Sobre a não neutralidade da moeda

Os economistas monetários dos séculos XVI e XVII tiveram êxito em dissipar as falácias populares em relação à suposta estabilidade da moeda.  Esse erro antigo desapareceu, porém surgiu um novo: a ilusão de que a moeda é neutra.

É fato que os economistas clássicos também deram o melhor de si para combater esse outro erro.  David Hume, o fundador da Economia Política Britânica, e John Stuart Mill, o último da fila dos economistas clássicos, lidaram com esse problema de maneira magistral.  E não nos esqueçamos de Cairness, que, em seu ensaio sobre a depreciação da moeda, preparou o terreno para uma visão realista do assunto em questão.[*]

Não obstante esses primeiros passos rumo a uma compreensão mais correta do assunto, os economistas modernos acabaram incorporando a falácia da neutralidade da moeda em seu sistema de pensamento.

O raciocínio da moderna teoria da utilidade marginal começa com a ideia de uma economia em estado de puro escambo.  O mecanismo de troca de mercadorias e de transações de mercado baseia-se na suposição de que prevalecem apenas as trocas diretas.  Nesse cenário, os economistas estão descrevendo uma entidade puramente hipotética: um mercado sem trocas indiretas, sem um meio comum de trocas - isto é, um mercado sem moeda.  Para apresentar o raciocínio a que se propõem, não há dúvidas de que esse método é o único possível, que a eliminação da moeda é necessária e que não se pode ir adiante sem essa ideia de um mercado com apenas trocas diretas. 

Mas é necessário que os economistas entendam que esse é um conceito meramente hipotético, sem semelhança com a realidade.  O mercado verdadeiro é necessariamente um mercado onde ocorrem trocas indiretas e transações monetárias.

Foi dessa suposição de um mercado sem moeda que surgiu a falaciosa ideia da moeda neutra.  Os economistas ficaram tão afeiçoados à ferramenta fornecida por esse conceito hipotético que acabaram por superestimar a amplitude de sua aplicabilidade.  Eles passaram a acreditar que todos os problemas da cataláxia [teoria praxeológica sobre como o mercado determina espontaneamente preços e trocas] podem ser analisados por meio desse conceito fictício.  De acordo com essa visão, eles consideraram que a principal tarefa da análise econômica é o estudo das trocas diretas.  Após isso, tudo o que resta fazer é introduzir os termos monetários nas fórmulas obtidas.  Mas isto era, aos olhos deles, um trabalho de importância apenas secundária, pois estavam convencidos de que a introdução dos termos monetários não afetaria o básico da operação do mecanismo que eles haviam descrito.  O funcionamento do mecanismo de mercado baseado no conceito do escambo puro não seria afetado por fatores monetários.

É claro que os economistas sabem que a relação de troca entre a moeda e as mercadorias (ou seja, os preços) é algo sujeito a mudanças.  Mas eles acreditam - e esta é a essência da falácia da neutralidade da moeda - que essas mudanças no poder de compra ocorrem simultaneamente em todo o mercado, afetando igualmente todas as mercadorias.  A mais notável expressão desse ponto de vista está no atual uso metafórico do termo "nível de preços".  De acordo com o raciocínio vigente, mudanças na oferta e na demanda de moeda - tudo o mais constante - fazem com que todos os preços e salários subam ou caiam.  O poder de compra da unidade monetária é de fato alterado, mas as relações entre os preços de cada mercadoria permanecem constantes entre si.  Ou é o que eles pensam.

Sim, os economistas desenvolveram por mais de cem anos o método dos índices de inflação com o intuito de mensurar as mudanças no poder de compra da moeda, mas não levaram em consideração que, no mundo real, os preços relativos de cada mercadoria estão em transição contínua.  Os economistas ainda insistem na hipótese de que as consequências de uma mudança na demanda ou oferta de moeda são uma modificação proporcional e simultânea dos preços.  O método dos índices foi criado para lhes fornecer uma maneira de possibilitar uma distinção entre dois fenômenos: o aumento dos preços em decorrência de alterações na demanda ou oferta de mercadorias e o aumento dos preços em decorrência de alterações na demanda ou oferta de moeda.

A errônea suposição da neutralidade da moeda é a raiz de todas as tentativas de se estabelecer a fórmula da chamada equação de troca.  Ao lidar com tal equação, o economista matemático assume que, se uma variável da equação é alterada, então consequentemente outras variáveis também serão correspondentemente alteradas.  O problema é que os elementos da equação não representam itens da economia individual, mas sim itens de todo o sistema econômico, o que significa que as mudanças por ela descritas estão ocorrendo não com os indivíduos, mas no sistema econômico como um todo.  Procedendo desta forma, os economistas lidam com os problemas monetários aplicando de improviso um método radicalmente diferente do moderno método cataláxico.  Eles retrocedem à antiga maneira de raciocinar que condenou ao fracasso o trabalho de outros economistas mais velhos.

Naqueles velhos tempos, os filósofos utilizavam conceitos universais - tais como a humanidade e outras noções genéricas - para lidar com suas especulações.  Eles perguntavam: qual o valor geral do ouro ou do ferro?  Isto é, qual o valor de ambos para todas as épocas e para todas as pessoas e considerando-se não só todo o ouro ou ferro disponível mas também aquele ainda não minerado?  É claro que não lograram êxito seguindo esse método; descobriram apenas supostas antinomias que lhes eram insolúveis.

Todas as conquistas bem sucedidas da moderna teoria econômica têm de ser atribuídas ao fato de que aprendemos a proceder de forma diferente.  Compreendemos que indivíduos agindo no mercado nunca são apresentados a uma escolha entre todo o ouro existente e todo o ferro existente.  Eles não têm de decidir qual dos dois é o mais útil para a humanidade como um todo.  Porém, eles têm de escolher entre duas quantias limitadas - sendo que não podem ter ambas ao mesmo tempo.  Eles decidem qual dessas duas alternativas é-lhes mais favorável sob as condições existentes no momento em que tomam sua decisão.  Esses atos de escolha realizados por indivíduos são as causas derradeiras da existência dos preços de mercado.  É para estes atos de escolha que temos de dirigir nossa atenção.  Não estamos nem um pouco interessados na puramente acadêmica, metafísica e até mesmo vã questão de determinar qual mercadoria em geral parece ser a mais útil aos olhos de uma inteligência super-humana capaz de examinar, desde um ponto de vista transcendental, todas as hipóteses possíveis.

Problemas monetários são problemas econômicos e têm de ser analisados da mesma forma que se analisa todos os outros problemas econômicos.  O economista monetário não tem de lidar com entidades universais como volume total de trocas ou quantidade total de dinheiro em todo o sistema econômico.  De menos ainda pode lhe servir a nebulosa metáfora "velocidade de circulação".  Ele antes de tudo tem de se conscientizar de que a demanda por moeda surge das preferências individuais dentro de uma sociedade de mercado.  A demanda por moeda existe justamente pelo fato de que todos os indivíduos desejam, a qualquer momento, manter consigo uma certa quantia de dinheiro - às vezes mais, às vezes menos. 

Não é correto dizer que a moeda está no sistema econômico ou na economia nacional.  Como também é incorreto dizer que a moeda está circulando.  A moeda nunca está simplesmente no sistema econômico, e nem nunca está simplesmente circulando.  Todo o dinheiro disponível está sempre em posse de alguém.  Uma parte desse dinheiro pode no máximo ser transferido de uma pessoa a outra; mas a todo o momento ele está em posse de alguém e é parte de seus haveres.  São as decisões dos indivíduos em relação à magnitude de seus encaixes que irão constituir o fator supremo da formação do poder de compra da moeda.

É impossível que mudanças na quantidade de moeda e na demanda por encaixes ocorram no sistema econômico como um todo se não tiverem antes ocorrido nas famílias.  Essas mudanças individuais jamais ocorrem com todos os indivíduos ao mesmo tempo e no mesmo grau; consequentemente, elas jamais afetam o julgamento de valor desses indivíduos ao mesmo tempo e no mesmo grau.  Foi esse exatamente o mérito de Hume e Mill: eles tentaram construir um caso hipotético no qual as mudanças na oferta de moeda poderiam afetar todos os indivíduos de tal modo que os preços de todas as mercadorias iriam subir ou cair ao mesmo tempo e na mesma proporção.  O fracasso dessa tentativa forneceu uma prova negativa dessa hipótese, e a economia moderna acrescentou a isso a prova positiva de que os preços de diferentes mercadorias não são influenciados ao mesmo tempo e no mesmo grau.  Tanto a fórmula extremamente simples da velha teoria quantitativa da moeda quanto a da economia matemática contemporânea segundo a qual os preços - todos os preços - sobem ou caem na mesma proporção do aumento ou da diminuição da quantidade de moeda estão agora desacreditadas.

Para simplificar e abreviar nossa análise, voltemo-nos apenas para o caso da inflação monetária.  A quantia adicional de dinheiro que entra na economia não vai parar diretamente nos bolsos de todos os indivíduos; e dentre os beneficiados que recebem primeiramente essa nova quantia, nem todos recebem a mesma quantia e nem todos reagem da mesma forma à mesma quantia que recebem.  Aqueles primeiros beneficiados - no caso do ouro, os proprietários das minas; no caso de papel-moeda governamental, o Tesouro ou os bancos - têm agora um efetivo em caixa maior do que antes, o que os permite ofertar mais dinheiro no mercado em troca dos bens e serviços que desejam adquirir.

Essa quantia adicional de dinheiro que eles ofertam no mercado pressiona os preços e salários para cima.  Mas não são todos os preços e salários que sobem; apenas os desses setores que primeiro receberam o novo dinheiro em troca de seus bens e serviços.  E mesmo esses preços e salários que subiram, não sobem no mesmo grau.  Por exemplo, se o dinheiro adicional for gasto com obras públicas, apenas os preços de algumas mercadorias e apenas os salários de alguns tipos de trabalho irão subir, sendo que os de outras áreas irão permanecer inalterados ou podem até mesmo cair temporariamente.  Eles podem cair porque agora há no mercado alguns grupos de indivíduos cuja renda não aumentou, mas que, entretanto, são agora obrigados a pagar mais pelas mesmas mercadorias de antes - no caso, aquelas vendidas pelos indivíduos que foram os primeiros beneficiados pela inflação.  Ao serem obrigados a pagar mais por determinados bens e serviços, eles passam a consumir menos de outras áreas, o que pode gerar essa queda temporária de preços.

Assim, as mudanças nos preços em consequência da inflação começam apenas com algumas mercadorias e serviços, e depois vão se difundindo mais vagarosamente de um grupo para outro.  Leva-se tempo até que essa quantia adicional de moeda tenha perpassado toda a economia e exaurido todas as possibilidades de mudanças de preço.  Mas, mesmo ao final do processo, os vários bens e serviços da economia não foram afetados no mesmo grau.  Esse processo de progressiva depreciação monetária alterou a renda e a riqueza dos diferentes grupos sociais.  Enquanto o processo de depreciação estiver ocorrendo, enquanto a quantia adicional de dinheiro não tiver exaurido todas as suas possibilidades de influenciar os preços e enquanto ainda houver preços inalterados - ou ao menos ainda não alterados completamente - haverá na comunidade alguns grupos favorecidos e alguns grupos prejudicados. 

Aqueles que estão vendendo as mercadorias ou serviços cujos preços são os primeiros a subir poderão, em decorrência desse fenômeno, utilizar seus maiores proventos para adquirir o que quiserem a preços que ainda não se alteraram.  Esses são os indivíduos que tiveram um ganho de riqueza.  Por outro lado, aqueles que são os últimos a receber esse novo dinheiro estarão vendendo mercadorias ou serviços a preços ainda inalterados.  Esses indivíduos ainda não obtiveram nenhum ganho de renda.  Contudo, esses mesmos indivíduos agora têm de comprar as outras mercadorias e serviços a preços mais altos.  Esses são os indivíduos que perderam riqueza.

Ou seja: os primeiros a receber o novo dinheiro obtiveram ganhos específicos; eles são os exploradores.  Os últimos a receber o novo dinheiro são os perdedores, os explorados, de cujos bolsos saem os ganhos extras obtidos pelos exploradores.  Enquanto durar o processo de inflação, estará havendo uma alteração contínua na renda e na riqueza dos indivíduos.  Um grupo social ganha à custa de outros.  Quando todas as alterações de preços em decorrência da inflação estiverem consumadas, pode-se dizer que ocorreu uma transferência de riqueza entre os grupos sociais.  Há agora no sistema econômico uma nova dispersão de riqueza e renda.  E nessa nova ordem social os desejos dos indivíduos serão satisfeitos em graus relativamente distintos; graus esses mais discrepantes em relação àqueles da ordem anterior.  Os preços nessa nova ordem social não podem simplesmente ser um múltiplo dos preços anteriores.

desigual.jpgAs conseqüências sociais de uma alteração no poder de compra da moeda são duplas: primeiro, como o dinheiro é o padrão no qual se realizam os pagamentos futuros, as relações entre credores e devedores são alteradas.  Segundo, como as mudanças no poder de compra não afetam todos os preços e salários ao mesmo tempo e no mesmo grau, há uma redistribuição de riqueza e renda entre os diferentes grupos sociais.  De todas as propostas de se tentar estabilizar o poder de compra da moeda, o grande erro é não levar em consideração essa segunda consequência.  Podemos dizer que a teoria econômica em geral não presta muita atenção a esse detalhe.  No pouco que prestou, ela o considerou principalmente em termos de qual seria a consequência de uma inflação monetária para o comércio exterior de um país.  Mas essa é apenas uma aplicação específica de um problema de extensão muita mais vasta.

O que é fundamental para a teoria econômica é saber que não há uma relação constante entre preços e mudanças na quantidade de moeda.  Alterações na oferta de moeda afetam preços e salários de maneiras distintas.  O uso metafórico do termo 'nível de preços' é enganoso.

A errônea opinião contrária foi baseada em uma consideração que pode ser assim representada: imaginemos dois sistemas - A e B - de equilíbrio estático absolutamente independentes entre si.  Ambos são similares em todos os aspectos, exceto que, para a quantidade total de moeda (M) em A e para cada encaixe (m) individual em A, haja correspondentemente em B uma quantidade total Mn de moeda e uma quantidade mn de encaixes individuais.  De acordo com essas suposições, todos os preços e salários em B são n vezes aqueles em A.  Mas essa relação entre eles é assim unicamente porque essas foram as nossas suposições hipotéticas.  Apenas por isso.  Ninguém pode arquitetar uma maneira através da qual o sistema A possa ser transformado no sistema B.  Ademais, há o problema adicional de que não podemos trabalhar com um equilíbrio estático quando queremos abordar um problema dinâmico.

E deixando de lado todo o debate sobre o uso dos termos dinâmico e estático, gostaria apenas de dizer que a moeda é necessariamente um agente dinâmico e que é um grande erro lidar com questões monetárias em um cenário hipoteticamente estático.  A moeda, sendo um fator dinâmico, não pode ser discutida em termos de equilibro estático.

Outro aspecto que deve ser atacado é a futilidade de todas as tentativas de estabilização do poder de compra da moeda.  Está além do escopo deste artigo explicar as vantagens de uma sólida política monetária e as desvantagens tanto da inflação quanto da deflação monetárias.  Mas não podemos confundir o conceito político de se ter uma moeda forte com o conceito teórico de se ter uma moeda estável.  Não é minha intenção discutir aqui as contradições inerentes a esse conceito da estabilidade. Do ponto de vista do presente assunto, é mais importante enfatizar que todas as propostas de estabilização - além de todas as suas várias deficiências - baseiam-se na ideia da neutralidade da moeda.  Todas essas propostas sugerem métodos de se desfazer mudanças já ocorridas no poder de compra.  Assim, se já ocorreu a inflação, elas dizem que uma deflação de mesma magnitude pode corrigir o problema.  E vice versa.  O que os defensores dessa política não entendem é que, ao fazerem isso, eles não desfazem as consequências sociais da primeira mudança, mas simplesmente acrescentam a ela todas as alterações sociais que ocorrerão com essa segunda mudança.  Se um homem se feriu ao ser atropelado por um automóvel, dar marcha a ré no carro e passar por cima dele novamente não é exatamente a cura para o problema.

Gostaria, finalmente, de fazer uma última observação.  São erradas as crenças de que deve ser o objetivo da política monetária tornar a moeda neutra e que é função dos economistas determinar o melhor método para tal.  Gostaria de enfatizar que vivemos em um mundo de constantes mudanças, em um mundo onde há ação.  Em um mundo assim não há lugar para uma moeda neutra.  Ou a moeda é não-neutra ou ela não existe.

________________________________________________

[*] [David Hume, "On Money," in Writings on Economics, Eugene Rotwein, ed. (University of Wisconsin Press, Madison, 1970), pp. 33-46; John Stuart Mill, Principles of Political Economy, Sir William Ashley, ed. (1909), bk. 3, chap. 8; Hohn E. Cairnes, Essays in Political Economy (London: MacMillan, 1873), pp. 1-65.]



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SOBRE O AUTOR

Ludwig von Mises
foi o reconhecido líder da Escola Austríaca de pensamento econômico, um prodigioso originador na teoria econômica e um autor prolífico.  Os escritos e palestras de Mises abarcavam teoria econômica, história, epistemologia, governo e filosofia política.  Suas contribuições à teoria econômica incluem elucidações importantes sobre a teoria quantitativa de moeda, a teoria dos ciclos econômicos, a integração da teoria monetária à teoria econômica geral, e uma demonstração de que o socialismo necessariamente é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico.  Mises foi o primeiro estudioso a reconhecer que a economia faz parte de uma ciência maior dentro da ação humana, uma ciência que Mises chamou de "praxeologia".



Quem inventou essa tese de que não existe déficit foi uma pesquisadora chamada Denise Gentil. Segundo ela, o déficit da previdência é forjado.

www.adunicentro.org.br/noticias/ler/1676/em-tese-de-doutorado-pesquisadora-denuncia-a-farsa-da-crise-da-previdencia-social-no-brasil-forjada-pelo-governo-com-apoio-da-imprensa

Só que essa mulher nem sabe separar rubricas. Ela mistura a receita da Previdência com a receita da Seguridade Social (que abrange Saúde, Assistência Social e Previdência) e então conclui que está tudo certo.

Nesta outra entrevista dela, ela diz isso:

"O cálculo do resultado previdenciário leva em consideração apenas a receita de contribuição ao Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) que incide sobre a folha de pagamento, diminuindo dessa receita o valor dos benefícios pagos aos trabalhadores. O resultado dá em déficit."

Certo. Esse é o cálculo da previdência. Receitas da Previdência menos gastos com a Previdência dão déficit, como ela própria admite. Ponto final.

Mas aí ela complementa:

"Essa, no entanto, é uma equação simplificadora da questão. Há outras fontes de receita da Previdência que não são computadas nesse cálculo, como a Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social), a CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido), a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira) e a receita de concursos de prognósticos. Isso está expressamente garantido no artigo 195 da Constituição e acintosamente não é levado em consideração."

Ou seja, o argumento dela é o de que as receitas para saúde e assistência social devem ser destinadas para a Previdência, pois aí haverá superávit.

Ora, isso é um estratagema e tanto. Por esse recurso, absolutamente nenhuma rubrica do governo apresenta déficit, pois basta retirar o dinheiro de outras áreas para cobri-la. Sensacional.

A quantidade de gênios que o Brasil produz é assustadora.

Não deixa de ser curioso que nem o próprio governo petista -- em tese, o mais interessado no assunto -- encampou a tese dessa desmiolada.

De resto, o problema da previdência é totalmente demográfico. E contra a demografia e a matemática ninguém pode fazer nada.

Quando a Previdência foi criada, havia 15 trabalhadores trabalhando e pagando INSS para sustentar um aposentado. Daqui a duas décadas será 1,5 trabalhador trabalhando e pagando INSS para sustentar um aposentado.

Ou seja, a conta não fecha e não tem solução. O problema é demográfico e matemático. Não é econômico. E não há ideologia ou manobra econômica que corrija isso.
Não existe déficit da previdência! Para justificar uma reforma que visa somente a tungar e sugar o trabalhador, o governo usa o seguinte estratagema: De um lado, pega uma das receitas, que é a contribuição ao INSS; do outro, o total do gasto com benefícios (pensão, aposentadoria e auxílios). Aí dá déficit! Só que a Constituição Federal estabelece, no artigo 194, que, junto com a saúde e a assistência social, a previdência é parte de um sistema de seguridade social, que conta com um orçamento próprio. Na receita, devem ser incluídas não apenas as contribuições previdenciárias mas também os recursos provenientes da Contribuição Social Sobre Lucro Líquido (CSLL), da Contribuição sobre o Financiamento da Seguridade Social (CSLL) e do PIS-Pasep. Aí temos a real situação: Superávit! Talvez você esteja supondo que o dinheiro que sobrou no orçamento da seguridade social mas faltou no da previdência tenha sido usado nas outras duas áreas a que, constitucionalmente, ele se destina. Mas, mesmo com os gastos com saúde e assistência, ainda assim temos saldo positivo. E como esse saldo se transforma em déficit? É que antes de destinar o dinheiro para essas áreas, o governo desvia 20% do total arrecadado com as contribuições sociais, por meio da DRU, para pagar dívidas, segurar o câmbio etc. Fora as renúncias e sonegações fiscais. Portanto, essa conversa de déficit é uma falácia pra empurrar goela abaixo do trabalhador uma "reforma" que tire ainda mais o seu dinheiro e o force a trabalhar por mais tempo.
As causas da Grande Depressão? Intervencionismo na veia.

Herbert Hoover
aumentou os gastos do governo federal em 43% em um único ano: o orçamento do governo, que havia sido de US$ 3 bilhões em 1930, saltou para US$ 4,3 bilhões em 1931. Já em junho de 1932, Hoover aumentou todas as alíquotas do imposto de renda, com a maior alíquota saltando de 25% para 63% (e Roosevelt, posteriormente, a elevaria para 82%).

A Grande Depressão, na verdade, não precisaria durar mais de um ano caso o governo americano permitisse ampla liberdade de preços e salários (exatamente como havia feito na depressão de 1921, que foi ainda mais intensa, mas que durou menos de um ano justamente porque o governo permitiu que o mercado se ajustasse).

Porém, o governo fez exatamente o contrário: além de aumentar impostos e gastos, ele também implantou políticas de controle de preços, controle de salários, aumento de tarifas de importação (que chegou ao maior nível da história), aumento do déficit e estimulou uma arregimentação sindical de modo a impedir que as empresas baixassem seus preços.

Com todo esse cenário de incertezas criadas pelo governo, não havia nenhum clima para investimentos. E o fato é que um simples crash da bolsa de valores -- algo que chegou a ocorrer com uma intensidade ainda maior em 1987 -- foi amplificado pelas políticas intervencionistas e totalitárias do governo, gerando uma depressão que durou 15 anos e que só foi resolvida quando o governo encolheu, exatamente o contrário do que Keynes manda.

As políticas keynesianas simplesmente amplificaram a recessão, transformando uma queda de bolsa em uma prolongada Depressão.



Crise financeira de 2008? Keynesianismo na veia. Todos os detalhes neste artigo específico:

Como ocorreu a crise financeira de 2008


Seu amigo é apenas um típico keynesiano: repete os mesmos chavões que eu ouvia da minha professora da oitava série.


Sobre o governo estimular a economia, tenho apenas duas palavras: governo Dilma.

O legado humanitário de Dilma - seu governo foi um destruidor de mitos que atormentam a humanidade
Prezados,
Boa noite.
Por gentileza, ajudem-me a argumentar com um amigo estatista. Desejos novos pontos de vista, pois estou cansado de ser repetitivo com ele. Por favor, sejam educados para que eu possa enviar os comentários. Sem que às vezes é difícil. Desde já agradeço. Segue o comentário:
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" Quanto ao texto, o importante é perceber que sem as medidas formuladas por keynes a alternativa seria o mercado livre, o capitalismo sem a intervenção estatal. Nesse caso, o que os defensores desse modelo não mencionam é que o capitalismo dessa forma tende à concentração esmagadora de capital, o que se levado às ultimas consequências irá destruir a própria sociedade. "O capitalismo tem o germe da própria destruição ", já disse Marx. Os capitalistas do livre mercado focam no discurso que eles geram a riqueza, mas a riqueza é sempre gerada socialmente. Como ja falei uma vez, um grande empresário não coloca sozinho suas empresas para funcionar, precisa de outras pessoas, que também, portanto, geram riqueza. Para evitar que a concentração da riqueza gerada fique nas mãos apenas dos proprietários, o Estado deve existir assegurando direitos que tentem minimizar essa distorção e distribua as riquezas socialmente geradas para todos. Isso não é comunismo, apenas capitalismo regulado, que tenha vies social. Estado Social de Direito que surgiu na segunda metade do século passado como resultado do fracasso do Estado Liberal em gerar bem estar para todos. Para que o Estado consiga isso tem que tributar. O Estado não gera riqueza, concordo. Mas o capitalismo liberal, por outro lado, gera a distorção de concentrar a riqueza gerada socialmente nas mãos de poucos. Essa concentração do capitalismo liberal gera as crises (a recessão é uma delas). O capitalismo ao longo do século 20 produziu muitas crises, a grande depressão da decada de 30 foi a principal delas. A ultima grande foi a de 2007/2008. O Estado, portanto, intervém para corrigir a distorção, injetando dinheiro. Esse dinheiro, obviamente, ele nao produziu, retirou dos tributos e do seu endividamento sim. Quando a economia melhorar o Estado pode ser mais austero com suas contas para a divida nao decolar em excesso e poder se endividir novamente numa nova crise, injetando dinheiro na economia pra superar a recessao e assim o ciclo segue. A divida do estado é hoje um instrumento de gestão da macroeconomia. Um instrumento sem o qual nao se conseque corrigir as distorções geradas da economia liberal. Basta perceber que todos os países mais ricos hoje tem as maiores dividas. Respondendo a pergunta do texto: o dinheiro vem mesmo dos agentes econômicos que produzem a riqueza, da qual o Estado tira uma parcela pelos tributos, com toda a legitimidade. E utiliza tal riqueza para assegurar direitos sociais e reverter crises. E o faz tambem para salvar a propria economia, que entraria em colapso sem a injeção de dinheiro do Estado (que o Estado tributou). Veja o que os EUA fizeram na crise de 2008. Procure ler sobre o "relaxamento quantitativo", que foi a injeção de 80bilhoes de dolares mensalmente pelo governo americano para salvar a economia mundial do colapso, numa crise gerada pelo mercado sem regulação financeira.

Veja esse texto do FMI, onde o proprio FMI reconhece que medidas d austeridade nao geram desenvolvimento e, portanto, reconhece a necessidade do gasto publico. (
www.imf.org/external/pubs/ft/fandd/2016/06/ostry.htm )

Esse artigo do Paul krugman sobre a austeridade, defendendo também o gasto publico:
https://www.theguardian.com/business/ng-interactive/2015/apr/29/the-austerity-delusion .
"
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E aí pessoal, já viram isso? (off-topic, mas ainda assim interessante):


Ancine lança edital de R$ 10 milhões para games


Agora vai... por quê os "jênios" do Bananão não tiveram esta ideia antes? E o BNDES vai participar também! Era tudo o que faltava para o braziul se tornar uma "potênfia" mundial no desenvolvimento de games.

Em breve estaremos competindo par-a-par com os grandes players deste mercado. Aliás, seremos muito MAIORES do que eles próprios ousaram imaginar para si mesmos. Que "horgulio" enorme de ser brazilêro...

ARTIGOS - ÚLTIMOS 7 DIAS

  • Antonio Galdiano  06/09/2012 08:05
    Qual o ponto de vista da EA sobre o efeito da inflação(entendida do modo austríaco, não neoclássico. I.e. -> PM expansionista) no longo prazo na Economia? Eu já li sobre isso em algum lugar aqui mas não achei mais...
  • Leandro  06/09/2012 08:24
    Exatamente estas explicadas pelo artigo: redistribuição de renda dos pobres para os ricos e ciclos econômicos. Ambos estes fenômenos inevitáveis, variando apenas a intensidade de cada um.

    Embora aumentos na quantidade de dinheiro não façam a economia crescer, eles alteram a estrutura da mesma; embora variações na oferta monetária não produzam impacto no crescimento agregado da economia, elas certamente afetam a maneira como os recursos da economia são alocados e distribuídos. Ou seja, as variações da oferta monetária determinam como será a estrutura produtiva da economia, mas não o nível da produção. Variações na oferta monetária sempre serão benéficas apenas para o governo e para suas empresas favoritas -- como o setor bancário e os grandes industriais amigos do rei --, que são os primeiros a receber o novo dinheiro criado.
  • Samir Jorge  20/06/2013 20:37
    Muito interessante este artigo. Não sei o que escrever. No entanto minha curiosidade sobre esta linha de pensamento aumenta.

    Atenciosamente,


    (a) - Samir Jorge.
  • Eduardo  22/07/2013 19:43
    Eu sempre acreditei que fosse a inflação a grande culpada pela má distribuição de riqueza no mundo - especialmente em países subdesenvolvidos - mas por motivos ligeiramente diferentes, através de uma mecânica diferente.

    Ao ler esse artigo, as coisas se tornam mais claras. A percepção de Mises ao detectar que, mediante a injeção de dinheiro no mercado, somente o(s) primeiro(s) a recebê-lo é quem realmente se beneficia enquanto o(s) último(s) sairá(ão) prejudicado(s)/empobrecido(s) é de uma lucidez ímpar.

    Impressionante a clareza na análise feita por Mises. Genial.

    Vamos ao próximo artigo =]
    Obrigado.
  • Emerson Luis, um Psicologo  20/02/2014 19:29

    Além dos preços serem subjetivos, cada indivíduo atribui um conjunto diferente de significados e simbolismos (positivos e/ou negativos) ao dinheiro.

    O irônico é que os governos intervencionistas praticam a expansão monetária para financiar programas assistencialistas, mas a inflação e outras consequências nefastas causadas por essa expansão atingem primariamente os mais pobres que eles dizem querer ajudar.

    A realidade é mais complexa e funciona de forma diferente do que certas pessoas acreditam.

    * * *


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