A taxa SELIC - o que é, como funciona e outras considerações (Parte 2)
por , quarta-feira, 19 de agosto de 2009

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bank_dees.jpgNo artigo anterior explicamos todo o mecanismo de determinação da SELIC.  Alguns leitores mandaram e-mails pedindo explicações mais detalhadas sobre o que é CDI, Fundos DI, Renda Fixa e a relação que a SELIC tem com tudo isso.   

Uma ótima oportunidade para explicar alguns detalhes adicionais do mercado interbancário, bem como as consequências práticas que tudo isso gera pra você, usuário do sistema bancário.

Os CDIs

Como explicado anteriormente, os bancos utilizam o mercado interbancário para manter suas reservas em níveis determinados pelo governo.  Nesse processo, os bancos fazem empréstimos entre si utilizando títulos públicos como colateral.

Entretanto, uma dúvida pode surgir: se esses empréstimos têm a duração máxima de 1 dia, determinada por lei, o que acontece quando um banco precisa de empréstimos por mais de 1 dia? Mais ainda: e se, no extremo, um banco estiver precisando de um empréstimo interbancário, mas estiver sem títulos públicos?  Seria ele obrigado a recorrer ao redesconto?

Nesses casos - e não apenas nesses casos, mas a todo momento - os bancos podem emitir um Certificado de Depósito Interbancário (CDI).  Um CDI nada mais é que um título que um banco lança com o intuito de levantar dinheiro para suas necessidades.  Nesse caso, enfatiza-se, não se trata de um título do Tesouro; trata-se de um título privado.  E esses títulos têm a vantagem de permitir prazos de empréstimos interbancários mais dilatados.

E daí?  Isso é importante?

Importante, é.  Aliás, muito importante.  Porém, como veremos mais abaixo, não muda praticamente nada do raciocínio que foi desenvolvido até aqui.

Fundos DI e Renda Fixa

Quando você deposita seu dinheiro no banco, você pode destiná-lo à caderneta de poupança, a um fundo de Renda Fixa ou aos Fundos DI.

A poupança não mexe com títulos de qualquer espécie.  Seus juros são determinados pelo governo.  Via de regra, a remuneração é de 0,5% ao mês mais a variação de um índice chamado TR (Taxa Referencial), que por sua vez é calculada a partir da SELIC.   Pouparei o leitor da chateação dos cálculos, até porque são desimportantes.  O que deve ser entendido é que a poupança tem renda determinada pelo governo e não envolve aplicação em títulos.

Um fundo de Renda Fixa investe em títulos públicos com taxas pré-fixadas, como as LTNs e as NTNs.  (Ele também investe em títulos privados, seja de bancos ou empresas, mas isso agora não vem ao caso).

Já os Fundo DI (DI significa Depósitos Interfinanceiros) aplicam a maior parte do seu patrimônio em títulos públicos com taxa pós-fixada, como as LFT.

E qual a relação entre SELIC, CDI, Renda Fixa e Fundos DI?

Bom, sabemos que a SELIC é a taxa de juros no mercado interbancário resultante de operações envolvendo títulos públicos.  Já as operações envolvendo CDIs resultam na taxa conhecida como CDI overnight - ou CDI over.  A operação é exatamente a mesma (mercado interbancário), só que com títulos privados (nesse caso, títulos emitidos pelos próprios bancos).  Ademais, o cálculo da taxa se baseia nas operações realizadas entre instituições de conglomerados diferentes (Extra-Grupo: bancos de redes diferentes), desprezando-se as demais (Intra-Grupo: bancos da mesma rede).

Grosso modo, pode-se dizer que a SELIC = CDI + um spread mínimo.  E como você pode ver nessa tabela do Banco Central, a diferença entre ambas dificilmente é superior a 0,04 ponto percentual.  Ou seja: a taxa SELIC é praticamente idêntica à CDI. 

Entretanto, é a taxa CDI que serve de referência para a remuneração dos fundos DI e fundos de Renda Fixa; ela é o parâmetro para avaliar a rentabilidade desses fundos.

Traduzindo tudo: enquanto a SELIC é taxa de juros utilizada pelo Banco Central para gerenciar toda a economia (o Banco Central nada mais é do que uma agência de planejamento econômico, uma autêntica GOSPLAN), a taxa CDI é utilizada pelos fundos de investimento dos bancos para aferir a rentabilidade de suas carteiras.  A SELIC é resultado das operações com títulos do governo; a CDI é resultado da negociação entre os bancos.  E como o Banco Central pode interferir na primeira, a consequência prática é que a segunda está diretamente relacionada à primeira.  Ao fim e ao cabo, ambas são praticamente iguais.

Toda essa bagunça foi apenas para esclarecer que a CDI serve, no economês, como benchmark (referência) para os fundos DI e Renda Fixa.  Um gestor de fundos opera de olho na CDI, e não necessariamente na SELIC.  Só que a CDI, por sua vez, tende a ser igual à SELIC.  Confuso?  Bom, em defesa do Instituto Mises Brasil, jamais dissemos que o atual sistema financeiro, totalmente baseado no intervencionismo estatal puro e no papel-moeda fiduciário, fazia algum sentido.

Você e o Sistema Bancário

Superados todos esses tecnicismos chatos, vamos para a parte prática.

Suponha que os planejadores econômicos do Banco Central decidam que a economia está muito aquecida e que os riscos inflacionários são altos (o fato de que a inflação generalizada é algo que só pode ocorrer por causa do próprio banco central, que tem o monopólio da emissão monetária, e que, portanto, o banco central se auto-intitular o guardião da moeda é um paradoxo monstruoso, é algo que não será mencionado aqui em momento algum, por pura pudicícia).

Os planejadores centrais irão então se reunir no Conselho de Política Monetária (COPOM) para fazer o ajuste fino na economia (o fato de que isso é idêntico ao que se fazia na URSS também não será mencionado aqui, por uma questão de delicadeza).  Após rodarem seus modelos econométricos - e jurar que ali estão incluídas todas as variáveis importantes da economia -, os clarividentes irão determinar, através de uma votação estilo "levanta a mão!", em quanto os juros deverão ser aumentados.

Decidida a nova taxa, o Banco Central irá, no dia seguinte, fazer as operações de mercado aberto (open market) necessárias para atingir essa nova SELIC.  Como a decisão foi pelo aumento dos juros, então o BC irá vender títulos públicos.  Ao fazer isso, as reservas bancárias diminuem e os preços dos títulos caem.  Você pode interpretar essa queda dos preços dos títulos de duas formas: aumento da oferta de títulos e/ou diminuição da quantidade de dinheiro para comprá-los.

Como os bancos agora têm menos reservas, os juros do mercado interbancário (tanto para títulos públicos quanto para CDIs) irão subir.  Isso faz com que os bancos tenham menos dinheiro disponível para empréstimos para pessoa física e jurídica, o que causa um aumento dos juros para esta modalidade de empréstimo.

Na prática, ocorre o seguinte: como os bancos são meros intermediadores financeiros, eles não investem dinheiro próprio (afinal, o dinheiro, na teoria, é seu e não deles).  Logo, quando ocorre um aumento da SELIC - o que significa que o Banco Central está vendendo títulos -, os bancos comerciais irão, obviamente, comprar estes títulos com o seu dinheiro que foi lá depositado.  O dinheiro irá para o Banco Central e lá será "deletado" (lembre-se que nessas operações ocorre uma redução do nível das reservas compulsórias).  Portanto, houve uma diminuição da quantidade de dinheiro na economia.

Com menos dinheiro no sistema, os bancos que lançam seus CDIs para conseguir dinheiro também têm de pagar juros mais altos sobre eles.  O dinheiro que esses bancos arrecadam ao lançar seus CDIs também será emprestado para a economia real a um preço (juro) maior.  Dessa forma, um aumento da taxa básica de juros pelo Banco Central aumenta os juros de toda a economia.

Até aqui, nada de novo.

Mas e você que tem conta em banco?  Como isso lhe afeta?

Bom, esses títulos públicos que agora estão em posse dos bancos, passarão a ser comercializados entre si no mercado interbancário, ao lado também dos CDIs.  Os juros a que eles (títulos públicos e CDIs) serão emprestados no interbancário será agora maior.

Se você tiver dinheiro aplicado em Fundos DI, um aumento da SELIC ser-lhe-á extremamente benéfico.  Afinal, fundos DI investem maciçamente em LFTs, que são títulos públicos pós-fixados e que variam de acordo com a SELIC.  Se você tiver dinheiro aplicado em Renda Fixa, o preço dos seus papéis caiu (como explicado no artigo anterior: juros sobem, preços dos títulos caem).  Diz-se, nesse caso, que houve uma perda de riqueza para os proprietários desses títulos - afinal, o preço de seus ativos caiu.  Porém, não houve uma perda de renda, já que os juros são pré-fixados e pagos pelo Tesouro.  Se você comprar esses papeis, você terá com eles um rendimento maior do que terão aquelas pessoas que os possuíam antes da alteração dos juros (afinal, os juros pagos pelo Tesouro são constantes, mas você comprou o papel por um preço menor).  Se você não vender esses papeis, sua renda não será afetada, embora sua riqueza tenha, sim, diminuído.

Isso significa que, ao contrário do que dizem, um aumento dos juros não necessariamente favorece aqueles a quem Ciro Gomes chama de "rentistas".  O aumento dos juros irá favorecer apenas (1) quem possui LFTs, (2) quem possui aplicações na caderneta de poupança, e (3) aqueles que comprarem esses papeis no mercado secundário, agora a um preço menor.

Todo o resto ou fica na mesma ou perde.  (Quando ocorre uma diminuição dos juros, o efeito é exatamente inverso).

Com isso, agora podemos entender por que as políticas monetárias anteriores ao Real jamais funcionavam no Brasil.  Naquela época, a maior parte de dívida pública estava na forma de LFTs, que pagam juros de acordo com a SELIC.  Assim, quando a SELIC aumentava, os portadores desses títulos obtinham um amento imediato de renda, o que gerava o efeito oposto daquele tencionado pelo aumento dos juros, que era o de contrair a demanda.  Da mesma forma, ganhavam aqueles que tinham aplicações na caderneta de poupança.  Ou seja, no Brasil, uma política monetária teoricamente restritiva acabava gerando um aumento na demanda.  E mais engraçado ainda: um aumento nos juros levava a um aumento da oferta monetária, por causa do pagamento das LFTs.  (Mais detalhes sobre esse lúgubre período brasileiro aqui).

A Explicação Acadêmica

Faço aqui um pequeno paralelo apenas para explicar como a Academia explica o efeito dos juros sobre a economia.  A explicação dada acima é aquela que, a nosso ver, é a mais sensata.  Porém, os universitários gostam de embromar um pouco, e sempre criam explicações mais convolutas sobre como o mecanismo da manipulação dos juros afeta toda a economia.  É mais ou menos assim.

Quando o BC eleva a SELIC (que é uma taxa de juros de curto prazo), isso induz as pessoas e as empresas a venderem seus títulos públicos de longo prazo para comprarem títulos de curto prazo (isso chama-se arbitragem).  Essa fuga dos títulos de longo prazo faz com que seus preços caiam e seus juros subam.  Como os preços desses títulos caíram, há uma perda de riqueza para os proprietários desses títulos.

É aí que entram em cena as teorias de Modigliani, Brumberg e Friedman.  Essas teorias dizem que os gastos de consumo dependem tanto da renda proporcionada pelo capital humano (renda do trabalho) quanto da renda proporcionada pelo estoque de riqueza não-humana.  Assim, se o indivíduo fica mais rico porque o valor de mercado de sua riqueza não-humana aumentou, então ele vai consumir mais.  Se sua riqueza não-humana diminuiu, então ele irá consumir menos.

Portanto, quando o BC aumenta a SELIC, a arbitragem dos agentes econômicos faz com que os juros de longo prazo também subam.  Isso irá não só provocar uma queda na demanda de investimentos, estoques e bens duráveis - como casas e automóveis -, como também irá provocar uma perda de riqueza para os proprietários da dívida pública.  E essa perda de riqueza faz com que os gastos sejam contraídos.

É um tanto difícil crer nessa última parte por dois motivos:

1) As pessoas - tanto físicas quanto jurídicas - apenas depositam seu dinheiro no banco; elas não raciocinam que, "ah, se os juros subiram, os títulos nos quais estou investido tiveram uma queda de preço, o que significa que estou mais pobre".  Não.  A maioria se mantém nos títulos públicos como forma de poupança, e não para fins de especulação diária. 

2) Aquelas que praticam especulação diária com títulos públicos - e que, logo, raciocinam da forma acadêmica - não compõem de modo algum o grosso do setor produtor e/ou consumidor da economia, de forma que suas ações dificilmente gerariam grandes impactos macroeconômicos, como pretende a teoria.

Enfim, esse tópico foi apenas para mostrar como a academia explica o mecanismo de influência da taxa básica de juros.

Por Que os Juros São Altos no Brasil?

A pergunta que ninguém, e ao mesmo tempo todo mundo, responde.

Até agora estivemos trabalhando com as taxas de juros do mercado interbancário, a SELIC, que atualmente está em 8,65% (a meta é de 8,75%) ao ano.

Porém, isso quase nada significa quando se sabe que as taxas de juros para pessoa física estão em 130,58% ao ano e para pessoa jurídica, 61,22% ao ano (dados de julho).

Também se observa constantemente que, quando a SELIC cai, as outras taxas de juros caem numa proporção muito menor.  Ou seja, a SELIC praticamente pouco influencia as outras taxas de juros da economia, que são as que realmente importam.  Por que isso ocorre?

Existem várias explicações, porém as mais plausíveis são:

1) Pouca concorrência no setor bancário.  As regulamentações criadas pelo próprio Banco Central impedem o fácil estabelecimento de novas redes bancárias, que trariam mais concorrência para os grandes bancos já estabelecidos.  Como todo cartel, o sistema bancário também é um cartel que se sustenta apenas por causa do estado.  Os bancos, ao contrário do que se diz, adoram ser controlados e regulados pelo Banco Central, pois é este quem lhes protege de qualquer possibilidade de concorrência.

2) Judiciário leniente com o devedor.  No Brasil parece valer a máxima "devo, não pago; nego enquanto puder".  O calote virou uma instituição protegida judicialmente, pois aqui se segue a filosofia marxista de que o credor é um ente espoliativo e malvado e o devedor é o coitado desinformado que contraiu uma dívida involuntariamente.  Sendo assim, por uma questão de 'justiça social', deve-se manter o credor despido de suas posses e o devedor no pleno gozo delas.  Parece que é preciso ter um Ph.D em sociologia para não perceber que esse arranjo corresponde a um roubo, pura e simplesmente.  A solução mais prática e viável - e que justamente por isso ninguém quer adotar - é permitir a alienação fiduciária (ou reintegração de posse) em todas as modalidades de empréstimos.  Atualmente ela existe para o financiamento de carros.  E, não por coincidência, trata-se um mercado em que juros são dos mais baixos.  Não é algo difícil de entender.  Se A empresta seu dinheiro (sua propriedade) para B, que utiliza esse dinheiro para comprar um apartamento e não devolve a A o valor combinado, então B roubou A.  E se o apartamento comprado por B foi comprado com a propriedade de A, então A é o dono legal desse apartamento.  A tem o direito de tomá-lo quando quiser.  E é isso que a justiça brasileira não permite.  Munido de um bom advogado, B pode tranquilamente usufruir uma boa cobertura em Ipanema utilizando a propriedade de A - tudo em nome da justiça social.

(Nos EUA existe a profissão do Repo Man, que é o sujeito contratado para reaver os bens não pagos.  Esse vídeo mostra um Repo Man em ação, recuperando um carro cujo empréstimo não foi pago.  O vídeo é de fato violento, mas é preciso ter em mente que o carro não era legalmente da mulher, pois ela não pagou por ele.  Logo, era a mulher a ladra da história).

3) Governo.  O maior devedor da economia brasileiro é o estado.  Como ele não consegue financiar todas as suas atividades meramente por meio da arrecadação de impostos, ele precisa recorrer aos empréstimos bancários.  (No primeiro artigo explicamos o processo de lançamento de títulos pelo Tesouro).  E como o Tesouro faz isso com constância, os bancos direcionam boa parte do depósito de seus clientes para a compra desses títulos.  Logo, o dinheiro que poderia ir para o setor produtivo na forma de crédito, acaba sendo sugado para o setor não produtivo na forma de empréstimos que serão pagos via impostos ou via mais empréstimos.  Ou seja: o governo se endivida para pagar dívidas antigas (o que se chama 'rolar a dívida').  Com um estado tão inchado e glutão, é realmente difícil sobrar dinheiro para o setor produtivo da economia.  O pouco que sobra é encarecido tanto pela lei da oferta e demanda quanto pelos dois itens acima.  Aí fica difícil.

Ah, sim, o leitor mais atento provavelmente já concluiu o óbvio: se não existissem títulos públicos, isto é, se o governo não se endividasse, não haveria como o Banco Central fazer política monetária.  Não haveria como o Banco Central estipular juros.  Não haveria como o Banco Central planejar a economia.  Os bancos comerciais teriam de concorrer entre si para fornecer empréstimos ao setor produtivo da economia.  Somente assim eles conseguiriam obter algum lucro.  Atualmente eles não precisam recorrer a essa faina inglória, pois podem apenas aplicar em títulos públicos (100% seguros, garantidos pelo governo) e acender o charuto.  Os juros para pessoas físicas e jurídicas inevitavelmente seriam menores.  Haveria, enfim, um genuíno livre mercado.

Concluindo

No próximo texto (e eu juro ao bondoso leitor que será o último da série), terminada a parte técnica, vamos discutir a polêmica questão do "nível da SELIC".  Ela é alta?  Sempre foi?  Tinha como não ser?  Uma política monetária austera realmente exige juros altos ou é possível ter juros baixos e pouca inflação de preços?  Trata-se do debate infindável entre keynesianos, monetaristas e austríacos.

Leandro Roque é o editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.


57 comentários
57 comentários
Rafael Hotz 19/08/2009 14:34:47

"O maior credor da economia brasileiro é o estado. "\n\n.\n\nnão seria devedor? rs...\n.\n\nvocê não acha que o prêmio inflacionário seria mais um motivo para a alta do juros no mercado de empréstimos?

Responder
Leandro Roque 19/08/2009 19:02:23

Ooops! Valeu pelo puxão de orelhas. Troquei infantilmente as palavras. Já corrigi. Quanto ao prêmio inflacionário, ele dificilmente seria o responsável por elevar tanto os juros (reais) na economia atual. Antigamente, de fato a inflação era um fator preponderante. Hoje, de jeito nenhum. Mas essa questão será abordada em maiores detalhes no ultimo artigo da série. Abraços!

Responder
Uilson de Jesus Carvalho 20/08/2009 10:19:06

Caro Leandro e amigos. Se o maior credor brasileiro é o estado, significa que a maior parte da poupança é direcionada por critérios politicos para quem tem melhores relações com o mundo político E SUAS DIRETRIZES, já que o estado quando quer comprar produtos e serviços é forçado a chamar o setor privado pois só aí podem haver preços (Mises) e não para o mercado aberto de capitais, pois os bancos aparentemente privados são todos paraestatais, ao lado dos bancos estatais e, na prática o que temos é um capitalismo de estado e não de mercado; isto significa restrição à pessoa comum ter acesso a este mercado em muito maior escala. Salvo melhor juízo Leandro faz sentido o que digo ? Um abraço e muito obrigado pelo comentário.

Responder
Leandro Roque 20/08/2009 12:49:50

Faz perfeito sentido, Uilson! É exatamente isso. Só gostaria de ressaltar a correção já apontada pelo Rafael: o estado é o maior DEVEDOR brasileiro, e não credor. Nós somos os credores dele.

Responder
André M.O 22/09/2009 13:31:33

Sensacional Leandro. Sarcasmo e didática fazem uma ótima dupla na sua escrita. Recém saido da academia, fica difícil saber se existe uma escola que de fato abarque todas as minhas opiniões economicas. Confesso que tendo para o lado Keynesiano pois nenhum austriaco conseguiu me demover da crença que o mercado não é perfeito (ao menos para o objetivo que ele se deveria prestar que é o de vivermos todos melhor). De qualquer forma, parabéns pela provocação vigorosa ( assino em baixo de quase todos os pontos). Para finalizar, uma pequena ultima correção: CDI = Selic + Spread Minimo, e não o contrário uma vez que o papel dos bancos oferece mais risco que o do governo, e por tanto demanda um premio maior.

Responder
Leandro 22/09/2009 14:49:39

Prezado André, muito obrigado pelo comentário. Bom, só pra esclarecer, pois é algo que confunde mesmo, veja o link a seguir e observe que o CDI sempre é menor que a Selic efetiva: http://www.bcb.gov.br/pec/indeco/Port/ie3-01.xls\n

Responder
André Cardoso 25/09/2009 21:21:17

Excelente os textos, Leandro. Aos poucos vou entendo como funcionam as taxas de juros.

Responder
Rhyan Fortuna 28/10/2009 20:53:46

Vai sair o 3º?

Responder
Leonardo Gusmão 03/02/2010 14:03:21

Excelente texto! Leio e releio como se fosse um manual de economia!
A propósito, não vai ter continuação?

Responder
HJ 19/02/2010 13:33:51

Qual o impacto na economia se o governo reduzir a taxa de depósito compulsório drásticamente ? Ou então se optar pela abolição da mesma.

Responder
Leandro 19/02/2010 14:08:08

HJ, tudo o mais constante, a tendência é que haja uma grande expansão da oferta monetária, principalmente do agregado monetário M1 (no caso, um aumento dos depósitos em conta-corrente), podendo gerar inflação descontrolada e, principalmente, uma acentuação dos ciclos econômicos.

Já num ambiente ideal - isto é, sem banco central e sem seguros governamentais para as contas-correntes -, a redução (ou mesmo abolição) do compulsório dificilmente geraria essa tendência expansionista.

Afinal,

1) Os bancos não poderiam ser temerários pois não haveria um BC para salvá-los quando se tornassem insolventes.

2) E, além de não terem um BC a quem recorrer, não haveria também o sistema estatal de garantia dos depósitos para restituir os clientes que ficaram sem seu dinheiro (que os bancos queimaram em suas aventuras) - sistema esse que estimula o risco moral.

Portanto, em um sistema sem a proteção do banco central e sem a proteção do governo aos depósitos - e obviamente com segurança jurídica -, esquemas como o compulsório não seriam vigorosamente necessários como são hoje.

Ou seja, o compulsório é uma intervenção estatal criada justamente para corrigir outra distorção que é incentivada e protegida pelo próprio estado, a saber, o sistema de reservas fracionárias.

Vale lembrar que na Suíça, por exemplo, país onde há leis e cujo banco central tem fama de durão, o compulsório é de míseros 2,5%, e mesmo assim os bancos não fazem gracinhas - pois sabem que, se fizerem, pagarão por isso.

Responder
HJ 21/02/2010 20:32:33

Maravilha, muito obrigado pelos esclarecimentos.

Responder
Rhyan Fortuna 03/11/2010 05:43:27

Se a SELIC no Brasil foi aumentada ou mantida ao longo dos últimos meses, porque a base monetária e os meios de pagamentos tiveram alta?

Responder
Leandro 03/11/2010 06:02:35

Excelente pergunta, Rhyan.

O fato é que, como dito, estamos num período de boom econômico. A demanda por empréstimos está alta, seja para investimento, seja consumo. Uma alta demanda por empréstimos faz com que o mercado interbancário (aquele em que os bancos emprestam uns para os outros com o intuito de manter suas reservas em níveis estipulados pelo BACEN) também fique pressionado, pois há dinheiro sendo demandado de todos os lados.

Nesse cenário, caso o BACEN nada fizesse, a tendência seria que a taxa de juros desse mercado interbancário subisse muito. E a taxa de juros do mercado interbancário, como você sabe, nada mais é do que a SELIC.

Mas como o BACEN trabalha com uma meta para a SELIC, ele não pode deixar que ela suba. Logo, ele tem de injetar dinheiro no mercado interbancário justamente para evitar que ela aumente.

Há alguns meses, ele injetava uma quantia suficiente para evitar que ela subisse muito (o que permitiu que a SELIC fosse de 9,5 para 10,75%). Hoje ele tem de injetar mais ainda, apenas para mantê-la nesse nível.

E assim chegamos a esse fenômeno atual: o BACEN tem de injetar dinheiro continuamente apenas para impedir que a SELIC suba. Se ele não fizesse nada, a SELIC já teria subido há muito tempo.

Mais uma prova de que a economia está artificialmente aquecida.

Responder
Rhyan Fortuna 03/11/2010 06:27:51

Obrigado, Leandro!

Entendi!

Abraço!

Responder
Felipe Rosa 01/04/2011 04:25:23

Que espetaculo de artigo Leandro!!

Fiquei com uma duvida...essa injeção monetária "emergencial" afim de evitar que a selic suba em função desse boom artificial, se dá atraves do aumento de moeda escritural (compra de titulos do tesouro por parte do BC) ou expansão de M1 propriamente dita?

E a parte 3 não saiu ou eu não a encontrei?

abraços!!!

Responder
Leandro 01/04/2011 08:12:03

Felipe, essa injeção monetária se dá por meio da compra de títulos públicos em posse do sistema bancário. Quem faz a compra é o Banco Central, que simplesmente cria dinheiro eletrônico para comprar esses títulos. Esse dinheiro recém-criado vai parar na conta que os bancos têm junto ao BC (idêntica a uma conta-corrente). Essa conta faz parte das reservas bancárias, que, por sua vez, faz parte da base monetária.

Quando essas reservas bancárias são aumentadas, os bancos passam a poder fazer mais empréstimos, criando dinheiro via reservas fracionárias exatamente em um múltiplo dessas reservas bancárias -- ou seja, criando moeda escritural, embora eu prefira o termo "meios fiduciários".

Expliquei melhor todos esses conceitos nesse artigo:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=913

Muito obrigado pelo elogio.

Grande abraço!

Responder
Jeferson 14/06/2011 19:21:40

Leando, descobri o site há pouco tempo, e divulguei a vários amigos. Acabei de ler em seqüência seus dois artigos sobre a SELIC, e achei excelentes, no entanto, não estou conseguindo encontrar o terceiro. Ele ainda está em elaboração?\r
\r
Parabéns e abraços!

Responder
Leandro 14/06/2011 19:30:58

Prezado Jeferson, algumas pessoas fazem essa mesma pergunta. E a verdade é que o assunto que prometi abordar nessa última parte é tão complexo, tão cheio de detalhes sobre os quais não há consenso entre algumas correntes, que estou até com medo de mexer nesse vespeiro.

Mas, um dia, a continuação há de sair. Assim como a reforma tributária e da previdência...

Abraços e obrigado pelos elogios!

Responder
Lucas S 14/08/2013 19:50:29

Leandro, não sei se você está com tempo no momento, mas há alguma possibilidade de escrever a terceira parte?

Responder
MARCELO HENRIQUE 02/08/2011 03:03:49

QUERIA SABER ONDE ESTÁ A PARTE 3, OU ÚLTIMO ARTIGO DESTA SÉRIE.
GOSTEI DEMAIS!

PARABÉNS

Responder
anônimo 11/08/2011 11:15:51

va vir a parte 3??? esses textos sao mto bons

Responder
Lucio 02/03/2012 08:34:13

Leandro, uma dúvida.
Você disse que o BC injeta dinheiro no interbancário comprando títulos com dinheiro gerado artificialmente, mas, para que os bancos tivessem em mãos estes títulos em primeiro lugar, eles não tiveram que comprá-los com o "próprio"(nosso) dinheiro? Não estaria o BC apenas devolvendo (com valorização) este dinheiro aos bancos?

Responder
Leandro 02/03/2012 08:55:10

Não é que ele está devolvendo, el está realmente aumentando o rendimento dos bancos. Esta é uma operação bastante lucrativa. Se um banco compra do Tesouro (no mercado primário) um título cujo valor de face é R$1.000 a, por exemplo, R$900, os juros sobre este título são de 11,11% (R$100 dividido por R$900). Se, após isso, o BC quiser reduzir a SELIC, ele irá comprar títulos, e os preços deles aumentarão. Assim, este banco irá revender ao BACEN, no mercado secundário, seu título a R$920 (juros agora de 8,7%). Só com um título, sem fazer nada, o banco embolsou 20 reais.

Observe também que, ao contrário do que se imagina, quando o BACEN reduz os juros, os bancos tendem a ganhar com isso.

Todo este processo de lucro fácil para os bancos foi comentado em certos detalhes neste artigo.

Abraços!

Responder
Rhyan 21/04/2012 05:17:24

Leandro, por que estão falando que agora que a selic está em 9%, a poupança está mais atraente que a renda fixa? A renda fixa não tem juros pré-fixados?

Responder
Leandro 21/04/2012 11:42:39

Porque a poupança é isenta de imposto de renda, ao passo que as outras aplicações, não. No cômputo final, o temor é que o rendimento líquido da poupança fique igual ao da renda fixa. E isso tiraria o financiamento do governo. Pavor geral.

Responder
Rhyan 22/04/2012 17:33:04

Eu vi as contas num site de investimento. Além do imposto há as taxas de administração.

Pra quem investe em renda fixa é melhor a selic cair ou subir?

Valeu, abraço!

Responder
Leandro 22/04/2012 21:33:52

Se você estiver com a expectativa de que a SELIC vai cair, compre renda fixa -- assim você estará ganhando sempre acima da SELIC pós-queda.

Se estiver achando que ela vai subir, compre um Fundo DI, que investe maciçamente em LFT, títulos pós-fixados que têm rentabilidade atrelada à SELIC.

Abraço!

Responder
Rhyan 22/04/2012 22:11:51

Obrigado, abraço!

Responder
Gilberto 01/09/2012 12:13:55

Excelente artigo, Leandro!

Gostaria apenas de pedir que você desenvolvesse a ideia posta no final do artigo:
"...se não existissem títulos públicos, isto é, se o governo não se endividasse, não haveria como o Banco Central fazer política monetária. "

O BC não poderia fazer política monetária via operações com quaisquer outros ativos emitidos por outras instituições? Por exemplo, via operações com CDI's ou mesmo ações.

Valeu!
Abraços.

Responder
Leandro 03/09/2012 04:29:40

Prezado Gilberto, se toda a dívida fosse quitada, não mais haveria títulos públicos no mercado e o Banco Central perderia sua desculpa para fazer política monetária. Qualquer criação de dinheiro seria vista como um ato explícito de privilégio, pois o BC teria de dar o dinheiro diretamente para o recebedor, e em troca de nada.

Ou seja: não se trata de uma política nem um pouco popular para o poder. E é exatamente por isso que o próprio Banco Central confessa que (pergunta D):

"Para o gerenciamento adequado da política monetária [...], pode ser necessária a emissão de Títulos do Tesouro Nacional diretamente para a carteira da Autoridade Monetária, de forma a assegurar que o montante desses títulos em carteira tenha dimensões adequadas à execução da política em questão. [...] Nesse caso, a emissão de títulos é realizada sem contrapartida financeira.

Sempre que a carteira de títulos do Banco Central do Brasil [...] ficar abaixo de R$ 20 bilhões, o Tesouro deve realizar emissão direta de títulos para a Autoridade Monetária, sem contrapartida financeira, de forma a não comprometer a execução da política monetária."

Ou seja: mesmo na eventualidade de "estar faltando títulos no mercado", não se preocupe: o Tesouro tem a obrigação de criar títulos com a única e exclusiva intenção de permitir a continuidade da política monetária.

Grande abraço!

Responder
André B. 24/12/2012 13:14:00

Leandro, sou um completo leigo que gostaria de entender mais sobre o assunto. Algo deve ter me escapado nos artigos, então perdoe-me pelas perguntas abaixo.
Beleza, a SELIC é a taxa de juros aplicada no mercado interbancário (mercado utilizado pelos bancos para fazerem suas compensações e manterem o compulsório no percentual estipulado pelo BACEN). Mas e daí? Qual o impacto disto na economia como um todo? Depois de explicada a SELIC, você disse isto:

"Até agora estivemos trabalhando com as taxas de juros do mercado interbancário, a SELIC, que atualmente está em 8,65% (a meta é de 8,75%) ao ano.

Porém, isso quase nada significa quando se sabe que as taxas de juros para pessoa física estão em 130,58% ao ano e para pessoa jurídica, 61,22% ao ano (dados de julho).

Também se observa constantemente que, quando a SELIC cai, as outras taxas de juros caem numa proporção muito menor. Ou seja, a SELIC praticamente pouco influencia as outras taxas de juros da economia, que são as que realmente importam."

Se a SELIC pouco influencia as outras taxas de juros da economia, então por que se dá tanta importância à SELIC? Por que é um oba-oba quando o BACEN aumenta ou reduz a meta da SELIC? A propósito, qual o efeito prático de o BACEN aumentar ou baixar a SELIC? Injetar mais ou menos dinheiro na economia?

Responder
Bruno 24/12/2012 14:04:22

Exato. A influência da Selic sobre a economia real é pequena. Ela influencia acentuadamente apenas a remuneração do CDI. E influencia também os futuros gastos do governo com o serviço da dívida. De resto, sua influência é muito superficial.

Responder
Roger Mota 19/01/2013 20:45:09

Excelentes artigos! Parabéns!!! Estava há muito tempo tentando entender o mecanismo que o governo usa na economia. Agora, finalmente, consegui entender!!!

Responder
Gabriel 06/03/2013 18:20:54

Lenadro, sou um leigo no assunto de economia, mas gostaria de entender melhor dois pontos:

1 - quanto as poupanças, talvez possa me indicar um artigo que tenha esta informação, ela é usada diretamente pelo estado? Se abrir uma conta poupança num banco, o mesmo tira qual 'vantagem' sobre ela? Já que existe um retorno no investimento, de onde sai esse retorno?

2 - Quando você fala

'se não existissem títulos públicos, isto é, se o governo não se endividasse, não haveria como o Banco Central fazer política monetária. Não haveria como o Banco Central planejar a economia. Os bancos comerciais teriam de concorrer entre si para fornecer empréstimos ao setor produtivo da economia. '

pelo que entendi até agora, o dinheiro é exatamente criado da dívida pública, e lastreado pela mesma, se não houvesse dívida pública, o dinheiro não iria 'desaparecer' causando enorme caos a economia nacional?

Responder
Leandro 06/03/2013 18:40:32

Gabriel,

1) 65% do saldo dos depósitos em poupança são compulsoriamente destinados para o Sistema Financeiro da Habitação (SFH). Ou seja, os bancos são obrigados a destinar esse dinheiro para financiamentos imobiliários. O restante pode ser utilizado pelos bancos como eles quiserem.

O retorno sobre sua poupança também é compulsório e estipulado pelo governo. No caso, os bancos simplesmente acrescentam dígitos ao seu saldo (tal acréscimo independe de os empréstimos bancários com os recursos da poupança terem dado certo ou não).

2) Correto. Se toda a dívida (pública e privada, pois o dinheiro é criado maciçamente por meio de dívida privada, que é o que ocorre quando você pede um empréstimo, por exemplo; ver detalhes aqui) for quitada, e os bancos não fizerem novos empréstimos, a oferta monetária cairia a zero.

Responder
Gabriel 06/03/2013 21:29:12

Obrigado, realmente é de grande ajuda esse portal, muita coisa ao qual gostaria de aprender estou conseguindo lendo estes artigos sobre economia. Muito pela linguagem de fácil entendimento (muito do que procuro acabo apenas encontrando em jargões mais técnicos o que não me esclarece muita coisa).

Estava realmente lendo este artigo o qual você linkou, acabei dentro dele pelos diversos links lendo muita coisa até que acabei neste post.

1 - Voltando a questão das dívidas, atualmente 'todo o dinheiro' se originou das dívidas do estado? (Neste caso para que se tenha um montante compulsório para que daí sim o banco possa alavancar mais crédito bancário), e o laissez-faire nesta questão, para ser implantado necessitaria da retirada de circulação a totalidade desse montante, para daí sim os bancos poderem criar seu dinheiro do nada?

2 - Esta questão ficaria extremamente grato se respondida, pois é a que me entrava ainda o entendimento básico desta política de reserva fracionada:

Como o depósito compulsório funciona? Digo, como se sabe que aquela reserva é 'real' ou retirável no caso de uma corrida aos bancos por exemplo? Pelo que entendi, ele pode ser eletrônico, então o que impede os bancos de simplesmente 'criar' este crédito. Por exemplo criando empréstimo próprio a ser depositado via conta-corrente no próprio banco, gerando mais 'crédito' este usado para suprir o deposito compulsório diário suficiente para atingir a necessidade mínima? Já que nenhuma parte deste dinheiro é lastreada em nada, se o aumento do compulsório pode ser feito de maneira artificial, qual a real restrição ele impõe?

Obrigado novamente por toda essa aula de funcionamento da nossa economia brasileira.

Responder
Leandro 06/03/2013 23:20:21

1) Acho que não entendi muito bem a primeira pergunta. Mas se ela é sobre como se origina o dinheiro no atual sistema bancário e monetário, então realmente o artigo linkado acima é o que melhor explica. O BC injeta $1.000 no sistema bancário; o sistema bancário empresta $10.000 (supondo-se um compulsório de 10%). No final, analisando-se o sistema bancário como um todo, há $10.000 nas contas dos bancos, e $1.000 como reservas bancárias.

Já a afirmação "para ser implantado o laissez-faire seria necessária a retirada de circulação a totalidade desse montante" não faz sentido. Tampouco faz sentido o seu complemento, de que aí sim "os bancos poderiam criar seu dinheiro do nada". Os bancos criam dinheiro do nada. A ausência de um banco central restringiria essa sua capacidade de criar dinheiro. Sugiro este artigo.


2) "Como o depósito compulsório funciona? Digo, como se sabe que aquela reserva é 'real' ou retirável no caso de uma corrida aos bancos por exemplo?"

Bancos trabalham com dois tipos de dinheiro: há o dinheiro físico (cédulas e moedas metálicas) que fica em seus cofres e em seus caixas automáticos e há os dígitos eletrônicos em seus computadores.

O dinheiro físico representa uma quantia ínfima do total de depósitos no sistema bancário. Bancos mantêm dinheiro físico apenas para satisfazer as demandas por saques de seus clientes. Se você for hoje ao seu banco e pedir para sacar os R$ 200 mil que você tem na sua conta-poupança, o gerente vai lhe convidar para um cafezinho e tentará de tudo para demovê-la da ideia. Se, ainda assim, a sua decisão for definitiva, então ele vai pedir para você retornar dali a dois ou três dias, pois ele não tem o dinheiro físico para tal. Ele irá entrar em contato com o Banco Central e pedir a remessa desta quantia.

Atente para um fato: o seu banco possui essa quantia junto ao Banco Central, mas são apenas dígitos eletrônicos. Para esses dígitos se materializarem em cédulas e moedas, estas precisam ser criadas pela Casa da Moeda (sob ordens do Banco Central) e então enviadas para o seu banco.

É assim que funciona todo o sistema bancário. Há uma quantidade ínfima de cédulas e moedas em posse dos bancos para lastrear todos os seus depósitos (conta-corrente, poupança, depósitos a prazo etc.). O resto são apenas dígitos. O seu dinheiro que você pensa estar lá no banco não existe. São apenas dígitos eletrônicos. Na eventualidade de uma corrida bancária, se o seu vizinho chegar antes de você e sacar todo o dinheiro dele, você rodou. (O FGC garante contas de até R$70.000. Acima disso, você perde).

"Pelo que entendi, ele pode ser eletrônico, então o que impede os bancos de simplesmente 'criar' este crédito. Por exemplo criando empréstimo próprio a ser depositado via conta-corrente no próprio banco, gerando mais 'crédito' este usado para suprir o deposito compulsório diário suficiente para atingir a necessidade mínima?"

Ficou confuso. O que significa "criar empréstimo próprio a ser depositado via conta-corrente no próprio banco"? Seria por acaso o Bradesco criar uma conta-corrente em seu próprio nome e colocar dígitos nela? Mas ele não ganharia absolutamente nada com isso. Preste atenção:

Se você é correntista do Bradesco e recebe uma transferência de R$1.000 de um correntista do Itaú, o Itaú terá de enviar R$1.000 para o Bradesco. Este envio ocorre no final do dia, e é eletrônico. O Itaú perdeu R$1.000, o Bradesco ganhou R$1.000. As reservas do Itaú encolheram R$1.000, as reservas do Bradesco subiram R$1.000. A capacidade do Itaú de expandir o crédito foi afetada; a capacidade do Bradesco foi aumentada.

Este envio de reservas do Itaú para o Bradesco dá ao Bradesco o direito de ganhar R$1.000 em cédulas e moedas. Ele pode pedir este dinheiro físico diretamente ao Itaú, ou ele pode pedir ao Banco Central. O efeito final é o mesmo. Se o Itaú enviar o dinheiro, ele ficará com menos dinheiro físico em suas reservas. Se o Itaú enviar apenas o dinheiro eletrônico, ele ficará com menos dinheiro em suas reservas eletrônicas junto ao Banco Central.

"Já que nenhuma parte deste dinheiro é lastreada em nada, se o aumento do compulsório pode ser feito de maneira artificial, qual a real restrição ele impõe?"

Após a explicação acima, creio que já fica mais fácil entender por que esta sua ideia não faz sentido. Bancos criam depósitos; eles não criam compulsórios. Compulsórios são dígitos eletrônicos junto ao Banco Central. Banco não pode criar compulsório. Se o Bradesco recebeu R$1.000 eletrônicos do Itaú, então suas reservas junto ao Banco Central aumentaram R$1.000. É somente assim que um banco aumenta suas reservas bancárias.

Por outro lado, quando o Bradesco concede um empréstimo, ele cria dinheiro eletrônico na conta-corrente do tomador de empréstimo. Ao gastar esse dinheiro, ele pode ir parar na conta de um cliente do Itaú. O Itaú vai exigir esse dinheiro do Bradesco. O Bradesco vai perder reservas bancárias para o Itaú. É impossível o Bradesco aumentar suas reservas bancárias do nada. Ele precisa receber dígitos (ou depósitos em espécie) de alguém.

Agora estou exausto.

Responder
Gabriel 07/03/2013 02:21:23

Obrigado pela paciência e explicações hehe, imagino que eu tenha feito uma grande confusão nas minhas idéias com relação ao compulsório, agora acredito que entendi.

-Na verdade o dinheiro total é apenas criado pelo banco central, nas compras dos títulos da dívida do governo do BC para o banco que a revende. Nestas compras, o dinheiro novo irá pra conta do respectivo banco junto ao BC, o qual neste momento alavanca o dinheiro através do sistema de reserva fracionário, podendo aumentar a capacidade de depósito deste banco momentaneamente para +este valor da venda acrescido de sua alavancagem, seria isso?

Minha confusão vinha de que este novo credito gerado (já na conta de algum depositante) ao ser depositado em outro banco geraria uma outra alavancagem, mas não é assim o funcionamento certo?

Responder
Rudson 06/03/2013 18:55:27

Leandro,

Primeiramente, gostaria de parabenizá-lo (e toda a equipe do IMB) pelo excelente trabalho. Graças a este site, passei a compreender melhor a economia e mudar os conceitos antigos que professores de ensino médio e universitário martelaram na minha cabeça ao longo dos anos. Ao mesmo tempo, passei a questionar muito dos 'indicadores' da economia.

Justamente sobre isso, tenho um questionamento. É sobre o conceito de renda ou salário "real". Muitas vezes eu vejo nos jornais, matérias dizendo que a renda real de um determinado país aumentou X%¨ao longo dos anos.

Por renda real, se entende o aumento da renda descontada a inflação de preços no período certo? Pois bem, se um governo ditatorial resolver congelar preços* ao mesmo tempo que aumenta o salário mínimo e benefícios assitenciais, a inflação de preços vai ser 0% (de acordo com índices oficiais, obviamente), de forma que a renda "real" vai ter aumentado, e muito, no mesmo período. No entanto, devido aos problemas causados por controle/congelamento de preços, analisados por Mises no "Uma crítica ao intervencionismo" e "Ação Humana" (além dos vários artigos aqui do site), a quantidade de bens e serviços a disposição na economia vai CAIR. Ou seja, as pessoas vão acabar ficando mais pobres, já que não vão poder adquirir nenhum bem com seu dinheiro (ou menos bens que antes).

Assim, enquanto pelo critério da dita renda "real", a população está mais rica, ela estará, de fato, muito mais pobre. Nesse caso, este número, que indicaria o enriquecimento do povo, seriam mera balela não, já que ele só compara preços e salários, sem levar em consideração um racionamento de bens, não? Ou o meu raciocínio está completamente equivocado?

Desde já agradeço.

*além de congelar preços, controlará o câmbio, proibirá - da melhor forma possível - o mercado negro, etc...

Responder
Leandro 06/03/2013 19:22:10

Raciocínio irrepreensível, Rudson. Perfeito mesmo.

Serve bem para mostrar por que esse negócio de 'crescimento do PIB' é um engodo (e explica também por que nós do IMB jamais entramos na onda de ficar criticando "PIB baixo").

Vale lembrar que o PIB mensura os gastos monetários em bens e serviços; ele não mensura aumento da produção; ele não mensura aumento na qualidade de vida. Sendo assim, se um governo imprimir dinheiro e aumentar seus gastos, e ao mesmo tempo controlar preços sem recorrer ao congelamento (por exemplo, dando subsídios ou cortando impostos localizadamente), o PIB daquele ano será bem robusto. Se for um ano eleitoral, o sujeito leva no primeiro turno com facilidade.

Responder
Rudson 06/03/2013 20:10:29

hehehe pelo visto as horas que passo lendo os artigos do site têm surtido efeito!

Nunca tinha pensado especificamente acerca dessa questão de como uma população pode empobrecer ao mesmo tempo em que a "renda real" aumenta, até que ontem li uma matéria da Carta Capital (um lixo obviamente) fazendo uma análise "imparcial" do governo do Hugo Chavez. Nela, o jornalista citou como uma das "conquistas" do governo o aumento da "renda real" e redução dos índices de pobreza, ao mesmo tempo em que admitiu - como um problema menor - que havia racionamento de itens de consumo básicos. Isso não me pareceu fazer nenhum sentido: as pessoas ficaram mais "ricas" mas continuaram - ou ficaram - sem acesso a bens básicos, graças ao racionamento. Que espécie de riqueza ou prosperidade é essa?

Responder
Ricardo 06/03/2013 19:45:00

E quanto aos bancos de investimento? O que eles são exatamente, como funcionam, como captam recursos?

Responder
Leandro 06/03/2013 19:52:07

Bancos de investimento utilizam o dinheiro neles depositados para emprestar para terceiros, sendo que neste ínterim o correntista não tem acesso ao dinheiro depositado. Em teoria, tais bancos não fornecem serviços de conta-corrente.

Responder
Ricardo 06/03/2013 20:09:06

Quem deposita neles? Grandes investidores? São como fundos de investimento? Que tipo de investimento eles fazem?

Responder
Leandro 06/03/2013 20:18:35

Deposita neles quem quiser.

Eles administram cotas de fundos de investimento e financiam de capital de giro e capital fixo, fazem subscrição ou aquisição de títulos e valores mobiliários, fazem depósitos interfinanceiros e também repasses de empréstimos externos.

www.bcb.gov.br/pre/composicao/bi.asp

Responder
Ricardo 06/03/2013 21:03:20

O dinheiro que a gente põe num fundo DI, por exemplo, é adminsitrado por um banco de investimento?

Responder
Leandro 06/03/2013 21:16:23

Pode ser que sim, pode ser que não. Os bancos convencionais -- tecnicamente chamados de Bancos Múltiplos com Carteira Comercial -- também administram fundos.

Assim como você pode levar seu carro estragado ao seu mecânico de confiança a uma concessionária da marca, fundos de investimento podem ser geridos por bancos convencionais ou por bancos de investimento.

Responder
Ricardo 06/03/2013 23:03:51

Em economias mais livres os bancos de investimento são os principais provedores de capital para financiar projetos de investimento?

Responder
Lucas S 10/04/2013 13:19:09

Leandro, parabéns! Não só pelos 2 artigos, mas também pela seção de comentários. É muito conhecimento para uma única página web. Quando sai a terceira parte?

Responder
Capitalista 09/04/2013 23:14:48

Em um sistema bancário 100% livre (sem BC):

1) Os bancos continuariam com suas reservas fracionárias? Haveria algum lastro ao invés de títulos públicos?

2) No caso de falência, os correntistas perderiam tudo, já que não haveria BC para socorrer, ou há algum outro instrumento?

Obs.: cadê o Nobel de Economia? Cada artigo me surpreende mais.

Responder
Stefan Carrao 19/01/2014 16:31:55

Leandro, não me canso de ser grato a vocês por ter acesso a tanto conhecimento. Sou advogado e após passar a freqüentar este think tank passei a ficar pasmo vendo o meio jurídico encher a boca para explanar conclusões cujo fundamento maior é a crença de que o que está nessa nossa Constituição intervencionista ao extremo existe, e que se existe é porque é possível, como direito a receber do estado saúde grátis, educação grátis, casa, comida, roupa lavada etc.

Mas a minha dúvida é sobre outra coisa: Você pode me dizer, por favor, de que forma, especificamente, entra e sai o capital internacional (o volúvel, não de investimentos) no país? Comprando diretamente do Tesouro no mercado primário? Ou apenas (ou também) no mercado secundário? Ou há alguma via específica para ele?

Responder
Leandro 20/01/2014 18:28:16

Prezado Stefan, obrigado pelos fartos elogios.

A resposta é: de ambas as formas.

De um lado, o Tesouro realiza leilões diretos (mercado primário) para investidores internacionais, que compram os títulos em dólares. De outro, os investidores internacionais também podem comprar títulos no mercado secundário (só que agora utilizando reais, cuja conversão é feita pelo sistema bancário brasileiro).

Responder
Stefan Carrao 21/01/2014 14:32:42

Obrigado, Leandro.

Responder
Hugo 10/03/2014 02:14:52

Leandro estive comparando a série histórica dos rendimentos do CDI com a SELIC,e vi que houveram épocas de alternância entre o valor dessas 2 taxas (em um momento o CDI era maior e no outro era menor).Como poderia explicar essas alternâncias?

Responder
Emerson Luis, um Psicologo 15/03/2014 19:32:47

Boa síntese. Além de nos prejudicar economicamente, o intervencionismo ainda torna nossa vida mais complicada.

* * *

Responder
Augusto Guelli Ulson de Souza 09/06/2014 06:21:40

Leandro,

Parabéns! Ótimos artigos. Você foi muito didático, direto, exemplificando sempre que necessário, excelente.

Pelo o que eu compreendi o governo financia seu custo excedente com emissão de títulos do tesouro. Não seria mais eficiente o governo custear os custos excedentes com a emissão de mais papel-moeda, e controlar a expansão da base monetária com o aumento do depósito compulsório dos bancos?

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