A taxa SELIC - o que é, como funciona e outras considerações (Parte 1)
por , domingo, 9 de agosto de 2009

versão para impressão


Selic.gifVários leitores já nos escreveram pedindo explicações mais detalhadas sobre o que é a taxa SELIC, como ela é determinada, o que ela influencia e por que é importante.

Seu mecanismo de funcionamento é simples, porém a explicação é um tanto longa.  Não obstante, vale a pena fazer um esforço e tentar acompanhar o artigo até o final, para que finalmente não restem dúvidas sobre essa que é considerada a mais importante variável da economia, pois é ela quem baliza o mais importante preço do sistema econômico: o preço do dinheiro.

Prometo ao bondoso leitor me esforçar para deixar o artigo o mais claro, leve e atraente possível.  Até nem farei críticas ao sistema.

OS TÍTULOS DO TESOURO

Toda a encrenca se origina de um fato muito simples: o governo é incapaz de manter um orçamento equilibrado - isto é, o governo é incapaz de gastar apenas aquilo que ele arrecada.

Como sua receita tributária é sempre menor que suas despesas - afinal, vivemos em uma democracia, e quanto mais o partido governante gastar com seus apaniguados e com toda a sua base de apoio, maiores as chances de ele se eternizar no poder -, o governo está sempre precisando arrumar outros meios de financiamento.

E o responsável por conseguir esse financiamento é o Tesouro Nacional.  O Tesouro pode se financiar apenas com a emissão de títulos (ele não tem o poder de imprimir moeda, como tem o Banco Central - que ainda não entrou na história).  Quando a arrecadação de impostos é insuficiente para cobrir os gastos do governo, o Tesouro tem de emitir títulos para conseguir mais dinheiro.

Até aqui tudo bem?

Prosseguindo.  O Tesouro precisa emitir títulos - isto é, precisa se endividar - para conseguir financiamento.  Quem compra esses títulos?  Em sua maioria, bancos (também chamados de 'intermediários financeiros', no jargão politicamente correto).  Entretanto, pessoas físicas como você também podem comprar esses títulos diretamente do Tesouro.  Basta ir aqui e se tornar um parasita, vivendo dos juros pagos pelos impostos arrancados do setor produtivo da sociedade...

Digressões à parte, pessoas físicas comprando títulos ainda representam uma exceção - o grosso dos títulos é de fato comprado pelos bancos.  Mas não é qualquer banco que pode comprar esses títulos diretamente do Tesouro.  Apenas 10 têm esse privilégio (Bradesco, Citibank, Banco Do Brasil, Itaú, Banco Safra, Santander, UBS Pactual, Votorantim e Caixa Econômica Federal).  Esses bancos são chamados de Dealers Primários.

Assim, quando o Tesouro decide emitir títulos, ele vai ao 'mercado primário' e vende esses títulos a esses 10 bancos.

Quais são esses títulos?  Existem seis tipos de títulos, que diferem entre si de acordo com seu tipo de rentabilidade: fixa ou variável (ou pré-fixado e pós-fixado, respectivamente).  Eis a seguir uma especificação mais detalhada de cada um deles:

· LTN - Letras do Tesouro Nacional: títulos com rentabilidade definida (taxa fixa) no momento da compra.  Você sabe de antemão quantos reais vai ganhar.  Forma de pagamento: no vencimento;

· LFT - Letras Financeiras do Tesouro: títulos com rentabilidade diária vinculada à taxa de juros básica da economia (a taxa SELIC).  Forma de pagamento: no vencimento; 

· NTN-C - Notas do Tesouro Nacional - série C: títulos com rentabilidade vinculada à variação do IGP-M, acrescida de juros definidos no momento da compra.  Forma de pagamento: semestralmente (juros) e no vencimento (principal);

· NTN-B - Nota do Tesouro Nacional - série B: título com rentabilidade vinculada à variação do IPCA, acrescida de juros definidos no momento da compra.  Forma de pagamento: semestralmente (juros) e no vencimento (principal);

· NTN-B Principal - Nota do Tesouro Nacional - série B: título com rentabilidade vinculada à variação do IPCA, acrescida de juros definidos no momento da compra. Não há pagamento de juros semestrais. Forma de pagamento: no vencimento (principal);

· NTN-F - Nota do Tesouro Nacional - série F: título com rentabilidade prefixada, definida no momento da compra. Forma de pagamento: semestralmente (juros) e no vencimento (principal).

Alguns detalhes:

Observe que, com exceção da LFT, todos os outros títulos têm seus juros definidos no momento da compra (a única variável é o índice de inflação, utilizado para a correção monetária). 

A LTN, por sua vez, é um título cujo valor de resgate é o seu valor de face (R$1.000 ou um múltiplo de 1.000).  Ou seja, você o compra por um determinado valor (sempre menor que seu valor de face) e, na data de seu vencimento, o Tesouro vai lhe pagar exatamente o valor de face do título (R$1.000 ou seu múltiplo).  Os mais aficionados podem se informar melhor aqui.

Até agora, tudo bem?

Resumindo tudo: o Tesouro emite vários tipos de títulos que são comprados pelos bancos.  Uma vez em posse dos bancos, esses títulos podem ser livremente comercializados entre si (algo que veremos mais à frente), porém eles somente serão resgatados pelo Tesouro (isto é, serão retirados do mercado, após o pagamento do principal e juros) na sua data de vencimento.  Quando esses títulos são leiloados pelo Tesouro, já se sabe de antemão (exceto para as LFTs) quais serão os juros que o Tesouro terá de pagar aos compradores dos títulos. Vale repetir, a única variável será o índice de inflação utilizado em cada título como forma de correção monetária.

O Banco Central não participa dessas vendas no mercado primário (até maio de 2002 ele podia emitir títulos próprios; hoje, não pode mais.  Todos os seus títulos já foram resgatados).  Ele vai atuar apenas no mercado secundário, do qual falaremos adiante.  Além disso, sua atuação não vai alterar o fluxo dos juros pagos pelo Tesouro aos portadores dos títulos (exceto, novamente, no caso das LFTs, cujo rendimento é sim alterado pelas ações do Banco Central).  O fluxo de juros de cada título (exceto para as LFTs) é determinado no leilão primário.  Atuações posteriores do Banco Central não vão gerar alterações no montante de juros pagos aos portadores desses títulos.

Observe que, até agora, o Banco Central não entrou na história.  Apenas o Tesouro e os bancos participaram do esquema.

O COMPULSÓRIO 

Façamos aqui um pequeno porém extremamente importante paralelo.  

A única entidade que goza do monopólio da emissão de moeda é o Banco Central.  Embora seja o Banco Central a única entidade que cria a moeda física (as cédulas e moedinhas metálicas que utilizamos no dia a dia), o sistema bancário é capaz de, literalmente, criar de dinheiro do nada, algo que os economistas chamam de moeda escritural.  Trata-se de dinheiro 'fictício', pois não existe fisicamente.  São apenas números eletrônicos.

Funciona assim: João deposita R$ 10.000 em sua conta-corrente no Banco A.  João pode até achar que esses R$ 10.000 ficarão ali parados, como um carro em um estacionamento pago, mas não ficarão.  Como o sistema bancário é de reservas fracionárias, os bancos mantêm como reservas apenas parte do dinheiro que neles foi depositado.  Assim, o Banco A vai guardar uma parte desse dinheiro (digamos, R$ 3.000) e emprestar o restante (R$ 7.000) para José.  José vai gastar esse dinheiro de alguma forma, e ele (o dinheiro) inevitavelmente acabará sendo depositado em outro banco, o Banco B.  O Banco B vai guardar uma parte desse dinheiro (digamos, R$ 2.100) e emprestar o restante (R$ 4.900) para Antônio, que adotará o mesmo procedimento de José, dando assim continuidade ao ciclo.  Ao mesmo tempo em que o dinheiro de João foi sendo "passado adiante", o próprio João continua tendo acesso integral a esse mesmo dinheiro (que é seu), seja emitindo cheques ou utilizando cartão de débito.  Dessa forma, os R$ 10.000 iniciais se multiplicaram.

A porcentagem que cada banco teve de guardar (no exemplo acima, 30% do valor do depósito) é determinada pelo Banco Central.  Essa porcentagem é chamada de depósito compulsório.  Os bancos são obrigados a depositar essa quantia junto ao Banco Central.  Trata-se de um mecanismo de controle da expansão monetária.  Quanto menor for essa porcentagem, maior será a quantidade de dinheiro que os bancos podem criar via empréstimos.  Os bancos criam dinheiro (eletronicamente) em uma quantia que é inversamente proporcional à taxa do compulsório.  No Brasil, o compulsório está atualmente em 28%, o que significa que os bancos podem criar dinheiro no valor de até 3,6 vezes o total de reservas compulsórias (1/0,28).  Logo, os R$ 10.000 de João acabam virando R$ 36.000.

Caso esse mecanismo ainda não esteja claro, esse texto certamente irá sanar todas as dúvidas remanescentes.  Porém, o essencial desse tópico é entender que os bancos são obrigados a manter no Banco Central, diariamente, uma determinada porcentagem de seus depósitos à vista.

Bom, e daí?  Onde entra a SELIC?  Mais abaixo.

O MERCADO INTERBANCÁRIO

Milhões de operações bancárias são realizadas diariamente em todo o país.  Depósitos, saques e transferências bancárias são as principais. 

Assim, é normal que um determinado banco chegue ao final do dia tendo em suas reservas uma porcentagem menor do que aquela que o Banco Central determina que ele deve ter em relação aos seus depósitos à vista.  Da mesma forma, é normal que um determinado banco chegue ao final do dia tendo em suas reservas uma porcentagem maior do que aquela que o Banco Central determina que ele deve ter em relação aos seus depósitos à vista. 

Por exemplo, peguemos o compulsório vigente no Brasil: 28%.  Se o Banco A, ao final do dia, tiver um total de R$ 100.000 em depósitos à vista, mas suas reservas junto ao Banco Central totalizarem apenas R$ 25.000, então ele terá de conseguir mais R$ 3.000 para "fechar seu balanço".  (Os motivos para ele estar abaixo do limite podem ser vários, principalmente um número de saques maior que o número de depósitos.  Isso, acredite, é extremamente comum).  O Banco A terá duas opções para conseguir esses R$ 3.000:  ele pode recorrer ao próprio Banco Central e pedir um empréstimo (esse empréstimo é chamado de redesconto) ou ele pode pedir emprestado para um outro banco que esteja com excesso de reservas (porque teve um número de depósitos maior do que o de saques).

O mecanismo do redesconto raramente é utilizado, pois os juros são punitivos (justamente para coibir a prática).  Assim, o procedimento mais comum é recorrer ao banco que está com excesso de reservas. 

Esse mercado onde um banco empresta para o outro é chamado de mercado interbancário.  Por lei, o banco que pede emprestado é obrigado a pagar esse empréstimo no dia seguinte.  Assim, se o Banco A tiver de pedir R$ 3.000 emprestados ao Banco B no final de uma segunda-feira, o Banco A é obrigado por lei a pagar principal e juros ao Banco B já na terça-feira. 

E o que é mais importante: como foi explicado lá no início, os bancos possuem títulos que compraram do Tesouro.  Assim, o Banco A, ao pedir R$ 3.000 emprestados para o Banco B, irá dar ao Banco B esses mesmos títulos públicos como garantia (colateral) ao empréstimo.

Em economês, diz-se que esse empréstimo está lastreado em títulos públicos.  Desta forma, o Banco B vai comprar títulos públicos do Banco A, tendo a garantia de que o Banco A vai recomprar esses títulos no dia seguinte, pagando juros.  Como essa operação dura um dia, ela é batizada de overnight - que no economês anglófono significa uma operação financeira com prazo de 24 horas.

O que é realmente importante em tudo isso é a taxa de juros utilizada nesse empréstimo interbancário.  Essa taxa de juros - que um banco cobra do outro no mercado interbancário, para operações de um dia e que possuem lastro em títulos públicos federais - é exatamente a taxa SELIC.

Vou repetir a definição da taxa SELIC, dessa vez utilizando o preguiçoso artifício de recorrer à Wikipédia: a taxa SELIC é a taxa usada para operações de curtíssimo prazo entre os bancos, que, quando querem tomar recursos emprestados de outros bancos por um dia, oferecem títulos públicos como lastro (garantia).

Por exemplo, ontem, dia 4 de agosto, a taxa SELIC foi de 0,032927%. (Você pode acompanhar essas taxas diariamente aqui).  Isso quer dizer que o Banco A teve de pagar ao Banco B, além dos R$3.000, um juro de 0,032927% desse valor - que é igual a R$ 0,99.  Ou seja, em uma operação 100% segura (os títulos são garantidos pelo governo), o Banco B lucrou quase R$ 1 ao emprestar R$ 3.000 por apenas um dia.  (Considerando o volume de empréstimos interbancários que ocorrem diariamente, conclui-se que o negócio não é nada ruim).

Como a taxa SELIC é a taxa de juros para empréstimos de apenas 1 dia, seu valor é pequeno.  Por isso ela é divulgada em termos anuais, tendo como base 252 dias úteis ao ano.  Em termos matemáticos, pegamos o valor da taxa diária, dividimos por 100, somamos um e elevamos o resultado ao expoente 252. 

Fazendo a operação acima para o nosso exemplo, temos que:

(1,00032927)252 = 1,0865 = 8,65%

O que dá uma SELIC anualizada de 8,65%, bem próxima da meta atual do Banco Central, de 8,75%.

Pelo bem da simplificação, utilizamos um exemplo em que havia apenas dois bancos.  É óbvio que, no mundo real, existem vários bancos incorrendo em vários empréstimos mútuos diariamente.  Nesse caso, as taxas variam de um empréstimo para o outro, porém dentro de um intervalo muito pequeno - sendo esse intervalo estritamente controlado pelo Banco Central, como veremos na próxima seção. 

No final do dia, calcula-se a taxa de juros média de todos os empréstimos interbancários.  Essa média é ponderada pelo volume dos negócios que foram realizados nesse mesmo dia. O resultado final será a taxa média SELIC do dia, que normalmente é publicada por volta das 20h00 do próprio dia.  No nosso exemplo, essa taxa média foi de 0,032927%.

Portanto, o que temos até agora: o Tesouro precisa de financiamento.  Ele vende títulos para os bancos.  Esses títulos serão resgatados em uma determinada data.  Simultaneamente, os bancos são obrigados pelo Banco Central a manter um determinado percentual de seus depósitos à vista depositados junto ao Banco Central.  Aqueles que não cumprirem essa meta ao final do dia terão de pedir empréstimos para outro banco que tenha reservas "em excesso".  A taxa de juros desses empréstimos, que têm a duração de 1 dia, é exatamente a taxa SELIC, que é divulgada em termos anualizados.

Ah, sim, o que significa SELIC?  Sistema Especial de Liquidação e de Custódia, que nada mais é do que o sistema informatizado que gerencia todas as operações que envolvem títulos públicos.  Aqui vai um resumo bem básico, porém correto.

AMARRANDO OS PONTOS

Agora só falta amarrarmos as pontas soltas.  Como o Banco Central atua para alterar a SELIC?  Por que ele faz isso?  Quais as consequências?  Qual a relação da SELIC com os juros pagos pelos títulos do Tesouro?  Qual a relação que você como correntista de um banco tem com tudo isso?

Vamos lá.

Existem dois tipos de mercado para os títulos públicos: o primário e o secundário.  O primário é aquele que já foi descrito (bancos selecionados - dealers primários - compram os títulos diretamente do Tesouro); o secundário é aquele que envolve o Banco Central e os bancos (ou qualquer outro agente em posse de títulos públicos).

Quando o Banco Central quer alterar a base monetária - tanto expandi-la quanto contraí-la -, ele precisa realizar aquilo que chamam de operações de mercado aberto (open market), isto é, o Banco Central compra e vende títulos públicos no mercado secundário.  Vale repetir que o Banco Central não emite títulos; ele compra e vende os títulos do Tesouro, que inicialmente estavam em posse dos bancos.

Quando o Banco Central realiza compras no mercado aberto, ele expande a base monetária.  Como?  Grosso modo, ele aperta um botão no computador e acrescenta alguns dígitos na conta (as reservas compulsórias) que o banco que está vendendo os títulos possui junto ao Banco Central.  De onde veio esse dinheiro?  De lugar nenhum.  O Banco Central o criou do nada.  Nenhuma outra conta foi debitada.  A base monetária expandiu magicamente.  Nesse caso, as reservas desse banco aumentaram, o que o permitirá conceder empréstimos a juros menores no mercado interbancário.  Como isso está ocorrendo simultaneamente com vários bancos, os juros do interbancário caem.  Logo, a taxa SELIC caiu.

Quando o Banco Central realiza vendas no mercado aberto, ele contrai a base monetária.  Nesse caso, ele vende para um banco títulos do Tesouro que estavam em sua posse.  Assim, haverá um débito na conta que esse banco comprador tem junto ao Banco Central.  O dinheiro, que é eletrônico, desaparece (é como se a tecla Del fosse apertada).  Portanto, as reservas desse banco diminuíram, o que fará com que ele tenha de pedir empréstimos no mercado interbancário para se manter dentro da porcentagem exigida pelo compulsório.  Como isso está ocorrendo simultaneamente com vários bancos, os juros do interbancário sobem.  Logo, a taxa SELIC subiu.

Já sabemos, portanto, qual o canal de entrada e saída do dinheiro no sistema econômico.  Sabemos também que uma expansão monetária diminui os juros do interbancário (a taxa SELIC), e que uma contração monetária aumenta esses juros.

Até aqui, nada de complicado, certo?

Porém, apenas dizer que expandir ou contrair a base monetária diminui ou aumenta os juros, respectivamente, não é suficiente.  É correto na teoria, porém na prática o Banco Central precisa de instrumentos tangíveis sobre os quais sustentar sua política de determinação de juros.  Por exemplo, se você é o Henrique Meirelles e quer manter a SELIC em 8,75% ao ano, de nada vai adiantar ficar injetando ou retirando dinheiro do mercado, na esperança de que os 8,75% surjam naturalmente.  Você precisa ter uma baliza. 

Por isso, vejamos agora o método operacional do Banco Central.

Os títulos emitidos pelo Tesouro, como mostrado lá no início, podem ser do tipo que promete um único pagamento no vencimento (LTN, LFT e NTN-B Principal), ou do tipo que promete pagamentos múltiplos antes do vencimento e um pagamento no vencimento (NTN-F e NTN-B).  Nesse segundo caso, os títulos são chamados de títulos com cupom.  Os cupons são justamente os pagamentos efetuados pelo Tesouro antes do vencimento do título, sendo que o principal é pago no vencimento.

Por exemplo, imagine que o Tesouro emitiu uma LTN cujo valor de face é R$ 1.000 e seu vencimento se dê em um ano.  O preço de compra desse título vai ser definido pela oferta e demanda.  Suponhamos que o Banco A tenha arrematado o título por R$ 800.  Dali a um ano o Tesouro vai pagar-lhe R$ 1.000.  Sendo assim, esse título está pagando juros de

(1.000 - 800) / 800 = 25% ao ano

Agora suponha que o Banco Central resolveu fazer uma operação de mercado aberto, expandindo a base monetária.  Ele, portanto, vai comprar títulos públicos em posse dos bancos.  Ao fazer isso, está havendo um aumento da demanda por títulos.  Aumento da demanda significa aumento do preço desses títulos.  Assim, um título que foi comprado por R$ 800, agora está sendo negociado a, digamos, R$ 850.  Substitua 800 por 850 na equação acima e você verá que os juros caem para 17,64%.  Ou seja, um aumento da oferta monetária levou a um aumento dos preços dos títulos, o que gerou uma queda dos juros.  Guarde essa regra: se o preço de um título sobe, seus juros caem.

A mesma regra se aplica quando o título é de múltiplos pagamentos.

Por exemplo, imagine que o Tesouro emitiu uma NTN-B prometendo pagamento de cupons de R$ 50 ao ano mais o principal na data do vencimento.  O preço de compra também será definido pela oferta e demanda.  Suponhamos que o Banco A tenha arrematado o título também por R$ 800.  O rendimento atual desse título é a razão entre o cupom e o seu preço.  Portanto, o rendimento inicial será de (50/800) = 6,25%. 

Repetindo a mesma operação de mercado aberto acima, o aumento da oferta monetária fará com que o preço desse título suba para, digamos, para R$ 900.  Logo, (50/900) = 5,56%.  O rendimento atual caiu.

Tudo isso foi apenas para mostrar duas regras essenciais: (1) se o preço do título sobe, o juro cai; se o preço cai, o juro sobe. (2) O Banco Central, através de suas manipulações monetárias, pode determinar o preço em que os títulos serão negociados no mercado intermediário.  E isso é importante para entender o resto da explicação.

Entendido isso, podemos ir para os finalmentes.

O Banco Central opera de uma única maneira: qual deve ser a taxa SELIC (vamos nos abster de qualquer crítica ao esoterismo desse método de determinação) e então faz operações diárias de mercado aberto, comprando e vendendo títulos do Tesouro em posse dos bancos, de modo que a taxa de juros do mercado interbancário fique dentro da meta.  Por exemplo, a meta atual é de 8,75%.  Sendo assim, o Banco Central deve fazer as manipulações monetárias (injeções e retiradas) necessárias para manter a taxa do interbancário o mais perto possível da meta.  Atualmente, a taxa está em 8,65%, como mostrado.

Mas como ele se baliza para isso?

Como mostrado nos dois exemplos acima, cada título público tem um preço, uma data de vencimento e uma taxa de juros associada a ele.  Essa taxa de juros é o rendimento do título.  Em economês mais pedante, rendimento também é chamado de yield.  Rendimentos de títulos com vencimento curto (um ano ou menos) são chamados de taxas de juros de curto prazo.  Os rendimentos de títulos de vencimento mais longo são chamados de taxas de juros de longo prazo.

Em qualquer dia, em qualquer momento, é possível observar os rendimentos de títulos de diferentes vencimentos, exatamente como procedemos nos exemplos numéricos acima.  De posse desses dados, é possível representar graficamente como o rendimento depende do vencimento de um título.  Essa relação entre vencimento e rendimento é chamada de curva de rendimento - yield curve ou até mesmo estrutura a termo das taxas de juros.  O termo usado depende exclusivamente da sua vontade de impressionar.  O importante é frisar que, quando os títulos são considerados conjuntamente, cada um com seu rendimento, eles formam uma curva de rendimento.  A figura abaixo mostra um exemplo de uma curva de rendimento.

84_856-alt-curva-de-juros.JPG

E daí?

Quando o Tesouro emite um título, com um dado juro de cupom e um dado prazo de vencimento (ambos definidos pelo Tesouro), os bancos irão comprá-lo pelo preço determinado pela lei da oferta e procura (trata-se de um leilão).  Através de uma operação matemática - que envolve a capitalização dos juros do cupom - é possível determinar o preço ao qual este título será resgatado.  A função que une o preço inicial do título (o preço pelo qual ele foi comprado) a este seu valor de resgate define a sua curva de rendimento.  Vale enfatizar: o valor de resgate é definido e imutável; o que pode mudar é apenas o preço em que esse título será negociado no mercado secundário.  (Apenas a LFT, que é pós-fixada e indexada à SELIC, tem um valor de resgate variável)

E - eis o grande momento! - a tarefa do Banco Central é operar manipulando os preços dos títulos de modo que eles se mantenham sobre sua curva de rendimento.  (Lembre-se do que foi dito acima: o Banco Central, através de suas manipulações monetárias, pode determinar o preço em que os títulos serão negociados no mercado intermediário).

Se a ficha ainda não caiu: manter os preços dos títulos sobre a sua curva de rendimento é o mesmo que manter os juros constantes.  Assim, o Banco Central, através de suas operações de mercado aberto, compra e vende títulos no mercado secundário de modo a fixar o preço de cada título sobre a curva de rendimento dos títulos.  Ao fazer isso, ele está garantindo que os juros de cada título se mantenham constantes (com pequenas variações, é claro).

Atenção: o rendimento de um título não necessariamente será igual ao rendimento de outro título, o que significa que cada papel paga juros distintos.  A questão não é essa.  O que é importante é que o Banco Central é capaz de fazer as manipulações monetárias necessárias para que cada papel seja precificado de modo a se manter sobre a curva de rendimento dos títulos.

São esses papeis que serão utilizados como lastro no mercado interbancário, de modo que a taxa SELIC determinada pelo Banco Central seja mantida.  Afinal, se todos os papeis têm juros constantes - em decorrência das manipulações monetárias do Banco Central -, e esses papeis de juros constantes são utilizados como lastro nos empréstimos interbancário, então resta claro que o Banco Central pode determinar a taxa de juros cobrada no mercado interbancário.  E essa taxa é a taxa SELIC. 

Se ele quiser aumentar a SELIC, ele vai vender títulos em sua posse.  Essa maior oferta irá deprimir os preços dos títulos, fazendo com que os juros aumentem.  Uma vez atingida a nova taxa, ele se limita a manter a nova curva de rendimento dos títulos.  Se ele quiser diminuir a SELIC, ele faz o oposto: compra títulos.  A menor oferta irá aumentar os preços dos títulos, fazendo com que os juros diminuam.  (Porém ele não pode diminuir os juros abruptamente, como quer Heloísa Helena, pois isso depende da confiança dos compradores.  Se eles acharem que uma expansão monetária irá gerar uma grande inflação, ninguém irá comprar os títulos não indexados, o que fará com que seus preços caiam, e os juros subam.  Ou seja: a tentativa de diminuir os juros acabou levando a um aumento).

Vale re-enfatizar: o Banco Central determina uma meta para a taxa SELIC, ele não determina a taxa exata.  É por isso que a taxa SELIC efetiva pode apresentar ligeira diferença da taxa oficial divulgada pelo Banco Central - a taxa efetiva atual é de 8,65% e a meta é de 8,75%.

Outra conclusão importante: ao utilizar essa regra operacional - em que os juros são fixados -, o Banco Central não pode determinar a quantidade exata de moeda que ele quer na economia.  Ele faz as operações de mercado aberto de modo a manter a taxa SELIC constante, mas ele não determina a quantidade específica de moeda para a economia.  Diz-se nesse caso que a moeda é endógena.

CONCLUSÃO

Sei que o final pode ter ficado um pouco pesado, mas creio que a ideia básica foi entendida.  Como disse no início, o funcionamento do processo é simples, porém trabalhoso.

No próximo artigo, além de discutirmos as perguntas feitas lá em cima e que ainda não foram respondidas, vamos também adentrar um terreno bem espinhoso: uma política monetária austera realmente exige juros altos ou é possível ter juros baixos e pouca inflação de preços?  Eis o debate infindável entre keynesianos, monetaristas e austríacos.

Clique aqui para ir para a continuação.

Leandro Roque é o editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.


80 comentários
80 comentários
Juliano Torres 05/08/2009 10:29:20

Leandro, excelente artigo! Está claro para qualquer pessoa agora o que é a SELIC e como funciona o nosso sistema monetário. Sei que você não teve pretensão de criticar o sistema nesse artigo, mas a simples leitura faz com que a pessoa veja que tem algo de errado com esse sistema "mágico".

Responder
Núbia 05/08/2009 11:26:07

Apenas um comentário, Le: nos Estados Unidos, o redesconto não é punitivo e é super normal os bancos recorrerem ao FED para fecharem a conta. Já no Brasil, recorrer ao BC é pedir para que o mercado suspeite da liquidez e capacidade de pagamento da instituição. Mas, muito bom o texto, parabéns!

Responder
Rafael Hotz 05/08/2009 12:48:37

mandou bem, só o deslize keynesiano no começo ("o preço do dinheiro.") ficou feio, rs...

Responder
Leandro Roque 05/08/2009 20:15:55

Prezados, obrigado pelas palavras.\n\nSó um detalhe: o redesconto, em todo lugar, é sim um mecanismo de juros arbitrariamente punitivo, inclusive nos EUA. Acontece que, com a crise e a consequente contração do crédito - e com os malucos keynesianos que estão no controle do Fed - aquela instituição adotou o até então inédito recurso de igualar os juros do redesconto aos juros "SELIC" deles (que lá se chama Federal Funds Market Rate).\n\nCom isso, tornou-se comum os bancos recorrerem ao redesconto. Mas, repito, trata-se de algo atípico.

Responder
Frederico Luna 05/08/2009 20:27:14

Muito esclarecedor o texto! Parabéns!

Responder
Roberto Chiocca 06/08/2009 12:08:30

Ficou um pouco nebulosa a introduçao da "curva de rendimento" no texto, acredito que não tenha ficado muito bem explicado oque ela significa, nem como os juros não mudam com o preço do titulo mudando.

Responder
Leandro Roque 06/08/2009 12:35:36

Espere aí. Se o preço do título muda, os juros também mudam! Pô, tem dois exemplos matemáticos mostrando isso... O que você pode estar confundindo é o fato de que o fluxo de juros pagos pelo Tesouro sobre um determinado papel não se altera (exceto para as LFT). Afinal, os valores das parcelas que serão pagas são acordados no leilão.

Responder
Camyla 06/08/2009 12:35:41

Excelente artigo, bastante esclarecedor, há tempos procurava esta informação, mas só achava conceitos um tanto abstratos. Com o artigo, consegui esclarecer algumas dúvidas e entender como funciona na prática a Selic e outros aspectos do sistema financeiro. Parabéns.

Responder
Marco Aurélio 12/08/2009 06:29:43

De uma clareza e didatismo excepcionais.\n\nO senhor deveria ser político. Parabéns.

Responder
Leandro Roque 12/08/2009 20:59:28

Prezado Marco Aurélio, obrigado pela gentileza. Porém, parodiando Bruce Willis em Duro de Matar 2: "Não é essa a carona que eu quero!"

Responder
neusa alves 28/08/2009 20:12:07

Ótimo artigo, muito esclarecedor,agora entendi um pouco mais como funciona a Selic e outros instrumentos da política monetária.Aguardo outros artigos.

Responder
raduán 09/09/2009 04:23:46

entendi errado(http://www.tesouro.fazenda.gov.br/tesouro_direto/perfil_investimento.asp) ou no NTN-F, o resgate é o seu valor de face. (como no LTN) grato.

Responder
raduán 09/09/2009 04:36:54

esclarecido já.. interpretei errado.. nada que uma releitura nao resolvesse.. grato.

Responder
Fabio 21/09/2009 11:07:08

Como as pessoas gostam de complicar este tema! Nada como um jeito prático para entender a tx selic. Esta foi a pergunta que eu fiz para meu professor na sala de aula no 5 semestre e ele se negou a responder...acho que não é tão óbvio assim... Obrigado e parabéns pelo artigo!

Responder
Marcelo 03/02/2010 15:59:25

Bem didático.\nSó não gostei da pecha de parasita...\nJá que o governo come tudo, temos que fazer o dinheiro render, ora pois. Nãoéquié? \nEis aí um paradoxo.

Responder
Antonio Lunes 12/04/2010 09:37:53

Otimo artigo.

Responder
Caio Augusto 19/04/2010 17:35:16

Ótimo artigo, Leandro! Um dos melhores que eu já li aqui... você sabe dizer se o mecanismo é semelhante nos Estados Unidos?

Responder
Leandro 20/04/2010 01:03:53

Obrigado, Caio. Sim, nos EUA funciona da mesma forma. Afinal, foi deles que copiamos.

Abraços

Responder
Caio 12/06/2010 12:36:12

Leandro... Eu gostaria de saber se esse é o único método que o BC utiliza para manipular a taxa de juros?? se existir outro metódo, gostaria de saber qual é o mais utilizado, principalmente em relação ao caso americano: Foi através das operações de "Open Market" que o Fed forçou a taxa de juros pra baixo durante os anos anteriores à crise??

Abraços!

Responder
Leandro 13/06/2010 04:08:29

Caio, quando se entende que a taxa básica de juros nada mais é que a taxa em que os bancos emprestam entre si no interbancário, fica fácil entender que há três maneiras de manipular essa taxa:

1) Operação de mercado aberto (Open Market), que é a mais utilizada;

2) Alteração do compulsório;

3) Alteração da taxa de redesconto (taxa a que o BC empresta aos bancos para que estes mantenham suas reservas no nível determinado pelo compulsório)

No caso americano, os juros baixaram majoritariamente por causa de operações de open market -- o Fed injetou grandes quantias de dinheiro após o 11 de setembro, continuou fazendo isso após o início da guerra do Iraque, e só começou a reverter a trajetória por volta de 2005, quando os juros voltaram a subir mais rapidamente. Essa subida de juros estourou a bolha. Não sei se você se lembra, mas foi em julho de 2007 que a coisa realmente começou a ficar feia nas bolsas. A partir daí, os dominós apenas continuaram caindo.

Responder
Stefan Carrao 16/06/2013 04:37:26

Leandro
Por favor, o que você quer dizer com mercado "intermediário"?

Responder
Caio 14/06/2010 02:18:26

Lembro sim, Leandro... E mais uma vez, muito obrigado!

Responder
Renato 22/06/2010 22:58:02

"Quando o Banco Central realiza compras no mercado aberto, ele expande a base monetária. Como? Grosso modo, ele aperta um botão no computador e acrescenta alguns dígitos na conta (as reservas compulsórias) que o banco que está vendendo os títulos possui junto ao Banco Central. De onde veio esse dinheiro? De lugar nenhum. O Banco Central o criou do nada. Nenhuma outra conta foi debitada. A base monetária expandiu magicamente." Não seria o dinheiro das reservas do banco central utilizada pra isso?? e pq naum??? a minha pergunta é... de onde vem o dinheiro utilizado pelo banco central na negociação de titulos do tesouro no mercado secundario? de acordo com o q li neste trecho foi criado do nada porém o banco central possui reservas... pq naum usa-las?? e quando o banco central vende titulos?? esse dinheiro num eh creditado à conta do banco central?? simplesmente desaparece?? se sim pq??

Responder
Tiago RC 23/06/2010 09:26:04

@Renato,

As reservas normalmente são de outras moedas ou às vezes commodities, se eu não me engano.

Mas o banco central brasileiro é o único emissor autorizado de reais, por lei. Ele pode sim criar reais do nada, e destruí-los também. Pelo menos foi bem isso que eu entendi do artigo... quando ele quer comprar títulos, cria dinheiro. Quando vende, tanto faz "destruir" ou guardar num cofre pra não ter gastos de impressão quando for usar de novo, dá na mesma, é dinheiro sendo tirado de circulação. É coerente dizer que ele "destrói" já que no final das contas é tudo informação digital, não devem usar papel pra essas transações.

E basta ver os gráficos que mostram a base monetária pra ver que ela expande sim... se sempre que eles comprassem títulos usassem uma reserva previamente existente, a base monetária seria constante. Eles criam dinheiro do nada sim.

Responder
Leandro 23/06/2010 09:54:51

Renato, apenas fazendo alguns adendos ao Tiago:

Em primeiro lugar, é preciso saber o que você quer dizer com 'reservas'. Se for as reservas internacionais, não, o BC não compra títulos públicos com dólares, euros, francos suíços, ienes etc, simplesmente porque de nada adianta injetar essas moedas na economia: não podemos utilizá-las como meio de troca.

Por outro lado, ele pode vender essas moedas em troca de reais e aí utilizar esses reais para adquirir esses títulos, o que seria um processo não inflacionário. Só que isso não surtiria o efeito desejado sobre a taxa de juros (não está havendo alteração da base monetária) -- e manipular a taxa de juros é justamente a intenção do BC, não se esqueça.

Quanto à sua pergunta principal (de onde vem o dinheiro utilizado pelo banco central na negociação de títulos do tesouro no mercado secundário?): Ele vem exatamente de onde o texto diz que vem: do nada! O BC simplesmente cria dígitos nas contas desses bancos. É tudo eletrônico. As cifras vêm do éter.

Se você achou estranho e está surpreso, não se preocupe. Essa é exatamente a reação inicial de todos que passam a pensar nesse assunto (em minha opinião, o mais importante da economia). No íntimo, as pessoas, ao entenderem isso, percebem que estão sendo espoliadas, que o governo está roubando acintosamente poder de compra delas para benefício próprio e do sistema bancário. E as pessoas sempre acham estranho quando descobrem que estão sendo roubadas sem perceber. Daí o seu susto.

Quando o BC vende títulos, esse mesmo dinheiro eletrônico que ele criou na conta dos bancos (conta essa que os bancos têm junto ao BC, e que se chama compulsório) é simplesmente deletado. De novo, é tudo eletrônico.

Ademais, não existe algo como "uma conta do banco central". Os bancos têm conta no BC, mas o BC não tem conta com ninguém. Portanto, não faz sentido isso de "creditar na conta do BC". Ele é o senhor do sistema monetário. É ele quem cria a base monetária e a manipula.

E como o Tiago corretamente apontou, a base monetária está em constante expansão. Portanto, na soma total, o BC adiciona moeda à economia ano após ano. Sempre. Ele sequer mantém um valor constante.

Responder
Rhyan Fortuna 23/06/2010 20:47:38

A criação é sempre eletrônica? Qual a função da casa da moeda? \r
Quando se diz que a impressora do governo está sendo muito usada, fala-se de dinheiro físico ou eletrônico?

Responder
Renato 24/06/2010 00:58:59

sim... entendi tudo isso e inclusive ja ateh tinha conhecimento dos meio de criação de dinheiro, por isso não me espantei.. o que gostaria de saber é se o dinheiro quando da venda vai pra alguma conta do tesouro ou se ele desaparece de fato

"...adquirir esses títulos, o que seria um processo não inflacionário. Só que isso não surtiria o efeito desejado sobre a taxa de juros"

explica melhor isso... no meu entendimento esse dinheiro não estaria a disposição do mercado antes da compra e por isso com a compra aumentaria o volume da moeda o q acarretaria numa mudança na taxa de juros ou eu to deixando de ver alguma coisa???

Muito grato pelas respostas e parabens principalmente pela rapidez...

Responder
Leandro 24/06/2010 11:13:07

Rhyan, essa operação de compra e venda de títulos, que ocorre instantaneamente, é totalmente realizada por meios eletrônicos.

Porém, a casa da moeda imprime diariamente. Afinal, a rede bancária precisa manter seus caixas automáticos, que estão espalhados por todo o Brasil, constantemente cheios, bem como é também do BC a incumbência de trocar cédulas desgastadas por cédulas novas.

Finalmente, e principalmente, sempre tem aqueles clientes (uns chatos) que vão aos bancos sacar grandes quantias de dinheiro. Você, que a julgar pelo sobrenome é um sujeito endinheirado, sabe bem disso: se você chegar no seu banco sem qualquer aviso anterior e pedir para sacar 100 mil da sua conta, o gerente vai te chamar pra tomar um cafezinho, comer um brioche, um caviar e até mesmo uma lagosta. No final, ele vai te convencer a voltar dali a uns dois dias, pois obviamente o banco não vai ter aquela quantia toda em moeda para lhe dar. Ato contínuo, o banco vai informar ao banco central que, por sua vez, dará ordem de impressão de cem mil reais para a casa da moeda, que fica no distrito industrial de Santa Cruz, no Rio de Janeiro. O dinheiro vai pra São Paulo e é transportado de carro-forte até o seu banco. Em dois dias, você poderá sacar tudo.

No mais, quando se diz impressora do governo, está-se referindo primordialmente à criação eletrônica de dinheiro. Porém esta sempre acaba gerando a criação física de dinheiro.



Renato, se o BC vende moeda estrangeira e adquire reais em troca, esses reais que ele adquire estavam na economia. Ele não teve de criá-los. Foi simplesmente uma troca, como se você trocasse figurinhas com seu vizinho. Ao fazer isso, a quantidade total de figurinhas não se altera.

Após ter vendida moeda estrangeira e adquirido reais em troca, o BC vai (no exemplo dado) simplesmente utilizar esses reais e comprar títulos. Ou seja, os reais saíram de um lugar e foram pra outro. Não houve alteração da quantidade total de moeda. Mas houve, sim, alteração do câmbio. Como houve venda de dólares que até então estavam em posse do BC, a tendência é que haja uma desvalorização do dólar - dólar fica mais barato em relação ao real.

Por fim, já que você tocou no assunto, vou aproveitar para fazer uma retificação: no processo acima (venda de dólares por reais para a consequente compra de títulos públicos), embora não esteja havendo alteração da quantidade de reais na economia, pode sim haver uma alteração nos juros. Como está havendo uma maior demanda por títulos públicos, os juros tendem a cair.

Só que os juros cairão ao preço de uma apreciação cambial (desvalorização do dólar), algo que irrita o setor exportador, sempre poderoso.

Responder
Caio 26/10/2010 01:33:31

Leandro... Ficaria muito grato se você(ou qualquer um que esteja disposto) me explicasse como o nível de gastos do governo e o volume de entrada de moedas extrangeiras no país influenciam a taxa básica de juros.

Responder
Leandro 26/10/2010 10:52:16

Prezado Caio,

Há duas maneiras de você entender como os gastos do governo elevam a taxa básica de juros.

1) Primeiro cenário: quando o governo gasta, ele está consumindo bens que estão no mercado. Esse consumo faz com que haja menos bens disponíveis para o restante da população. Essa escassez de bens provocará uma inflação de preços desses bens. E tal inflação de preços fará com que os juros sejam maiores -- ou, ao menos, fará com que o Banco Central pense em elevar os juros para conter essa inflação.

Esse é um cenário cuja atuação do BACEN não faz muito sentido, pois o culpado dessa carestia são os gastos do governo, e não necessariamente a demanda da população.

Um cenário em que os gastos do governo são altos e os juros, idem, é o pior dos mundos. As pessoas deixam de consumir por causa dos juros, porém o governo entra em cena e consome o que não está sendo consumido pela população. Isso impede que ela possa usufruir uma maior abundância de bens no futuro, assim como se aproveitar dos preços que consequentemente seriam mais baixos por causa dessa maior oferta.

E como sempre está havendo déficits orçamentários, o governo ainda recorre à poupança da população para se financiar, o que impede que haja crédito disponível para investimentos privados, intensificando ainda mais a escassez de bens produzidos.

Logo, o sacrifício que a população faz em decorrência dos juros altos (poupança é igual a sacrifício) é anulado pelos gastos e déficits do governo, o que significa que a população se abstém de consumir e não obtém benefício algum desse esforço. A sensação de privação causada pelo governo é intensificada.

Comentei melhor essa situação nesse artigo: www.mises.org.br/Article.aspx?id=297



2) Segundo cenário: como o governo gasta muito, ele raramente consegue se financiar apenas por impostos, o que obriga o Tesouro a vender títulos para obter mais recursos. Essa venda de títulos faz com que os investidores exijam juros mais altos para poder financiar o governo, o que acaba fazendo com que a taxa básica de juros seja mais alta (o artigo explica toda essa sequência de eventos).

Caso todos os gastos do governo fossem cobertos pelos impostos -- isto é, caso o governo não incorresse em déficits --, então o Tesouro não teria de ficar vendendo papeis, e consequentemente a taxa básica seria menor.


Esse aumento da taxa básica de juros provoca uma entrada de capitais estrangeiros, que vêm pra cá justamente para comprar títulos e ganhar com esses juros mais altos. Portanto, juros altos atraem capitais estrangeiros e, consequentemente, valorizam o real.

Responder
Fernando 07/01/2011 16:01:26

De tudo que pesquisei na internet, esse artigo é o mais aprofundado sobre funcionamenro bancário e taxa de juros. Leandro Roque, você poderia indicar livros que te ajudaram a ter esse tipo de conhecimento?

Muito Obrigado

Responder
Leandro 10/01/2011 12:59:58

Prezado Fernando, grato pelo elogio. Bom, por incrível que pareça, as bases de tudo o que foi escrito nesse artigo sobre sistema bancário e taxa de juros pode ser encontrado em qualquer livro-texto de macroeconomia. As partes mais detalhadas de fato exigem um estudo mais aprofundado e eu não saberia indicar livros específicos sobre isso.

Meu conhecimento veio de leituras dispersas, além de palestras e artigos de autoridades monetárias, além das informações contidas no próprio site do Banco Central.

É preciso, acima de tudo, ter curiosidade e correr atrás da informação.

Grande abraço.

Responder
Giovani 06/08/2014 19:24:58

Leandro,

mas além das leituras, tu és formado em economia?

Responder
André Ramos 21/01/2011 11:49:28

Leandro, parabéns mais uma vez!
Uma dúvida: quem decide - e com base em que critérios - quem são os "dealers primários"?

Responder
Leandro 21/01/2011 11:57:19

Prezado André, muito agradecido.

Quem decide é o próprio Banco Central, e com base em critérios que ele próprio define, é claro.

Veja mais aqui:

www4.bcb.gov.br/gci/Focus/M20030516-Sele%C3%A7%C3%A3o%20de%20Dealers.pdf

Abraços!

Responder
Fernando 22/01/2011 23:50:30

Oi Leandro,

1-Imagine um país sem dinheiro. E a partir desse sistema deveria distribuir dinheiro na economia, como seria feito isso? Do zero.

2-Imagine um país sem dinheiro. Como seria o SEU sistema monetário do zero? Do seu jeito, como ele seria?

Muito Obrigado, eu gosto de ler seus escritos.

Responder
Leandro 27/01/2011 18:28:17

Caro Fernando,

Isso já aconteceu várias vezes na história da humanidade. As pessoas sempre tendem a escolher como dinheiro aquela mercadoria que é a mais comercializável dentre todas. E isso vale tanto para as grandes sociedades quanto para lugares fechados e com poucas pessoas, como penitenciárias.

Nas sociedades, ouro e prata sempre acabavam se sobressaindo (porém coisas como algodão, tabaco, açúcar, sal, gado, cobre, pregos, cereais, conchas, anzois etc. também já foram utilizadas como dinheiro). Nas penitenciárias, os condenados sempre conseguem desenvolver um comércio interno entre eles, e quase sempre a moeda utilizada como meio de troca é o cigarro. Tudo voluntária e espontaneamente.

Portanto, essas suas duas perguntas não fazem sentido. O dinheiro (sistema monetário) será escolhido espontaneamente pelas pessoas, que voluntariamente começarão a utilizá-lo. Da mesma forma, como será a distribuição inicial desse dinheiro entre as pessoas é algo impossível de se imaginar ou planejar, a menos que se queira de fato criar uma sociedade totalmente planejada desde o início, com ditadores escolhendo quem vai começar com mais dinheiro e quem vai começar com menos.

Grande abraço.

Responder
Marcelo 27/01/2011 18:56:50

Leandro, ele não teria confundido "dinheiro" com "papel moeda"? Pois se considerarmos "dinheiro" como o meio de troca mais comum entre as pessoas, é impossível uma sociedade sem "dinheiro", não?

Abraços.

Responder
Leandro 27/01/2011 19:18:32

É impossível, sim, Marcelo. É o dinheiro que permite a completa divisão do trabalho, que é o que realmente acelera a criação de riqueza.

Porém, como dito acima e como já explicado por Mises (teorema da regressão), o dinheiro sempre surgirá naturalmente no mercado. E é a partir daí que ele evoluirá até sua presente forma. O dinheiro de papel monopolizado pelo estado só existe e é aceito porque ele começou tendo lastro em commodities (ouro e prata). E se manteve assim até o dia em que tal laço foi totalmente cortado.

Não fosse esse histórico, uma moeda de papel criada do nada pelo governo jamais seria aceita, simplesmente porque ela não teria qualquer base histórica para ajudar a fazer o cálculo de preços.

Esqueci de linkar no meu comentário anterior o seguinte artigo, que ajuda a esclarecer essa questão:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=209

Responder
Fernando 29/01/2011 04:45:29

Realmente estou com uma dificuldade tremenda de ver o sistema monetário funcionando, Se vc puder indicar qualquer coisa (video, texto de internet, livro, audio, nome de pessoas) , ou palavras-chave para pesquisa eu realmente ficaria muito agradecido. Dinheiro é uma coisa engraçada, todo mundo quer e ninguém sabe o que é.

Responder
Fernando 13/02/2011 16:15:26

Oi, gostaria de saber onde que o Tesouro Direto entra nessa história, se é no mercado primário unindo investidores de pessoa física com o Tesouro ou se é no mercado secundário no mercado aberto.
E tendo respondido isso queria saber como isso se relaciona com a seguinte afirmação extraída do site do Tesouro:
"Ao investir no Tesouro Direto você está, ao mesmo tempo, garantindo seu futuro e fortalecendo a economia do País"
"haverá um aumento considerável na formação de poupanças de longo prazo".

Muito Obrigado

Responder
Leandro 13/02/2011 16:54:17

Prezado Fernando, o Tesouro Direto atua no mercado primário.

Quanto às afirmações extraídas do site do Tesouro, aquela que diz que você está "fortalecendo a economia do País" trata-se de óbvia desinformação governamental; propaganda falsa mesmo. A intenção é dizer que, ao ajudar a financiar a gastança do governo (isto é, ao emprestar dinheiro para o governo cobrir seu déficit), você estará melhorando a economia do país.

Algo que obviamente não faz sentido, pois você estaria melhorando a economia do país caso estivesse emprestando sua poupança para investimentos privados produtivos, e não para o governo poder pagar seus funcionários e seus grupos de interesse favoritos. Ao emprestar dinheiro para o governo, e consequentemente alimentar sua gastança, você está destruindo a economia do país, pois, dentre vários outros males, os gastos do governo provocam escassez de bens disponíveis para o consumo dos cidadãos comuns, aumentando os preços destes.

Quanto ao "garantir seu futuro", a ideia é dizer que, ao aplicar em títulos do governo, você terá rendimentos garantidos, o que é verdade -- dado que o governo, que tem o poder da tributação, sempre poderá arrancar dinheiro de terceiros para quitar esse empréstimo que você fez a ele. (Sendo essa outra consequência maléfica dos gastos do governo: a necessidade de maior tributação).

Quanto à "formação de poupança de longo prazo", você de fato terá mais dinheiro no futuro, como dito acima; mas esse seu dinheiro futuro estará sendo arrancado do setor produtivo da sociedade. Ou seja, a sua melhora financeira se dará por meio da piora de terceiros, que são aqueles que estão sendo tributados para quitar a dívida do governo para com você. Portanto, a sua poupança financeira aumenta; mas a poupança de todo o resto da população diminui.

Ademais, como dito, o fato de você dar dinheiro para o governo sair gastando significa que haverá menos bens disponíveis para o consumo. E isso por dois motivos:

1) Ao emprestar para o governo um dinheiro que você poderia emprestar para o setor produtivo, você encarece os juros. Isso impede investimentos que aumentariam a quantidade de bens disponíveis na economia;

2) Ao dar dinheiro para o governo sair gastando, esse consumo do governo irá reduzir a quantidade de bens disponíveis na economia para o consumo das pessoas, amplificando o problema do item 1.

Portanto, não há escapatória: financiar o governo de modo algum pode aumentar a poupança da sociedade.

Logo, o site do Tesouro está mentindo descaradamente -- embora de maneira consciente, pois sua função é despertar algum espírito patriótico nas pessoas e, por meio disso, conseguir dinheiro.

Responder
Leandro Rousselet 29/03/2012 17:07:15

Ola parabens pelo artigo, muito esclarecedor. Mas algumas coisas nao ficaram clara para mim:
- Depois que o Banco Central compra os titulos publicos dos bancos, o tesouro ainda tem que compra-los do Banco Central na data do vencimento? Pergunto isso pois em caso afirmativo a recompra dos titulos por parte do tesouro iria reduzir a quantidade de moeda na economia, correto?
- E' possivel, pelo menos em teoria, que o Banco Central numa tentativa de elevar os juros, venda todos os titulos publiicos em sua posse e fique impossibilitado de continuar atuando no mercado com o objetivo de elevar os juros uma vez que esse ja tera se desfeito de todos os titulos em sua posse? Nesse caso, quais seriam as outras alternativas? Elevacao do compulsorio?


E tambem gostaria de saber se existe alguma leitura recomendada sobre essa questao.

Obrigado desde ja.

Responder
Leandro 29/03/2012 17:36:37

Xará, obrigado.

1) Quando os títulos estão em posse do BC, eles continuam coletando juros normalmente. Isso mesmo, o Tesouro coleta impostos e os repassa ao BC. É uma entidade estatal alimentando outra entidade estatal com o nosso dinheiro. Porém, quando um título em posse do BC vence, ele simplesmente rola este título. Como especificado pela Lei de Responsabilidade Fiscal, artigo 39:

Art. 39. Nas suas relações com ente da Federação, o Banco Central do Brasil está sujeito às vedações constantes do art. 35 e mais às seguintes:

I - compra de título da dívida, na data de sua colocação no mercado, ressalvado o disposto no § 2o deste artigo;

§ 2o O Banco Central do Brasil só poderá comprar diretamente títulos emitidos pela União para refinanciar a dívida mobiliária federal que estiver vencendo na sua carteira.

Se o Tesouro recomprasse o título, de fato haveria uma redução da oferta monetária. Mas isto não seria problema algum, pois o BC poderia imediatamente utilizar este dinheiro para comprar mais títulos em posse do sistema bancário, restabelecendo assim a oferta monetária anterior.


2) Possível, é. Mas é bastante improvável. Mesmo porque o BC também pode vender outros ativos, como reservas internacionais, ouro ou qualquer outro papel que os bancos aceitem. Ademais, ele pode criar dinheiro quando quiser para adquirir novos títulos em posse dos bancos. Porém, caso este seu cenário extremo de fato ocorresse, e o BC nada mais tivesse para vender, aí sim, sobraria a elevação do compulsório e também da taxa de redesconto.


3) Bom, eu recomendaria os seguintes artigos:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=311
www.mises.org.br/Article.aspx?id=961
www.mises.org.br/Article.aspx?id=1108
www.mises.org.br/Article.aspx?id=593
www.mises.org.br/Article.aspx?id=705


Abraços!

Responder
Leandro Rousselet 29/03/2012 18:06:53

Ta' legal.. Muito obrigado, acho que entendi. Mas sendo assim toda expansao monetaria esta lastreada por titulos publicos?
E de novo, considerando um caso de extrema auteridade onde o que o tesouro paga ao Banco Central seja muito maior do que as compras de titulos por parte do Bacen, nao iriamos ter uma constante reducao da oferta monetaria atraves do tempo? Ainda que o Banco Central comprasse novos titulos, uma hora os titulos estariam quase todos fora do mercado. E isso nao seria bastante danoso? Entendo que uma uma reducao da oferta monetaria causada por uma desalavancagem do sistema em funcao de taxas de juros arificialmente baixas e' benefico para economia, mas a principio tambem me parece bastante danoso uma reducao constante da oferta monetaria durante um longo perido.

Obrigado de novo e parabens pelo trabalho de todos voces do Mises Brasil.

Responder
Leandro 29/03/2012 19:56:21

"Mas sendo assim toda expansao monetaria esta lastreada por titulos publicos?"

Correto. Toda ela. Por isso que dizem que nosso dinheiro é baseado em dívida. E é verdade.

"E de novo, considerando um caso de extrema auteridade onde o que o tesouro paga ao Banco Central seja muito maior do que as compras de titulos por parte do Bacen, nao iriamos ter uma constante reducao da oferta monetaria atraves do tempo?"

Sim, muito embora, como dito acima, não haveria motivo algum para isto ocorrer. O BC rola os títulos vincendos em sua posse.

"Ainda que o Banco Central comprasse novos titulos, uma hora os titulos estariam quase todos fora do mercado. E isso nao seria bastante danoso?"

Não entendi muito bem o que você quer dizer com "títulos fora do mercado". Porém, no extremo, se o BC ficar sem títulos, ele perde um terço de sua capacidade de fazer política monetária restritiva. Sobram o compulsório e a taxa de redesconto (embora essa exerça pouca influência).

Por fim, redução constante da oferta monetária de fato não é algo benéfico para a economia e, por motivos óbvios, não é algo perseguido por nenhum BC como político de longo prazo.

Grande abraço e obrigado pelos elogios!

Responder
Pedro Valadares 05/06/2012 12:48:05

Leandro, com relação a questão de se é possível haver juros baixos e inflação baixa, infiro, pelas informações que compreendi do texto, que é sim possível. Basta que os juros baixem por conta de uma baixa no oferta de títulos, ou seja, por conta de um orçamento equilibrado do governo.

quanto menos títulos houver e quão mais confiável for o planejamento orçamentário do governo mais baixo serão os juros, como acontece com a Alemanha, por exemplo.

Faz sentido?

Responder
Leandro 05/06/2012 13:15:22

Essa é uma das maneiras, Pedro. Mas há outra tão ou mais efetiva quanto: reduzir ao máximo a expansão monetária.

Algo que muita gente confunde -- especialmente economistas -- é que, no longo prazo, quanto menor o crescimento da quantidade de dinheiro, menores serão as taxas de juros. Pense nos juros como a diferença entre a quantidade de dinheiro que você pega emprestado e a quantidade de dinheiro com o qual você paga o empréstimo. Quanto menor estiver sendo a taxa de crescimento da quantidade de dinheiro, menores terão de ser os juros. Afinal, em uma economia com quantidade de dinheiro fixa, seria irrealista você exigir, por exemplo, juros de 50% ao ano. Sem que tenha havido crescimento na quantidade de dinheiro, o devedor simplesmente não terá como pagar essa quantia. Por outro lado, se a quantidade de dinheiro crescer, por exemplo, 200% em um ano, pagar uma taxa de juros de 50% acaba sendo moleza.

E o mesmo é válido para a base monetária e a SELIC. Quanto menor for o crescimento das reservas bancárias (que é um componente da base monetária), menor será, no longo prazo, a taxa de juros para empréstimos interbancários, taxa essa que é justamente a SELIC. Um ótimo exemplo prático disso é o Japão, que tem crescimento nulo da base monetária desde 2003, e sua "taxa SELIC" é de zero.

Outro exemplo eram os juros nominais astronômicos da década de 1980 e primeira metade da década 1990 no Brasil, quando a inflação anual frequentemente ultrapassava os 1.000%.

Aliás, é justamente isso que está acontecendo atualmente no Brasil. As reservas bancárias (um dos componentes da Base Monetário) vem apresentando um crescimento historicamente baixo. Como consequência, a SELIC também está em níveis historicamente baixos. O BACEN começou a estabilizar a taxa de crescimento da oferta monetária em janeiro de 2011. Ao fazer isto, a reação inicial dos juros foi a de um aumento. Os juros aumentaram por causa desta repentina "secagem" da fonte de dinheiro. Porém, com o tempo, por não mais estar havendo aumento da oferta monetária, as taxas de juros começaram a cair.

Ou seja, a SELIC começou a subir e subiu até julho de 2011, exatamente como explica a teoria. Passado este período, ela começou a cair e continuará caindo enquanto for mantida a atual política de baixa expansão monetária.

Por fim, note que Suíça e Japão sempre apresentaram juros nominais irrisórios e inflação de preços quase nulas, justamente porque não há expansão monetária (embora a Suíça tenha ligeiramente revertido esta sua postura quase secular após a crise de 2008).

Abraços!

Responder
Stefan Carrão Pinto 24/04/2013 17:04:21

Leandro
Sou advogado, sem nenhum conhecimento de economia, e, mesmo após reler algumas vezes o texto, continuo com dificuldades para entender o processo de balizamento para manipular a taxa de juros interbancários.
Enfim, não consigo entender a curva de rendimentos (nem mesmo o que significam os eixos horizontal e vertical do gráfico) e a relação entre a taxa de juros (rendimento) do título e a taxa de juros interbancários (Selic).
Você poderia relevar minha dificuldade e me dar uma explicação mais fundamental?
Obrigado.

Responder
Leandro 24/04/2013 17:17:48

Prezado Stefan, pode ignorar o gráfico. Ele não é importante para entender o funcionamento da SELIC. Sugiro a primeira parte deste artigo:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1574

Responder
Stefan Carrao Pinto 24/04/2013 18:32:05

Para você ver como eu ando ansioso em beber dessa fonte, eu estava lendo esse artigo que você me recomendou agora, mas interrompi porque ele me levou a outro (www.mises.org.br/Article.aspx?id=1387) que me levou a este aqui. Vou retomar o recomendado.
Muito obrigado.

Responder
Allan 04/05/2013 18:43:24

Leandro, primeiramente, parabéns por este e por todos os seus artigos. Estou aprendendo muito através dos seus textos. Tenho uma dúvida meio besta, digna de um completo ignorante em economia, mas que vem me intrigando profundamente. Você disse que o BC é capaz de contrair a base monetária da economia simplesmente vendendo títulos públicos no mercado secundário. Porém, estava lendo sobre base monetária e verifiquei que o agregado monetário M2 leva em consideração também títulos do governo em poder do público, segundo li no Wikipédia(pt.wikipedia.org/wiki/Base_monet%C3%A1ria). Ora, se o BC, ao mesmo tempo em que gera um débito nas reservas bancárias, aumenta a quantidade de títulos públicos em posse dos bancos, a base monetária não deveria permanecer inalterada (já que o M2 estaria crescendo, em contrapartida)? Sei que estou provavelmente errado, mas gostaria que você me esclarecesse quanto a essa questão.

Muito obrigado.

Responder
Leandro 04/05/2013 19:00:31

Prezado Allan, essa definição de M2 está errada. E o próprio artigo da Wikipédia sabe disso. Veja que, mais abaixo, na seção "No Brasil", no sub-item "Conceitos Atuais", a definição correta e atual é apresentada.

M2 = M1 + depósitos especiais remunerados + depósitos de poupança + títulos emitidos por instituições depositárias

Obs: os depósitos especiais não existem mais; eles foram criados temporariamente durante o Plano Collor, mas já foram abolidos há muito tempo.

Já os "títulos emitidos por instituições depositárias" englobam os depósitos a prazo, depósitos de reaplicação automática, as letras de câmbio, as letras imobiliárias e as letras hipotecárias.

Já a base monetária é apenas o papel-moeda (cédulas e moedas metálicas) emitido mais as reservas bancárias.

Abraço!

Responder
Allan 04/05/2013 19:54:55

Muito obrigado! Dúvida esclarecida. Sendo o artigo de 2009, confesso que postei meio sem esperança de que fosse responder, haha... Uma última dúvida: essa atitude do BC, de tentar encurtar a base monetária via venda da dívida pública para bancos privados, não seria apenas um paliativo, considerando-se que esses bancos passarão a ter mais dinheiro do que tinham antes tão logo esses papéis sejam resgatados pelo Tesouro? Não sei se fui claro. O que quero dizer é que os bancos a quem o BC vende títulos do governo irão revender esses mesmos títulos no momento oportuno, certo? Portanto, é correto afirmar que esse artifício do BC para manipular a base monetária fracassa totalmente em atingir o seu objetivo, uma vez que as reservas bancárias e consequentemente a oferta de dinheiro na economia CRESCERÃO no longo prazo, em vez de diminuir, com a venda dos papéis?

Obrigado pela atenção

Responder
Guilherme 18/05/2013 18:12:48

Leandro,

só mais uma dúvida: e o que seria então o CDI? Por que ele difere da Selic?

Obrigado.

Abs,
Guilherme

Responder
Conservadorismo 26/05/2013 01:00:53

"E o responsável por conseguir esse financiamento é o Tesouro Nacional. O Tesouro pode se financiar apenas com a emissão de títulos (ele não tem o poder de imprimir moeda, como tem o Banco Central - que ainda não entrou na história). Quando a arrecadação de impostos é insuficiente para cobrir os gastos do governo, o Tesouro tem de emitir títulos para conseguir mais dinheir"

"'Prosseguindo. O Tesouro precisa emitir títulos - isto é, precisa se endividar - para conseguir financiamento. Quem compra esses títulos? Em sua maioria, bancos (também chamados de 'intermediários financeiros', no jargão politicamente correto)."


Então,a existência de Bancos Públicos é um fator INQUIETANTE para a economia. Isso não deveria ser coibido, já que a instituição governo atua em ambos os elos? Não seria, a grosso modo, como se o governo pudesse injetar, novamente, dinheiro diretamente no sistema? Não seria uma fonte inesgotável de financiamento? Pelo menos, é isso que entendi. Os Bancos privados,em teoria, poderiam deixar de comprar os títulos do governo, ou pelo menos, deixa-los menos atraentes para venda. Por consequência os Bancos Públicos desvirtuam os preços, pois o fator impeditivo do "controle" exercido pelos Bancos Privados é atenuado. Caso esteja errado me corrija.

Responder
Leandro 26/05/2013 11:08:43

Correto. Um dos motivos de o Plano Real ter dado certo foi a privatização dos bancos estatais, que eram genuínas usinas de expansão monetária, pois eram utilizados por seus respectivos governos como fonte fácil e farta de financiamento. Estes bancos operavam praticamente sem lei e sob ordens de seus governos estaduais, criando meios de pagamento a rodo apenas para financiar seus descalabros. Os desvalidos de todo o resto do país pagavam a conta

Os melhores exemplos eram o Banespa e o BANERJ. A dupla Quércia-Brizola punha fogo nessas instituições, fazendo-as conceder empréstimos para apaniguados políticos, para estatais deficitárias e, principalmente, para seus vorazes governos estaduais, ao mesmo tempo em que esses próprios bancos incorriam em déficits vultosos. E quem socorria esses bancos era o Banco Central, que injetava dinheiro neles sempre que necessário, aditivando a expansão monetária. Não à toa, a inflação só passou a ser menor após esses bancos terem sido tirados da órbita de seus governos estaduais.

Mas a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil, o Banco Meridional, o Banco da Amazônia, o Banco do Nordeste, o os bancos estaduais de Santa Catarina, Ceará, Goiás, Pará, Alagoas, Minas Gerais, Mato Grosso, Bahia, Acre e Maranhão não ficavam atrás. Todos aprontavam e recebiam vultosas injeções do Banco Central. Os bancos estaduais não tinham de prestar contas a ninguém. Sua gerência política fazia a farra com os recursos, o Banco Central imprimia o dinheiro para cobrir a farra e o resto da população sofria as consequências da libertinagem.

Toda esta depravação, felizmente, foi interrompida durante a segunda metade da década de 1990. Sem esta medida, dificilmente a inflação de preços cairia para menos de um dígito.

Responder
Melanie S. 18/06/2013 17:22:15

Nos livros texto de macroeconomia, há menção a duas possibilidades de financiar o déficit do governo. Segundo alguns autores, o Banco Central pode imprimir moeda e comprar títulos do Tesouro ou esse pode vender seus títulos ao setor privado. A primeira forma provoca inflação de preços, mas não endivida o governo, pois ele imprimiu o dinheiro que precisava. A segunda forma endivida o governo, mas não gera pressões de preços (exceto aquelas que foram provocadas quando do excesso de gastos públicos), pois o governo não estará criando moeda.

Após ler o artigo acima, eu acredito que a primeira forma de financiamento só exista na teoria, confirma? A descrição parece coincidir com aquela, muitas vezes mencionada nesse site, que gera hiperinflação, pois o governo consegue jorrar dinheiro diretamente na economia.

Também fiquei na dúvida sobre como o governo harmoniza esse processo todo na prática. O governo precisa financiar seu déficit, então o Tesouro emite e vende títulos aos bancos. Essa ação pressiona a taxa de juros para cima. Para manter a SELIC no patamar estipulado pelo COPOM, o BACEN vai e compra os títulos de volta?... aí, aumenta o déficit em ato contínuo? Santa confusão, Batman.

Estou perdidinha, hahaha.

Responder
André 20/08/2013 20:24:53

O que eu não consigo entender é como os bancos emprestam dinheiro que não existe. De fato, existem os depósitos compulsórios do banco central que separam 30% do valor total de depósito feito por um correntista, para emprestar aos deficitários. Com isso o banco consegue multiplicar o dinheiro, garantindo assim o empréstimo ou o saque dos superavitários!

Estou errado? Quem puder explicar, agradeço!

Responder
Leandro 20/08/2013 20:36:34

Explicado em detalhes aqui:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1387

Tenha em mente que:

1) (quase) tudo são dígitos eletrônicos. Praticamente não há dinheiro físico envolvido;

2) Bancos criam dígitos eletrônicos do nada. Não apenas eles têm autorização do governo para fazer isso, como também são incentivados por ele a fazer isso.

Responder
anônimo 11/09/2013 13:19:04

Dúvida: por que os bancos e outras empresas são obrigados a seguir a taxa de juros estipulada pelo banco central?

Responder
Leandro 11/09/2013 13:35:08

Ninguém é obrigado a seguir a SELIC. A SELIC é simplesmente a taxa de juros que os bancos cobram entre si quando realizam empréstimos no mercado interbancário. Todas as outras taxas de juros da economia são maiores que a SELIC (exceto a taxa de juros cobrada pelo BNDES quando empresta dinheiro para suas empresas favoritas; esta somos todos nós que pagamos).

Não há nenhuma obrigação, de nenhuma empresa, de seguir a SELIC. A SELIC é apenas uma espécie de piso. Todas as outras taxas de juros vigentes na economia são maiores (algumas, muito maiores) que a SELIC.

Responder
anônimo 11/09/2013 19:00:50

Entào por que os bancos seguem essa taxa?

Responder
Leandro 11/09/2013 19:10:09

Bancos não "seguem" esta taxa. Esta taxa é resultante da interação entre os bancos no mercado interbancário.

Leia ao menos a primeira parte deste artigo:

www.mises.org.br/Article.aspx?id=1574

Responder
Pobre Paulista 11/09/2013 15:54:45

anon,

Como o Leandro disse, a selic serve para regular a taxa de juros que os bancos cobram entre si nos ajustes monetários que são realizados no final de cada dia. Não existe a princípio um "Número mágico" para essa taxa, ou seja, a princípio ela flutua livremente, porém o banco central intervém comprando ou vendendo de maneira a forçar que as taxas de juros negociadas fiquem *próximas* à taxa referencial da selic.

Por isso que, apesar de não haver uma obrigação de se seguir a taxa selic, isso acaba se tornando uma consequência inevitável.

Responder
anônimo 24/09/2013 12:55:35

Se essa taxa influencia só nos ajustes monetários entre os bancos, então porque os ciclos econômicos?

Responder
Leandro 24/09/2013 13:04:12

Porque quanto mais dinheiro o BC injeta nos bancos para reduzir os juros, mais os bancos têm dinheiro para expandir o crédito. É a expansão do crédito, e não o valor dos juros, o que dá toda a sustentação aos ciclos econômicos.

A expansão do crédito gera um aumento da oferta monetária na economia. Só que este aumento não ocorre de maneira uniforme. Sempre há aqueles setores que recebem esse novo dinheiro antes do resto da economia. E esse dinheiro recém-criado que entra primeiramente em determinados setores da economia altera toda a estrutura de preços da economia; altera todos os preços relativos. Se o dinheiro recém-criado vai primeiramente para o setor imobiliário, por exemplo, a estrutura de preços da economia fica distorcida em relação a este setor, fazendo com que investimentos nesse setor aparentem ser mais vantajosos, mais lucrativos, pois os preços estão sempre subindo.

O que interessa são as expectativas de lucros. O que afeta uma decisão de planejamento é a expectativa de lucros. E se os lucros propiciados por um investimento forem maiores do que os juros cobrados sobre os empréstimos para esse investimento, tal investimento é vantajoso.

Há vários artigos sobre isso no site. É o básico do básico.

Responder
anônimo 24/09/2013 13:51:32

Obrigado, agora ficou esclarecido.

Responder
jany 11/09/2013 14:52:27

Tem algum artigo aqui no site que fale sobre a TR, já procurei na internet mas não consegui entender quem e como a calcula... sei apenas que ela vai auxiliar no endividamento maior daqueles que possuem contratos com a CEF e houve um tempo em que muitos acreditavam que ela se manteria zerada por longos anos (coisa de PT).

Responder
Leandro 11/09/2013 15:11:15

Não há muito o que dizer. A TR -- Taxa Referencial -- nada mais é do que a taxa média mensal dos CDBs prefixados de 30 dias das 30 maiores instituições financeiras do país. Só isso.

Explicando melhor: pega-se os CDB das 30 maiores instituições financeiras do país, com prazo de 30 dias, e calcula-se a sua média mensal (trata-se de uma média ponderada, na qual as duas maiores e as duas menores taxas médias são eliminadas). Pronto.

Sobre este valor é aplicado um redutor que torna a correção menor, deixando-a mais compatível com os juros do Sistema Financeiro da Habitação. É tudo intervenção pura. E feita diariamente.

Responder
Gabriel Passos 03/03/2014 18:10:42

Qual é a relação do aumento e da diminuição da Selic com a entrada e a saída de dólares do Brasil?

Responder
Leandro 03/03/2014 18:24:48

Em tese, quanto mais alta a SELIC, maior a atratividade de dólares (juros mais altos atraem mais capital estrangeiro especulativo).

Mas tal relação nem sempre é direta. Por exemplo, se a SELIC subir menos do que havia sido previsto, pode haver uma saída de dólares, pois os especuladores podem achar que a autoridade monetária não está levando muito a sério seu dever de manter o poder de compra da moeda. Neste caso, devido às expectativas de maior desvalorização do real, se os especuladores mantivessem seu dinheiro aqui eles perderiam ao futuramente fazer a conversão de reais para dólares a uma taxa de câmbio mais depreciada.

Responder
Emerson Luis, um Psicologo 15/03/2014 19:14:21


Bem explicado. Mas pode-se pensar se toda essa complexidade é realmente necessária e se não poderia ser mais simples. É uma sequência infindável de construtos abstratos alicerçados em outros construtos abstratos.

Responder
Carlos Marcelo 18/04/2014 22:59:30

Eu lembrei que algum texto do IMB sobre a SELIC falava sobre algo como "acomodação creditícia", mas não achei nesse artigo. Vocês lembram em qual se falava sobre isso?

Responder
Felipe 02/07/2014 20:45:02

Leandro,

Por que o BACEN não simplesmente "obriga" os bancos que estão com saldo negativo a emprestarem dinheiro do BACEN (como o redesconto) à um juros estipulado por eles (que seria da SELIC)?

Responder
Leandro 02/07/2014 21:50:58

Não entendi.

Responder
Bruno 04/08/2014 18:15:46

Como a SELIC influencia o leilão do mercado primário? Parece que quanto maior é a SELIC, menor é o valor dos títulos que o Tesouro vende no mercado primário. Mas não entendi como essa relação ocorre.


Responder
Leandro 04/08/2014 19:56:30

Quanto menos você pagar por algo e quanto mais receber em retorno, maiores estarão sendo os juros pagos para você. Mais vantajoso será aquele investimento.

Logo, quanto maior a SELIC, maiores os ganhos para cada real investido em títulos públicos.

Não sei se dá pra ser mais claro do que isso.

Responder
Bruno 04/08/2014 20:50:58

Acho que você entendeu mal a minha pergunta ou eu a elaborei de forma ininteligível. Sua resposta fez eu me sentir como um chipanzé e não corresponde à duvida que tentei exprimir.

Eu quero entender a relação da SELIC vigente durante um leilão do Tesouro, com o valor dos juros que o mercado primário aceitará receber como rentabilidade. Um exemplo ilustrativo não condizente com a realidade, para facilitar:

Hoje, 04/08/2014, às 9:00 o BC decretou que a taxa SELIC fosse 1%. Hoje, 04/08/2014, às 15:00 o Tesouro Nacional realizou um leilão de títulos e conseguiu vender uma LTN cujo valor de face é de 1000 reais por 950 reais, sendo que a taxa SELIC se manteve a mesma durante a realização do leilão.

Amanha, 05/08/2014, às 9:00 o BC decretará que a taxa SELIC seja 300%. Amanha, 05/08/2014, às 15:00 o Tesouro Nacional realizará um leilão de títulos e conseguirá vender uma LTN cujo valor de face é de 1000 reais por 600 reais, sendo que a taxa SELIC se manterá a mesma durante a realização do leilão.

Ou seja, quanto maior a SELIC maior será a exigência do mercado primário em receber maiores rentabilidades(juros) nos títulos que ainda serão leiloados.

Em suma, como a SELIC influência a disposição do mercado primário em receber determinada rentabilidade nos títulos, sendo quanto maior a SELIC, maior a exigência do mercado primário em receber maiores rentabilidades?

Essa relação torna-se óbvia aqui:

www.tradingeconomics.com/charts/united-states-government-bond-yield.png?s=usgg10yr&d1=19710101&d2=20141231&URL2=/united-states/interest-rate&type=line&title=UNITED%20STATES%20GOVERNMENT%20BOND%20YIELD%20|%20%20UNITED%20STATES%20INTEREST%20RATE

www.tradingeconomics.com/charts/united-kingdom-government-bond-yield.png?s=gukg10&d1=19800101&d2=20141231&URL2=/united-kingdom/interest-rate&type=line&title=UNITED%20KINGDOM%20GOVERNMENT%20BOND%20YIELD%20|%20%20UNITED%20KINGDOM%20INTEREST%20RATE

Quero entender como essa dependência se dá.

Obrigado.




Responder
Leandro 04/08/2014 22:16:00

A dependência é simples. Se a SELIC está em 11% e o BC decreta que amanhã ela passará a ser de apenas 1%, isso significa que o valor dos títulos em posse dos bancos aumentou subitamente. Isso significa que o BC agora está pagando muito dinheiro por esses títulos.

Ato contínuo, os bancos irão vender seus títulos para o BC, que agora está pagando caro por esses títulos. Todos os bancos que têm títulos públicos irão vender estes títulos para o BC e, no processo, auferirão lucros exorbitantes. Da mesma maneira, nenhum banco irá querer comprar títulos do BC, pois estes agora ficaram muito caros. Logo, a base monetária vai explodir.

Neste cenário de SELIC a 1%, não faz sentido o Tesouro fazer leilões de títulos públicos a juros maiores que 1%; o Tesouro não precisaria cobrar pouco pelos seus títulos, pois agora eles ficaram bem mais caros. (Ele até poderia fazer isso, mas seria uma burrice extremada).

Para ficar mais claro, em vez de raciocinar em cima de títulos públicos, raciocinemos em cima de dólares. Hoje o dólar está a R$2,25. Imagine que o BC diga que, amanhã, irá comprar e vender dólar a R$10 (que é o equivalente ao que ocorreria com os preços dos títulos caso houvesse uma redução brusca da SELIC). O que aconteceria?

Ora, todos os bancos iriam vender dólares para o BC, e ninguém iria comprar dólares dele. A quantidade de reais em posse dos bancos iria explodir.

Nesse cenário, se o Tesouro quisesse fazer um leilão de dólares -- que, nesse exemplo, está fazendo o papel de títulos públicos --, ele não precisaria vender dólares por menos do que R$9,99. Basta apenas que ele não venda a R$10,01, pois aí os bancos prefeririam comprar do BC, que vende por R$10.

Observe que, a partir do momento em que uma agência com poder de criar dinheiro do nada (o BC) estipula o valor pelo qual irá comprar ou vender um determinado bem (títulos públicos ou dólares), este preço passa a estar travado. Não tem como você vender esse bem por um valor maior do que o estipulado pelo BC, e não tem como você comprar por um valor menor.

Se o BC se dispõe a pagar R$10 pelo dólar, não tem como você comprar dólares por R$9,99 (pois quem tem dólares irá preferir vendê-lo ao BC por R$10), e não tem como você vender dólares a R$10,01 (pois o comprador preferirá comprar do BC por R$10).

O raciocínio com os títulos públicos, cujo preço é estipulado pelo BC via SELIC, é idêntico.

Por outro lado, suponha agora que a SELIC é de 11% e o BC decreta que, amanhã, ela será de 300%.

O que ocorrerá? Faça o exercício mental e você verá que o raciocínio será rigorosamente o mesmo, só que com efeitos contrários: os bancos comprarão títulos do BC (que agora estão baratinhos), os bancos não venderão nenhum título ao BC (pois tomariam prejuízo se fizessem isso, dado que compraram títulos a preços mais altos do que os agora vigentes), a base monetária irá se contrair, e o Tesouro terá de leiloar títulos baratinhos, pois o preço baixo dos títulos está "travado" pelo BC.

Responder

Envie-nos seu comentário inteligente e educado:
  Nome
  Email   (também utilizado para o Avatar, crie o seu em www.gravatar.com)
  Website
Digite o código:

Comentários serão exibidos após aprovação do moderador.







Blog  rss Assine o RSS de Blog da Mises.org.br
  Comedimento e sobriedade
        por Helio Beltrão - 10/06/2014
  Comunicado
        por Equipe IMB - 10/06/2014
  O que fazer com a Petrobras?
        por Leandro Roque - 07/04/2014
  Mises ou Marx? O jogo
        por Fernando Chiocca - 03/04/2014

Multimídia   
  Podcast Mises Brasil
        por Bruno Garschagen - 06/01/2015
  Fraude - Explicando a grande recessão
        por Equipe IMB - 31/10/2012
veja mais...



Instituto Ludwig von Mises Brasil



contato@mises.org.br      formulário de contato           Google+
Desenvolvido por Ativata Software