (SELIC) neste mercado. Porém, o BACEN pode intervir injetando dinheiro nas reservas bancárias, o que impedirá o aumento dos juros no interbancário (SELIC). Como consequência, os empréstimos aumentaram, mas os juros ficaram inalterados.

    É isso que o Banco Central faz. Ele injeta dinheiro nas reservas bancárias de modo a manter a SELIC próxima ao valor que ele estipulou como meta. Ao fazer isso, ele estimula a expansão do crédito. Não houvesse um BC, a expansão creditícia seria bem menor, pois os juros do interbancário flutuariam diariamente, restringindo essa expansão monetária (aquele banco que emprestasse muito ficaria com pouquíssimas reservas, e correria o risco de ir à falência caso seus concorrentes demandassem uma restituição em espécie do dinheiro eletrônico criado por este banco).
  • Ali Baba  05/05/2013 11:58
    @Leandro,

    Tem como medir o dinheiro injetado na economia pelas reservas fracionárias bancárias?

    O que a gente consegue medir com os Mx são somente as variáveis em controle do Banco Central (dinheiro físico e eletrônico produzidos pelo Banco Central), certo? Agora, como saber quanto de dinheiro virtual criado ex-nihilo pelos demais bancos?
  • Malthus  05/05/2013 15:35
    Ali Babá, os Ms. Mensuram exatamente o dinheiro criado pelos bancos. A única variável que mensura o dinheiro criado pelo BC é a base monetária. Isso é repetido quase que diariamente aqui no IMB. Veja o ultimo texto sobre isso:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1574
  • Ali Baba  06/05/2013 23:34
    @Malthus,

    Mea culpa. Me confundi. Obrigado pelo esclarecimento.
  • anônimo  10/09/2013 14:05
    Dúvida: se a taxa de juros está baixa, não significa que há pouca demanda por aquele serviço? Sendo assim, como as construtoras achavam que havia demanda suficiente para as habitações?
  • Leandro  10/09/2013 14:12
    Não entendi. O que a taxa de juros tem a ver com a demanda por um determinado serviço?

    No cenário descrito no artigo, se a taxa de juros está baixa, então há uma abundância de poupança -- no caso, uma abundância de fundos a serem emprestados para financiar empreendimentos. Adicionalmente, esta alta poupança significa que haverá uma demanda futura para bens de consumo, justamente porque as pessoas estão poupando hoje para consumir amanhã.
  • Emerson Luis, um Psicologo  15/04/2014 19:26

    Esse texto lembra o teste do marshmallow:



    * * *

  • Edson Jr  23/08/2014 19:32
    A relação entre poupar para investir é similar ao ficar acordado e dormir? Tipo, para se ter energia para estudar, com foco e produtividade, é fundamental ter períodos de descanso. Essa analogia faz sentido?
  • Henrique  12/11/2014 21:56
    Trabalho no mercado da construção, em obras públicas basicamente. Incrível como traduz o atual cenário desse mercado. Primeiro a empolgação, lucros, agora preços dos fatores altíssimos e resultados negativos. Apesar de tirar o sustento da minha família trabalhando para o governo, acho que o livre mercado onde nossos clientes fossem apenas a iniciativa privada não estaríamos vivenciando essa crise. Sou economista formado por universidade que ensinava basicamente Keynes, graças a Deus este site abriu meus olhos, porém tenho dificuldade de me organizar quanto as leituras, me sinto perdido, já comecei com Mises mas não conclui, depois tentei Hayek também não conclui, por falta de uma idéia de que ordem seguir . Se algum dos amigos pudesse me indicar que sequência seguir ficaria muito agradecido.
    Henrique
  • Silvio  19/11/2014 13:01
    Já leu as seis lições?
  • Henrique  19/11/2014 16:33
    Não li não Sílvio, onde posso encontrar?

  • Silvio  19/11/2014 17:34
    Você sempre encontra o Mises aqui mesmo no Mises:

    www.mises.org.br/Ebook.aspx?id=16

    Esse é o livro mais didático dele, justamente porque é a transcrição de uma série de 6 palestras (daí o nome do livro) que ele deu na Argentina para ensinar economia aos nossos hermanos. Bem, pelo que podemos ver na Argentina dos dias de hoje, as seis lições entraram por um ouvido e saíram pelo outro. Mas não por culpa do Mises, porque ele foi muito claro.

    Já que você citou o Hayek também, não sei se você já leu o "Caminho da Servidão". É também um livro introdutório (dirigido ao público em geral e não apenas aos economistas) e que pessoalmente gosto muito, porque fornece muitos exemplos práticos de como os socialistas tornam nossas vidas menos agradável (para não dizer um inferno):

    [/link]www.mises.org.br/Ebook.aspx?id=31[/link]

    Agora, se você for como eu, um entusiasta dos livros tradicionais, na Saraiva ambos os livros estão sendo vendidos por um preço inacreditavelmente bom (e a Saraiva é bacana porque eles dão a opção de retirar na loja, dispensando o pagamento de frete):

    www.saraiva.com.br/as-seis-licoes-3624152.html?PAC_ID=25371&

    www.saraiva.com.br/o-caminho-da-servidao-3419019.html?PAC_ID=25371&

    Boa leitura!
  • Henrique  20/11/2014 23:47
    Obrigado Silvio vou me debruçar sobre eles.
    Abraço
  • Felipe  19/11/2014 11:25
    Leandro,

    Qual seria o melhor livro para entender os ciclos econômicos:

    'Moeda, Crédito Bancário e Ciclos Econômicos' ou 'A grande depressão americana'?
  • Leandro  19/11/2014 13:40
    O primeiro é muito completo, mas seu tamanho intimida. O segundo demonstra um exemplo prático, mas seu linguajar é mais acadêmico, e aborda um sistema monetário com características um tanto diferente da atuais.

    Leia os dois, é claro, mas o primeiro é mais completo e elucida todas as questões.
  • Felipe  19/11/2014 13:48
    Obrigado.
    Vou priorizar o primeiro então.
  • Benjamin  23/01/2016 21:24
    Uma dúvida: O que aconteceria com um investimento de longo prazo que visualizou o possível investimento num ambiente de livre mercado, devido a uma baixa taxa de juros sendo determinada por uma alta poupança, caso a preferência temporal dos indivíduos que antes era baixa, se torne por qualquer outro motivo agora alta, em meio ao processo de investimento ? Imagino que a taxa de juros começaria a subir e haveria uma disputa no mercado pelos bens, mas então qual a diferença do efeito no investimento entre um ambiente de livre determinação dos juros e um ambiente de manipulação ?

    Obrigado.
  • Pobre Paulista  23/01/2016 22:45
    Uma taxa de juros genuinamente baixa é esta que você falou: As pessoas simplesmente não querem consumir e estão poupando, dando um recado para os empreendedores: Produzam coisas novas!

    Já uma taxa de juros artificialmente baixa, imposta por manipulação, confunde os investidores: Aparentemente, as pessoas estão dando um recado para que se produza coisas novas, e muitos empreendedores irão entrar nesta onda. Porém, não há uma genuína demanda, e assim que estes empreendimentos maturarem, irão quebrar, pois não há, nem nunca houve, demanda para eles.

    Em ambos os casos, os juros podem subir ou descer, naturalmente ou artificialmente, porém no segundo caso temos a certeza que haverá uma crise financeira.

    Resumindo, este é o problema da manipulação dos juros: Ele desorienta os investimentos.
  • Benjamin  24/01/2016 06:28
    Sim, isso o que você falou eu entendo perfeitamente e concordo, a dúvida é o que acontecerá com investimentos de longo prazo se por algum motivo qualquer os indivíduos de certa comunidade começarem a deixar de poupar e consumirem, disputando os bens com a empresa que está exatamente no meio de seu processo de investimento.
  • Pobre Paulista  25/01/2016 13:16
    Não muda nada. No longo prazo todos os investimentos feitos nos juros baixos terão sido maturados e, dado um ambiente livre, estarão provavelmente dando retorno a seus investidores. Os juros altos só servirão de sinal para os novos investimentos.

    Note que o simples fato dos investimentos maturarem já faz com que a taxa de juros suba: As pessoas irão passar a consumir, dado que a produção atual satisfaz (presumidamente) as demandas da sociedade. Consumindo mais, irão poupar menos, elevando a taxa de juros, deixando um sinal bem claro para os investidores: Ei, estamos plenamente satisfeitos com o que o mercado nos oferece agora, portanto invista apenas em algo que você tem certeza que será muito lucrativo. E assim o livre mercado afugenta investimentos arriscados, diminuindo (ou até evitando) o risco de futuras crises econômicas.

    Em outras palavras, quando os juros sobem (num ambiente livre), o capital migra do setor produtivo para o setor de consumo, e vice versa.


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