A tragédia da inflação brasileira - e se tivéssemos ouvido Mises? (Parte 1)

Sem dúvida, o debate acadêmico que mais excita grupos ideológicos rivais é a questão da desigualdade de renda brasileira.

Presencie um debate qualquer entre os áulicos e tudo que verá serão efusões populistas sobre o papel do estado como "agente promotor da igualdade social" e apelos lacrimosos ao confisco da propriedade alheia como instrumento justo de "reparação social".  Muita espuma e nenhum resultado concreto.

Segundo os ilustres, os principais fatores que geraram a ampla disparidade de renda no Brasil são: educação, distribuição de oportunidades, características natas dos indivíduos, fatores raciais, fatores geográficos, fatores culturais, além de, obviamente, a inação do estado.

Identificado esses fatores, deita-se uma logorréia sobre estarmos em um "equilíbrio Pareto-inferior", onde uma grande desigualdade educacional gera uma desigualdade de renda, que, por sua vez, perpetua a desigualdade de poder político, que, por sua vez, reforça e reitera a desigualdade de oportunidades e resultados educacionais.  Ufa!

No fim, o remédio é o mesmo: só o estado salva.

É claro que não estou dizendo que toda a massa cinzenta universitária que está sendo queimada na produção das centenas de trabalhos acadêmicos anuais sobre "injustiça social" esteja sendo queimada em vão.  Tampouco estou insinuando que todas as conclusões estão erradas e que só o que vou falar aqui é o certo.  Nada disso.  Porém, ao ver todos esses trabalhos acadêmicos enunciando os fatores geradores da desigualdade brasileira, algo sempre perturba: "Cadê a inflação?"

Quase nunca se menciona o papel fundamental que a inflação teve e ainda tem — em qualquer lugar do mundo — na concentração de renda e nas desigualdades sociais.

Não que a desigualdade de renda em si seja algo ruim e que deve ser evitado.  Muito pelo contrário.  Em uma sociedade livre, a desigualdade de renda é algo inevitável.  Ela é reflexo do mérito individual.  É resultado do esforço.  Sei perfeitamente bem tratar-se de um clichê, mas o que de fato faz as pessoas ascenderem na vida é disciplina, sobriedade, comprometimento e princípios.  Trabalho duro.  Aquele que tem essas características vai decolar; aquele que não tem, vai invejar.

E tentar coibir essa disparidade com o intuito de tomar dos mais capazes para transferir aos menos é simplesmente tirania.  Uma sociedade que privilegie a igualdade em detrimento do mérito não pode ser livre.  É por isso que o mérito sempre deve vir antes da justiça, por mais gritaria que isso possa gerar.  Uma sociedade baseada no mérito se desenvolve; uma baseada exclusivamente na justiça é uma incógnita, até porque a definição de justiça sempre estará, em última instância (infelizmente), nas mãos de burocratas com interesses próprios.

A prova acachapante do totalitarismo e da inveja desses indivíduos que gritam contra a disparidade de renda pode ser percebida em sua metodologia de debate: eles raramente sugerem políticas voltadas exclusivamente para o aumento da renda dos mais pobres.  Tudo o que eles querem é achar meios de diminuir a distância entre pobres e ricos.  O que significa que, no extremo, eles preferem uma situação onde os pobres fiquem na mesma e os ricos empobreçam (havendo portanto uma diminuição da desigualdade) a uma situação onde os pobres enriqueçam e os ricos enriqueçam ainda mais (o que, no final, aumentou a desigualdade, não obstante os pobres também tenham melhorado).  Esse vídeo com Margaret Thatcher ilustra comicamente esse debate.

Os intelectuais não amam os pobres; eles odeiam mortalmente os ricos.  Mises explicou esse fenômeno em seu livro A Mentalidade Anti-Capitalista.

Feito esse caveat sobre a inevitabilidade da desigualdade, façamos agora uma distinção: uma coisa é a desigualdade gerada exclusivamente pelo mercado, que premia o mérito e pune a incapacidade.  Qualquer ataque a essa gera apenas tirania e empobrecimento.  Trata-se de uma desigualdade inevitável e até mesmo necessária.  Outra coisa, totalmente distinta, é a desigualdade gerada pelo estado, principalmente através de seu descontrole monetário.

A inflação monetária é, de longe, o instrumento mais eficiente de se propagar desigualdades.  Essa, sim, uma desigualdade injusta e perfeitamente evitável.  Além de ter toda uma explicação teórica — que darei sucintamente a seguir —, tal fenômeno da desigualdade gerada pela inflação pode ser completamente auferido por um simples teste empírico: quanto maior foi a inflação no Brasil em um determinado período, maior foi o aumento da desigualdade; quanto menor foi a inflação, maior foi a queda na desigualdade.  (Faça qualquer correlação entre taxas de inflação e índices de Gini e comprove).

Por que é assim?  Ludwig von Mises explicou magistralmente esse mecanismo de redistribuição de renda gerado pela inflação (sugiro intensamente que leiam sua explicação, muito mais completa que a minha a seguir):

Quando o banco central injeta dinheiro na economia — através do sistema bancário comum — esse dinheiro chega primeiro àqueles que têm acesso direto ao sistema bancário.  Daí esse dinheiro vai ou para o mercado financeiro ou para a economia real.  Uma vez na economia real, as pessoas que primeiro receberam esse novo dinheiro estão em posição privilegiada: elas podem gastá-lo comprando bens e serviços a preços ainda inalterados.  Ora, se a quantidade de dinheiro em seu poder aumentou e os preços ficaram na mesma, então obviamente sua renda aumentou.  Essas são as pessoas que ganham com a inflação.

À medida que esse dinheiro vai perpassando todo o sistema econômico, os preços vão aumentando (afinal, tem mais dinheiro na economia).  Porém, começa aí a haver uma discrepância: vários preços já aumentaram sem que esse novo dinheiro tenha chegada às mãos de outros grupos de pessoas.  Essas são as pessoas que perdem com a inflação.  Somente após esse novo dinheiro ter perpassado toda a economia — fazendo com que os preços em geral tenham subido — é que ele vai chegar àqueles que estão em último na hierarquia social.  Assim, quando a renda nominal desse grupo subir, os preços há muito já terão subido.  Houve uma redistribuição de renda: aqueles que receberam primeiro esse novo dinheiro tiveram ganhos reais.  Obtiveram bens e serviços a preços de barganha.  Aqueles que receberam esse novo dinheiro por último tiveram perdas reais.  Adquiriram bens e serviços a preços maiores sem que sua renda tivesse aumentado.  Houve uma redistribuição de renda do mais pobre para o mais rico.

E é exatamente esse o perverso mecanismo de redistribuição de renda gerado pelo estado.  Infinitamente pior para os pobres do que o mecanismo de aumento da desigualdade em decorrência do mérito — o qual, aliás, é impossível ser prejudicial para os pobres.

Curiosamente, poucos intelectuais vocalizam essa tragédia.  Todos se esforçam para eximir o estado de sua culpa — para eles, no máximo, o estado é culpado de estar fazendo pouco.  Tem de tributar mais, confiscar mais e regular mais.  Pôr uma coleira nos ricos.  Mas o regime, ah!, esse nunca deve ser atacado — até porque esses intelectuais, em sua esmagadora maioria, trabalham para o estado, e têm a função de ser propagandistas do regime.  Uma vez desmoralizado o estado, os intelectuais correm o risco de perder seu ganha-pão.  Entende-se aí sua tergiversação sobre a realidade brasileira e a sua busca por outros bodes expiatórios.

FATOS E NÚMEROS

Para comprovar com dados essa teoria, peguemos os dados monetários do Brasil desde 1980.  Infelizmente, os dados disponibilizados pelo Banco Central começam somente a partir daquele ano, mas são o suficiente, uma vez que cobrem toda a trágica década de 80.

Vamos trabalhar apenas com a Base Monetária (a soma de todas as cédulas e moedinhas emitidas pelo Banco Central mais as reservas compulsórias que esses bancos mantêm depositadas no BACEN) e com o M1 (a soma de todas as cédulas e moedinhas em poder do público mais todos os depósitos à vista). 

A Base Monetária é a única variável sobre a qual o BACEN tem controle direto.  Daí podemos mensurar o grau de devassidão com a qual essa variável foi tratada.  Já o M1 é a variável de maior liquidez — isto é, seus componentes são aqueles que estão prontamente disponíveis para uso imediato do indivíduo.  Daí o M1 ser considerado por muitos a medida mais fiel do dinheiro realmente disponível na economia.  M2, M3 e M4 estão além desse escopo.  No site do BACEN (clique aqui) você pode coletar todas essas variáveis.

Após ter coletado os valores que vão de janeiro de 1980 a julho de 1994 (data da mudança para o real; antes disso, as "reformas monetárias" consistiam exclusivamente em cortar zeros da moeda), tentei plotá-los num gráfico.  Não coube na tela.  O gentil leitor que me perdoe, mas é impossível ilustrar graficamente o que o governo fez com a moeda nesse período.

Vou direto então para os dados brutos:

Em janeiro de 1980, a Base Monetária foi de $349.000.000 (o nome da moeda é o de menos.  Estamos trabalhando apenas com seus valores nominais, que é o que importa).  Em dezembro desse mesmo ano ela já era de $592.000.000

Daí em diante, a evolução foi exponencial.  Até que, em junho de 1994, último mês antes do Real, a Base Monetária já estava em inacreditáveis $8.040.253.952.000.000.000 (levando-se em conta todos os cortes de zero ocorridos).   Isto são nada menos que 8 quintilhões.  Consegue imaginar o que é isso?

Qual foi o aumento percentual na base monetária de janeiro de 1980 a julho de 1994? 2.303.797.693.883%.  Dois trilhões por cento.  Enfatizando: a base monetária — que está sob total controle do Banco Central — aumentou 2,3 trilhões por cento em 14 anos e meio.  Isso dá a incrível média de 418% ao ano.  Se você quisesse intencionalmente destruir a moeda de um país, duvido que seria tão exitoso quanto aqueles burocratas.

E o M1?  Repetindo o mesmo procedimento:

Janeiro de 1980: $826.000.000.

Junho de 1994: $13.685.611.750.000.000.000

Variação percentual: 1.656.853.722.660% (1,6 bilhão por cento).

Agora o leitor entende por que era impossível jogar isso em um gráfico.

Como comparação, vejamos o período julho de 1994 — abril de 2009 (praticamente a mesma duração de tempo).

Base Monetária:

Julho de 1994: $6.495.066

Abril de 2009: $132.422.172

Variação percentual: 1.938%

M1:

Julho de 1994: $10.075.566

Abril de 2009: $196.087.946

Variação percentual: 1.846%

 

Ainda é bastante alto, mas pelo menos são cifras mais civilizadas.  Ambas apresentam um aumento médio de 22% ao ano.

 

ANÁLISE DO PERÍODO 1980-1994

O que provocou esse descalabro?

Bom, a Base Monetária, como dito, está sob controle direto do BACEN.  Assim, ele é o responsável direto por ela.

Quanto ao M1, é fato que uma de suas variáveis (depósitos à vista) é gerada pela rede bancária — como, por exemplo, quando um banco cria depósitos em conta-corrente para conceder um empréstimo.  Mas é fato também que esse volume de crédito pode ser controlado pelo Banco Central através do compulsório.  Mas não foi.  E há uma explicação.

Quando levamos em conta que nesse período havia inúmeros bancos estaduais a pleno vapor (leia-se, em plena esbórnia de jogos políticos), a culpa do governo fica ainda mais acentuada.

Os melhores exemplos são o Banespa e o BANERJ.  A dupla Quércia-Brizola punha fogo nessas instituições, fazendo-as conceder empréstimos para apaniguados políticos, para estatais deficitárias e, principalmente, para seus vorazes governos estaduais, ao mesmo tempo em que esses próprios bancos incorriam em déficits vultosos.  E quem socorria esses bancos?  Ora, o Banco Central, que injetava dinheiro neles sempre que necessário (afinal, políticos sempre são solidários no aperto), aumentando tanto a Base Monetária quanto o M1.  Não à toa, a inflação só passou a ser menor após esses bancos terem sido privatizados.

Portanto, uma das causas da explosão da BM e do M1 pode ser encontrada nos bancos estaduais, que operavam praticamente sem lei e sob ordens de governos estaduais.  Esses bancos criavam meios de pagamento a rodo, apenas para financiar seus descalabros.  Os desvalidos pagavam a conta.

Mas calma! Tem mais.  A Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil, o Banco Meridional, o Banco da Amazônia, o Banco do Nordeste, o os bancos estaduais de Santa Catarina, Ceará, Goiás, Pará, Alagoas, Minas Gerais, Mato Grosso, Bahia, Acre e Maranhão não ficam atrás.  Todos receberam vultosas injeções do Banco Central.  Os bancos estaduais não tinham de prestar contas a ninguém.  Sua gerência política fazia a farra com os recursos, o Banco Central imprimia a conta e o resto da população sofria as consequências da libertinagem.

Ah, mas ainda tem mais.

Era comum o governo federal nesse período se financiar via emissão monetária simples.  "Estamos com déficit? Ah, bota a maquineta pra imprimir".  A carga tributária do período era relativamente baixa (meros 26% do PIB; hoje está em 36%) exatamente porque o governo não se preocupava com receitas.  Ele confiava na máquina de impressão.

Mas o principal mecanismo de descontrole inflacionário era outro: a política cambial.

Durante anos o país adotou o câmbio real fixo (não confundir com o câmbio nominal fixo da época inicial do real).  Nessa política, quando os preços internos aumentam, o câmbio deve ser desvalorizado na mesma proporção, para continuar estimulando as exportações e coibindo as importações.  Assim, quando os preços internos aumentavam (em decorrência da própria inflação monetária), o governo comprava dólares para desvalorizar o câmbio.  Como ele comprava dólares? Imprimindo dinheiro.  O que acontecia depois?  Os preços aumentavam, o câmbio real saía do lugar novamente e o governo repetia o processo.  "O câmbio está fora do lugar?  Imprima e compre dólares".  

Sim, parece roteiro de algum episódio dos Três Patetas, mas era exatamente assim que o governo operava, por mais estúpido que pareça.  Tratava-se de uma política inflacionária autofágica, que se alimentava a si própria. 

Dessa forma, os políticos, visando seus próprios interesses, destruíram o sistema monetário nacional — tudo sob os olhos complacentes do BACEN —, aumentando estrondosamente o volume de dinheiro na economia.  E quem perdeu?  Ora, os brasileiros mais humildes, que não tinham como se proteger do dragão da inflação.  Os mais ricos, que tinham acesso ao mercado financeiro e ao sistema bancário, sabiam se proteger; os mais pobres, só podiam morrer de fome.  Exatamente como Mises explicou.

Portanto, quando você junta esses três fatores — déficits orçamentários, câmbio real fixo e bancos estatais lascivos - e entende que todos os três eram resolvidos via impressão monetária, verá finalmente que o resultado foi absolutamente criminoso.  Que essas pessoas não estejam na cadeia por toda a miséria que provocaram - muitos, aliás, circulam fagueiros por aí, dando palestras, ocupando cátedras universitárias, cargos no Senado e concorrendo em eleições — é uma boa prova da moral torta nacional.

A origem da inegavelmente acentuada desigualdade brasileira — que se aprofundou justamente no período 1980-1994 — não está nas salas de aula.  Está nos governos estaduais, no Congresso, no Palácio do Planalto e principalmente no Banco Central.  Ou seja, está no estado.  Justamente a entidade apontada pelos intelectuais como a mais adequada para curar exatamente todos os problemas que ela mesma gerou.

No próximo artigo (clique aqui) centrarei no período 1994-2009, explicando o que teria acontecido se, na reforma monetária, tivéssemos seguido os conselhos de Mises.


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SOBRE O AUTOR

Leandro Roque
é o editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.


Henrique Zucatelli
Bom dia
Sei que ter capital, fundos, poupança é importante mas:
Será que os consumidores quererão os meus produtos e serviços.
Se ninguém se interessar em comprar meus produto ou serviço que eu estou vendendo?
Se surgir uma oportunidade de negócios vou perder?
Meus concorrentes oferecerem melhores produtos e serviços que eu vou ter que aprimorar meus produtos ou serviços senão vou pra falência.
Isso estou vendo do lado do produtor, fornecedor de produtos e serviços.
Do lado do consumidor:
Será que preciso desse produto ou serviço?
Se preciso vou pagar a vista ou a prazo?
Caso eu compre à vista vou ter de poupar para adquirir o produto ou serviço que quero.
Caso eu compre à prazo vou ter de calcular quanto do meu ganho posso desprender para gastar.
Qual é melhor comprar a prazos curtos ou longos?
E finamente o que não se deve fazer:
Vou tomar empréstimo para comprar bens de consumo.
Vou compra itens no cartão de débito\crédito mesmo que não tenha fundos para cobrir o mesmo.
Vou Tomar empréstimo para pagar o cartão.
Isso do lado do consumidor.
Do lado do produtor\finacista e fornecedor de serviços:
Vou produzir itens em grande quantidade, mesmo que não consiga vender tudo.
Vou me associar a políticos para que tenha venda cativa de produtos e serviços para o governo cobrando acima do mercado e oferecendo produtos e serviços ruis
Vou toma empréstimo do governo para especular a compra e venda de empresas, mesmo que não entenda o que elas produzem ou serviço que elas oferecem.
Criarei lobis junto ao governo para que os meus interesses sejam atendidos.
Se falir terei AMIGOS no governo e me dá uma mãozinha.

O item 4 é contraditório com o item 10.
O professor Mueller tem uma visão um tanto equivocada com respeito à lógica.
Tanto a lógica aristotélica, quanto a lógica simbólica, incluindo a teoria dos conjuntos, são sistemas de ordenação argumentativa orientados na direção dedutiva nos quais a inferência está ligada necessariamente às premissas.
Para que o valor seja logicamente subjetivo, temos que incluir o valor campo dos objetos predicados por subjetivo.
Ora, vejam:
Para que isso ocorra, temos de recorrer às definições desses termos, pensando no método geométrico, as definições deveriam anteceder às teses, não estar incluídas nelas. Se ocorrer essa inversão lógica, o argumento é falacioso, chamada de Petição de Princípio (vide ORGANON - Aristóteles; COPY - Manual de Lógica; pesquisem sobre método geométrico)
Além disso, para que não haja inconsistência entre os itens 4 e 8 o trabalho deveria ter sido definido, tal como o valor o foi, como subjetivo. Senão o item 8 cria uma ambiguidade na passagem (por si só) que, do ponto de vista lógico, é um condicionante. Sem tal definição, o valor parece ter uma parte subjetiva e outra objetiva e, pior ainda, somente o condicionante do valor parece ser subjetivo. Se o trabalho não for caracterizado como subjetivo, o valor é efetivado objetivamente e, portanto, é objetivo.

Uma reordenação não viciada desses itens deve começar supondo o item 4, isto é, ser uma hipótese (eliminação do item 10). Posteriormente, definir o trabalho ou, por extensão ampliativa, incluir o trabalho no item 4.
"Se "4" e o trabalho for subjetivo, então "1""2""3""5""6""7""8""9""

Outro problema, mais grave, é usar o termo subjetivo e, por extensão, objetivo como predicados lógicos, i. é., características de coisas. A distinção entre subjetivo e objetivo é maior, isto é, anterior no processo de conhecimento, do que aquilo sobre o qual a lógica trata: as relações entre enunciados. Digamos, em termos mais simples, subjetivo não é uma característica de coisas, mas de afirmações, frases (vide POPPER - Lógica da Pesquisa Científica; RUSSELL & WHITEHEAD - Principia Mathematica; TARSKI - A Concepção Semântica da Verdade). Para incluir subjetivo e objetivo no vocabulário é necessário realizar uma metalinguagem que, por definição, exigirá a suspensão e a revalidação das definições. Dizer o por que tais definições devem ser aceitas.

A tentativa de criar leis em uma ciência que sejam a priori não funcionou nem na Física (vide KANT - Crítica da Razão Pura), mesmo na matemática (vide o embate entre FREGE e HILBERT) a tentativa foi, em parte, frustrada. Esse tipo de posição, chamada de Fundacionista, é uma visão, sinto informar, ultrapassada. A exigência de indicações empíricas e construções não totalizantes é regra fundamental para alcançar qualquer teoria saudável no pensamento científico atual.

PS. Desculpem-me o tecnicismo, não tenho o hábito de escrever para leigos. Devo melhorar nesse aspecto.
Bom dia Vladimir, como vai?

Que bom que começou a entender o começo da história. Agora falta a outra metade.

Não tem como prevermos a inovação. Pode parecer pleonasmo, mas inovar é fazer o novo, algo que ninguém fez até hoje. E isso pode dar certo (ou não). Claro que quando pensamos em inovações sempre vem a mente exemplos de sucesso como Apple, Microsoft, Ford e outros. Mas nos esquecemos que estes foram os vencedores. Em seus respectivos momentos, existiram dezenas (ou até centenas) de concorrentes brigando para saber quem iria se perpetuar, e a maioria caiu no caminho, foi absorvida ou simplesmente esquecida.

Se quiser entender mais como funcionam todos esses sentimentos de um grande inventor nos primórdios de sua carreira, recomendo que leia um livro muito bom (meu de cabeceira) do próprio Henry Ford- Os princípios da prosperidade . Tenho um exemplar da primeira edição, com o autógrafo do tradutor, ninguém menos que Monteiro Lobato. É um tesouro que guardo com muito carinho.

Voltando ao assunto, como toda inovação é nova (!), precisará de uma dose maciça de confiança de quem produz, aliado ao fato de que são recursos direcionados a esse projeto, com pouca ou nenhuma certeza de que irá dar certo. Repito à exaustão: quando olhamos invenções consagradas damos um valor a elas que não existia na época.

Justamente por esse princípio, é necessária a existência de poupança para financiar esses projetos. Sem poupança, sem inovação, por melhor que seja a ideia. Se tiver interesse nesse assunto, recomendo um ótimo livro de Peter Schiff - Como a economia cresce, e por que ela quebra .

Inclusive está a venda aqui no IMB:
www.mises.org.br/Product.aspx?id=55 .

Para finalizar, é melhor entender um pouco mais sobre como funciona o socialismo, e porque ele está sempre fadado ao fracasso. Como bem ilustra a Venezuela, os defensores do socialismo desconhecem uma lei básica da economia

Um grande abraço, e ótima semana para ti.










"só consigo comprar um IPhone por 'apenas' R$ 2000,00 porque ele é produzido aos milhões. Caso grande parte da população deixasse de comprar IPhone essa economia seria menos efetiva e com certeza cada IPhone custaria mais para ser produzido. Exemplo canônico: quase ninguém compra uma Ferrari e isso não faz ela ser mais barata, muito pelo contrário, ela seria muito mais barata se todo mundo comprasse uma: seria produzida na China e se chamaria Jac. :D"

Existem duas maneiras de um produto baratear, isto é produzir em larga escala com preços reduzidos ou produzir em larga escala com preços reduzidos e não houver demanda para tal produção, isso significa que pessoas estão se abstendo do consumo ou estão em crise. Portanto, as pessoas que pouparam ontem, hoje podem estar consumindo Iphones e ferraris ou investindo em bens de capital e assim aumentando ainda mais a abundância dos produtos.
Essa situação da demanda aconteceu recentemente com o consumo reduzindo e os preços acompanhando essa redução do consumo praticando menores preços.

"Além da economia de escala existe outro fator que você desconsiderou, as indústrias de bens não são facilmente reconfiguradas para produzir bens para as quais não foram inicialmente projetadas."

Para produzir bens tem que haver capital e o último advém de poupança. Contudo, para haver poupança para a população, os impostos sempre terão que ser baixos e isso possibilitaria empresas de várias partes do mundo vir produzir aqui pelas novas medidas do governo. As indústrias vindas do exterior automaticamente estaria trazendo seu conhecimento e técnicas para tal trabalho, isso significa que o país poderá produzir bens que não eram bons. Essa situação ocorreu na Coreia do Sul, Hong Kong, Taiwan, Japão e Singapura.
Coreia do Sul não tinha LG, SAMSUNG e Hyundai, e em pouco tempo pelos investimentos estrangeiros obteve conhecimento necessário para produzir o que não sabiam, produtos de alta tecnologia e carros.
Hong Kong seria tecnologia.
Taiwan idem de Hong Kong.
Japão acho que seria o setor automobilístico.
Singapura seria produtos de alta tecnologia.
Até tempo atrás não eram bons no que fazem hoje, e em pouco tempo conseguiram a façanha de realizarem tal ato.


ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Rafael Crivelli  10/02/2010 19:07
    Leandro, me perdi aqui:
    "Nessa política, quando os preços internos aumentam, o dólar deve ser desvalorizado na mesma proporção, para continuar estimulando as exportações e coibindo as importações. Assim, quando os preços internos aumentavam (em decorrência da própria inflação monetária), o governo comprava dólares para desvalorizar o câmbio."
    O governo comprando dólares não faz com que este se valorize, ao invés de se desvalorizar? E não é o dólar mais caro que inibe importações, e moeda nacional fraca que estimula exportações? Me corrija se estiver errado, por favor.
  • Leandro  10/02/2010 19:53
    Rafael,\n\nSim, é exatamente isso que você falou. Você apenas se confundiu com o termo 'desvalorização' (o que é comum quando se trata de câmbio). No caso, um câmbio desvalorizado significa um dólar mais caro (quem está desvalorizada é a moeda nacional). O oposto seria um câmbio apreciado, no qual o dólar está barato.\n\nApenas para esclarecer todo o raciocínio: quando os preços internos aumentavam, as importações ficavam mais atraentes. Aí, para impedir essas importações, o governo comprava dólares, fazendo com que o câmbio se desvalorizasse (o dólar ficasse mais caro). Para comprar dólares, ele emitia moeda, o que gerava inflação de preços e reiniciava todo o ciclo. \n
  • Lucas S  14/08/2013 20:49
    Leandro, você concorda que o aumento da população também gera desigualdade? Geralmente as famílias mais pobres tem mais pessoas. Uma conhecida minha que sequer trabalha está para parir o segundo filho. Toda vez que a população aumenta, o pib per capita diminui.

    Outro ponto é a questão da geração de riqueza: o estado brasileiro não só suga cerca de 50% do PIB(impostos + inflação), como também dificulta ao máximo a criação de riqueza. O setor privado não aguenta mais isso. Recentemente, li uma decisão da justiça do trabalho de multar em 250 mil reais o bradesco porque um funcionário teve LER. Oras, certamente os juízes do trabalho pensam que dinheiro vem do imposto e não da produção.
  • Leandro  14/08/2013 23:28
    Gera desigualdade se as classes mais pobres tiverem mais filhos do que as classes mais ricas, se os pais forem acomodados e se estes filhos não forem capazes de enriquecer o suficiente para garantir uma velhice amparada para seus pais. Caso contrário, tal correlação deixa de ser válida.

    É verdade que o casal pobre que resolve ter filhos terá agora mais gastos e sua situação financeira será mais difícil. Mas isso pode ser temporário: não apenas o pai pode se sentir motivado a trabalhar mais (e com isso aumentar sua renda), como também o filho pode -- ao atingir determinada idade -- rapidamente arrumar um emprego e ajudar no sustento da casa.

    A pobreza era muito maior em décadas anteriores, e ainda assim as famílias tinham muito mais filhos do que atualmente. E muitas destas famílias populosas, que antes eram pobres, hoje estão prósperas. Logo, não há por que tentar forçar uma regra geral entre procriação e pobreza.

    Quem realmente pode atrapalhar todo este processo de enriquecimento é o governo, não apenas com seus impostos que confiscam o salário dos pobres, como também com suas regulamentações que os impedem de empreender e de trabalhar onde querem -- bem como proíbem o trabalho legal de adolescentes.
  • Sérgio  15/08/2013 00:16
    Quando a família é muito bem estruturada, o cara pode ter 20 filhos que dará um jeito de deixar seus filhos numa condição melhor que a dele.

    Meu bisavô teve 7 filhos (poucos pros padrões da época). Cada um pegou parte da herança (um valor relativamente bom na época) e a multiplicou. Um dos irmãos do meu avô é um dos caras mais ricos da região que ele mora hj. O meu avô, por sua vez, teve 11 filhos, e 2 dos meus tios hj são caras com posses, os demais como não tem muito espírito empreendedor vivem "na média". Não são ricos, mas não são pobres. Os filhos do meu tio mais velho estão no mesmo caminho.
  • Rafael Crivelli  10/02/2010 20:45
    Leandro, então foi você mesmo quem se confundiu ao escrever o texto. Você diz: "o dólar deve ser desvalorizado (...)" e não "o câmbio deve ser desvalorizado (...)"
    Correto?
  • Leandro  10/02/2010 23:06
    É verdade. Confesso que, ao invés de 'dólar', devia ter usado 'câmbio'. Já fiz a troca. Obrigado pelo toque!
  • anônimo  14/08/2013 21:11
    Pergunta de leigo total...qual a diferença?
  • Rhyan Fortuna  30/05/2010 02:08
    Não entendi, como se obtem a média por ano?
  • Leandro  30/05/2010 02:39
    Rhyan, para calcular a média de porcentagens, você tem de trabalhar com logaritmos e exponenciais. Não é válida a técnica de somar tudo e dividir pelo número de parcelas.

    Para poupar-lhe de todo esse tecnicismo, apenas veja que 1,65 (65%) elevado a 15 (anos - 1994 a 2009) é igual a 1.829.

    Fazendo o mesmo para 1,64 (1.670) e 1,66 (2.002) é possível perceber que ambos os valores estão mais longe dos valores encontrados para a BM e para o M1 do período 1994-2009, o que significa que a média para esse período de fato é 1,65 (65%).
  • Rhyan Fortuna  30/05/2010 02:49
    Eu fiz os mesmos cálculos do artigo da Selic. Só que deu outros resultados...\r
    \r
  • Leandro  30/05/2010 03:21
    Não, embora os exemplos numéricos do artigo da Selic também lidem com valores monetários - assim como neste artigo -, ali o objetivo era apenas o de encontrar a variação percentual total ocorrida.

    Neste artigo aqui, você pode fazer o mesmo, só que essa conta não lhe dará a variação percentual que está ocorrendo [/i][/b]a cada ano[/i][/b]. Ela dará apenas, repito, a variação total.

    Para calcular a variação ocorrida a cada ano, você tem de pegar a variação total e aplicar logaritmos e exponenciais.
  • Rhyan Fortuna  30/05/2010 03:31
    Certo, valeu Leandro!\r
    \r
    Abraço!
  • Maurício  31/05/2010 03:42
    Leandro,

    Acredito que haja um problema na média, sim. Se aplicarmos sobre a base anual de M1 de julho de 94 de $10.075.566 um crescimento médio de 65% ao ano chegaríamos a uma base M1 de $ 18.430.139.201 em 2009.

    Pelas minhas contas o crescimento médio anual deveria ser 21,88%, que se aplicada à base de julho de 94 $ 10.075.566 chegaríamos a uma base M1 de $ 196.087.946 em 2009, de acordo com o expresso no artigo.


    Abraços
  • Leandro  31/05/2010 05:52
    Bem observado, Maurício, muito obrigado.

    Na hora de aplicar o logaritmo, o tonto aqui esqueceu de voltar a vírgula duas casas pra esquerda. Ao invés de 18,46, ficou 1.846.

    Os valores foram corrigidos.
  • anônimo  22/06/2010 21:57
    Ah, agora sim a conta se aproxima da minha.\r
    \r
    Mas aquela média de 518% deu aqui 390%... fiz algo erro?\r
    \r
    Abraços!
  • Rhyan  02/08/2011 17:18
    Revendo esse artigo... minha conta também deu 390%, usando 2,3 Trilhões %.
  • Leandro  02/08/2011 17:48
    A resposta certa é 418%, e não 518%. 518% é o resultado sem a subtração do 1. Obrigado por chamarem a atenção.
  • Leandro  23/06/2010 02:53
    Anônimo, o resultado é 518% mesmo. Seria 390% se o aumento tivesse sido de pouco mais de 2 bilhões por cento, quando na verdade foi de 2,3 trilhões por cento.

    Nunca subestime a força destruidora do Bacen.
  • Rodolfo Bauer  18/08/2010 02:06
    Há um artigo publicado pelo Joelmir Beting na Veja em 25/12/1996 chamado 'Os párias do quatrilhão', em que ele trata do mesma tema que você: a influência da alta inflação na desigualdade social brasileira e a estranheza do fato da maioria dos estudiosos do tema quase nunca ter atentado para isso.\r
    Você pode lê-lo aqui:\r
    \r
    veja.abril.com.br/idade/exclusivo/ana_araujo/reportagens/ritmo_interior.html
  • Mohamed Attcka Todomundo  12/06/2012 15:31
    caro Rodolfo Bauer, acabo de ler o artigo do Joelmir Beting que vc recomendou. mas discordo de vc compara-lo ao artigo do leandro. eles ñ tratam do mesmo tema: "a influência da alta inflação na desigualdade social brasileira e a estranheza do fato da maioria dos estudiosos do tema quase nunca ter atentado para isso". o artigo do Joelmir é uma bagunça conceitual. um mero exercicio retorico vazio tipico de articulistas de jornais e revistas e de pseudointelectuais.

    é muito bem escrito, mas ñ diz nada. confunde conceitos; atira p/ todo lado sem atingir qq ponto; ñ funda nem justifica nada do que pensa, cita ou conclui; fala de temas e autores encadeando-os por mero exercicio estilístico; faz muito glasse e ñ cobre o bolo. Enfim, é loucura e ñ tem método (gostou do trocadilho? tirei de uma cena de uma peça de Shakespeare, comentario de Polônio acerca da loucura de Hamlet. viu como soa bem? e ñ acrescenta nada? q nem este bravateiro da VEJA). até cita alguns fatos e conceitos válidos, mas so os encadeia à bagunça "poética" ('poética' entre muitas aspas) dum ensaio narcísico.

    s/ kerer te ofender, ñ tem valor de comparação. é um mero deslumbramento infantil com a capacidade de encadear palavras e dar a elas um ritmo e musicalidade agradavel. nem informativo é. o + mal escrito artigo de jornal que encadeie informações s/ a pretensao de analisa-las é melhor q akilo, basta a informaçao ser verdadeira.

    um ex. bem acabado da ruminecência (sei q a palavra ñ existe, mas o tal do joelmir ñ passa dum ruminante ruminando palavras), decreptude e degenerecencia da imprensa num arroto palpitologico acerca de assuntos serios

  • Servidor Federal  30/11/2012 13:00
    Hoje fui almoçar com alguns colegas de trabalho e conversando sobre política chegamos ao assunto da desigualdade social no Brasil. Eram eu e mais 4, todos com pensamentos de esquerda, sendo dois petistas de carteirinha e uma filiada ao PCdoB. Um desses meus colegas é economista. Eu tentei argumentar que um dos grandes culpados pela desigualdade social no brasil é o estado brasileiro, que desvaloriza a moeda, cobra impostos absurdos sobre a classe trabalhadora e usa esse mesmo dinheiro para enriquecer empreeiteiros. O estado tira de toda a população para emprestar a juros subsidiados pelo BNDES. Meu colega que é economista disse que o brasil hoje é desigual pq nunca realizou uma reforma agrária.
    Ele desconsiderou todos os meus argumentos contra a inflação monetária e a transferência de renda dos pobres para os ricos através dos impostos. E o pior ele apontou as políticas do PT como solução para desigualdade. Ele chegou a dizer que o bolsa família foi quem impulsionou o crescimento da economia no últimos anos pq estimulou o consumo.
    Eu o questionei se o aumento do consumo não foi causado pela expansão do crédito e que também os trabalhadores poderiam consumir mais se a carga tributária fosse menor, não necessariamente precisamos tirar de quem produz e entregar para quem não produz nada para poder aumentar o consumo.
  • André Caniné  13/02/2013 18:06
    Que artigo excelente! Parabéns!
  • Patrick de Lima Lopes  18/02/2013 18:51
    Excelente artigo.
    Um de seus melhores, Leandro.
  • Leandro  18/02/2013 19:26
    Obrigado pela consideração, Patrick. Grande abraço!
  • Rodrigo Bitencourt  29/06/2013 00:26
    Oi Leandro, uma dúvida ainda em relação ao mecanismo de desvalorização cambial. O câmbio não é o reflexo do poder de compra das moedas? Nesse caso, a monstruosa desvalorização da moeda brasileira já não seria suficiente pra desvalorizar o câmbio? Desculpa a confusão, mas não consigo entender. Abraço!
  • Leandro  29/06/2013 00:45
    Mas é isso mesmo que o artigo explica. Atente para a diferença entre câmbio nominal e câmbio real. Câmbio real é o câmbio nominal dividido por um índice de preços.

    O governo optou pelo câmbio real fixo, uma verdadeira estrovenga. Neste arranjo, dado que os preços aumentavam diariamente de maneira intensa (pois estávamos em hiperinflação), o câmbio também tinha de ser desvalorizado diariamente na mesma proporção. Tal desvalorização seria automática caso o mercado de câmbio fosse totalmente livre, sem nenhuma interferência do governo e sem nenhuma restrição à entrada e saída de capital. Como esse não era o caso, o governo "resolvia" esse problema comprando dólares para fazer com que o câmbio real não se alterasse.
  • anônimo  29/06/2013 21:29
    De acordo com essa concepção, de que quem recebe o dinheiro primeiro se beneficia, não seria, portanto, correto dizer que imprimir dinheiro e dar para os pobres resolve o problema da pobreza, tendo em vista que eles teriam acesso primeiramente ao dinheiro e aos preços não inflacionado?
  • Leandro  29/06/2013 21:47
    De início, tal medida daria a eles um maior poder de compra instantâneo. Porém, tão logo eles gastassem esse novo dinheiro, os preços subiriam a novos patamares, levando esses pobres a uma situação pior do que a anterior, pois agora os preços estarão mais altos e eles não mais terão esse dinheiro criado, pois já o gastaram.

    Ou seja, se você fizesse isso uma vez, os pobres de fato poderiam adquirir novos produtos, mas, no final, com os preços mais altos e com esse dinheiro já gasto, eles estariam com ainda menos poder de compra do que antes desta medida.

    E se você repetisse este ato uma segunda vez, além de uma nova ascensão de preços, os pobres no final estariam em situação ainda pior do que antes: os preços já subiram duas vezes, mas eles estão com o mesmo dinheiro de antes da medida.

    Em suma, não há como fazer mágica. Você não pode enriquecer a todos apenas criando dinheiro.
  • anônimo  30/06/2013 04:27
    E por que para o rico não tem esse mesmo efeito?
  • Leandro  30/06/2013 05:33
    Porque o rico está continuamente ganhando dinheiro por outras fontes, ora. Por isso ele é rico.

    Tenha em mente que, na prática, esse mecanismo de criação de dinheiro ocorre por meio de empréstimos bancários. Se toda a renda do rico adviesse exclusivamente de empréstimos bancários, então ele não seria rico; seria apenas um coitado ultra-endividado.
  • Occam's Razor  14/08/2013 23:58
    O ponto crucial não seria se o tomador de empréstimos tem por objetivo investi-los ou não (principalmente se os juros forem subsidiados)? Um dia estava refletindo que, se Eike Batista pega um empréstimo do BNDES a juros reais negativos, compra algo que pouco se deprecie no tempo (um imóvel, por exemplo) e, terminado o prazo do empréstimo, venda esse algo, ele terá lucros automáticos.

    Exemplo: apartamento de 100 mil

    Supondo uma inflação de 6% ao ano, ao final do ano o apartamento vale 106 mil. Se os juros forem de 5% ao ano, ele ganhou mil sem fazer nada. Caso o empréstimo seja para montar uma fábrica qualquer, pode-se ganhar ainda mais com a venda dos produtos e, se algo der errado, vende-se os ativos da empresa para pagar o empréstimo. Se a realidade for mais ou menos por aí, trata-se de um medonho mecanismo de transferência de renda.
  • Alex Mamed  08/01/2014 18:17
    Eu ri muito. Há muita gente que confunde o conceito de papel moeda com a riqueza em si.
    .
    O fato é que o povão e larga medida dos nossos intelectuais bocais se recusam a acreditar que governo gera riqueza. Que basta o BACEN mandar e a Casa da Moeda obedecer,e botar as maquininhas pra rodar, pronto!
    .
    Há ainda ima legião de mal intencionados que sabem sim que o papel moeda, a Base Monetária é apenas uma representação; um meio circulante, que permite a troca de riqueza entre as pessoas, mas que estão pouco se lixando para a irresponsabilidade no trato da coisa pública.
    .
    Quando Nelson Rodrigues dizia que este país não é para amadores ou iniciantes, é porque ele sabia do que falava.
  • Hugo  24/12/2013 16:04
    O BR realmente é um show de horrores na economia,aqui faz mais sentido o rabo abanar o cachorro do que o contrário...

    E o pior é que até tinha lei onde era permitido que os bancos públicos emprestassem mais recursos do que tinham,e que graças a Deus já foi anulada...
  • Hugo  24/12/2013 16:18
    Leandro fiquei em dúvida sobre a carga tributária da época da inflação: a carga tributária antes do Real não era em média 27% ao invés de 17%?
  • Emerson Luís, um Psicólogo  22/02/2014 23:53

    É impressionante que até mesmo economistas não compreendam que produzir mais dinheiro do que o crescimento da riqueza para pagar gastos acima da arrecadação já alta seja a causa da inflação, da qual o aumento de preços é apenas sintoma. Querem combater a pobreza de uma forma que só a aumenta.

    * * *
  • André Mattos  07/04/2014 17:50
    Meus parabéns ao autor do artigo, ficou muito bem explicado! Estou começando a entender de economia graças aos trabalhos aqui do IMB.

    Mas fiquei com uma dúvida. O texto fala sobre a desigualdade gerada a partir da década de 80, mas e como era a situação brasileira antes disso? Afinal o país tem histórico de pobreza e desigualdade pelo menos desde 1500. Não achei nada sobre isso aqui no site.
    Ficaria agradecido se alguém pudesse me explicar ou recomendar artigos/livros confiáveis para entender a época.

  • Leandro  07/04/2014 21:51
    Prezado André, na verdade, esse é um dos assuntos mais abordados neste site.

    Em primeiro lugar, tenha em mente os seguintes fatos:

    1) Pobreza e desigualdade sempre foram a norma em toda a história do mundo. Até onde sabemos da história da humanidade, a desigualdade e a pobreza são as condições mais gerais e constantes por que passaram os seres humanos na terra.

    Não são, de modo algum, anomalias temporais que aparecem, de vez em quando, em certos lugares que até então eram prósperos e igualitários. Tampouco são mutações que surgem após um período de riqueza geral e de justa distribuição de renda.

    Portanto, apenas com isso em mente, não há por que estranhar o Brasil ter sido pobre e desigual já em 1500.

    2) A prosperidade é o resultado da ambição de cada um, da inteligência, da energia, da disciplina, do talento, da responsabilidade, da habilidade e do conhecimento. Quanto mais os indivíduos tiverem essas qualidades, mais irão progredir.

    E quanto mais progredirem, maiores serão as desigualdades. Consequentemente, lutar pelo fim das desigualdades não só é inútil, como também é contraproducente para o próprio desenvolvimento do país.

    3) Da mesma maneira, o que gera riqueza é divisão do trabalho, poupança, acumulação de capital, capacidade intelectual da população (se a população for burra, a mão-de-obra terá de ser importada), respeito à propriedade privada, baixa tributação, segurança institucional, desregulamentação econômica, moeda forte, ausência de inflação, empreendedorismo da população, leis confiáveis e estáveis, arcabouço jurídico sensato e independente etc.

    O Brasil nunca foi conhecido pela robustez dessas instituições.

    4) Por isso, em uma economia de mercado, na qual os melhores e mais capazes prosperam, acabar com a desigualdade é impossível. Por outro lado, acabar com a pobreza é algo quase que inevitável. Bastaria que o governo — não tributando, não gastando, não incorrendo em déficits e não regulamentando — permitisse a progressiva acumulação de capital por parte dos empreendedores capitalistas. O resultado seria de tal grandeza que até o trabalho mais mal remunerado geraria renda mais do que suficiente para a subsistência.


    Agora, tendo tudo isso em mente, leia este artigo:

    Sociedades pobres e sociedades ricas - o que faz a diferença
  • André Mattos  08/04/2014 00:36
    Ótima resposta, muito obrigado. A desigualdade é algo inevitável, o que acontece em uma sociedade livre é o fim gradual da pobreza.

    Se for possível responder, fiquei apenas com uma leve dúvida de como ocorre o aumento do poder de compra das classes mais baixas. Pelo que eu entendi lendo o artigo indicado e alguns outros, o aumento da produtividade (resultado da acumulação de capital) aumenta a necessidade de um mercado consumidor, incentivando o aumento dos salários (nominais ou reais). O raciocínio está correto?

    Obrigado pela atenção!
  • Leandro  08/04/2014 01:12
    Parcialmente correto. No caso, você abordou apenas a metade da equação. A outra metade é que uma maior produtividade leva a um aumento da oferta de bens e serviços, o que faz com que os custos reais -- mensurados em termos de horas de trabalho necessárias para sua aquisição -- destes bens e serviços caiam.

    Mesmo no atual mundo inflacionário em que vivemos, há concorrência de preços. Cada empresa está interessada em melhorar a qualidade da mão-de-obra que ela emprega, aumentando a produtividade. Ao fazer isso, ela é capaz de segurar um aumento nos preços, ou, no máximo, aumentá-los menos que a concorrência (em um mercado competitivo e em expansão, os preços só aumentam em decorrência da inflação monetária praticada pelo banco central).

    Já aquelas empresas concorrentes que não conseguirem aumentar sua produtividade, ainda assim serão obrigadas a reprimir um aumento de seus preços, pois se o fizessem perderiam mercado.

    Consequentemente, se essas empresas menos eficientes quiserem se manter lucrativas e permanecer no mercado, elas terão de encontrar uma forma de aumentar a produtividade de sua mão-de-obra. Elas simplesmente não podem se dar ao luxo de ficar para trás. E isso é um claro exemplo de concorrência de preços. Qualquer empreendedor de verdade sabe que é assim que funciona. Aliás, qualquer pessoa com alguma vivência empreendedorial sabe que é assim que a concorrência funciona.

    A genuína concorrência de preços que ocorre no mercado real não é aquela em que empreendedores saem reduzindo seus preços tacitamente, na esperança de que tal ato não será notado por seus concorrentes — de modo que, com isso, ele consiga ganhar seus clientes. Não. O segredo todo está na capacidade de reduzir custos de produção. Essa é a essência da concorrência de preços que há no mundo real.

    Uma cadeia de supermercados, por exemplo, só conseguirá superar seus concorrentes caso consiga fazer com que seus fornecedores lhe vendam a preços menores. Para tal, esses fornecedores terão de aumentar sua produtividade, aprimorando a eficiência de sua cadeia de produção. É isso que permite que uma cadeia de supermercados venda constantemente mais barato que outras e, ainda assim, apresente um maior lucro.

    Um empreendedor só consegue reduzir seus preços — algo que ele vai fazer talvez apenas uma vez por ano — caso consiga reduzir seus custos de produção. Ao fazer isso, ele se torna capaz de auferir lucros adicionais, os quais ele pode reinvestir para expandir sua capacidade produtiva. E é essa sua capacidade de manter baixos custos de produção que o permite se manter um passo à frente da concorrência — a atual e a potencial —, que fica atraída por esses lucros mais altos, mas que não consegue igualar a eficiência de custos — e, consequentemente, os preços baixos — obtidas por esse empreendedor.

    A eficiência na contenção de custos é a essência de qualquer conquista de uma fatia de mercado. O segredo é saber como fazer para que sua redução de custos e seu aprimoramento da qualidade dos produtos vendidos sejam maiores que os de seus concorrentes. Isso é resultado de eficiência, competência e habilidade. É assim que funciona no capitalismo.
  • Pedro R  17/10/2014 03:50
    Leandro,
    Eu estava relendo esse artigo e algo me chamou a atenção.
    No nono parágrafo você diz que o mérito deve vir antes da justiça. Talvez fosse melhor dizer que o mérito deve vir antes da "igualdade". O justo é cada um receber de acordo com o mérito.

    Abraço, Pedro
  • Leandro  17/10/2014 10:43
    O termo "justiça" foi utilizado em sua acepção mais popular.

    Vou especificar.

    Pense, por exemplo, em uma partida de futebol. O time A jogou muito melhor, dominou o jogo inteiro e o time B ficou todo acuado. No entanto, A não conseguiu marcar o gol. Já o time B, em sua única chance de contra-ataque, já ao final do jogo, foi lá, faz um gol, venceu o jogo por 1 x 0, e se classificou.

    "Injustiça!", gritam os entendidos,

    "Incompetência", respondo eu.

    De que adianta o time A ter dominado todo o jogo e jogado melhor se não teve a competência de marcar, que era o que realmente importava? Já o time B não só teve o mérito de fazer o gol, como também teve a competência de ter sabido se defender.

    A "justiça" diria que A merecia ter ganhado, pois ele dominou o jogo e jogou melhor. Já o mérito reconhece que ganhou aquele time que teve a competência de fazer o gol e de não levar o gol.

    Outro exemplo: um estudante dedicado e estudioso vai mal na prova, ao passo que seu colega, chegado a uma farra, vai bem. Injustiça? Por quê?

    Na hora que realmente importava, o estudioso não teve o mérito de saber responder corretamente às questões, ao passo que o gandaieiro teve. O gandaieiro comprovou estar, de fato, mais preparado. Na hora que realmente importava, quem realmente demonstrou competência foi o gandaieiro.

    O esforçado vai pra casa chorar "a injustiça"; já o gandaieiro vai pra outra balada e, depois, vai fechar outra prova. Ele vai mais longe na vida; ele demonstrou a superioridade do seu mérito.

    (Devo deixar claro que estou utilizando o termo mérito no sentido de competência e habilidade.)

    Esse mesmo raciocínio pode ser expandido para qualquer outra área.

    Um cidadão genuinamente honesto e que nunca fez mal a ninguém morre esquecido. "Isso é uma injustiça!", bradam todos. Ora, mas por quê? Ser bom e honesto é obrigação moral. A questão é: qual foi o verdadeiro mérito dele em vida? Qual a competência dele que o distinguiu dos outros? O que o fez prestar inestimáveis serviços para a humanidade? Houve algo?

    Já pessoas como Steve Jobs e Ayrton Senna, que atuaram em áreas completamente distintas, para sempre serão lembrados. E não porque eram pessoas boas ou porque eram coitadinhos implorando por reconhecimento, mas sim porque demonstraram grande competência em sua área de atuação. O legado deles é ter seu mérito reconhecido espontaneamente por todos.

    Na vida, o que realmente conta são as suas conquistas efetivas (mérito) e não apenas o seu esforço e suas boas intenções.

    Seria realmente injusto premiar o esforçado e bem-intencionado, e ignorar aquele que realmente conquistou algo, mesmo que com pouco esforço -- como no exemplo dos dois estudantes.

    Grande abraço!
  • Pedro R  17/10/2014 20:17
    Faz sentido.

    Às vezes tento argumentar com amigos que o controle da inflação pelo plano real (mesmo com todas as suas falhas) fez mais pelos pobres que o bolsa família, mas acabo me recolhendo. O fato de a inflação ser uma das principais causas da desigualdade é um conceito difícil de ser explicado.

    Agradeço a atenção
    Pedro


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